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sábado, 30 de dezembro de 2017

65 + 45 discos brasileiros de 2017

acabei demorando mais do que esperava pra fechar as retrospectivas musicais brasileiras [as gringas, de discos e músicas, saíram mais rapidamente]. muita coisa como sempre, e querendo ser cuidadoso com tudo que ouvi e gostei e me fez pensar e cantar. mas taí, os discos brasileiros de 2017 segundo o esforçado. a de músicas já está pronta [só falta o texto rsrs].

os raps, sempre - e o rap brasileiro continua numa bueníssima onda com beats, misturas, assuntos e sotaques dos mais diversos. mas quatro discos se destacam entre os destaques: galanga livre do paulistano rincon sapiência, esú do baiano baco exu do blues, roteiro pra ainouz vol. 3 do cearense don l e eletrocardiograma da brasiliense flora matos. rincon e baco, cada um a seu modo, dialogam fortemente com a cultura e a história afro-brasileira, e a violência da opressão e preconceito, e o orgulho das raízes, do amor e da beleza, e o poder dos batuques e beats. já don l e flora, mais hedonistas, tratam de rolês mais pessoais e vão fundo nisso embalados por ótimas produções e excelentes rimas e flows.

rincon, baco, don, flora 
e o rap brasileiro em tempos de glória

só que no mundo rap dessa lista tem ainda a força da experiência no retorno do rzo [quem tá no jogo traz ainda participações de sombra, rael, criolo e negra li] e de mais um trabalho firme e caudaloso de rodrigo ogi [pé no chão], além do diálogo brasil X portugal no belo encontro de emicida, rael, valete e capicua [língua franca] e dos elétricos álbuns de estreia do desbocado djonga [heresia], do raivoso coruja bc1 [no dia dos nossos] e do rimas & melodias, coletivo de minas rappers que já possuem sólidas carreiras solo como tássia reis e drik barbosa.

tem ainda o grupo baiano oquadro com mais um disco irrepreensível [nêgo roque], a estreia solo do brasiliense froid no excelente o pior disco do ano, o surpreendente segundo trabalho de nill [regina é ao mesmo tempo doce, tocante e bem humorado], um rico dalasam mais eletrônico e festeiro [balanga raba] e a densidade dos mineiros matéria prima [2 atos, uma interessante parceria com gui amabis] e thiago elniño [a rotina do pombo]. além disso tudo, tem ainda rap nos delicados sambas urbanos de criolo [espiral de ilusão] e na presença de sombra, yzalú e lurdez da luz na ótima estreia do neompbístico [no bom sentido] coletivo rua.

pop, radicalmente - se o disco de estreia do grupo as bahias e a cozinha mineira era ao mesmo tempo teatral, dramático e universitário, no que isso tem de bom e ruim, este segundo trabalho [bixa] vai além como uma deliciosa, tropical e diversa festa autoral muito bem produzida por daniel ganjaman e com ainda melhores arranjos vocais de assucena assucena e raquel virginia. falando em tropicalidades, a estreia do produtor baiano àttøøxxá [#blvckbvng] é um novo caminho de ritmos para o pop nacional, é o pagodão eletrônico no topo. mas nada consegue ser tão desavergonhadamente pop quanto vai passar mal, de pabblo vittar, uma mistura de funk, forró, sertanejo , arrocha, reggae, trap, balada e muita auto estima [logo após anitta, que aparecerá bastante na lista de músicas, pabblo é certamente a grande figura pop do ano].

a maranhense pabblo vittar e o baiano àttøøxxá

instrumentais, majoritariamente - sensacional o que o macaco bong fez com o nirvana em deixa quieto [nevermind, tá ligado?], e lindo o passeio sonoro do duo cæs em santos 3am, e uma delícia de guitarradas em mais um registro de felipe cordeiro com o pai manoel cordeiro em combo cordeiro, e o bandolinista hamilton de holanda encarando com delicadeza o cancioneiro de milton nascimento em casa de bituca [com participações do próprio milton e de alcione], e a sempre atual herança de moacir santos, edu lobo, naná vasconcelos e baden powell tudo misturado em tempo dos mestres de fabiano do nascimento, e o metá metá mais uma vez quebrando tudo na trilha que fez para o grupo corpo [gira tem ainda participação luxuosa de elza soares], e a guitarra sempre instigante de fernando catatau em dois projetos paralelos [tarde, o segundo disco do lamber vision, e praia futuro, feito em parceria com dengue, yury kalil e ilhan ersahin], e o incansável thiago frança abriu e fechou o ano com dois discos curtos, variados e divertidos [chão molhado da roça e bomba, suor e bafo]. destaque especial para o disco de estreia do onça combo, um power trio paraibano que injeta jazz nas tradições musicais indígenas, ibéricas e nordestinas.

os paraibanos porretas do onça combo

cantautoras, intérpretes - e a safra musical brasileira segue alto nível com um punhado de discos de cantoras/compositoras nessa nossa vasta tradição cancioneira: alzira e, uma das preferidas da casa em qualquer tempo, trouxe mais uma beleza rascante, o corte; letícia novaes, metade do saudoso letuce, estreou solo com o eletrônico, noturno e oitentista letrux em noite de climão; xênia frança, uma das vozes do aláfia, também estreou solo com o forte xênia, disco de composições próprias e releituras de figuras como chico césar, antônio carlos & jocafi, luisa maita, verônica ferriani e tiganá santana; tulipa ruiz, acompanhada apenas de gustavo ruiz e stephane san juan, veio intimista, e até relendo algumas músicas do passado, em tu; linn da quebrada entortou o funk em pajubá, disco violentamente conceitual, experimental, sexual e político; luana carvalho mostrou toda a amplitude de sua poesia, sob produção de moreno veloso, nos discos irmãs branco e sul; e ainda teve o balanço de luciana oliveira em deusa do rio niger, as novas bossas de nina becker em acrílico e as múltiplas faces de mallu magalhães em vem.

alzira e, letícia "letrux" novaes e xênia frança

uns grupos, encontros - o excelente grupo paulistano aláfia não brinca em serviço e o terceiro disco deles, sp não é sopa, é mais um tratado sobre balanço, poesia, afrobrasilidades e política; os goianos do boogarins seguem aprimorando psicodelias em seu terceiro disco, lá vem a morte; e os cariocas do amor também experimentam mais e melhor em fodido demais; já os mineiros do pato fu soltaram mais um disco do seu projeto de versões “infantis” para hits nacionais e internacionais, o divertido música de brinquedo 2 [que tem gilberto gil, joão bosco & aldir blanc, raul seixas, raimundos, rita pavone, ricky martin, etc]; e falando em versões, o nação zumbi deu um tempinho nos discos autorais e fez seu primeiro de covers, o excelente radiola nz, vol. 1, que tem tim maia, beatles, david bowie, the specials, marvin gaye, gilberto gil e secos & molhados [com participação de ney matogrosso]; ainda no terreno das interpretações, o trupe chá de boldo lançou o belo verso que tem canções de amigos como alzira e, andré abujamra, negro leo, leo cavalcanti, iara rennó, marcelo segreto, pélico, juliano gauche e tatá aeroplano; e o tatá, aliás, reuniu-se com a amiga e parceira barbara eugênia nos folks delicados de vida ventureira; pra finalizar esse bloco, o surpreendente sambas do absurdo, o encontro de rodrigo campos com juçara marçal, gui amabis, nuno ramos [co-autor das músicas] e albert camus [inspiração do projeto].

os paulistanos/paulistas do aláfia - e olha xênia, novamente - 
e da trupe chá de boldo

uns caras - chico buarque e guilherme arantes, dois medalhões da música popular brasileira lançaram discos bem interessantes [caravanas e flores & cores, respectivamente]; mas outros veteranos se saíram ainda melhor, como foi o caso do gaúcho vitor ramil e seu delicado e milongueiro campos neutrais e o eterno titã paulo miklos com o belíssimo a gente mora no agora [que o colocou em parcerias com emicida, céu, tim bernardes, lurdez da luz, erasmo carlos, guilherme arantes, silva e russo passapusso]; o tim bernardes, por sua vez, deu uma pausa n’o terno pra lançar seu primeiro solo, o folk intimista confessional recomeçar; também são intimistas, e das mais bonitas e diversas formas, os novos discos de dudu tsuda [bicicleta], lucas santanna [modo avião é uma parceria multimídia de lucas com o escritor joão paulo cuenca e o desenhista rafael coutinho], momo [voá] e domenico lancellotti [serra dos órgãos], e as estreias de giovani cidreira [japanese food], lincoln [malvado canto], felipe s [cabeça de felipe] e zé ed; mas certamente os pontos altos desse bloco estão na crueza punk de cortes curtos de kiko dinucci, no lirismo dolorido de batatinha na voz de celso sim [o amor entrou como um raio], no tropicalismo de experimentos grooveados de boca do curumin e em mais uma beleza romântica e torturada, raivosa e sensível, de otto [ottomatopeia].

otto, paulo miklos e curumin

A Espetacular Charanga do França - Chão Molhado da Roça/Bomba, Suor e Bapho
Aláfia - SP Não é Sopa
Alzira E - Corte
As Bahias e a Cozinha Mineira - Bixa
ÀTTØØXXÁ - #BLVCKBVNG
Baco Exu do Blues - Esú
Barbara Eugênia e Tatá Aeroplano - Vida Ventureira
Boogarins - Lá Vem a Morte
Chico Buarque - Caravanas
Coletivo Rua - Coletivo Rua
Combo Cordeiro - Combo Cordeiro
Coruja BC1 - No Dia dos Nossos
Curumin - Boca
Djonga - Heresia
Do Amor - Fodido Demais
Domenico Lancellotti - Serra dos Orgãos
Dudu Tsuda - Bicicleta
Duo Cæs - Santos 3AM
Emicida, Rael, Valete e Capicua - Língua Franca
Fabiano do Nascimento - Tempo dos Mestres
Felipe S - Cabeça de Felipe
Fernando Catatau, Dengue, Yury Kalil e Ilhan Ersahin - Praia Futuro
Flora Matos - Eletrocardiograma
Giovani Cidreira - Japanese Food
Guilherme Arantes - Flores & Cores
Hamilton de Holanda - Casa de Bituca
Kiko Dinucci - Cortes Curtos
Lamber Vision - Tarde
Lincoln - Malvado Canto
Linn da Quebrada - Pajubá
Luana Carvalho - Branco/Sul
Lucas Santanna - Modo Avião
Luciana Oliveira - Deusa do Rio Niger
Macaco Bong - Deixa Quieto
Mallu Magalhães - Vem
Matéria Prima - 2 Atos
Metá Metá - Gira
Momo - Voá
Nação Zumbi - Radiola NZ, Vol. 1
Nina Becker - Acrílico
niLL - Regina
Onça Combo - Onça Combo
OQuadro - Nêgo Roque
Otto - Ottomatopeia
Pabblo Vitar - Vai Passar Mal
Paulo Miklos - A Gente Mora no Agora
Rico Dalasam - Balanga Raba EP
Rimas & Melodias - Rimas & Melodias
Rincon Sapiência - Galanga Livre
Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis - Sambas do Absurdo
Rodrigo Ogi - Pé no Chão
Thiago Elniño - A Rotina do Pombo
Tim Bernardes - Recomeço
Trupe Chá de Boldo - Verso
Tulipa Ruiz - Tu
Vitor Ramil - Campos Neutrais
Xênia França - Xênia
Zé Ed - Zé Ed

e como já é de lei aqui por essas bandas, uma segunda lista se faz necessária pela quantidade de discos interessantes lançados ano após ano. uns só não entraram na primeira por motivos de não ter ouvido tanto quanto outros. coisa de momento/oportunidade mesmo.

Airto Moreira - Aluê
Akira Presidente - Fa7her
André Sampaio - Alagbe
Angela Ro Ro - Selvagem
Arto Lindsay - Cuidado Madame
Banda Mantiqueira - Com Alma
Camarones Orquestra Guitarrística - Feeexta
Castello Branco - Sintoma
Chaiss - Chara
Cinnamon Tapes - Nabia
Conteção 33 - Ruas Sujas
Davi Moraes - Tá em Casa
Diomedes Chinaski & DJ Caique - Ressentimentos II
Gragoatá - Gragoatá
Haikaiss - Teto Baixo
Hermeto Pascoal & Big Band- Natureza Universal
João Donato e Donatinho - Sintetizamor
Johnny Hooker - Coração
Jonathan Tadeu - Filho do Meio
Juliana Kehl - Lua Full
Kalouv - Elã
Lia Sophia - Não Me Provoca
Luedji Luna - Um Corpo no Mundo
Luiza Lian - Oyá Tempo
Marcelo Callado - Musical Porém
Meia Dúzia de 3 ou 4 - 81 Anos de Tom Zé
My Magical Glowing Lens - Cosmos
Nana - CMG-NGM-PDE
Nevilton - Adiante
Nomade Orquestra - EntreMundos
Satanique Samba Trio - Xenossamba
Seu Pereira e Coletivo 401 - Eu Não Sou Boa Influência pra Você
Tetê Espíndola - Outro Lugar
Tiê - Gaya
Tribalistas - Tribalistas
Valério - Água Pedra
Vanguart - Beijo Estranho

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

yahoo #58

acabei usando minhas listas retrospectivas em duas colunas no yahoo: a de 10 músicas e essa de 6 clipes. tudo nacional, tudo nosso. publicando essa de clipes aqui no esforçado encerro definitivamente 2012 e agora 2013 é o que importa. bola pra frente que tem muita coisa pra fazer.



O BRASIL DE 2012 EM 6 CLIPES

Semana passada rolou por aqui uma lista com 10 das melhores músicas brasileiras do ano como parte de uma retrospectiva que tenho feito no meu blog pessoal, o Esforçado. Agora é a vez de clipes, videoclipes, que de alguma forma resumem a excelente e sortida safra audiovisual nacional (e, não coincidentemente, são de ótimas músicas) bem como a descentralização de nossa produção.

“Legal e ilegal” (Felipe Cordeiro). A última década viu nascer no Pará uma pulsante geração de artistas populares: estrelas como Gaby Amarantos, eletrônicos como a Gang do Eletro e ligeiramente MPB como Aíla, Luê Soares e Lia Sophia. Felipe Cordeiro também é desse último grupo só que traz a tiracolo uma guitarra eletrizante e bastante humor (com um bigode daqueles, só podia). O clipe de “Legal e ilegal”, música do disco Kitsch Pop Cult, pega o humor, o balanço e as cores da trabalho do paraense e lhe dão uma forma de carrossel repleto de figuraças. Direção de Bruno Reggis e Carolina Matos.


“66” (O Terno). Prova clara que São Paulo também possui senso de humor, o primeiro clipe do trio liderado por Tim Bernardes, filho de Mauricio Pereira (Os Mulheres Negras), é uma montanha russa de boas ideias e achados visuais em pouco menos de 3 minutos. Sem falar que “66” é ótimo exemplo de uma união entre senso pop, pulso de rock e inteligência (a música que fala da própria situação da música hoje em dia). Direção de Marco Lafer e Gustavo Moraes.


“Carnaval no fogo” (doo doo doo). Que o Rio de Janeiro não é mais aquele do banquinho e violão todo mundo já está bronzeado de saber, mas UPPs e funks à parte, ninguém jamais imaginou uma invasão de zumbis em um bloco carnavalesco. Esse é um dos muitos acontecimentos do divertido e estranho clipe dessa marchinha rock psicodélica retirada do disco Casa das Macacas.


“Mi vida eres tu” (Vanguart). Por mais que clipes livres, nonsense ou de colagens de imagens sejam ocasionalmente bacanas, nada como o bom e velho clipe com história, com roteiro. Ainda mais quando rola uma produção, elenco, etc. e tal. “Mi vida eres tu”, música do disco Boa Parte de Mim Vai Embora, é isso e ainda a muito bem filmada aventura romântica e violenta de um menino. É também o encontro do folk rock com a Jovem Guarda, Mato Grosso e São Paulo, o cool e o brega. Direção de Ricardo Spencer.


“Levante” (Lurdez da Luz). Uma das mais ativas vozes femininas no ultramasculino cenário rapper brasileiro, Lurdez tem aprontado das suas desde os tempos do Mamelo Sound System. Sua estreia solo em 2010 mostrou uma artista segura, engajada e bela (e com clipes ótimos como “Andei” e “Ziriguidum”). Neste ano, inquieta, começou a colocar novas sonoridades, mais eletrônicas, em sua rima e o primeiro resultado foi “Levante”, batidão politizado com clipe simples, bem iluminado e fashion. Direção de Ricardo Magrão.


“Sangue é champanhe” (Don L & Flora Matos). Já falei do cearense Don L aqui no meio do ano (“A hora e a vez do rap nordestino”), mas de lá pra cá ele lançou o mais interessante e belo clipe do ano. A música, que traz participação da brasiliense Flora Matos, fala de diversões, vida e morte, encantamentos e a volatilidade dos afetos. Enquanto isso, o clipe alterna imagens de moças muito nuas, viagens, comidas e shows, muito diferente do que se imagina em um vídeo de rap. Atenção: não recomendável para ambientes de trabalho e moralistas de plantão. Direção de Autumn Sonnichsen e Erica Gonsales.

sábado, 20 de outubro de 2012

mulheres, sangue e champanhe

já tem uns dias que o belíssimo clipe de "sangue é champanhe" está rolando pela rede. queria ter comentado antes, mas a correria anda braba. conheci o rapper don l em 2008, quando o entrevistei para o gafieiras. na época ele era integrante do grupo costa a costa, um das mais instigantes revelações do rap nacional dos últimos tempos (acho a mixtape dinheiro, sexo, drogas e violência de costa a costa, de 2007, uma das grandes obras musicais dos anos 2000). daí que don l começou a fazer seus próprios sons e novidades não tardaram a aparecer. mais eletrônico, pesado e diverso, o rap do cearense também ganhou novos temas, menos periféricos, o que já se rascunhava nas rimas do costa a costa. agora ele está prestes a lançar, numa batelada só, duas mixtapes solo: caro vapor e vida premium beta. mas vou parar com o blábláblá... com vocês, "sangue é champanhe", com participação de flora matos.

Sangue é Champanhe_Don L. feat. Flora Matos from LuckyBastardsInc on Vimeo

pra quem espera o clima chavão de rap (quebradas, crime, cidade cinza, etc.), "sangue é champanhe" é uma surpresa e tanto. mulheres lindas, nuas, paisagens deslumbrantes ao redor do brasil e mundo, diversão, prazer, brincadeira, bebidas, comidas, tudo em clima tranquilo de hedonismo (enquanto don rima suavemente sobre a volatilidade da vida e dos afetos). a direção é da dupla erica gonsales e autumn sonnichsen (que pouco antes tinham feito o igualmente belo vídeo "one day"). ah, e tem uma entrevista boa com o cearense no portal da mtv.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

yahoo #43

coincidência boa que na semana que estive em fortaleza por motivos familiares saíram sons novos do meu conterrâneo don l, vocalista do grupo costa a costa, e o disco de estreia dos baianos d'oquadro. era o nordeste me chamando atenção mais uma vez e saiu esse "a hora e a vez do rap nordestino". já o texto mais recente no yahoo, "fã, essa coisa louca", trata do quebra-pau virtual envolvendo o tributo à legião urbana com o ator wagner moura fazendo os vocais.


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A HORA E A VEZ DO RAP NORDESTINO

Uma das muitas coisas boas da democracia digital é que produção de qualidade (se é boa ou ruim de fato é outra história) não é mais sinônimo de ter que se mudar de mala e cuia para o Eixo Rio-São Paulo. Daí que mais gente, vozes e sotaques são ouvidos, principalmente em um país tão grande e diverso como o nosso, e todo mundo sai ganhando, pode acreditar. Mas por exemplo, o rap é um dos gêneros musicais que vem amadurecendo mais rapidamente no Brasil e na última década uma nova geração apareceu com força (Emicida, Lurdez da Luz, Criolo, Kamau, Ogi, Savave, Karol Konká, tanta gente). E é interessante de ver e ouvir que o Nordeste também vem contribuindo para esse amadurecimento.

Lembro agora de memória dos pernambucanos Zé Brown e Inquilinus (mas acho que o grupo acabou), dos cearenses RAPadura Xique-Chico (ver e ouvir video abaixo) e Costa a Costa e dos baianos Risco 88 e OQuadro, mas tem gente da Paraíba, do Rio Grande do Norte, etc. No entanto, a deixa para essa coluna foram os lançamentos do disco de estreia d’OQuadro e das primeiras músicas do trabalho solo de Don L, o principal vocalista do Costa a Costa.

Comecemos com Don L, que já no Costa a Costa se mostrava um rimador diferente com jeitão de produtor e atento para sonoridades não usuais no rap nacional. Vida Premium é o nome de seu disco solo e dele saíram “Enquanto acaba” (com base de piano jazz, citação a Chico Buarque e participação da brasiliense Flora Matos) e “Cafetina seu mundo” (mais pesada, pop e com letra bastante atual).




“Perguntar o que tem do Ceará na minha música é perguntar o que tem do Ceará em mim. Tenho certeza de que encontrarão a alma de um cearense na minha música e acho mais interessante do que um chapéu de palha. No Criolo, por exemplo, que é filho de cearenses, percebo uma melancolia tipicamente cearense nas letras, uma coisa que você pode ver nos primeiros discos do Belchior por exemplo. Não sei se tenho isso. Talvez sejam outras características cearenses, as minhas. Não sei dizer. Sei que não forço. Não me importo. Me interesso por coisas do mundo todo, tanto quanto, ou até mais do que me interesso por coisas do Ceará. Por que motivo não poderia? Sou um cidadão do mundo. Agora uma coisa que não posso deixar de ser é cearense. Isso eu sempre serei, com todo prazer e orgulho”, disse Don L em conversa por email.

Já quando questionado sobre o que existe de Bahia no rap d’OQuadro, o baixista Ricardo Santana, ou Ricô, falou que “olhamos pro mundo a partir daqui, afinal é o lugar onde moramos. É a maior concentração de negros do mundo depois da África. É um estado onde a cultura pulsa numa diversidade infinita de ritmos, passando pela literatura, teatro, cinema e etc. Somado a isso temos grandes problemas sociais que se refletem nas desigualdades, na violência, nos lamentos e nas formas de celebrar desse povo. E tudo isso nos influencia direta ou indiretamente. Seria impossível afirmar que não sofremos influências de nomes como Os Tincoãs, Edgar Navarro, Adonias Filho, dentre outros tantos. As influências são muitas, mas não nos limitamos a elas. Na verdade não há fronteiras pra arte e hoje em dia grandes artistas podem surgir dos lugares mais improváveis, surpreendendo a todos e quebrando estereótipos. Mas cada estado, cada cidade, tem o seu contexto. Eles versam sobre as verdades deles, nós cantamos as nossas.”

Em ambos os casos, as raízes são importantes, mas não podem e nem devem prender. E o excelente disco OQuadro tem seus pés firmes no rap (tem participação de Lurdez da Luz, por exemplo), mas com rimas que ganham novos sentidos ao som de dub, samba, ijexá, afrobeat, jazz, afrosamba e o diabo a quatro. Essa multiplicidade (liberdade) de sonoridades, misturas, diálogos e sotaques de grupos ou artistas estão fazendo do Nordeste um dos lugares mais férteis para o rap brasileiro. Afinal, em se rimando, tudo dá.


p.s. 1: OQuadro é formado pelas vozes de Rans, Freeza e Jef, o guitarrista Rodrigo Dalua, o baixista Ricô, o baterista Victor Santana e o percussionista Jahgga.

p.s. 2: toquei no assunto da democracia digital em outro texto do Yahoo, “Faça você mesmo”.


esses papos com don l e ricô aconteceram no facebook e por email. seguem abaixo outras perguntas e respostas que não entraram no texto do yahoo.

DON L

qual a diferença do rap do don l? existe essa preocupação (em soar diferente)? e qual a diferença entre teu trabalho solo e no costa a costa?
não existe essa preocupação porque não existe esse problema. eu faço música pensando num conceito de álbum, em termos de produção e em termos de ideias sobre as quais quero falar. na verdade faço as músicas muito no instinto, só depois que tenho algumas prontas cai a ficha do álbum, do conjunto da obra. daí pra frente as coisas ficam mais claras, e as músicas vêm mais ainda dentro do conceito que começa a se desenvolver pro disco na minha cabeça. mas é muito natural porque a música é só uma forma de expressar minha busca e minhas experiências com o mundo, comigo mesmo, e a relação entre as duas coisas. minhas aspirações, meus amores, meu ódio. minha versão da vida em 2012. na mixtape do costa a costa, em 2007, o momento era completamente diferente. mesmo musicalmente, se em 5 anos você não vier completamente diferente, não é verdadeiro, você parou no tempo, ou tá tentando repetir uma fórmula. eu não uso livros de receita.

o que você acha do rap feito fora do eixo rio-sp? como você se encaixa nele? o que tem de mais interessante?
acho que não existe mais uma característica de escola de acordo com o local de onde vem a música. as diferenças que você pode classificar por cidade, são muito mais mercadológicas. mas se a música que você faz tem o que ela precisa ter pra estar entre o que é considerado relevante e influente nacionalmente ou até internacionalmente, mais cedo ou mais tarde ela vai chegar a esse ponto. acho que nesse momento sou um artista relevante e influente pro rap brasileiro. mas isso não quer dizer retorno financeiro. quer dizer que você conseguiu alguma visibilidade por mérito do seu trabalho. hoje você pode chegar a esse ponto sem ir pro eixo. a partir daqui, a partir desse ponto, já é outra história. gosto muito de flora matos que é de brasília, e karol konká que é de curitiba, mas estão no sudeste agora. alguns que considero promessas são gasper, de goiânia, zudzilla, de pelotas, e risco 88 de salvador. mas tem muitos outros, não sou o cara mais bem informado, tô muito concentrado no meu próprio disco a um bom tempo.

RICÔ (OQUADRO)

qual a diferença do rap d'oquadro? existe essa preocupação (em soar diferente)?
o rap é um gênero musical onde cada artista, cada grupo, faz de seu jeito, de acordo com suas experiências de vida, com suas influências e referências culturais. isso torna o rap rico e diversificado. com oquadro, ainda podemos somar o fato de ser feito com instrumentos convencionais, o que torna, naturalmente, o nosso rap mais orgânico. mas nada disso foi premeditado ou programado para soar diferente. nossa música é resultado dos recursos e dos acessos que tínhamos até então. hoje, depois da obra pronta, podemos perceber nessa estética que criamos uma série de conceitos interessantes. mas tudo isso vem acontecendo espontaneamente.

o que você acha do rap feito fora do eixo rio-sp? como vocês se encaixam nele? o que tem de mais interessante?
quando começamos a nossa caminhada, ainda enquanto adolescentes, lá pelos meados dá década de 90, os únicos grupos que faziam rap e que tínhamos acesso no brasil, eram do rio, são paulo e de brasília. agora estamos no século 21, onde as informações estão aí pra quem busca. grandes artistas podem surgir dos lugares mais improváveis, surpreendendo a todos e quebrando estereótipos. agradecemos a mrn, câmbio negro, athalyba e a firma e etc., por nos influenciarem. a identificação foi e sempre será muito grande. mas, cada estado, cada cidade tem o seu contexto.

terça-feira, 25 de maio de 2010

CORJA #8

olha, tanta coisa aconteceu do último corjacast pra esse que fica até difícil resumir. ele já estava gravado faz tempo - bem como o número 9 -, mas como douglas mendonça feitosa (o oga), nosso querido rapper de plantão e artista gráfico de ponta, foi tirar um sabático de dois meses nos estados unidos... cuma?

esse é o começo do textinho que fiz para o corjacast de número 8. o resto tá lá no blog corjeiro, com direito a muitos videos de apoio, suporte e/ou complemento. mas é claro que não iria perder a oportunidade de colocar meu primeiro podcast editado aqui (acho que não consegui resolver alguns problemas de volume, mas parodiando paulo tiefenthaler, "podcast é treino"). seguraaa!

corjacast#8 by corjacast2

sexta-feira, 9 de abril de 2010

depois dos nossos comerciais

música, sempre ela. participei hoje do programa play unbuttoned na ótima e virtual rádio levi's. o lance é o seguinte: toda sexta, 14h, um convidado especial tem uma hora pra colocar o que quiser. foi nessa que entrei e a experiência foi boa, garanto. segue abaixo o que rolou, na ordem que rolou, e aqui o caminho para baixar as músicas. agradecimentos especiais a edu parez, coordenador artístico da rádio. simbora que o som não pode parar.

thalma de freitas, max b.o. & projeto guri - sonho de criança
mini box lunar - amarelasse
kassin + 2 - água
r.e.m. - losing my religion [dj cremoso remix]
luis visconde & alvarito - chofer de praça
nneka - kangpe [feat. wesley williams]
iara rennó - dói dói dói [feat. bnegão & funk buia]
flora matos & stereodubs - viver
galactic - boe money [feat. the rebirth brass band]
blakroc - ain't nothing like you [feat. mos def & jim jones]
caro emerald - back it up
miike snow - animal [mark ronson remix]
gonjasufi - holidays
josé james - black magic
azambuja & cia. - a turma

p.s.: agora no dia 20 de abril achei o clipe de "back it up", essa delicinha pop da holandesa caro emerald, e resolvi colocar aqui para dar uma animada no post.