terça-feira, 11 de outubro de 2011

vermelho é a cor

ano interessantíssimo esse 2011 com revoltas democráticas pelo mundo árabe, o quebra-quebra de londres e agora essa ocupação em várias cidades dos estados unidos (mais informações no site oficial do occupy wall street), sem falar nas nossas marchas da maconha, da liberdade e tantas outras ocupações de espaços públicos (esse é o segredo, essa é a chave). na segunda, dia 10 de outubro, o filósofo esloveno slavoj zizek esteve na liberty plaza, em nova york, condensou algumas de suas mais conhecidas teorias recentes e disparou um discurso muito bom sobre o presente, o futuro e o estado das coisas. a tradução abaixo é de rogério bettoni, feita para o blog da boitempo editorial. também é possível ver o homem em ação no meio da galera em inúmeros videos espalhados pelo youtube (por exemplo nessa trilogia aqui parte 1, parte 2 e parte 3).


A TINTA VERMELHA
por Slavoj Zizek


Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.


Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.


Dirão que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à ocupação e assim por diante. Sim, somos violentos, mas somente no mesmo sentido em que Mahatma Gandhi foi violento. Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas andam – mas o que significa essa violência puramente simbólica quando comparada à violência necessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalista global?


Seremos chamados de perdedores – mas os verdadeiros perdedores não estariam lá em Wall Street, os que se safaram com a ajuda de centenas de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas nos Estados Unidos já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não respeitam a propriedade privada, mas as especulações de Wall Street que levaram à queda de 2008 foram mais responsáveis pela extinção de propriedades privadas obtidas a duras penas do que se estivéssemos destruindo-as agora, dia e noite – pense nas centenas de casas hipotecadas…


Nós não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que merecidamente entrou em colapso em 1990 – e lembrem-se de que os comunistas que ainda detêm o poder atualmente governam o mais implacável dos capitalismos (na China). O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo comunismo é um sinal abominável de que o casamento entre o capitalismo e a democracia está próximo do divórcio. Nós somos comunistas em um sentido apenas: nós nos importamos com os bens comuns – os da natureza, do conhecimento – que estão ameaçados pelo sistema.


Eles dirão que vocês estão sonhando, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar sendo o que são por um tempo indefinido, assim como ocorre com as mudanças cosméticas. Nós não estamos sonhando; nós acordamos de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estamos destruindo nada; somos apenas testemunhas de como o sistema está gradualmente destruindo a si próprio. Todos nós conhecemos a cena clássica dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. O que estamos fazendo é simplesmente levar os que estão no poder a olhar para baixo…


Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível? Quem sabe não podemos ter mais solidariedade e assistência médica, já que não somos imortais?


Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo.

Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha.
dica para trilha sonora: "put some red on it", música nova de spoek mathambo em versão remixada pelo shabazz palaces.
Spoek Mathambo - Put Some Red On It (Shabazz Palaces Remix) by Voler

20 comentários:

Lisir Eva disse...

Como assim? Ninguém que foi redirecionado do texto no Yahoo comentou aqui ainda?

Eis o resumo dos tempos modernos: ninguém quer entender, o que interessa é comentar no facebook.

Anônimo disse...

Vc chegou longe de mais...

Anônimo disse...

Ótimo texto!

Anônimo disse...

Acho que o povo não está politizado o bastante para assumir que as mudanças precisam acontecer e que não vêm só poque falamos mal dos governantes. É mais fácil ser alienado e fingir que não entendemos, né...Já estamos 'quase' 'no ponto' para uma nova ditadura militar. Sabe aquela velha receita de COMO SE COZINHA UMA RÃ? Pois é,estamos dentro da panela com água quente a muito tempo...já ficamos lânguidos e sonolentos para perceber o controle social, o que acontece na polotica mundial...

THIAGO BARCELLOS disse...

Muito bom o texto. Gostei muito. As pessoas estão muito acomodadas com o mundo do jeito que ele está. Ninguem para pra imaginar como será daqui a 10, 20 ou 30 anos, quando olharemos para trás e pensaremos "Como é que eu não vi que isso ia acontecer?"

JUNIOR SCOBAR disse...
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JUNIOR SCOBAR disse...

Acredito que diante da nossa "liberdade" de escolher o que QUEREMOS muitas vezes isso nos torna crianças que SABEM das consequências disso ou daquilo, mas ao apenas sentir o que essas escolhas podem produzir escolhem os extremos para presenciar e "palpar" o sentido disso ou daquilo por consequência, porém, no final da "arte" cadê o papai ou a mamãe para repreender ou agradar?
Gosto da sua tinta azul, da sua intensidade na busca da tinta vermelha, mas existe um grande palco onde o primeiro ato já findou e na próxima abertura das cortinas descobriremos que a comédia tornou-se um drama onde o mocinho morre e no entrelaçar das "teias" de intenções tudo já era esperado e foi friamente calculado.

Lucas Duque disse...

É verdade, Eva!
Não devem nem se dar ao trabalho de ler textos mais reflexivos. Como o Yahoo! é um espaço mais visto, preferem somente copiar asneiras ao invés de abrir o debate para discussões mais sólidas.

Mauro Sérgio "Boêmio Incorrigível" disse...

Normalmente evito opinar política por achar que muitos ainda falam sem saber em que situação nos encontramos. Coisa que eu não encontrei nesse texto. Esse texto evoca e também chama a atenção à lavagem cerebral contínua que sofremos e nos deixamos sofrer. Se eu fosse escrever tudo que estou pensando nesse momento, seria um outro texto, similar, mas não tão imponente quanto este!

joão disse...

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Bom ver mentes lúcidas em alguns pontos do planeta... que manifestam pensamentos de forma clara e precisa... para uns.
A massa não lê... quem dera soubesse... o vulgo interpreta ao seu modo... comum... raso... cotidiano.
O mundo segue o seu destino... conduzido pelos Senhores do Poder - que ditam as regras e suprimem os pensadores e os fazedores das revoluções.
Mestres vem e deixam - tão somente - mensagem e exemplo, sementes de Verdade para a liberdade... pessoal.
Certamente alguns entenderam a mensagem, outros sequer a piada, afinal este é o mundo dos homens.
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Led disse...

bom texto... pensamos no fim do mundo mas não imaginamos o fim do capitalismo ... boa

Deivid Machado Gomes disse...

Trabalhemos por nossa liberdade pessoal (conhecimento transmutado em sabedoria), doando sempre que possível, tempo e energia a nossos irmãos, para que despertem e se aprimorem na mesma jornada.

Anônimo disse...

Gostei muito do texto! É bom conhecer a opinião de outras pessoas, assim podemos somar à nossa própria e reformular alguns conceitos. Valeu a pena ler.

Bugre disse...

"Não culpe o povo e suas atitudes." Muito bom!

walrus disse...

Ótimo e esclarecedor.
Porém, vejo grande distância entre o "Ocupe Wall Street", a "Primavera Árabe" em relação aos protestos na USP.
As motivações?
'Visão' e 'Vício' são termos diferentes.
Se os ocupantes em Wall Street usarem drogas isso não condenaria suas ações. No entanto, ser impelido ao protesto APENAS quando um vício é atacado?
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Usando termos do texto:
Protestar pelas drogas não é usar "tinta vermelha".
Isso é "mistificar nossa percepção da situação".
Não há ideologia nos protestos daqui, apenas revolta "terceirizada".
Temos que criar moral para protestar, senão ficaremos apenas "sonhando".
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Eu já sai na rua para pendurar uma faixa contra o voto obrigatório. E hoje não vejo muita diferença entre quem ignora nossas mensagens e quem se diz "consciente" e "engajado". Pelo menos aqui no Brasil, a visão do que importa não parece muito coerente.
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É muita pretensão colocar "Ocupe Wall Street" e a "Primavera Árabe" ao lado da "USP sem PM pelas drogas".

dafne sampaio disse...

muito obrigado a todos que vieram por aqui via yahoo e comentaram. ótimos comentários, aliás... sempre procuro lá no yahoo colocar discussões atuais, refletir, procurar ver os muitos lados das coisas... pena que o espírito da manada raivosa prevaleça por lá...

dafne sampaio disse...

caro walrus, obviamente o Occupy e a Primavera Árabe são movimentos mais complexos e maiores... a minha ideia nunca foi compará-los em pé de igualdade com essa questão da USP. ao mesmo tempo é muito reducionista achar que o que aconteceu na USP é só porque o pessoal quer fumar um baseado em paz. não é só isso, procure se informar. existe crítica ao status quo, a violencia policial, a demagogia proibicionista. existe uma retomada da rua como espaço de manifestação política. e existe ideologia sim.

walrus disse...

Terei que manter a ênfase no gatilho. Se, e somente se, o estopim tiver sido a proibição às drogas. Assim sendo, terá a ideologia, afinal, reduzida a nada.
Caso contrário, a ideologia é preservada.
Essa é a minha divergência. O gatilho, a força motriz.
Pois, quando não há mal em usar drogas, o há em usá-las como desculpa, reduzindo o movimento a uma simples revolta. Esse é o ponto, independente do que mais tiverem a oferecer.
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No mais, eu apóio qualquer movimento popular que vise melhorias sociais e políticas.
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Atentando para os fundamentos, a base, a raiz, senão não gerará frutos bons.
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Mantenho a mente aberta, por isso não posso escolher lados.
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Parabéns pelo texto e as críticas. Mudanças virão mundo afora - isso não tem mais volta -, e também aqui, em nosso país.
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Divergências são inevitáveis mesmo em ideais com o mesmo fim.

dafne sampaio disse...

tranquilidade walrus. vc fica com o estopim. eu sempre tento pensar além do gatilho, defeito de formação talvez. obrigado pelo elogio e pela divergência, assim é legal conversar.

no mais, espero que as pessoas que comentaram (ou que só passaram) aqui nesse post voltem com frequência, a casa tem assuntos de muitas qualidades, rsrsrsrs.

Edu Rifi disse...

A a palavra tem um poder imensurável, mas acredito que precisamos de atitudes nesse momento que passamos.
Os jovens não são mais revolucionários tão pouco sabem ou conseguem definir o que é uma revolução.
Estamos a beira do colapso, mas a queda é longa, pois o abismo em que nos encontramos é muito íngreme para querermos voltar tudo de novo, deixar tudo como está e ver no que vai dar é mais cômodo.
Homem primata, capitalismo selvagem.