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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

cinema dos 70, uma listinha

nasci nos anos 70 – mais precisamente 1974 – então é claro que tenho um certo carinho pela década mais louca, suja e malvada do século 20. mas só fui me dar conta da profundidade cinematográfica da época muitos anos depois, já adulto. tinha visto um ou outro clássico em corujões, sessões da tarde ou VHS, e depois outros em DVD ou TV a cabo, e finalmente muito mais nos torrents ou streamings do site internet.

fascinante ver o tanto de beleza e loucura dos filmes dessa época e de como as novidades e experimentações radicais da década anterior [câmeras na mão, luz natural, edição não linear, zoom, etc] ganharam uma maturidade perturbadora. daí que fui montando uma lista com os meus filmes preferidos dessa década, ano a ano. claro que tem coisa faltando, coisa que não vi ou não gostei, e espero que consiga lembrar de atualizar. de qualquer forma, segue o fio...

Orson Welles, mestre, em Ardil 22

1970
ARDIL 22 (CATCH-22, Mike Nichols)
DODESKADEN (Akira Kurosawa)
GIMME SHELTER (Albert Maysles, David Maysles e Charlotte Zwerin)
M.A.S.H (Robert Altman)
O CONFORMISTA (IL CONFORMISTA, Bernardo Bertolucci)
OS PALHAÇOS (I CLOWNS, Federico Fellini)
PEQUENO GRANDE HOMEM (LITTLE BIG MAN, Arthur Penn)
ZABRISKIE POINT (Michelangelo Antonioni)

Corrida Sem Fim, clássico indie dirigido por Monte Hellman

1971
A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (THE LAST PICTURE SHOW, Peter Bogdanovich)
AS AVENTURAS DE M. HULOT NO TRÁFEGO LOUCO (TRAFIC, Jacques Tati)
CORRIDA CONTRA O DESTINO (VANISHING POINT, Richard C. Sarafian)
CORRIDA SEM FIM (TWO LANE BLACKTOP, Monte Hellman)
ENCURRALADO (DUEL, Steven Spielberg)
LARANJA MECÂNICA (A CLOCKWORK ORANGE, Stanley Kubrick)
MACBETH (Roman Polanski)
MORTE EM VENEZA (DEATH IN VENICE, Luchino Visconti)
O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (THE BEGUILED, Don Siegel)
OPERAÇÃO FRANÇA (FRENCH CONNECTION, William Friedkin)
QUANDO EXPLODE A VINGANÇA (GIU LA TESTA, Sergio Leone)
SOB O DOMÍNIO DO MEDO (STRAW DOGS, Sam Peckimpah)
THX-1138 (George Lucas)

Barbra Streisand numa das comédias 
mais divertidas de todos os tempos, 
Essa Pequena é uma Parada

1972
A INOCENTE FACE DO TERROR (THE OTHER, Robert Mulligan)
AGUIRRE, A CÓLERA DOS DEUSES (AGUIRRE, DER ZORN GOTTES, Werner Herzog)
AMARGO PESADELO (DELIVERANCE, John Boorman)
CABARET (Bob Fosse)
CIDADE DAS ILUSÕES (FAT CITY, John Huston)
ESSA PEQUENA É UMA PARADA (WHAT'S UP, DOC?, Peter Bogdanovich)
GRITOS E SUSSURROS (VISKINIGAR OCH ROP, Ingmar Bergman)
O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA (LE CHARME DISCRET DE LA BOURGEOISIE, Luis Buñuel)
O PODEROSO CHEFÃO (THE GODFATHER, Francis Ford Coppola)
ÚLTIMO TANGO EM PARIS (LAST TANGO IN PARIS, Bernardo Bertolucci)
SONHOS DE UM SEDUTOR (PLAY IT AGAIN, SAM, Herbert Ross)

Magali Noel em Amarcord, um dos muitos pontos altos 
da gigantesca carreira de Fellini

1973
A NOITE AMERICANA (LA NUIT AMERICAINE, François Truffaut)
AMARCORD (Federico Fellini)
CAMINHOS PERIGOSOS (MEAN STREETS, Martin Scorsese)
GOLPE DE MESTRE (THE STING, George Roy Hill)
INVERNO DE SANGUE EM VENEZA (DON'T LOOK NOW, Nicolas Roeg)
LUA DE PAPEL (PAPER MOON, Peter Bogdanovich)
O DORMINHOCO (SLEEPER, Woody Allen)
O EXORCISTA (THE EXORCIST, William Friedkin)
OPERAÇÃO DRAGÃO (ENTER THE DRAGON, Robert Clouse)
OS AMIGOS DE EDDIE COYLE (THE FRIENDS OF EDDIE COYLE, Peter Yates)
SERPICO (Sidney Lumet)
TERRA DE NINGUÉM (BADLANDS, Terrence Malick)
TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA (Arnaldo Jabor)
VERDADES E MENTIRAS (F FOR FAKE, Orson Welles)

Warren Oates em um dos filmes mais selvagens e 
menos conhecidos de Peckimpah, 
Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia

1974
A CONVERSAÇÃO (THE CONVERSATION, Francis Ford Coppola)
CHINATOWN (Roman Polanski)
CORAÇÕES E MENTES (HEARTS AND MINDS, Peter Davis)
GOLPE BAIXO (THE LONGEST YARD, Robert Aldrich)
LENNY (Bob Fosse)
MARTHA (Rainer Werner Fassbinder)
O JOVEM FRANKENSTEIN (YOUNG FRANKESTEIN, Mel Brooks)
O PODEROSO CHEFÃO II (THE GODFATHER PART 2, Francis Ford Coppola)
O SEQUESTRO DO METRÔ (THE TAKING OF THE PELHAM ONE TWO THREE, Joseph Sargent)
OPERAÇÃO YAZUKA (THE YAKUZA, Sydney Pollack)
TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA (BRING ME THE HEAD OF ALFREDO GARCIA, Sam Peckimpah)
UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA (A WOMAN UNDER THE INFLUENCE, John Cassavetes)

Grey Gardens, mais uma das obras primas 
documentais dos irmãos Maysles

1975
BARRY LYNDON (Stanley Kubrick)
BLACK MOON (Louis Malle)
GREY GARDENS (Albert Maysles, David Maysles, Ellen Hovde e Muffie Meyer)
KUNG FU CONTRA AS BONECAS (Adriano Stuart)
MONTY PYTHON EM BUSCA DO CÁLICE SAGRADO (MONTY PYTHON AND THE HOLY GRAIL, Terry Jones e Terry Gilliam)
NASHVILLE (Robert Altman)
O DIA DO GAFANHOTO (THE DAY OF THE LOCUST, John Schlesinger)
O HOMEM QUE QUERIA SER REI (THE MAN WHO WOULD BE KING, John Huston)
SALÓ, OU OS 120 DIAS DE SODOMA (SALÒ, O LE 120 GIORNATE DI SODOMA, Pier Paolo Pasolini)
O REI DA NOITE (Hector Babenco)
OPERAÇÃO FRANÇA II (FRENCH CONNECTION, John Frankenheimer)
PROFISSÃO: REPÓRTER (THE PASSENGER, Michelangelo Antonioni)
ROLLERBALL – GLADIADORES DO FUTURO (ROLLERBALL, Norman Jewison)
TUBARÃO (JAWS, Steven Spielberg)
UM DIA DE CÃO (DOG DAY AFTERNOON, Sidney Lumet)
UM ESTRANHO NO NINHO (ONE FLEW OVER THE CUCKOO'S NEST, Milos Forman)
UM LANCE NO ESCURO (NIGHT MOVES, Arthur Penn)

Peter Finch na cena clímax de Rede de Intrigas

1976
1900 (NOVECENTO, Bernardo Bertolucci)
A ÚLTIMA LOUCURA DE MEL BROOKS (SILENT MOVIE, Mel Brooks)
CARRIE, A ESTRANHA (CARRIE, Brian De Palma)
DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (Bruno Barreto)
O INQUILINO (LE LOCATAIRE, Roman Polanski)
REDE DE INTRIGAS (NETWORK, Sidney Lumet)
TAXI DRIVER (Martin Scorsese)

Diane Keaton e Woody Allen em 
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

1977
A CRUZ DE FERRO (CROSS OF IRON, Sam Peckimpah)
ALTA ANSIEDADE (HIGH ANXIETY, Mel Brooks)
CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU (CLOSE ENCOUNTERS OF THE THIRD KIND, Steven Spielberg)
ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO (CET OBSCUR OBJET DU DESIR, Luis Buñuel)
LÚCIO FLÁVIO, O PASSAGEIRO DA AGONIA (Hector Babenco)
NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (ANNIEL HALL, Woody Alen)
O AMIGO AMERICANO (DER AMERIKANISCHE FREUND, Wim Wenders)
O OVO DA SERPENTE (THE SERPENT'S EGG, Ingmar Bergman)
O TRAPALHÃO NAS MINAS DO REI SALOMÃO (J.B. Tanko)
OS DUELISTAS (THE DUELISTS, Ridley Scott)
STAR WARS (George Lucas)

Robert De Niro no épico O Franco Atirador

1978
A DAMA DO LOTAÇÃO (Neville de Almeida)
A FÚRIA (THE FURY, Brian De Palma)
A LIRA DO DELÍRIO (Walter Lima Jr.)
CINZAS NO PARAÍSO (DAYS OF HEAVEN, Terrence Malick)
CLUBE DOS CAFAJESTES (ANIMAL HOUSE, John Landis)
O FRANCO ATIRADOR (THE DEER HUNTER, Michael Cimino)
OS TRAPALHÕES NA GUERRA DOS PLANETAS (Adriano Stuart)
PRETTY BABY (Louis Malle)

Roy Scheider no musical All That Jazz de Bob Fosse

1979
A VIDA DE BRIAN (LIFE OF BRIAN, Terry Jones)
ALCATRAZ - FUGA IMPOSSÍVEL (ESCAPE FROM ALCATRAZ, Don Siegel)
ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO (ALIEN, Ridley Scott)
APOCALYPSE NOW (Francis Ford Coppola)
MANHATTAN (Woody Allen)
NOSFERATU - O VAMPIRO DA NOITE (NOSFERATU: PHANTOM DER NACHT, Werner Herzog)
O CASAMENTO DE MARIA BRAUN (DIE EHE DER MARIA BRAUN, Rainer Werner Fassbinder)
O SHOW DEVE CONTINUAR (ALL THAT JAZZ, Bob Fosse)

terça-feira, 8 de abril de 2014

buster keaton em gifs

buster é um dos heróis aqui do esforçado. já apareceu por aqui de diversas formas e até mesmo em gifs [para ilustrar textos do yahoo], mas nunca numa coleção assim especial. é que tava navegando pelo gif movie e achei uns, depois outros no fuck yeah buster keaton e mais outros na própria busca do tumblr. daí juntei nessa historinha aí que tem cenas do curta one week (1920) e dos longas the general (1926) e steamboat bill jr. (1928).



Buster Keaton’s One Week (1920) for orange-ette



Chimney construction with Buster Keaton







terça-feira, 15 de outubro de 2013

e se houvessem gifs na renascença?

quem te responde é jamer kerr, canadense de montreal, no tumblr scorpion dagger. tem gif novo (quase) todo dia.














via @_cecilialara com link para o pêssega d'oro.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

um anda bonito, o outro elegante

taí o primeiro frila para a revista top magazine: perfil de kadu dantas, disputado blogueiro de moda masculina. conversa boa a do mineiro que segue aqui em perfil na boa e velha versão original e sem revisão (na revista, o texto editado vem acompanhado das belas fotos de larissa felsen). esse gif espertinho peguei do blog dele.


BKLOOKGIF

UM CLÁSSICO QUE OUSA

Saiba como Kadu Dantas criou um blog de moda masculina e em menos de um ano se tornou referência em elegância no Brasil

Ele não anda, ele desfila. O tempo até virou e o sol foi embora em São Paulo, mas Kadu Dantas, 31 anos, encara com uma invejável naturalidade poses, olhares e movimentos para as fotos que ilustram este perfil. Chega a sugerir uma coisa ou outra e a fotógrafa elogia tamanha desenvoltura. “A gente sabe o que funciona, né?”, confessa sem falsa modéstia. Jornalista por acidente e estiloso desde que se entende por gente, o mineiro de Alfenas se transformou rapidamente em uma das referências de elegância masculina no mundo fashion paulistano. E tudo em decorrência de um blog que criou há pouco mais de um ano, veja só você. Mas antes do surgimento do Blog do Kadu muita coisa aconteceu na vida deste rapaz.



“Saí de Alfenas e fui fazer Odontologia em Ribeirão Preto, mas não me interessei e saí no último ano. Nesse meio tempo meus pais se mudaram para Belo Horizonte e fui pra lá. Queria prestar Publicidade, mas acabei entrando em Jornalismo e me identifiquei muito”, relembra.  Foi na capital de Minas Gerais que a vida de Kadu deu a primeira virada. Uma virada com nome e sobrenome: Mariana Maffei Feola. “Conheci a Mariana e ficamos muito amigos e ela me convidou para passar as férias de janeiro na casa da família dela em Orlando, nos Estados Unidos. Ah, claro, vou sim... imagina, estudante, vivendo de mesada”.

Daí que um belo dia toca o telefone da casa de Kadu. Era uma sexta-feira e do outro lado da linha a mãe de Mariana reiterava o convite. Foi só então que descobriu que Mariana era filha de ninguém menos que a apresentadora Ana Maria Braga. Não só as férias glamourosas aconteceram como Kadu foi convidado estagiar em jornalismo no programa Mais Você (TV Globo). “Como meus pais não moravam mais em Belo Horizonte, não tinha nada que me prendesse a cidade, então juntei minhas coisas e vim pra São Paulo. Fazia de tudo no programa, desde escolher receita até sugerir pautas. Isso foi em 2006. Fiquei lá 8 meses. Foi uma experiência muito legal, mas vi que televisão não era pra mim”.



Em São Paulo, Kadu começou a se desdobrar em muitos. Transferiu a faculdade de jornalismo, trabalhou em eventos, fez assessoria de imprensa e foi costurando uma rede de contatos que mais tarde se mostraria decisiva em sua vida. E, com apenas dois anos de cidade, conseguiu montar um negócio próprio, feito admirável em um mercado altamente competitivo. Nasceu então, em 2008, a Ray Comunicação, uma assessoria de imprensa com foco em moda. “Sempre gostei de moda, desde pequeno, sempre me interessei”.

Quatro anos se passaram, o negócio já andava com as próprias pernas, e o irrequieto Kadu Dantas sentiu aquele comichão por novos desafios. Numa reunião de trabalho, em meio a uma brincadeira sobre blogueiras de moda, disse que faria o seu próprio e que seria melhor. Acabou descobrindo em uma pesquisa na internet que não existia no Brasil, nem no mundo, um blog exclusivamente dedicado a moda masculina com looks diferentes todo dia (menos domingo, que é dia de descanso). Tinho um nicho ali e Kadu viu que era unir o útil ao agradável, afinal era constantemente elogiado pelo bom gosto no vestir.



“Comecei a fazer despretensiosamente. Primeiro com fotos das roupas montadas no chão, depois no espelho do elevador, mas por causa da minha rede de contatos já tive um número de acessos muito bacana no primeiro final de semana. Fiquei surpreso. Mas depois que fui convidado por uma marca para cobrir a Semana de Moda de Nova York, com apenas um mês de blog, vi que não dava pra continuar no amadorismo e contratei um fotógrafo”. O resultado direto dessa ação foi o aumento expressivo de acessos ao Blog do Kadu, que hoje chegam a 70 mil visitantes únicos por mês, uma média de 250 mil pageviews/mês.

“Não sabia se ia dar certo, tinha medo de ser até apedrejado porque quer queira quer não vivemos num país preconceituoso e sou gay assumido, casado, feliz. Mas o engraçado é que a maioria das perguntas que recebo são de leitores héteros. Sabe aqueles que a mulher diz ‘Veja esse blog pra você aprender a se vestir melhor’? [risos]. Acho que já ficou pra trás essa coisa de quem gosta de moda é gay. Eu, no blog, falo com todo mundo”. Pelo retorno de seus leitores, Kadu descobriu que as pessoas se interessavam em sua opinião e no seu (bom) gosto porque ele é uma pessoa real. E o que é de verdade tem credibilidade.



A imagem de Kadu, sempre elegante e desenvolto pelas ruas do Jardins, começou a rodar velozmente pela internet, o que lhe rendeu uma participação no programa Sob Medida (Rede TV) e muitos convites de parcerias. “Blog de moda é um jeito das marcas chegarem mais rapidamente a esse tipo de consumidor que é exigente e difícil, que é o masculino. Mas só aparecem no meu blog marcas que uso e que fazem parte do meu lifestyle. Não tenho contrato de exclusividade com ninguém. Uso o que quero independente de parcerias. Não posso subestimar meu leitor porque quando você fica muito vendido as pessoas percebem”.

No que depender de sua infindável curiosidade isso não vai acontecer, pois Kadu acredita que a moda é maior que uma marca ou outra, e um relógio vagabundo de plástico pode conviver muito bem com uma bolsa de Milão. “Um amigo me definiu do seguinte jeito: ‘Você é um clássico que ousa’. É exatamente isso. Não sou moderno, mas sempre coloco alguma coisa que faça a roupa ficar mais ousada”. Começa então a lembrar de cabeça alguns homens chiques com quem se identifica: os estilistas Tom Ford e Michael Bastian, o produtor musical Mark Ronson, os atores ícones Marlon Brando e Steve McQueen, e o brasileiro Oskar Metsavaht. “Elegância está mais ligada a atitude e comportamento que na roupa em si. Mas se isso vier numa embalagem boa, fica melhor ainda, entendeu? [risos]”.

Embaixador no Brasil de marcas internacionais, único blogueiro do mundo a visitar a fábrica da Louis Vuitton na França e a transmitir desfiles na internet, Kadu Dantas diz que jamais imaginaria que sua paixão pela moda iria lhe trazer tantas surpresas. “Com um ano de blog realizei 80% dos meus sonhos. Fui a todas as principais semanas de moda do mundo, tive acesso aos bastidores e conheci a maioria dos grandes estilistas. É muita felicidade. Por isso procuro fazer o blog cada vez com mais empenho, buscando sempre o melhor pros meus leitores, mas sem largar a Ray Comunicação, que foi uma importante conquista pessoal”.

Ao seu lado, no sofá, a vira-lata Chloe dá uma olhada e entende tudo. Esse dono que ela arrumou não vai aquietar o facho tão cedo.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

no fundo do mato-virgem nasceram uns gifs

e o pessoal do tumblr gif movie andou memetizando a antropofagia cinematográfica de macunaíma (1969) de joaquim pedro de andrade. fiz uma seleção, mas tem mais aqui (nem todas ficaram boas). saca só.


Macunaima (1969)
Macunaima (1969) Movie
Macunaima (1969)
Macunaima (1969)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

mexidão #33

nunca me identifiquei direito com o humor cearense, talvez porque só tenha vivido lá até os 9 anos. mas quando vi o trailer de cine holliúdy, longa fenômeno de bilheteria dirigido por haldon halder gomes, parece que fiz as pazes, rolou um reencontro. o sotaque, a velocidade da fala, o deboche, as gírias, tudo é familiar e foi uma delícia ver isso retratado em um filme. não assisti ainda, claro, pois a estratégia de lançamento privilegiou o ceará e a partir dessa sexta, 30 de agosto, o resto do norte e nordeste. sul e sudeste, atrasadões, ficaram para depois. enquanto isso, só posso ficar rindo de rachar com o moleque falando "ô cego ignorante" pro personagem do falcão. posso também, como fiz no yahoo, bater um papinho com o diretor desse filme profundamente cearense.



O CINEMA PARADISO DA FULERAGEM

Por essa pouca gente esperava. Uma comédia independente, sem atores famosos, cearense e com legendas (isso mesmo, legendas pra entender melhor o “cearensês”), pode ser o grande sucesso nacional de 2013, desbancando o atual hit do ano, Minha Mãe é uma Peça. Mesmo que fique em segundo lugar, o longa Cine Holliúdy já é um grande vencedor, afinal estreou na semana passada em alguns cinemas de Fortaleza, Sobral, Maracanaú e Limoeiro do Norte e vendeu 43 mil ingressos em apenas 6 dias (45% do total da bilheteria do Estado). São números impressionantes e que prometem aumentar quando o filme de Haldon Halder Gomes estrear, em 30 de agosto, em outras cidades e capitais do Norte e Nordeste (Sul, Sudeste e Centro Oeste ficarão mais pra frente numa interessante e regionalizada nova estratégia de lançamento).

Rodado em seis semanas e com um orçamento de R$ 1 milhão, Cine Holliúdy é a história de Francisgleydisson (Edmilson Filho), um homem apaixonado por cinema que organiza, junto com a mulher e o filho, exibições improvisadas de filmes em uma cidade no interior do Ceará, na década de 1970. A divertida fauna humana da cidade e as confusões geradas por um projetor quebrado completam o quadro dessa comédia escrachada e profundamente cearense. E as legendas servem para outros Estados entenderem palavras como “catrevagem”, “espilicute”, “bonequeiro”, “cangapé” ou expressões como “tenha nervo”, “do tempo que o King Kong era soim” e “chiba nos possuídos”.

Diretor de filmes de ação (Sunland Heat), terror (The Morgue) e drama espírita (As Mães de Chico Xavier), Haldon Halder Gomes batalhou durantes anos para transformar um curta que fez em 2004 (Cine Holiúdy - O Astista Contra o Cabra do Mal) em um longa que homenageasse as coisas que mais ama na vida: o cinema, o humor e sua terra. E agora está feliz “que só uma porra”. Falaí, macho réi.


Como foram as exibições em Fortaleza?
Sensacionais! Todas as sessões esgotadas horas e dias antes, em todos os cinemas e em todos os horários. As pessoas não saem simplesmente satisfeitas - o que já seria excelente -, mas, sim, militantes do filme. Tenho visitado e aberto sessões diariamente nos cinemas da cidade pra agradecer este carinho.

E sua expectativa pra recepção do filme em outras regiões do Brasil, especialmente Sul e Sudeste?
Também espero uma ótima recepção. O filme já esteve em vários lugares do mundo, e andou pelo Brasil, em festivais, e tem encantado por onde passa. É uma história de amor universal, acima de tudo. Muitos críticos o chamaram de Cinema Paradiso Brasileiro.

Em seus filmes anteriores você trabalhou em gêneros (ação, comédia, terror) e temas (espirituosidade) bastante populares. Que cineastas ou artistas são referências no seu trabalho? Que outros tipos de gêneros você gostaria de trabalhar?
Minha vida sempre foi muito intensa e eclética de universos: luta, surf, futebol, artes plásticas, etc. Quero contar histórias com que me identifico, por isso esta pluralidade. Não tenho tantas referências, sou mais de fazer reverências a muita gente e coisas que gosto, como pintura, músicas, filmes, futebol, etc. Isto sempre está presente nos meus filmes. No momento, quero fazer mais comédias de ação, em parceria com a Downtown Filmes,  e, em seguida, um filme autoral, sobre um pintor no fim da vida, Vermelho Monet.

Haldon Halder Gomes no set de Cine Holliúdy; peguei a foto aqui

Ouvi você falando em outras entrevistas que existe uma procura consciente da sua parte pelo público, pela comunicação com a plateia. O que você acha que os brasileiros querem ver na tela? E como lutar contra Hollywood?
Sim, faço minhas pesquisas empíricas de mercado. Procuro nichos latentes e seus anseios. O cinema nacional precisa saber se posicionar e compreender sua diversidade cultural e regionalização em virtude de suas dimensões continentais e populacionais. Cine Holliúdy está aí pra mostrar ao cinema nacional independente como enfrentar Hollywood.

O que você aprendeu nos seus anos de Estados Unidos em termos de produção e comunicação?
Uni meus conhecimentos em administração de empresas e especialização em marketing a aplicação no cinema, como produção e lançamento. Pude aprender o que eles fazem de melhor e aplicar à nossa realidade, com precisão e cadeia produtiva, sem perder a autoralidade.

O Ceará é muito conhecido por seu humor e seus humoristas. Como você descreveria o humor cearense?
O humor cearense é diferenciado devido a nossa capacidade de saber rir de si, de não ter barreiras para a piada sem medo de perder o amigo. Este exercício diário de humor aguçado nos deixa mais criativos e com timing perfeito pro humor. Tanto é que no Ceará não existe bullying. Nós temos o anti-bullying, que é uma expressão local que diz “Aí dentu!”. Assim, todo mundo tira onda com todo mundo, e assim vivemos um show de humor no cotidiano.

com vocês, o curta cine holiúdy - o astista contra o cabra do mal.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

mexidão #24 e #31

entre inúmeros passaralhos e algumas novidades, o jornalismo brasileiro tem sido alvo de muitas e importantes discussões. tratei do assunto recentemente em duas colunas no yahoo. no final de junho entrevistei o colega bruno torturra sobre a mídia ninja e agora no início de agosto tratei das demissões que chegaram a editora abril (com direito a várias revistas fechadas como a bravo). resolvi reunir os dois textos aqui no esforçado e ainda acrescentei o programa roda viva, que foi ao ar ontem e entrevistou torturra e pablo capilé (fora do eixo).


JORNALISMO EM FOGO CRUZADO

São Paulo, 18 de junho de 2013. Duas horas após um grupo de alucinados tentarem invadir a Prefeitura de São Paulo, o Choque da PM do governador Geraldo Alckmin chegou ao centro da cidade e foi subindo até a Avenida Paulista expulsando todo mundo da rua com bombas e gás. Quando chegaram ao cruzamento da Paulista com a Rua da Consolação encontraram um painel da Coca Cola em chamas e o cercaram. Ninguém mais pode se aproximar a não ser dois catadores de latinha que fizeram a festa com os restos do painel-propaganda.

Belo Horizonte, 26 de junho de 2013. Dez minutos após a PM do governador Antônio Anastasia expulsar com bombas e gás centenas de manifestantes que estavam pacificamente na Praça 7 de Setembro, um trio elétrico aparece. Nada de Daniela Mercury ou Ivete Sangalo, e sim o Comandante Xuxa (sim, esse era seu nome) da PM mineira com o microfone na mão a falar que a polícia estava devolvendo a cidade às “pessoas de bem nesse momento histórico de resgate da democracia”.

Quem acompanhou ou está acompanhando as manifestações que tomaram o país neste junho pela mídia tradicional nem chegou perto dessas aparentemente pequenas, mas muito reveladoras, cenas brasileiras. Bem, pra falar a verdade, quem está acompanhando as manifestações pela mídia tradicional não está sabendo de muita coisa além de “pequeno grupo de vândalos” ou “a PM jogou bombas de efeito moral para conter a manifestação” e um bando de análises chutadas de especialistas que não tem a mínima ideia do que está acontecendo.

O pessoal da mídia Ninja também não sabe o que está acontecendo, mas eles estão cobrindo as manifestações em várias cidades com disposição, sangue frio e interesse, e tudo ali de muito perto da ação em transmissões ao vivo e sem cortes pela internet (vi as cenas descritas no alto do texto durante as transmissões). É, sem sombra de dúvida, o mais interessante acontecimento jornalístico desses novos tempos. Daí que fui conversar com o jornalista Bruno Torturra (@torturra), um dos idealizadores e linha de frente do Ninja, sobre a origem, os métodos e a assumida não-neutralidade da cobertura que estão fazendo dos protestos Brasil afora.

Belo Horizonte, 26.06.13 [foto: Mídia NINJA]

Você pode contar um pouco da história do surgimento (quando, como) da mídia Ninja e qual seu propósito. E quais outras coberturas importantes que vocês fizeram nesse período de existência.
O Ninja vem sendo pensado e articulado nos bastidores há alguns meses a partir da experiência da postv.org e de coberturas fotográficas pontuais que fizemos em rede. Antes de ser um veículo, começou como a tentativa de pensar e experimentar uma rede de jornalismo independente e descentralizada. Recentemente, no texto “O Ficaralho”, fizemos um chamado público para uma reunião aberta para a apresentação de um projeto e da criação de um banco de colaboradores. No dia da reunião [13 de junho], com mais de 300 confirmados, tivemos que adiá-la por conta do protesto do Passe Livre que terminou sendo o mais reprimido pela PM. Em vez de lançá-lo como um projeto, o Ninja acabou se lançando como um veículo na rua naquele dia. Outras coberturas importantes que fizemos: o Fórum Social Mundial na Tunísia, o julgamento dos acusados pelo assassinato de Zé Cláudio e Maria em Marabá. A cobertura de conflitos entre fazendeiros e povos indígenas no Mato Grosso. Os blocos de rua de SP e algumas cidades do Brasil. E incontáveis marchas e protestos pelo país.

Essas manifestações certamente estão sendo uma prova de fogo (tecnológica e conceitual) para vocês. O que estão aprendendo? Quais os acertos? Houve erros?
Aprendendo, como sempre, fazendo. A grande tecnologia Ninja é a recusa a dizer que "não vai dar". Todos os recursos, digitais e analógicos, podem ser utilizados para cobrir algo na rua. Os maiores acertos do ponto de vista técnico foram as construções e gambiarras cada vez mais portáteis e eficazes de transmissão de vídeo e fotos em tempo real. Do ponto de vista humano, a grande diferença é a disponibilidade 24hs dos envolvidos, a disposição de entrar no meio da ação e a base da articulação de colaboradores no país todo. Erros sempre acontecem. Desde deslizes técnicos a vacilos editoriais, comentários inadequados ou informações que poderiam ter sido melhor apuradas.

Você vê similaridade, na estrutura horizontal, entre a Ninja e movimentos sociais novos como o MPL?
Difícil responder por que não conheço bem o MPL por dentro. Talvez sim. Mas horizontalidade não é um conceito bem definido, nem homogêneo para nos compararmos com eles. Temos o maior respeito e admiração pela capacidade, maturidade e pelos argumentos do movimento passe livre. Mas, olhando de fora, vemos nosso trabalho mais como complementar, dentro de uma grande atualização dos processos políticos e de comunicação do que uma similaridade estrutural.

Já vi críticas à cobertura Ninja por sua “parcialidade”. O que você acha dessa crítica?
Entendo de onde vem a crítica, mas acho, no geral, um pouco equivocada. Nosso ponto de vista, nossa suposta parcialidade é, antes de tudo, assumida. Emitir uma opinião não pode significar, na era da rede, uma quebra da objetividade. Pelo contrário, cada vez mais ser subjetivo é ser objetivo também. Ser “neutro” diante de situações que consideramos injustas não é ser objetivo, é ser omisso. Mas me recuso a aceitar que somos tendenciosos. Basta ver nossa política de não edição. Transmitimos ao vivo, sem corte, direto da rua, dialogando e dando absoluta liberdade de expressão a todos os envolvidos nos protestos. Dos militantes de partidos, aos cidadãos de verde e amarelo, aos fascistas quase assumidos, aos policiais.

Qual sua avaliação pessoal desse momento no Brasil?
Antes de qualquer conclusão, acho que o mais importante nesse momento é a profunda ativação do pensamento político no país. Dos mais sofisticados pensadores ao mané mais despolitizado. O campo está aberto e todo mundo deu as caras na rua e na rede. É uma grande terapia coletiva ainda longe de acabar. Não me arrisco a grandes interpretações nesse ponto, mas sinto que é algo essencialmente bom. E que vai fortalecer, principalmente, os movimentos e organizações que trabalham causas e políticas quando a temperatura estava mais baixa.

Quantas pessoas estão envolvidas nas operações Ninja de cobertura das manifestações?

Difícil responder, já que pelo país muita gente está ajudando na cobertura colaborativamente. Mas existe um núcleo mais ativo em São Paulo e algumas capitais. Esse núcleo, que já estava trabalhando antes dos protestos começarem, e do Ninja ganhar tanta exposição, é de umas 10 ou 15 pessoas.

Belo Horizonte, 26.06.13 [foto: Mídia NINJA]

JORNALISMO TÁ MORTO?! TÁ NADA!

Pouco mais de dois anos atrás o jornalismo brasileiro começou a sofrer regulares ataques cardíacos. Também conhecidos como “passaralhos”, essas demissões em massa atingiram grandes empresas como as editoras Globo e Trip e os jornais Folha de S. Paulo e Estadão (do falecido Jornal da Tarde). Então, logo após a morte Roberto Civita em maio, o tsunami da crise chegou aos costados da Editora Abril. Em junho alguns executivos foram demitidos e entre ontem e hoje a tal “reestruturação” anunciada mostrou sua cara feia: foram encerradas as revistas Bravo, Alfa, Lola e Gloss, bem como os sites da revista Contigo e o abril.com.

As mais de 150 demissões previstas por esses dias alcançaram também as redações das revistas Info, Recreio, Contigo, Quatro Rodas, Viagem & Turismo, Placar, Men´s Health, Claudia e Veja, o portal M de Mulher e o site Bebê.com.

“A Abril encara esta fase como parte da evolução natural dos negócios e segue com a missão de difundir a informação, com excelência editorial, pioneirismo e integridade”, afirmou Fábio Barbosa, presidente da Abril S.A., em comunicado oficial & surreal. Claro que nem ele nem outros grandes executivos de empresas jornalísticas explicam como é possível ter excelência editorial com redações muito menores e profissionais sobrecarregados ou ganhando menos.

Precarizar a profissão jornalística é um caminho sem volta e quem perde mais com isso são justamente a credibilidade da informação e os leitores (esse caminho de mão dupla que é a essência do trabalho). Mas executivos não ligam para detalhes tão pequenos de nós todos e muito menos para os profissionais que estão na rua. Vivem de números, perdem aqui e ganham acolá, e bem podiam comandar a Comunicação de uma empresa farmacêutica ou o marketing de um banco, tanto faz.


Claro que existe uma crise no mercado e que ela tem atingido com mais contundência o jornalismo impresso que o televisivo, só que tantas demissões podem ser melhor explicadas por uma mistura de mau gerenciamento, soberba, investimentos errados, falta de visão estratégica, imediatismo e obsessão cega pelos anunciantes (Será que os anunciantes tão bajulados, e ocasionalmente intrometidos na linha editorial, continuarão juntos de um jornalismo cada vez mais raquítico?).

O jornalismo é maior que empresas jornalísticas e certamente sobreviverá a muitas delas. Para sorte de quem vive e ama a profissão, a boa notícia é que o jornalismo está se reinventando às próprias custas. Às vezes em coletivos independentes como a Pública – Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo, o Centro de Mídia Independente ou a Mídia Ninja e também dentro da grande imprensa por profissionais sérios e dedicados (de todas as gerações).

Vivemos também um momento no qual novas ferramentas jornalísticas estão disponíveis para todos, possibilitando que cada um crie seus próprios paradigmas de informação e comunicação (Não gosta da Folha? Não gosta da Mídia Ninja? Seja você mesmo sua mídia!). E isso é bom, caótico, transparente e renovador.

Tudo isso junto fará diferença para o futuro do jornalismo (além de pensar novas formas de negócio, obviamente) e não abraços simbólicos em homenagem a patrões.

p.s.: em 5 de agosto, o programa roda viva (tv cultura) entrevistou bruno torturra e pablo capilé sobre a mídia ninja.

terça-feira, 28 de maio de 2013

mexidão #10 e #12

vivo cada vez mais distante do futebol, das torcidas, dos campeonatos, de tudo que gira ao redor da bola. mas a copa do mundo que acontecerá aqui no ano que vem tem sido uma cascata inesgotável de assuntos para quem gosta de pensar o país. acabei então, por força do noticiário, falando da copa em dois textos do mexidão. o primeiro foi sobre o autoritarismo interventor da fifa e o segundo sobre a polêmica caxirola "criada" por carlinhos brown como instrumento-símbolo da copa do mundo do brasil (e ontem o instrumento foi banido da copa das confederações, que começa agora em junho, por causa do incidente em salvador descrito no texto).



AH, QUE É ISSO? A FIFA ESTÁ DESCONTROLADA

Tem algo de muito errado no mundo quando um sujeito solta, tranquilão, a seguinte frase: “Vou dizer algo que é maluco, mas menos democracia às vezes é melhor para se organizar uma Copa do Mundo. Quando você tem um chefe de estado forte, que pode decidir, assim como Putin poderá ser em 2018, é mais fácil para nós organizadores do que um país como a Alemanha, onde você precisa negociar em diferentes níveis”. O tal sujeito é Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, e essa asneira foi dita durante um simpósio ontem, 24 de abril, em Zurique, sede da organização que organiza a Copa do Mundo.

Lida sobre outro prisma, a asneira de Valcke é um elogio ao Brasil. Durante o mesmo evento ele falou sobre o país nos seguintes termos: “A principal dificuldade que temos é quando entramos em um país onde a estrutura política é dividida, como no Brasil, em três níveis: federal, estadual e municipal. São pessoas diferentes, movimentos diferentes, interesses diferentes e é difícil organizar uma Copa nessas condições”. Pois é, meu caro francês maluco, democracias são assim, um acordo entre diferentes, e é bom que assim sejam.

Mas pelo jeito, o pessoal da Fifa não está se contentando apenas com elogios a países ou líderes autoritários, eles querem mesmo se tornar um. É que hoje apareceu uma notícia tão absurda no site do jornal Tribuna da Bahia que por algum tempo achei que fosse uma piada do satírico Piauí Herald. A manchete grita que a “Fifa proíbe São João em Salvador”. Acuma? Isso mesmo, segundo a reportagem a prefeitura da cidade recebeu ordens da Fifa para não liberar alvarás para festas de rua durante o mês de junho deste ano, época que Salvador será uma das sedes da Copa das Confederações. E antes tinham tentado impedir (sem sucesso, felizmente) a venda de acarajé no entorno do estádio para não ferir os sentimentos do McDonald’s.

Nunca fui do time anti-Copa. Claro que o Brasil está pronto (ou está ficando) e um evento como a Copa injeta muito dinheiro na economia do país, mesmo que, como sempre, seja mal distribuído ou desviado. Porém, desde a violência que aconteceu na Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, comecei a ter certeza que a coisa está fora do controle. Na certeira definição de @viniciusduarte, “sediar Copa do Mundo é um cavalo de Tróia”, é colocar o inimigo para dentro.

A Fifa é como a enigmática e fechada Coreia do Norte, só que transglobal, cheia de grana e muito influente. Com a promessa de carradas de dinheiro e visibilidade, a organização entra nos países e vai corroendo durante um tempo suas soberanias, violando direitos sociais, pintando o sete geral a seu bel prazer (com o conluio do governo federal, Estados e municípios, todos embevecidos pelo canto da sereia da bola redonda). Mas a Copa vai acontecer, de um jeito ou de outro, e o que dá para fazer agora é ficar atento a tudo porque já deu essa história do dinheiro passar por cima das pessoas. Perdemos Aldeia Maracanã, vencemos a Batalha do Acarajé, e isso é só o começo.


MAIS CAXIXI, MENOS CAXIROLA

Não pensei que iria voltar a tratar da Copa tão cedo. Sinceramente. Só que poucos dias após ter publicado “Ah, que é isso? A FIFA está descontrolada” aconteceu a Revolta das Caxirolas e uma coisa assim não pode passar em brancas nuvens pelo Mexidão. Bem, a essa altura do campeonato quase todo mundo já está nervoso de saber o que é a caxirola, mas não custa fazer um flashback rápido...

Do nada, a FIFA e o Ministério dos Esportes vieram a público apresentar o instrumento musical símbolo da Copa das Confederações e da Copa do Mundo no Brasil. Criação do multi-instrumentista Carlinhos Brown, a caxirola é um chocalho de plástico feito a base de cana-de-açúcar produzida pela Brasken. O músico baiano registrou sua nova obra – contratada não sabe-se como e em quais termos pelo governo – e vendeu os direitos de fabricação e distribuição para a multinacional The Marketing Store. Os valores dessa gigantesca transação não são revelados (o valor de R$ 1,5 bilhão foi estimado aqui e ali), mas o preço sugerido ao torcedor é R$ 29,90.

Daí que logo na estreia oficial do instrumento, domingo passado, 28 de abril, o reformulado Estádio da Fonte Nova viu uma revoada de caxirolas rumo ao gramado. Eram torcedores revoltados do Bahia protestando contra seus dirigentes, enquanto o time perdia para o rival Vitória por 2 a 1. Foi o bastante para o pessoal da grana ficar de orelhas em pé prevendo novas manifestações não-musicais já agora na Copa das Confederações. Bateu um medinho e estão pensando em colocar uma bula para ensinar ao brasileiro como usar o instrumento com responsabilidade.

É isso que dá pensar só em dinheiro e não nas pessoas que fazem e sustentam o espetáculo. Porque, será mesmo que eles acham que ninguém perceberia que a caxirola não passa de um caxixi de plástico? E que é um completo absurdo privatizar um bem cultural tradicional? Ou então que a caxirola não tem relação alguma com o futebol brasileiro? Só mesmo Galvão Bueno e Tadeu Schmidt, os porta-vozes futebolísticos da Globo, para defenderem tal disparate.

Direto ao ponto, o jornalista José Trajano afirmou durante o programa Linha de Passe (ESPN) que o torcedor tem o direito de jogar a caxirola onde bem entender. Na Copa da África do Sul as vuvuzelas podiam ser (e eram) um inferno para os ouvidos estrangeiros, mas eram genuínas integrantes da cultura do futebol no país. E a caxirola? Até quinze dias atrás ela nem existia! Porque diabos deveríamos aceitar algo imposto por essa dobradinha poder público/iniciativa privada e que provavelmente foi gestado em algum reunião de brainstorm com publicitários de sapatênis?

Mas nada disso me surpreende, na verdade. Agora, o papel de Carlinhos Brown nessa tragicomédia... como é que pode um sujeito assumidamente ligado à cultura popular pegar um instrumento tradicional (alô pessoal da capoeira!), dar um tapinha e registrar como criação sua?! Sou fã de Brown e o defendi em março do ano passado no texto “Quem tem medo de Carlinhos Brown?”, mas prevejo que a chuva de garrafas que tomou na cabeça durante o Rock in Rio em 2001 vai ser pinto perto do tsunami de caxirolas que se avizinha por aí. Olha, a Revolta da Caxirola virou até cordel.

Essa apropriação privada de um instrumento popular é o mais grave desse caso, mais até do que a imposição de um símbolo (o pessoal da grana que se vire com o encalhe das caxirolas). Em texto contundente, o antropólogo Henrique Parra tem uma sugestão para minimizar o absurdo dessa situação: “Se o governo está interessado em criar um símbolo, bem poderia indicá-lo e deixá-lo livre, como são os símbolos, ao invés de transformá-lo em propriedade privada. (...) Diversas fabricantes nacionais poderiam produzi-lo, diversos comerciantes locais poderiam distribuí-lo e aquelas corporações interessadas em fazer o produto circular em “outras esferas” (produtos especializados para consumidores endinheirados) poderiam recolher uma taxa específica cujos recursos poderiam ser destinados ao apoio de milhares de escolas de capoeira e grupos culturais espalhados pelo País”. Isso sim é um Brasil de todos.