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segunda-feira, 10 de junho de 2024

muitas novidades no front

a querida revista Monet é certeza de pauta divertida, sem grilos. agora na edição de junho saiu texto meu costurando o ator Wagner Moura, o diretor Alex Garland e o bem sucedido filme Guerra Civil (tanto financeiramente quanto em termos de qualidade). saca só.

UM BRASILEIRO NA LINHA DE FRENTE

Wagner Moura é um dos protagonistas do thriller político Guerra Civil que estreia este mês na Claro TV+ após liderar as bilheterias nos EUA

Com pouco mais de uma década trabalhando em produções hollywoodianas, tanto no cinema quanto na TV, o ator Wagner Moura mantém os mesmos princípios de sua carreira no Brasil: não liga para números, não planeja estrategicamente próximos passos, não vive para as redes socias, não tem medo do risco, e trabalha com quem gosta, ou é amigo ou admira. Seu mais recente filme, Guerra Civil, tem um pouco de tudo isso, mas qual não foi a surpresa para todos os envolvidos quando o longa independente dirigido por Alex Garland se tornou o número 1 das bilheterias americanas por duas semanas seguidas.

Ao custo de US$ 50 milhões, Guerra Civil é (até agora) o filme mais caro produzido pela independente e cultuada A24 – a mesma de Hereditário, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo e Vidas Passadas –, mas em pouco menos de um mês conseguiu arrecadar mais de US$ 100 milhões globalmente. O termômetro desse sucesso foi que parte do elenco seguiu sendo chamado para programas televisivos, matutinos e talk shows, após a estreia (o costume é um batidão intenso de divulgação na semana que antecede). Daí Wagner Moura aproveitou os bons ventos, deixou a timidez de lado e fez de um tudo, de mostrar no pé como se samba na Bahia até a se rasgar para Whoopi Goldberg enquanto fã (Whoopi é da bancada do programa The View).

“Estou muito orgulhoso deste filme. Eu sabia desde o início – acho que todos nós sabíamos – que não seria um trabalho comum. O que venho tentando fazer como ator é encontrar algo que seja oportuno, mas também interessante para as pessoas interagirem. Nunca gostei da ideia de que para fazer algo popular é preciso fazer algo bobo. Acho que Alex [Garland] acertou esse equilíbrio com Guerra Civil. Ele fez um filme que é politicamente relevante, que captura o espírito do tempo e também é interessante para quem quer apenas se divertir”, disse Moura em entrevista para Esquire.

O ator baiano é um dos quatro jornalistas – os outros são Kirsten Dunst, Cailee Spaeny e Stephen McKinley Henderson – que atravessam os Estados Unidos rumo a Washington em meio a uma literal guerra civil. O diretor e roteirista Alex Garland não explica e nem quer explicar como o país chegou a esse destino, quem são as forças oponentes, suas ideologias. Seu interesse parece estar em como um evento extremo assim afeta pessoas comuns (tanto os jornalistas quanto os retratados, civis ou militares).

“Pra mim o filme funciona também como uma reportagem que mostra uma série de eventos buscando tirar qualquer viés ideológico, objetivamente. Do jeito que um jornalista ‘das antigas’ faria. Mas pra ajudar nisso busquei nos personagens retratar diferentes fases da vida de um jornalista, desde o veterano, sábio e cansado [Henderson] até a intensa e frágil freelancer [Spaeny], passando pelos maduros e calejados [Dunst e Moura]”, afirmou Garland em entrevista para o programa de rádio/internet Q with Tom Power.

Fã de filmes politicamente combativos como A Batalha de Argel de Gillo Pontecorvo e Z de Costa-Gavras, Moura foi pelo mesmo caminho quando decidiu estrear como diretor em Marighella. Mas a abordagem neutra escolhida por Alex Garland acabou o interessando, pois acreditou que deixava espaço para outras reflexões. Os dois iriam trabalhar juntos na minissérie Devs, que Garland fez logo após Ex Machina e Aniquilação, mas a agenda do ator não permitiu. Ficou no ar um ‘até logo’.

Garland e Moura voltaram a se encontrar para a formação do elenco de Guerra Civil e o encontro deu tão certo que o ator está na cena preferida do diretor no filme: uma do personagem gritando de dor e frustração após a morte de um colega, com tanques e soldados passando logo atrás. Segundo afirmou ao canal CineFix, a cena não estava no roteiro e surgiu em meio à confusão de extras e maquinário militar. “Tinha alguma coisa ali. Aí falei pro Wagner, vai lá, vai lá e grita! Ele se preparou e gritou com força. Quando vi a câmera nele, os tanques passando, a poeira subindo, a dor no rosto dele. Quando vi tudo isso, pensei que não só aquela cena tinha que estar no filme como ela é uma espécie de resumo de tudo que aconteceu até ali”, relembrou Garland.

a produtora Emile Lesclaux, o diretor Kléber Mendonça Filho e o ator Wagner Moura

E AGORA, WAGNER?

Após toda a intensa tour de divulgação de Guerra Civil – que trouxe o ator de volta ao Brasil acompanhado da jovem colega Cailee Spaeny –, Moura já sabe o que fará em seguida. Nos Estados Unidos estará ao lado de Adria Arjona no romance dramático Say Her Name, dirigido pelo mexicano Geraldo Naranjo (Miss Bala). E de volta ao Brasil, onde não filma desde Praia do Futuro de Karim Ainouz, pouco mais de dez anos atrás, trabalhará pela primeira vez com Kléber Mendonça Filho em mais um thriller político, O Agente Secreto. Também no elenco, Maria Fernanda Cândido. 

Ainda não sabe se estará na segunda temporada da série Sr. e Sra. Smith, com Donald Glover e Maya Esrkine, pois seu personagem foi, aparentemente, assassinado. Mas sabe muito bem que já tem o projeto para o seu segundo filme como diretor. Baseado em livro de Stewart O’Nan, Last Night at the Lobster acompanha o gerente de um restaurante de shopping no último turno antes do estabelecimento fechar de vez. Segundo Moura é uma espécie de “filme de Natal anti-capitalista” que o colocará diante de dois desafios: dirigir a si próprio e dirigir em inglês. 

“Estou aqui porque Narcos mudou minha vida de maneiras muito diferentes. As pessoas sabiam quem eu era. Tornou-se um sucesso nos EUA, o Pablo Escobar triste virou meme. Abriu oportunidades de trabalho às quais eu não tinha prestado atenção antes. E agora eu moro aqui. Meus filhos moram aqui. O Brasil está em melhor situação e sempre nos perguntamos se deveríamos voltar. Mas as crianças não querem”, afirmou Moura na mesma entrevista para a Esquire.

Wagner dando uma checada na careca de Matt Damon em Elysium

INVASÃO COM ARROZ E FEIJÃO

Wagner Moura não é um novato nas bilheterias americanas. Seu primeiro filme hollywoodiano, a ficção científica Elysium de Neill Blomkamp, arrecadou U$29,8 milhões em seu final de semana de estreia em 2013. Mas era um papel pequeno e essa segunda parte da carreira do ator estava apenas começando. Quem o ajudou muito nesse início foi a colega e atriz Alice Braga, que também estava no elenco de Elysium (os dois contracenaram juntos em Cidade Baixa, em meados dos anos 2000).

Alice Braga, aliás, é a atriz brasileira mais presente em grandes bilheterias americanas nas últimas décadas. Tudo começou com Eu Sou a Lenda, depois Elysium, Esquadrão Suicida e Predadores. Antes dela, só mesmo Rodrigo Santoro que surgiu em um papel pequeno em As Panteras, e então cresceu (literalmente) em 300 e na sequência 300 – A Ascensão do Império, para então contracenar com Will Smith e Margot Robbie em Golpe Duplo.

Só com Braga e Santoro já são oito filmes, então Moura se reuniu definitivamente ao time com Guerra Civil, pouco depois de outra novata, Bruna Marquezine, chegar em ritmo de ação e super herói com Besouro Azul. A invasão brasileira a Hollywood está, definitivamente, ganhando corpo.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

yahoo #44

o texto abaixo, "fã, essa coisa louca", foi o resultado do jeito que assisti o "polêmico" show de tributo à legião urbana com wagner moura nos vocais. não me incomodaram os (muitos) desafinos do ator porque, pelo menos do jeito que vi, ele é um fã que foi alçado ao posto de cantor de uma grande karaokê. simples assim. sem crise. e como renato russo não é deus pra mim (nem deus é deus pra mim)... de resto, a coluna mais recente no yahoo é "comédia mtv e o humor como lente de aumento", de título (quase) autoexplicativo.


FÃ, ESSA COISA LOUCA

Desde que o mundo é mundo o fã é uma das espécies mais resistentes a chuvas e trovoadas. É gente que enfrenta qualquer parada. Sabe aquele grande cometa desgovernado que matou todos os dinossauros? Então, ele não conseguiria arranhar um grupelho de admiradores da Claudia Leitte ou do Luan Santana. É a força das paixões, apontam os estudos.

Ontem e anteontem, a MTV exibiu o Tributo à Legião Urbana, no qual Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá se encontraram com o ator Wagner Moura para tocar, “talvez pela última vez”, o repertório de uma das bandas mais importantes da história recente da música brasileira. No decorrer das transmissões, fãs da Legião, de Renato Russo, de Moura e até os não-fãs se bateram e insultaram nas redes virtuais para provar que seu ponto de vista era o mais certo de todo o universo.

Grande parte das tijoladas mirou o ator e sua voz desafinada (bem, por isso ele é ator e não cantor), mas também choveram acusações ao oportunismo da empreitada. Como todo tributo é oportunista em seu DNA vou aqui me deter apenas em Wagner Moura. Nas chamadas do show ele se declarou muito fã da Legião Urbana (“uma banda que marcou minha geração”) e não coincidentemente cantou duas músicas de Russo & Cia. em filmes recentes que protagonizou (“Será” em VIPs e “Tempo perdido” em O Homem do Futuro).


Aí fiquei pensando... quem não gostaria de ter a oportunidade de cantar músicas que ama, com gente que admira (além de Bonfá e Villa-Lobos estiveram presentes Fernando Catatau e Andy Gill do Gang of Four), para uma plateia gigante e animada, e com transmissão ao vivo pela TV? Ainda mais quando não se é cantor e sim fã?

O tributo foi um grande e emocionante karaokê para Moura e a plateia ali presente não pareceu se importar com o ator desafinado. Cantaram junto, cantaram alto, eram tão fãs quanto ele. E fã é sem noção mesmo, não tem vergonha de pagar mico. Não estou falando aqui de coragem (bravura) e sim de um tipo de desprendimento que só um fã de carteirinha pode ter. Coisa de maluco mesmo. Desafinar é bobagem, afinal em karaokê ganha quem grita mais.

De resto, e essa vai para os indignados do momento, esse Tributo à Legião Urbana é só mais um show. Não é o fim do mundo. Relaxem. Amanhã tem mais.

terça-feira, 10 de maio de 2011

capitão nascimento reloaded

taí a matéria de capa da revista monet de maio. o grande desafio desse texto era achar um jeito diferente e atual de lidar com um tema tão batido (e o mote para a revista foi a chegada de tropa de elite 2 em ppv e em um sistema de video on demand que está estreando na net). os colegas aqui da revista, sarah mund e itaici brunetti perez, fizeram as entrevistas e eu reuni tudo, editei e costurei no texto tendo em vista capitão nascimento e o bope como fenômenos pop. deu trabalho, viu? mas fiquei bem feliz com o resultado.

local de trabalho é isso aí

ELITE DO CINEMA

Um dos participantes da última edição do
Big Brother Brasil mal colocou os pés na casa e já saiu batendo no peito e gritando que era “faca na caveira”. No bar um amigo fala para o outro: “você é um fanfarrão!”, repetidas vezes. De repente, passando por um ponto de táxi, é possível ouvir um “pede pra sair” ou então “se quer me foder, me beija”. Coisas assim tem acontecido, em qualquer lugar do Brasil, desde 2007, ano da estréia nos cinemas de Tropa de Elite, de José Padilha. Agora, com a chegada de Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro à TV pó assinatura, um ciclo se fecha. Mas o Brasil nunca mais será o mesmo após conhecer a face atormentada de Roberto Nascimento, o Capitão Nascimento. Muito menos as pessoas envolvidas na produção de ambos os filmes.

PADILHA, por exemplo. Em menos de dez anos transformou-se no diretor mais quente do cinema brasileiro, ultrapassando os colegas Walter Salles e Fernando Meirelles. Ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim pelo primeiro
Tropa, com Tropa 2 quebrou um tabu de mais de três décadas o transformando no filme brasileiro mais visto de todos os tempos, e agora se prepara para dirigir um episódio da produção internacional Rio, Eu Te Amo, enquanto não assina o contrato para a refilmagem de RoboCop. Mas o que fez um cineasta e produtor de documentários de prestígio e de público restrito conseguir tocar tão fundo no imaginário popular brasileiro?

“Acho que em
Tropa de Elite 1 e 2 aconteceu um fenômeno de sobreposição, uma soma de dois efeitos: a emoção da dramaturgia dos filmes se somou as emoções que o público já sentia a respeito dos traficantes, do policiais e dos políticos nele representados. Na minha opinião, foi isso que fez com que os filmes se tornassem populares”, explicou Padilha por e-mail. Se o primeiro Tropa pegou a todos de surpresa com um relato cru do cotidiano de guerra urbana no Rio de Janeiro, e sob inédito ponto de vista do policial, o Tropa 2 deixou claro que o conflito nas favelas e o narcotráfico são apenas pálidos reflexos de uma guerra muito maior por poder e dinheiro envolvendo o crime organizado, políticos e policiais corruptos (reunidos em milícias). E isso acontece conforme o espectador acompanha Nascimento saindo das ruas para ganhar os gabinetes na função de Subsecretário de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro.

Essa percepção mais aguçada sobre a realidade brasileira também pegou o ator André Ramiro, outro membro da equipe que teve sua vida mudada em muito pouco tempo. Rapper e ex-porteiro de cinema, Ramiro teve sua primeira experiência como ator ao interpretar Matias, que volta em
Tropa 2, cada vez mais parecido com o Capitão Nascimento do primeiro Tropa, mas sem a mesma experiência. “Minha vida mudou no sentido de que agora realmente tiro o meu sustento daquilo que eu sempre quis viver: da arte. Poder respirar, fazer, estudar arte e ter a oportunidade de conhecer coisas que eu não conhecia”, diz Ramiro, e aproveita para anunciar que seu disco de estréia, Crônicas de um Rimador, sai este ano e traz participações de Gabriel o Pensador e Dudu Nobre.

Mas houveram outras reviravoltas em sua vida. “O que mudou na verdade foi a minha visão do ser humano por debaixo da farda. Não exatamente a instituição. Tem uma frase em inglês que acho muito bacana, acho pertinente para esse momento, que é ‘Don’t hate the players. Hate the game’. Eu não odeio os jogadores, só não concordo com o jogo.” E ainda refletindo a experiência dos dois filmes completa que “na maneira que me envolvi com esse projeto fica difícil não perceber que na verdade irmão está matando irmão. É o policial que não é bem remunerado e o traficante que nem sempre está na vida que escolheu. Ou seja, quem é a vítima? O policial é tão vítima quanto o traficante e vice-versa.”



PAULO STORANI é outro personagem importante nessa saga e representando o lado fardado da história. Ex-integrante do BOPE, o carioca foi responsável pelos treinamentos dos atores e chegou a ter o nariz quebrado por Wagner Moura durante os ensaios do primeiro
Tropa. Também vieram dele algumas das gírias mais conhecidas dos filmes. “Daqui a dez anos, pesquisadores irão mostrar o que o filme representou para o esclarecimento e mobilização das pessoas em torno da segurança pública. A cortina caiu. Nenhum carioca poderá dizer que não sabia do que ocorreu e que ocorre no Rio, e que não é diferente de qualquer lugar do Brasil.”

Orgulhoso de sua participação e do resultado cinematográfico, Storani fez questão de frisar durante a entrevista os princípios que nortearam o treinamento de seus pupilos: mudança constante de cenário, adaptação e superação. “Sabia que
Tropa suscitaria discussões profundas, principalmente por concorrerem contra um histórico de filmes nacionais que quando tratam de temas relacionados com a segurança pública, contam a história de bandidos que passam a heróis, despossuídos que não tem outra opção senão roubar, traficar e matar. Os dois Tropa de Elite foram fiéis à realidade e imparciais, mostrando de uma forma inédita os dramas que envolvem as pessoas que trabalham na segurança pública, pessoas honradas e desonradas, mas acima de tudo o BOPE saiu fortalecido. Os heróis saíram do anonimato e passaram a ter seu trabalho reconhecido, além do batalhão ter sido humanizado.”

Só que existe uma armadilha aí nessa atual relação de boa vizinhança entre policiais e civis, e quem aponta é Luiz Eduardo Soares, escritor, cientista social e ex-Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro. “Se o BOPE persistir por uma unidade violenta, tentando surfar na onda do primeiro filme, vai pagar um preço altíssimo também pela sua própria imagem, porque ficou muito claro no segundo filme que a violência policial não é uma solução, e sim parte de um problema.” Co-autor de
Elite da Tropa (Objetiva) e Elite da Tropa 2 (Nova Fronteira), os livros que serviram de pontapé inicial para os roteiros, Soares aproveita para costurar uma descrição muito afiada do Capitão Nascimento, personagem ficcional próximo de tantas pessoas de carne e osso. “A intenção era apresentar ali um anti-herói, uma pessoa atormentada, capaz de tortura, assassinato, desesperada e sem rumo, que acabava contribuindo para a reprodução do ciclo da violência, mesmo sendo uma pessoa com muitos valores positivos, muitas virtudes também, a simplicidade, a vontade de acertar, o compromisso de cumprir um papel positivo na sua área de atuação.” Portanto, quem o viu como herói, como uma resposta armada para as mazelas sociais brasileiras, precisa urgentemente rever seu conceito de heroísmo.

Em meio a esse fogo cruzado, Padilha também foi muitas vezes vítima, mas as acusações de glorificar um personagem violento e controverso já foram superadas. “Não fiz o filme para responder a crítica, fiz o filme para completar a exposição que iniciei em
Onibus 174 e Tropa de Elite, e para mostrar a relação direta que existe entre a corrupção na política e os problemas da segurança pública que abordei nos filmes anteriores”, afirmou Padilha que, entre um Tropa e outro, dirigiu dois documentários, Garapa (sobre a fome no Nordeste) e Segredos da Tribo (que trata da relação conflituosa entre antropólogos e os índios ianomâmi).

MAS SERÁ QUE todo esse fuzuê ao redor dos filmes foi além das piadinhas de bar? Será que o Capitão Nascimento inspirou uma nova geração de guardiões da lei? Rodrigo, 29 anos, soldado da Polícia Militar do Estado de São Paulo a cinco anos, acha que não: “A maioria das pessoas ainda entra na polícia pela dificuldade de encontrar emprego”, o que não foi seu caso, pois sempre desejou ser policial. Já Thiago Marques Guilherme, 23 anos, está estudando para o concurso da polícia civil e disse que assistir os filmes lhe “deu mais vontade de entrar para tentar fazer alguma coisa, mas não que eu vá ser um capitão Nascimento, né?”

E os filmes retrataram a corporação fielmente? Ambos acreditam que sim. “Tenho um amigo policial que me contou que na polícia tem muita coisa mostrada no filme que realmente acontece. É uma questão de se mostrar e não omitir”, disse Thiago, enquanto Rodrigo vai um pouco mais fundo ao afirmar que os filmes são “um tapa na cara de muito oficial, de muito político e muito governante aqui do Brasil. Sei que o filme se passa no Rio de Janeiro, mas serve para a realidade de qualquer polícia do Brasil. Infelizmente não teve a repercussão que deveria ter tido para poder acontecer alguma mudança. Tem muita coisa envolvida nisso, até dinheiro. Acho que, por exemplo, partes da polícia de São Paulo vivem ainda muito à sombra da ditadura, assim como muitos governantes e políticos.”



OUTRO PERSONAGEM REAL e importantíssimo para
Tropa de Elite 2 é justamente um político. Em seu segundo mandato, o deputado estadual Marcelo Freixo serviu como base para o roteirista Bráulio Mantovani criar Diogo Fraga (Irandhir Santos), um professor de História que se torna político após trabalhar em uma ONG cujo tema principal é a defesa dos direitos humanos. Na vida real, Freixo foi presidente da crucial CPI das Milícias que, em 2008, jogou no colo dos cariocas/brasileiros o envolvimento de alguns de seus colegas de Assembléia Legislativa em assassinatos, extorsões e outras tantas infrações do Código Penal. Até hoje é ameaçado de morte por isso.

Fã dos filmes, e sem nenhum envolvimento com as produções, Freixo viu sua luta (e a de muitos outros e outras) ganhar altas injeções de adrenalina na segunda parte da jornada de Roberto Nascimento. E gostou, confessa. “O
Tropa 2 dá mais complexidade ao assunto de segurança, ele mostra com mais clareza esse problema que o crime organizado não está nos lugares pobres, nem no Rio e nem em nenhum lugar do mundo. Ele consegue demonstrar que essa criminalidade é movida através de interesses políticos, ou seja, existe uma polícia corrupta porque a gente tem uma política corrupta, uma elite política corrupta que se alimenta dessa relação violenta com a periferia dos lugares pobres porque tem uma relação direta com esses criminosos.”

Claro que não seria um filme (ou dois) que mudaria esse amontoado de desigualdades, impunidades e desmandos. E nem adianta pensar em um terceiro com Nascimento partindo para Brasília de Caveirão. Luiz Eduardo Soares pode explicar melhor: “Assunto [para um terceiro filme] não falta. Mas até onde sei, como amigo e colega de trabalho, o José Padilha não considera essa hipótese. É o mesmo que ouço do Wagner [Moura] que diz que o trabalho que tinha que ser feito já foi feito. Da minha parte já estou completamente convencido que não faz sentido produzir uma terceira unidade dessa série pois há um risco muito grande da repetição e, tanto na literatura quanto no cinema, temos muito medo do clichê.”

Sobre Wagner Moura assinamos embaixo. Na tentativa de entrevistá-lo recebemos a seguinte resposta de seu assessor: “O Wagner está num outro momento agora!” Quem é caveira, sabe.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

"eu não tenho nada a ver com essa merda!"

já tinha visto na filmografia do wagner moura a existência de um negócio chamado blackout (2007), mas nunca vi de quem era, o que era, etc. e ontem assisti lá no blog do marcelo tas, que não visitava tinha um tempo, o curta. é a primeira experiência na direção do daniel rezende, um dos melhores editores do cinema nacional (cidade de deus, diários de motocicleta, tropa de elite, ensaio sobre a cegueira, etc.), e um belo trabalho, tanto visualmente quanto no conteúdo (brasília e suas armadilhas).

Blackout Subtitled from Daniel Rezende on Vimeo

quarta-feira, 1 de julho de 2009

ser hamlet, não ser wagner

do baú tirei um texto que foi publicado na edição de julho de 2008 da Revista Monet. é sobre o Hamlet de Wagner Moura (sua mulher, Sandra Delgado, fez um bom making of da peça que chegou a ser exibido no multishow). simbora.

Aderbal Freire-Filho, Sandra Delgado e Wagner Moura durante os ensaios

HAMLET REALITY

O cenário estava todo ali, prontinho, e o palco permanecia vazio esperando qualquer coisa acontecer ao som de um ar-condicionado profissional. Era dia de folga nos ensaios para mais uma montagem de Hamlet, mas não uma qualquer, pois desta feita é Wagner Moura quem passa pela ação e os tormentos do príncipe dinamarquês. Barulho de porta se abrindo e é Sandra Delgado quem chega para explicar o que está acontecendo. Fotógrafa, mulher de Wagner e mãe de Bem, Sandra é a diretora de Além Hamlet, especial do Multishow que revela os bastidores do encontro de um dos mais badalados atores brasileiros da nova geração com o personagem-síntese da obra de William Shakespeare, e que foi interpretado pela primeira vez no distante início do século 17.

“Quando Wagner teve a idéia de fazer Hamlet começamos a assistir a alguns filmes [baseados em Shakespeare] e vimos Ricardo III – Um Ensaio, aquele de Al Pacino que mostra os bastidores de uma montagem da peça. Fiquei muito encantada e achei que seria uma grande oportunidade acompanhar todo o processo e mostrar o que acontece para que uma peça chegue ao palco.” Tudo certo com Wagner, mas para o documentário acontecer muitas outras autorizações precisariam ser dadas, e a mais importante era de Aderbal Freire-Filho, o diretor. “Ele disse uma coisa importante e definidora da minha presença dentro dessa construção: ‘Você pode fazer esse filme, mas com uma condição. Que você esteja presente o tempo todo. Aparecer de vez em quando vai quebrar o grupo. Ou você vira o olho do grupo, naturalizando sua presença, ou não tem conversa’. Porque uma câmera pode ser muito intimidadora, até para atores.”


Desde 18 de fevereiro, quando os primeiros ensaios começaram no carioca Galpão do Solar, a tímida Sandra Delgado vem acompanhando outros tímidos enlouquecerem, inclusive o próprio marido. Fato inédito, pois nunca acompanhou-o nas coxias da vida (e estão junto há cerca de sete anos). “Tudo é muito novo pra mim e acho que esse filme é uma resposta às minhas perguntas de como o teatro acontece, a relação do ator com o personagem, a construção do personagem, se é ele ou se não é ele. Saber o que se passa dentro da cabeça do ator e mostrar esse processo criativo, essa mágica de ver as coisas brotando. É um elogio ao teatro e ao fazer teatro, mas nada de rasgação de seda.” E ela, que nunca foi atriz, acabou ganhando um personagem, pelo menos nos ensaios. Sandra Delgado ficou conhecida pelo elenco como Fortimbrás, príncipe da Noruega, uma ameaça constante, mesmo que invisível por toda a peça, ao Reino da Dinamarca. É Hamlet que entra em cena soltando fogo pelas ventas. Quer dizer, Wagner Moura chega tranquilo, acena um ‘tudo bem’ e rapidamente vai ver alguma coisa no fundo do palco.

Sandra prossegue: “Fazendo esse filme descobri que a vida do ator é muito difícil. Tudo é doloroso e muito exposto. Ao mesmo tempo são pessoas que têm uma disposição única para zerar, abrir novas portas, construir e reconstruir. São muito destemidos e sensíveis. Essa descoberta bateu em mim”, e solta um sorriso de quem encontrou segredos sobre alguém próximo. Detalhe: Sandra foi contemporânea de Wagner no curso de Comunicação Social na UFBA e o reencontrou anos depois no Rio de Janeiro, e apesar dos dois terem feito trabalhos juntos nos tempos da faculdade nunca haviam estado sob o mesmo projeto. Chega então, e de uma vez por todas, Wagner Moura.

“Detesto que pessoas estranhas venham ver os ensaios. Sinto-me invadido. Por isso só uma pessoa com a sensibilidade da Sandra poderia fazer isso. Tanto que não vi nada do que ela fez porque tenho total confiança em sua ética e bom gosto. Acho também que não é bom pra mim, antes da estréia, me ver. No mais, a gente conversa muito sobre o filme e a peça, existe uma troca muito legal. O que ela está procurando é revelar o processo criativo de um monte de gente e saber como essas pessoas tornaram Hamlet acessível à platéia de hoje e mostrando como ele é nosso contemporâneo. Ele vai enterrar a gente, cara.” Sentado à beira do palco, o ator que virou febre nacional após interpretar outros dois homens atormentados, o vilão Olavo na novela Paraíso Tropical e o violento Capitão Nascimento no filme Tropa de Elite, parece ansioso por mostrar seu Hamlet, idéia fixa desde que leu a peça pela primeira vez aos 15 anos.

O príncipe que volta à corte para vingar a morte do pai e que usa um grupo de teatro para concretizar o plano é o sonho de 10 entre 10 atores, mas qual é a razão deste fetiche? “O ator e diretor Steven Berkoff escreveu um livro chamado I Am Hamlet, no qual disse o seguinte: ‘Não existe erro de escalação para Hamlet porque ele é um personagem tão complexo e vivo, tão mais inteligente e bem humorado, que nos comporta a todos’. E outra coisa, nenhum Hamlet é igual a outro porque nenhum ator vai dar conta completamente do personagem. Isso não existe. Cada um mostra um pouco de si e esse pouco de si é um pouquinho dele.”


Segundo o renomado crítico literário Harold Bloom, Hamlet é o personagem mais irônico e camaleônico na obra de Shakespeare. Não acredita em nada, muito menos em suas próprias palavras, vai de uma profunda melancolia até ao mais enérgico nervosismo, e suas falas ocupam dois terços do mais longo texto do autor. “Acho que nenhum ator passa incólume por Hamlet. Tem coisas que ainda não sei dizer, coisas que vou descobrir com a temporada, porque o teatro ainda não se deu, falta ainda o público. Mas tentando ser objetivo, fiquei impressionado como o caminho de Shakespeare é reto, sem psicologismos, sem esforço. Basta dizer aquelas palavras para a ação e a magia surgirem. E ele foi escrito para esse lugar”, e bate ruidosamente com a palma da mão no palco.

“O meu [Hamlet] está sendo feito a partir de mim, da minha vida, do jeito que sou, do ator que sou. Gosto de ser um ator físico em cena e acho que posso emprestar isso a ele, principalmente na parte da loucura. Enfim, sou eu mesmo dentro da grandeza que é esse cara”, e bate mais uma vez com a palma da mão no palco. Ser ou não ser não é mais questão porque, pelo visto, Wagner Moura já é.