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domingo, 31 de maio de 2015

plataforma brasileira de política de drogas

aconteceu nesta semana, no salão nobre do largo são francisco em são paulo, o lançamento da plataforma brasileira de política de drogas, mais um importante passo na luta contra o estúpido proibicionismo que vem, entre outros danos, matando e encarcerando a juventude pobre e negra do brasil, dos estados unidos e de tantos outros países. esse é um tema muito caro a mim e fui acompanhar o lançamento por também ter amigos envolvidos - um salve aí pro bróder maurício fiore. foi uma noite com vários discursos fortes, urgentes, necessários, mas o de abertura, proferido pelo advogado cristiano maronna, secretário executivo da plataforma, resume muito bem toda violência ignorante do proibicionismo e a necessidade urgente por mais reflexões, alternativas e liberdades. saca só.


"É com muito orgulho que lançamos nossa Plataforma Brasileira de Política de Drogas. E não haveria lugar mais apropriado para isso do que a quase bicentenária Faculdade de Direito do Largo São Francisco, alma mater das liberdades, morada da amizade e da alegria.

São diversos os caminhos que nos trouxeram a este momento histórico. Muitos caminhamos juntos há tempos. Com outros, ainda estamos acertando o passo para seguirmos juntos ao mesmo destino. E ainda queremos encontrar outros para fortalecer nossa caminhada, porque temos certeza de que já não é possível ignorar a situação trágica que vivemos. Todos. Os que usam e também os que não usam drogas.

Somos moradores e moradoras de favelas e das periferias que convivem com a morte de familiares e amigos em uma guerra cujo sentido não se pode compreender. Somos médicos e médicas que querem tratar pacientes com o remédio adequado para suas enfermidades. Somos militantes de movimentos sociais na luta contra o genocídio da juventude, principalmente da juventude negra, nas cidades brasileiras. Somos cientistas cujas pesquisas com substâncias ilegais estão interditadas pela guerra ás drogas e que percebem que os males causados pela proibição são muito maiores do que aqueles que as drogas podem causar. Somos usuários e usuárias de drogas ilícitas que não aceitam a tutela autoritária e hipócrita do estado sobre corpos e mentes, que não aceitam a exposição a um mercado clandestino de drogas sem nenhum controle sanitário, que não aceitam os abusos policiais. Somos profissionais de saúde e ativistas antimanicomiais que percebem que os usuários problemáticos de drogas são alvo de tratamentos desumanos e cruéis, centrados no encarceramento e no interesse mercantil. Somos cientistas sociais que identificam na guerra às drogas uma guerra contra os mais pobres e os grupos historicamente discriminados. Somos os growers que rompem os vínculos com o crime organizado por intermédio do autocultivo e que sofrem implacável perseguição por parte dos agentes da repressão estatal. Somos os negros e negras que moram nas periferias e que ao serem flagrados com drogas são enquadrados como traficantes, a despeito da pequena quantidade da substância apreendida. Somos as mulheres que carregam drogas em seus corpos nas visitas a parentes e amigos presos e que acabam presas também. Somos aqueles chamados de “zumbis” nos lugares degradados das cidades, cujas vidas de sofrimento e privação são esquecidas para que simplisticamente nos vejam como vítimas de uma substância. Enfim, somos todos os cidadãos e cidadãs que sofrem com o crime e com a corrupção e que vêem policiais matarem e morrerem sem alterar em nada o mercado de drogas ilícitas.

Queremos conviver pacificamente com substâncias capazes de alterar a consciência ordinária. Queremos um cenário de regulação responsável para as substâncias capazes de causar prejuízo à saúde. Queremos informações verdadeiras e cientificamente embasadas, aptas a educar a população respeito do consumo de drogas. Queremos que o usuário de drogas seja visto não como um doente, mas como um sujeito de direitos.

Uma política de drogas deve garantir e promover direitos, não excluí-los. Por isso combatemos a massificação da internação forçada para usuários problemáticos e repudiamos o repasse de recursos públicos a comunidades terapêuticas e religiosas. Basta de uma política de drogas bipolar, que demoniza uma substância com comprovadas propriedades terapêuticas, como a cannabis, e negligencia os danos causados pelas bebidas alcoólicas, cuja propaganda é, ainda hoje e inacreditavelmente, permitida, estimulando o consumo desta substância extremamente perigosa e que pode inclusive levar à morte por overdose.

A Plataforma Brasileira de Política de Drogas surge como construção essencialmente coletiva em função desta realidade que precisa ser transformada. Temos a missão de fortalecer todos os atores que se percebem afetados pela política de drogas atual e que lutam por mudanças. Resultado de uma articulação que vem sendo feita nos últimos anos, reunimos organizações de todo o país e que atuam em diferentes áreas, saúde, justiça, direitos humanos, redução de danos, combate ao racismo, ao machismo, à homofobia. Ajudamos a organizar o Congresso Internacional de Drogas, em 2013 e percebemos a importância de articular uma ação conjunta  que potencialize a atuação de nossos membros. Percebemos também que o Brasil precisa ser parte do movimento global de questionamento do paradigma proibicionista e da insana guerra às drogas e que temos uma chance importante na reunião exclusiva da Assembleia da ONU sobre o tema que acontecerá no ano que vem, a UNGASS 2016. Contamos, para isso, com a parceria de membros da Plataforma, como a Conectas, a Reduc, a ABGLT e o Instituto Igarapé. Também fazem parte da Plataforma: Centro de Referência Sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas (CRR/FCE/UNB); Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC); Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos (ABESUP); Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais (ABGLT); Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos Sobre Drogas (ABRAMD); Associação Brasileira de Redução de Danos (ABORDA); Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME); Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO); Associação Juízes para a Democracia (AJD); Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES); Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID-UNIFESP); Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC) da Universidade Cândido Mendes; Conectas Direitos Humanos; Centro de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP); Growroom; Grupo de Pesquisas em Política de Drogas e Direitos Humanos da UFRJ; Grupo de Trabalho do Programa Álcool, Crack e Outras Drogas da Fundação Oswaldo Cruz; Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM); Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD); Instituto Igarapé; Instituto Sou da Paz; Rede Pense Livre; Laboratório de Estudos Interdisciplinares Sobre Psicoativos da Unicamp (LEIPSI); Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre Psicoativos (NEIP); Observatório Baiano Sobre Substâncias Psicoativas (CETAD); Plantando Consciência; Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (PROAD-UNIFESP); Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos (REDUC); Rede Cidade Fala; Rede Latinoamericana de Pessoas que Usam Drogas (LANPUD). Fazem parte do Conselho Consultivo da Plataforma: Antonio Lancetti; Antonio Nery; Aldo Zaiden; Beatriz Vargas; Bia Labate; Dartiu Xavier da Silveira; Denis Russo Burgierman; Edward Macrae; Elisaldo Carlini; Henrique Carneiro; Ilona Szabó; José Henrique Torres; Julita Lemgruber; Luciana Boiteux; Luiz Eduardo Soares; Maurides Ribeiro; Maria Rita Kehl; Paulo Amarante; Salo de Carvalho; Sidarta Ribeiro; Sueli Carneiro; Sérgio Salomão Shecaira.

E hoje temos também o lançamento em São Paulo da campanha “Daproibição nasce o tráfico”, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Cândido Mendes, sob a liderança de Julita Lemgruber. A campanha, realizada por meio de cartuns dos mais importantes cartunistas brasileiros, chama à atenção para a irracionalidade da guerra às drogas. No Rio de Janeiro, os cartuns foram exibidos nos ônibus por aproximadamente um mês. Em São Paulo, os ônibus começaram a circular com os cartuns no dia de ontem, mas hoje Julita recebeu uma ligação da empresa que comercializa propaganda em ônibus intermunicipais, informando que os cartuns serão retirados dos ônibus porque fazem apologia às drogas. Parece piada, mas não é. É censura gerada pela ignorância que se alimenta da intolerância proibicionista. Alguém já disse que no Brasil o realismo fantástico não pegou porque a realidade faz concorrência desleal.


Outro exemplo clássico: em São Paulo, a Marcha da Maconha, realizada todos os anos em mais de quinhentas cidades ao redor do globo, foi sistematicamente proibida, mercê de decisões judiciais proferidas pelo Tribunal de Justiça, sempre em atendimento a pedidos formulados pelo Ministério Público, sob o pífio argumento de que postular a reforma da política de drogas se confunde com a apologia ao crime e o estímulo ao consumo de drogas. Foi necessário que a Suprema Corte se manifestasse para dizer o óbvio: liberdade de manifestação inclui o direito de pedir mudanças na lei de drogas.


Por aí se percebe a dificuldade de debater política de drogas em bases racionais, dada a tradição autoritária da nossa sociedade e o fundamentalismo que permeia o paradigma proibicionista.  


Estamos todas e todos aqui reunidos, membros e parceiros da Plataforma, porque cada um de nós, em algum momento, individualmente ou em nome das organizações-membro, decidimos assumir a responsabilidade pelos diversos problemas que a guerra às drogas causa à nossa sociedade.

É com o peso dessa responsabilidade e com a pressa para salvar cada uma dessas vidas que iniciamos os trabalhos da Plataforma. E, por isso, nos dispomos a dialogar com os diversos meios de comunicação para ajudar a qualificar o debate e a informar sobre os reais danos causados pelas drogas e pela política de drogas. Vamos impulsionar e articular pesquisadores para que tenhamos mais conhecimento sobre o tema. Vamos aos gabinetes de parlamentares, autoridades e suas assessorias apresentar dados e argumentos que embasem propostas de mudança na política de drogas do Brasil. Vamos dialogar com diversos movimentos sociais e organizações políticas para fortalecer nossa capacidade de mudança. Temos um compromisso com o resultado da nossa ação política, pois ela deve ser capaz de responder aos problemas identificados. Ao mesmo tempo, temos a responsabilidade de potencializar ações já iniciadas pelas organizações que compõem a Plataforma, identificando oportunidades de parcerias e apoios. A dificuldade da tarefa não nos desanima, antes o contrário: estamos mais motivados do que nunca, porque sabemos que estamos combatendo o bom combate. O tabu moral que tornou possível o surgimento da proibição tem a ver com uma mentalidade medievalesca, a qual, em pleno século XXI, não tem mais lugar. Passou da hora de varrer a proibição para o limbo da história.

Precisamos botar um fim nessa guerra. Há um antigo brocardo latino que diz:  si vis paccem, parabellum, que significa “se queres a paz, prepara-te para a guerra”. É tempo de subverter essa lógica: não queremos mais guerra, queremos paz. A paz que existia na relação ancestral entre seres humanos e substâncias psicoativas e que foi rompida há aproximadamente cem anos deve ser restaurada. Basta! Não se constrói paz com guerra. A paz armada é apenas uma contradictio in adjecto. Paz significa ausência de guerra. Paz significa respeito a estilos de vida contramajoritários. Paz significa diversidade. Paz significa mais tolerância e menos ordem. É isso que nós queremos."   

p.s. 1: agradeço ao guilherme werneck, coordenador de comunicação da plataforma, por ter me enviado o discurso de maronna.

p.s. 2: aqui tem a cobertura fotográfica do evento.

domingo, 14 de julho de 2013

rafael coutinho, a entrevista

acabei de publicar aqui no esforçado o perfil que fiz de rafael pra azul magazine ("retrato de um artista com ideias de sobra"). o que segue agora é a entrevista, praticamente na íntegra. conversa boa da porra, cheia de informações, bom humor, reflexões, tem de tudo. e coloquei no estilo fernando faro porque quem importa é o entrevistado.



INFÂNCIA, PRIMEIROS DESENHOS

A primeira lembrança... tenho fragmentos de quando era bem jovem desenhando coisas na escola... eu usava o desenho como ferramenta pra impressionar as professoras e os amigos... e já tinha uma facilidade... minhas memórias mais antigas já me trazem isso, que eu tinha uma facilidade pra desenhar, com o assunto... e desenhando com o meu pai, pedindo pra ele desenhar coisas pra mim... super heróis, personagens de séries japonesas dos anos 1980, personagens de vídeo games, Bart Simpson, Snoopy, robôs, umas caricaturas, personagens mais cômicos...

Sempre fui extrovertido, desenhar era mais uma facilidade mesmo, não era por timidez... mas a gente se mudou muito de cidade quando eu era criança... agora em retrospecto vejo que usei muito o desenho para fazer amigos e conquistar pessoas com mais facilidade, era o meu cartão de apresentação... sempre desenhei muito na escola. Em matéria que eu não ia bem eu desenhava ao redor da prova e a professora achava bonitinho e me dava mais nota [risos]... usei bastante esse artifício [risos]...

Eu acho que ele [Laerte] se divertia com a gente, com o assunto... nunca direcionou, pressionou ou incentivou pra que eu seguisse esse caminho... ele gostava de ver as coisas que eu fazia e sempre participou dessa forma... queria que a gente mostrasse as coisas que a gente tava fazendo, e não era só desenho... sempre foi um pai estimulante, criativamente... na verdade sou muito grato por ele não ter direcionado nada e nem que eu seguisse por um caminho que ele já tinha previamente feito... e ia nos jogos de basquete, nos ensaios de dança... dancei durante muitos anos, até a fase adulta, b-boy, e também fiz um pouco de dança contemporânea, street dance, dancei mesmo... enfim, ele participou das coisas que eu fiz... no teatro... então nunca foi uma coisa direcionada pro desenho... e minha mãe também me estimulou muito, do jeito dela... sempre teve muita arte em casa, quadros... era um casal comunista nos anos 80, né? Então tinham máscaras sul-americanas, reproduções de Picasso...

ESCOLHAS, TRABALHO

Foi na época do vestibular, nessa época de escolher a carreira, naquela confusão angustiante que o jovem tem na hora de escolher do alto dos seus 17 anos... me pareceu ali que era a única opção possível... mas não era uma coisa voltada para os quadrinhos... era Arte. Achei que tinha que fazer algo com Artes Gráficas e acabei fazendo Artes Plásticas... prestei pra Arquitetura e não passei, Desenho Industrial também não, e acabei fazendo Artes. Demorei muitos anos pra entender o que era arte... entrei muito cru, não sabia de nada, e acho que até metade da faculdade eu ainda tinha muita dúvida se de fato queria ser artista... lutei contra isso.

Comecei a trabalhar muito cedo. Aos 16 eu já trabalhava... fui garçom em restaurante, vendi CD em banquinha de standcenter, locadora... e aí, em um segundo momento, entrei em um estúdio de animação ligado a uma editora e comecei a me acalmar. Foi ali que vi que algum resultado estava saindo... fazia charges animadas e foi lá que fiz meu primeiro videoclipe [“Chapa o côco”, Xis]... a gente ganhou prêmio na MTV [melhor clipe de rap no VMB 2002, indicado em outras duas categorias]... fiquei muito excitado ali... acho que também descobri cedo que trabalhos longos rendiam louros mais significativos na minha vida... acho que foi daí que nasceu o prazer de fazer histórias longas, projetos mais extensos...


Trabalhei com animação durante muitos anos e montei um estúdio próprio de design com alguns amigos de faculdade... durou três anos... chamava Base V... aí experimentei street art, murais, silk, serigrafia, era um tipo de arte experimental que a gente acreditava que podia existir entre a rua e as galerias, que a gente tinha muito preconceito... o grupo continua até hoje e eu me afastei em 2008... foi nesse período que comecei a publicar minhas primeiras histórias em quadrinhos numa publicação chamada Sociedade Radioativa, participei também de algumas coletâneas e já me sentia com mais autonomia, mais certeza e que tinha material para apresentar...

MULTIPLATAFORMAS

Sempre tive esse interesse em trabalhar em diversas plataformas. Em algum momento me foi passada a informação de que esse meu desejo de trabalhar em inúmeras mídias não só não era um problema como poderia ser a minha salvação em momentos de crise ou dificuldade, e que eu não precisava me preocupar tanto em me fechar em uma só mídia... entendi em minha fase adulta que profissionalmente era preciso também focar em alguma dessas mídias pra que eu também pudesse ser reconhecido. Vi que esse espírito bon vivant poderia prejudicar, mas nunca me fechei porque gosto mais das ideias do que das mídias. Então se a ideia me excita vamos fazer um filme... acabei me envolvendo recentemente com cinema, gostei muito, aprendi muito com amigos do cinema e quero continuar fazendo... fiz agora como ator uma peça com meu pai [“As Jóias”], achei que não fosse mais acontecer e aconteceu... tô aberto...


Eu me defino como me convém. Se tô numa roda com quadrinistas eu sou um quadrinista. Se me veem como um pintor eu sou um pintor. Não vejo necessidade em me definir tanto assim. Acho que a essa altura do campeonato, aos 33, o trabalho me define. É um trabalho que aparece e que estou desenvolvendo... acho que desde 2008 não fiquei nem um período sem trabalho. Não é porque sou excepcional... é porque me sobra ideia mesmo. Então, quando não tem trabalho encomendado eu tô tocando as coisas que eu quero fazer e realizar. É isso, acho que tem muita coisa pra ser testada e eu também me empolgo com facilidade com a ideia dos outros. É fácil me seduzir [risos]. Gosto de trocar informações com as pessoas. Acho que um tanto do Rafael da escola persiste até hoje, esse sujeito que quer impressionar, conseguir amigos, entrar nas turmas pra ajudar na forma que puder. E, claro, conquistei um tanto de maturidade artística nessa minha curta jornada que me dá algumas certezas que preciso pra continuar.

Tenho projetos longos, médios e curtos. Claro que entram umas coisas no meio, mas basicamente o ano já se desenha logo de cara. Aprendi a me organizar, a me disciplinar, porque é uma profissão que exige muita disciplina... gosto de realizar coisas então não fico vacilando não...

VIRADAS PESSOAIS, ORGANIZAÇÃO

2008, saída da Base V... amigos muito queridos... mas quando saí vi que tinha que decidir as coisas por conta própria... comecei a trabalhar em parceria com a galeria Choque Cultural, fazendo meus próprios quadros e exposições... então essa minha autoralidade foi infligida também... você tem que ser você... coincidentemente foi também quando surgiu a parceria com o Daniel Galera, que foi uma parceria muito diferente das minhas anteriores, porque me obrigou a ser autêntico e a escolher entre as várias gamas de possibilidades qual era o meu traço, qual era o meu ritmo de trabalho, quais eram as minhas soluções de roteiro, o que eu queria... tive muita sorte de encontrar um cara que estava no mesmo momento autoral, o Galera, que já tinha alguns livros publicados e tinha uma voz autoral já muito forte... foi um momento de virada pra mim.

Em 2004 foi a primeira vez que vi meu traço mudar... fazia um curso com desenhos de modelos vivos e fiquei muito feliz, empolgado... em 2008 com a Cachalote também ... agora eu tô vendo alguma coisa acontecer também e acho que é o volume de trabalho... nunca fui um sujeito de qualidade sobre quantidade, sempre fui de quantidade sobre qualidade... a quantidade de trabalho geralmente me jogou em um lugar no qual o resultado saiu diferente... que eu obrigatoriamente tive que aprender e solucionar coisas em função de projetos extensos ou entregas contínuas... nada melhor pra quem tá no meio que o trabalho contínuo... porque é um troço de repetição... é uma musculatura cerebral e espiritual que precisa ser exercida diariamente, tanto é que artistas gráficos que ficam muito tempo sem desenhar enferrujam... isso não é um mito, acontece mesmo. No fim do dia seu desenho tá melhor... se você desenhou o dia inteiro os últimos 10 minutos são excelentes... se for a semana inteira, o último dia da semana é excepcional... e é cruel porque é exatamente quando você precisa parar, que seu corpo tá doendo, sua cabeça tá exausta... então tem muito isso... somos alimentados pelo correr dos dias, pela demanda, pelo exercício diário... é maçante, mas também muito recompensador... se você aguenta e se organiza pra que os resultados saiam eles podem te surpreender.

É preciso deixar que a vida alimente a produção continuamente. Acho que existe um problema crônico nessa nova geração de artistas gráficos e plásticos que já chegam com muita violência e ambição no mercado antes de desenvolver essa relação entre a vida e o trabalho. Não existe uma retroalimentação aí, ela é só fruto de uma ambição, um desejo que é exterior a tua vida, exterior a tudo.  Gosto muito dessa angústia de trabalhar lentamente, disciplinadamente, rotineiramente sobre algo que só vai acontecer daqui há dois anos (histórias longas em quadrinhos, pinturas, exposições – Fogo Fácil, filme que alimenta foto que alimenta pintura).

FOGO FÁCIL from Peppe Siffredi on Vimeo

Conversei uma vez com o Zélio [Alves Pinto], irmão do Ziraldo. Tava super angustiado e fui conversar com ele. Depois descobri que ele teve a mesma conversa com meu pai quando meu pai era jovem. Ele é mais velho que nós dois [tem 75 anos] e ele falou a mesma coisa pra mim que falou pro meu pai: organize seu cronograma porque você é artista e também um empreendedor da marca de si mesmo e tem que organizar seu tempo para produzir algo curto, algo médio e algo longo. Aquilo me deu uma calma muito grande porque não dizia respeito às minhas angústias mais subjetivas, mas resolvia matematicamente algo que eu, nos meus 24 anos, precisava. Ali entendi como deveria organizar a minha vida e que cabia a mim decidir quais projetos curtos, médios e longos eles seriam.

O AUTOR, O AUTOR

Nesse jogo todo tem essa história da autoralidade que a gente discute muito nos mundos dos quadrinhos e das artes plásticas. A voz autoral... em que momento ela aparece? Quais são as demandas que ela te pede? Quase como uma voz de fora que chega te exigindo coisas, te tirando o sono... não tenho a sabedoria do Zélio, mas o conselho que posso dar é “ouça a sua voz autoral” e isso é uma coisa muito pessoal, muito de cada um, e não acho que sou maior ou melhor que ninguém porque produzo meu próprio trabalho. Eu sei o preço que pago por essas escolhas. Minha mulher sabe mais que ninguém [risos]. Tem que escutar essa voz, esse latido do cachorro [referência ao filme Verão de Sam]... se ele tá dizendo que você tem que matar, você tem que matar [risos]...

O quanto de espaço eu tenho... o quanto posso ser autoral pra aquela demanda... me procuram mais pra ser autoral, já me dando bastante espaço... e sei que não funciono tão bem quando me dão muitas diretrizes, sei que vou brochar... Falavam que meu trabalho já era muito autoral, não adiantava fazer outra coisa, não ia dar certo me pedir um infográfico ou algo assim... mas isso, durante um período, foi muito frustrante, achei que não fosse me encaixar... a duras penas vi que isso era uma coisa boa e que me salvou. Mas também me salva porque faço várias coisas ao mesmo tempo. Se tivesse ficado só em pintura estaria em apuros ou se fosse só quadrinista... essa coisa que me disseram lá atrás... se não me engano foi uma terapeuta... a questão dessa minha autoralidade vem dessa inquietação de fazer várias coisas ao mesmo tempo, trabalhar com mídias diferentes... se fosse uma só talvez não fosse tão autoral assim porque teria que abrir mão disso pra sobreviver... os latidos seriam mais baixos... seriam latidos de poodle [risos]...

Canal IdeaFixa - Laerte e Rafa Coutinho - FiznaMTV #PAI from IdeaFixa on Vimeo

E O PAI DO RAFAEL?

Nunca perdi o foco do trabalho dele, sempre acompanhei, e só aceitei essas curadorias [FIQ em novembro, Balada Literária em dezembro e uma outra num espaço cultural na Vila Leopoldina] porque não teria que fazer um trabalho angustiante de leitura das coisas antigas pra pensar numa exposição... até porque ele mesmo não queria uma coisa de retrospectiva... então a gente tá criando um jogo do zero, um gráfico, uma coisa que envolva as pessoas... não é nada do tipo “veja esse quadro”... então a gente tá bolando outra coisa... mas nunca deixei de acompanhar o trabalho dele... me estimula, me instiga, me deixa pasmo... e ele tá agora tentando se reciclar, se reentender como artista... é um cara que admiro muito, somos muito amigos, nos falamos continuamente, trocamos informações e acompanhamos o trabalho um do outro... a opinião dele é muito importante pra mim em tudo que faço. Tenho muita sorte de ter um pai assim, na real, independente de ser o Laerte que as pessoas idolatram e admiram, o meu pai é um sujeito muito parceiro e um grande amigo. Tenho sorte. É um artista ducaralho, impressionante, sensível, generoso, tenho sorte.

sábado, 13 de julho de 2013

é fácil seduzir rafael coutinho

ano de várias matérias cortando os ares do brasil. já rolaram umas cinco pra revista da gol (naldo e marcelo D2, por exemplo), uma pra tam nas nuvens e agora essa pra azul magazine. rafael coutinho foi sugestão minha e a conversa foi muito melhor do que imaginava. como sempre deixei a entrevista para depois das fotos - que ficaram a cargo de victor affaro -, o que deixa tudo mais relaxado, e fiz questão de falar pouco do pai laerte, pois rafael tem voz autoral muito forte para ser um mero "filho de...". agradecimentos a alexandre maron que me indicou e, acima de tudo, a patrick moraes, editor da azul magazine (sempre bom encontrar bons editores). ah, já publiquei aqui no esforçado a íntegra da entrevista.


RETRATO DE UM ARTISTA COM IDEIAS DE SOBRA

No alto da escada uma vira lata balança o rabo. Seu nome é Mexerica e ela é a responsável pelas boas vindas ao ateliê que Rafael Coutinho, 33, divide com outros amigos-artistas no bairro da Pompéia, Zona Oeste de São Paulo. Após receber as devidas carícias, Mexerica retorna à companhia do igualmente vira lata Pancho numa almofada ao lado da prancheta de Rafael. “Eles já eram namorados antes d’eu adotá-los”, relembra e logo pede para ninguém chegar perto da almofada. Pancho é muito protetor de seu território.

Filho de Laerte Coutinho, criador dos Piratas do Tietê e um dos maiores nomes do quadrinho nacional, Rafael tornou-se, em pouco mais de três anos, uma das grandes revelações do meio. Alguns já o conheciam de animações (trabalhou no premiado clipe “Chapa o côco”, do rapper Xis, e assinou curtas como “Aquele Cara”), outros de seu trabalho no coletivo de arte urbana Base V, e outros ainda de suas primeiras histórias em quadrinhos em coletâneas e revistas independentes como a Sociedade Radioativa. Mas a virada na sua carreira foi mesmo com o elogiado Cachalote (2010), livro em quadrinhos feito em parceria com o escritor Daniel Galera.

Não foi da noite para o dia que Rafael chegou ao ponto de Cachalote, e nem por um caminho só. “Na infância usava o desenho como ferramenta para impressionar professoras e amigos. Não era por timidez, sempre fui extrovertido, era mais porque já tinha uma facilidade. Era meu cartão de apresentação. Em matéria que não ia bem desenhava ao redor da prova e a professora achava bonitinho e me dava mais nota [risos]. Usei bastante esse artifício [risos].”

Na época do vestibular viu que aquela sua facilidade, estimulada discretamente pelo pai-amigo já conhecido, era a única opção possível. Optou por Artes Plásticas sem saber direito o que lhe esperava e muito menos se realmente queria ser artista. “Durante a faculdade entrei em um estúdio de animação ligado a uma editora e comecei a me acalmar. Foi ali que vi que algum resultado estava saindo”. Trabalhou em charges, no primeiro videoclipe (“Chapa o côco”) e em muitas outras animações até montar um estúdio de design e arte urbana experimental com amigos, o Base V.

“Sempre tive esse interesse em trabalhar em diversas plataformas. Em algum momento me foi passada a informação de que esse meu desejo não só não era um problema como poderia ser a minha salvação em momentos de crise. Mas entendi também que profissionalmente era preciso focar em alguma dessas mídias pra ser reconhecido. Só que nunca me fechei porque gosto mais das ideias que das mídias”. E as ideias de Rafael seguiam ganhando formas nas animações, em pinturas e, cada vez mais, em quadrinhos. “Eu me defino como me convém. Se estou numa roda com quadrinistas, sou um quadrinista. Se me veem como um pintor, sou um pintor. Não vejo necessidade em me definir tanto assim. Acho que a essa altura do campeonato, o trabalho me define. Acho que tem muita coisa pra ser testada e também me empolgo com facilidade com a ideia dos outros. É fácil me seduzir [risos]”.



Empolgado sempre, Rafael decidiu em 2008 sair do conforto do coletivo Base V em busca de sua própria voz autoral. Coincidentemente foi também quando conheceu Daniel Galera e nasceu o projeto de Cachalote. “É preciso deixar que a vida alimente a produção continuamente. Acho que existe um problema crônico nessa nova geração que já chega com muita violência no mercado antes de desenvolver essa relação entre a vida e o trabalho. O conselho que posso dar é ‘ouça sua voz autoral’ e isso é uma coisa muito pessoal. Não acho que sou maior ou melhor que ninguém porque produzo meu próprio trabalho. Sei o preço que pago por essas escolhas. Minha mulher sabe mais que ninguém [risos]. Mas é preciso escutar essa voz, esse latido do cachorro... se ele tá dizendo que você tem que matar, você tem que matar [risos]”.

Atualmente, Rafael Coutinho está ouvindo mais latidos que nunca. Após lançar o segundo volume de Beijo Adolescente, uma série de histórias curtas, ele está finalizando para o final do ano o ousado Mensur, sua primeira longa história em quadrinhos 100% autoral. Enquanto isso vai tocando a loja virtual e selo Narval Comix, procura uma nova galeria para lhe representar e prepara, como curador, três exposições que homenagearão o pai Laerte no segundo semestre. E pretende retomar Fogo Fácil, projeto que reúne cinema, fotos e pinturas. “Acho que desde 2008 não fiquei nem um período sem trabalho, e não é porque sou excepcional, é porque me sobra ideia mesmo”. Pancho e Mexerica não o deixam mentir.





SAIBA MAIS

No batente: Rafael Coutinho trabalha desde os 16 anos e antes de se tornar quadrinista, pintor, etc. assumiu funções como garçom em restaurante, vendedor de CDs em banquinhas de stand center e atendente de locadora de vídeos.

Ídolos nos quadrinhos: O norte-americano Jaime Hernandez (Love & Rockets), o espanhol Miguelanxo Prado (Mundo Cão), o japonês Taiyo Matsumoto (Tekkonkinkreet), o francês Cyril Pedrosa (Três Sombras) e, claro, o pai (“O trabalho dele me estimula e me deixa pasmo. É um artista impressionante, sensível, generoso”).

Ídolos no cinema: Os franceses Bruno Dumont (A Humanidade) e Jacques Audiard (O Profeta), a argentina Lucrecia Martel (O Pântano) e o norte-americano Paul Thomas Anderson (Sangue Negro).

Ídolos na pintura: O inglês David Hockney, o alemão naturalizado inglês Lucien Freud, o alemão Neo Rauch e o brasileiro Wesly Duke Lee.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

yahoo #52

nem vou repetir o quanto sou fã de laerte, afinal ele tem aqui até uma seção própria ("laerte da semana"). mas resolvi escrever sobre ele no yahoo porque além de todo seu gênio no ofício este seu processo de feminização (essa palavra existe?) é uma das coisas mais interessantes e enriquecedoras no atual debate sobre direitos para homossexuais e transgêneros. e é preciso usar espaços populares-malucos como o yahoo para colocar essas questões (os comentários por lá são, como era de se esperar, repletos de preconceitos variados).



LAERTE, MAIS QUE UM ROSTINHO BONITO

Cerca de três anos atrás o cartunista Laerte Coutinho, um dos artistas mais importantes das artes visuais brasileiras, passou a dar mergulhos profundos e públicos na própria sexualidade. Quem acompanha suas tirinhas diárias no jornal Folha de S. Paulo já poderia prever que algo estava para acontecer, pois desde 2004/05 elas estavam mais existenciais, filosóficas. Mas então, em 2009, o paulistano começou a virar mulher. Quer dizer, mulher não.

Era o mesmo Laerte de sempre só que com roupas femininas, maquiagem, acessórios, depilação, assumidamente bissexual, e querendo seriamente experimentar um possível “ser mulher” sendo homem (nunca teve intenção de fazer cirurgia de troca de sexo, por exemplo, mas vem pensando em próteses de silicone). Tudo isso foi uma surpresa para os filhos, namorada, amigos e fãs. Mas quem está vivendo na pele, dia após dia, essa surpresa e essa batalha é o próprio Laerte.


  
“Gênero é uma construção social que faz parte da cultura e não da biologia. As possibilidades são inúmeras”, afirmou em recente entrevista à revista Continuum (Itaú Cultural). Homem, mulher, roupa de homem, roupa de mulher, nada disso importa. O que importa mesmo é ser livre e respeitado. O resto vai de cada um.

Agora, o fato de ser muito querido como artista/profissional ajudou um bocado na boa aceitação social de sua nova vida. Com pouco mais de 40 anos de carreira e um curriculum invejável de personagens (Piratas do Tietê, Overman, Palhaços Mudos, Deus, etc.) e obras (Laertevisão, Los Tres Amigos, Muchacha, etc.), Laerte é um privilegiado. Ele sabe disso.



Por isso vem usando suas entrevistas em revistas e TVs (“De frente com Gabi” e “Roda Viva”, por exemplo) como uma forma leve e didática de registrar sua busca pessoal e, ao mesmo tempo, quebrar tabus. Em um mundo que não oferece alguns dos direitos civis mais básicos a homossexuais e transgêneros, a discussão proposta por Laerte parece muito avançada. E é mesmo.

Basta ver a disposição de deputados federais irresponsáveis como o trio João Campos (PSDB-GO), Pastor Eurico (PSB-PE) e Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) que vem tentando revogar a resolução do Conselho Federal de Psicologia que proíbe profissionais da área de oferecerem tratamento para “curar” homossexuais. Coisa mais óbvia do mundo, afinal homossexualidade não é doença. Intolerância sim é uma doença e, felizmente, tem cura: educação.



Em reportagem da Exame, Marco Feliciano chega ao absurdo de afirmar que “Não é que nem negro que nasce negro e não tem como mudar. ‘Homossexualismo’ pode ser mudado”. Provavelmente se existisse uma cura para negritude esse homem de Deus lutaria por um tratamento voluntário. De um sujeito que já disse que a AIDS e a fome surgiram na África por causa da “maldição do paganismo, ocultismo” é possível se esperar qualquer coisa.

Mas é isso. As coisas do mundo não caminham em linha reta. São camadas variadas, níveis diversos, ocasionalmente fazendo curvas bruscas à direita ou esquerda, passando por solavancos, dando cavalos de pau. No entanto, alguém ter que se linha de frente, dar a cara pra bater. Sessentona enxuta, Laerte é a cara mais lindamente maquiada de quem respeita a diferença, luta pelo amor e recusa o ódio.


p.s. esforçado: depois lembrei de um vídeo muito divertido feito pelo comediante carioca rafucko que trata justamente de um dos "argumentos" mais recorrentes dos intolerantes dos tempos de hoje, a tal da "ditadura gay". as coisas que a gente tem que ouvir nessa vida...

sábado, 3 de novembro de 2012

yahoo #51

nesse primeiro texto yahoozístico pós-campanha escolhi um assunto que queria tratar há tempos: quadrinhos. os últimos anos tem sido sensacionais em termos de lançamentos aqui no brasil e posso falar com conhecimento de causa porque compro e leio quadrinhos nacionais e internacionais desde meados dos anos 1980. na primeira parte, o texto é um apanhado pessoal, enquanto na segunda é um vôo panorâmico sobre os livros em quadrinhos (as tais 'graphic novels') de 2012. quem conhece quadrinhos tá careca de saber de tudo isso, mas é que foi feito como uma apresentação desse mundo pros leitores do yahoo.




CADA UM NO SEU QUADRINHO

Tem gente que até hoje acha que quadrinho é coisa de moleque, criança ou adolescente. Eu descobri criança, ali em meados dos anos 1980, que o buraco era mais embaixo, ou ainda, que os melhores quadrinhos eram aqueles que usavam essa linguagem tão popular para tratar de temas tremendamente adultos. E eles existiam aos montes! Na verdade desde sua origem, na virada do século 19 para o 20, com o extraordinário Little Nemo (1905-14/1924-27), de Winsor McCay. Claro que só fui saber disso muito depois.

No começo eram os super-heróis: Batman, X-Men, Homem Aranha, Hulk, DC Comics e Marvel, aquela coisa toda. Mas aí dentro desse universo comecei a ver coisas diferentes, densas, como Batman – O Cavaleiro das Trevas (Frank Miller, 1986), Elektra Assassina (Miller e Bill Sienkiewicz, 1986-87), Batman: Ano Um (Miller e David Mazzucchelli, 1987), Batman – A Piada Mortal (Alan Moore e Brian Bolland, 1988), Asilo Arkham (Grant Morrison e Dave McKean, 1989) e o Monstro do Pântano de Alan Moore.

E as portas definitivamente se abriram com V de Vingança (Alan Moore e David Lloyd, 1982-85), Watchmen (Alan Moore e Dave Gibbons, 1986-87), Maus (Art Spiegelman, 1986/91), a Mafalda do argentino Quino, a Valentina do italiano Guido Crepax, as moças do também italiano Milo Manara, as aventuras do francês Moebius e o pioneirismo de Will Eisner. No Brasil eram os tempos de Chiclete com Banana (Angeli), dos Piratas do Tietê (Laerte), da revista Circo (editada por Luiz Gê e Laerte) e da saudosa Animal, revista que me fez conhecer um mundo inteiro de artistas de primeira como Tanino Liberatore, Daniel Torres, Fábio Zimbres, Andrea Sapienza, os irmãos Jaime e Gilbert Hernandez, e Lourenço Mutarelli.

Tudo isso que foi citado tinha (e tem) uma coisa em comum: linguagem pop, impacto visual e dedo na ferida (nas mais diversas feridas).


Acredito que nos últimos anos os quadrinhos se cristalizaram como uma das mais relevantes artes populares. E que o mercado editorial brasileiro vem conseguindo dar conta de lançar grandes álbuns estrangeiros e estimular a produção nacional (graças às editoras guerreiras Conrad, Devir e Zarabatana Books, e ao atual poderio da Quadrinhos na Cia.). Não é o ideal, poder ser mais, e ainda é um pouco caro, mas estamos muito melhores do que já estivemos. Basta dar uma olhada nos lançamentos deste ano para se ter pistas disso.

Entre os gringos é possível entender um pouco sobre as relações entre o Oriente Médio e os Estados Unidos em Os Melhores Inimigos (Jean-Pierre Filiu e David B.) ou da história chinesa em Adeus Tristeza – A História dos Meus Ancestrais (Belle Yang). Acompanhar leituras particulares das vidas de grandes personalidades como J. Edgar Hoover (Rick Geary) e Freud (Anne Simon e Corinne Maier) ou de zés-ninguéns como Wilson (Daniel Clowes). E o subgênero ‘confessional’? Está lá em Pagando por Sexo (Chester Brown). Porém, nada melhor que fábulas barra pesada como Pinóquio (Vincent ‘Winshluss’ Paronnaud) e Habibi (Craig Thompson).

Já no Brasil tem o confessionalismo moleque de Momentos Brilhantes da Minha Vida Ridícula (Adão Iturrusgarai), a fantasia Monstros! (Gustavo Duarte), a crônica sexual-racial de Deus Essa Gostosa (Rafael Campos Rocha) e a deliciosa aventura de A Máquina de Goldberg (Vanessa Barbara e Fido Nesti). Destaque especial para os relançamentos luxuosos de Avenida Paulista (Luiz Gê), Diomedes (Lourenço Mutarelli) e Toda Rê Bordosa (Angeli).

Histórias diversas, traços ainda mais, tudo unido em nome de obras que se mostram atualmente mais adultas que o cinema, mais impactantes que a literatura e mais humanas que o noticiário.

p.s.: Até o final do ano deve sair Crônicas de Jerusalém, do sempre excelente Guy Delisle, enquanto não chegam por essas bandas Building Stories (Chris Ware, o mesmo de Jimmy Corrigan) e Journalism (Joe Sacco, de Notícias de Gaza). Sem falar em mais Rafael Coutinho, Rafael Grampá, Dash Shaw, Charles Burns, Marjane Satrapi, Caeto Melo, Alison Bechdel, muita gente boa pra dedéu...

quinta-feira, 3 de maio de 2012

laerte da semana #36

e não é que roubaram a casa do laerte e levaram seu computador com boa parte de seu acervo?! daí que seus fãs começaram uma "corrente virtual" para tentar recuperar esse material. laerte agradeceu, mas aproveitou para dizer que "gostaria que as pessoas se ligassem mais em fatos como o que aconteceu na Praça da Sé no dia 2, em que a polícia investiu contra os sem-teto que estavam fazendo uma manifestação. Isso também é um assalto, é um roubo, é uma expropriação e essa gente não tem quem os defenda. São pessoas sem identidade, sem representação, infelizmente."