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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

3 do rio

2012 chegando ao fim, novas listas de melhores do ano sendo cozidas, mas enquanto o mundo não acabar os discos não param de sair. agorinha então vieram à luz três novidades vindas do rio de janeiro, duas da cidade e uma do interior de aço (volta redonda). 


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começamos então com o afrobeat carioca da abayomy afrobeat orquestra e o disco de estreia que leva seu próprio nome. a produção é de andré abujamra e a homenagem ao ritmo criado pelo mestre fela kuti é muito mais respeitosa e fiel que a do bixiga 70 (no entanto, os paulistanos ganham em originalidade no diálogo áfrica X brasil). disco bom, dançante, afro-brasileiro na veia, e ainda traz um cover da potente e felakutiana “no shit”.


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a estreia solo de alvinho lancellotti, filho do compositor ivor lancellotti e irmão de domenico, veio no tempo certo, devidamente maturada após as ótimas experiências na banda fino coletivo (dos discos fino coletivo, de 2007, e copacabana, de 2010). o tempo faz a gente ter esses encantos, em dowload gratuito, é daqueles discos que mostram como é bonito ouvir um samba atual, respeitoso no pé na porta das tradições. o samba precisa muito desses movimentos para levar em frente o estandarte do gênero que fundou o brasil. e na estreia de alvinho, bom cantor e compositor de tudo, tem delícias absolutas como “alegria da gente”, “são tomé”, “vidigal”, “autoajuda” e “é de mamãe”, além das belezas de “meu bloco do amor” e “vazio”.


...

fechando esta seleção, o pessoal do amplexos, que acabou de lançar seu segundo disco, a música da alma. esse sexteto de volta redonda assume logo que a influência principal é a música negra,  “aquela que vem dos guetos e periferias do mundo” (leia-se afrobeat, ska, dub, funk, reggae), mas tem um tanto de rocks e psicodelias no caldeirão das dez faixas do disco (e, olha, senti um lance picassosfalsos em algumas... pode ser viagem). de qualquer forma, em qualquer som, desejam ainda tratar nas músicas de grandes e pequenos temas e a sinceridade desse engajamento tanto faz parte do projeto quanto tocar muito bem e com balanço. nasceram assim – tudo da cabeça de eduardo “guga” valiante, também cantor e um dos guitarristas – músicas ótimas como “sim”, “falsa salsa”, “mistério”, “o homem”, “boladão”, “leão” e “making love”.


p.s.: ah, o amplexos lançou um minidoc com os bastidores da produção do disco, que, aliás, tem produção de buguinha dub e está disponível para download gratuito. e foi um dos participantes do tributo ao raça negra (jeito felindie) com uma ótima versão de “quando te encontrei”.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

yahoo #54

acho que foi em agosto que o muy aguardado disco de samba de mr. catra caiu na rede e a expectativa era alta para quem acompanha a carreira do sujeito. eu, que sempre esperei um disco bem produzido de catra, também me frustrei um pouco. não foi dessa vez. fora as razões musicais que aponto no texto pro yahoo, tenho a impressão que ele não liga muito pra esse lance de discos, nunca ligou. ele só quer as músicas para os shows e tá bom demais. catra, afinal, só faz o que lhe der na telha.




O SAMBA SEM PUTARIA DE MR. CATRA

Ele gosta de ser chamado de “Operário do funk”, o que diz muito sobre como encara seu ofício: música é trabalho (está no batente há quase 20 anos), entretenimento é trabalho (aos 44 anos segue fazendo shows todos os dias). Pra falar a verdade, sua vida toda é trabalho, afinal possui entre 20 e 24 filhos, sempre mais de uma esposa e muitas ex-mulheres.

Figura das mais singulares da música popular brasileira, Mr. Catra é tudo isso, mas é também um sujeito espiritualizado, autoproclamado “judeu salomônico”. Esse lado religioso, despertado por uma viagem a Jerusalém em 1999, acabou entrando no seu conhecido repertório de funks hipersexualizados, proibidões ou de crítica social. Mas ele também é machista, sexista e homofóbico. E bem humorado e a favor da legalização das drogas para acabar com o tráfico. O Isaac Hayes da Tijuca é um liquidificador de mil loucuras e sanidades.

Como se tudo isso fosse pouco, Catra encarou recentemente um disco de sambas, heresia total para alguém que começou no rock, passou pelo rap e ganhou notoriedade no funk. Na humildade lhe deu o título de Com Todo Respeito ao Samba. Mas talvez, talvez não, com certeza, humildade e respeito acabaram atrapalhando seu acerto de contas com a tradição de sua cidade. Claro que tem coisa boa – além dessa “Eu só quero paz” salvam-se as ótimas “Triste fim da mina”, “Sua foto” e “Mangueira é uma mãe” –, mas faltou mais Catra nesse samba (o pessoal do Fita Bruta, um dos poucos veículos que resenhou o disco, ficou ainda mais frustrado que eu).


O resultado abaixo das expectativas não tem nada a ver com sua interpretação, segura, rascante, dolorida como sempre. A voz de Catra é uma das mais fortes e cheias de balanço dos últimos tempos, mas a produção musical nunca ajuda. Nos funks geralmente é pobre e nesses sambalanços ficou quadrada, achatada. Todos os arranjos tem aquele peso de teclados e batuque careta, confirmando que o samba pop carioca foi definitivamente ganho por diluições da turma de Cacique de Ramos (Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, etc.), produção do Rildo Hora, aquela coisa toda. Rolam até uns saxofones oitentistas estragando “Happy end” e “Tão lindo”, faixas que poderiam ser boas baladas soul.

Tudo é limpinho demais, redondinho demais, o que é exatamente o oposto do que Catra sempre fez. Um cara que cantou pedradas como “Júri popular” (player abaixo) agora vai de beatices constrangedoras como “Minha vida é um milagre de Deus” e “Evolução”.


Agora é torcer para Catra voltar logo aos bons tempos de molecagem. O funk e o samba carioca, atualmente tão carentes de novidades e vozes poderosas, agradeceriam. Porque, da minha parte, sempre vou achar mais legal um cara que fala “Putaria é sexo com alegria, putaria é quase amor” – frase já clássica registrada no documentário 90 Dias com Catra (direção de Rafael Mellin, 2010) – do que o que diz “Muito obrigado Senhor por esse mundo de maravilhas”. Mas aí vai de cada um.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

cultura e educação contra o extermínio

um dos grandes momentos da campanha: o encontro de fernando haddad com mano brown, ice blue, leandro lehart, andreia dias, emicida, leci brandão, etc. ainda falarei mais sobre essa experiência (a de trabalhar nessa reta final da campanha), mas deixa passar domingo. nesse trecho, as falas de mano brown, ice blue e haddad.



saiu um segundo trecho do encontro com a presença de netinho de paula, leandro lehart e leci brandão.



e lá no blog H tem outros trechos do encontro transcritos por pedro alexandre sanches. ah, e no último trecho em vídeo, emicida, fernando anitelli (teatro mágico) e andré frateschi.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

yahoo #47, um novo começo

pois então... pouco mais de três meses de lapa de baixo (aka istoé) depois, o que era sólido se desmanchou no ar, e voltei ao fantástico e assustador mundo da frilândia. uma das primeiras coisas que fiz foi ligar para o bróder michel blanco para reativar minha coluna no ultrapop (afinal, meu rostinho feio continuava lá no header junto com pedro alexandre sanches e dudu tsuda). delícia voltar a escrever a coluna, saiu tão rápido... e sensacional (pro mal e pro bem) acompanhar novamente as mil e uma loucuras na caixa de comentários. tava com saudades, nem sabia quanto. e o texto de volta deve agradecimentos ao deputado protógenes queiroz e sua delirante cruzada contra o ursinho e a "mensagem" do filme ted, de seth macfarlane.



O URSINHO DA MALDADE CONTRA O MORALISTA MÍOPE

Foi domingo agora, provavelmente em algum normalíssimo cinema de shopping, que o deputado federal Protógenes Queiroz (PC do B/SP) levou seu filho Juan, “o pequeno Juan” de 11 anos, para assistir ao longa norte-americano Ted. Deveria ser um programa divertido, pai e filho juntos, domingão, mas deu tudo errado, pelo menos para Protógenes que ficou absolutamente chocado com o filme e saiu xingando muito no twitter (as aspas logo abaixo estão do jeito que o excelentíssimo digitou). Até agora ninguém sabe o que o menino achou do acontecido.

“Assisti com o pequeno Juan o filme Ted uma cena de apologia às drogas: o ursinho Ted e o seu dono consumindo drogas. Isso é um absurdo! MJ [Ministério da Justiça] deve explicações!”, mas sua raiva santa não se conteve com isso e no dia seguinte aumentou a carga. “Acionarei os meios legais, a fim de impedir que o lixo o filme infanto-juvenil Ted seja exibido nacionalmente e apurar responsabilidades. O filme não esta apropriado para nenhuma faixa etária. Incentivar o consumo de drogas é crime, usando ainda ícones infantis.”

Bem, na minha terra isso tem nome e um nome apenas: censura. Curioso que no mesmo dia, o deputado disse que não concorda “com a restrição a liberdade de expressão” ao comentar uma notícia sobre censura a blog do Estadão.

Curioso também que o político que ficou famoso quando era delegado da Polícia Federal e integrou importantes operações como a que prendeu Law Kin Chong, o maior contrabandista do Brasil, e a complexa Satiagraha, a que encarcerou momentaneamente o banqueiro Daniel Dantas, Celso Pitta e Naji Nahas, não deu uma investigadinha nos antecedentes do filme. Não olhou o trailer, não levou em conta a classificação (“Não recomendado para menores de 16 anos”) e não leu críticas, portanto não ficou sabendo que Ted é o primeiro longa de Seth MacFarlane, mais conhecido por ter criado as animações críticas e debochadas Family Guy, American Dad! e The Cleveland Show. Viu o ursinho no cartaz e achou que estava tudo bem para o pequeno Juan.


No entanto, o pior veio depois. O valente deputado que conseguiu criar as CPIs de Carlinhos Cachoeira e da Privataria Tucana simplesmente não entendeu o filme. Fala de incentivo de uso de drogas justamente quando o ursinho drogado é visto no filme como um vagabundo imaturo. Em uma reportagem no Estadão, Protógenes “disse que o filho perguntou se ele queria ir embora. ‘Respondi que não. Queria ver até onde ia aquele desrespeito.’” Parece o papo clássico de falso moralista. Quer dizer, ou se tem maturidade para falar o que é certo e errado para o seu filho, sem precisar apelar para qualquer tipo de proibição, ou você é um fracasso como pai/educador/cidadão.

Então, a partir de uma indignação conservadora e absolutamente pessoal, o deputado decidiu que seus preconceitos deveriam se estender a todo o país (“#foraFilmeTED das telas do cinema brasileiro. Não aceitamos mais esses enlatados culturais americanos no Brasil”). O filme é bom? Ruim? Aí vai da opinião livre de cada um. A reação, principalmente no twitter, foi rápida, irônica, inclemente e tão poderosa que ele desistiu do banimento do filme e já se contentava com a classificação de impróprio para 18 anos. Ainda deu tempo de soltar um desabafo ontem: “O mundo esta cheio de ursinho Ted”. E em vários lugares do mundo, Teds dos tipos mais variados soltaram risadinhas esfumaçadas.

Felizmente, essa história não vai dar em nada, diferente de outras restrições conservadoras e burras que ainda teimam em aparecer aqui e ali no Brasil (São Paulo, ou Kassabistão de Tucanópolis, está ficando mestre nessas patacoadas). E tomara que o pequeno Juan se saia melhor que o pai.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

yahoo #12

pois então, amiguinhos e amiguinhas, a polêmica está de volta ao ultra pop! a coluna nova, "bastardo é a mãe", trata de misturas mashupeiras entre ritmos bem populares (funknejo, no caso) e o pessoal está surtando com "o baixo nível que tomou a música brasileira". o texto anterior, que segue abaixo, é sobre fofocas, demagogia e internet, o que não deixa de ser uma pensata de boteco sobre a psicologia desse pessoal que não sabe se comportar nas caixas de comentários.

FOFOCA EU, FOFOCA TU

Uma das coisas mais comuns no Brasil é enxergar problemas ou culpas somente nos outros. O sujeito faz uma barbeiragem daquelas de fazer o Vin Diesel corar de vergonha e se alguém o repreeende, mesmo com uma singela buzinada, o tal sujeito xinga, mostra o dedo do meio, puxa o revólver, faz o diabo. Ou então aquele pessoal que fala que a música de hoje em dia não é boa como a do passado e quando se pergunta de quem gostam surgem nomes como Shakira, Jorge Vercilo ou J. Quest (nada contra, são só exemplos). Ou ainda sites e revistas de fofoca, que todos acham uma falta do que fazer ao mesmo tempo que sabem os mexericos mais recentes.

“Que jornalismo é esse que fica dando trela para subcelebridades, mulheres-frutas, etc. É esse país que quer receber a Copa?!”. Basta dar as costas que a pessoa clica na primeira manchete com a Nana Gouvêa ou a Nicole Bahls muito à vontade em alguma praia carioca. Essa hipocrisia de não assumir suas próprias escolhas e/ou responsabilidades, de fingir ser quem não se é, é típico de uma sociedade de aparências. Só o tempo e a educação nos libertará disso (ou não), mas enquanto a iluminação não acontece precisamos assumir nossas baixezas ou pelo menos nosso espírito voyeurístico. E fofocar pode até não ser bom, mas é natural desse pessoal que somos nós.

Veja bem. Os tablóides são uma invenção da imprensa inglesa no século 19 e em suas chamadas espalhafatosas existia uma vontade de esculhambar com a realeza e a classe aristocrática. Trazer o altar pra rua, digamos assim. Em um mundo desigual a palavra era (e ainda é) a única arma disponível para quem não tinha poder. Notícias cheias delas então... Claro que isso também virou poder, mas aí é outra história.



Na década de 1920, os tablóides tomaram outra forma e ganharam novos alvos do outro lado do Oceano Atlântico com o surgimento de um novo tipo de nobreza: os astros e estrelas de Hollywood. Um público novinho em folha estava ávido por saber com quem Greta Garbo dormia ou como era Charles Chaplin por trás do bigode de Carlitos. O espírito de fofoca da rua ganhou ares de jornalismo sério e já não era mais possível saber se essa demanda foi criada pelo público ou alimentada pela própria imprensa. De qualquer forma, sensacionalismo (da mídia) e crueldade (do público) costumam andar de mãos dadas em meio a essa bisbilhotice toda.

Agora, para fazer isso de um jeito que fosse bom para todo mundo foi criado o colunismo social, uma versão chapa-branca do nosso voyeurismo. Domaram e comercializaram nossa curiosidade. E foi esse tipo de tablóide que venceu aqui no Brasil. Só que muito diferente da agressividade fofoqueira inglesa - que fez nascer casos extremos como o do centenário e recém-falecido News of the World que chegou a grampear ilegalmente telefones de astros, políticos, etc. -, a brasileira
é cordial, amiga, “inofensiva”.

Ninguém quer perder as entradas VIPs, a boca livre, o tapete vermelho, a entrevista exclusiva, e por isso o nosso jornalismo de celebridades estampa uma gravidez aqui, uma boa forma acolá, novos e velhos casais explodindo de alegria, um final de semana inesquecível em um castelo ou numa ilha. Nada de traições, filhos fora do casamento, dependências químicas (só se já estiverem no estágio de “superação”), xiliques em gravações, plágios, calotes fiscais e o escambau.

Talvez os ingleses façam uma “fofoca do mal” e os brasileiros sejam “do bem”. Aí vai da opinião de cada um. Só não vale culpar o mensageiro. Somos nós que mexemos no lixo e é lá que desejamos encontrar algo. Talvez por identificação ou então para passar o tempo. Quem sabe seja amor, ódio ou tara. Mas de repente a gente pode criar o Dia do Orgulho Fofoqueiro e se encontrar, trocar umas ideias...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

arte popular brasileira

olha, o leandro lehart é, provavelmente, um dos artistas mais subestimados da música popular brasileira, mas tenho certeza que ainda será feita justiça a sua enorme contribuição à música negra pop desse país. bem, pra isso a história também precisa correr e o leandro é jovem (39). tô falando disso porque hoje, ao acompanhar a volta do pagodecast do @chicobarney, (re)ouvi duas pedradas de leandro dos tempos que era líder do art popular. "deixe eu ir à luta" foi lançado no álbum art popular (virgin, 2001), o primeiro do grupo sem leandro, e depois regravado pelo próprio no ótimo deixe eu ir à luta (independente, 2006), seu terceiro trabalho solo. "pimpolho" é do disco temporal (emi-odeon, 1996), a estréia do art popular, e é um daqueles hits poderosos que poucos conseguem criar (e olha que o grupo foi um dos que mais fez sucesso na década de 1990, pense em "temporal", "fricote", etc). só que, para melhorar a história, as duas ganharam regravações impressionantemente sofisticadas no dvd samba pop brasil mestiço (universal, 2009). leandro, que é cantor de voz linda e versátil, produtor meticuloso e compositor afiado, também é arranjador de grandes idéias. basta ouvir... (ah, e essa versão de "deixe eu ir à luta" tem participação do rapper mv bill).





outra, leandro lehart está prestes a lançar disco novo. pelo que dá para entender em seu site oficial, ensaio de escola de samba (independente, 2011) é um trabalho ousado sobre o samba brasileiro que reuniu pouco mais de 30 instrumentistas, tem 18 músicas e foi todo filmado em estúdio. e para montar uma big band percussiva para shows desse disco, o paulistano vem arregimentando músicos pelo twitter @leandrolehart porque "quer conhecer gente nova". no mais, e nunca é demais, vou colocar "agamamou", samba funk que parece que sempre existiu, e que foi gravado pelo art popular no disco samba pop brasil 2 (emi, 1999), mas que aqui é da versão do art popular: acústico mtv (virgin, 2000), que tem participação de ninguém menos que jorge ben, como uma espécie de benção.



p.s.: agora, pra encerrar esse post, gostaria da atenção total de vocês aos 3 minutos do clipe de uma versão de "pimpolho" feita por uma dupla de italianos chamada los locos. sua vida não será a mesma.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

virginias falam, rosas cantam

fazia um tempo que não abria o baú de textos e como hoje acabei cruzando o caminho com a tal pasta fui dar uma olhada. custa nada. bem, achei esse perfil da cantora paulistana virginia rosa que fiz no início de 2007 pra tam magazine. uma das primeiras vocalistas da banda do itamar assumpção - está no disco às próprias custas s.a. (baratos afins, 1983) -, virginia estava lançando seu terceiro disco solo, o ótimo samba a dois (eldorado, 2006), e a conversa rolou em um apartamento em higienópolis (acho que era do empresário e/ou produtor dela, ô memória). de lá pra cá, a moça lançou seu tributo ao grande monsueto (baita negão, 2008) e um dueto com o pianista geraldo flach (voz & piano, 2010), além de muitos shows. é cantora daquelas discretas e fortes, e que ainda tem muito o que cantar.


AS ROSAS NÃO FALAM, CANTAM

A voz é suave e o sorriso aberto. Virginia Rosa é assim ao vivo, mas no palco a doçura se transforma em presença forte e intensa. Tanto faz o repertório ou o tamanho do recinto, o palco é onde ela se sente mais viva. Paulistana filha de mineiros, negra e índia, a cantora está completando em 2007 uma década de seu primeiro disco solo e duas décadas de seu primeiro show como intérprete profissional. E ainda por cima com um disco novo na praça, Samba a Dois, seu terceiro CD e o marco de sua entrada definitiva no time principal de grandes intérpretes da música popular brasileira. No entanto, nada disso seria possível sem um longo aprendizado como vocalista, ou backing vocal como preferirem, de artistas como Itamar Assumpção e Tetê Espíndola. Mas antes, uma volta ainda maior no tempo.

“Meu pai era músico amador, tocava um instrumento de sopro chamado bombardino e um pouco de violão, e minha mãe sempre cantarolava. Então toda a família gostava de brincar de cantar. Meu pai me apresentou Beatles, Secos & Molhados e música sertaneja, enquanto minha mãe cantava Clara Nunes. Depois formei um grupo com meus primos e a gente ouvia Clube da Esquina, Elis Regina, essas coisas”, diz sobre sua formação musical. Para se tornar independente da família decidiu aprender a tocar violão e foi assim que conheceu Rondó, guitarrista que tinha acabado de participar do disco de estréia de Itamar Assumpção, o histórico Beleléu Leléu Eu, DE 1981.

Itamar estava montando uma banda para o lançamento do disco e Rondó perguntou se Virginia não queria conhecê-lo e fazer um teste para ser vocalista. Corria o ano de 1980 e o bichinho da música começava ali a morder seu calcanhar. “Nunca tinha ouvido o Itamar Assumpção. Era um jeito super novo de cantar, uma voz quebrada, percussiva e não muito harmoniosa. E eu gostei muito. Tenho essa característica de ser muito curiosa, não tenho preconceitos. Sempre pago para ver porque só assim fico sabendo se gosto ou não. Depois que entrei vieram a Vânia Bastos e a Suzana Salles, e formamos a Banda Isca de Polícia”, relembra. O aprendizado com Itamar durou cinco anos e resultou em um disco, Às próprias custas S.A., de 1983.

Virginia Rosa partiu desta experiência para as canções brejeiras de Tetê Espíndola e o resultado acabou sendo a participação no Festival dos Festivais da TV Globo em 1985, onde, vestida de coração, fez vocais para a vitoriosa “Escrito nas Estrelas”. “Nessa época ainda não tinha a pretensão de ser uma cantora profissional, mas queria saber mais e comecei a ter, finalmente, aulas de canto”, e foram nestas aulas que ficou amiga de Ná Ozzetti, responsável direta por ter ficado sete anos como cantora da Mexe com Tudo, uma banda de repertório totalmente brasileiro e dançante.

Tudo acontece ao mesmo tempo para quem está aberto e, no mesmo período em que começava com a Mexe com Tudo em 1987, Virginia Rosa fez seu primeiro show solo. “Não foi uma experiência muito agradável. Fiquei muito nervosa, chorei todos os três dias e era tanto de emoção por estar cantando solo quanto por um descontrole pessoal. Não conseguia aliar a técnica do canto a uma interpretação emocionada. Mas foi ali que assumi que era isso que eu queria”, e os palcos foram se sucedendo para uma Virginia mais experiente que conseguiu enfrentar os repertórios variados de grupos como a Unidade Móvel e o Heartbreakers. Em 1997 surgiu o convite para seu disco de estréia e Batuque mostrou uma cantora eclética e firme em seu propósito de cantar o que gosta. “Eu ia pegando as músicas numa ânsia, parecia que não ia conseguir fazer outro disco, parecia que ia morrer”, diverte-se.

“Dos meus três discos o mais maduro em termos de repertório é o Samba a Dois, porque mostra muito bem minhas influências musicais, mas tem um fio condutor muito forte, o samba”, reflete. Mas a princípio e mesmo sendo fã incondicional de samba, Virginia Rosa não se interessou em fazê-lo. “Antes do Batuque tive uma proposta assim, mas não aceitei porque não queria ficar vinculada a um gênero. Hoje as pessoas sabem que sou eclética e só aceitei porque queria fazer um disco de samba no meu estilo”, diz e enumera o repertório que vai de Candeia a Marcos Valle, passando pelos jovens Los Hermanos, Bebel Gilberto e Luisa Maita. Neste balaio, Virginia Rosa ainda encontra espaço para cantar “As Rosas Não Falam” de Cartola em ritmo de tango e dar um mergulho na música portuguesa em duas faixas. “Tenho me interessado por música portuguesa há uns cinco anos e venho querendo concretizar esse casamento entre Portugal e Brasil. Espero que as pessoas gostem porque os portugueses amam nossa música”, explica sobre um cruzamento inédito entre samba-canção e fado.

Após o lançamento de Samba a Dois, a intérprete começa a afiar as cordas vocais para dois novos projetos, um sobre o sambista Monsueto e outro sobre Carmen Miranda, além de lançar em DVD o show que fez em 2003 homenageando Clara Nunes. “Olha, modéstia a parte, eu tenho uma voz agradável...”, e gargalhada ciente de que existem verdades que não adianta esconder.

p.s.: abaixo, virginia canta uma música pouco conhecida de monsueto. "mané joão" (josé batista e monsueto) foi gravado originalmente em um 78 rotações de 1963 e, profeticamente, diz que "menino de rua, menino de barracão, menino que estuda, chega a chefe da nação". o vídeo é cortesia do pessoal do música de bolso.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

"samba é um troço muito melindroso"

discípulo direto do mestre andré, o célebre diretor de bateria da escola de samba da mocidade independente de padre miguel, o irrequieto jorjão foi o protagonista de um excelente curta documental assinado por paulo tiefenthaler (ele mesmo, o sr. larica total). mestre jorjão (2004) é retrato aberto de um trabalhador que alia criatividade e seriedade em meio ao caos colorido que é o carnaval carioca (e que já passou por escolas como a mocidade independente, a unidos do viradouro e até a paulistana unidos do tucuruvi).

JORJÃO from Paulo Tiefenthaler on Vimeo

quinta-feira, 10 de junho de 2010

letra/música #16

a trilha memorável de um filme tão belo quanto silencioso - é proibido fumar (2009), de anna muylaert - tem um fecho pra lá de dourado (e que, confesso, não conhecia). "dou you like samba?" é composição de marcelo duran e foi lançada em 1973 pelo cantor baiano ciro aguiar, que começou comendo pelas beiradas da jovem guarda e na virada da década de 1960 pra 70 se mudou de mala e cuia para o sambão (mas também participou de uma montagem do musical jesus cristo superstar). ciro continua por aí fazendo shows e comandando programas de rádio na bahia.

ciro mendes de aguiar, baiano da cidade de salvador do ano de 1942

do you like samba?
(marcelo duran)

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

pra poder cantar meu samba
eu já estou de perna bamba
de tanto esperar
pra você me entender
até inglês fui aprender
pra me comunicar

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

eu conheço muita gente
que querendo ser pra frente
bota a cara para quebrar
compra disco brasileiro
pensando que é estrangeiro
e vai pra casa se esnobar

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

tem um tal de cash box
que é um cara não me toques
que faz a programação
vejo a semana inteira
uma novela brasileira
e nunca vi tocar sambão

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

por favor não leve a mal
mas não entendo o pessoal
alguém tem que me explicar
ouve rock o ano inteiro
e quando chega fevereiro
vai pra escola desfilar

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you


domingo, 10 de janeiro de 2010

letra/música #10

ah, clara nunes (1943-1983). que voz. que mulher bonita. que imagem rodopiante, pés descalços na areia, dentro da minha cabeça. se fosse escolher o disco preferido da mineira acho que seria guerreira (emi/odeon, 1978) porque nele estão duas canções que considero trabalhos perfeitos, redondos, geniais (em letra, música, arranjo, interpretação, instrumentistas, vocais, tudo): "mente" (eduardo gudin e paulo vanzolini) e "ninguém" (paulo césar pinheiro). essa última então, porra. tanta vezes pensei em roteirizar essa música (né não, fábio sanchez?), tantas imagens me veem quando a ouço, que agora o que me resta é "imortalizá-la" no esforçado.

ninguém
(paulo césar pinheiro)

ninguém, ah, ninguém
percebeu que a batida do meu coração
disparou quando eu vi que ela se aproximava
revelando que o amor não havia morrido, meu senhor

ninguém, ah, ninguém
reparou na mão dela tremer minha mão
eu queria falar, não saía palavra
tomado que eu fiquei de tamanha emoção

ninguém percebeu como eu estava feliz ao seu lado
ninguém entendeu que a conversa era sobre o passado
ninguém, ah, ninguém
viu que alguém que chegava causou-me desgosto
ninguém viu a raiva e o ciúme
queimando o meu rosto

ninguém, ah, ninguém
teve pena do estado do meu coração
quando ela com seu novo amor se afastava
porque ninguém notou como eu estava abatido, meu senhor

ninguém, ah, ninguém
pôde avaliar minha grande aflição
ninguém viu que eu saí sem dizer uma palavra
e chorei pela rua em total solidão
e chorei pela rua em total solidão
e chorei pela rua em total solidão



p.s.: sempre me espantou o fato de uma música tão bonita ter apenas esse registro sonoro. nunca achei outra gravação. se alguém souber...
de qualquer forma, lá no um que tenha, tem o disco.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

um jorge, uma alcione e uma sacanagem em 8-bit

o imbatível jorge, o cavaleiro jorge ben, acompanhado pelo originais do samba em uma versão ao vivo em 1970 de "domingas", música do próprio lançada no disco jorge ben (philips, 1969), aquele que trouxe também "país tropical", "cadê tereza", "bebete vãobora", "que pena", "charles anjo 45", quer dizer...



e um clipe em animação - animadíssimo, aliás - da faixa "trucker's delight", do inglês flairs (lionel flairs), amiguinho dos eletrônicos do justice e do daft punk. um aviso para os/as facilmente impressionáveis: o clipe, dirigido por jérémie périn, é um tanto pornográfico, escatológico, etc. & etc., e tudo em clima de videogame dos anos 1990.

FLAIRS - TRUCKERS DELIGHT from 3rd Side Records on Vimeo

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

é devagar, devagarinho

conversei com martinho da vila um ano trás por causa da estreia, no canal brasil, do especial o pequeno burguês, uma espécie de retrospectiva comentada de sua própria carreira (e que saiu em cd e dvd pela mza). de lá pra cá, o septuagenário sambista não lançou nada de novo, mas segue fazendo shows sem parar sempre com aquele seu bom humor inabalável.

martinho em foto de eric garault

Como surgiu esse projeto de O Pequeno Burguês?
Fui convidado a fazer uma série de shows no FECAP, em São Paulo, que é um teatro mais íntimo, pequeno. Quis fazer um show diferente e pensei em uma espécie de conversa musicada, uma história musicada em que falo da minha carreira e da minha música. Cito uma música que faz parte da minha vida e canto essa música. E assim por diante. Além do especial no Canal Brasil este show também está saindo em cd e dvd. É isso.

Foi você que escreveu o roteiro do show? O que pretendeu contar nele?
Fui eu sim que escrevi. Olha, quis dar uma panorâmica da minha carreira e da minha vida. Quer dizer, é autobiográfico. Mas como tenho muitos anos de carreira e vida dividi tudo em blocos para se ter uma idéia geral. Tem um pouco do começo lá no Festival da Record [em 1967, quando lançou a música “Menina Moça”], depois tem algumas histórias minhas nas escolas de samba, um pouco da carreira mais recente, de alguns sucessos, e vai por aí.

Mas tinha alguma coisa que você achava importante contar para seus fãs e que, talvez, eles não soubessem?
Exato. Queria explicar de que jeito nasceram algumas músicas como as que falam da vila isabel. Então conto histórias do bairro, dos desfiles da escola de samba, e as pessoas vão entendendo melhor a história. Não sinto necessidade de passar mais nada [sobre minha vida pessoal], mas ainda existe muita gente que não me conhece bem. Tenho uma carreira longa, mas também possuo fãs mais jovens com muita curiosidade sobre minha história. Esse especial é quase um talk show, sabe? Não tem nada parecido no Brasil.

Existe alguma diferença entre fãs seus antigos e novos?
Não, parece que todo mundo é igual. É engraçado isso. A maioria dos artistas trabalha em setores mais definidos com um público mais definido. Não eu. Estou em todas as faixas etárias e classes sociais. Não sou um sambista que canta para sambistas porque meu repertório é muito variado. Por isso fui criando um público diversificado. Também faço o mesmo show, independente do lugar, tanto faz ser em uma casa de shows mais privilegiada ou numa quadra de escola de samba. E dá sempre certo.

O título do especial é o mesmo de um de seus primeiros sucessos. Teve alguma razão específica para essa escolha?
É, foi um de meus primeiros grandes sucessos, lá em 1969. Mas tem outra coisa. 'Pequeno burguês' é todo mundo que conseguiu sair da base da sociedade e emergiu. Sou também um símbolo disso, sou pequeno burguês [risos]. É uma música que tem a ver com tudo isso, o começo da minha carreira musical e a minha condição social.

Você sempre manteve uma regularidade na carreira, mas a última década está sendo particularmente movimentada. confere?
É, todo ano um disco. Sempre tem uma coisa ou outra, mas alguns períodos são mais sossegados que outros. Às vezes gravo um disco e não faço shows, nem divulgo. Só lanço e pronto. Em outras ocasiões faço vários shows. É que como já tenho muito tempo de vida não posso ficar sempre na mesma batida. Uma hora estou na escola de samba, em outra escrevo livros ou dou palestras. Isso tudo é ótimo porque na minha profissão as coisas precisam, ou devem, ser feitas com vontade. Por exemplo, ainda essa semana vou a São Paulo para gravar um programa de TV e depois farei shows em Luanda, Angola. Tenho que fazer tudo isso com disposição, não dá para ser pela metade. Artista depende de muita energia. Por isso não posso correr muito [risos].

O que te motiva a continuar produzindo?
É uma idéia, um pensamento. Penso em fazer um disco sobre tal assunto, vou lá e faço. O público também me motiva porque quando um disco, ou um projeto, dá certo dá vontade de fazer outro. É uma troca de energia.

Como está o samba nesse início do século 21?
Nossa, precisariam páginas e páginas para falar sobre isso [risos]. Difícil definir isso numa frase. Mas o samba está bem, sempre esteve bem. Às vezes está mais na moda, em outras menos, mas nunca ficou de fora. Em geral está em primeiro lugar porque todos os grandes artistas acabam cantando sambas. É isso, o samba taí!

segue abaixo um trecho do show com martinho mandando ver em "pra que dinheiro" e na sempre atual "o pequeno burguês".

terça-feira, 10 de novembro de 2009

letra/música #4

um dos melhores títulos de disco da história da música brasileira: cadáver pega fogo durante o velório (independente, 1983). foi isso que pensei quando li, na extinta bizz, um texto sobre esse disco raro e pouco lembrado de uma turma da ponte rio-niterói. disco de samba devedor, ao mesmo tempo, de nelson rodrigues, nelson cavaquinho e stanislaw ponte preta, cadáver trouxe uma série de canções assinadas por fernando pellon, que mais tarde se formaria em geologia e entraria para o corpo de funcionários da petrobras, e participações de cristina buarque, nadinho da ilha, paulinho lemos e synval silva. entre as nove faixas do disco, tenho um carinho especial pela romântica e neurótica "cicatrizes", cantada pela voz pequena de pellon.

cicatrizes
(fernando pellon)

em linhas gerais tens os traços iguais aos dela
coisas triviais, encantos banais,
tão iguais aos que ela traz
e pra meu desgosto
estampas no rosto
um sorriso similar
que me faz te odiar
e de ti precisar por causa dela.

amor de verdade, não tem jeito, tem que ser perfeito
a viver na mentira, prefiro a saudade
queimando no peito
mas as cicatrizes
que só a marcha do tempo revela
agora eis-me aqui com você
por causa dela.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

letra/música #3

ederaldo gentil é baiano da turma de batatinha e riachão. também é autor de um dos sambas mais belos e tristes de todos os tempos, "o ouro e a madeira", mas vou colocar aqui uma outra composição sua que conheci faz pouco tempo. foi no som barato que me deparei com identidade (nosso som gravações e produções, 1983), um de seus raros discos, e sua maviosa faixa-título. crítica social e melancolia em doses cortantes.

identidade
(ederaldo gentil)

05342635 é o meu número, meu nome
minha identidade
mínimo salário é meu ordenado
12 horas de trabalho, que felicidade
que felicidade

acordo sem dormir
faço pelo sinal
ouço o radinho de pilha
pra saber do horário
preparo quase nada
e levo na marmita
vou dependurado e os sinais fechando
chego atrasado, é cortado o dia
são tanto os descontos
que nem mesmo sei
me falam de vantagens que eu jamais ganhei

é o inps, fgts
irss, o seguro e o pis
com 30 de trabalho
estou aposentado
e com mais de 70
eu penso em ser feliz

Ederaldo Gentil - Identidade by dafnesampaio

atualização: ederaldo gentil morreu em 30 de março de 2012, uma sexta-feira. tinha 68 anos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

letra/música #2

já faz um tempinho que saiu o ótimo o retrato do artista quando pede (desmonta, 2009), disco de estreia do duo moviola, e ele segue impávido colosso entre os melhores do ano. projeto criado por kiko dinucci e doulas germano, o duo veio com um disco onde o samba é ponto de partida e base para tudo, mas está longe de ser uma camisa de força. muito pelo contrário. vocais, violões e percussões são entortados pelas melodias com bom humor, poesia e um sofisticado sentimento popular. a faixa-título, e a última do disco, dá medida exata da pegada da dupla. é marchinha debochada que joga luz sob as armadilhas da produção cultural em são paulo (e trocando uma instituição aqui e outra ali, de todo o país).

o retrato do artista quando pede
(kiko dinucci e douglas germano)

pra sobreviver de arte em são paulo
tenta o sesc, tenta o sesc
mas se o programador não for com a tua cara
esquece, esquece

pra sobreviver de arte em são paulo
tenta o pac, tenta o pac
mas se acaso, no projeto, faltar cep
se estrepe, se estrepe

você gasta o que não tem no xerocão
e a tiazinha sempre diz que está faltando
um carimbinho de uma data esquecida,
assinatura com firma reconhecida

pra sobreviver de arte em são paulo
lei mendonça, lei mendonça
mas se não tiver contra-partida social
babáu, a água bebe a onça

pra sobreviver de arte em são paulo
vai e tenta a rouanet
mas se o empresário fala em custo/benefício
manda ele se pentear


terça-feira, 29 de setembro de 2009

everybody macacada



mais um video genial e musical dos trapalhões. o ano é 1986 e a música é "o patrão mandou", com participação de seu autor, paulinho soares (1944-2004). pouco lembrado, o sambista de carreira breve já foi cantando e tocado por gente como beth carvalho, noite ilustrada, milton banana, ivon cury, lafayette, trio ternura, doris monteiro, trio esperança, entre outros. dica de @aomirante.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

roberta sá ao vivo e a cores

encontrei pela primeira vez com a cantora roberta sá no final de 2006 para uma reportagem pra tam magazine que saiu em dezembro do mesmo ano (ela estava entre o primeiro e o segundo disco). depois a entrevistei por telefone pra monet, logo após o lançamento do segundo. muito simpática e acessível, a cantora está agora lançando seu terceiro trabalho, e o primeiro dvd ao vivo, pra se ter alegria (mp,b/universal, 2009). gosto bastante dos discos de estúdio e roberta certamente é uma das boas cantoras brasileiras do momento, mas algo me incomodou neste ao vivo (que tem participações de marcelo d2, hamilton de holanda e do maridão pedro luís). ela parece cercada de uma aura de diva, cheia de caras, bocas e gestos, a voz muito impostada. falarei com mais calma, e após assistir novamente o dvd, no gafieiras. no site, aliás, falamos do primeiro (braseiro, 2005) e do segundo disco (que belo estranho dia pra se ter alegria, 2007). detalhe: o show pra se ter alegria será exibido pelo canal brasil (que é parceiro do projeto) em novembro. segue então meu texto de 2006.


AS MUITAS CORES DE ROBERTA SÁ

É samba o que toca no fim do corredor de uma loja colorida e feminina nos Jardins, em São Paulo. Roberta Sá está em casa, quadruplamente em casa. Feminina, colorida, apaixonada por sambas de todas as idades e irmã da dona da tal loja, a cantora que nasceu em Natal (RN) e se mudou aos 9 anos para o Rio de Janeiro é também a dona da voz que sai das caixas de som. A reportagem a pegou em meio ao delicado processo de escolher roupas para as fotos e para o show que faz na mesma noite cumprindo uma movimentada agenda até o fim do ano, época em que pretende dar uma pausa e iniciar a produção de seu aguardado segundo disco.

“Acho que você tem quer fazer um disco quando está com vontade. É uma história nova, não uma obrigação, e só agora é que está começando a pintar novamente essa vontade. Minha vida ficou muito intensa depois que lancei o primeiro disco e agora, depois de tudo que eu ouvi, cantei e li nestes dois anos, é que estou com novas histórias para contar”, explicou sobre o disco que deseja lançar em 2007. Revelada para o grande público há cerca de três anos quando, após uma breve passagem pelo programa Fama (TV Globo), emplacou sua interpretação de “Vizinha do lado” de Dorival Caymmi na trilha sonora da novela Celebridade (TV Globo), Roberta Sá aproveitou o embalo e lançou seu disco de estréia, o elogiado Braseiro (MP,B/Universal), no início de 2005. Além de Caymmi, o disco trouxe uma intérprete segura em canções de autores como Chico Buarque, Marcelo Camelo, Paulinho da Viola, Janet de Almeida, Pedro Luís, Teresa Cristina, Lula Queiroga e Paulo César Pinheiro, entre outros.

“Estou com mais controle da minha voz e da minha emoção no palco. Ficava muito emocionada, mas não acho que fosse ruim, mas é preciso certo autocontrole para canalizar no que as canções pedem”, revelou enquanto se acomodava entre as inúmeras almofadas coloridas de um sofá rústico de madeira. A emoção que Roberta Sá canta atende pelo nome de samba, mas não pára por aí. “Tudo me interessa em questão de música brasileira. Sou apaixonada por todos os ritmos, um tanto porque sou de Natal e lá convivi com a cultura nordestina desde criança, mas em casa também se ouvia de tudo, de Tom Jobim a Geraldo Azevedo, de Ney Matogrosso a MPB-4. Depois que fui para o Rio tive contato também com a música pop, tipo Lulu Santos e Paralamas”, e sorri ao relembrar da mudança que a deixou mais esperta, segundo ela própria.

Foi esta esperteza que não a deixou deslumbrada quando se viu em um programa de TV ou na trilha de uma novela das oito de sucesso. “Fiz essas coisas porque aconteceram na minha vida. O foco não é ficar famosa e sim fazer um trabalho consistente, por isso não tem problema fazer um programa de TV ou participar de um festival [a cantora defendeu “Girando a renda” de Pedro Luís, em dueto com o próprio, e pegou o terceiro lugar no Festival da TV Cultura no final de 2005], porque tudo soma. Eu não penso muito, não sei se é um defeito, mas estou experimentando as coisas e acho que nada é mais enriquecedor que isso”, disse sob a vista de dois coqueiros de acrílico roxo, suspensos na parede.

Todas as cores penduradas nas araras da loja davam uma sensação de que qualquer combinação poderia ser possível. Alegre, triste, novo ou velho, tanto faz. “Sou uma cantora de música popular brasileira como tantas outras. Tento fazer uma música brasileira contemporânea, mas olhando pras coisas maravilhosas que já foram feitas, porque são a minha referência, são o que sou”, assina embaixo como em uma carta de intenções, mas também não admite saudosismo. “Não se faz mais música como antigamente, porque hoje não é antigamente! E antigamente também não se fazia música como mais antigamente ainda. Escuto muita coisa boa hoje em dia. Músicas, cantoras, uma nova geração... acho que estamos vivendo um momento muito especial da música brasileira”, retruca e se coloca. O tempo da entrevista vai escoando e o fotógrafo ansioso para entrar em cena. Os vestidos, os coqueiros de acrílico, as almofadas e todas as cores da loja-cenário também. “O que mais gosto na vida é ouvir e escolher canções para fazer uma música atual, mas respeitando a música brasileira de sempre”, disse e sua voz nunca pareceu tanto quanto a que saía das caixas de som daquela loja feminina e colorida.

pra encerrar, um dueto de roberta sá com o português antônio zambujo no belo e moderno fado "eu já não sei". essa música, numa outra gravação mas também com a presença de zambujo, está presente nos extras do dvd de roberta. são encontros em estúdio e no mesmo ambiente, a cantora duela com chico buarque ("mambembe"), ney matogrosso ("peito vazio"), trio madeira brasil e yamandú costa.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

transversão #19

bezerra da silva (1927-2005) é um cara genial, figuraça e repleto de sambas clássicos, mas ele definitivamente não tá naquele rol de artistas que você (no caso, eu) pensa: "porra, vontade de ouvir fulano". no entanto isso tem um lado bom porque de repente surge uma nova pedrada do malandro. lembro que o bróder fernando comprou lá pelos meados da década de 1990 o disco solo do humberto effe, o vocalista de uma das melhores bandas desse país, o picassos falsos. humberto effe (virgin, 1995) trouxe com duas regravações tunadas de músicas pouco conhecidas (pelo menos pra mim) do repertório bezerrístico: "quem usa antena é televisão" (pingo e celsinho da barra funda) e "o preto e o branco" (zezinho do valle, j. laureano e carlinhos russo).

escolhi "o preto e o branco" pra esse transversão porque a letra é divertidíssima e fala de drogas, assunto dos mais necessários (falando aqui em nome da legalização, claro esteja). a versão do bezerra está no disco eu não sou santo (bmg-ariola, 1990), o mesmo de "quando o morcego doar sangue", "cachorrinho de polícia", "se não avisar o bicho pega"e "passa o rodo nele".



Humberto Effe - O Preto E O Branco by dafnesampaio