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quarta-feira, 7 de julho de 2010

uma tarde daquelas com mionzera

foi mais ou menos assim. saí da editora globo, na zona oeste de são paulo, sem almoçar e após dar a última lambida na edição de julho da revista monet, que tinha acabado de ir para a gráfica. peguei o carro e fui rumo a sede paulista da tv record para encontrar marcos mion, que só tinha aquela tarde de quarta disponível para uma entrevista (era um frila para a capa da edição de julho da revista voetrip). cheguei uns 20 minutos adiantado, tudo tranquilo. mas a poucos metros do estacionamento um micro ônibus apareceu do nada e rasgou/amassou a lateral esquerda do meu carro (o silvera). foi mais ou menos assim que cheguei para entrevistar o mion, de pernas bambas, com fome e nervoso com todo o processo pós-sinistro. mas deu tudo certo que eu sou profissional e não desisto nunca. ah, nessa pauta - que segue aqui na versão integral, a que mandei pro pessoal da voetrip - estive mais uma vez com o fotógrafo & bróder jefferson dias.


MARCOS MION NÃO É MAIS AQUELE

Ele parece muito seguro. Certamente está feliz. Do alto de seus 31 anos, casado e pai de três filhos (dois meninos e uma menina), Marcos Chaib Mion entrou em uma nova fase da vida com a estreia de Legendários. O programa, que vai ao ar nos sábados à noite na TV Record, vem conseguindo manter um sólido segundo lugar desde que estreou no início de abril. Mas dessa vez ele não é apenas um rostinho bonito e uma presença divertida na telinha. Co-idealizador de Legendários, Mion agora está presente em todas as fases da produção, sabe de tudo, e sente na pele o frenesi do sobe-e-desce da audiência durante a exibição do programa, que é ao vivo. Dez anos após ter estourado na MTV com o anárquivo e jovem Piores Clipes do Mundo, o paulistano sentiu a necessidade de falar com um público mais amplo, de todas as classes e idades. "É a maturidade", confirma o ator, apresentador e homem de negócios em seu sóbrio escritório sem janelas. Mas ali em um canto, em cima de um aparelho de DVD, um grupo de bonequinhos coloridos pode até jurar que esse pai de família ainda tem muito o que aprontar na televisão. Confira abaixo uma entrevista exclusiva onde Marcos Mion fala de seus primeiros passos artísticos, sua paixão pela televisão e dos novos desafios que vem enfrentando com o bom humor de sempre.
Quando você considera que foi o teu início na carreira artística?
Foi quando entrei pela primeira vez no Teatro Escola Célia Helena e comecei a estudar teatro. A princípio, mais por curiosidade, sem saber ao certo no que isso ia dar. Óbvio que eu era do tipo de moleque que fazia todas as peças na escola e só queria fazer se fosse o protagonista [risos]. Sempre fui esse tipo de pessoa acostumado a fazer com que as pessoas me ouvissem. Naturalmente. E aí entrei no Célia Helena com uns 14, 15 anos. Foi uma grande sacada da minha mãe. Mãe, né? Conhece a gente melhor que a gente mesmo imagina. Foi ela que sugeriu que fosse lá ter aulas de teatro, que ia me fazer bem. E realmente foi amor à primeira vista. Nas primeira conversas que tinha um novo mundo possível ali, um mundo de faz-de-conta no qual poderia ser qualquer coisa, contar qualquer história e viver qualquer vida. Isso me fascinou muito. Mas não era um curso profissionalizante. Era uma vez por semana pra brincar, pra perder a timidez de falar em público, então tinha gente de todas as idades. Fiz o curso, era de 6 meses, e logo emplaquei outro, mais 6 meses. Foi nessa segunda vez que conheci e tive aula com a Ligia Cortez, filha da Célia Helena com o Raul Cortez e diretora do Teatro Escola. Nessa época eu estava com muitas questões na cabeça, começando a descobrir muita coisa, e foi ela que me incentivou a fazer o curso pra valer: 3 anos, carga horária, diploma, etc. E eu fui, acreditando nela. Na verdade, mais acreditando nela que em mim mesmo.
E como foi o curso?
Uma loucura. Pirou minha cabeça porque vi que o palco era como uma casa pra mim. Quando chegou no final do curso era época de prestar vestibular e começaram a pintar uma dúvidas, porque minha família toda é de médicos e nunca me faltou nada. Se fosse por ali tava garantido, mas por outro lado tinha essa história que era minha paixão. Quando chegou a hora de entregar a papelada da inscrição tava tudo preenchido, menos a opção do curso. Fui com a minha mãe e ficamos conversando, conversando. Estava na dúvida entre Medicina ou Filosofia, que era pra poder interpretar melhor os textos, entrar em contato com a psique dos personagens, e ser um melhor ator. Quando chegou a minha vez respirei fundo, preenchi Filosofia e entreguei pra Deus. Fiz três semestres e logo depois comecei a trabalhar.
No programa Sandy & Júnior...
Pois é. Na minha peça de formatura no Célia Helena apareceu uma diretora de elenco da TV Globo que acabou me chamando. Ela foi no domingo e na quarta eu já estava na Globo vendo cabelo, figurino, e nunca mais parei. Quer dizer, fiquei só no primeiro ano do Sandy & Júnior e logo depois fui pra MTV. Aliás, essa história é muito louca porque bati na porta da MTV antes de ir pra Globo. Sempre quis trabalhar na MTV, era realmente um sonho, porque cresci com a MTV, era uma linguagem que entendia. Por ser moderna, passar mensagens, ser consciente, ser ativa, por mexer com os jovens. Enfim, fiz um teste e foi muito legal, mas no momento eles não estavam contratando ninguém. Aí a Globo me chamou. Ainda tive o momento de ligar pra MTV e falar - "olha, a Globo tá me chamando" [risos] -, mas eles estavam precisando de uma mulher porque foi na época que a Astrid Fontenelle saiu. Quase um ano depois, quando estava pra acabar o contrato com a Globo, liguei de novo pra MTV. Poderia ter assinado por mais um ano, mas aí foi quando o Cazé Peçanha saiu. Foi minha deixa pra entrar na MTV.
Você teve algum conflito por deixar de atuar para ser um apresentador quando entrou na MTV? Claro que também existia uma representação, mas no caso o personagem era você mesmo, né?
Duelei muito internamente com isso. Do mesmo jeito que foi na Globo de fazer uma série. Porque me formei fazendo Antígona do Sofócles com o Marco Antônio Rodrigues, o diretor mais vertical, mais casca-grossa que poderia existir, e fui fazer Sandy & Junior três dias depois, entendeu? [risos] Quer dizer, é preciso estar aberto para o universo pop, coisa que não acontece muito com as pessoas do teatro. Mas na MTV sofri menos porque era o meu sonho. E tem outra... quando cheguei na MTV já tinha uma opinião formada sobre o que tava faltando na programação, o modo como queria atuar. O teste que fiz já era o Piores Clipes do Mundo, porque era uma coisa que sentia falta, uma molecagem, uma coisa questionadora. Então deu super certo. Sempre pensei em como queria atuar de acordo com o canal, com a situação, etc. Larguei a interpretação clássica, mas fui me virando com o que tinha na mão e criando tipos.
Mas esse teu personagem criado na MTV, e que de outra forma esteve também na Bandeirantes e na volta à MTV, mudou com o decorrer do tempo?
Esse personagem que criei - que é o cara que fala o que todo mundo quer falar, mas não tem coragem, que tira sarro, que é questionador, que é esse do Piores Clipes do Mundo - realmente foi um acerto e caiu como uma luva pra MTV. Poderia fazer ele por anos e anos porque é muito real pra mim. Ele na verdade sou eu com 15, 16 anos [risos]. Pra colocar um boné e falar atrocidades é um segundo pra mim. É muito orgânico. A primeira vez que não me pauto por ele está acontecendo agora com o Legendários, porque o objetivo aqui é atingir um público maior, de todas as idades, de todas as classes. O desafio é outro. Esse personagem que fiz na MTV não fala com 10 pontos de audiência. Ele é mais segmentado. Mas trago comigo e vou me adaptando conforme as situações. Se precisar ele volta.
Então foi uma necessidade tua dar uma pausa nesse personagem?
Foi sim. Porque o que mantém um artista vivo é o desafio. É acreditar que você tem que sair da sua zona de conforto. Porque eu tava querendo falar com um público mais próximo da minha idade, dos meus amigos, e também assuntos mais variados e não só do universo pop. Senti a necessidade de dar esse passo e de ampliar meu público.
Chega a ser uma frustração não trabalhar como ator?
Não, porque me apaixonei pela televisão e vi que ela é mais carente do que o teatro, na verdade. Não de verba, claro. Mas de alma e de gente apaixonada pelo meio. Eu me identifiquei muito com esse meio e sempre quis fazer diferença nele. Trabalhei em algumas peças de teatro, com gente que admiro muito, e que fizeram sucesso. Isso, de certa forma, aplacou minha frustração. Então, agora esse é o meu negócio. E é um desafio gigantesco, e que nunca acaba. Porque posso ser líder uma semana, mas essa minha liderança dura sete dias, né? Então é uma estreia semanal, um desafio que te consome absurdamente. No teatro, apesar de um dia ser diferente do outro, é mais garantido, porque você sabe onde o povo vai rir, ou melhor, onde existe a maior probabilidade deles rirem. Sabe quantas pessoas esperar na plateia. Aqui toda semana é uma loucura.
Chegamos ao Legendários. Nessa transição entre MTV e Record, já existia a ideia do programa ou foi algo que se construiu depois que você foi contratado pelo Record?
A essência do programa veio depois. Quer dizer, nunca chego de mãos abanando. Gostaria de fazer um programa de humor, porque é algo que sei fazer muito bem. Tinha essa vontade, mas não sabia como poderia ser, principalmente porque não conhecia a emissora à fundo. Só depois que entrei que fui saber melhor de como são as coisas por aqui... o código de ética, o padrão de qualidade. Aí esse programa de humor foi se adaptando e virou o que é o Legendários hoje, que não é um programa de humor, e sim de entretenimento baseado no humor. Acho que a gente é mais Fantástico do que Casseta & Planeta, Pânico ou qualquer coisa.
Já tinha ideia da faixa de horário, essas coisas?
Isso foi uma loucura. A gente começou com um programa de 2 horas durante a semana. Aí pesquisa, pesquisa, pesquisa, e a gente chegou a conclusão que era um programa pra terça ou quinta. Mas esses dias são as faixas de reality shows da Record, que eles já vem trabalhando há muitos anos pra consolidar. Tirando isso, nossa melhor opção era apostar no sábado. Porque faz tempo que não tem um programa ao vivo no sábado e o Zorra Total tá lá há muitos anos como única opção. E apesar dos humoristas do Zorra serem muito bons e saberem falar com o publico brasileiro na veia, acredito que tenha uma certa saturação em cima do programa. Não conheço ninguém que fale: "Nossa, é sábado! Vou ver Zorra!" [risos] Imaginamos que seria um lugar legal pra entrar e pegar essa fatia do mercado. Então nos instalamos no sábado com 1h20 de duração. Mas tenho elenco pra um programa de 2 horas.
E agora que você está com um programa maior e mais por dentro da produção dele em todas as etapas... como é agora a batalha da audiência pra você?
Essa pressão é real, existe. Estamos numa emissora que é a segunda do país e audiência é um parâmetro pra vários aspectos, tanto de anunciante quanto de imprensa e tudo mais. E a gente tem uma preocupação muito grande de falar com todo mundo. Vejo o Legendários como um supermercado. Tem que agradar todo mundo. Ninguém sai insatisfeito de um supermercado. Sempre se acha alguma coisa. Você pode não achar no primeiro ou no segundo corredor, mas acha no quarto e no quinto. Então a gente trabalha focando em todos os públicos e todas as idades, e nossa audiência tem sido boa.
Você acompanha a medição de audiência durante o programa?
Sim, acompanho. Essa é uma das motivações pra ter o programa ao vivo, pra poder mexer nas estratégias. A gente sai daqui com um espelho, um roteiro que é sempre concluído meia-hora antes do programa ir para o ar. Aí chega lá e... muda tudo. Por exemplo, muda de acordo com a hora que novela da Globo vai acabar. Aí a gente troca uma matéria por outra, e vai vendo, porque sabemos que quando a novela tá no ar a gente demora a pegar. A novela acabou? É a nossa hora. Se a audiência tiver boa, a gente segura o break e joga mais pra frente. Uma loucura.
Isso é novidade pra você.
É novo. Nesse grau de intensidade é totalmente novo. Mas é que nem jogar na seleção brasileira, entendeu? Quando termina um programa e as estratégias deram certo é como marcar um gol contra a Argentina. É a melhor coisa do mundo.
Logo depois do início do programa houve uma certa polêmica na internet desqualificando o programa porque fazia um "humor do bem". Como surgiu isso?
O Danilo Gentilli [do CQC] criou esse termo pra dar uma queimada. Olha, mas uma das coisas boas do Legendários é que pela primeira vez houve uma união entre o Pânico e o CQC [risos]. Isso foi bacana. Os dois mega-concorrentes se uniram contra um novo “inimigo”. Mas no final das contas a gente deu risada. Assim, quando comecei a conhecer a emissora, o público, as expectativas eu vi que era o caso de fazer uma coisa que tem muito mais a ver comigo hoje em dia. Sou pai de família, tô em outra pegada, penso muito mais no mundo pelo viés dos meus filhos, no povo mesmo. Televisão hoje em dia é educação. Tem uma grande parcela do país que se educa pela televisão. Então comecei a sair disso de fazer um programa de humor como o Pânico ou CQC e tentar uma vertente diferente. Não melhor, nem pior, só diferente. E o que fazia sentido pra mim? Fazer um programa positivo. Fazer um programa "do bem". E foi daí que surgiu essa história. Eu não quero que o cara ligue a TV no sábado a noite e veja um cara sendo humilhado, pessoas rindo da cara do povo ou apelando. Quero uma coisa que passe uma mensagem legal e que ao mesmo tempo fale pra toda família brasileira mesmo, entendeu? Que a avó e o neto possam assistir, conversar e gostar. Então começou essa história de fazer um programa positivo, que tivesse assistencialismo, que tivesse sustentabilidade, e tem humor também. Tem todo um leque. Eu não quero rir das pessoas. Eu quero rir com as pessoas. Isso gerou uma reação em alguns colegas que se apressaram pra tentar pixar o programa. Mas muito disso aconteceu só na internet, não chegou no povão não. Enfim, não criei esse termo, mas visto ele com o maior prazer. Porque uma piada não é apenas uma piada, tudo tem uma consequência. Não dá pra ser isento. Isso tem a ver com maturidade, com paternidade, com ter um conhecimento maior sobre o povo. É sair do microcosmos.
A vida do Legendários tá começando agora, tem pouco mais de dois meses. O que você planeja pro futuro dessa criança?
Tenho contrato com a Record até 2015 e acho que o Legendários terá uma vida longa, principalmente pela diversidade de assuntos que pode e deve abordar, porque a gente pode ir moldando ele de acordo com o que tá acontecendo no país.
Você sente falta de algo na televisão? Ou de algo que você ainda não fez?
Ah, quero fazer muita coisa ainda. Vendo os profissionais que estão na ativa hoje eu tenho mais uns 40 anos de TV, pelo menos [risos]. Dá pra fazer muita coisa.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

do lado de fora da cela

quase três anos depois voltei a escrever uma reportagem para o projeto generosidade (a outra tá aqui), e novamente na revista monet (agora na edição de julho). fui com o fotógrafo jefferson dias rumo a cidade paulista de votorantim, próximo a sorocaba, para saber mais sobre o tv cela, projeto que une as reeducandas da cadeia pública feminina da cidade na criação e realização de um programa que trata de saúde, mulheres, direitos humanos e cultura, entre outros assuntos (e que é exibido em tvs comunitárias e afiliadas da região). tudo feito por elas com o objetivo de quebrar uns tantos preconceitos da sociedade civil. projeto bacana e importante.

uma das coordenadoras do projeto, a jornalista luciana lopez, prende um lençol que serve para suavizar um pouco da luz natural, enquanto a apresentadora do tv cela (e detenta) iara mello observa

CORREDOR DA LIBERDADE

É dia de visita na Cadeia Pública Feminina de Votorantim, cidade que foi distrito de Sorocaba e fica a 100 km de São Paulo, e a alegria é palpável em cada conversa. Mas, como é habitual no sistema prisional brasileiro, existem mais bocas por aqui do que deveriam. Construída para abrigar 48, a cadeia está agora com 172 e já chegou a ter pouco mais de 200 reeducandas – termo utilizado para substituir os estigmatizados ‘detentas’ ou ‘presidiárias’ e que revela o desejo por ressocialização. Com tanta mulher junto, o burburinho não tem fim, nem mesmo quando chega a hora das visitas irem embora, pois a melancolia das despedidas é logo substituída pela euforia das lembranças. E elas cantam, batem palmas, riem. Mas o dia ainda não acabou e é hora de começar a gravação de mais um programa do TV Cela.

Criado e coordenado voluntariamente pelos jornalistas Werinton Kermes e Luciana Lopez, o TV Cela teve início em setembro de 2009 e é filho direto de um programa de rádio chamado Povo Marcado (e um posterior documentário de mesmo nome), realizado no mesmo local entre 2007 e 2008. O estímulo sempre foi muito claro e de mão dupla: os programas servem para desfazer preconceitos da sociedade sobre o universo da carceragem e, ao mesmo tempo, as detentas se descobrem capazes de habilidades até então desconhecidas, afinal são as próprias que assinam roteiro, produção, apresentação e câmeras.


“A gente não costuma perguntar sobre o passado, mas sabemos que a grande maioria das mulheres veio parar aqui por tráfico de drogas ou por associação ao tráfico. E quase todas ainda estão esperando, presas, a sentença. Por isso, nossos assuntos giram sempre sobre o futuro”, explica Luciana. E assim elas falam de saúde, cultura, direitos humanos, leis, beleza e trabalho, além de uma entrevista especial por programa, que é veiculados em canais comunitários como a TV Votorantim, e apoiado pela Associação Cultura Votorantim e pelo CEUNSP (Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio).

A “cela-estúdio” é montada rapidamente em um dos corredores da cadeia, enquanto um maquiador faz o seu trabalho na apresentadora Iara Mello e na cinegrafista Edicleusa Gomes que, experientes, estão no projeto desde o início. Existe um rodízio entre as integrantes da equipe que faz a TV Cela, um tanto para envolver um número maior de detentas, mas também por causa de ocasionais liberdades e transferências.

“O cotidiano aqui é muito parado, então quando o projeto apareceu foi uma maravilha, me deu uma nova esperança”, diz Edicleusa, mãe de três filhas e natural de Itu. “Sabe uma coisa que me impressionou? A repercussão do que a gente faz lá no blog e em cartas que recebemos. Tem do Brasil inteiro, principalmente depois de um programa que fizeram sobre a gente lá na ESPN”, explica Iara, que era auxiliar de modelista em Tietê e agora pensa em apresentar uma atração para jovens. No momento, e um pouco nervosa, entrevistará o respeitado jurista e político Hélio Bicudo que, antes de começar o programa, pede para conhecer a cadeia de cela em cela.

Tudo pronto e uma das detentas manda um “salve geral” para as colegas fazerem silêncio. A gravação transcorre dentro do mais calmo profissionalismo e é visível o encantamento de Bicudo ao se deparar com perguntas tão sérias quanto pertinentes. “Eu vi algo de novo aqui, nesse programa que desvenda uma prisão feminina. Foi muito gratificante participar”, declarou após cerca de uma hora de gravação. Então a noite cai e é hora de partir. Mas não para essas mulheres de Votorantim que já sonham com novos programas, enquanto a liberdade não chega.

p.s.: achei no amigão youtube um trecho desse programa com o hélio bicudo e que acompanhei a gravação. saca só.



também achei esse outro (mais interessante e melhor editado) com cenas do cotidiano da cadeia e bastidores de outras gravações. ao som de "metrô linha 743" (raul seixas) por cássia eller.


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

"esse negócio de 'musa da pornochanchada' é um rótulo, né?"

não fazia ideia, mas a atriz helena ramos, a musa de olhos obliquos do cinema brasileiro da década de 1970, mora muito perto da minha casa aqui em são paulo. dei um pulo lá, junto com o fotógrafo jefferson dias (autor das imagens que ilustram esse post), para uma reportagem pra revista monet de agosto. fiquei com a impressão que helena não é do tipo que pensa sobre a carreira ou que corre atrás de projetos próprios (pessoais ou não); ela simplesmente vai lá e faz. talvez por isso esteja afastada dos holofotes. não acho que seja uma boa atriz, mas tem uma presença inegável na tela e esteve numa série de filmes importantes em uma carreira que durou intensos dez anos.

dois agradecimentos públicos: a jefferson dias, que liberou essas imagens inéditas (as duas que entraram na revista são outras), e a beto ismael, editor do blog o pornochancheiro, que tirou de seu arquivo pessoal as fotos que ilustraram a matéria na revista (algumas estão aqui).


p.s.: o canal brasil comemora 11 anos neste mês e está de sinal aberto e com uma programação especialmente matadora, com direito a um show inédito de seu jorge, os documentários santiago de joão moreira salles e loki - arnaldo baptista, pedrinha de aruanda de maria bethânia, nova temporada do tarja preta do selton mello e essa retrospectiva de helena ramos, entre outras atrações.

MULHER DE TODOS

Helena está lá no fim do corredor, esperando, toda arrumada. O sol da manhã paulistana banha sua presença com muita delicadeza e dá para notar que ela sabe muito bem como se colocar sob uma luz favorável, mesmo afastada do cinema há mais de vinte anos. Atriz-símbolo da pornochanchada brasileira, Helena Ramos atuou em 42 filmes em um intenso período que durou exatos dez anos e uma parte considerável de sua filmografia, 16 longas, estará na tela do Canal Brasil em uma retrospectiva especial. A voz inconfundivelmente pequena nos convida, repórter e fotógrafo, a entrar em seu apartamento térreo.

“Tinha até separado umas fotos. Deveriam estar aqui, não estão mais. A gente vai emprestando... é que tô fazendo meu site e acho que foi pra lá. É que também sou artista plástica e vou colocar lá meus quadros”, desculpa-se apontando para alguns exemplares de seu novo trabalho artístico espalhados pelas paredes da sala. Paulista de Cerqueira César, distante 300 km da capital, Helena Ramos nunca pensou em ser atriz. Nascida em 1953, a caçula de cinco irmãos queria ser médica, mas seus pais se separaram muito cedo e sua infância/adolescência acabou sendo tumultuada por isso. Estudou em um colégio de freiras em Campos do Jordão e depois, já em São Paulo, trabalhou como balconista de farmácia e lapidadora numa fábrica de cristais até sua vida mudar, em 1971, quando foi com a mãe no programa de Silvio Santos, então na TV Globo. O próprio apresentador a convidou para ser “telemoça”, uma espécie de assistente de palco, e lá se foi Helena fazer cenário durante três anos.

Então veio o cinema. O diretor Roberto Mauro convidou a moça tímida, muito católica e na flor de seus 20 e poucos anos para um papel em um filme de título sugestivo: As Cangaceiras Eróticas. “Foi um baque porque não tinha intenção de ser atriz. Não achei que fosse conseguir ficar nua. Quase fui embora, era muito imatura, só que foi muito legal. Ali decidi meu destino. Depois comecei a ver que maravilha era o cinema. Via os copiões, o que a gente filmava durante o dia, e adorava saber da parte técnica, das câmeras, do jogo de lentes, da luz pra colocar de acordo com o clima da cena.” Sim, Helena Ramos ficou nua na estreia, mas só um pouquinho.

Durante os cinco anos seguintes participou de inúmeros longas como coadjuvante, desde comédias malucas como Kung Fu Contra as Bonecas e Bacalhau, ambas dirigidas por Adriano Stuart em 1975, até dramas como Lucíola, o Anjo Pecador, baseado em romance de José de Alencar. “[Ficar nua] ajudou a me sentir mais segura, a me deixar mais desinibida, porque era do tipo que tinha vergonha de tudo. E o ator, acima de qualquer coisa, não pode ser preconceituoso. Se tiver pudores nunca será um grande ator. Foi isso que fui eliminando.”

Em 1979, Helena tornou-se protagonista em Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel, outra adaptação de José de Alencar, e a matemática era simples: mais tempo na tela, mais partes do corpo in natura. Claro que a essa altura isso já não era mais um problema. “Todo mundo diz isso, mas é verdade que o ambiente de filmagem era muito profissional. Agora, as cenas eróticas eram difíceis de fazer, pelo menos pra mim, porque era complicado passar toda aquela intenção, passar uma verdade dentro de uma grande mentira.”

A atriz seguiu caprichando em filmes lendários como Mulher, Mulher, de Jean Garret, e Convite ao Prazer, de Walter Hugo Khoury, mas foi em 1981, quando a pornochanchada começava a dar seus últimos suspiros de prazer, que veio seu maior sucesso. Último dos quatro filmes dirigido por Silvio de Abreu, que dividia seu tempo com uma iniciante carreira de escritor de novelas, Mulher Objeto cristalizou de vez Helena Ramos no imaginário masculino nacional. Invariavelmente ela era distante, aparentemente frígida, mas de uma hora para outra podia perder a cabeça, subir as paredes, fazer loucuras, virar olhinhos, enfim, vocês entenderam. “Esse negócio de ‘musa da pornochanchada’ é um rótulo, né? Nunca gostei, achava depreciativo porque fiz filmes muito interessantes, que foram muito significativos na época, mas sabe como é a mídia, né? Quando cisma com um negócio, é aquilo, é aquilo e não tem jeito.”

O ano de 1984 marcou a última (até agora) participação da atriz em um set de cinema (no filme Volúpia de Mulher). A escolha por cuidar de sua única filha, nascida em 1982, e seguidas turnês de teatro pelo interior do país a afastaram do cinema e da TV, veículos em constante transformação. Cansada de esperar por convites foi com a filha para os Estados Unidos, no início da década de 1990, onde estudou fotografia e artes plásticas para se reinventar. “Não perdi interesse por atuar não, imagine. Adoro minha arte, gosto de representar. Mas é que às vezes as coisas não acontecem, simplesmente não acontecem.”
Importante então é não se perder, apesar de eventuais portas fechadas. Helena tem planos de uma exposição de seus quadros e, acima de tudo, de um programa de entrevistas com o pessoal mais trabalhador e menos glamouroso do cinema, os técnicos. É uma paixão sua que pouca gente conhece. Mas quer mesmo é voltar a atuar. “Exercitar a arte de representar te faz mais humano. A gente passa a entender melhor as pessoas e aceitá-las como são.” Musa desinibida de outrora, Helena Ramos quer se perder no meio dessa gente.
Confira abaixo a programa completa da retrospectiva:

dia 08.09, terça, 0h30 - Retratos Brasileiros - Helena Ramos (2009) + As Cangaceiras Eróticas (1974)
dia 09.09, quarta, 0h30 - Convite ao Prazer (1980)
dia 10.09, quinta, 0h30 - As Mulheres Sempre Querem Mais (1974)
dia 11.09, sexta, 0h30 - Lucíola, O Anjo Pecador (1975)
dia 15.09, terça, 0h30 - Possuídas pelo Pecado (1976)
dia 16.09, quarta, 0h30 - Iracema, A Virgem dos Lábios de Mel (1979)
dia 17.09, quinta, 0h30 - Crazy – Um Dia Muito Louco (1981)
dia 18.09, sexta, 0h30 - O Clube das Infiéis (1974)
dia 22.09, terça, 0h30 - Mulher, Mulher (1979)
dia 23.09, quarta, 0h30 - Palácio de Vênus (1980)
dia 24.09, quinta, 0h30 - As Intimidades de Analu e Fernanda (1980)
dia 25.09, sexta, 0h30 - Mulher Objeto (1981)
dia 29.09, terça, 0h30O - Bem Dotado – O Homem de Itu (1977)
dia 30.09, quarta, 0h30 - Volúpia de Mulher (1984)
dia 1º.10, quinta, 0h30 - Noite em Chamas (1978)
dia 02.10, sexta, 0h30 - Corpo e Alma de Mulher (1983)


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