do segundo semestre de 2023 até o início deste ano de 2026 já colaborei com a Forbes Brasil umas 18 vezes. a primeira foi uma grande reportagem sobre consultorias financeiras e depois se seguiram muitas participações escrevendo perfis em especiais da revista como Under 30, Top Creators, etc. e teve essa ótima entrevista que fiz com Denise Aguiar Alvarez, presidente da Fundação Bradesco, e que foi publicada em abril de 2025 (segue atual, como quase toda entrevista que faço). segue a conversa na íntegra.
Denise Aguiar Alvarez em sua casa [fotos de Marcus Steinmeyer]
O CONSTANTE DESAFIO DA EDUCAÇÃO
Há quase 40 anos liderando a Fundação Bradesco, Denise Aguiar Alvarez quer ampliar o sonho de seu avô de transformar vidas
Uma
das primeiras lembranças de Denise Aguiar Alvarez, 67, são passeios de mãos
dadas com seu avô, Amador Aguiar, pela Cidade de Deus, bairro de Osasco, Grande
São Paulo. Ela tinha por volta de 3 anos e era a primeira neta do fundador do
Bradesco (1943) e da Fundação Bradesco (1956), cujas sedes ficam até hoje na
Cidade de Deus paulista. Mas o que era extensão da sua casa, um playground
diferente, virou trabalho e jeito de ver o mundo depois de tanta insistência do
avô. “Ele falava pra todos que iam visitá-lo: essa
aqui é a minha neta, ela vai tomar conta da Fundação”, afirmou Denise em
entrevista para a Forbes Brasil.
Desde 1986, quando se tornou diretora da
Fundação Bradesco aos 28 anos, ela é responsável por levar o sonho de seu avô
adiante, capitaneando o
maior projeto de investimento social privado do Brasil. Para ser ter uma
dimensão do feito, nos últimos dez anos, a Fundação Bradesco investiu R$ 9,5
bilhões em educação – sendo que R$ 894,5 milhões apenas em 2023 e cerca de R$
1,4 bilhão em 2024. É um orçamento gigantesco espalhado por 40 unidades
escolares, presentes em todos os estados brasileiros, e beneficiando mais de 42
mil alunos nos 13 anos da educação básica (sem falar na Educação de Jovens e
Adultos e nos cursos de Formação Inicial Continuada). É um sonho grande que
Denise faz crescer um pouco mais a cada ano que passa.
Antes de chegarmos à Fundação Bradesco, queria
saber se você se lembra o que queria ser quando crescer?
Se eu falar você não vai acreditar.
Pode falar.
Queria ser dona de casa. Eu me lembro falando
isso no colégio. Estudei em um colégio de freiras e até elas ficavam olhando e achando
um absurdo.
O que era aspiracional em ser dona de casa?
Acho que era fazer tudo muito bem feito,
cuidar muito bem da casa, dos filhos, essas coisas. Mas isso eu era muito
menina. Depois, quando já estava no ensino médio, lembro que as professoras
pediram para algumas meninas, eu inclusive, irem ao nono ano explicar o que era
o ensino médio. Fiquei muito impactada com aquilo, porque a gente chegou lá, e as
meninas não deixavam a gente falar. Aquilo ficou muito na minha cabeça, não
conseguia parar de imaginar no que aquelas meninas estavam pensando. E isso
meio que permeou um pouco a minha vida, porque quando fui fazer pedagogia, o
que mais queria estudar era como a criança pensava, como o adolescente pensava.
Então chega o temido momento da faculdade onde
você tem que decidir o que vai ser para o resto da vida...
Foi um horror porque estudei minha vida toda em
um colégio só de meninas. E, pasme você, entrei em Ciências Sociais na PUC em
1977, o ano que a universidade foi invadida pelos militares. Era um outro mundo
pra mim, concorda? Teve toda essa violência, mas o curso também foi exatamente
o contrário do que imaginava. Era professora de sociologia falando que metade
da classe não ia aguentar até o meio do ano. Era texto obrigatório em espanhol
que ninguém dominava. Era aluno que não deixava professor entrar. Pensava
comigo que não ia conseguir sobreviver àquilo. Não tinha ideia do que estava
fazendo ali. Então encontrei uma colega da escola e fui com ela ver uma aula do
curso de pedagogia. E gostei. Era um curso muito bom. Foi assim, meio
aleatoriamente, que cheguei à pedagogia.
Nessa sua experiência cursando pedagogia, fazendo
faculdade, teve alguma coisa que você carrega até hoje? Alguma coisa que te
ajudou na sua trajetória?
Não muito, porque era um curso muito teórico,
entendeu? Quando me formei decidi que queria muito aprender inglês. Aí, o que fiz?
Fui morar em Nova York, morei lá um ano fazendo curso de inglês. Depois fui na
Universidade de Nova York, a NYU, procurando algum curso em educação. O cara disse
que só tinha mestrado. Eu falei, mestrado? Meu Deus, nunca pensei em fazer
mestrado. Na NYU, foi diferente porque era um curso muito mais pé no chão,
muito mais da realidade do ensino, da aprendizagem, dos professores.
Como foi a escolha do que você ia falar no
mestrado?
Escolhi exatamente sobre o que mais gosto: infância
e ensino básico. Tinha que fazer um trabalho muito grande de pesquisa e fiquei indo,
por quase seis meses, a um espaço embaixo de uma igreja perto da NYU. Era um
espaço bem amplo, como se fosse uma brinquedoteca, cheio de colchões, e onde as
mães iam com suas crianças. Crianças de um ano ou dois. Ia lá e não podia
falar, tinha que apenas observar. Juntei essa observação a uma outra pesquisa
que estava fazendo sobre a [primatologista e antropóloga] Jane Goodall e foi
muito interessante ver as similaridades entre humanos e chimpanzés. E também
uma grande diferença: os chimpanzés não batem nos seus filhotes. Esse período
da NYU durou quase três dos cinco anos que morei em Nova York.
Nessa época da NYU, nessa volta, ou mesmo
antes, você já estava fazendo alguma coisa no Bradesco?
Sou a neta mais velha, e a vida inteira minha
mãe morou vizinha ao meu avô. Então, a gente tinha um contato muito próximo,
muito grande. Via meu avô diariamente, e sempre frequentei muito o banco. O
banco era uma extensão da minha casa. Então, quando estava no Brasil, meu avô
me chamava para vir almoçar aqui e conversar. Se ele tivesse visita, de amigos
a ministros de Estado, ele falava, essa aqui é a minha neta, ela vai tomar
conta da Fundação. Ele falava isso pra todo mundo. Só respondia: não sei se
quero isso, não sei se gosto dessa Fundação. Queria continuar estudando, queria
fazer um doutorado na França. E ele insistia, você tem
que vir, você tem que vir. Ele insistiu tanto que falei tudo bem, vou ficar um
ano aqui na escola, mas com uma condição, não é para ninguém saber que sou sua
neta. Realmente ninguém ficou sabendo, só a diretora da escola e a orientadora
com quem trabalhava direto. Fiquei um ano e gostei.
O que você fazia?
Fiquei na pré-escola e educação infantil. É
uma escola muito grande. Pra você ter uma ideia, na educação infantil tem 420 crianças.
E eu fazia de tudo. Cheguei a levar criança em ambulatório porque tinha se
machucado, ajudava na cozinha, arrumei um dia o gás, ajudava ou substituía
professoras. E aí um dia cheguei para a orientadora, que é minha amiga até
hoje, falei, escuta, eu podia fazer um trabalho com as crianças que estão um
pouco mais atrasadas? Ah, pode fazer o que você quiser. Então reunia essas
crianças, ficava com elas, conversando, acompanhando, e em um mês elas já
estavam iguais a todo mundo. Tinha que prestar muita atenção em cada criança, e
procurar entender qual era a questão com cada uma. E daí, depois que fiquei um ano, meu avô virou para mim e falou, então
você vai ficar né. E já me deu o cargo que tenho até hoje.
Você entrou oficialmente na Fundação Bradesco
em 1986. Tinha por volta de 28 anos. Como foi, de repente, estar com um cargo
importante numa fundação que já tinha três décadas de existência. Como foi esse
começo?
Ninguém precisou me falar, mas tinha total
noção que ia ser muito difícil, porque era neta do fundador e porque era mulher.
Agora, em educação, tem uma questão que é mais difícil ainda. Quando a pessoa é nova, eles acham que você não sabe nada, porque, em
educação, conta muito a experiência que a pessoa tem, entendeu? Então, você
imagine que na década de 1980, eu com essa idade, tomando conta disso tudo,
ninguém dava a bola. A pessoa já entrava na minha sala falando que a idade que
eu tinha era o tempo que ela trabalhava na Fundação.
Teve algum momento nesse início que te deu
certeza do que estava fazendo?
Olha, não sei se teve um momento porque
demorou, sem brincadeira, uns 20 anos. Todo mundo via que eu tinha mais
conhecimento, mas para entenderem ou acreditarem que ia dar certo o que estava
propondo, isso foi demorado. Mas olha, vou falar para você, nunca fiquei
batendo de frente, nunca. Digamos que tenho bastante paciência.
Mas 20 anos é bastante tempo mesmo com tanta
paciência...
Sabe em quem pensava? Nos alunos. Penso neles
sempre, até hoje. E sempre tive muita noção da importância do meu avô nessa
instituição e no porquê ele tinha me colocado nela. Isso meio que me norteou a
permanecer na Fundação até hoje.
E porque você acha que seu avô te colocou na
Fundação Bradesco?
Acho que ele me conhecia melhor do que eu
mesma.
O que pessoalmente te dava a certeza de que,
uma hora, você seria compreendida e respeitada?
Olha, eu me comprometi com meu avô a assumir
isso, entendeu? Isso ficou comigo e não voltaria atrás. Pode vir todo mundo
aqui fazer o que for que não iria desistir. Sou muito
focada e tenho muito compromisso com o que falo. Tudo isso me dava essa
certeza.
Como você acha que, em seu início dos anos
1950, a Fundação Bradesco via a educação? E como via nos anos 1980, quando você
entrou? E agora? Houve alguma transformação nesse entendimento sobre educação?
Porque meu avô teve essa ideia da Fundação? Porque
era um momento onde não tinha escola pública para todas as crianças no país. Por
isso que ele começou com essa coisa de colocar escola onde não tinha, tipo no
interior do Pará, em Tocantins, uma escola fazenda no meio do Mato Grosso do
Sul. E escolas de qualidade, de alto padrão. Depois veio a universalização da
escola, da educação para todas as crianças brasileiras, mais ou menos na década
de 1980. Em termos curriculares não mudou muito não porque o maior desafio foi
sempre manter a qualidade educacional e a infraestrutura das nossas escolas
que, invariavelmente, ficam em lugares distantes. Atualmente temos 40 escolas
espalhadas em todos os estados brasileiros e continuamos mantendo o foco em
educação de qualidade.
No ano que vem [2026], a Fundação Bradesco
completa 70 anos, então é uma instituição sólida, uma máquina bem azeitada. Você
consegue ver alguma coisa no futuro que seja um desafio para essa estrutura
educacional de vocês?
Olha, vou falar para você que acho que o
grande desafio não é para a Fundação, é para o país todo, e é sobre a qualidade
desses profissionais que estão na linha de frente nas escolas, entendeu? E a
qualidade desse profissional, ao longo desses muitos anos que estou na
Fundação, acho que não melhorou muito. Esse é um grande desafio para o Brasil:
investir na formação do professor. Sem falar que em um país tão grande é
preciso saber lidar com inúmeras diferenças culturais. A verdade é que trabalhar
em escola é um desafio. Porque vai muito além de ensinar língua portuguesa e
matemática. Implica nas relações interpessoais e pessoais dos alunos entre si.
E o professor, o orientador, todo mundo que está na escola, tem que estar muito
alerta para isso. Com o tipo de aluno que a gente atende, muita coisa vem à
tona na escola, sabe? É incrível como tudo o que acontece de abuso, de
agressão, de tudo na casa, o aluno leva para a escola e conta. Ele pede
socorro. Então, eles veem a escola da Fundação Bradesco como um lugar seguro.
mais três textos pra edição de fevereiro da Revista Monet. os que fiz sobre Amanda Seyfried e Sydney Sweeney, a dupla protagonista do thriller A Empregada, mas acho que não vou colocar por aqui não. prefiro o que fiz pra Dona Beja, nova novela brasileira da HBO, que tem entrevistas com um dos roteiristas (António Barreira) e um dos amores de Beja (David Júnior). não consegui falar com Grazi Massafera porque ela está trabalhando sem parar na novela global das 9 que está no ar agora (As Três Graças).
SENHORA DE TANTOS AMORES
Grazi Massafera é a nova encarnação da sensualidade e dos dramas de Dona Beja, figura lendária e real do Brasil Império, em novela na HBO Max
Ana Jacinta de São José não veio ao mundo a passeio. Ela amou e foi
desprezada, enriqueceu e sofreu abusos de todo tipo, foi temida e desejada, criou
uma família aos trancos e barrancos e comandou a política de sua cidade
diretamente de um bordel. Tudo isso nas Minas Gerais do Brasil Império. Ana
Jacinta, mais conhecida como Dona Beja (1800-1873), é até hoje uma lenda muito
viva em Araxá (MG). Então, quarenta anos após sua primeira encarnação na TV,
interpretada por Maitê Proença na extinta TV Manchete, Dona Beja renasce
e ganha novo corpo em Grazi Massafera na segunda novela brasileira da HBO Max.
Escrita por Daniel Berlinsky e António Barreira, Dona Beja terá
40 capítulos e tem como base os livros Dona Beja: A Feiticeira do Araxá
de Thomas Othon Leonardos e A Vida em Flor de Dona Beja de Agripa
Vasconcelos. Além, claro, da novela Dona Beija, um grande sucesso em
1986 que transformou Maitê Proença em sex symbol nacional. A atriz, aliás, foi
uma das que melhor definiu a trajetória da personagem que interpretou.
“Antes de completar 15 anos, Beja já era vista como uma ameaça para as
damas da sociedade por conta da beleza extraordinária. Não conseguiram enxergar
a menina, mas sim uma mulher feita e perigosa. O ouvidor do rei, Dom Joaquim
Inácio, ‘apaixonado’, a sequestra e a mantém como sua amante por dois anos. A
família, humilde, se viu impotente para recuperá-la das garras de um homem tão
poderoso. E ela só volta para casa quando o ouvidor retorna a Portugal. Em
Araxá, em vez de vítima, a menina foi tratada como uma sedutora, depravada.
Machucada, a Beja vira a mesa e passa a dormir cada noite com o homem de sua
escolha. Toma-lhes joias e muito dinheiro, tem filhos com eles. E assim, graças
à inveja e ao desejo dos tortos, ela constrói fama, família e fortuna. Tanto
fizeram que ela virou mulher rapidinho e soube se vingar”, disse Proença em
vídeo de uma série chamada ‘Mulher de Fibra’ que fez para suas redes sociais
alguns anos atrás.
POR ELA SONHAM OS HOMENS
Barreira, um dos roteiristas da nova Dona Beja, é português e
destrinchar a história brasileira, e suas relações íntimas e conflitantes com
Portugal, foi um desafio à parte. “Isso me obrigou a realizar a maior imersão
cultural da minha vida. Precisei entender profundamente o Brasil contemporâneo
para, então, compreender o Brasil de duzentos anos atrás. E não apenas a
história ensinada oficialmente nas escolas, mas também em narrativas menos
difundidas, documentadas, que oferecem outras perspectivas sobre o mesmo
período histórico. Esse mergulho cultural me transformou profundamente”,
explicou.
Mas a princípio, o maior desafio dos roteiristas era o de colocar uma
história ambientada no século 19 em diálogo com a sociedade contemporânea deste
século 21. Barreira viu que, infelizmente, essa expressiva distância temporal
não era um abismo tão grande assim, afinal de contas, “ao olhar para o passado,
percebemos que muitos conflitos permanecem presentes no cotidiano atual.
Bastou, portanto, enfatizar determinados elementos já existentes na trama
original para que ganhassem contemporaneidade. Por exemplo, Dona Beja apresenta
uma forte jornada de empoderamento feminino. Em uma sociedade que ainda carrega
traços machistas e patriarcais, Beja pode ser vista por muitos como uma
transgressora. No entanto, ela é, sobretudo, uma mulher que se tornou dona de
si, que seguiu seus desejos e não se curvou às imposições masculinas. Sua
história revela a hipocrisia da sociedade em que estava inserida — uma
hipocrisia que, em muitos aspectos, ainda persiste. O passado, portanto, segue presente”.
QUEM A BEJA, BEIJARÁ?
Os principais interesses românticos da personagem de Grazi Massafera em
Dona Beja são Antônio Sampaio e João Carneiro de Mendonça. Interpretados
por Gracindo Júnior e Marcelo Picchi na novela dos anos 1980, agora estão sob a
responsabilidade de David Júnior e André Luiz Miranda, respectivamente. Mas o
fato de ambos serem negros e não escravizados, e isso muito antes da abolição
da escravatura em 1888, gerou uma série de questionamentos na época do
lançamento do primeiro teaser da novela.
Já preparado para tais perguntas, Barreira tem a resposta na ponta da
língua. “É que grande parte dos brasileiros aprende que a liberdade dos negros
só se deu com a Lei Áurea. No entanto, obras como Escritos de Liberdade,
da historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, revelam a presença significativa de
homens negros livres e influentes na sociedade brasileira da primeira metade do
século 19. Censos da época também apontam uma estrutura social diversa em Minas
Gerais, onde se passa a novela, com negros livres atuando como advogados,
comerciantes, intelectuais e líderes comunitários”, afirma o roteirista.
Essa particularidade de Minas Gerais pode ser explicada pela exploração
do ouro, pois foi desta forma que muitos negros conseguiram comprar sua própria
alforria e a de outros, estabelecendo assim comunidades negras livres ainda no
Brasil Império. Dona Beja quer, segundo seus autores, convidar o público
a ampliar seu olhar sobre o passado só que com fundamento histórico. “Mas a
novela também aborda o racismo dentro das próprias famílias, as hierarquias
sociais e as violências sutis sofridas por negros livres que ousavam ocupar
espaços reservados à elite branca”, diz Barreira.
Com essa premissa instigante, David Júnior, que interpreta Antônio Sampaio, ficou
entre o surpreso e o empolgado com o convite. “Dar vida a um corpo preto numa
novela de época, montando a cavalo ao invés de puxá-lo, e ocupando lugares de
poder, o que nas novelas dos anos 1980 só eram lugares de subserviência, alimentou
minha paixão pelo nosso ofício de uma maneira única”, relembrou Júnior.
Detalhe: o ator, que foi par romântico de Grazi Massafera na novela Bom
Sucesso (2019), já filmou cenas tórridas com Maitê Proença na novela Liberdade,
Liberdade (2016). Dizem que de Dona Beja ele entende. Quem há de discordar?
acho que teria assistido Guerreiras do K-Pop de qualquer forma porque gosto muito de animação, mas o fato de ter uma filha que amou e ficou obcecada pelo filme, pelas personagens e pela música, acrescentou uma dose extra de interesse e carinho por tudo. nem lembro mais quantas vezes assisti o longa e ouvi as músicas. e adorei todas as vezes.
lá pelas tantas decidi que teria que monetizar isso de alguma forma e tentei emplacar algumas pautas relacionadas que mandei pra BBC Brasil. primeiro pensei em falar com as dubladoras brasileiras, mas não houve interesse. depois lembrei que o compositor da trilha sonora (não das canções) é uma brasileiro radicado nos EUA, o paulistano Marcelo Zarvos. recebi sinal verde e marquei as entrevistas. foram duas via zoom porque tinha muito assunto pra falar, tanto sobre o fenômeno das Guerreiras, mas também sobre sua carreira, o início ao lado de Supla e os filmes que fez com gente das mais alta qualidade como Todd Haynes, Antoine Fuqua, Denzel Washington, Barry Levinson, Susan Seidelman, Robert De Niro, Jodie Foster, Bruno Barreto, etc.
só que logo percebi que a BBC Brasil perderia o interesse quando soubesse que Zarvos chegou no final do processo e sem participação nos hits (aliás, quem não ouviu "Golden" em 2025 não estava vivo). dito e feito. ainda tentei emplacar em outros veículos, mas a pauta tinha ficado "velha". então editei por conta e publico aqui no Esforçado porque ninguém falou com o Zarvos aqui no Brasil e a conversa foi muito boa.
Marcelo Zarvos em seu estúdio em Nova York
GUERREIRAS DO K-POP
Como surgiu pra você o projeto do Guerreiras
do K-Pop?
Foi, na verdade, o convite veio pelo estúdio
que estava produzindo, a Sony. E eu estava há anos querendo fazer uma animação.
Já fiz muitas trilhas, mas nunca tinha conseguido fazer uma animação. E
apareceu o Guerreiras do K-Pop. Eles me ligaram, estavam
precisando de uma pessoa meio que urgente pra entrar e fazer o projeto. Por uma
razão ou por outra eles não conseguiram o que queriam dramaticamente na trilha,
então me chamaram. Mas não tive nada a ver com as canções, elas já estavam
prontas. Fiz a trilha sonora, a trilha dramática, digamos assim, onde acabei
incorporando um pouco das canções. Mas foi uma coisa muito rápida. Assim, animações
geralmente demoram anos, né? Eles estavam desenvolvendo esse projeto há mais de
sete anos. E eu entrei, conheci eles todos em dezembro, já no final, quer
dizer, foi muito, muito rápido. Trabalhei durante seis semanas em Londres,
gravando, foi uma coisa louca... acontece isso de receber as coisas de trilha
sonora meio que na última hora. Foi uma pauleira, mas uma daquelas que valeram
muito mais que a pena. Porque fiquei muito atraído pela história. Realmente é
uma história de super-heróis, mas o grande poder delas é a música. E contada
pelo ponto de vista feminino, de verdade, não aquela coisa oportunista de que
poderia ser um homem e nada mudaria. É um filme de super-herói feminino, assim,
profundamente.
E quando te chegaram com a proposta do filme,
qual era o briefing?
A grande estrela do filme é a música K-Pop,
que é um gênero que conheço razoavelmente. Não é que seja uma pessoa que ouço K-Pop
minha vida inteira, mas é uma indústria muito grande no mundo inteiro, inclusive
no Brasil. É um fenômeno musical muito interessante,
muito específico, mas que obviamente tem uma grande influência do pop americano.
Mas o briefing era explorar o poder do K-Pop, o poder artístico, emocional,
dramático do K-Pop. E, como sempre faço nas histórias que trabalho, tento
sempre pensar da maneira mais universal possível. Embora, obviamente, K-Pop
seja uma coisa coreana, sempre também procuro ver, ao mesmo tempo, o que é
universal no projeto. E eu tento entrar dramaticamente por isso. Acho que a
música, e, nesse caso, a trilha sonora, que não são as canções, às vezes está
usando elementos do K-Pop, mas, muitas vezes, é uma trilha mais tradicional, de
uma certa maneira, uma trilha orquestral, com coisas dramáticas, emocionais ou
comédia. Busco ir para esse lado de como você vai atrair pessoas que talvez não
conheçam o K-Pop. Acho que o poder da história está na música, mas também está
no poder dramático das personagens, como elas são construídas e como elas estão
falando para a gente como seres humanos.
Então as canções já estavam prontas quando
você entrou...
Totalmente prontas, sim. Todas prontas.
Porque a animação, especialmente quando o pessoal está cantando, a
animação demora muito tempo. Quando comecei, a animação estava, vamos dizer,
80% lá. É um processo muito, muito demorado e mesmo uma animação que tem um
estúdio por trás e toda a infraestrutura e o orçamento que tem um filme desses,
demora muito. Foi incrível ver como até o final, quando a gente gravou a minha música,
ainda tinha uns 20% para terminar da animação. Mas as canções já estavam
prontas porque os animadores precisavam delas pra fazer a sincronia com as
bocas, os movimentos.
Bom, você entregou seu trabalho, seis semanas
na batalha, entregou... E aí você só foi saber do filme quando lançou? Ou você
chegou a ver alguma coisa antes?
Quando a gente termina a música, tem ainda a
mixagem do filme inteiro, que é onde os últimos ajustes são feitos no som e na
música. Mas mesmo ali a animação ainda não estava pronta. Assisti pela primeira
vez o filme pronto, acho que em maio, junto com amigos e familiares. Não era
ainda alguma coisa aberta. O filme só foi sair no final de junho. Mas logo ali
percebi que a reação das pessoas estava muito forte. Pessoas que nunca tinham
visto esse filme ficavam muito empolgadas... e não só crianças. Isso foi
interessante. Por outro lado, minha esposa sempre fala que
quando trabalho em um filme eu visto a camisa, digamos assim, de uma maneira
bem forte. Mas achei mesmo que as pessoas iam curtir.
Então você já tinha uma expectativa...
Sim, mas a Netflix não fez um marketing tão
grande para o filme. Eles fizeram um marketing ok, e acho que a princípio todo
mundo fichou achando que era só mais uma animação da Netflix. As crianças vão
ver, os pais vão ver. Legal. E aí semana que vem tem um próximo. Só que foi
crescendo. Foi um negócio muito interessante, porque foi realmente viral. Tenho
filhos de 13 e 15 anos, e eles começaram a ver muita coisa no TikTok. Realmente
foi uma daquelas surpresas que cada vez vai subindo mais. Não para de aumentar,
né? [500 milhões de visualizações de junho de 2025 a janeiro de 2026]
Sim, ainda não parou. Teve um boca a boca
viral que o transformou no filme mais visto da história da Netflix e suas
músicas todas entre as mais tocadas da Billboard. Como você acha que aconteceu
esse crescimento?
O que está acontecendo é que o filme se tornou
um disco que as pessoas tocam e fica rodando. E realmente, uma das coisas que
me atraiu muito no filme, quando vi, foram as canções. Especialmente “Golden”. Lembro
que quando ouvi “Golden”, pensei que ela ia muito além do K-Pop, porque
juntaram com uma coisa de musical mesmo. E a melodia de “Golden” é dificílima
de cantar. As músicas são muito difíceis e isso também me atraiu no começo.
Quando comecei a trabalhar fiz de uma maneira um pouquinho diferente do que
costumo fazer. Escrevi a trilha inteira sem usar as canções e daí, quando a
trilha estava emocionalmente certa e os diretores, pô, legal, a gente começou
daí a incorporar as canções, as melodias, em certos lugares bem estratégicos,
dentro da trilha, e virou uma coisa quase meio operática, de uma certa maneira,
porque dentro dessa trilha incidental você tem o DNA e certos pedacinhos da
melodia que vão aparecendo aqui e ali. Pensei, pô, legal, a gente está fazendo
isso, ninguém nunca vai reparar, mas os fãs reparam em tudo.
Marcelo Zarvos (centro da foto, ao lado de Supla) na formação original da banda Tokyo dos hits "Humanos" e "Garota de Berlim"
O INÍCIO EM SP, O REEINÍCIO NOS EUA
Queria voltar um pouco para a tua origem. Você
foi estudar música nos Estados Unidos bem jovem. Você está aí há muito tempo,
né?
Vim com 18 anos para estudar música. Mas
comecei profissionalmente na música antes, em São Paulo mesmo, no grupo Tokyo
do Supla. Já tocava piano desde os 11 anos, mas rapidamente entrei no negócio
de rock. Fazia parte do grupo, escrevia uma grande parte das músicas junto e
gravei os dois primeiros e únicos discos do Tokyo [Humanosde
1986 eO Outro Ladode 1987]. No primeiro disco, a
gente saiu em turnê, fez aquele negócio com a Nina Hagen [“Garota de Berlim”, 1986], ia no Chacrinha e foi uma experiência incrível. Quando
terminei o segundo disco estava com 17 anos e falei logo que não queria sair em
turnê. Percebi muito cedo que adorava compor, adorava gravar, mas detestava os
shows, as viagens, tocar a mesma coisa todo dia. Então sempre pensei em sair do
Brasil para estudar música. Pensando agora que tem uma parte da minha música
que tem muito a ver com sintetizadores e música eletrônica, e vem desse negócio
dos anos 1980 com o Tokyo. A gente nunca esquece nosso começo, nossas primeiras
influências.
E como foi esse começo nos Estados Unidos?
Antes de vir pra cá, saí do grupo e estudei um
ano bem forte para conseguir entrar em alguma das faculdades que queria. Fui
primeiro pra Berklee, em Boston, e depois pra CalArts, na Califórnia, onde
realmente fiz minha graduação. Minha ideia foi sempre estudar trilha sonora,
mas quando cheguei achei que era muito cedo, que precisava de mais comida
musical, sabe? Precisava me alimentar de mais coisas. Fui, oficialmente, como
pianista clássico, mas sempre compus e tocava também jazz e música brasileira.
Então fui estudando e tocando, estudando e tocando, porque achei que chegaria
naturalmente no caminho da trilha sonora. Acabei fazendo minha primeira trilha
praticamente 10 anos depois que vim para os Estados Unidos, e foi com um filme
brasileiro, o Uma História de Futebol, do Paulo Machline, um
grande amigo meu. É um curta, foi lançado em 1998, e foi um sucesso enorme, foi
para o Festival de Brasília, e até ganhei um prêmio. Na verdade, acho que até
hoje é o meu único prêmio de música [risos]. Tenho o Calango até hoje no meu
estúdio. O filme chegou a ser indicado ao Oscar de curta, foi uma coisa
incrível. Dali começou minha carreira no cinema.
Pensando que desde o início sempre foi um
objetivo seu o de fazer trilha sonora... qual era seu interesse?
Antes de qualquer coisa, eu realmente amo
cinema e amo cinema desde antes de amar música. Fui um mini cinéfilo,
literalmente, e gostava de ficar falando, conversando com as pessoas. Minha
família ficava até preocupada. Aquele negócio de você sentar e ver um filme,
aquele ritual e aquela experiência, é uma coisa muito visceral para mim. Depois
me apaixonei por música e foram dois os principais motivos: número um, Beatles;
e número dois, as trilhas sonoras da minha infância, especialmente dos anos 1980.
Tinha a do Blade Runner, porque adorava aquelas coisas do
Vangelis, e obviamente as trilhas que o John Williams fazia para os filmes do
Steven Spielberg. Mas o que mais gostava eram as coisas mais eletrônicas, me
apaixonei por isso, tipo Jean-Michel Jarre, Tangerine Dream, Kraftwerk... adorava
aquela coisa mecânica, mas com aquela estética bem eletrônica e, ao mesmo
tempo, muito emocional. Fui percebendo então que as trilhas sonoras permitiam
uma mistura de estilos muito grande. Então você ouvia, de repente, uma trilha
com orquestra, mas tinha uma coisa de rock no meio e, de repente, uma coisa
eletrônica e, de repente, virava uma coisa africana e isso me atraía muito e
fazia muito sentido na minha cabeça.
AS PRIMEIRAS TRILHAS SONORAS
Mas você não tentou fazer algo antes de Uma
História de Futebol?
Ah, sempre brinco que a primeira trilha sonora
que fiz foi uma introdução para os shows do Tokyo. Ficava tudo escuro e fiz uma
introdução de teclado, sintetizadores, que era uma coisa dramática, e foi a
primeira vez que senti o poder da música instrumental. Porque a trilha sonora é,
com poucas exceções, uma coisa instrumental, sem palavras, sem canções, mas que
mexe com as pessoas de uma certa maneira. Lembro dessa experiência muito bem
porque a primeira vez que fiz essa música em particular, a gente estava abrindo
para um show da Nina Hagen no Ibirapuera. Depois fui falar com os músicos da
banda dela, eles gostaram do clima, gostaram dessa coisa meio assim dramática,
um pouquinho “scary” e tal. Foi aí que percebi que o que queria realmente era
fazer era criar essas camas dramáticas, esses climas, né? Nesses anos antes de
começar realmente com as trilhas, fiz muita música para companhias de dança em
Nova York. Já era uma coisa mais próxima à trilha de cinema. Então veio a
oportunidade de Uma História de Futebol e realmente consigo
traçar tudo o que fiz em cinema a partir daquele primeiro curta que fiz com
Paulo Machline.
Olhando sua filmografia, Uma História de Futebol
é do final dos 1990, né? Mas seu primeiro longa é Beijando Jessica Stein?
Não foi o primeiro, mas foi o primeiro que fez
sucesso. Sim, está. O primeiro longa que fiz saiu em 2000 e se chama Tully.
Foi também como conheci o meu maior colaborador, e um cara que é um gênio. Acho
que no Brasil as pessoas estão começando a se ligar quem é Affonso Gonçalves, também
brasileiro que mora aqui, mas ele é montador. Ele editou Ainda Estou Aqui
do Walter Salles e o filme do Jim Jarmusch que ganhou Leão de Ouro em
Veneza, Father Mother Sister Brother, também foi ele que montou.
Ele trabalha bastante com o Jarmusch e com o Todd Haynes. No início de 2000, o
Affonso estava montando um filme chamado Tully, um filme
independente americano, e ele me viu tocando, naquela época ainda tocava
bastante jazz, e ele me viu tocando num programa que teve nos anos 1990, do
João Marcello Bôscoli, que chamava Companhia da Música. Era um programa na TV
Cultura e eu conhecia o João de garoto, a gente tocou de brincadeira em umas bandas
antes do Tokyo surgir pra mim. João me chamou para tocar uma música minha,
mencionou no programa que morava em Nova York, e o Affonso viu. Ele estava
trabalhando nesse filme e passou meu nome para a diretora [Hilary Birmingham],
que me mandou um e-mail do nada. Na mensagem ela nem mencionou que o Affonso
tinha falado de mim, que também era brasileiro. Bem, eu nem conhecia ele. Aí
trabalhamos em Tully; The Mudge Boy [O
Despertar da Adolescência, 2003, de Michael Burke], que foi para
o Festival de Sundance; The Door in the Floor [Provocação,
2004, de Tod Williams]; que foi meu primeiro filme de estúdio, tinha Jeff
Bridges e Kim Basinger no elenco, pude usar orquestra; e, mais tarde, ele me
levou para trabalhar com Todd Haynes e fizemos juntos Dark Waters
[O Preço da Verdade, 2019] e May December [Segredos
de um Escândalo, 2023]. O Affonso foi meio que um anjo da
guarda, colaborador e chapa amigo do peito. Devo minha carreira a ele a ao
Paulinho [Machline]. Eles me abriram portas, não é? Muitas portas. O cinema
depende muito disso.
Mas, voltando à sua filmografia, fiquei muito
impressionado com o tanto de coisa que você fez nesses 25 anos desde Tully.
Tem ano com quatro ou cinco filmes lançados com trilha sua. É possível ver
tanto um crescimento em quantidade de trabalho quanto em qualidade, já que você
começou a trabalhar com gente bastante conhecida como Denzel Washington,
Antoine Fuqua e Todd Haynes. Como você foi, com o perdão do trocadilho,
trilhando esse caminho?
Acho que não tem muito como planejar esse
caminho. Você quer trabalhar, você quer fazer o que gosta de fazer, mas não dá
para direcionar. As coisas vão acontecendo.
MAIS TRILHAS, NOVAS COLABORAÇÕES
Então, o que geralmente te chama para cada
projeto?
Minha filosofia é que, quando você entra para
fazer a trilha de um filme você faz parte do elenco, mas você é um ator
invisível, e você pode, às vezes, estar fazendo coisas super sutis lá atrás,
ou, de repente, você está na frente, aparecendo muito, como foi o caso de Segredos
de um Escândalo, do Todd Haynes. Tem sempre uma influência, que pode
ser desde muito mínima, efêmera e super delicada, até uma coisa muito na sua cara,
muito dramática. Mas, para mim, o desafio é sempre entender o que é o projeto
em si. Um dos grandes diretores com que trabalhei muito cedo na minha carreira,
e foi uma sorte grande, foi o Barry Levinson [de Rain Man e Bom
Dia, Vietnã – Zarvos fez a trilha de cinco filmes do diretor: Fora de
Controle, You Don’t Know Jack, Incidente em Claridge, O
Último Ato e Rock em Cabul]. E o Barry sempre falava assim, ‘você
precisa ouvir o que o filme está te dizendo, porque o filme vai cuspir todas as
músicas que não quer’. Com o Barry realmente aprendi muito essa coisa de você
não ter medo de experimentar e tentar coisas malucas, e tentar coisas diferentes,
porque no final é uma sinergia, não é só a música, não é só o filme. Você pode
ter uma cena fantástica que, com a música certa, vai ficar melhor ainda. Você
pode ter uma música fraca que com a cena certa vira uma superpotência. E o que
eu sempre procuro é isso, é como trazer essa experiência emocional, e pode ser
emocional, não só triste, que é o que as pessoas às vezes pensam, mas pode ser
uma coisa de comédia, pode ser uma coisa de medo, uma coisa de fantasia, como o
Guerreiras do K-Pop, mas é sempre procurando aquela fórmula, e
não é uma fórmula, porque cada filme é diferente, mas aquela alquimia, digamos,
que vai acontecer. Mesmo hoje em dia, tendo trabalhado com vários diretores, não
fica mais fácil. Toda vez a gente começa do zero. Mas tive sorte também de não
fazer só um estilo. Tully é um filme dramático, indie, bem
triste, daí o Beijando Jessica Stein é uma comédia romântica, então
gosto desse desafio. Agora, com mais 25 anos de carreira fui fazer minha
primeira animação, que era uma coisa que queria muito fazer. Ainda tem várias
outras coisas que adoraria fazer.
Tiveram alguns cineastas que você trabalhou
mais de uma vez, né? O Antoine Fuqua, o Todd Hayes, o Barry Levinson. Imagino
que cada trabalho tenha um ponto de partida diferente, tem uma demanda
diferente, cada diretor tem um estilo diferente de lidar com a trilha e de
falar com você sobre a trilha. Como você definiria essas suas colaborações mais
recorrentes?
Tem uma coisa muito boa de você trabalhar com
uma pessoa várias vezes é que você já conhece o estilo e tem aquela linguagem
que você vai desenvolvendo. Mas, ao mesmo tempo, acho que como o diretor sente
a pressão neles próprios de, pô, eu tenho que fazer uma coisa diferente, não dá
para ser a mesma coisa, tenho que estar me renovando, então você tem que ir
nessa também com a música. Eu tento sempre pensar nos projetos como, assim,
estamos começando de novo mesmo. Mas a ideia é
sempre você tentar entrar na verdade dramática do projeto específico. Então,
por exemplo, com o Antoine Fuqua tem dois tipos de projetos diferentes. Tem os
dramas policiais como O Protetor: Capítulo Final e também
documentários, alguns sobre esportes. Então a gente desenvolveu uma linguagem
de esportes bem diferente do que a gente fez para os dramas policiais. Mas
agora, por exemplo, estou trabalhando com ele num documentário sobre o Mandela,
que é um documentário histórico, uma coisa que, na verdade, de uma certa
maneira, é mais próximo do que a gente fez no Emancipação. É
importante acentuar uma coisa ou outra, mas os grandes diretores com quem
trabalhei eles estão interessados no que está por trás. O que eles têm em comum
é que eles não querem que a música simplesmente fale, olha, aqui o cara está
chorando, então vamos fazer uma coisa triste. O Todd Haynes, por exemplo, é um
cara extremamente sofisticado e num projeto como o Segredos de um Escândalo,
a música é uma coisa super chocante, mas mesmo assim ela está lidando com o que
está por trás das cenas. Tem uma cena do filme que a Julianne Moore abre a
geladeira e tem aquela música super dramática. Ela não vê nada demais na
geladeira, mas com a música super dramática ele quer dizer que a personagem é
muito mais instável do que aparenta, e a música está lembrando a gente o tempo
inteiro que o que você está vendo ali não é exatamente o que a história é. Mas
o grande desafio, pra responder à sua pergunta, é entrar na realidade
específica do projeto. Quero que as pessoas lembrem da música que faço para os
filmes não só pela melodia, ou o tema, mas também o que a música estava fazendo
e como a música funcionava. E a gente está sempre repensando esse
relacionamento.
Tem outra coisa que percebi na sua
filmografia, e isso obviamente pode ser apenas uma coincidência, é que você
trabalhou com mas tem vários atores/atrizes diretores(as). Robert De Niro,
Jodie Foster, Denzel Washington, Eva Longoria...
Interessante você falar isso. Sempre quis que
alguém me fizesse essa pergunta e você é a primeira pessoa que fez... porque,
realmente, isso foi uma coisa muito, muito marcante pra mim. Eu adicionaria
outra pessoa, que não costuma ser lembrada, e que foi uma das pessoas com quem
comecei, que é a Jennifer Westfeldt. Ela escreveu e protagonizou Beijando
Jessica Stein e depois fiz o primeiro filme dela como diretora [Solteiros
com Filhos, de 2011]. Mas, obviamente, começando com De Niro.
Foi ele que me ensinou como a música pode afetar a performance de um ator
porque ele sabe o poder da música. A diferença entre uma coisa virar
melodramática ou uma dramática boa é a música. Muitas vezes o ator está fazendo
a mesma coisa. Então, realmente, a gente passou muito tempo esculpindo. O
Bom Pastor [lançado em 2006, foi o segundo longa dirigido por De
Niro] é, até hoje, um dos maiores filmes que trabalhei em termos de
orçamento. Tive uma orquestra enorme, muito tempo nas mãos, e o De Niro ficava
tirando coisas. Ah, não, tira isso, tira aquilo, tira aquilo. E eu, às vezes,
assim, falando, pô, mas o que vai sobrar? Será que vai sobrar alguma coisa? No
final vi como ele estava realmente vendo como um todo, e ele, como ator, sabia
que, pô, se essa música for muito pesada ela vai sugerir uma interpretação para
o espectador que talvez não esteja na atuação. Aprendi muito, mas não tive
coragem de falar que me tornei compositor por causa de três filmes que ele
atuou: Taxi Driver [trilha de Bernard Herrmann], O
Poderoso Chefão 2 [trilha de Nino Rota] e A Missão
[trilha de Ennio Morricone].
Com Denzel Washigton já são dois filmes, né? Um
Limite Entre Nós, de 2016, e Um Diário para Jordan, de 2021...
Quando trabalhei com o Denzel a primeira vez
foi em Fences [Um Limite Entre Nós], filme baseado
em uma peça de teatro muito famosa do August Wilson, que é uma espécie de
Shakespeare americano. O Denzel dirigiu e era protagonista junto com a Viola
Davis. E eram basicamente os dois, então ele criou uma coisa muito mínima.
A primeira música da trilha só aparece já com uns 30 minutos do filme.
Eu, obviamente, já tinha mais experiência, mas ele me trouxe mais para dentro
do processo. Via na sala de edição ele estava cortando e como ele via a própria
interpretação dele. Isso foi uma coisa fascinante. Ver um mestre ator refinando
sua própria performance, e que já era uma performance perfeita... não, a gente
vai ficar mais cinco frames aqui, daí não sei o quê, e a música... E como era
sutil, e como fazia a coisa ficar mais forte com menos. O grande negócio do
Denzel, e que diria também do De Niro, era que eles têm maneiras diferentes de
falar que menos é mais. O De Niro chama isso de “restrain intensity”, uma
intensidade contida. Sempre penso muito no De Niro e no Denzel, em tudo que
faço. O que eles achariam disso que estou fazendo? [risos]
O seu primeiro trabalho com trilha foi lá
atrás com o Paulo Machline. E depois você só teve mais duas colaborações com um
cineasta brasileiro, o Bruno Barreto... enfim, até agora você fez pouca coisa
aqui no Brasil. O que acha disso?
Posso dizer que isso é uma das minhas grandes
frustrações. Gostaria muito, tem muitos diretores brasileiros que admiro como o
Walter Salles, o Fernando Meirelles e o Beto Brant e, sei lá, ainda não
aconteceu. Sempre estou aberto, sempre estou curioso do que está acontecendo. Acho
que tem coisas fantásticas acontecendo, tanto no cinema como na TV. Acho que a
TV brasileira deu um pulo muito grande quando entraram os streamings. Tem
muitas séries bacanas e diretores geniais. Mas, enfim, passei quase 25 anos
querendo fazer animação e acabei finalmente fazendo, então, se Deus quiser, vou
ter uma chance de trabalhar com diretores brasileiros. Vai chegar a hora.
Quanto ao Bruno Barreto, eu o conheci pela primeira vez quando fui chamado para
trabalhar de assistente do Eumir Deodato no filme Bossa Nova [2000].
Acabei escrevendo umas três músicas do filme, nem tive crédito, mas era uma
coisa normal porque, às vezes, como assistente você escreve uma coisinha ou
outra. Foi bem legal. Anos depois ele me chamou para fazer a trilha de Última
Parada 174[2008] e depois Flores Raras [2013].
Admiro muito o Bruno, ele fez coisas incríveis e tem um controle do cinema
muito grande.
TRABALHO AUTORAL
Falando um pouquinho do seu trabalho autoral.
Como se dão essas composições mais eruditas, com formações pequenas, de câmara,
em meio às funções todas da vida e das encomendas e trabalhos? Como ele vai
surgindo para você e como você compararia, se é possível comparar, o seu
trabalho autoral com o seu trabalho de trilha sonora?
Olha, para mim é tudo uma coisa só e uma
informa muito a outra. Comecei a fazer música de olho em histórias, sempre fui
interessado nisso. Logo que me mudei para Nova Iorque gravei três discos, mas a
gravadora tem uma coisa com alta resolução e eles se recusam a colocar os
discos em streamings, então, infelizmente, essas gravações só existem em CD, o
que é uma pena porque essas gravações foram meu laboratório de pesquisa. É uma
coisa meio música de câmara brasileira com jazz. Um deles se chama Labyrinths
[1999] e foi inspirado na obra do escritor Jorge Luiz Borges. Aliás,
muito da minha música autoral vem da literatura, como por exemplo “Nepomuk’s
Dances”, que fiz para um espetáculo de dança, e é inspirada em um personagem do
livro Dr. Fausto de Thomas Mann, e “Olga Benário”, que fiz
depois de ler Olga, o livro maravilhoso de Fernando Moraes. Então,
quer dizer, história e música sempre foram uma coisa só pra mim. Falando em
dança, também considero o trabalho que fiz para a dança tão autoral quanto o
que fiz para música de câmara e os discos de jazz, porque na dança você, a
partir de uma ideia ou um briefing, faz a música primeiro. Quero muito
registrar essas músicas que fiz para espetáculos de dança.
Tem muitas maneiras de mostrar sua voz, né?
É porque tento levar minha voz pra tudo o que
faço. Uma vez jantei com o Philip Glass, cara super legal, super generoso e,
obviamente, um dos meus ídolos. E ele falou que tudo que ele fazia, de um
jingle a uma ópera, de uma sinfonia a uma trilha sonora, ele via tudo da mesma
maneira. Que é a música dele, e que ele vai dar o melhor de si. Isso ficou
muito na minha cabeça, de jogar com tudo em tudo que estiver fazendo. Porque
uma das coisas interessantes das trilhas é que sua música pode existir fora dos
filmes, então justamente por isso tento sempre fazer a coisa mais expressiva,
mais emocional e mais musical, porque talvez vai ter uma pessoa do outro lado
do mundo que vai ouvir isso daqui a 15 anos, e quero poder continuar transmitindo
o que estava sentindo para essa pessoa.
PRÓXIMOS TRABALHOS
Para a gente encerrar, Marcelo, você mencionou
esse documentário que você está fazendo com o Fuqua sobre o Mandela. O que mais
você tem pela frente de trabalhos em cinema?
São dois documentários com o Antoine Fuqua,
esse sobre o Mandela e outro sobre a Death Row, a lendária gravadora que lançou
Snoop Dogg, Tupac e Dr Dre nos anos 1990. Também vou trabalhar novamente com o
Todd Haynes em um drama com Pedro Pascal que se passa nos anos 1930 e será
filmado no México. O título provisório é De Noche. Outro projeto
é o novo filme do Stephen Chbosky, com quem trabalhei em Extraordinário,
que antes de Guerreiras do K-Pop foi o filme de maior sucesso que
fiz e tinha Julia Roberts, Owen Wilson e Sonia Braga no elenco. Esse novo do
Chbosky se chama Weekend Warriors e terá o Mark Wahlberg
protagonizando. Nos streamings, a Netflix deu sinal verde pra quarta temporada
da série A Diplomata e continuarei trabalhando, enquanto FX e
Hulu vão lançar a minissérie Cry Wolf, com Olivia Colman e Brie
Larson, que foi criada por Sarah Treem, com quem trabalhei na série The
Affair [2014-19]. Essas são as coisas que estão no horizonte.
na edição de janeiro da Revista Monet escrevi os perfis de Cynthia Erivo e Ariana Grande por causa da estreia de Wicked: Parte Dois nos streamings da vida. resolvi colocar os dois textos juntos aqui no blog porque faz sentido pela amizade e respeito profundos que as duas construíram durantes as filmagens da saga Wicked.
O PODER DE CYNTHIA ERIVO
“Não é uma maravilha isso?! Estar nessa posição, neste momento da minha
carreira, é, primeiro, um privilégio; e, segundo, uma enorme surpresa. Ser uma
dessas pessoas que está prestes a alcançar isso é simplesmente incrível”, disse
Erivo sobre sua quase conquista do EGOT (Emmy, Grammy, Oscar e Tony Awards)
para a Billboard em junho do ano passado. A inglesa já bateu na trave duas
vezes ao não levar por suas atuações em Harriet e na primeira parte de Wicked.
A Academia não indicaria Erivo novamente pelo mesmo papel, como efetivamente
aconteceu, e sua Elphaba em Wicked: Parte Dois nem foi indicada.
Mas o adiamento dessa merecida conquista não tira o sono de Cynthia
Chinasaokwu Onyedinmanasu Amarachukwu Owezuke Echimino Erivo, afinal ela sabe
que estará na companhia de artistas como Barbra Streisand, Liza Minnelli, Audrey
Hepburn, Whoopi Goldberg e Viola Davis (são 21 EGOTs ao total). Então, nada é mais
justo que consagrar essa filha de refugiados nigerianos que em apenas dez anos
se tornou unanimidade mundial em termos de voz, força e presença.
Cynthia Erivo já era conhecida por seu canto e intensidade nos palcos
londrinos no início dos anos 2010 quando deu um grande salto ao estrear na
Broadway, em 2015, no musical A Cor Púrpura (que ela já tinha feito em
Londres). O sucesso de sua interpretação de Celie foi imediato – no filme de
Steven Spielberg, a personagem foi interpretada por Whoopi Goldberg –, os
primeiros prêmios vieram e seu nome passou a ser cobiçado pelo cinema.
Mas Erivo, muito sabiamente, disse sim para dois filmes nada musicais: As
Viúvas (com Viola Davis, Liam Neeson e Colin Farrell) e Maus Momentos no
Hotel Royale (com Jeff Bridges, Dakota Johnson, Jon Hamm e Chris Hemsworth),
ambos de 2018. Queria mostrar, acima de tudo, que não deixaria ser rotulada por
um gênero ou outro.
Então, já em seu terceiro filme, conseguiu unir atuação dramática e música.
Em Harriet (2019), Erivo interpretou a abolicionista Harriet Tubman
(1822-1913) na sua luta contra a escravidão nos Estados Unidos. Sua atuação
recebeu novos e maiores elogios, foi indicada ao Oscar e co-escreveu e cantou,
na trilha sonora do filme, a música “Stand Up” (também indicada ao Oscar).
“Escrever, cantar e atuar se alimentam mutuamente. Quando canto, me
sinto livre e aberta, o que significa que, quando vou atuar - porque já me
proporcionei essa experiência -, a vontade de me fechar novamente meio que
desaparece. Então, quando estou em um set de filmagem, estou tão aberta quanto
quando estou cantando. Estou à espera de receber o que quer que esteja sendo
transmitido pelo meu parceiro ou por quem estiver contracenando comigo, para
que eu possa realmente ouvir. Porque o ato de escrever e cantar é, na verdade,
também o ato de ouvir”, disse em entrevista para a Associated Press.
Entre palcos e sets, Erivo foi construindo uma carreira diversa e
surpreendente. Após a pandemia, a atriz encarnou, por exemplo, tanto a lendária
cantora Aretha Franklin na minissérie Genius (2021) quanto uma fada em Pinóquio
(2022) ou uma refugiada perdida em uma ilha grega em Drift (2023), e
emprestou sua voz para muitas animações, tais como Star Wars: Visions, Garota
da Lua e o Dinossauro Demônio e Big Mouth.
Em meio a tudo isso, lançou seu primeiro disco solo (Ch. 1 Vs. 1,
2021) que foi bem recebido, mas que ela, olhando em retrospecto, acha que tem
alguns problemas. Talvez tenha sido o momento atribulado, pois foi bem entre os
anos 2021 e 2022 que Erivo assumiu publicamente sua homossexualidade, algo que
já sabia e se sentia segura e acolhida por familiares e amigos desde antes da
estreia de A Cor Púrpura em Londres.
“Mas antes eu nunca tinha realmente explorado [minha sexualidade
queer], eu nunca tinha realmente descoberto, entendido ou aprendido sobre isso.
Foi então que pensei: ‘Nossa, vou interpretar essa mulher que está explorando e
aprendendo sobre sua própria sexualidade queer ao mesmo tempo em que tenta
descobrir o que é o amor.’ E algo maravilhoso aconteceu ao mesmo tempo - eu
pude fazer o mesmo por mim mesma”, disse em entrevista para Billboard.
Quando entendeu a personagem e, depois, quando assumiu publicamente sua
orientação sexual, Erivo sentiu um alívio que não sabia nem descrever. “É como
se meus pés finalmente tocassem o chão. Até mesmo o trabalho que comecei a
fazer a partir dali, seja em um set de filmagem ou em um estúdio, passei a
fazer muito mais relaxada”.
E então, para coroar esse momento, surgiu Elphaba em sua vida. Elphaba,
a Bruxa Má do Oeste de O Mágico de Oz (1939). Elphaba, a coprotagonista
do musical Wicked (2003, e ainda em cartaz). Erivo amava o musical e
tinha certeza que ela era, sem sombra de dúvida, Elphaba. Durante três horas de
audição, e com febre alta, a inglesa colocou todas suas energias restantes
diante do diretor Jon M. Chu, do produtor Marc Platt e dos diretores de elenco.
Chu ficou muito impressionado. “Acho que escalar Cynthia foi
provavelmente a coisa mais inteligente que já fiz na vida. É porque ela encarou
isso como uma história muito pessoal e trouxe à tona essas questões sobre o que
é se sentir diferente, o que é ter pessoas constantemente dizendo que você
precisa agir de uma forma ou de outra para ser aceito, que você precisa provar
seu valor para alguém”, disse em entrevista para o site Deadline.
Wicked, o musical, tem dois atos. Wicked, o filme,
também. E as duas partes foram filmadas juntas entre dezembro de 2022 e janeiro
de 2023 (com quatro meses de ensaios antes das filmagens). Todo este longo
processo uniu muito todo o elenco – composto ainda por Jonathan Bailey, Bowen
Yang, Jeff Goldblum e Michelle Yeoh –, mas principalmente as protagonistas
Cynthia Erivo e Ariana Grande. A união, o bom humor, o carinho e o respeito de
uma com a outra renderam memes e cortes impagáveis, tanto na mais longa turnê
de divulgação de Wicked quanto na menor e mais tumultuada turnê de Wicked:
Parte Dois.
Erivo confessou ao LA Times, em meados de 2024, que ela e Grande “ficaram
meio surpresas com o fascínio das pessoas por nós como dupla. Porque estávamos
apenas fazendo o que vínhamos fazendo enquanto filmávamos. Quer dizer, passamos
muito tempo juntas. Quando você passa tanto tempo com uma pessoa, você acaba ou
amando ou odiando. E nós acabamos nos amando”. É química que chama.
ESSA MOÇA TÁ DIFERENTE
Pouco mais de um ano atrás, quando estava divulgando a primeira parte
de Wicked, Ariana Grande foi ao cultuado podcast Las Culturistas de
Bowen Yang e Matt Rogers e soltou uma bomba. “Vou dizer algo tão assustador –
vai deixar meus fãs apavorados, mas eu os amo, eles vão lidar com isso e
estaremos aqui para sempre... sempre farei música, sempre subirei ao palco,
sempre farei coisas pop, promessa de dedinho. Mas não acho que continuar
fazendo o que fiz no ritmo dos últimos 10 anos seja o que vejo para meus próximos
10 anos”, confessou.
Então, entre risadas emocionadas, a cantora e atriz completou que “estou
querendo me reconectar com essa parte de mim que começou no teatro musical e
que ama comédia. Estou buscando papéis para usar essas partes de mim, qualquer
coisa que faça sentido, ou qualquer papel seja adequado, ou onde possa
realmente fazer um bom trabalho ou honrar o material. Acho que esse é um
cenário muito melhor para mim.”
Do alto de seus 32 anos, Ariana Grande-Butera construiu, de 2013 em
diante, um reinado pop a partir de 7 álbuns e 90 milhões de discos vendidos. O
mais recente, Eternal Sunshine, é de 2024 e, passados os lançamentos dos
dois Wicked, Grande prometeu aos fãs que faria uma série de shows, o que
não fazia desde 2019. O resultado é que, de junho a setembro, a artista fará 41
shows e pronto. Mas não necessariamente um ponto final.
Recentemente, durante o lançamento de Wicked: Parte 2, Grande
foi a outro podcast – o premiado ‘Good Hang’ da atriz Amy Poehler – e voltou a
ser muito sincera sobre o futuro próximo. “Estou muito animada para fazer essa
pequena turnê, mas acho que isso pode não acontecer de novo por muito, muito,
muito, muito tempo”, disse ela. “Então vou dar tudo de mim e vai ser lindo, e
acho que é por isso que estou fazendo isso, porque é como um último suspiro.”
Antes dos filmes Wicked, Grande trazia consigo experiências de
atriz nas sitcons que fez quando adolescente/jovem adulta (Brilhante
Victória e Sam & Cat) e um papel pequeno e impagável na comédia Não
Olhe Pra Cima (2021), contracenando com Leonardo DiCaprio e Jennifer
Lawrence. Mas o reconhecimento por sua atuação como Glinda em Wicked com
uma indicação a um Oscar (de Atriz Coadjuvante) deu um gás em sua mudança de
trajetória, e Grande já está comprometida com uma comédia com Ben Stiller (Focker-in-Law),
uma série de Ryan Murphy (nova temporada de American Horror Story) e uma
animação (Oh, the Places You'll Go!).
Coincidência ou não, Ariana Grande é mais uma estrela pop da atualidade
que parece estar se mudando para o cinema e streamings. Selena Gomez, que
também começou cedo em sitcons infanto-juvenis e também possui um império de
cosméticos como Grande, vem colhendo o sucesso por suas performances na série Only
Murders in the Building e no filme Emilia Perez e não pensa em outra
coisa. Bem como Charli XCX, que mesmo com o sucesso estrondoso de seu último
disco (Brat), afirmou que seus interesses artísticos agora são atuar e
compor para cinema. E tudo certo. O lugar delas é onde elas quiserem.
Ariana e Cynthia entrevistadas por Gloria Groove durante passagem pelo Brasil
dose dupla na edição de dezembro da Monet. de um lado, Taylor Swift (que acho que não colocarei aqui). do outro, um novo filme sobre Sílvio Santos. em Silvio Santos Vem Aí!, Leandro Hassum encarna o lendário comunicador durante a estranha, oportunista e mal sucedida tentativa de se candidatar à presidência (na primeira eleição democrática para o cargo desde o fim da ditadura). peguei aspas de Hassum e da co-protagonista Manu Gavassi de um material divulgado para a imprensa, mas entrevistei a diretora Cris D'Amato. o resultado tá aqui.
É NAMORO OU AMIZADE
Silvio Santos Vem Aí! traz Leandro Hassum como um dos maiores comunicadores brasileiros em sua tentativa de se tornar Presidente da República
Quando Silvio Santos morreu em 17 de agosto de 2024, aos 93 anos, seus
milhões de fãs não puderam velá-lo. É que uma das figuras públicas mais
conhecidas da história brasileira quis que sua morte fosse um momento tão
íntimo da família como foi sua vida pessoal. Ele sabia também que sua voz, seu
humor e seu poder de comunicação permaneceriam vivos e que assim, e somente
assim, gostaria de ser lembrado. Mas não custa imaginar o que existe por trás
da máscara e é justamente isso que faz Sílvio Santos Vem Aí!, protagonizado
por Leandro Hassum e lançamento do mês na Claro. “Ninguém nunca
viu o Silvio Santos entre quatro paredes na casa dele. Como era o Silvio
Santos? Como ele falava com as suas filhas? Como ele falava com a sua esposa?
Porque o que a gente tem é o que a gente viu gravado. Então, o Silvio, na sua
intimidade, é uma incógnita, e aí ele virou uma personagem de ficção para a
gente. Acho que o Silvio merece muitos filmes, muitos recortes, porque a vida
dele é muito rica”, explicou a diretora Cris D’Amato. Especialista
em comédias de sucesso para o cinema tais como SOS – Mulheres ao Mar (1
e 2), A Sogra Perfeita (1 e 2) e Pai em Dobro, D’Amato foi
apresentada ao projeto pela produtora Verônica Stumpf em 2019 e a princípio
pensou em não aceitar porque achou que era pouco tempo para muita vida. Então, para
desanimá-la ainda mais, apareceu um outro longa (Silvio, com Rodrigo
Faro, que seria lançado em 2020, mas por causa da pandemia só foi em 2024) e
uma série (O Rei da TV, com José Rubens Chachá, que teve duas temporadas
em 2022 e 2023). Só que o recorte da vida de Silvio Santos escolhido
pelo roteirista Paulo Cursino era bom demais para deixar passar. QUEM QUER DINHEIRO? O ano é 1989 e Silvio Santos já era o lendário comunicador e empresário
que todos conhecemos. A voz, o deboche, o começo como radialista, os programas
de auditório na TV, o Baú da Felicidade do ex-camelô, o dono de concessões de
emissoras de TV (dadas pelo presidente Ernesto Geisel em meados da década de
1970, durante a ditadura militar), o programa ufanista ‘Semana do Presidente’
(um agrado ao General Figueiredo, o último presidente militar), tudo de Silvio
Santos já existia em 1989. Então, meio que do nada, Silvio anunciou que iria se candidatar à
Presidência da República a pouco mais de duas semanas antes do primeiro turno
da primeira eleição para presidente após o fim da ditadura. A história de Sílvio
Santos Vem Aí! pega o personagem nesse momento. “É um recorte pouco conhecido do público, o dessa
época. Os bastidores do programa, as motivações políticas, como é a família e
ele na intimidade, tudo vai sendo descoberto para o espectador pela personagem
da Manu Gavassi, que é uma diretora de marketing que vai assessorá-lo na
campanha.E aí, nos
encontros dela com ele, a gente vai descobrindo um pouco da vida do Silvio
Santos”, diz D’Amato. Marília, a personagem de Gavassi, funciona como o espectador que vive
se equilibrando entre a desconfiança e o encantamento em relação a Silvio. “Achei
muito curioso quando esse convite chegou a mim porque não tenho nenhuma relação
com ele. Mas depois li o roteiro e entendi que a personagem tinha esse perfil
questionador e curioso, que acho que as pessoas veem muito em mim também. Ela
não estava convencida sobre o Silvio e sempre com respeito e profissionalismo
ousava questionar as atitudes e intenções dele”, afirmou a atriz em material
divulgado para a imprensa. QUER PEDIR AJUDA AOS UNIVERSITÁRIOS? Já Leandro Hassum, o protagonista, tem muitas lembranças de Silvio
Santos. Por exemplo, tinha 16 anos em 1989 e aquela eleição presidencial também
foi sua primeira, então lembrava de todo o quiproquó da candidatura, da
empolgação à frustração. Mas recordava, acima de tudo, do carisma do apresentador
saltando da telinha toda santa tarde de domingo. “Nunca imitei o Silvio Santos, nunca usei essa ‘arma’ para a minha
comédia, porque, afinal de contas, sou ator e não imitador. Então, tentei pegar
o espírito dele, o espírito da animação, o jeito do apresentador, e trazer para
perto no gestual, no caminhar, na postura, a maneira de se comportar. E isso
foi me trazendo o Silvio Santos, pela interpretação mesmo, o que acabou
ficando, a meu ver, uma grande homenagem a ele”, confessou Hassum no release do
filme. É que todo mundo acha que sabe imitar o Silvio, e justamente por isso o
ator resolveu fazer o caminho inverso e a partir da preparação corporal que a
voz do personagem surgiu. “Quando faço um personagem fictício, posso usar
minhas cartas na manga da comédia e tudo mais. Quando interpreto uma personalidade
que realmente existiu, e com a proporção e o tamanho do Silvio, tenho que
respeitar isso. Não dá para improvisar e fazer com que o público esqueça que
estou contando a história do maior comunicador do Brasil”. QUAL É A MÚSICA? O comprometimento de Hassum foi tão grande que a diretora Cris D’Amato
não passou um dia no set sem se impressionar. “Acho o Leandro muito próximo ao
Sílvio no que diz respeito à composição da personagem. Era assustadoramente
parecido, dava até nervoso”, diz rindo. Para confirmar sua impressão sobre a caracterização de Hassum, D’Amato
resolveu pedir então que, na hora de contratar a figuração, chamassem pessoas
que participavam das caravanas que iam ao programa de Silvio Santos. O
resultado foi uma torrente de emoções para todos os envolvidos. Hassum relembra
que “foi muito impactante quando entrei em cena como Silvio e vi muitas pessoas
chorando porque tiveram a sensação de estar vendo novamente o Silvio ali. Uma
senhora chegou a me pegar pelo braço e me disse “estou te vendo aqui, estou
pegando na mão do Silvio Santos”. Foi um momento de arrepiar e agora, só de
falar, arrepio novamente”. Por essas e outras emoções que tanto a diretora Cris D’Amato quanto o
ator Leandro Hassum fazem questão de frisar que Silvio Santos Vem Aí! não
é uma comédia, mesmo que ambos sejam conhecidos por terem produzido alguns dos
filmes mais populares do gênero no país nos últimos anos. “Isso mesmo, realmente não é uma comédia, mas existem passagens muito
engraçadas. A partir do momento em que o filme chega ao domingo, que era o
domingo inteiro dele, a gente vai permeando o filme com momentos divertidos com
Domingo no Parque, Namoro ou Amizade, Topa Tudo Por Dinheiro, Show de Calouros,
vários momentos icônicos na TV. Então tem cenas muito divertidas, mas sempre com
o objetivo de contar a história. Nada de piada pela piada”, explicou Hassum.
Sempre rir, mas com naturalidade.
O ano
musical brasileiro foi muito bom, mais uma vez, e com alguns destaques
acima da média, como sempre. Mas acho quase com certeza que as músicas que mais
ouvi em 2025 foram gringas, com destaque para “Drop” do Tunde Adebimpe (TV On
The Radio) e “Street Light Moon” do Sons of Sevilla. Mas também rolaram
bastante instrumentais como a dos australianos do Surprise Chef (“Fare Evader”),
da inglesa Anoushka Shankar (“Daybreak”), dos texanos Khruangbin (“White Gloves
ii”) e dos alemães Bacao Rhythm & Steel Band (“Maria También”, que também é
do Khruangbin). No mais, foi particularmente difícil escolher uma música só de alguns
dos mais potentes discos de 2025: Lux de Rosalía, Boleros
Psicodelicos 2 do Adrian Quesada, DeBÍ TiRAR MáS FOToS de Bad Bunny,
Hourglass do Antibalas, Cancionera de Natalia Lafourcade e Heroina
de Sevdaliza. Então, sem mais blábli, segue a playlist...
90 MÚSICAS GRINGAS DE 2025 Adrian Quesada – “No Juego” [ft. Angélica Garcia] Aesop Rock – “Roadwork
Rappin” Aloe Blacc – “Breakthrough” Amaarae – “S.M.O.” Aminé – “Familiar” Ana Tijoux – “Muévelo” Animal Collective – “Buddies
on the Blackboard” Anoushka Shankar – “Daybreak” Antibalas – “Solace” Arcade Fire – “Year of
the Snake” Atmosphere – “Really” Bacao Rhythm &
Steel Band – “Maria También” Bad Bunny – “NUEVAYoL” BadBadNotGood – “Found
a Light (Beale Street)” [ft. V.C.R] Bishop Nehru – “Nothing
to Lose” Blood Orange – “Mind
Loaded” [ft. Caroline Polachek, Lorde & Mustafa] Blundetto – “Coteau
Caché” [ft. Pupajim] Bomba Estéreo – “La Bilirrubina” Brother Ali – “D.R.U.M.” Capicua – “Ao Ocaso” [ft. Toty Sa'med] Chance the Rapper – “Tree”
[ft. Lil Wayne & Smino] Cochemea – “Omeyocan” DakhaBrakha – “9
Nedilechok” Danger Mouse &
Black Thought – “Up” [ft. Rag'n'Bone Man] Daniel, Me Estás Matando – “Se Equivocó” David Byrne – “What Is
The Reason For It?” [ft. Hayley Williams] De La Soul – “Run It
Back” [ft. Nas] Dear Silas – “Still
Southern Playalistic” Dijon – “Another Baby!” Earl Sweatshirt – “Heavy
Metal aka ejecto seato!” El Michels Affair – “Mr.
Brew” Eva B & Taimour
Baig – “Black Vigo” Flea – “A Plea” Gorillaz – “Damascus” [ft. Omar Souleyman & Yasiin Bey] Greentea Peng – “Stones
Throw” Hermanos Gutiérrez – “Elegantly
Wasted” [ft. Leon Bridges] Hope Tala – “Magic or
Medicine” Hot Chip &
Sleaford Mods – “Cat Burglar” Indys Blu – “Saddest
Song” Jalen Ngonda – “All
About Me” Jeff Goldblum &
The Mildred Snitzer Orchestra – “The Best Is Yet To Come” [ft. Scarlett
Johansson] Jorja Smith – “The Way
I Love You” Kali Uchis – “Territorial” Kamauu – “Anthem” Karol G – “Latina
Foreva” Kaytranada – “Space Invader” Khruangbin – “White
Gloves ii” Kim Gordon – “Bye Bye 25” Kokoroko – “Da Du Dah” La Boa – “La Maquina de Tony” Laufey – “Snow White” Lea Maria Fries – “Witch's
Broom” Lella Fadda – “Tarat Tarat Tat” Lido Pimienta – “Aún Te Quiero” Lily Allen – “Nonmonogamummy” Little Simz – “Young” Lizzo – “Love in Real
Life” Lous and The Yakuza – “Sad
Boy's Anthem” Lupe Fiasco – “SOS” Mark Ronson & Raye
– “Suzanne” Mick Jenkins – “Publix” Moonchild Sanelly – “Falling” Natalia Lafourcade – “Luna
Creciente” [ft. Hermanos Gutiérrez] Nightmares On Wax – “Bang
Bien” [ft. Yasiin Bey] Olympia Vitalis – “Painted
Smiles” Pachyman – “Hard to
Part” Panda Bear – “Ends
Meet” RaiNao – “Sofocón” Rapsody & Madlib –
“Daddy's Girl” Rema – “Kelebu” Rosalía – “Berghain”
[ft. Björk & Yves Tumor] Sam Akpro – “I Can't
See The Sun” Şatellites – “Yok Yok” Seun Kuti & Egypt
80 – “Move (Keep Moving Version)” [ft. Kamasi Washington] Sevdaliza – “Heroina”
[ft. La Joaqui] Skiifall – “Her World”
[ft. Jorja Smith] Skunt (Lady Leshurr) –
“Tobasco” Sons of Sevilla – “Street
Light Moon” Sudan Archives – “My
Type” Surprise Chef – “Fare
Evader” The Animeros – “Ponchote de Ritmo” The Bongolian – “Master
Blaster Tendulkar” The Diasonics – “Larks” The Olympians – “California” The Young Gods – “Blackwater” Tigerbalm &
Giorgio Lopez – “Nayar” Timbaland – “Lion's
Roar” Tunde Adebimpe – “Drop” Yamê – “Shoot” Yukimi – “Sad Makeup”