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terça-feira, 14 de março de 2017

nos ajude a entender, lázaro

já entrevistei muitas gentes nesses meus 17 anos de jornalismo, mas tem umas que são especiais pelo simples fato de que gostam mesmo de conversar. lázaro ramos certamente está nesse grupo. dez anos atrás o entrevistei junto com selton mello pruma matéria na revista monet [ed. globo] sobre o canal brasil. o tempo passou, saí da monet, fiz uma pá de coisas e agora, de volta ao mundo dos frilas, retornei também a querida monet e a lázaro ramos. a deixa era falar sobre os 12 anos de seu programa no canal brasil, o 'espelho' [estreia dia 27, 21h30], mas a deliciosa conversa - infelizmente, por telefone - foi além como tem que ser. a matéria saiu na edição de março deste ano da revista e segue aqui na versão "do autor" [brincadeira, afinal o pessoal da monet não mexe nos textos como certas publicações por aí]. 



ESPELHO, ESPELHO NOSSO

Lázaro Ramos gosta de conversar sobre qualquer assunto, mas tem um que lhe é particularmente especial. “O Espelho é o assunto que mais gosto de falar. Se me deixarem, fico horas. Sou muito apaixonado pelo programa”, afirmou durante longa entrevista por telefone. Não é pra menos. O programa criado e comandado pelo ator, e exibido pelo Canal Brasil, está completando 12 temporadas neste ano e recentemente ganhou o selo de “programa semanal de entrevistas mais longevo em atividade na TV a cabo”. Lázaro não disfarça o orgulho deste feito, e nem quer.

“O Espelho é um programa construído sob o signo da leveza. A gente não tinha pretensão de durar tanto. Só queríamos ser verdadeiros ao tratar de assuntos relevantes de uma forma agradável. Porque a gente sempre quis falar com mais pessoas e não ficar dentro da bolha de quem pensa como a gente”, diz com a humildade de quem, no final de 2017, terá colocado no ar nada menos que 291 episódios.



Para se ter uma ideia, a primeira temporada, lá em 2006, teve apenas cinco episódios e eram uma extensão das discussões levantadas pelo espetáculo Cabaret da Raça do Bando de Teatro Olodum, grupo que o transformou em ator nos anos 1990. Parecia arriscado falar especificamente de questões negras, mas qual não foi a surpresa de Lázaro e sua equipe quando a primeira temporada do programa se tornou a segunda maior audiência do Canal Brasil [perdeu apenas para as impagáveis pornochanchadas]. 

O começo da história do Espelho foi assim, uma surpresa. E elas continuaram acontecendo ano após ano. “Nesse princípio, e sem denominar, a gente já estava falando sobre representatividade, empoderamento e sororidade... palavras que hoje em dia estão na moda e inclusive já são discutidos na TV aberta em programas matinais. Isso é uma coisa que a equipe do Espelho e o Canal Brasil devem se orgulhar muito, pois demos voz a uma parcela de brasileiros que não estavam sendo escutados”, e lembra ainda que o programa foi o primeiro da TV brasileira a falar de “bullying”.

Esse pioneirismo espontâneo, aliado a um jeito agregador de Lázaro Ramos, também trouxe outros “furos” ao programa, tais como entrevistas exclusivas com figuras que nunca falam com a imprensa, desde o juiz Joaquim Barbosa [parte 1 e parte 2] até o produtor Celso Athayde. “Com o passar do tempo vi que dava pra ampliar. Claro que queremos continuar discutindo as questões negras, mas a gente busca novas vozes, novos pontos de vista e também outros assuntos que não tenham a ver com raça. E aí o programa foi ganhando outras dinâmicas. Eu sumi um pouco mais, e isso é uma coisa que gosto muito de fazer, ser mais um mestre de cerimônias, mais uma pessoa que concede o microfone muito do que alguém que fica falando muito. Pessoas já me disseram que sou um entrevistador que escuta. Não tinha pensado nisso. Foi mais uma intuição, não um planejamento”.

O que era um espelho que o ator, apresentador, produtor, escritor e diretor colocava diante das questões negras no Brasil passou a ser, no decorrer das temporadas, um espelho diante do Brasil, ou de alguns Brasis, mas passando sempre pela vivência e o olhar negro. “Não acho que o Espelho me fez mais ativista não. Essa voz que tenho no programa é a mesma desde meus 12 anos, é a mesma que tinha no trabalho no grupo de teatro do Olodum. Acho que quando fiquei mais conhecido foi por trabalhos que não tratavam dessa temática, mas essa é a minha história, é a minha voz, é meio que admitir quem eu sou: negro, nordestino, pai de duas crianças negras. Não sei ser outra coisa. Agora, sou muito feliz que consigo exercer essa militância, esse modo de ser, com alegria. Não quero nem me violentar deixando de ser quem sou e nem criar uma máscara pra mostrar outra coisa pras pessoas. Aprendi isso dentro de casa, com meus pais Seu Ivan e Dona Célia”.


Lázaro e Taís em 'Mister Brau'

Assim Espelho foi crescendo, tomando corpo, e paralelo a esse processo, Lázaro Ramos teve sua voz cada vez mais ouvida e se fazendo ouvir: escreveu livros infantis, fez novelas, séries de TV e filmes, dirigiu web-série [Do Outro Lado de Lá], clipe [“Vai dar ruim”, Dream Team do Passinho] e teatro. Ao lado da mulher, a atriz Taís Araújo, protagonizou sucessos recentes como a série Mister Brau e a peça O Topo da Montanha. Mas o Espelho, ah, o Espelho...

“O programa sempre foi um lugar de propagar ideias e hoje em dia muita gente faz isso também, mas sem conteúdo ou repetindo frases feitas achadas na internet. Então sei da responsabilidade que a gente que faz comunicação tem e, por causa disso, nos últimos anos, tenho ficado mais nervoso antes de algumas entrevistas ou assuntos. É que às vezes você pode falar alguma coisa que desagrade uma parte do seu público, e isso pode gerar consequências. Mas isso, que na verdade é uma autopatrulha, não me tira a coragem não. Continuo fazendo as perguntas, mas sei que ‘hummm, isso vai dar merda!’”.

Pode ser até que dê, Lázaro. Mas só o fato de você ouvir já nos ajuda a entender.



RETROVISOR

Relembrando as centenas de episódios das 11 temporadas anteriores de Espelho, Lázaro Ramos respirou fundo e, a duras penas, escolheu 5 que tem um lugar mais próximo do coração. Mas não sem antes brincar: “Podem ser 10?”. Sem ter mais pra onde fugir, pinçou a cobertura que fez na raça e na coragem da posse de Barack Obama no início de 2009, as experimentações de formato no encontro com Tom Zé, o bate bola com um dos entrevistadores mais experientes do jornalismo brasileiro [o saudoso Geneton Moraes], os improvisos mágicos no encontro com a cantora espanhola Concha Buika e o mergulho íntimo no passado de Seu Jorge.

O QUE VEM POR AÍ

Em sua décima segunda temporada [a partir de 27 de março, às 21h30], o Espelho ganhou uma novidade. É que no dia da gravação, o artista aparecia na timeline de seus seguidores nas redes sociais anunciando a atração da vez e pedindo perguntas. “Em algumas ocasiões mudei o foco da entrevista para acrescentar inquietações do público. Serviu como um termômetro”, afirmou. Dos 26 episódios do ano destacou os encontros com o ator Jesuíta Barbosa, com José Mariano Beltrame [em sua primeira entrevista após ter deixado o cargo de Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro], com as cantoras Liniker e Tássia Reis, e com as jovens ativistas Monique Evelle [Desabafo Social] e Murilo Araújo [Muro Pequeno].

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

héloa, o release

uma das coisas certas na vida é que a música popular brasileira - que, bom frisar, é muito mais ampla que a tal mpb - nunca vai te deixar na mão. ano após ano tem gente boa aparecendo, gente ótima surgindo, jovens artistas amadurecendo, gêneros se firmando e se transformando, velhos artistas inquietos. enfim, tem surpresa por todos os lados e de muitas formas.

a cantora e multiartista héloa, sergipana radicada em são paulo, é uma dessas surpresas boas, refrescantes mesmo, e tive a honra de escrever o texto-release pra divulgar seu disco de estreia, o belo 'eu'. não fiz muitos releases na vida e antes deste, foram apenas três - trio esmeril [junior boca, guizado e mauricio takara], projeto manada e paulo carvalho - e é curioso ver um pouco da inquieta e atual diversidade musical brasileira nessa pequena amostra.

agora, sem mais blábláblá, o texto sobre o 'eu' de héloa e sua música.



Uma voz que canta ventos e avenidas, amizades e mudanças, sorrisos e silêncios, amores e lembranças... uma voz assim não se encontra todo dia. Héloa é a dona desta voz e o seu 'Eu' – estreia em disco dois anos após o EP ‘Solta’ - é uma espécie de autorretrato de uma artista em movimento.

A história e os sons de ‘Eu’ começam em Aracaju, Sergipe, terra natal da cantora. É lá que seus caminhos se abrem, é lá que começa a dançar, fazer teatro e artes visuais. E a compor. Amarrando tudo com uma voz de céu, sol e mar. Uma voz quente. 

E então, vem a mudança. No segundo semestre do ano passado, Héloa decidiu ir para São Paulo para gravar e encontrar ‘Eu’. Tal movimento é ilustrado no disco pela regravação de “Caravana” [Geraldo Azevedo e Alceu Valença]. Ela sabe que é inevitável se arriscar, se jogar no mundo, e soa muito pessoal e verdadeira quando canta, com um fraseado todo especial: “Corra, não pare, não pense demais / Repare essas velas no cais / Que a vida é cigana”. 



Antes de partir em “Caravana”, na vida e no disco, Héloa pede “proteção para minha estrada, que não me aconteça nada que atrapalhe esta jornada de viver” [“Proteção”, de Ruan Levy, é a a faixa que abre ‘Eu’]. Daí faz silêncio pra enxergar e se expressar melhor [na ótima “Calei”, de Allen Alencar, talvez a mais pop do disco] e se espreguiça apaixonadamente ao acordar lado a lado com o amor [“Amanheceu, seu sorriso”, de Allen Alencar]. 

Acompanhada pelos músicos e produtores Daniel Groove e João Vasconcelos, Héloa vai encontrando novos ‘eus’ em São Paulo, todos muito apaixonados e apaixonantes. Na linda “A avenida” [Héloa e Eduardo Escariz], a cantora lamenta perdas, procura respostas e guarda certezas no coração, e, em meio ao frenesi de uma cidade grande e nova, Héloa vai buscando tranquilidades na vida.

De música em música, e sem nunca se prender a rótulos, a cantora se coloca naturalmente como mais uma força a expandir e misturar os limites da música popular brasileira. Afinal, tem um tanto de afoxé em “A paz que desejei” [Eduardo Escariz], balada em “Super herói” [Daniel Groove], brega romântico em “Se você disser que vem” [Daniel Groove], bossa em “Crua” [Otto] e bluegrass em “Meus amigos” [Saulo Duarte e Daniel Groove]. Mas todas as canções de ‘Eu’ vão muito além de um gênero, muito além da velha e gasta mpb.

É que Héloa canta ventos e avenidas. Uma voz assim não se encontra todo dia.



p.s. 1: saiu o clipe de “Calei”.



p.s. 2: apresentação ao vivo de Héloa no estúdio do Showlivre.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

todos os clipes de stromae [e mais um show]

conheci a música do belga stromae em 2010 num coffeshop em amsterdã [história aqui] e adorei de cara seu rap-pop-eurodance-electro-etc. cinco anos e dois discos depois a admiração e o interesse por seu trabalho só aumentaram. ele, que já é artista grande na europa continental, agora está começando uma invasão aos estados unidos e foram shows recentes lá [south by southwest] e aqui [back 2 black] que reativaram minha memória afetiva. ah, teve também o lançamento de um novo clipe, o sensacionalíssimo "carmen", e por isso que resolvi fazer um apanhado de todos os seus clipes alto nível. saca só...

do primeiro disco [cheese, 2010] nasceram "alors on danse", "te quiero", "je cours" e "peace or violence".









do segundo disco [racine carrée, 2013] vieram "papaoutai", "formidable", "tout les mêmes", "ta fête" [que foi hino da seleção belga na copa de 2014], "ave cesaria" e "carmen" [que é uma animação de sylvain chomet, de as bicicletas de belleville]. 













atualização em 14.09.15 - saiu o sétimo clipe do segundo disco de stromae. agora é a vez da balada dramática "quando c'est" que ganhou um clipe tão bonito quanto sombrio.



atualização em 14.12.15 - stromae disponibilizou, na íntegra e em alta definição, um show que fez em montreal da sua turnê mais recente [no repertório, os dois discos]. é o mesmo show que saiu em dvd e blu-ray. que puta espetáculo foda, uma luz absurda de bonita e ágil, e um grande roteiro. sem falar que o sujeito é incansável e altamente cênico. dica: coloque em tela cheia e preste atenção do início ao fim [quase duras horas], pois vale muito a pena. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

abro a porta e deixo entrar

não foi bem uma falha, teve mais cara de vacilo. ouvi no final do ano passado o disco giramundo, a estreia solo de daniel groove (cearense, ex-o sonso, e desde 2009 morando em são paulo). gostei muito e rapidamente, e tratei de colocá-lo entre os 35 discos brasileiros do ano. mas na bagunça da lista das músicas acabei esquecendo de colocar, por exemplo, "giramundo" (poderia ainda ser "nada", "tudo", "deixa", "novo brega", "eu vou correr" ou "canção de amor", uma porrada de canções boas e lindas). daí que nesses primeiros meses de 2014 ouvi outras vezes o disco e ele foi só melhorando e melhorando, o que me fez sentir uma certa culpa por não ter sido mais enfático. pra resumir, giramundo é disco foda e elétrico e romântico e muito bem tocado.



o musicoteca e daniel disponibilizaram em novembro passado o disco para download gratuito, e dois meses antes o cantor e compositor lançou o clipe de "canção de amor".



antes ainda, em agosto - pra provar como mosquei nessa, e olha que já tinha ouvido seu nome em shows por são paulo -, daniel groove participou de uma edição inteirinha do cultura livre da roberta martinelli. 





no disco, daniel é acompanhado por músicos como o amigo e parceiro saulo duarte, joão eduardo vasconcelos, joão leão e beto gibbs, e conta ainda com participações de marcelo callado (do amor), rian batista (cidadão instigado), nevilton, danislau também (porcas borboletas), bruno souto (volver), david dafré e reginaldo lincoln (vanguart), guilherme almeida (pública) e diego soares (los porongas).



não menos importante: a ilustração que embrulha/sintetiza este disco lindo da porra é do também cearense diego maia.

atualização em 27 de fevereiro: saiu o clipe da muy linda "você sabe muito bem o que me resta".

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

não é tempo para tratar de poéticas agora

capicua são números palíndromos, tipo um 1455665541 ou um 474. números que são lidos da mesma forma em um sentido e no seu reverso. capicua também é o pseudônimo de ana matos fernandes, a comandante da guerrilha cor de rosa, uma rapper portuguesa de 31 anos (portuguesa do porto, claro esteja) que tem um trabalho interessantíssimo e bastante engajado politicamente. saca só essa trinca. 







o título da postagem é o verso final de "não, não, não subscrevo...", do poeta jorge de sena (1919-1978), que capicua usa no final de "jugular". o intelectual português, que também foi crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário, morou no brasil, nas cidades paulistas de assis e araraquara, entre 1959 e 1965.

conheci capicua através de uma tuitada de priscilla scurupa, que disse que a rapper seria uma mistura de lurdez da luz e anelis assumpção. é possível, é uma interessante mistura. e a música que priscilla citou, "casa no campo", tem citação e sampler de elis regina. quer dizer, realmente tem um tanto bom de brasil nas rimas e sonoridades dessa mc portuguesa.



ah, todos os trabalhos de capicua estão para download gratuito em seu site oficial: os dois EPs coletivos que participou em 2006 e 2007 e seus trabalhos solos, a mixtape capicua goes preemo (2008), capicua (2012) e a mixtape capicua goes west (2013), que ela fez rimas sobre beats do kanye west. os dois primeiros clipes são do disco de 2012 e "jugular" é da mixtape deste ano.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

gaby is crazy for you

atualmente, gaby amarantos está malhando, fazendo regime e cuidando da saúde em horário nobre, mais precisamente no quadro 'medida certa - a disputa' (sua participação, aliás, gerou uma série daquelas microindignações virtuais, devidamente destruídas por nina lemos em "liberdade para preta gil e gaby amarantos"). só que a partir do dia 19 desse mês, às 19h no canal bis, a paraense estará em um reality show bem diferente. filmado na segunda quinzena de julho desse ano, gaby gringa é uma série em dez episódios que acompanha passeios, encontros musicais, descobertas e frios na barriga da artista em sua primeira miniturnê internacional (nova york, londres, bristol e antuérpia). bati um papinho virtual com a moça pouco após sua volta e antes da entrada no 'medida certa'. saiu na monet agora de setembro. ah, e as fotos que ilustram esta postagem foram tiradas durante um divertido encontro com ela em belém, no início de janeiro deste ano. não emplaquei a pauta sobre a gravação de um comercial, mas a conversa foi ótima (não transcrevi até hoje, mals) e a noite tão boa quanto.


DISSERAM QUE ELA VOLTOU MAIS PARAENSE AINDA

Desde que lançou, há dois anos, a primeira música (“Xirley”) de seu disco de estreia, Gaby Amarantos não sossegou o facho. Talvez tenha sido por causa do feitiço do café que ela coou na calcinha da música popular brasileira, mas o fato é que o disco Treme foi eleito um dos melhores de 2012 pela crítica especializada e Gaby emplacou uma canção (“Ex-Mai Love”) numa abertura de novela global, além de encarar muitos shows, matérias e aparições televisivas para todos os tipos de públicos país afora. Agora é a vez da orgulhosa paraense, que acabou de fazer 35 anos, ganhar o mundo, ou pelo menos parte dele, no especial Gaby Gringa.

Filmado em julho durante a miniturnê internacional que levou a cantora a países como Estados Unidos (Nova York), Inglaterra (Londres e Bristol) e Bélgica (Antuérpia), Gaby Gringa foi dirigido e produzido por Tatiana Issa e Rafael Alvarez, a mesma dupla do premiado documentário Dzi Croquetes. “[O programa] vai trazer um mix de irreverências, porque sou uma comediante por natureza e causei muito nos ‘States’, e momentos emocionantes como cantar ‘Aquarela Brasileira’ no Birdland, onde Billie Holiday foi consagrada, e visitar o Apollo Theater, palco de shows históricos de James Brown e Michael Jackson. Também rolaram encontros musicais inusitados com artistas do Brooklyn e Harlem e alguns brasileiros bem conhecidos. Cada encontro, uma emoção diferente”, explicou Gaby, já de volta a sua casa no Jurunas, bairro periférico de Belém.


Os brasileiros a quem Gaby se refere vão de Seu Jorge ao rapper Emicida, passado por Tulipa Ruiz, Lucas Santtana, Maria Gadú, Pretinho da Serrinha e a banda Graveola. Alguns desses encontros aconteceram em situações intimistas, na rua ou em um parque, e outros em grandes shows como o Brasil Summerfest, no Central Park. “A receptividade foi melhor do que imaginava, mas tinha certeza que algo maravilhoso estava reservado pra mim por lá. Sei o potencial do que faço e o fato das pessoas lá fora não atentarem para o significado da palavra ‘brega’ faria com que esse público ouvisse a música livre de qualquer preconceito”. Um público livre de preconceitos como ela própria.

“Essa viagem me agregou muita bagagem cultural e me fez levar a cultura do meu país para outros mundos. Isso me fez ver tudo, vida, carreira, com outros olhos”. Gaby Gringa é, portanto, o retrato de um momento especial de uma artista que nasceu nas festas de aparelhagem no Norte do Brasil e que agora mostra toda sua força pop miscigenada a um novo público.


Enquanto prepara o segundo disco, que só deve ser lançado em 2014, Gaby também comemora a descoberta do seu lado atriz. No primeiro semestre protagonizou o episódio de estreia da série Contos do Edgar (Fox) e em novembro estará nos cinemas em Super Crô – O Filme. Mas certamente 2013 ficará marcado na sua memória, e na sua carreira, como o ano que deu os primeiros passos do projeto de dominação mundial Gaby Gringa. “Todos os lugares [retratados no programa] foram especiais. Sabe aquele trabalho que você faz se arrepiando a cada passo? Foi assim. Nós nos emocionávamos a cada ato e chorei muito ao cantar ‘Como Nossos Pais’ [de Belchior] em homenagem aos meus pais que são heróis pra mim, e ‘The Very Thought of You’ da Billie Holiday. As pessoas vão se surpreender me assistindo cantar músicas que jamais imaginariam que eu flertasse. Mas o que quero mesmo é continuar fazendo o mundo e o Brasil tremerem com a alegria do Pará”. Sossegar o facho é uma expressão que não está em seu dicionário.

p.s. 1: olha só a reportagem em página dupla na monet.



p.s. 2: e aqui o clipe de "gemendo" gravado na galeria/ateliê do artista plástico kenny scharf durante a passagem de gaby por nova york.

sábado, 3 de agosto de 2013

emicida, racionais, kanye west & jay z,
ou o rap é grande

passamos agora da metade desse muy loco 2013 e me dei conta, após assistir o excelente vídeo de "picasso baby" do jay z, que mais uma vez o rap é a música/cultura mais relevante e poderosa da atualidade. lembrei imediatamente de outros videos que bateram forte este ano, desde a crueza do lamento documental sambístico de emicida em "crisântemo" - e o paulistano lançara agora em agosto, seu primeiro disco, o glorioso retorno de quem nunca esteve aqui - até a apresentação histórica dos racionais na virada cultural em são paulo.





realidade, transformações, misturas, é o rap quem está cantando e está mais próximo de tudo que realmente importa hoje em dia. os exemplos aqui e no mundo são muitos e das mais variadas gerações, nem adianta fazer lista (deixa isso pro fim de ano). mas seguem aqui o vídeo de "picasso baby" (uma das melhores músicas do ótimo magna carta... holy grail) e a apresentação ao vivo de kanye west e sua potente "new slaves" no programa saturday night live. essa música está no mais recente disco de kanye, o estranho e interessante yeezus.



domingo, 14 de julho de 2013

rafael coutinho, a entrevista

acabei de publicar aqui no esforçado o perfil que fiz de rafael pra azul magazine ("retrato de um artista com ideias de sobra"). o que segue agora é a entrevista, praticamente na íntegra. conversa boa da porra, cheia de informações, bom humor, reflexões, tem de tudo. e coloquei no estilo fernando faro porque quem importa é o entrevistado.



INFÂNCIA, PRIMEIROS DESENHOS

A primeira lembrança... tenho fragmentos de quando era bem jovem desenhando coisas na escola... eu usava o desenho como ferramenta pra impressionar as professoras e os amigos... e já tinha uma facilidade... minhas memórias mais antigas já me trazem isso, que eu tinha uma facilidade pra desenhar, com o assunto... e desenhando com o meu pai, pedindo pra ele desenhar coisas pra mim... super heróis, personagens de séries japonesas dos anos 1980, personagens de vídeo games, Bart Simpson, Snoopy, robôs, umas caricaturas, personagens mais cômicos...

Sempre fui extrovertido, desenhar era mais uma facilidade mesmo, não era por timidez... mas a gente se mudou muito de cidade quando eu era criança... agora em retrospecto vejo que usei muito o desenho para fazer amigos e conquistar pessoas com mais facilidade, era o meu cartão de apresentação... sempre desenhei muito na escola. Em matéria que eu não ia bem eu desenhava ao redor da prova e a professora achava bonitinho e me dava mais nota [risos]... usei bastante esse artifício [risos]...

Eu acho que ele [Laerte] se divertia com a gente, com o assunto... nunca direcionou, pressionou ou incentivou pra que eu seguisse esse caminho... ele gostava de ver as coisas que eu fazia e sempre participou dessa forma... queria que a gente mostrasse as coisas que a gente tava fazendo, e não era só desenho... sempre foi um pai estimulante, criativamente... na verdade sou muito grato por ele não ter direcionado nada e nem que eu seguisse por um caminho que ele já tinha previamente feito... e ia nos jogos de basquete, nos ensaios de dança... dancei durante muitos anos, até a fase adulta, b-boy, e também fiz um pouco de dança contemporânea, street dance, dancei mesmo... enfim, ele participou das coisas que eu fiz... no teatro... então nunca foi uma coisa direcionada pro desenho... e minha mãe também me estimulou muito, do jeito dela... sempre teve muita arte em casa, quadros... era um casal comunista nos anos 80, né? Então tinham máscaras sul-americanas, reproduções de Picasso...

ESCOLHAS, TRABALHO

Foi na época do vestibular, nessa época de escolher a carreira, naquela confusão angustiante que o jovem tem na hora de escolher do alto dos seus 17 anos... me pareceu ali que era a única opção possível... mas não era uma coisa voltada para os quadrinhos... era Arte. Achei que tinha que fazer algo com Artes Gráficas e acabei fazendo Artes Plásticas... prestei pra Arquitetura e não passei, Desenho Industrial também não, e acabei fazendo Artes. Demorei muitos anos pra entender o que era arte... entrei muito cru, não sabia de nada, e acho que até metade da faculdade eu ainda tinha muita dúvida se de fato queria ser artista... lutei contra isso.

Comecei a trabalhar muito cedo. Aos 16 eu já trabalhava... fui garçom em restaurante, vendi CD em banquinha de standcenter, locadora... e aí, em um segundo momento, entrei em um estúdio de animação ligado a uma editora e comecei a me acalmar. Foi ali que vi que algum resultado estava saindo... fazia charges animadas e foi lá que fiz meu primeiro videoclipe [“Chapa o côco”, Xis]... a gente ganhou prêmio na MTV [melhor clipe de rap no VMB 2002, indicado em outras duas categorias]... fiquei muito excitado ali... acho que também descobri cedo que trabalhos longos rendiam louros mais significativos na minha vida... acho que foi daí que nasceu o prazer de fazer histórias longas, projetos mais extensos...


Trabalhei com animação durante muitos anos e montei um estúdio próprio de design com alguns amigos de faculdade... durou três anos... chamava Base V... aí experimentei street art, murais, silk, serigrafia, era um tipo de arte experimental que a gente acreditava que podia existir entre a rua e as galerias, que a gente tinha muito preconceito... o grupo continua até hoje e eu me afastei em 2008... foi nesse período que comecei a publicar minhas primeiras histórias em quadrinhos numa publicação chamada Sociedade Radioativa, participei também de algumas coletâneas e já me sentia com mais autonomia, mais certeza e que tinha material para apresentar...

MULTIPLATAFORMAS

Sempre tive esse interesse em trabalhar em diversas plataformas. Em algum momento me foi passada a informação de que esse meu desejo de trabalhar em inúmeras mídias não só não era um problema como poderia ser a minha salvação em momentos de crise ou dificuldade, e que eu não precisava me preocupar tanto em me fechar em uma só mídia... entendi em minha fase adulta que profissionalmente era preciso também focar em alguma dessas mídias pra que eu também pudesse ser reconhecido. Vi que esse espírito bon vivant poderia prejudicar, mas nunca me fechei porque gosto mais das ideias do que das mídias. Então se a ideia me excita vamos fazer um filme... acabei me envolvendo recentemente com cinema, gostei muito, aprendi muito com amigos do cinema e quero continuar fazendo... fiz agora como ator uma peça com meu pai [“As Jóias”], achei que não fosse mais acontecer e aconteceu... tô aberto...


Eu me defino como me convém. Se tô numa roda com quadrinistas eu sou um quadrinista. Se me veem como um pintor eu sou um pintor. Não vejo necessidade em me definir tanto assim. Acho que a essa altura do campeonato, aos 33, o trabalho me define. É um trabalho que aparece e que estou desenvolvendo... acho que desde 2008 não fiquei nem um período sem trabalho. Não é porque sou excepcional... é porque me sobra ideia mesmo. Então, quando não tem trabalho encomendado eu tô tocando as coisas que eu quero fazer e realizar. É isso, acho que tem muita coisa pra ser testada e eu também me empolgo com facilidade com a ideia dos outros. É fácil me seduzir [risos]. Gosto de trocar informações com as pessoas. Acho que um tanto do Rafael da escola persiste até hoje, esse sujeito que quer impressionar, conseguir amigos, entrar nas turmas pra ajudar na forma que puder. E, claro, conquistei um tanto de maturidade artística nessa minha curta jornada que me dá algumas certezas que preciso pra continuar.

Tenho projetos longos, médios e curtos. Claro que entram umas coisas no meio, mas basicamente o ano já se desenha logo de cara. Aprendi a me organizar, a me disciplinar, porque é uma profissão que exige muita disciplina... gosto de realizar coisas então não fico vacilando não...

VIRADAS PESSOAIS, ORGANIZAÇÃO

2008, saída da Base V... amigos muito queridos... mas quando saí vi que tinha que decidir as coisas por conta própria... comecei a trabalhar em parceria com a galeria Choque Cultural, fazendo meus próprios quadros e exposições... então essa minha autoralidade foi infligida também... você tem que ser você... coincidentemente foi também quando surgiu a parceria com o Daniel Galera, que foi uma parceria muito diferente das minhas anteriores, porque me obrigou a ser autêntico e a escolher entre as várias gamas de possibilidades qual era o meu traço, qual era o meu ritmo de trabalho, quais eram as minhas soluções de roteiro, o que eu queria... tive muita sorte de encontrar um cara que estava no mesmo momento autoral, o Galera, que já tinha alguns livros publicados e tinha uma voz autoral já muito forte... foi um momento de virada pra mim.

Em 2004 foi a primeira vez que vi meu traço mudar... fazia um curso com desenhos de modelos vivos e fiquei muito feliz, empolgado... em 2008 com a Cachalote também ... agora eu tô vendo alguma coisa acontecer também e acho que é o volume de trabalho... nunca fui um sujeito de qualidade sobre quantidade, sempre fui de quantidade sobre qualidade... a quantidade de trabalho geralmente me jogou em um lugar no qual o resultado saiu diferente... que eu obrigatoriamente tive que aprender e solucionar coisas em função de projetos extensos ou entregas contínuas... nada melhor pra quem tá no meio que o trabalho contínuo... porque é um troço de repetição... é uma musculatura cerebral e espiritual que precisa ser exercida diariamente, tanto é que artistas gráficos que ficam muito tempo sem desenhar enferrujam... isso não é um mito, acontece mesmo. No fim do dia seu desenho tá melhor... se você desenhou o dia inteiro os últimos 10 minutos são excelentes... se for a semana inteira, o último dia da semana é excepcional... e é cruel porque é exatamente quando você precisa parar, que seu corpo tá doendo, sua cabeça tá exausta... então tem muito isso... somos alimentados pelo correr dos dias, pela demanda, pelo exercício diário... é maçante, mas também muito recompensador... se você aguenta e se organiza pra que os resultados saiam eles podem te surpreender.

É preciso deixar que a vida alimente a produção continuamente. Acho que existe um problema crônico nessa nova geração de artistas gráficos e plásticos que já chegam com muita violência e ambição no mercado antes de desenvolver essa relação entre a vida e o trabalho. Não existe uma retroalimentação aí, ela é só fruto de uma ambição, um desejo que é exterior a tua vida, exterior a tudo.  Gosto muito dessa angústia de trabalhar lentamente, disciplinadamente, rotineiramente sobre algo que só vai acontecer daqui há dois anos (histórias longas em quadrinhos, pinturas, exposições – Fogo Fácil, filme que alimenta foto que alimenta pintura).

FOGO FÁCIL from Peppe Siffredi on Vimeo

Conversei uma vez com o Zélio [Alves Pinto], irmão do Ziraldo. Tava super angustiado e fui conversar com ele. Depois descobri que ele teve a mesma conversa com meu pai quando meu pai era jovem. Ele é mais velho que nós dois [tem 75 anos] e ele falou a mesma coisa pra mim que falou pro meu pai: organize seu cronograma porque você é artista e também um empreendedor da marca de si mesmo e tem que organizar seu tempo para produzir algo curto, algo médio e algo longo. Aquilo me deu uma calma muito grande porque não dizia respeito às minhas angústias mais subjetivas, mas resolvia matematicamente algo que eu, nos meus 24 anos, precisava. Ali entendi como deveria organizar a minha vida e que cabia a mim decidir quais projetos curtos, médios e longos eles seriam.

O AUTOR, O AUTOR

Nesse jogo todo tem essa história da autoralidade que a gente discute muito nos mundos dos quadrinhos e das artes plásticas. A voz autoral... em que momento ela aparece? Quais são as demandas que ela te pede? Quase como uma voz de fora que chega te exigindo coisas, te tirando o sono... não tenho a sabedoria do Zélio, mas o conselho que posso dar é “ouça a sua voz autoral” e isso é uma coisa muito pessoal, muito de cada um, e não acho que sou maior ou melhor que ninguém porque produzo meu próprio trabalho. Eu sei o preço que pago por essas escolhas. Minha mulher sabe mais que ninguém [risos]. Tem que escutar essa voz, esse latido do cachorro [referência ao filme Verão de Sam]... se ele tá dizendo que você tem que matar, você tem que matar [risos]...

O quanto de espaço eu tenho... o quanto posso ser autoral pra aquela demanda... me procuram mais pra ser autoral, já me dando bastante espaço... e sei que não funciono tão bem quando me dão muitas diretrizes, sei que vou brochar... Falavam que meu trabalho já era muito autoral, não adiantava fazer outra coisa, não ia dar certo me pedir um infográfico ou algo assim... mas isso, durante um período, foi muito frustrante, achei que não fosse me encaixar... a duras penas vi que isso era uma coisa boa e que me salvou. Mas também me salva porque faço várias coisas ao mesmo tempo. Se tivesse ficado só em pintura estaria em apuros ou se fosse só quadrinista... essa coisa que me disseram lá atrás... se não me engano foi uma terapeuta... a questão dessa minha autoralidade vem dessa inquietação de fazer várias coisas ao mesmo tempo, trabalhar com mídias diferentes... se fosse uma só talvez não fosse tão autoral assim porque teria que abrir mão disso pra sobreviver... os latidos seriam mais baixos... seriam latidos de poodle [risos]...

Canal IdeaFixa - Laerte e Rafa Coutinho - FiznaMTV #PAI from IdeaFixa on Vimeo

E O PAI DO RAFAEL?

Nunca perdi o foco do trabalho dele, sempre acompanhei, e só aceitei essas curadorias [FIQ em novembro, Balada Literária em dezembro e uma outra num espaço cultural na Vila Leopoldina] porque não teria que fazer um trabalho angustiante de leitura das coisas antigas pra pensar numa exposição... até porque ele mesmo não queria uma coisa de retrospectiva... então a gente tá criando um jogo do zero, um gráfico, uma coisa que envolva as pessoas... não é nada do tipo “veja esse quadro”... então a gente tá bolando outra coisa... mas nunca deixei de acompanhar o trabalho dele... me estimula, me instiga, me deixa pasmo... e ele tá agora tentando se reciclar, se reentender como artista... é um cara que admiro muito, somos muito amigos, nos falamos continuamente, trocamos informações e acompanhamos o trabalho um do outro... a opinião dele é muito importante pra mim em tudo que faço. Tenho muita sorte de ter um pai assim, na real, independente de ser o Laerte que as pessoas idolatram e admiram, o meu pai é um sujeito muito parceiro e um grande amigo. Tenho sorte. É um artista ducaralho, impressionante, sensível, generoso, tenho sorte.

terça-feira, 2 de abril de 2013

o charminho da gang

a primeira vez que falei da gang do eletro aqui no esforçado foi em outubro de 2010. já tinha virado fã de cara e o grupo virou presença constante aqui. ainda em 2010, rolou uma coletânea digital organizada pelo timpin pinto e em março de 2011 fiz um perfil da dupla maderito e waldo squash, os fundadores da gang, para o site da vice brasil (a entrevista por skype rendeu tanto que publiquei material bônus de maderito e waldo). pouco depois entraram keila gentil e william nos vocais e o quarteto começou a fazer mais e mais shows, produzindo muito e preparando a estreia em disco. como 2012 acabou sendo o ano da conterrânea e amiga gaby amarantos – waldo e a gang participaram do disco dela, treme –, acho que eles, estrategicamente, deixaram o disco para este ano. gang do eletro (deckdisc, 2013) reúne em 10 faixas toda a versatilidade do quarteto. e dá-lhe brega, cumbia, tecnobrega, música eletrônica pra sorrir e o diabo a quatro. é o som que a galera dá valor.


claro que sou suspeito, mas taí um disco cheio de diversão e muitas informações musicais. Já os vi ao vivo umas quatro ou cinco vezes – ano passado no festival sónar e no sesc pompéia, shows memoráveis – e o disco conseguiu captar a energia do quarteto. os meus destaques pessoais vão para “dançando no salão”, “só no charminho”, “una cosa”, “eletro do robô”, “esquenta” e “velocidade do eletro”, que ganhou um clipe rodado no centro de belém.


e pra finalizar, umas fotos que tirei desses shows da gang do eletro no sónar (as duas primeiras) e no sesc pompéia (as restantes). neste último rolou participações da banda uó e de felipe cordeiro.




sábado, 19 de janeiro de 2013

se todo meridiano fosse assim

absolutamente fascinado com o som do meridian brothers, que conheci esses dias através do blog do blundetto. são um grupo de bogotá, colômbia, criado e liderado pelo guitarrista (e eventual cantor) eblis javier álvarez vargas. até agora lançaram quatro discos: meridian brothers V - el advenimiento del castillo mujer (la distritofónica, 2005), meridian brothers VI - este el corcel heroico que nos salvará de la hambruna y corrupción (la distrifónica, 2009), meridian brothers VII (la distrifónica, 2011) e desesperanza (soundway records, 2012). 

o som deles tem salsa, cumbia, humor, distorção, jazz, chicha, psicodelia, áfrica, um balanço estranho... só ouvindo. e, olha, esse desesperanza é particularmente sensacional (ainda estou ouvindo os outros). teria facilmente entrado na lista de melhores do ano passado. saca essa "salsa caliente".



ou "salsa del zombie (perseguido por alegres buitres)"



ou ainda "guaracha u.f.o. (no estamos solos...)"



p.s.: na busca por informações sobre eblis ávarez descobri que ele também faz parte do frente cumbiero, que esteve junto com o inglês quantic em ondatrópica (soundway records), um dos discos que mais ouvi em 2012. quer dizer, tava muito perto, e agora vou seguir tudo que o sujeito fizer. ah, mas antes de encerrar essa postagem faz-se necessário colocar mais uma música-vídeo, só que do disco meridian brothers VII. é a épica e maluca "tendré que luchar con los 98 carniceros que pretenden tu amor?" (que título maravilhoso, putalamierda).

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

yahoo #58

acabei usando minhas listas retrospectivas em duas colunas no yahoo: a de 10 músicas e essa de 6 clipes. tudo nacional, tudo nosso. publicando essa de clipes aqui no esforçado encerro definitivamente 2012 e agora 2013 é o que importa. bola pra frente que tem muita coisa pra fazer.



O BRASIL DE 2012 EM 6 CLIPES

Semana passada rolou por aqui uma lista com 10 das melhores músicas brasileiras do ano como parte de uma retrospectiva que tenho feito no meu blog pessoal, o Esforçado. Agora é a vez de clipes, videoclipes, que de alguma forma resumem a excelente e sortida safra audiovisual nacional (e, não coincidentemente, são de ótimas músicas) bem como a descentralização de nossa produção.

“Legal e ilegal” (Felipe Cordeiro). A última década viu nascer no Pará uma pulsante geração de artistas populares: estrelas como Gaby Amarantos, eletrônicos como a Gang do Eletro e ligeiramente MPB como Aíla, Luê Soares e Lia Sophia. Felipe Cordeiro também é desse último grupo só que traz a tiracolo uma guitarra eletrizante e bastante humor (com um bigode daqueles, só podia). O clipe de “Legal e ilegal”, música do disco Kitsch Pop Cult, pega o humor, o balanço e as cores da trabalho do paraense e lhe dão uma forma de carrossel repleto de figuraças. Direção de Bruno Reggis e Carolina Matos.


“66” (O Terno). Prova clara que São Paulo também possui senso de humor, o primeiro clipe do trio liderado por Tim Bernardes, filho de Mauricio Pereira (Os Mulheres Negras), é uma montanha russa de boas ideias e achados visuais em pouco menos de 3 minutos. Sem falar que “66” é ótimo exemplo de uma união entre senso pop, pulso de rock e inteligência (a música que fala da própria situação da música hoje em dia). Direção de Marco Lafer e Gustavo Moraes.


“Carnaval no fogo” (doo doo doo). Que o Rio de Janeiro não é mais aquele do banquinho e violão todo mundo já está bronzeado de saber, mas UPPs e funks à parte, ninguém jamais imaginou uma invasão de zumbis em um bloco carnavalesco. Esse é um dos muitos acontecimentos do divertido e estranho clipe dessa marchinha rock psicodélica retirada do disco Casa das Macacas.


“Mi vida eres tu” (Vanguart). Por mais que clipes livres, nonsense ou de colagens de imagens sejam ocasionalmente bacanas, nada como o bom e velho clipe com história, com roteiro. Ainda mais quando rola uma produção, elenco, etc. e tal. “Mi vida eres tu”, música do disco Boa Parte de Mim Vai Embora, é isso e ainda a muito bem filmada aventura romântica e violenta de um menino. É também o encontro do folk rock com a Jovem Guarda, Mato Grosso e São Paulo, o cool e o brega. Direção de Ricardo Spencer.


“Levante” (Lurdez da Luz). Uma das mais ativas vozes femininas no ultramasculino cenário rapper brasileiro, Lurdez tem aprontado das suas desde os tempos do Mamelo Sound System. Sua estreia solo em 2010 mostrou uma artista segura, engajada e bela (e com clipes ótimos como “Andei” e “Ziriguidum”). Neste ano, inquieta, começou a colocar novas sonoridades, mais eletrônicas, em sua rima e o primeiro resultado foi “Levante”, batidão politizado com clipe simples, bem iluminado e fashion. Direção de Ricardo Magrão.


“Sangue é champanhe” (Don L & Flora Matos). Já falei do cearense Don L aqui no meio do ano (“A hora e a vez do rap nordestino”), mas de lá pra cá ele lançou o mais interessante e belo clipe do ano. A música, que traz participação da brasiliense Flora Matos, fala de diversões, vida e morte, encantamentos e a volatilidade dos afetos. Enquanto isso, o clipe alterna imagens de moças muito nuas, viagens, comidas e shows, muito diferente do que se imagina em um vídeo de rap. Atenção: não recomendável para ambientes de trabalho e moralistas de plantão. Direção de Autumn Sonnichsen e Erica Gonsales.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

os 30 clipes brasileiros de 2012 e muito mais

não sei se fui eu que prestei mais atenção ou se este ano, especialmente, houve uma grande e muito boa produção de clipes nacionais. tanto que alguns que aparecem na lista abaixo foram postados aqui no esforçado no decorrer do ano. e tem de tudo, caseiros e superproduções, do digital ao super 8, com mais roteiro ou sem roteiro nenhum, com humor ou sérios pra cacete, de tudo quanto é canto do brasil, quase todos produzidos na raça. vale destacar ainda o nome de alguns diretores e diretoras com trabalhos bacanas na área: ricardo spencer, fred ouro preto, lírio ferreira, vera egito, felipe rocha, daniel lisboa, vivi amaral, rabu gonsales, del reginato, toddy ivon e a dupla autumn sonnichsen & erica gonsales (do clipe de “sangue é champanhe”, talvez o melhor do ano).


banda gentileza - “quem me dera
bnegão & os seletores de frequência - “alteração (éa!)
bonde do rolê - “kilo
caio bosco - “mendigos de amor
cone crew diretoria - “chama os mulekes
domenico - “cine privê
don l. & flora matos - “sangue é champanhe
doo doo doo - “carnaval no fogo
edi rock & seu jorge - “that's my way
emicida - “zica, vai lá” (também no primeiro semestre lançou “dedo na ferida”, vídeo cru e preto & branco)
felipe cordeiro - “legal e ilegal
filarmônica de pasárgada - “o seu tipo
flow mc - “o quartinho obscuro” (música de sua mixtape de 2011, enquanto a desse ano trouxe o clipe de “por que”)
gui amabis - “pena mais que perfeita
haikaiss - “camaleão” (no começo do ano os rappers lançaram também o clipe de “existência”, bem mais prosaico)
junio barreto - “passione
lirinha, angela rô rô & otto - “valete” (e ainda “ah se não fosse o amor” e “sistema lacrimal”)
lucas santtana - “o deus que devasta mas também cura” (outras música do excelente disco de lucas, “para onde irá essa noite?”, também ganhou clipe)
lurdez da luz - “levante
mallu magalhães - “velha e louca” (outras duas músicas do seu disco de 2011, “sambinha bom” e “baby i'm sure”, ganharam vídeos, sendo que o último feito pelo maridão marcelo camelo)
marcelo jeneci - “pra sonhar
max b.o. - “fábrica de rap
negro leo - “jovem tirano príncipe besta
o terno - “66
racionais mcs - “mil faces de um homem leal (marighella)” (prestes a lançar mais um esperado disco de inéditas, o quarteto também lançou o clipe de “mente do vilão”)
silva - “a visita
thiago pethit - “pas de deux” (e, pouco antes, lançou outro clipe de uma música do seu primeiro disco, “não se vá”)
tono - “samba do blackberry
tulipa ruiz - “é” (também rolou um clipe caseiro de “memória fora de hora”, música que gravou no tributo à marina lima lançado em 2011)
vanguart - “mi vida eres tu

MENÇÃO HONROSA #01. sou fã assumido do letuce e o segundo disco (manja perene) da dupla-casal deixou marcas profundas em mim e no meu ano de 2012. mas tem outra coisa admirável neles: seus vídeos caseiros. imagens de viagens, do cotidiano, um ultrassom, coisas da internet, gif animados, qualquer coisa vira clipe e assim sendo nasceram os vídeos de “areia fina”, “medo de baleia”, “ninguém muda ninguém”, “sempre tive perna” e “loteria”.

MENÇÃO HONROSA #02. não gosto de funk ostentação e acho os clipes tão repetitivos quanto as músicas, mas é admirável o trabalho de konrad “kondzilla” dantas. o cara criou e ampliou, em apenas dois anos, todo o imaginário visual de um gênero musical crescentemente popular.

MENÇÃO HONROSA #03. fora os clipes produzidos pelos próprios artistas também rolam outros que aparecem em séries independentes ou patrocinadas na internet e em programas de tv. destaco aqui a segunda temporada da série compacto, a estreia da versão brasileira de meet the legends (com emicida & wilson das neves, elza soares & garotas suecas, luiz melodia & karol konká, jards macalé & dorgas, jorge mautner & tulipa ruiz), o inescapável música de bolso (mesmo que atualizando menos), o inspirado don’t touch my karaoke, o projeto in.casa (com gente como barbara eugênia, pélico e romulo fróes cantando acusticamente em suas próprias casas) e os programas televisivos cada canto (canal brasil), cantoras do brasil (canal brasil) e som brasil (tv globo).

MUITO MAIS QUADROS POR SEGUNDO. e dá-lhe autoramas (“abstrai”), barbara eugênia & tatá aeroplano (“dos pés”), cabes mc (“não nasci pra ensinar”), céu (“retrovisor”), chimpanzé clube trio (“tira essa pessoa da minha vida”), cícero (“ponto cego”), clarice falcão (“oitavo andar”), criolo (“mariô”), funkero (chapa quente”), grandphone vancouver (“miss me”), jamés ventura (“odeio político”), japan bondage (“japan bondage”), kamau (“21/12” e (eu quero) mais”), karina buhr (“amor brando”), karol conká (“corre, corre erê”), kassin (“fora de área”), léo cavalcanti & tulipa ruiz (“sem (des)esperar”), lívia cruz (“não foi em vão”), lucy and the popsonics (“eu vou casar com um cosmonauta”), madrid (“sad song” e “siblings”), malbec (calo”), marcelo camelo (“vermelho”), marcelo d2, sain e helio bentes (“eu já sabia”), márcia castro & helio flanders (“29 beijos”, e márcia esteve ainda no divertido “de pés no chão”), marina wisnik (“na rua agora”), molho negro (“aparelhagem de apartamento”), mv bill (o soldado que fica”), ogi (“eu me perdi na madrugada” e “profissão perigo”), ordinária hit (“patrão”), psilosamples (“no canto da cidade”), rashid (“r.a.p.”), rita lee (“reza”), savave (“tá suave”), shaw (“a área”), slim rimografia & thiago beats (“limpe seu próprio quintal”), sobre a máquina (“oito”), sonic junior (“inflamável”), super stereo surf (“clipe vertical”), supercordas (“índico de estrelas”), terra preta (“nasce, cresce e morre”), trupe chá de boldo (“na garrafa”), vivendo do ócio (“nostalgia”) e xis (“entre o amor e o ódio”).