segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

50 discos gringos de 2016 + 70

Lemonade é o disco do ano, claro. o trabalho mais recente de Beyoncé é uma combinação matadora de raiva, afetos e redenção, tudo amarrado por um pop poderoso, negro e extremamente bem produzido. Beyoncé não é só diva ou rainha, como gritam os(as) fãs mais ardorosos(as); Beyoncé provou definitivamente em Lemonade que é uma artista maior e com total controle de seu discurso e do seu espetáculo.


daí que essa fantástica combinação de assombro feminino diante do mundo e pegada pop também  é encontrada nos novos trabalhos de Rihanna [Anti], M.I.A. [AIM], La Yegros [Magnetismo], Santigold [99 Cents], Alicia Keys [Here], Xenia Rubinos [Black Terry Cat], Norah Jones [Day Breaks], Warpaint [Heads Up], Kate Tempest [Let Them Eat Chaos] e da irmã de Beyonce, Solange [A Seat at the Table].

tem rap, o mais foda de todos os gêneros deste século 21, no trampo de algumas dessas minas, mas saíram alguns outros trabalhos impressionantes [nada próximo da grandeza de Kendrick Lamar e seu To Pimp a Butterfly do ano passado]. teve o emocionante retorno & fim do A Tribe Called Quest [We Got It From Here Thank You 4 Your Service] e novos trabalhos relevantes de veteranos como o De La Soul [And The Anonymous Nobody], o Atmosphere [Fishing Blues] e o Aesop Rock [The Impossible Kid]. já os novos de Drake [Views] e Kanye West [The Life of Pablo] são menos interessantes que seus trabalhos anteriores, mas mesmo assim muito acima da média geral. por fim, tem artistas mais jovens com sangue nozóio e novas referências, com destaque pra Anderson .Paak [Malibu], Frank Ocean [Blonde], Vince Staples [Prima Donna], Chance The Rapper [Coloring Book], ScHoolboy Q [Blank Face LP], Danny Brown [Atrocity Exhibition], J. Cole [4 Your Eyez Only] e volta de Aloe Blacc ao mundo do rap [Dystopia].

A Tribe Called Quest

então chegamos à cota de brancos da lista rsrsrs. David Bowie [Blackstar] e Leonard Cohen [You Want It Darker] nos deixaram este ano logo após lançarem belos e melancólicos discos de despedida, mas outros veteranos continuam trabalhando duro e em alto nível, com destaque pro lindos Radiohead [A Moon Shaped Pool] e Andrew Bird [Are You Serious?], e os afiados Iggy Pop [Post Pop Depression] e Nick Cave & The Bad Seeds [Skeleton Tree].


claro que ‘a gringa’ é muito maior que Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, e nessa lista de 50 discos entraram o blues rock tuareg do Bombino [Azel], o pan-africanismo eletrônico do Batuk [Música da Terra é um projeto dos sul-africanos Spoek Mathambo e Aero Manyelo com a moçambicana Manteiga], os dubs afro-latinos do Quantic's Flowering Inferno [1000 Watts], o afrobeat do Vaudou Game [Kidayu] e do Idris Ackamoor & The Pyramids [We Be All Africans], e o pop guettotech do congolês radicado nos Estados Unidos, Young Paris [African Vogue].

e pra encerrar, os discos instrumentais. dois tem o selo de qualidade Shabaka Hutchings, saxofonista inglês já conhecido da casa do espetacular Sons of Kemet:  Wisdom of Elders [Shabaka & The Ancestors] é um projeto dele com músicos sul-africanos e Channel The Spirits é do The Comet Is Coming, outra de suas muitas bandas. também ingleses são o Neil Cowley Trio com o excelente Spacebound Apes. tudo jazz da pesada.  outros discos europeus misturam jazz com sons africanos ou caribenhos, desde os holandeses do Jungle By Night [The Traveller] até os misteriosos suecos do Goat [Requiem], passando pelo finlandês Jimi Tenor [Saxentric] e os alemães do Bacao Rhythm & Steel Band [55]. por fim, os moleques americanos do BadBadNotGood [IV] e sua intensa mistura de jazz, rock, rap e outras bossas.

segue a lista completa:

A Tribe Called Quest - We Got It From Here Thank You 4 Your Service
A Tribe Called Red - We Are The Halluci Nation
Aesop Rock - The Impossible Kid
Alicia Keys - Here
Anderson .Paak - Malibu
Andrew Bird - Are You Serious?
Atmosphere - Fishing Blues
Beyoncé - Lemonade
Bombino - Azel
Chance The Rapper - Coloring Book
Charles Bradley - Changes
Danny Brown - Atrocity Exhibition
David Bowie - Blackstar
Drake - Views
Emanon [Aloe Blacc + Exile] - Dystopia
Frank Ocean - Blonde
Goat - Requiem
Idris Ackamoor & The Pyramids - We Be All Africans
J. Cole - 4 Your Eyez Only
Jimi Tenor - Saxentric
Jungle By Night - The Traveller
Kanye West - The Life of Pablo
Kate Tempest - Let Them Eat Chaos
Kaytranada - 99,9%
La Yegros - Magnetismo
Leonard Cohen - You Want It Darker
M.I.A. - AIM
Massive Attack - Ritual Spirit EP
Michael Kiwanuka - Love & Hate
Neil Cowley Trio - Spacebound Apes
Nick Cave & The Bad Seeds - Skeleton Tree
Norah Jones - Day Breaks
Quantic's Flowering Inferno - 1000 Watts
Radiohead - A Moon Shaped Pool
Rihanna - Anti
Santigold - 99 Cents
ScHoolboy Q - Blank Face LP
Shabaka & The Ancestors - Wisdom of Elders
Solange - A Seat at the Table
The Comet Is Coming - Channel The Spirits
Vaudou Game - Kidayu
Vince Staples - Prima Donna EP
Warpaint - Heads Up
Xenia Rubinos - Black Terry Cat
Young Paris - African Vogue

e como o serviço aqui no Esforçado é abrangente e inclusivo, seguem mais 70 discos bem bons mesmo [alguns destes chegaram a emplacar ‘músicas do ano’ na primeira lista da retrospectiva].

2 Chainz - Hibachi For Lunch
9th Wonder - Zion
Adrian Younge - Something About April 2
Adrienne Fenemor - Mo' Puddin'
Animal Collective - Painting With
Anthony Joseph - Caribbean Roots
Azealia Banks - Slay-Z
Balkan Beat Box - Shout It Out
Banks & Steelz - Anything But Words
Bishop Nehru - Magic:19
BJ The Chicaco Kid - In My Mind
Debo Band - Ere Gobez
Desiigner - New English
Devendra Banhart - Ape in Pink Marble
DJ Khaled - Major Key
El Guincho - Hiperasia
Fanfare Ciocarlia - Onwards to Mars!
Flume - Skin
Fritzwa - Avenue A
Fumaça Preta - Impuros Fanáticos
Gonjasufi - Callus
Guts - Eternal
Helado Negro - Private Energy
Homeboy Sandman - Kindness for Weakness
Hope Sandoval & The Warm Inventions - Until The Hunter
Isaiah Rashad - The Sun's Tirade
Izzy Bizu - A Moment of Madness
James Blake - The Colour in Anything
Jamila Woods - Heavn
Josef Leimberg - Astral Progressions
Kings of Leon - Walls
Kool Keith - Feature Magnetic
La Femme - Mystère
Laura Mvula - The Dreaming Room
Lee 'Scratch' Perry - Must Be Free
Lido Pimienta - La Papessa
Lizzo - Coconut Oil EP
L'Orange & Mr. Lif - The Life and Death of Scenery
Mexrrissey - No Manchester
Mick Jenkins - The Healing Component
Mykki Blanco - Mykki
Noname - Telefone
Onda Vaga - OV IV
Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou - Madjafalao
Pigeon John - Good Sinner
PJ Harvey - The Hope Six Demolition Project
Rae Sremmurd - SremmLife 2
Rapsody - Crown EP
RJD2 - Dame Fortune
Rolando Bruno - Bailazo
Sadat X - Agua
Snoop Dogg - Coolaid
Strokes - Future Present Past EP
The Bad Plus - It's Hard
The Bongolian - Moog Maximus
The Claypool Lennon Delirium - Monolith of Phobos
The Heliocentrics - From the Deep
The Olympians - The Olympians
The Underachievers - It Happened In Flatbush
Young Thug - Jeffery

sábado, 3 de dezembro de 2016

100 músicas gringas de 2016

mais um ano de rap dominando a lista de melhores músicas do ano, tanto no brasil [post futuro] quanto na gringolândia. acho que um terço desta lista aqui, a primeira da retrospectiva musical deste ano, é de raps. já falei aqui e em outros lugares que já faz uns bons par de anos que o rap é o mais diverso, atual e contestador gênero musical desta década [o que já se desenhava nos anos 1980 e, principalmente, nos anos 1990].

mas antes do rap, é bom destacar uma outra galera. David Bowie e Leonard Cohen, por exemplo, nos deixaram este ano logo após lançarem belas e tristes músicas. também foi um ano no qual outros preferidos [de longa data] da casa mantiveram o alto nível de suas carreiras e ainda subiram novos degraus: Beck, Radiohead, Andrew Bird, Massive Attack, M.I.A., Quantic [e este ano foi a vez do seu projeto Flowering Inferno], The Strokes, Rihanna, Iggy Pop, Devendra Banhart e Zack de la Rocha. 

2016 também foi o ano de minas foda com a faca no dentes e em vários gêneros, desde o pop poderoso e político de Beyoncé ["Sorry", a faixa de Lemonade que escolhi pra lista, poderia ser facilmente substituída por pelo menos outras 4 pedradas do disco] e Alicia Keys até a cumbia digital de La Yegros, passando pelos raps de Sa-Roc, Rapsody e Princess Nokia, o soul confessional de Solange [irmã de Beyoncé], o rock dançante das Warpaint, a divertida pegada de Santigold, a novidade em Xenia Rubinos, Fritzwa, Lizzo, A-Wa, Chloe & Halle e as já citadas M.I.A. e Rihanna.

mas o rap é o rap e este ano teve a volta/despedida emocionante de A Tribe Called Quest e novos sons bacanas de veteranos como o De La Soul, Drake ["One Dance" é certamente um dos hits do ano], Atmosphere, Aesop Rock, Common, Kool Keith e Kanye West; e moleques como Frank Ocean, Chance The Rapper, deM atlaS, Bishop Nehru, Vic Mensa, Jerreau, Vince Staples e Young Thug, botando pra quebrar; no rap vale ainda destacar ScHoolboy Q, Danny Brown, Mick Jenkins, Kid Cudi, Desiigner ["Panda", outro hit do ano], Mykki Blanco, J. Cole [o último a entrar na lista] e a chegada definitiva do nigeriano Jidenna. sem falar na presença discreta, em participações, do maior nome do rap atual, Kendrick Lamar.

agora, pra encerrar o blábláblá e partir logo pra música, tem uns sujeitos que definitivamente vieram pra ficar [talvez porque além do talento não são facilmente rotuláveis]: Anderson Paak, Sampha e Kaytranada.

então, som na caixa [ah, e como sempre, a lista está em ordem alfabética].




2 Chainz - "Here We Go Again"
A Tribe Called Quest - "We The People... "
A Tribe Called Red - "R.E.D." [Ft. Yasiin Bey, Narcy & Black Bear]
Adrian Younge & Ali Shaheed Muhammad – "Bulletproof Love" [feat. Method Man] 
Aesop Rock - "Kirby"
Alicia Keys - "Pawn It All"
Anderson .Paak - "Come Down"
Andrew Bird - "Are You Serious"
Animal Collective - "FloriDada"
Atmosphere - "Pure Evil" [feat. I.B.E.]
Balkan Beat Box - "Chin Chin"
Baloji - "Spoiler"
Banks & Steelz - "Conceal"
Batuk - "Puta"
Beck - "Wow"
Beyoncé - "Sorry"
Bishop Nehru - "He The Man"
Bombino - "Akhar Zaman"
Chance The Rapper - "No Problem" [feat. 2 Chainz & Lil Wayne]
Chemical Brothers - "Wide Open" [feat. Beck]
Chloe x Halle - "Drop"
Common - "Black America Again" [feat. Stevie Wonder]
Danny Brown - "Really Doe" [feat. Kendrick Lamar, Ab-Soul & Earl Sweatshirt]
David Bowie – "Lazarus"
De La Soul - "Snoopies" [feat. David Byrne]
deM atlaS - "Sum-Mo"
Desiigner - "Panda"
Devendra Banhart - "Fancy Man"           
DJ Khaled - "Nas Album Done" [feat. Nas]
DJ Shadow - "Nobody Speak" [feat. Run The Jewels]
DJ Vadim - "Inner Lite" [feat. Big Red & Pupa Jim]
El Guincho - "Comix" [feat. Mala Rodriguez]
Fanfare Ciorcarlia - "I Put a Spell On You"
Flume - "Smoke & Retribution" [feat. Vince Staples & Kučka]
Iggy Pop - "Break Into Your Heart"
Isaiah Rashad - "4r da Squaw"
Jamila Woods- "VRY BLK" [feat. Noname]
Jerreau - "Hunt & Trap"
Jidenna - "Chief Don't Run"
Jimi Tenor - "Full House" [feat. Tony Allen]
Joey Purp - "Girls" [feat. Chance the Rapper]
Jungle By Night - "Kingfisher"
Kaytranada - "Glowed Up" [feat. Anderson .Paak]
Kid Cudi - "Surfin" [feat. Pharrell Williams]
Kings of Leon - "Muchacho"
Kool Keith - "World Wide Lamper" [feat. B.a.R.S. Murre & Dirt Nasty]
La Yegros - "Atormentada"
Laura Mvula - "Phenomenal Woman"
Leonard Cohen - "Traveling Light"
Lizzo - "Phone"
M.anifest - "Cupid's Crooked Bow" [feat. Nomisupasta]
M.I.A. - "Borders"
Massive Attack - "Come Near Me" [feat. Ghostpoet]
Me And My Friends - "All That Is You"
Michael Kiwanuka - "Love & Hate"
Mick Jenkins - "Drowning" [feat. BadBadNotGood]
Miike Snow - "Genghis Khan"
Mr. Lif - "Let Go" [feat. Selina Carrera]
Mykki Blanco - "High School Never Ends" [feat. Woodkid]
Onda Vaga - "La Maga"
Pigeon John - "Rebel Rebel"
Princess Nokia - "Brujas"  
Quantic Presenta Flowering Inferno - "Chambacu" [feat. Nidia Gongora]
Radiohead - "Present Tense"
Rae Sremmurd - "Start a Party"
Rapsody - "OooWee" [feat. Anderson .Paak]
Rihanna - "Pose"
Run The Jewels - "Legend Has It"
Sampha - "Blood On Me"
Sa-Roc - "Lord of the Forest"
ScHoolboy Q - "THat Part" [feat. Kanye West]
Sinkane - "U'Huh"
Solange - "Weary"
Teachers - "Ocean"
Temi DollFace - "Beep Beep"
The Avalanches - "Frankie Sinatra"
The Bacao Rhythm & Steel Band - "Police in Helicopter"
The Bongolian - "Moog Maximus"
The Comet Is Coming - "Final Eclipse"
The Frightnrs - "Dispute" [dub version]
The Strokes - "Oblivius"
The Underachievers - "Really Got It"
The Weeknd - "Starboy" [feat. Daft Punk]
Vaudou Game - "La Vie C'est Bon"
Vex Ruffin & Fab 5 Freddy - "The Balance"
Vic Mensa - "New Bae"
Vince Staples - "Prima Donna"
Warpaint - "Whiteout"
Xenia Rubinos - "Mexican Chef"
Xiomara - "You Don’t Know Jack
Young Paris - "Best of Me" [feat. Ben Bronfman]
Young Thug & Travis Scott - "Pick Up the Phone" [feat. Quavo]
Zack de la Rocha - "Digging For Windows"

pra encerrar a lista, cinco músicas que, por algum mistério do mundo do business, não estão no youtube. sendo que duas delas, "One Dance" e "Nikes", grandes hits do ano.

Drake - "One Dance" [feat. Wizkid & Kyla]
Frank Ocean - "Nikes"
Fritzwa - "Lies and Ego"
J. Cole - "False Prophets (Be Like This)"
Kanye West - "No More Parties in LA" [feat. Kendrick Lamar]


daí que este ano também coloquei a lista no Spotify e, pra minha surpresa, achei 93 das 100 músicas. ficaram de fora Beyonce (?!), deM atlaS, DJ Vadim, Jamila Woods, Princess Nokia, Quantic's Flowering Inferno e Temi DollFace. e acabei, por um motivo ou outro, escolhendo outras músicas das A-Wa, Fanfare Ciocarlia, Mr. Lif, Pigeon John, Sa-Roc, The Comet Is Coming, The Frightnrs e Vince Staples. 



e também tem playlist no Deezer que acabou tendo menos artistas [87 de 100] que a do Spotify [93 de 100]. faltaram Beyonce [exclusiva Tidal], deM atlaS, Frank Ocean, Isaiah Rashad, Jamila Woods, Sampha, Temi DollFace, Joey Purp, Kaytranada, M.anifest, Radiohead, Warpaint e Xiomara. e coloquei outras músicas de A-Wa, Fanfare Ciocarlia, J. Cole, Mr. Lif, Mykki Blanco, Princess Nokia e Sa-Roc.




sexta-feira, 11 de novembro de 2016

i'm not alone, i've met a few

o grande grande grande leonard cohen nos deixou, mas também deixou muita coisa em seus 82 anos de vida: 14 discos, 13 livros de poesia, 2 romances, uma porrada de shows, uma infinidade de coisas bonitas. lembro até hoje que o ouvi o canadense pela primeira vez em algum momento do final dos anos 1980. meu pai comprou o LP poets in new york [1986], um tributo em memória aos então 50 anos da morte de federico garcia lorca, e lá estava leonard e sua voz rouca cantando "take this waltz" [versão que fez para a "pequena valsa vienense" do poeta espanhol]. lorca era um de seus poetas preferidos.



o tempo passou, minha adolescência foi indo embora e reencontrei leonard nas trilhas de assassinos por natureza de oliver stone e exotica de atom egoyam, ambos de 1994. do primeiro vieram "the future", "waiting for the miracle" e "anthem"; do segundo, "everybody knows". aí fiquei sabendo que ele era o autor de "hallelujah", "so long marianne", "first we take manhattan", "the partisan" e "suzanne", entre tantas outras de seus primeiros anos [seu disco de estreia é de 1967, quando já tinha pouco mais de 30 anos]. foi também nessa época, meados da década de 1990, que ele se converteu ao budismo e largou mão dessas coisas ocidentais. pausa para um flashback rápido com "suzanne" ao vivo em seu lendário show na ilha de wight em 1970.



daí que durante seu retiro budista, leonard foi passado pra trás por uma ex-empresária e precisou voltar aos palcos por motivos financeiros. e ele voltou com tudo em shows de 3, 4 horas, além de discos novos e novos clássicos sobre os temas que sempre o rodearam: amor, espiritualidade, sexo e, eventualmente, política. seus três últimos discos de estúdio são umas lindezas e separei aqui as minhas preferidas: "different sides" [old ideas, 2012], "almost like blues" [popular problems, 2014] e "traveling light" [you want it darker, 2016]. o título desta postagem é um verso desta última, uma linda e leve canção de despedida.








i'm traveling light. it's au revoir.



p.s. 1: um finlandês obcecado pelo artista mantém desde 1995 um grande arquivo online com tudo o que você possa imaginar que exista sobre leonard e também as muitas regravações de seus trabalhos. é o leonard cohen files.

p.s. 2: segue abaixo, como faixa bônus, ladies and gentlemen... mr. leonard cohen, um interessante documentário feito em 1965, quando leonard ainda era exclusivamente escritor.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

horace & pete, louis & donald

meu interesse por louis ck me levou a horace and pete, série em dez episódios que ele escreveu, dirigiu, atuou e lançou de surpresa no início do ano e exclusivamente em seu site [dá pra comprar tudo pela bagatela de 31 dólares].

a sinopse é simples: os irmãos horace [louis ck] e pete [steve buscemi] cuidam de um boteco mantido pela família a cem anos no brooklyn. o estabelecimento é frequentado por pessoas geralmente solitárias, gente que bebe durante o dia, e os episódios giram em torno de conversas aleatórias destes clientes e os dramas familiares de horace e pete [mortes, perdas, ressentimentos, um câncer, culpas, segredos, sexo, traições, etc]. 



horace and pete parece, visualmente, com uma sitcom, mas não tem aquela claque de risadas e nem plateia. também é bastante teatral e essencialmente dramática [com algumas piadas surgindo aqui e ali, geralmente pelos clientes]. e é, acima de tudo, muito muito triste, o que é ao mesmo tempo um gesto ousado e belo de louis ck em tempos de 'curtidas'. o texto é lindo, os personagens tem histórias e dramas profundos e muito bem construídos, e o espectador - eu, pelo menos - vai roendo as unhas e torcendo pra que essas pessoas não se machuquem ou machuquem tanto. vã esperança.

a série tem muitos grandes momentos e o longo monólogo do terceiro episódio com sarah [laurie metcalf], ex-mulher de horace, contando um segredo de seu atual casamento é assombroso de sensacional. mas tem ainda, por exemplo, um diálogo absolutamente atual sobre sexo com pessoas trans no sétimo episódio, entre muitas outras coisas [aliás, esses dois links que coloquei são de uma usuária que subiu todos os episódios no youtube, mas não sei se vão durar muito]. outro destaque é o elenco que, além de louis ck e steve buscemi, tem os monstros edie falco, alan alda e jessica lange, e coadjuvantes como aidy bryant, tom noonan, rebecca hall, karen pittman, steven wright, george wallace, david blaine e até paul simon [autor da música-tema da série] em participação especial.  



na madrugada deste 9 de novembro, enquanto a contagem dos votos da eleição americana mostrava uma inescapável e assustadora vitória de donald trump, vi o último e devastador episódio da série. lá pelas tantas, um dos clientes do bar, interpretado por kurt metzger, lança uma teoria bastante sarcástica sobre trump. segue abaixo uma transcrição levemente editada do diálogo.

- Ei, sabe de uma coisa? Desmascarei o Trump. 
- Mesmo?
- Sim, ele é o cara mais necessitado do planeta. Tipo, ele é muito carente e realmente precisa ser presidente mais do que qualquer coisa, e todos vamos votar por ele, porque somos um país generoso e ajudamos as pessoas necessitadas. (...) Mas Trump tem um vazio presidencial, sacou? Nada além da presidência vai preencher este vazio, e ele vai agarrar como agarrou aqueles dez bilhões, por que quando ele conseguiu os dez bilhões, isso não preencheu seu vazio. Ele percebeu, oh meu Deus ainda tem mais espaço... e minha muitas esposas não o preenchem (...). Eu preciso ser o líder do Mundo Livre e todo mundo tem que me amar, como se ele soubesse do vazio dentro dele e tentasse preenchê-lo, entende? E a América, porque somos bons, vamos ajudá-lo!
- Ok, então todos vamos votar no Trump porque ele está triste e sofrendo? Então na verdade nós vamos deixar ele ser nosso presidente só para ser legais, gentis ou algo do tipo?
- Sim, sim, como o Batboy. Lembram do Batboy? Todos participamos disso.
- O que foi o Batboy?
- Um garoto com câncer que queria ser o Batman, então a cidade inteira dizia: “você é o Batman!”
- Eu tenho essa amiga, e ela tem dez anos de idade.  Enfim, conversei com ela noutro dia e ela disse que estava com dor no estômago, então ela disse pra mim, Big Boy... bem, ela me chama assim, de Big Boy... Ela disse, meu estômago tá doendo tanto que quero dar socos no meu estômago porque dói muito. E eu disse, bem, não é assim que funciona, Esmeralda. Se seu estômago dói e você machucar mais ele, então você fica mais machucada. Eu disse, você precisa achar o lugar em você que dói e ser gentil com ele, ser bom pra ele, dar-lhe leite e mel e remédios e você vai ficar bem e se curar... Depois pensei: "Se alguém é parte de você, como você faz para essa pessoa parar de te machucar?" É sendo bom para eles e sendo cuidadoso com eles e lhes dando leite e mel. Você precisa cuidar das pessoas pra elas não te machucarem.
- Sim, estamos todos conectados. Essa bobagem hippie é verdade. Não é só o Trump, esse é o nosso Trump, entendem? Ele está sofrendo, está inchado, temos que pôr gelo nele e botá-lo rápido dentro da Casa Branca.
- Não podemos só dizer pra ele que ele é o presidente? Não podemos apenas fingir pra que ele fique bem?
- Como o Batboy.
- Sim, como o Batboy.

e assim foi feito e os estados unidos da américa elegeram para presidente o garoto mais mimado da turma. e como horace and pete mostra... às vezes, não tem leite e mel suficientes para aplacar certos machucados.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

héloa, o release

uma das coisas certas na vida é que a música popular brasileira - que, bom frisar, é muito mais ampla que a tal mpb - nunca vai te deixar na mão. ano após ano tem gente boa aparecendo, gente ótima surgindo, jovens artistas amadurecendo, gêneros se firmando e se transformando, velhos artistas inquietos. enfim, tem surpresa por todos os lados e de muitas formas.

a cantora e multiartista héloa, sergipana radicada em são paulo, é uma dessas surpresas boas, refrescantes mesmo, e tive a honra de escrever o texto-release pra divulgar seu disco de estreia, o belo 'eu'. não fiz muitos releases na vida e antes deste, foram apenas três - trio esmeril [junior boca, guizado e mauricio takara], projeto manada e paulo carvalho - e é curioso ver um pouco da inquieta e atual diversidade musical brasileira nessa pequena amostra.

agora, sem mais blábláblá, o texto sobre o 'eu' de héloa e sua música.



Uma voz que canta ventos e avenidas, amizades e mudanças, sorrisos e silêncios, amores e lembranças... uma voz assim não se encontra todo dia. Héloa é a dona desta voz e o seu 'Eu' – estreia em disco dois anos após o EP ‘Solta’ - é uma espécie de autorretrato de uma artista em movimento.

A história e os sons de ‘Eu’ começam em Aracaju, Sergipe, terra natal da cantora. É lá que seus caminhos se abrem, é lá que começa a dançar, fazer teatro e artes visuais. E a compor. Amarrando tudo com uma voz de céu, sol e mar. Uma voz quente. 

E então, vem a mudança. No segundo semestre do ano passado, Héloa decidiu ir para São Paulo para gravar e encontrar ‘Eu’. Tal movimento é ilustrado no disco pela regravação de “Caravana” [Geraldo Azevedo e Alceu Valença]. Ela sabe que é inevitável se arriscar, se jogar no mundo, e soa muito pessoal e verdadeira quando canta, com um fraseado todo especial: “Corra, não pare, não pense demais / Repare essas velas no cais / Que a vida é cigana”. 



Antes de partir em “Caravana”, na vida e no disco, Héloa pede “proteção para minha estrada, que não me aconteça nada que atrapalhe esta jornada de viver” [“Proteção”, de Ruan Levy, é a a faixa que abre ‘Eu’]. Daí faz silêncio pra enxergar e se expressar melhor [na ótima “Calei”, de Allen Alencar, talvez a mais pop do disco] e se espreguiça apaixonadamente ao acordar lado a lado com o amor [“Amanheceu, seu sorriso”, de Allen Alencar]. 

Acompanhada pelos músicos e produtores Daniel Groove e João Vasconcelos, Héloa vai encontrando novos ‘eus’ em São Paulo, todos muito apaixonados e apaixonantes. Na linda “A avenida” [Héloa e Eduardo Escariz], a cantora lamenta perdas, procura respostas e guarda certezas no coração, e, em meio ao frenesi de uma cidade grande e nova, Héloa vai buscando tranquilidades na vida.

De música em música, e sem nunca se prender a rótulos, a cantora se coloca naturalmente como mais uma força a expandir e misturar os limites da música popular brasileira. Afinal, tem um tanto de afoxé em “A paz que desejei” [Eduardo Escariz], balada em “Super herói” [Daniel Groove], brega romântico em “Se você disser que vem” [Daniel Groove], bossa em “Crua” [Otto] e bluegrass em “Meus amigos” [Saulo Duarte e Daniel Groove]. Mas todas as canções de ‘Eu’ vão muito além de um gênero, muito além da velha e gasta mpb.

É que Héloa canta ventos e avenidas. Uma voz assim não se encontra todo dia.



p.s. 1: saiu o clipe de “Calei”.



p.s. 2: apresentação ao vivo de Héloa no estúdio do Showlivre.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

não vai ter selfie

o controle midiático da narrativa política é um troço avassalador. semana passada aconteceram em são paulo cinco atos #foratemer e em todos a polícia militar compareceu com sua violência habitual e selecionada. a desculpa policial é a mesma de sempre e é ilustrada pelas imagens da assessoria de comunicação da instituição [a grande imprensa, com ênfase na tv globo]: vândalos infiltrados queimam uns lixos, pixam umas paredes, vandalizam uns bancos, aí a polícia é obrigada a agir e dispersar a multidão. qualquer pessoa que tenha passado em qualquer manifestação de esquerda desde 2013 sabe que esse lixo queimado, essas fachadas quebradas de bancos e concessionárias só ocorrem APÓS a repressão policial.

foto: marlene bergamo

a linda manifestação deste domingo 4 de setembro, igualmente #foratemer, só que muito maior, mais longa e mais diversa, parecia que conseguiria driblar a narrativa conservadora com crianças, famílias, cinco horas de marcha absolutamente pacífica e sem acompanhamento da polícia. mas a pm não quis perder a viagem e soltou bombas, balas de borracha e jatos d'água após o fim do ato QUANDO MILHARES DE PESSOAS JÁ ESTAVAM INDO PARA SUAS CASAS e outras tinham ficado pelo largo da batata para beber uma saideira [isso devia ser um pouco depois de 8 e meia da noite].

a globo news, que tinha mostrado uns curtíssimos flashes da gigantesca manifestação - nas manifestações pelo impeachment era cobertura 24 horas, tinha convocação e o escambau -, rapidamente entrou ao vivo com lixos pegando fogo e acabou ditando a cobertura noite afora e nos jornais de hoje. ontem, a princípio, folha, estadão, bbc, el país e o globo deixaram bem claro que foi a pm, dando razões desencontradas, que começou gratuitamente a repressão. logo depois o discurso mudou. hoje o estadão nem deu foto na primeira capa e na chamada fala em tumulto. o jornalismo capacho de césar tralli no sptv falou que era "muito triste tudo isso". a folha deu foto na capa junto com um texto neutro, mas logo abaixo uma outra chamada, diretamente de um texto asqueroso do secretário de redação & revoltado online vinicius mota, falando que militantes de esquerda são burguersinhos que não respeitam o trabalhador pm e que a violência é de esquerda [o que é de um cinismo absurdo justamente quando a folha defendeu violência da pm em editorial na sexta].


para a grande imprensa, para a pm de geraldo alckmin, para o ministério público, para o governo GOLPISTA, os movimentos sociais, partidos de esquerda, defensores de dilma ou da democracia, não são manifestantes, não são brasileiros, são militantes pagos a preço de mortadela, vândalos arruaceiros e bandidos [e seus leitores/admiradores tem certeza absoluta que usam crianças como escudo humano]. a recorrência da narrativa do "vandalismo de esquerda" é um jeito de esvaziar as manifestações [para a esquerda] e criminalizar [para a direita] ao mesmo tempo. pra essa corja cínica não basta dar um golpe e roubar 54 milhões de votos, é preciso criminalizar e aniquilar a oposição progressista. eles estão vencendo e tudo fica mais fácil controlando a narrativa. não dá pra esperar que a história faça justiça ao que está acontecendo, é preciso contra atacar com ações e discurso, é preciso união de esquerdas [coisa rara, difícil, mas que aconteceu ontem por algumas horas]. 


p.s.: o baderna notícias, de belo horizonte, fez um belo apanhado da cobertura de ontem; o ator e roteirista gregório duvivier deu belas porradas no editorial da folha dentro da própria folha; tem também esse texto do matheus pichonelli ["os '40 que quebram carros' mandam um recado a temer: conecte-se ao mundo real"]; texto de jean wyllys em resposta ao secretário de redação da folha; ah, antes da manifestação de ontem, a polícia prendeu arbitrariamente cerca de 20 pessoas, alguns menores e outros que nem iam pra manifestação e aqui tem um relato assustador dessa história que ainda não acabou.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

uma deusa, uma rapper, uma feiticeira

sa-roc já tem um tempo nas rimas, uns 8 anos pelo menos, e produz muito e como alta qualidade desde o início. mas fiquei particularmente impressionado com uma série semanal que ela está fazendo no canal da rhymesayers entertainment no youtube. 'wisdom wednesdays' - ou 'quartas de sabedoria' - traz uma música inédita toda semana e acompanhada com vídeo e com download gratuito via soundcloud. altíssimo nível em tudo.



daí que fiz uma playlist juntando as cinco que já saíram ["queen ting", "word war 2", "what it's worth", "nfsw (not safe for weak rappers)" e "lord of the forest"] e vou atualizando aqui semana sim e outra também. 

saca só o poder da mina.

atualizações: "i come in peace" [24.08], "seven" [31.08].

terça-feira, 12 de julho de 2016

o fantasma dos que não conseguiram

perto da ilha onde fica a estátua da liberdade, em nova york, existe uma outra pequena ilha: ellis. de 1892 a 1954, ellis foi a principal entrada para imigrantes do mundo todo rumo ao "sonho americano" [estima-se que nestes 62 anos cerca de 12 milhões de pessoas passaram por lá e que 40% da atual população norte-americana possua pelo menos um ancestral que tenha cruzado seus portões]. a ilha foi durante muito tempo sinônimo de esperança e quem não se lembra do menino vito andolini que foi renomeado vito corleone, em 'poderoso chefão 2', justamente na sua chegada a ellis? vito chegou muito doente, como era comum na época após tantos dias no mar e com tão pouca comida, e permaneceu um tempo em ellis até receber alta. mas vito conseguiu colocar seus pés na tão sonhada américa. muitas e muitos não [geralmente por motivos de saúde].

em outubro de 2015, o artista plástico francês JR lançou o curta 'ellis', uma tocante homenagem aos que não conseguiram. com roteiro baseado em relatos reais assinado por eric roth ['forrest gump', 'munique', 'ali', 'benjamin button', etc.] e a presença, em corpo e voz, de robert de niro, o curta é um passeio bonito e dolorido pelas dependências do hospital da ilha e pelas intervenções que JR fez em 2014 a partir de fotos de anônimos sonhadores que passaram por lá. olha só.



"are you talking to me?"

aqui, algumas imagens de 'unframed', o trabalho que JR fez no hospital da ilha ellis. o hospital é aberto a visitação - acho que é a única parte aberta da ilha - e 'unframed' é uma exposição permanente.





p.s.: a trilha do curta, assinada por yoann "woodkid" lemoine [que também dirigiu clipes para katy perry, taylor swift, moby, john legend, drake e lana del rey] e nils frahm está no exystence, com direito ao monólogo de robert de niro.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

o cinema liberta

mukunda, narayana, govinda, bhagavan, krishna e jagadesh poderiam ser personagens do mítico ‘mahabharata’, mas, neste caso específico, são seis irmãos que passaram boa parte da infância e adolescência presos pelos pais [mais o pai que a mãe] em um apartamento de um conjunto habitacional em nova york. a explicação que lhes foi dada é que, basicamente, o mundo lá fora é hostil. então eles foram educados em casa [pela mãe] e se educaram pelo cinema, muito cinema. tanto cinema que até começaram a fazer versões próprias de alguns de seus filmes preferidos. os irmãos, sua história e a paixão pelo cinema estão no excelente documentário the wolfpack, da estreante crystal moselle. olha só o trailer...


o encontro da cineasta com os irmãos se deu por acaso na rua, numa das primeiras saídas deles após o início da ruptura com o pai, em 2010, e o filme levou quase cinco anos para ficar pronto. crystal moselle conta um tanto do processo nessa boa entrevista para a vice.


daí que o documentário abriu ainda mais as portas do mundo para os irmãos angulo e na estreia do longa em los angeles, a vice os acompanhou em encontros com os diretores william friedkin e david o. russell [o primeiro filme que os irmãos viram numa sala de cinema foi o lutador]. o resultado é bem educativo [cinematograficamente falando].


difícil saber o que futuro reserva para os irmãos, mas sua paixão pelo cinema é tão grande quanto sincera e, novamente com o apoio da vice, produziram seu primeiro trabalho autoral: mirror heart, um curta bonito e surreal.


já dá pra achar o filme em boas cópias nos torrents da vida [vai saber se passará nos cinemas aqui, além de um ou outro festival, ou na tv].

p.s.: the wolfpack ainda serviu pr'eu conhecer a linda "daylight", do músico e produtor dinamarquês peder.