segunda-feira, 24 de março de 2014

menor que um rolezinho

faz assim. você desce no metrô da praça da república e pega a saída caetano de campos. aí é só virar à esquerda, escada rolante, o edifício itália e o céu do centro de são paulo sobre sua cabeça e... tá lá um busão preto, meio velho, meio bye bye brasil, estacionado no calçadão da praça. o relógio marca 14h20 e alguns dos organizadores da marcha da família com blábláblá e contra blábláblá 2 já estão soltando algumas palavras de ordem pedindo intervenção militar já em pleno ano da graça de 2014.

não fui com nenhuma pauta específica e muito menos em nome de algum veículo de imprensa – coincidência ou não, meu último texto para o yahoo foi justamente sobre o espírito dos organizadores dessa marcha comemorativa dos 50 anos da primeira marcha etc. então, o que me levou a essa festa estranha com gente esquisita foi uma mistura de curiosidade e masoquismo, o mesmo combustível que me faz ler comentários de grandes portais.

cheguei decidido a não falar com ninguém, afinal, após três anos escrevendo regularmente para o yahoo, conheço de cor e salteado todo o mimimi reacionário. não queria ficar irritado com o papo furado, não queria ter que confrontar pessoas que não sabem dialogar e que pensam em um sentido apenas, em bloco e aos gritos de capslock. mas queria vê-los, saber quem são e quantos conseguiriam reunir.


ali no início eram pouco mais de 100 pessoas entre as barraquinhas da feira hippie que acontece na praça sempre aos sábados. muito mais imprensa e policiais militares que manifestantes. no alto do busão-micareta-caveirão [tinha outro caminhão de som em outro lado da praça que mais tarde se juntaria à marcha] os discursantes esperneavam genericamente coisas como “quero meu brasil de volta”, “pago meus imposto pra vagabundo”, “nenhum partido representa o povo brasileiro”, “porque vocês não vão para cuba ou coreia do norte?!” e “todos aqui somos pessoas direitas”.

e quem seriam essas pessoas direitas nessa altura do campeonato? uns cinco maçons, dois seminaristas, uma camiseta do olavo de carvalho, outra do slayer, uma do ac/dc, umas dez testemunhas oculares da primeira marcha, uma camiseta ‘aborto não’, uma nossa senhora aparecida, uns militares da reserva & famílias, um anão, umas três bandeiras de são paulo, uma nossa senhora de fátima, uma atriz do ‘terça insana’ interpretando uma senadora biônica e um grupo de talvez vinte integralistas, neonazis, carecas, sei lá que porra que eles se denominavam, mas que certamente eram os seguranças de uma marcha que teve a liberdade democrática de, contrassenso dos contrassensos, pedir o fim da liberdade democrática [mas só por um tempinho, seis meses no máximo, de boa].


sob o comando silencioso de um senhor de bengala, broche do exército, cabelo com gel e bigodinho à la brad pitt em ‘bastardos inglórios’, esses raivosos jovens linha de frente recebiam fitas no braço esquerdo de um rapaz de terno verde oliva e óculos ray ban. um deles afirmou que a fita era um sinal combinado de reconhecimento com os parceiros da polícia militar. e eram eles os primeiros a avançar caso houvesse alguma voz contrária. aconteceu uma vez em frente à saída do metrô quando uma mulher gritou “vergonha, vergonha” e n’outra quando um aposentado que comungava de toda patacoada foi confundido com um comunista por trajar bermuda vermelha. um fotógrafo freelancer do diário de são paulo acabou sendo agredido nessa segunda confusão.

então, do alto do busão-hospício-caveirão, saíam pensamentos aleatórios dessa gente nada bronzeada. “se for necessário eu solto uma bomba no palácio do planalto. terrorista não pode representar uma nação de bem, assaltante de banco não pode representar a família brasileira. o lula é um dos caras mais ricos do mundo, tá mais rico que o eike batista. nós estamos muito chateados com o que está acontecendo no país.o que eu defendo é uma intervenção, formação de um governo provisório... com certeza tem que dar um jeito, uma arrumada na nossa casa. justiça não há e a mídia está amordaçada”. e é estranho isso, o mundo bizarro onde vivem essas pessoas, porque os “mensaleiros”, os grandes vilões dessa nova idade média, foram condenados recentemente e vários jornais e tvs estavam cobrindo a marcha.

acima, o silencioso e sinistro comandante dos integralistas neonazi 
e abaixo uma parte da tropa de choque da marcha

os discursos seguiam tão desconexos da realidade que nenhum curioso se aventurava em parar por ali. era um tal de passa-microfone para qualquer maluco que subisse no busão-palco-caveirão e cada um tinha sua própria agenda, seus próprios minutos para aparecer em fotos e vídeo. todos falavam [gritavam, na verdade] sozinhos. por isso pautas tão genéricas. bastava arranhar um pouco a superfície para ver que aqueles grupos podiam muito bem se odiar em outra circunstância.

só que naquele momento todos estavam carne & unha mostrando o quanto amavam o brasil, o da cabeça deles, porque o brasil real dos sem teto, pedintes e bêbados espalhados a poucos metros era solenemente ignorado. era uma questão de escolha, como bem dizia um dos mais reveladores cartazes de toda a marcha, “sou reaça contra o que não presta”.

maçonaria online, pois não?

de repente se ouve um “grupo 1! agrupar!”. são os neonazis carecas de integralismo preparando a saída. enquanto batem coturnos, a gritaria freestyle come solta. “eu acho que tortura está havendo hoje em dia, dos militantes de esquerda. polícia militar não é para fazer carinho. agora tem apologia ao gayzismo. não sei se o governo militar foi bom ou ruim, foi necessário. marco civil é sinal de comunismo. eu vivi no governo militar que todo mundo fala mal, eu tive educação, tive saúde. isso que está aí eu não quero. ninguém mais tem moral, todo mundo faz o que bem entende, isso não é democracia, isso não liberdade, é libertinagem”. e tome hino nacional com mão no peito. uma, duas, três, o hino deve ter sido tocado algumas dezenas de vezes durante todo o evento. parecia proposital essa encheção de linguiça. era um jeito de juntar mais gente porque a essa altura, 16h15, estavam reunidas cerca de 500 pessoas.


mas não tinha mais como esperar e marcha saiu pouco depois pela avenida são luís, sempre muito bem acompanhada [em termos afetivos e numéricos] pela polícia militar. só que uma coisa se esfacelou logo no começo: a força simbólica de um grito coeso. separados entre si, uns diziam “fora pt! fora dilma!”, outros “ deus, pátria e família” e outros ainda surrupiaram um dos bordões das manifestações de junho de 2013, o “vem pra rua, vem”. para piorar, quando a marcha chegou na praça dom josé gaspar, o som do pagodão-feijoada de todo santo sábado abafou qualquer tentativa de golpismo. o jeito foi apertar o passo e virar, à esquerda, na rua coronel xavier de toledo.

foi então, pouco depois da biblioteca mário de andrade, que aconteceu o primeiro momento de microtensão da marchadireita. alguns jovens punks abriram uma faixa com o seguinte escrito: “esta imagem está invertida”. escrita em branco num pano preto, a frase estava também [e genialmente] invertida, o que deu um nó na cabeça da família e gerou gritos, empurra-empurra e  a consequente expulsão dos punks. em frente ao metrô anhangabaú, a burrice sólida dos marcheiros se fez mais uma vez presente ao chamarem de “lixo! lixo!” um grupo de dez garotos e garotas que estavam indo para o show do metallica. estavam de preto, né, só podiam ser black blocs.

praça ramos e teatro municipal logo à frente e voltam a gritar “vem pra rua, vem”. todos os prédios comerciais da região, vazios naquela hora vespertina de sábado, olharam incrédulos para o chamado e, obviamente, ninguém atendeu. mas claro que essa coisa de baixa adesão não preocupou a família-marcha, afinal o que importava mesmo era tirar fotos com a bandeira nacional para postar no facebook acompanhado de alguma legenda como “fiz minha parte, acorda brasil”.

quando a marcha virou a direita e entrou no viaduto do chá seu tamanho ficou evidente. máximo de 600 pessoas, nem 1/3 do viaduto ocupado, e uma faixa etária elevada. fora o anacronismo e o espírito delirante da coisa toda, o que realmente me confortou é que daqui há dez anos boa parte desses marcheiros estarão com o deus deles. o autoritarismo que eles – e os 20 anos de ditadura militar – geraram ainda durará algumas gerações, mas certamente com uma adesão cada vez mais baixa. “aposto que não tem nenhum trabalhador aí”, disse um senhor meio irritado com a manifestação.

relógio marcando 17h20, barriga vazia, bateria do celular [tuitei toda a marcha no @dafnesampaio] e paciência acabando. estava pronto para sair de banda quando encontro, em frente à prefeitura, @pedromoraes e @joaoninguem que, a partir de ideia de @tiagomarconi, apareceram vestidos de empregada com cartazes de uma “marcha praticamente da família”. a crítica irreverente e corajosa deles não durou muito, pois foram vítimas de chutes e tiveram seus cartazes rasgados um pouco mais à frente, no largo de são francisco. mas rolaram muitas fotos e guerra memética é isso aí.


em meu último impulso para acompanhar a marcha decidi cortar caminho pelo calçadão da, ó ironia, rua direita. comércio e pessoas seguiam suas vidas alheias aos delírios de alguns quarteirões acima. então, quando cheguei na parte de baixo da praça da sé, tudo estava absolutamente normal:  forró ao vivo com bêbados e sóbrios xaxando muito, um pastor evangélico batendo na bíblia e decretando o apocalipse, craqueiros derrubados, bolivianos tirando fotos da catedral, nigerianos conversando animadamente, etc.

nos últimos suspiros do celular consegui ver que outras marchas brasil afora tinham sido realmente pífias. pelas minhas contas, em dez das maiores cidades do país – são paulo, rio de janeiro, belo horizonte, porto alegre, belém, recife, fortaleza, curitiba, natal e florianópolis – os extremistas conseguiram reunir algo em torno de 1200 pessoas. para se ter uma ideia, o  primeiro rolezinho, em dezembro do ano passado no shopping tatuapé, reuniu 6000, e a marcha da maconha de 2013 juntou 3000 somente em são paulo. soube também que a marcha antifascista que estava na sé algumas horas antes teve mais gente que a da família-marchista [cerca de 1000].

aliviado, parei no centro da praça e fiquei esperando a marchadireita vir pela rua benjamin constant. daí que o hino nacional parecia cansado de ser repetido no busão-túmulo-caveirão e o som começou a falhar comicamente. era minha deixa para ir embora.

no caminho para o metrô sé fiquei pensando como finalizaria esse texto já que não fiquei efetivamente até o final. mas então, logo após passar a catraca, vejo duas amigas de idade conversando, ambas negras. a mais velha pergunta “que protesto é esse que tá na praça?” e a mais nova, só um pouco mais nova, responde que “parece que é um pessoal querendo a volta da ditadura”. sem combinar, e como num jogral, ambas fazem o sinal da cruz e dizem “credo”. relógio marca 17h49. metrô chegou.

p.s. 1: vale ler ainda o texto da laura capriglione pra carta capital, a reportagem fartamente ilustrada da vice (“eles não são brasileiros”), o relato de mauro donato para o diário do centro do mundo, uma conversa no cabeleireiro da kátia abreu e até o texto meio egotrip quase mártir do leonardo sakamoto.

p.s. 2: texto feito com trilha de m. takara (“mundo tigre”), roy porter sound machine '94 (“generation”), stan hunter & sonny fortune (“ trip on the strip”), freddie gibbs & madlib (“piñata”), projetonave & cesrv (“mixtape”) e zulumbi (“zulumbi”).

2 comentários:

Juliana Dias disse...

Adorei! Ri muito. Parabéns pelo estilo e por tudo mais.

Anônimo disse...

Sensacional