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quarta-feira, 29 de abril de 2026

um papinho com nath finanças

participei deste ano da segunda edição do especial Top Creators para a revista Forbes Brasil e escrevi três dos dez perfis. fiz sobre o comediante Fausto Carvalho, o fisiculturista Toguro e a empreendedora Nath Finanças. mas o da Nath foi particularmente especial porque ela é uma personagem muito interessante com uma trajetória incrível e a entrevista foi muito completa (mesmo que por email). daí deu uma dó porque ficou tanta coisa de fora por causa do tamanho do texto que resolvi colocar tudo aqui.

para quem gosta de jornalismo vale também para entender as escolhas, o que entra como aspas, infos da entrevista que entram direto no texto, adaptações  e edições necessárias para uma fala ou outra. é toda uma ginástica para fazer caber.


Nath por Victor Affaro

ECONOMIA DE VERDADE

Nath Finanças criou um pequeno império injetando educação financeira para pessoas de baixa renda no vocabulário digital brasileiro 

Durante muitos anos, Nathália Rodrigues de Oliveira viveu um dia a dia exaustivo como o de milhões de brasileiras e brasileiros. Acordava por volta das 5 da manhã em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, e depois de duas ou três conduções chegava ao centro do Rio de Janeiro, fazia estágio até final da tarde e então corria para a faculdade (onde cursava Administração) e por lá ficava até às 23h. Só chegava em casa aproximadamente meia-noite. Detalhe: o que ganhava no estágio nem pagava o transporte diário. Mas um conselho de um professor lhe deu o primeiro estalo do que seria seu futuro. 

“Ele disse que não adianta querer empreender ou administrar um negócio se você não tem educação financeira. Pensei, ganho pouco e preciso aprender a administrar isso porque também ajudava em casa. Quando fui pesquisar na internet para montar um canal no YouTube só encontrava conteúdos tipo ‘como fiz meu primeiro milhão’. Isso era impossível pra mim e me gerava uma frustração enorme porque parecia que o problema era comigo. Na realidade, o problema é que ninguém estava falando de finanças para quem ganhava pouco de verdade. Foi aí que veio o segundo estalo e decidi focar em educação financeira para pessoas de baixa renda como eu”, explicou Nathália sobre o momento, em 2019, que deu início ao canal Finanças com Nath (mais tarde alterado para Nath Finanças). 

Nath viu que muitas pessoas, como ela, precisavam se organizar financeiramente. Para não depender do cartão de crédito e seus juros abusivos, para não exagerar no iFood ou Uber, para fazer render o máximo com o pouco que se ganha ou tem. “Então, no início do canal, falava muito sobre dívida. Como sair da Serasa, como sair do SPC, como se organizar ganhando um salário mínimo. Falava muito sobre organização financeira básica. Depois de sete anos com o grupo Nath Finanças, essas perguntas continuam existindo. A diferença é que o público ficou mais diverso e ampliou. Hoje tem empreendedorismo, casa própria, fluxo de caixa. Mas continuo falando de finanças reais para pessoas reais”. 

As redes sociais da Nath Finanças – que hoje somam cerca de 2,5 milhões de seguidores, com destaque para Instagram, YouTube e TikTok –, foram responsáveis por criarem uma comunidade que a fez seguir em frente, enquanto ela própria construía credibilidade a partir de uma ética de trabalho rigorosa. “As pessoas continuam comigo todos esses anos, acreditando no meu trabalho e, principalmente, transformando a própria vida financeira. Isso é o que mais me emociona”. 

No que depender dela, muitas novas transformações ainda acontecerão, pois o futuro do grupo já está bem definido. A ideia é, basicamente, reforçar ainda mais a presença da marca, não só no digital, mas também no presencial, com eventos, palestras e projetos educacionais em escolas e universidades públicas (o Educadin, pensado para crianças, adolescentes e jovens adultos). Outro foco é tecnologia com o Nath Play, uma plataforma de educação financeira que funciona como um hub financeiro que dá acesso a conteúdos em formato de streaming, planilhas, aplicativos, ferramentas de organização financeira, tanto pessoais quanto de negócios, e também mentorias pagas. 

E em meio a isso, a iguaçuana de 27 anos ainda arruma tempo para podcast (‘Fofocas financeiras’), livros (dois deles ilustrados por Ziraldo) e investimentos em negócios, cuidando de uma empresa que começou com ela e um celular Moto G e hoje conta com cerca de 30 funcionários. “Independentemente da idade, seja começando jovem ou mais tarde, o mais importante é começar e acreditar que o seu trabalho pode gerar impacto na vida de alguém”.

making of da sessão de fotos para a Forbes Brasil

A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA

O que te fez criar um canal no YouTube para falar de economia lá em 2019? E por que falar de educação financeira para pessoas de baixa renda?

Bom, quando eu decidi criar o canal em 2019, tudo começou um pouco antes, em 2018. Eu tive uma aula de matemática financeira com o meu professor, José Trigo, e ele falou uma coisa que eu nunca esqueci. Ele disse que não adianta querer empreender ou administrar um negócio se você não tem educação financeira.

Naquele momento eu não entendi muito bem, porque, para mim, educação financeira era só anotar gastos. Era o máximo que eu tinha aprendido vendo meu pai fazer. Eu não fazia ideia de como essa ferramenta podia realmente transformar a vida das pessoas. Depois dessa aula, eu fiquei muito curiosa e comecei a estudar mais sobre o assunto. Nessa época eu trabalhava no Centro do Rio de Janeiro. 

Eu nasci na periferia de Nova Iguaçu e a minha rotina era acordar às 4h30/ 5h da manhã, pegar duas ou três conduções, trem ou ônibus, dependia do dia, para ir trabalhar. Depois do trabalho eu ia direto para a faculdade e chegava lá por volta de 18h ou 18h30. Mesmo saindo direto do trabalho e pegando duas ou três conduções, às vezes eu ainda chegava atrasada na faculdade. As aulas iam de 18h até 22h e, muitas vezes, eu ficava até 22h30 ou 23h para tirar dúvidas e aprender mais. Chegava em casa 23h30/ meia-noite.  Tudo isso porque eu queria entender de verdade o que era educação financeira.

Eu também perguntei para o professor sobre cursos e sobre ensinar isso para pessoas de baixa renda. Porque eu era, e fui por muito tempo, uma pessoa de baixa renda. No meu estágio, antes de ser estágio formal, eu ganhava algo entre R$ 500 e R$ 600 por mês. E ainda tinha um detalhe: parte do transporte eu pagava do meu próprio bolso, porque não cobria tudo. Então, na prática, eu ainda tirava dinheiro do meu salário para conseguir trabalhar. Naquele momento eu pensei: caramba, eu ganho pouco e preciso aprender a administrar isso aqui, porque eu ajudava em casa e tinha minhas responsabilidades. Foi aí que veio o estalo.

Quando eu fui pesquisar na internet para montar o projeto do canal, eu só encontrava conteúdos tipo “como fiz meu primeiro milhão”, “como juntar dinheiro para sua aposentadoria”, “como viver de renda”. E quando você ia ver o vídeo até o final, a dica era sempre a mesma: junte 500 reais por mês, junte 300 reais, junte 1.000 reais. Só que aquilo ali era praticamente o valor do meu salário inteiro. Eu simplesmente não conseguia juntar esse dinheiro. E isso me gerava uma frustração enorme, porque parecia que o problema era comigo, que eu não estava fazendo direito. Mas, na realidade, o meu salário nem era um salário mínimo na época. Então eu percebi que o problema não era falta de esforço. O problema é que ninguém estava falando de finanças para quem ganhava pouco de verdade. 

Foi por isso que eu decidi focar em baixa renda. Porque eu era a Nathália Rodrigues, da periferia de Nova Iguaçu, ganhando entre 500 e 600 reais, usando parte do salário para pagar passagem, pegando duas ou três conduções por dia e gastando cerca de cinco horas do meu dia só em transporte público para conseguir trabalhar e estudar. 

Essa era a minha realidade. Foi nesse momento que eu escrevi no Twitter, eu tinha uns 200 seguidores, que estava pensando em falar sobre educação financeira para quem ganha pouco. Umas cinco pessoas responderam animadas. 

E eu pensei: já é o suficiente para começar. Porque eu tinha uma certeza: se eu vivia essa rotina, existiam milhares de outras pessoas vivendo exatamente a mesma coisa. E essa, na verdade, é a realidade de muita gente no Brasil. 

Quais eram as principais questões que você tratava no início? E que dúvidas mais te enviavam? Isso mudou nesses sete anos de atividade, tanto as questões que você levanta quanto as dúvidas que recebe? 

Mudou um pouco, porque o público também cresceu, mas a essência continua a mesma. Teve uma época em que eu trabalhei fazendo cartão de loja. Eu era a menina que ficava oferecendo 10% de desconto para quem fizesse o cartão na hora da compra, em uma loja de calçados no centro de Nova Iguaçu. Grande parte das pessoas que faziam cartão ali eram pessoas de baixa renda. E o mais interessante é que elas acabavam me contando as histórias delas. Muitas vezes estavam fazendo o cartão para comprar um tênis para o filho ir para a escola, porque a criança não tinha um tênis bom ou simplesmente não tinha. Eu comecei a ouvir muito essas histórias no dia a dia. 

Foi ali que eu passei a sentir de verdade a realidade das pessoas. E eu pensava: nossa, essas pessoas precisam se organizar financeiramente para não depender sempre de cartão. Só que, ao mesmo tempo, eu tinha meta para bater de cartão. Mesmo assim, muitas vezes eu falava para a pessoa: você não precisa fazer mais um cartão agora. Mesmo sabendo que isso podia atrapalhar a minha meta. 

Então, no início do canal, eu falava muito sobre dívida. Como sair da Serasa, como sair do SPC, como se organizar ganhando um salário mínimo. Falava muito sobre organização financeira básica. Também trazia coisas do dia a dia, porque eu vivia essa realidade. Falava sobre como economizar no trabalho, como evitar gastar demais com iFood, como não exagerar no Uber ou nos aplicativos de transporte. Eu mostrava a visão de alguém que pegava trem, ônibus, metrô e que precisava fazer o dinheiro render. 

As principais dúvidas eram justamente essas: como sair das dívidas, como se organizar financeiramente, quais são os primeiros passos para cuidar do dinheiro, e quais são os erros mais comuns que a gente comete. 

Depois de sete anos com o grupo Nath Finanças, essas perguntas continuam existindo. A diferença é que o público ficou mais diverso. Hoje tem gente que me acompanha ganhando um salário mínimo, mas também tem gente que ganha R$ 5 mil por mês e quer aprender a investir, quer comprar a casa própria ou quer se organizar melhor. Até mesmo quem tem 500 mil reais e quer aprender a investir. 

Então o público não mudou, ele ampliou. A essência continua sendo a mesma. Inclusive teve um seguidor que me falou uma coisa que acabou virando quase um slogan para mim. Ele disse: “Nat, eu ganho mais do que um salário mínimo e acompanho você. Eu ganho bem, mas a sua comunicação simples e prática me ajudou muito a me organizar financeiramente.” E ele completou dizendo: “Você não fala só de finanças para pessoas de baixa renda. Você fala de finanças reais para pessoas reais.” Quando eu ouvi isso, virou uma chave na minha cabeça. Porque é exatamente isso que eu faço. Eu falo com o empreendedor que está começando, com quem já está um pouco mais estável e quer aprender a investir, com quem está endividado e também com quem está com medo de se endividar. 

O nosso foco sempre foi trazer acessibilidade para o conteúdo. Porque quando muita gente fala de finanças, parece sempre algo complicado, distante ou até culpando a pessoa pela situação. E eu não acredito nisso. A gente pega na mão e mostra o caminho para que a pessoa consiga, de verdade, alcançar os objetivos financeiros dela. 

Você acha que falar sobre economia para pessoas de baixa renda mudou nesse período? As pessoas ganharam mais consciência ou ainda é um tema complexo?

Eu vejo que, nesses anos, falar de economia para pessoas de baixa renda não é que mudou completamente, mas as pessoas passaram a ter muito mais acesso à informação, e isso já faz uma grande diferença. 

Principalmente depois da pandemia, as pessoas começaram a consumir muito mais redes sociais. E o TikTok teve um papel muito grande nisso. Foi ali que muita gente começou a se abrir mais, a falar sobre salário. Um CLT falando quanto ganha, uma pessoa PJ falando quanto ganha. Coisas que antes eram um tabu. 

Eu cresci muito nas redes por conta do YouTube e do Twitter, mas o TikTok ajudou a ampliar essa conversa. As pessoas começaram a mostrar suas realidades, compartilhar experiências, falar de organização financeira, oferecer planilhas, vender planilhas, ensinar métodos. 

Então hoje eu vejo que a gente tem muito mais acesso a diferentes realidades. A realidade de quem ganha um salário mínimo, de quem ganha dois ou três salários mínimos, de quem está começando a investir. As pessoas, sim, ganharam mais consciência. E com mais consciência também veio mais acesso, mais consumo de conteúdo e mais interesse em aprender. Eu não acho que o tema seja tão complexo quanto antes. Ele está muito mais difundido hoje. 

O desafio agora é outro: filtrar informação. Porque tem muita gente falando sobre finanças, muito conteúdo disponível. Então a pessoa precisa escolher quem ela quer ouvir, qual tipo de conteúdo faz sentido para a realidade dela e qual caminho ela quer seguir. 

Como você definiria o seu crescimento em termos de influência, alcance e relevância após sua entrada de cabeça nas redes sociais?

Eu definiria o meu crescimento com duas palavras: comunidade e credibilidade. Eu construí uma comunidade muito forte. E foi essa comunidade, junto com a credibilidade que eu construí ao longo dos anos, que fez com que eu conseguisse crescer e viver do meu trabalho, tanto na internet quanto fora dela. Sempre tive muito cuidado de não me vender, de manter meus valores, de trazer informação correta e de lembrar da realidade de quem está do outro lado. De quem pega três conduções por dia para trabalhar, porque eu já fui essa pessoa por muitos anos. 

O primeiro grande crescimento veio quando eu viralizei por conta de uma matéria da BBC Brasil, que contou a história de uma estudante que falava de educação financeira para pessoas de baixa renda. Depois disso, o crescimento continuou, mas de uma forma mais gradual. Não foi uma montanha-russa o tempo todo. Foi um crescimento constante de influência, alcance, relevância e credibilidade. 

Os dois primeiros anos foram muito intensos. Mas depois eu percebi que crescer de forma gradual era melhor, porque me permitia acompanhar os momentos da vida das pessoas. 

Tem gente que chega quando quer comprar a casa própria. Tem gente que chega quando quer aprender a investir. Tem gente que chega quando quer sair das dívidas.

E eu também organizo meu conteúdo por fases. Eu gosto de pensar quase como um artista que lança álbuns. Cada ano eu escolho um tema que quero aprofundar mais.

Por exemplo, em 2026 estou falando mais sobre empreendedorismo, porque sou formada em Administração de Empresas. Então estou trazendo conteúdos sobre fluxo de caixa, organização financeira do negócio e como começar a empreender.

Também voltei a falar sobre casa própria, depois de dois anos, e estou trazendo conteúdos sobre carro, como financiamento e decisões financeiras do dia a dia. 

Você tem uma rede social preferida do coração? E qual você acha melhor em termos de comunicação com o seu público?

Hoje em dia, as redes que eu mais gosto de consumir são Instagram e TikTok. Se eu tivesse que escolher uma favorita, talvez fosse o Instagram. Mas quando penso em comunicação com o público, depende muito da plataforma e do tipo de conteúdo. O antigo Twitter era muito bom para comunicação rápida. Era onde a conversa acontecia muito em tempo real. Hoje já não uso com tanta frequência. O LinkedIn tem um público mais voltado para empreendedorismo e negócios. Mas, no geral, as redes em que eu consigo me comunicar melhor com o meu público hoje são YouTube e Instagram, porque ali consigo explicar melhor os conteúdos e criar uma conexão mais direta. 

Do que você tem mais orgulho entre as coisas que conseguiu nesses anos de Nath Finanças?

Acho que o maior orgulho que eu tenho nesses anos de Nath Finanças são as pessoas. As pessoas que me acompanham e conseguiram comprar a casa própria. As que conseguiram comprar um carro. As que saíram das dívidas. As que montaram uma reserva de emergência de forma realista. As que fizeram o primeiro investimento. Saber que, de alguma forma, eu consegui chegar na casa dessas pessoas e ajudar na transformação da vida financeira delas é o que mais me emociona. Porque tudo começou sem estrutura nenhuma. Eu gravava com um Moto G, com um sonho e muita vontade de ajudar. Hoje tenho câmera, microfone, equipe, empresa. Mas o que mais me orgulha é que as pessoas continuam comigo todos esses anos, acreditando no meu trabalho e, principalmente, transformando a própria vida financeira. 

Nath e Ziraldo

Quais são os próximos passos do grupo Nath Finanças? Como você descreveria o seu futuro? 

Os próximos passos do grupo Nath Finanças são reforçar ainda mais a presença da marca, não só no digital, mas também no presencial. Durante muitos anos a educação financeira que eu levei foi principalmente pelas redes sociais. Agora a ideia é fortalecer também o trabalho presencial, com eventos, palestras e projetos educacionais que levem educação financeira para mais pessoas. 

Um dos caminhos é ampliar projetos em escolas públicas e universidades públicas, levando educação financeira de forma transversal. A ideia é falar com crianças, adolescentes e jovens adultos que muitas vezes nunca tiveram acesso a esse tipo de conhecimento em casa. Não porque os pais não quiseram ensinar, mas porque muitas vezes os próprios pais também nunca tiveram acesso à educação financeira.

Então poder fechar projetos com escolas e universidades e levar esse conteúdo é algo muito importante para mim. Inspirar essas crianças e jovens a entenderem como lidar com dinheiro desde cedo. 

Dentro disso também entra o Educadin, que é um projeto criado aqui dentro do grupo Nath Finanças para levar educação financeira para crianças e jovens. Esse projeto nasceu justamente com a ideia de tornar o tema mais acessível desde cedo, de uma forma simples, didática e próxima da realidade das famílias brasileiras.

Eu também tenho dois livros de educação financeira infantil feitos junto com Ziraldo, além de outros conteúdos desenvolvidos por mim e revisados por pedagogos. A ideia é ajudar a construir uma geração que tenha acesso a essas ferramentas desde cedo. 

Porque quando a gente fala de educação financeira para crianças, a gente está falando do presente e do futuro. Quanto mais cedo elas tiverem contato com esse conhecimento, menores são as chances de crescerem sem entender como lidar com dinheiro. 

Outro ponto muito importante para o futuro do grupo Nath Finanças é a tecnologia. Hoje a gente tem a Nath Play, que é a nossa plataforma de educação financeira. Ela funciona como um hub financeiro, onde as pessoas têm acesso a conteúdos em formato de streaming, planilhas, aplicativos, ferramentas de organização financeira, além de conteúdos tanto de finanças pessoais quanto de finanças para negócios. Também temos mentorias a cada 15 dias dentro da plataforma, tudo com um valor acessível, a partir de R$ 12,90 por mês. A Nath Play é uma EdTech, ou seja, uma empresa de tecnologia voltada para educação. Então um dos nossos focos para os próximos anos é fortalecer ainda mais essa área de tecnologia. 

Além disso, eu também tenho investido em negócios nos quais acredito. Hoje já sou sócia de algumas empresas e quero continuar investindo em projetos e companhias que tenham propósito e que possam gerar impacto. 

Então quando a gente fala de futuro do grupo Nath Finanças, estamos falando de várias frentes: educação financeira, tecnologia com a Nath Play, consultorias, investimentos e novos projetos. 

E se eu fosse descrever o meu futuro, eu sempre gosto de lembrar uma coisa: eu ainda sou muito jovem. E eu gosto de falar isso porque inspira outras pessoas a entenderem que, mesmo sendo jovem, você pode construir algo grande, algo que realmente transforme a vida das pessoas. Independente da idade seja começando jovem ou mais tarde, o mais importante é começar e acreditar que o seu trabalho pode gerar impacto na vida de alguém.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

por isso correm demais

outra reportagem que fiz pra Forbes Brasil saiu em outubro ou novembro do ano passado e tratou de um empreendimento no interior de São Paulo que une natureza, hotelaria e a paixão pelo automobilismo. é o Raceville, em Brotas. saca só. 

VELOCIDADE EM FAMÍLIA

O primeiro clube exclusivo para amantes de automobilismo foi inaugurado em 2024 em Brotas, interior de São Paulo, com um cardápio recheados de atrações e uma pista maior que Interlagos

Existe uma cidade no centro do Estado de São Paulo, a cerca de 250 km da capital, que é conhecida por suas cachoeiras, trilhas, arvorismo, areias que cantam e o rafting no Rio Jacaré Pepira. É a Estância Turística de Brotas, a “Capital da Aventura”. Mas de um ano pra cá, a região ganhou um novo e inédito (no Brasil) item de aventuras em seu cardápio: o Raceville Speed Club, um clube exclusivo para amantes de automobilismo. 

Tudo começou na cabeça de um paulistano apaixonado por carros e corridas. Carlos Guilherme “Cacá” Clauset, 55 anos, foi jornalista da área (trabalhou nas revistas Carro e Quatro Rodas), mas sua paixão mesmo sempre foi a de estar atrás do volante, pilotando. Bicampeão brasileiro de rali, bicampeão do Rally dos Sertões, duas vezes sobrevivente do famoso Rali Paris-Dakar, e recordista mundial na travessia Pan-Americana (fez os 24 mil km que ligam Alasca ao Ushuaia em 18 dias, 1 hora e 11 minutos), Clauset largou o jornalismo, no início dos anos 2000, para se aventurar como empresário ao fundar a TSO Brasil, uma empresa de eventos automotivos. 

O tempo passou e o negócio deu certo, mas veio a pandemia e Clauset passou a refletir sobre o planeta, o futuro e o que poderia ser feito. Sentiu que lhe faltava algo, um propósito. E foi então que um velho sonho voltou à tona: construir um autódromo. 

“Tiveram nos últimos dez anos pelo menos umas oito tentativas de construírem autódromos no Brasil, a maioria via iniciativa privada, mas algumas do Estado também. E nenhuma delas aconteceu. Fiquei intrigado para entender porque nenhuma dessas iniciativas deu certo e acabei achando uma coisa que unia esses projetos: tudo sempre girava em torno do empreendimento imobiliário”, explica Clauset sobre como autódromos, piscinas de ondas, campos de golfe ou campos de polo podem ser apenas pano de fundo para a construção de condomínios. O paulistano pensou então em um empreendimento que fosse o oposto, no qual a paixão viesse em primeiro lugar, e não a venda de terrenos. O Raceville foi nascendo assim. 

“Gostei desse formato, achei que poderia encaixar, mas não em São Paulo, obviamente. Comecei a formatar um pouco mais a ideia e fui atrás de ajuda. Não conseguiria fazer sozinho. Então a primeira pessoa que chamei foi o Marcelo Chanoft, um amigo fiz em um encontro de empresários no Jalapão, porque achei que ele ia entender o que estava querendo propor porque ele também vem da área de eventos”, e Clauset começou a montar uma equipe de especialistas em áreas como construção civil e tecnologia, entre outras. Mas faltavam duas questões muito importantes: a localização e o plano de negócios. 

O piloto-empresário lembrou então de Brotas, das pousadas de lá, e de como seria interessante construir um autódromo em um lugar tão improvável. “É um pouco longe de São Paulo, é no topo do morro, e é um lugar onde em teoria a cidade turística vive em função das suas atratividades naturais. Então por isso falo que era um lugar improvável”. Foi assim que encontraram nas terras de Alice Moreira Ferreira o local perfeito para viabilizar o projeto, afinal de contas, entre as inúmeras instalações já existentes, a propriedade já contava com a Pousada Primavera da Serra. 

O que foi uma centenária fazenda de café e depois uma monocultura de cana-de-açúcar, foi se transformando, de agosto de 2023 a novembro de 2024, em um complexo composto por um autódromo de 4.5 km (maior que Interlagos), um kartódromo, pistas de UTV e off road, uma trilha para mountain bike, quadras de tênis e beach tennis, restaurante, piscina, spa, além de cachoeiras e lagos já existentes. “A gente não derrubou nenhuma árvore para fazer o Raceville. Era um canavial, então a gente tirou tudo e fez o autódromo que não ocupa nem 5% da área. E fizemos replantio de milhares de árvores, fazendo cinturões, unindo cordões de mata. Hoje são 80 alqueires no total do clube, e diria que 70% desse espaço é mata, é floresta, é muito legal. Muitas árvores, rios, cachoeiras, tudo isso. Tudo muito integrado”. 

Todo esse projeto teve um custo estimado de R$ 100 milhões e, rapidamente, Clauset, Chanoft & Cia. perceberam que não tinham bala na agulha para fazê-lo primeiro e depois ver o que acontecia. “A gente tem um business plan que é saudável, que é bom. Pegamos esse valor enorme e fatiamos por várias pessoas que têm o mesmo interesse de ter um autódromo para andar quando quiser. É que nem um clube normal: você chega lá, tem a carteirinha, passa na entrada, vai até o autódromo e anda com o seu carro. Dividimos o clube, a princípio, em 500 títulos – custando R$ 552 mil cada – e conseguimos construir tudo com a venda de títulos e alguns pequenos aportes. A gente não inventou a roda criando esse formato. A gente só adaptou o formato à nossa roda, que é o autódromo”. 

Para conseguir tamanha façanha comercial, o Raceville Speed Club contou, acima de tudo, com sócios tão apaixonados pelo projeto quanto seus criadores. Gente que acreditou que aquele canavial era, na verdade, uma grande pista de corrida e um clube. “Nosso maior ativo são essas pessoas que botaram R$ 500 mil sem ter nada lá. Isso a gente só consegue por causa da paixão. Você não consegue convencer um cara de banco a pôr dinheiro nisso. Tanto que a gente foi sondado e visitamos diversas instituições financeiras, bancos de investimento e nunca deu certo. Porque a visão deles era puramente comercial. E o Raceville é coisa de paixão mesmo”. 

Nesse processo de apresentação, convencimento e vendas, Clauset confirmou uma hipótese lá do início do projeto: eles/elas vêm pela pista, claro, mas ficam pela família. “O Raceville tirou uma dor muito grande do apaixonado por carros, que é aquela do cara ir para o autódromo, fazer um track day e deixar a família em casa. Aqui você pode fazer o seu hobby, ter o seu carro esportivo na pista, sem abrir mão da família, muito pelo contrário. Tem recreadores para crianças, enquanto as esposas, ou os maridos, porque tem mulheres que aceleram na pista também, estão lá curtindo piscina, beach tennis, spa, restaurante, conversando, cachoeira, caminhando, cuidando da horta”. 

Essa integração de lazeres foi o que, de cara, atraiu Eduardo Peres, 44 anos, consultor do setor elétrico, casado e pai de três filhos. De um lado, o casarão da pousada, o fogão a lenha; do outro, as trilhas, a natureza, a pista off road para as crianças. “Outra coisa que gostei no Raceville foi a atenção das pessoas com a gente, sabe? Eu cheguei lá, o pessoal me chamou pelo nome, já sabia quem eu era, perguntaram da minha família. Quando meus filhos foram para lá pela primeira vez, tinha a turma da recreação que já sabia quem era quem. Então, a gente se sente num ambiente familiar e muito acolhido”. 

Já André Luiz Puccia, 35 anos, assessor de investimentos, casado, sem filhos ainda, se divide entre a natureza, o clube e o traçado da pista. “Aquela cachoeira que tem dentro dele é muito especial, mas sou fã incondicional do traçado da pista. É um traçado incrível, maravilhoso, e uma homenagem a uma série de curvas mitológicas de autódromos famosos. Ficou muito bacana. E o clube é encantador, com gente bacana. Todo mundo se diverte”. 

E, em breve, mais gente poderá se divertir. É que após a inauguração do Raceville, Clauset começou a receber uma demanda inesperada de gente que queria morar no clube (ou próximo). Por outro lado, os 24 chalés da pousada também não dão conta dos pedidos de hospedagem aos fins de semana. Então os sócios resolveram enfrentar essas questões das seguintes formas: estudos e conversas com grupos imobiliários para a construção de condomínios no entorno para os que querem morar; e um hotel dentro das dependências do clube para mais associados se hospedarem. 

Então, para coroar essa iniciativa inédita, o Raceville Speed Club recebeu recentemente o selo de membro integrante do Motorsport Club of Clubs, um grupo fechado de clubes automobilísticos privados ao redor do mundo capitaneado pelo alemão Hermann Tilke, maior projetista de pistas do mundo. “E isso é muito legal, porque você vai poder trabalhar o intercâmbio, né? Então quem for sócio do Raceville vai poder desfrutar de outros clubes ao redor do mundo, como o impressionante Magarigawa, no Japão”, explica Clauset. “Mas nenhum desse clubes tem uma cachoeira de 50, 60 metros, que cai numa encosta com o autódromo logo acima. Então é como se essa água toda estivesse passando por baixo do autódromo e caindo na cachoeira. É uma vista impressionante”.

"É uma vista impressionante", Cacá Clauset

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

questão de educação

do segundo semestre de 2023 até o início deste ano de 2026 já colaborei com a Forbes Brasil umas 18 vezes. a primeira foi uma grande reportagem sobre consultorias financeiras e depois se seguiram muitas participações escrevendo perfis em especiais da revista como Under 30, Top Creators, etc. e teve essa ótima entrevista que fiz com Denise Aguiar Alvarez, presidente da Fundação Bradesco, e que foi publicada em abril de 2025 (segue atual, como quase toda entrevista que faço). segue a conversa na íntegra.

Denise Aguiar Alvarez em sua casa [fotos de Marcus Steinmeyer]

O CONSTANTE DESAFIO DA EDUCAÇÃO

Há quase 40 anos liderando a Fundação Bradesco, Denise Aguiar Alvarez quer ampliar o sonho de seu avô de transformar vidas

Uma das primeiras lembranças de Denise Aguiar Alvarez, 67, são passeios de mãos dadas com seu avô, Amador Aguiar, pela Cidade de Deus, bairro de Osasco, Grande São Paulo. Ela tinha por volta de 3 anos e era a primeira neta do fundador do Bradesco (1943) e da Fundação Bradesco (1956), cujas sedes ficam até hoje na Cidade de Deus paulista. Mas o que era extensão da sua casa, um playground diferente, virou trabalho e jeito de ver o mundo depois de tanta insistência do avô. “Ele falava pra todos que iam visitá-lo: essa aqui é a minha neta, ela vai tomar conta da Fundação”, afirmou Denise em entrevista para a Forbes Brasil.

Desde 1986, quando se tornou diretora da Fundação Bradesco aos 28 anos, ela é responsável por levar o sonho de seu avô adiante, capitaneando o maior projeto de investimento social privado do Brasil. Para ser ter uma dimensão do feito, nos últimos dez anos, a Fundação Bradesco investiu R$ 9,5 bilhões em educação – sendo que R$ 894,5 milhões apenas em 2023 e cerca de R$ 1,4 bilhão em 2024. É um orçamento gigantesco espalhado por 40 unidades escolares, presentes em todos os estados brasileiros, e beneficiando mais de 42 mil alunos nos 13 anos da educação básica (sem falar na Educação de Jovens e Adultos e nos cursos de Formação Inicial Continuada). É um sonho grande que Denise faz crescer um pouco mais a cada ano que passa.

 

Antes de chegarmos à Fundação Bradesco, queria saber se você se lembra o que queria ser quando crescer?

Se eu falar você não vai acreditar. 

Pode falar.

Queria ser dona de casa. Eu me lembro falando isso no colégio. Estudei em um colégio de freiras e até elas ficavam olhando e achando um absurdo. 

O que era aspiracional em ser dona de casa?

Acho que era fazer tudo muito bem feito, cuidar muito bem da casa, dos filhos, essas coisas. Mas isso eu era muito menina. Depois, quando já estava no ensino médio, lembro que as professoras pediram para algumas meninas, eu inclusive, irem ao nono ano explicar o que era o ensino médio. Fiquei muito impactada com aquilo, porque a gente chegou lá, e as meninas não deixavam a gente falar. Aquilo ficou muito na minha cabeça, não conseguia parar de imaginar no que aquelas meninas estavam pensando. E isso meio que permeou um pouco a minha vida, porque quando fui fazer pedagogia, o que mais queria estudar era como a criança pensava, como o adolescente pensava. 

Então chega o temido momento da faculdade onde você tem que decidir o que vai ser para o resto da vida...

Foi um horror porque estudei minha vida toda em um colégio só de meninas. E, pasme você, entrei em Ciências Sociais na PUC em 1977, o ano que a universidade foi invadida pelos militares. Era um outro mundo pra mim, concorda? Teve toda essa violência, mas o curso também foi exatamente o contrário do que imaginava. Era professora de sociologia falando que metade da classe não ia aguentar até o meio do ano. Era texto obrigatório em espanhol que ninguém dominava. Era aluno que não deixava professor entrar. Pensava comigo que não ia conseguir sobreviver àquilo. Não tinha ideia do que estava fazendo ali. Então encontrei uma colega da escola e fui com ela ver uma aula do curso de pedagogia. E gostei. Era um curso muito bom. Foi assim, meio aleatoriamente, que cheguei à pedagogia. 

Nessa sua experiência cursando pedagogia, fazendo faculdade, teve alguma coisa que você carrega até hoje? Alguma coisa que te ajudou na sua trajetória?

Não muito, porque era um curso muito teórico, entendeu? Quando me formei decidi que queria muito aprender inglês. Aí, o que fiz? Fui morar em Nova York, morei lá um ano fazendo curso de inglês. Depois fui na Universidade de Nova York, a NYU, procurando algum curso em educação. O cara disse que só tinha mestrado. Eu falei, mestrado? Meu Deus, nunca pensei em fazer mestrado. Na NYU, foi diferente porque era um curso muito mais pé no chão, muito mais da realidade do ensino, da aprendizagem, dos professores. 

Como foi a escolha do que você ia falar no mestrado?

Escolhi exatamente sobre o que mais gosto: infância e ensino básico. Tinha que fazer um trabalho muito grande de pesquisa e fiquei indo, por quase seis meses, a um espaço embaixo de uma igreja perto da NYU. Era um espaço bem amplo, como se fosse uma brinquedoteca, cheio de colchões, e onde as mães iam com suas crianças. Crianças de um ano ou dois. Ia lá e não podia falar, tinha que apenas observar. Juntei essa observação a uma outra pesquisa que estava fazendo sobre a [primatologista e antropóloga] Jane Goodall e foi muito interessante ver as similaridades entre humanos e chimpanzés. E também uma grande diferença: os chimpanzés não batem nos seus filhotes. Esse período da NYU durou quase três dos cinco anos que morei em Nova York. 

Nessa época da NYU, nessa volta, ou mesmo antes, você já estava fazendo alguma coisa no Bradesco?

Sou a neta mais velha, e a vida inteira minha mãe morou vizinha ao meu avô. Então, a gente tinha um contato muito próximo, muito grande. Via meu avô diariamente, e sempre frequentei muito o banco. O banco era uma extensão da minha casa. Então, quando estava no Brasil, meu avô me chamava para vir almoçar aqui e conversar. Se ele tivesse visita, de amigos a ministros de Estado, ele falava, essa aqui é a minha neta, ela vai tomar conta da Fundação. Ele falava isso pra todo mundo. Só respondia: não sei se quero isso, não sei se gosto dessa Fundação. Queria continuar estudando, queria fazer um doutorado na França. E ele insistia, você tem que vir, você tem que vir. Ele insistiu tanto que falei tudo bem, vou ficar um ano aqui na escola, mas com uma condição, não é para ninguém saber que sou sua neta. Realmente ninguém ficou sabendo, só a diretora da escola e a orientadora com quem trabalhava direto. Fiquei um ano e gostei. 

O que você fazia?

Fiquei na pré-escola e educação infantil. É uma escola muito grande. Pra você ter uma ideia, na educação infantil tem 420 crianças. E eu fazia de tudo. Cheguei a levar criança em ambulatório porque tinha se machucado, ajudava na cozinha, arrumei um dia o gás, ajudava ou substituía professoras. E aí um dia cheguei para a orientadora, que é minha amiga até hoje, falei, escuta, eu podia fazer um trabalho com as crianças que estão um pouco mais atrasadas? Ah, pode fazer o que você quiser. Então reunia essas crianças, ficava com elas, conversando, acompanhando, e em um mês elas já estavam iguais a todo mundo. Tinha que prestar muita atenção em cada criança, e procurar entender qual era a questão com cada uma. E daí, depois que fiquei um ano, meu avô virou para mim e falou, então você vai ficar né. E já me deu o cargo que tenho até hoje. 

Você entrou oficialmente na Fundação Bradesco em 1986. Tinha por volta de 28 anos. Como foi, de repente, estar com um cargo importante numa fundação que já tinha três décadas de existência. Como foi esse começo?

Ninguém precisou me falar, mas tinha total noção que ia ser muito difícil, porque era neta do fundador e porque era mulher. Agora, em educação, tem uma questão que é mais difícil ainda. Quando a pessoa é nova, eles acham que você não sabe nada, porque, em educação, conta muito a experiência que a pessoa tem, entendeu? Então, você imagine que na década de 1980, eu com essa idade, tomando conta disso tudo, ninguém dava a bola. A pessoa já entrava na minha sala falando que a idade que eu tinha era o tempo que ela trabalhava na Fundação. 

Teve algum momento nesse início que te deu certeza do que estava fazendo?

Olha, não sei se teve um momento porque demorou, sem brincadeira, uns 20 anos. Todo mundo via que eu tinha mais conhecimento, mas para entenderem ou acreditarem que ia dar certo o que estava propondo, isso foi demorado. Mas olha, vou falar para você, nunca fiquei batendo de frente, nunca. Digamos que tenho bastante paciência. 

Mas 20 anos é bastante tempo mesmo com tanta paciência...

Sabe em quem pensava? Nos alunos. Penso neles sempre, até hoje. E sempre tive muita noção da importância do meu avô nessa instituição e no porquê ele tinha me colocado nela. Isso meio que me norteou a permanecer na Fundação até hoje. 

E porque você acha que seu avô te colocou na Fundação Bradesco?

Acho que ele me conhecia melhor do que eu mesma. 

O que pessoalmente te dava a certeza de que, uma hora, você seria compreendida e respeitada?

Olha, eu me comprometi com meu avô a assumir isso, entendeu? Isso ficou comigo e não voltaria atrás. Pode vir todo mundo aqui fazer o que for que não iria desistir. Sou muito focada e tenho muito compromisso com o que falo. Tudo isso me dava essa certeza. 

Como você acha que, em seu início dos anos 1950, a Fundação Bradesco via a educação? E como via nos anos 1980, quando você entrou? E agora? Houve alguma transformação nesse entendimento sobre educação?

Porque meu avô teve essa ideia da Fundação? Porque era um momento onde não tinha escola pública para todas as crianças no país. Por isso que ele começou com essa coisa de colocar escola onde não tinha, tipo no interior do Pará, em Tocantins, uma escola fazenda no meio do Mato Grosso do Sul. E escolas de qualidade, de alto padrão. Depois veio a universalização da escola, da educação para todas as crianças brasileiras, mais ou menos na década de 1980. Em termos curriculares não mudou muito não porque o maior desafio foi sempre manter a qualidade educacional e a infraestrutura das nossas escolas que, invariavelmente, ficam em lugares distantes. Atualmente temos 40 escolas espalhadas em todos os estados brasileiros e continuamos mantendo o foco em educação de qualidade.

No ano que vem [2026], a Fundação Bradesco completa 70 anos, então é uma instituição sólida, uma máquina bem azeitada. Você consegue ver alguma coisa no futuro que seja um desafio para essa estrutura educacional de vocês?

Olha, vou falar para você que acho que o grande desafio não é para a Fundação, é para o país todo, e é sobre a qualidade desses profissionais que estão na linha de frente nas escolas, entendeu? E a qualidade desse profissional, ao longo desses muitos anos que estou na Fundação, acho que não melhorou muito. Esse é um grande desafio para o Brasil: investir na formação do professor. Sem falar que em um país tão grande é preciso saber lidar com inúmeras diferenças culturais. A verdade é que trabalhar em escola é um desafio. Porque vai muito além de ensinar língua portuguesa e matemática. Implica nas relações interpessoais e pessoais dos alunos entre si. E o professor, o orientador, todo mundo que está na escola, tem que estar muito alerta para isso. Com o tipo de aluno que a gente atende, muita coisa vem à tona na escola, sabe? É incrível como tudo o que acontece de abuso, de agressão, de tudo na casa, o aluno leva para a escola e conta. Ele pede socorro. Então, eles veem a escola da Fundação Bradesco como um lugar seguro.

sexta-feira, 1 de março de 2024

visão além do alcance

foi ali por agosto do ano passado que reativei contato com Décio Galina, jornalista gente boa que conheci pouco mais de dez anos atrás quando ele estava nas customizadas da Trip (ele editava a Audi Magazine e fiz uns três frilas pra lá nessa época). descobri que ele estava editando a Forbes Brasil e fui lá em seu Instagram oferecer meus serviços, mesmo sabendo que essa área de business nunca foi muito minha praia. mas sei fazer jornalismo, sei escutar pessoas e sei pegar o que elas sabem pra explicar algo que eu mesmo não sei (e, talvez, o leitor também). 

ele logo me passou um frila da pesada, muita responsabilidade mesmo: um panorama de consultorias de negócios com direito a 5 empresas gigantes, 5 entrevistas, muitas expectativas, muito vai e vem de perguntas e respostas. deu um trabalho danado, mas o resultado ficou ótimo e saiu na edição 112 (setembro/outubro). 

de lá pra cá fiz outros três frilas pra Forbes Brasil: textos pr'um especial sobre empresas inovadoras, textos pra categoria 'terceiro setor/empreendedorismo social' do especial anual com lideranças abaixo de 30 anos (Under 30) e, mais recentemente, uma matéria sobre novos investimentos da Disney em seus parques.

p.s.: o texto abaixo é o que mandei originalmente, sem edição. acho que Décio não mexeu quase nada no texto, só separou as consultorias em blocos (o texto aqui segue corrido), e mudou o título/linha fina.

o abre da matéria na edição 112 da Forbes Brasil

CONSULTORIAS EM TRANSFORMAÇÃO

O mercado de consultorias se reinventa e cresce com ajuda da tecnologia

Num mundo de negócios em constantes mutações, tudo que é sólido corre o sério risco de se desmanchar no ar. Então, para evitar estes e outros desastres, grandes empresas invariavelmente precisam dos serviços de consultorias e auditorias. É um jeito de se organizar, se atualizar, tirar excessos e seguir em frente. 

Foi com esse objetivo que, em meados do século 19, na esteira da Revolução Industrial, surgiram os primeiros escritórios de contabilidade na Inglaterra, o marco originário de algumas das maiores consultorias ainda atuantes no mundo. Muito distante dos cadernos vitorianos repletos de números, as consultorias hoje em dia precisam constantemente se reinventar oferecendo novos e melhores serviços. E cada vez mais digitais.


A DELOITTE, por exemplo, foi fundada por Willian Welch Deloitte em 1845 e seu ofício de contabilidade ficava na Basinghall Street, coração da City londrina. Atualmente conta com um time de 457 mil profissionais espalhados por cerca de 150 países e no mais recente fechamento de ano fiscal, em junho de 2023, apontou receitas globais de US$ 64,9 bilhões e um crescimento de 14,9%. No Brasil há 112 anos, a Deloitte chegou para auditar companhias ferroviárias britânicas e hoje em dia possui 7 mil funcionários e 300 sócios e sócias em 17 escritórios pelo país.

Os negócios das Deloitte estão divididos em cinco grandes frentes: Auditoria & Assurance, Consultoria Empresarial, Risk Advisory, Consultoria Tributária e Financial Advisory. Mas a maior parte de suas receitas, à exemplo da evolução de todo setor, vêm dos serviços de consultoria, com destaque para Consultoria Empresarial e Risk Advisory que tiveram crescimento no último ano fiscal de 19,1% e 17,5%, respectivamente.

“O mercado está oferecendo - e os clientes querendo - cada vez mais serviços de ponta a ponta. Antes você comprava contabilidade de um, financeiro de outro, sistemas de um terceiro. Com o avanço da tecnologia o dado é único e se você compra separado acaba saindo mais caro. Nossa estratégia então é ser cada vez mais multidisciplinar abrindo nosso portfólio de serviços para oferecer soluções completas para o cliente. Conseguimos isso porque temos parcerias com empresas de tecnologia que nos ajudam a oferecer esse pacote completo. Essa é uma grande e recente mudança de modelo de negócios”, diz João Maurício Gumiero, líder de Clients & Industries e Market Development da Deloitte.

A pandemia acabou acelerando algumas iniciativas em transformação digital que já caminhavam dentro da empresa. “Durante a pandemia nossa área de consultoria em implantação de tecnologia e segurança das informações teve um boom de crescimento. Mas agora, resolvendo esse problema de dados e informações, de agilidade nas comunicações, nos voltamos a novas tecnologias como inteligência artificial e cloud, a nuvem. Estas novas áreas é que estão impulsionando a Deloitte para virar também uma consultoria em tecnologia e de estratégia de negócios”, explica Gumiero.

Só que a tecnologia em si não é a resposta para tudo, pois como Gumiero faz questão de frisar, “as pessoas são a maior riqueza de uma empresa e é preciso constantemente treiná-los, melhorá-los. Eu, originalmente, sou administrador e contador. Seu soubesse calcular e contabilizar o imposto eu já era um grande profissional. Agora estou aqui, com 28 anos de empresa, conversando sobre TI. Depois de velho fui aprender tecnologia. Então queremos ajudar nossos profissionais a não ter apenas uma formação. Porque só uma formação não basta, e isso também é uma tendência de mercado”. 

Também nascida em Londres, só que em 1849, a PWC é outra grande consultoria global, que se espalha por 160 territórios, conta com 350 mil colaboradores e receitas que superam US$ 50 bilhões. Tal como a Deloitte e outras empresas do mercado, a PwC possui um portfólio cada vez mais amplo e diversificado de serviços “que vão dos trabalhos de asseguração às capacidades de consultoria de negócios e tributária, bem como um braço dedicado à consultoria estratégica, sempre com o propósito de construir confiança na sociedade”, como afirma Hércules Maimone, sócio-líder em Consultoria Empresarial (Advisory). 

“A combinação dessa variedade de habilidades nos ajuda na resolução de projetos complexos, desde a estratégia à implementação, execução e operação. Esse é o conceito que chamamos de ‘One Firm’ e que explica nossa expansão em um cenário cujos desafios de mercado evoluem de modo constante. Estamos atentos às perspectivas trazidas pela pluralidade da sociedade, pela necessidade de governança, pela observação de mudanças importantes como os desafios do clima e dos aspectos relacionados à sustentabilidade, em um contexto de avanços tecnológicos vigoroso e crescente que expandem os alcances da busca de soluções exequíveis, confiáveis, competentes e sempre com inovação”, diz Maimone.

A pandemia também serviu para a PwC como um momento importante para rever prioridades e acelerar processos digitais. “A PwC colaborou ativamente em projetos globais e locais com o objetivo de atenuar os impactos da pandemia, oferecendo suas habilidades e apoio a entidades de pesquisa, governos e associações comprometidas com ações solidárias no resgate das condições mínimas de convivência e cidadania em um momento tão disruptivo”, reflete Maimone.


Outra consultoria cuja origem remonta a Londres de 1849 é a EY, a terceira maior do mundo. Em números globais, a EY possui 395 mil colaboradores em mais de 150 países, e registrou receitas de US$ 49,3 bilhões no ano fiscal de 2023 com crescimento de 14,2% em moeda local (sendo que as Américas responderam por quase metade desse faturamento). Só na EY Brasil são cerca de 8700 funcionários em 13 cidades focados em quatro linhas de serviços integradas: Auditoria, Consultoria, Estratégia e Transações/Impostos.

“Com nosso profundo conhecimento dos principais segmentos econômicos de mercado, ajudamos nossos clientes a capitalizar novas oportunidades e a avaliar e gerenciar riscos para proporcionar um crescimento responsável. Atendemos assim uma grande variedade de empresas da indústria financeira, de consumo e varejo, agronegócio, tecnologia, mídia e telecomunicação, saúde, bem-estar, energia, mineração, óleo e gás, utilities, infraestrutura, educação, governo, real estate, entre outros”, enumera Luiz Sergio Vieira, CEO da EY Brasil. 

Seguindo a mesma tendência do mercado, a EY vem alternando serviços tradicionais de auditoria e consultoria com a transformação digital de processos e sistemas que oferece aos seus clientes. “Nos últimos anos, as empresas mudaram muito. Começaram a usar dados para tomar decisões e a dar seus primeiros passos utilizando tecnologias que hoje são maduras como Cloud, Big Data e Analytics. Hoje, as empresas estão em uma nova onda digital, buscando entender e implementar a Inteligência Artificial Generativa e integrar a tecnologia e a sustentabilidade, trazendo mais transparência para as métricas socioambientais”, diz Vieira 

Para o CEO da EY Brasil, sustentabilidade não pode ser mera fachada, nem para a própria consultoria nem para os clientes que representa. “É importante entendermos que o desenvolvimento econômico e a sustentabilidade ambiental andam de mãos dadas. E o Brasil, nesse aspecto, tem uma posição privilegiada, pois cerca de 87% da nossa produção de energia elétrica vem de fontes renováveis. Temos uma oportunidade incrível de, ao perseguir a sustentabilidade ambiental, conseguir atingir o desenvolvimento econômico duradouro e sustentável”.

Também não é fachada o estímulo que a empresa tem dado para diversidade e inclusão. Vieira orgulha-se ao falar que é “nosso dever moral e ético criar oportunidades para que mulheres, afrodescendentes, pessoas com deficiência, membros da comunidade LGBTQIA+ e de outras minorias ingressem na empresa, se qualifiquem continuamente, sejam promovidos e expressem suas crenças sem receio - que sejam como desejarem ser. Afinal de contas seremos mais fortes e inovadores quanto mais diversos formos”. 

Quarta maior consultoria do mundo, a multinacional KPMG tem sede em Amsterdã e é resultado de uma fusão feita em 1987 de três consultorias cujas origens remontam à virada do século 19 para o 20, com raízes na Holanda, Inglaterra e Estados Unidos. Presente em 145 países e territórios e com mais de 265 mil sócios e profissionais atuando nas firmas-membro em todo o mundo (sendo que quase 6 mil apenas no Brasil), a KPMG faturou US$ 34,64 bilhões globalmente após o fechamento de seu mais recente ano fiscal.

Tal como suas principais concorrentes, a KPMG presta serviços nas áreas de Audit, Tax e Advisory, e também notou mudanças radicais e desafiadoras no mercado. “A maior delas, pelo menos nos últimos dez anos, foi a entrada da tecnologia muito mais forte. As consultorias operavam muito, e ainda operam um pouco, no modelo de conselho. Ser alguém que orienta, que aponta caminhos, que tem metodologia. Com mais uso de tecnologia o cenário de consultoria mudou muito, o que nos fez avançar para um nível mais de execução, de implementação”, diz André Coutinho, sócio-líder de Advisory da KPMG no Brasil.

“Qualquer trabalho nosso hoje em dia envolve algum tipo de tecnologia. Ou ela é um meio, isto é, a KPMG tem uma tecnologia pra entregar um melhor serviço para o cliente. Mas também tem a tecnologia fim, ou seja, você vai instalar uma tecnologia para transformar o processo e o negócio do cliente”, complementa. “A gente também percebeu que hoje em dia as empresas não dão mais a chave nas mãos da consultoria, elas acompanham mais de perto tudo. Existe uma simbiose maior entre executivos e consultores. Pensando bem, é até meio absurdo o modelo antigo, como se o consultor soubesse mais que executivo. Esse modelo atual, essa simbiose, é muito mais inteligente”.


A mais nova das consultorias desta reportagem e cuja origem não tem relação com contabilidade e auditoria, a BAIN & COMPANY é americana do ano de 1973 e atualmente possui mais de 18 mil funcionários – sendo 800 no Brasil – em 65 escritórios distribuídos por 40 países. “Diferentemente das consultorias tradicionais, que têm foco em operações ou processos específicos, a Bain oferece uma visão sistêmica do negócio e do mercado para que seu cliente entenda as tendências no longo prazo e possa tomar decisões tempestivas e adequadas aos seus objetivos”, afirma Alfredo Pinto, Office Head da Bain & Co. América do Sul.

Com foco em consultoria estratégica destacando segmentos como ambientes de negócios sustentáveis (ESG), entregas com inteligência artificial, consultoria sobre transações de M&A, especialmente em integrações de grandes fusões, e projetos de Enterprise Technology, a Bain tem atualmente 60% da receita na América do Sul ligada a novos projetos relacionados a transformação digital. 

As perspectivas de futuro para o mercado de consultorias são tão desafiadoras quanto lucrativas, e Pinto acredita que “há um enorme potencial em projetos que ajudam a definir os caminhos futuros das empresas, seja em tecnologia, arquitetura organizacional, iniciativas ESG, fusões e aquisições, e tantos outros serviços”. Mas conclui que não se pode perder de vista o fator humano, “pois temos visto uma mudança significativa no comportamento dos colaboradores, que buscam com razão qualidade de vida no trabalho. Com isso, as empresas e a própria Bain têm investido amplamente em iniciativas de diversidade, inclusão e equidade para atrair e reter os melhores talentos”.