outra reportagem que fiz pra Forbes Brasil saiu em outubro ou novembro do ano passado e tratou de um empreendimento no interior de São Paulo que une natureza, hotelaria e a paixão pelo automobilismo. é o Raceville, em Brotas. saca só.
VELOCIDADE EM FAMÍLIA
O primeiro clube exclusivo para amantes de automobilismo foi inaugurado em 2024 em Brotas, interior de São Paulo, com um cardápio recheados de atrações e uma pista maior que Interlagos
Existe uma cidade no centro do Estado de São Paulo, a cerca de 250 km da capital, que é conhecida por suas cachoeiras, trilhas, arvorismo, areias que cantam e o rafting no Rio Jacaré Pepira. É a Estância Turística de Brotas, a “Capital da Aventura”. Mas de um ano pra cá, a região ganhou um novo e inédito (no Brasil) item de aventuras em seu cardápio: o Raceville Speed Club, um clube exclusivo para amantes de automobilismo.
Tudo começou na cabeça de um paulistano apaixonado por carros e corridas. Carlos Guilherme “Cacá” Clauset, 55 anos, foi jornalista da área (trabalhou nas revistas Carro e Quatro Rodas), mas sua paixão mesmo sempre foi a de estar atrás do volante, pilotando. Bicampeão brasileiro de rali, bicampeão do Rally dos Sertões, duas vezes sobrevivente do famoso Rali Paris-Dakar, e recordista mundial na travessia Pan-Americana (fez os 24 mil km que ligam Alasca ao Ushuaia em 18 dias, 1 hora e 11 minutos), Clauset largou o jornalismo, no início dos anos 2000, para se aventurar como empresário ao fundar a TSO Brasil, uma empresa de eventos automotivos.
O tempo passou e o negócio deu certo, mas veio a pandemia e Clauset passou a refletir sobre o planeta, o futuro e o que poderia ser feito. Sentiu que lhe faltava algo, um propósito. E foi então que um velho sonho voltou à tona: construir um autódromo.
“Tiveram nos últimos dez anos pelo menos umas oito tentativas de construírem autódromos no Brasil, a maioria via iniciativa privada, mas algumas do Estado também. E nenhuma delas aconteceu. Fiquei intrigado para entender porque nenhuma dessas iniciativas deu certo e acabei achando uma coisa que unia esses projetos: tudo sempre girava em torno do empreendimento imobiliário”, explica Clauset sobre como autódromos, piscinas de ondas, campos de golfe ou campos de polo podem ser apenas pano de fundo para a construção de condomínios. O paulistano pensou então em um empreendimento que fosse o oposto, no qual a paixão viesse em primeiro lugar, e não a venda de terrenos. O Raceville foi nascendo assim.
“Gostei desse formato, achei que poderia encaixar, mas não em São Paulo, obviamente. Comecei a formatar um pouco mais a ideia e fui atrás de ajuda. Não conseguiria fazer sozinho. Então a primeira pessoa que chamei foi o Marcelo Chanoft, um amigo fiz em um encontro de empresários no Jalapão, porque achei que ele ia entender o que estava querendo propor porque ele também vem da área de eventos”, e Clauset começou a montar uma equipe de especialistas em áreas como construção civil e tecnologia, entre outras. Mas faltavam duas questões muito importantes: a localização e o plano de negócios.
O piloto-empresário lembrou então de Brotas, das pousadas de lá, e de como seria interessante construir um autódromo em um lugar tão improvável. “É um pouco longe de São Paulo, é no topo do morro, e é um lugar onde em teoria a cidade turística vive em função das suas atratividades naturais. Então por isso falo que era um lugar improvável”. Foi assim que encontraram nas terras de Alice Moreira Ferreira o local perfeito para viabilizar o projeto, afinal de contas, entre as inúmeras instalações já existentes, a propriedade já contava com a Pousada Primavera da Serra.
O que foi uma centenária fazenda de café e depois uma monocultura de cana-de-açúcar, foi se transformando, de agosto de 2023 a novembro de 2024, em um complexo composto por um autódromo de 4.5 km (maior que Interlagos), um kartódromo, pistas de UTV e off road, uma trilha para mountain bike, quadras de tênis e beach tennis, restaurante, piscina, spa, além de cachoeiras e lagos já existentes. “A gente não derrubou nenhuma árvore para fazer o Raceville. Era um canavial, então a gente tirou tudo e fez o autódromo que não ocupa nem 5% da área. E fizemos replantio de milhares de árvores, fazendo cinturões, unindo cordões de mata. Hoje são 80 alqueires no total do clube, e diria que 70% desse espaço é mata, é floresta, é muito legal. Muitas árvores, rios, cachoeiras, tudo isso. Tudo muito integrado”.
Todo esse projeto teve um custo estimado de R$ 100 milhões e, rapidamente, Clauset, Chanoft & Cia. perceberam que não tinham bala na agulha para fazê-lo primeiro e depois ver o que acontecia. “A gente tem um business plan que é saudável, que é bom. Pegamos esse valor enorme e fatiamos por várias pessoas que têm o mesmo interesse de ter um autódromo para andar quando quiser. É que nem um clube normal: você chega lá, tem a carteirinha, passa na entrada, vai até o autódromo e anda com o seu carro. Dividimos o clube, a princípio, em 500 títulos – custando R$ 552 mil cada – e conseguimos construir tudo com a venda de títulos e alguns pequenos aportes. A gente não inventou a roda criando esse formato. A gente só adaptou o formato à nossa roda, que é o autódromo”.
Para conseguir tamanha façanha
comercial, o Raceville Speed Club contou, acima de tudo, com sócios tão
apaixonados pelo projeto quanto seus criadores. Gente que acreditou que aquele
canavial era, na verdade, uma grande pista de corrida e um clube. “Nosso maior
ativo são essas pessoas que botaram R$ 500 mil sem ter nada lá. Isso a gente só
consegue por causa da paixão. Você não consegue convencer um cara de banco a
pôr dinheiro nisso. Tanto que a gente foi sondado e visitamos diversas
instituições financeiras, bancos de investimento e nunca deu certo. Porque a
visão deles era puramente comercial. E o Raceville é coisa de paixão mesmo”.
Nesse processo de apresentação, convencimento e vendas, Clauset confirmou uma hipótese lá do início do projeto: eles/elas vêm pela pista, claro, mas ficam pela família. “O Raceville tirou uma dor muito grande do apaixonado por carros, que é aquela do cara ir para o autódromo, fazer um track day e deixar a família em casa. Aqui você pode fazer o seu hobby, ter o seu carro esportivo na pista, sem abrir mão da família, muito pelo contrário. Tem recreadores para crianças, enquanto as esposas, ou os maridos, porque tem mulheres que aceleram na pista também, estão lá curtindo piscina, beach tennis, spa, restaurante, conversando, cachoeira, caminhando, cuidando da horta”.
Essa integração de lazeres foi o que, de cara, atraiu Eduardo Peres, 44 anos, consultor do setor elétrico, casado e pai de três filhos. De um lado, o casarão da pousada, o fogão a lenha; do outro, as trilhas, a natureza, a pista off road para as crianças. “Outra coisa que gostei no Raceville foi a atenção das pessoas com a gente, sabe? Eu cheguei lá, o pessoal me chamou pelo nome, já sabia quem eu era, perguntaram da minha família. Quando meus filhos foram para lá pela primeira vez, tinha a turma da recreação que já sabia quem era quem. Então, a gente se sente num ambiente familiar e muito acolhido”.
Já André Luiz Puccia, 35 anos, assessor de investimentos, casado, sem filhos ainda, se divide entre a natureza, o clube e o traçado da pista. “Aquela cachoeira que tem dentro dele é muito especial, mas sou fã incondicional do traçado da pista. É um traçado incrível, maravilhoso, e uma homenagem a uma série de curvas mitológicas de autódromos famosos. Ficou muito bacana. E o clube é encantador, com gente bacana. Todo mundo se diverte”.
E, em breve, mais gente poderá se divertir. É que após a inauguração do Raceville, Clauset começou a receber uma demanda inesperada de gente que queria morar no clube (ou próximo). Por outro lado, os 24 chalés da pousada também não dão conta dos pedidos de hospedagem aos fins de semana. Então os sócios resolveram enfrentar essas questões das seguintes formas: estudos e conversas com grupos imobiliários para a construção de condomínios no entorno para os que querem morar; e um hotel dentro das dependências do clube para mais associados se hospedarem.
Então, para coroar essa iniciativa
inédita, o Raceville Speed Club recebeu recentemente o selo de membro
integrante do Motorsport Club of Clubs, um grupo fechado de clubes
automobilísticos privados ao redor do mundo capitaneado pelo alemão Hermann
Tilke, maior projetista de pistas do mundo. “E isso é muito legal, porque você
vai poder trabalhar o intercâmbio, né? Então quem for sócio do Raceville vai
poder desfrutar de outros clubes ao redor do mundo, como o impressionante
Magarigawa, no Japão”, explica Clauset. “Mas nenhum desse clubes tem uma
cachoeira de 50, 60 metros, que cai numa encosta com o autódromo logo acima. Então é como se essa água toda estivesse
passando por baixo do autódromo e caindo na cachoeira. É uma vista
impressionante”.
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