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sábado, 25 de fevereiro de 2012

35 minutos de história

foi em 2005 que a universal finalmente lançou phono 73 (em dois cds e um dvd), o célebre show que a então gravadora polygram promoveu em são paulo, entre 11 e 13 de maio de 1973, com os artistas de seu casting. se você ainda não viu os 35 minutos de filmagens que sobraram daquelas noites separe um tempinho em sua vida atribulada e divirta-se com grandes encontros, loucuras mil e um pouco do melhor da música brasileira (de então e de sempre).


quase impossível conceber uma gravadora (que mais tarde se transformaria na philips e depois em universal) com um elenco absurdamente excelente como esse. e dá-lhe ronnie von, hermeto pascoal, nara leão, mpb-4, odair josé, jair rodrigues, wilson simonal, maria bethânia, gal costa, dominguinhos, toquinho, vinicius de moraes, caetano veloso (pirando progressivamente em "a volta da asa branca", afinal o baiano estava em sua fase araçá azul), jorge ben (suingando loucamente ainda no violão e também com gilberto gil em "jazz potatoes", por exemplo), raul seixas (em performance endiabrada), elis regina (toda em ritmo de tango), sérgio sampaio (sensualizando "eu quero é botar meu bloco na rua"), chico buarque e gilberto gil (que fazem a mais radical versão de "cálice", com direito a microfone de chico cortado pela censura dos milicos, a letra trocada, o escambau).

sábado, 26 de novembro de 2011

yahoo #19

upalelê, novembro puxado esse, viu? postei muito pouca coisa aqui no esforçado, mas foi por um bom motivo (muito trabalho) e o yahoo foi um deles. essa semana subiu por lá o "custe o que custar, uma ova!", meu vigésimo texto para a coluna ultrapop e um dos que mais gostei de fazer. a repercussão foi ótima, até surpreendente porque muita gente elogiou e se identificou com a decepção frente ao "humorismo-político" do cqc. muito diferente desse "pra cima, com raiva", sobre a desocupação da usp e a presença de policiais no campus, que também teve boa repercussão, mas com o pessoal me odiando e coisa e tal.


PRA CIMA, COM RAIVA

Pois é, acabou na segunda a ocupação dos estudantes na reitoria da USP com direito a algumas centenas de soldados da tropa de choque da PM fortemente armados (e sem identificação). Nesses novos tempos bicudos, no qual até um ex-presidente diagnosticado com câncer é alvo de desejos de morte e “campanhas” idiotas para vê-lo se tratar no SUS, esses estudantes foram xingados de tudo quanto é nome pelos comentaristas anônimos e raivosos de plantão.

Filhinhos de papai, playboys, vagabundos, baderneiros, maconheiros e o diabo a quatro. E quando um deles foi fotografado com um casaco da GAP então? Até um pessoal mais esclarecidinho saiu jogando pedra. Ninguém pensou que o casaco poderia ser falsificado? Ninguém pensou que um mero casaco não tem relação alguma com o que está sendo questionado? Em tempos assim, pensar realmente é exigir demais.

Quase toda minha vida escolar passou pelos corredores de escolas públicas e foi assim que entrei na USP, em 1994, no curso de Ciências Sociais. Lembro que boa parte de meus contemporâneos era parecido comigo: ou vinham de escolas públicas ou de outras cidades, ou os dois.

Sempre fui avesso a políticas estudantis. Sentia uma preguiça gigantesca dos papos furados politizados e vazios de sempre, da distância entre as necessidades e problemas diários da universidade e as bandeiras levantadas (abaixo o imperialismo? Por favor). O mais próximo que cheguei do Centro Acadêmico foi na participação de um divertido e farsesco roubo da urna de uma das votações: a ideia porra louca era criticar a ausência de representatividade do processo (íamos fazer um vídeo com a urna amarrada numa cama pedindo que nossas exigências fossem atendidas. Detalhe: não tínhamos exigências). Como era de se esperar deu o maior chabu. Foi sensacional. Era um jeito diferente de fazer política.



Então me formei e de vez em quando ficava sabendo de alguma coisa na faculdade. Tudo meio parado, ninguém se mexia pra nada. Anos e anos de reitores capatazes de um governo do Estado sem interesse por educação resultam nisso mesmo: apatia (estou falando aqui de São Paulo, mas essa história se repete de outras formas em outros Estados).

Quando aconteceu esse recente confronto entre a Polícia Militar e os estudantes achei interessante. Primeiro porque acho que passou da hora de receber paulada de policiais numa boa. Porque só eles podem bater? Segundo porque foi um sinal de movimentação e raiva, e isso é bom, é transformador.

Bem, a questão do policiamento no campus deveria ser pensada pelo Estado em conjunto com estudantes, professores e funcionários. Mas é pedir muito de um reitor autoritário, e com uma extensa folha corrida de barbaridades, como João Grandino Rodas (saiba mais sobre o figura aqui). No entanto não dá para ficar do lado dos estudantes que desejam a total exclusão de policiamento. O campus é público, faz parte da cidade. Agora, o que não pode é a polícia fazer o maior fuzuê por causa de três usuários de maconha e seguir completamente ausente para os casos de estupros, roubos e assassinatos nesse mesmo campus.

Nessas horas é preciso ser inteligente e não cair em armadilhas como a ocupação besta da reitoria. Claro que a justiça iria pedir “reintegração de posse” e que junto disso viriam os policiais e a imprensa sedenta por imagens de impacto desses baderneiros “recebendo o que merecem”. Prato feito para deixar parte da opinião pública de olhos e ouvidos fechados para qualquer discussão. É necessário pensar uma outra forma de confrontar politicamente o sistema e acredito que o Wikileaks, a Primavera Árabe e os movimentos decorrentes do Occupy Wall Street possam nos dar pistas do que fazer no futuro (vale ler o discurso do filósofo Slavoj Zizek, “A tinta vermelha”, feito um mês atrás em Nova York).

Porque você aí ignorante que defende que a polícia bata em estudantes, você pode muito bem ser o próximo. Afinal, a mal treinada e gloriosa Polícia Militar do Estado de São Paulo bate em professores, estudantes, grevistas das mais diversas profissões, e dispersa manifestações pacíficas com bombas e balas de borrachas. Não é esse mundo que eu quero. Não mesmo.



p.s.: aproveito para recomendar outros textos escritos recentemente no calor do momento. São eles “Geração mascarada”, de Marcelo Rubens Paiva, “O choque na USP e a militarização de São Paulo”, de André Forastieri, e “A cortina de fumaça da segurança na USP”, de Pablo Ortellado.