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quinta-feira, 15 de março de 2012

yahoo #32

muitas coisas ao mesmo tempo, só digo isso. domingo passado, por exemplo, fui acompanhar (de longe, queimando no mormaço) o príncipe harry numa partida de polo em um haras de bacanas no interior de são paulo. desse evento saíram um tanto de fotos e dois textos ("que horas o príncipe chega, heim?" e "ih, o príncipe chegou, jogou e partiu"), tudo pro yahoo. ah, um desses textos acabou se tornando a coluna dessa semana, mas colocarei os dois juntos quando publicá-los (logo logo) aqui no esforçado. mas voltando um pouco no tempo segue aqui "pancadaria made in brazil", que tratou das possibilidades de um cinema de ação brasileiro a partir da chegada de luta de rua. agradecimentos a bruno soraggi, autor da matéria que me chamou atenção sobre a websérie e que também me passou o contato do ulysses paiva, produtor e roteirista de luta, e ao ulysses, claro. 

kung fu contra as bonecas, podiscrê

PANCADARIA MADE IN BRAZIL

Filme de gênero sempre foi coisa rara no Brasil, talvez por uma mistura de desinteresse, poucos espaços e uma falta de visão mais segmentada do mercado, além do fato óbvio que não temos uma indústria que produza em quantidade para os mais diversos gêneros e mercados. Aí dependíamos de iniciativas solitárias de malucos como José Mojica Marins e seu terror tropicalista protagonizado por Zé do Caixão e Afonso Brazza, o Rambo do Cerrado, e seus vídeos de ação. Mais recentemente, com a rápida disseminação das câmeras digitais e a internet como importante meio de exibição, a produção barateou e mais gente pode colocar a câmera e as ideias para rodar.

Não por coincidência quem mais se beneficiou desse novo estado das coisas foram os filmes de terror e seus fãs, sempre organizados, atuantes e colaborativos. Surgiram assim os perturbantes curtas de Dennison Ramalho (Amor Só de Mãe e Ninjas), os zumbis e monstros capixabas de Rodrigo Aragão (Mangue Negro e A Noite do Chupacabras) e os mortos-vivos paulistanos de Raphael Borghi (do vindouro curta Desalmados – O Vírus). E nessas ficava me perguntando sobre uma das minhas preferências cinematográficas... e os filmes de ação? Onde estão os filmes de ação?

No decorrer dos anos 2000 alguns filmes brasileiros de sucesso (Cidade de Deus e Tropa de Elite 1 e 2) mostraram que já temos expertise para poderosas sequências de ação. Houve também uma interessante, mas comercialmente fracassada, tentativa de inserir a capoeira no imaginário do gênero (Besouro). Porém, só no início desse ano foi lançado 2 Coelhos, o mais ousado e bem produzido longa brasileiro de ação até então. Mas não tem jeito, aprendizado é isso, acúmulo de experiências e feitos. Fiquei então animadão quando li uma reportagem no site da Vice (“Bater e correr em Recife”) sobre a websérie Luta de Rua.


Muito bem coreografado pelos dublês e atores de ação da Pinóia Filmes, com boa filmagem e edição, Luta de Rua tem chances de crescer nos próximos episódios (já existe o trailer do segundo) mostrando, na raça mesmo, que já temos algumas cartas boas nas mãos. E não adianta criticar os “atores”, o “texto” ou o “roteiro” porque o negócio aqui é fazer ação do melhor jeito possível e à moda da casa ("É o que temos!", diria Paulo de Oliveira, do programa Larica Total). No mais, o responsável por toda essa pancadaria-coisa-nossa é o roteirista e produtor Ulysses Paiva, um carioca radicado em Recife, formado em Publicidade e com experiências efeitos visuais e animações 2D e 3D.

“Percebo que, ou importamos muita coisa de fora na tentativa de ‘copiar’ alguns elementos que deram certo, descaracterizando completamente a produção como sendo brasileira, passando a parecer uma cópia mal feita de algum filme estrangeiro de sucesso; ou simplesmente priorizamos demais algo tipicamente brasileiro e acabamos esquecendo que nem tudo da nossa cultura é interessante o suficiente ou entretenimento suficiente para que o público possa apreciar plenamente. Eu acho que temos, sim, como fazer algo dentro da nossa realidade e do nosso cotidiano sem perder o foco na qualidade e entretenimento de todos que assistam a produções brasileiras, inclusive no gênero de ação”, disse em entrevista ao Yahoo! Brasil.

Falta dinheiro, claro, e Paiva esclarece que “no gênero de ação você precisa, inevitavelmente, de grandes auxílios visuais como cenas de luta ou perseguição em ambientes controlados, grande aparato de segurança, uma boa equipe de efeitos especiais e visuais, entre outros. E isso demanda pessoas especializadas e muito talentosas para se chegar a um bom resultado, além dos custos serem maiores por conta disso. O Brasil nunca teve grandes escolas ou centros de ensino para efeitos visuais. Isso também tem mudado nos últimos anos”.

Um dia a gente aprende e enquanto isso não acontece, ou acontece parcialmente, a gente vai tentando, arriscando, experimentando, dando com a cara no muro. Indo à luta.


e aqui seguem outros trechos da conversa que tive por email com ulysses paiva e que não entraram nessa edição da coluna.

"O Brasil não tem uma história de décadas produzindo grandes filmes com orçamentos altíssimos e desenvolvimento de novas tecnologias e técnicas nessa área. Um dos principais motivos, acredito, seja a falta de patrocínio e incentivo para as produções como ocorre em outros países. Mas isso tem mudado nos últimos anos com a melhora do cenário econômico brasileiro. O Brasil tem produzido muitos filmes recentemente e o brasileiro tem, cada vez mais, prestigiado as produções nacionais." 

"Se, por exemplo, você vai fazer um filme de drama, você geralmente não precisa de grandes artifícios visuais. Você precisa de uma boa história, um bom roteiro com bons diálogos e excelentes interpretações. Já no gênero de ação, você precisa, inevitavelmente, de grandes auxílios visuais como cenas de luta ou perseguição em ambientes controlados, grande aparato de segurança, uma boa equipe de efeitos especiais e visuais, entre outros. E isso demanda pessoas especializadas e muito talentosas para se chegar a um bom resultado, além dos custos serem maiores por conta disso. O Brasil nunca teve grandes escolas ou centros de ensino para efeitos visuais. Isso também tem mudado nos últimos anos, mas o conhecimento nesse aspecto ainda é pouco difundido por aqui e são poucos profissionais realmente talentosos e capacitados para fazer esses trabalhos. Isso é refletido no mercado e nas produções. Filmes como 2 Coelhos, Tropa de Elite e Besouro são importantíssimos para abrir caminho e formar uma base para produções cada vez melhores nessa área."

"Trabalho com publicidade e sempre gostei muito de cinema. Comecei na minha área com design gráfico, depois passei muitos anos estudando animação 2D e efeitos visuais. Em seguida estudei animação 3D e daí passei para filmagens. Luta de Rua nasceu do gosto e da vontade de produzir cinema de ação. Nós produzimos um primeiro vídeo, há pouco mais de um ano, para vermos o que poderíamos fazer nesse sentido. Era um vídeo de teste e ainda não existia a ideia de se fazer um seriado. Alguns meses depois é que pensamos em fazer um seriado de luta independente e usar a internet como fonte de divulgação. Na etapa de pré-produção do primeiro episódio, nós não tínhamos a menor idéia se o projeto iria ou não dar certo, por isso o primeiro episódio se resume a, basicamente, uma cena de luta. Já o segundo episódio está bem mais elaborado com diálogos, cenas de luta e perseguição com parkour. Mas a idéia inicial era que, dando certo, nós faríamos o possível para que a gente pudesse continuar a fazer o que gostamos, ou seja, conseguir patrocínio para o projeto seguir em frente. A repercussão do primeiro episódio foi bem maior do que a gente esperava e o potencial publicitário do seriado tem se tornado melhor a cada dia. Atualmente, estamos em negociação com alguns prováveis patrocinadores já para o segundo episódio, que ainda não tem data definida para a estréia devido ao grande número de problemas de temos enfrentado para fazer as gravações. Tivemos até que substituir parte do elenco por conta disso, mas a expectativa é de estréia nas próximas semanas. Nós colocamos informações, fotos, vídeos e novidades na página do seriado no facebook e é lá que vamos divulgar, com antecedência, a estréia do novo episódio. E esperamos que o público do Luta de Rua possa cada vez mais se interessar, se envolver, gostar do projeto e ajudar a compartilhar e divulgar para que o projeto siga em frente."


atualização em 30 de março: e saiu o episódio 2 de luta de rua. chama-se "salitre". saca só.


segunda-feira, 22 de março de 2010

besouro X mirageman

ação não é pra gente e quando digo "a gente" me refiro a nós aqui abaixo da linha do equador, latinos e sulamericanos de sangue ou adoção. não temos maturidade técnica, industrial e de linguagem suficientes para fazer filmes populares de ação. taí um pensamento recorrente, uma daquelas "verdades incontornáveis", e filmar ação sempre foi nosso calcanhar de aquiles. pelo menos até os anos 2000. aqui no brasil, os longas cidade de deus (2002) e tropa de elite (2008), mesmo não sendo de ação propriamente ditos, trouxeram sequências poderosas e muito bem coreografadas, fotografadas, filmadas e editadas. mas nem sombra de um trabalho pensado exclusivamente para o gênero e que fosse tão bem produzido quanto cidade e tropa. então veio besouro (2009), uma aventura sobre a força da cultura negra, a mítica da capoeira e as lendas sobre um de seus fundadores, o muito real manuel henrique pereira (1895-1924). combinação explosiva de ação e brasilidade. olha aí o trailer do longa que acabou de chegar ao dvd.




após assistir à estreia de joão daniel tikhomiroff (experiente diretor de publicidade) é impossível não ficar com a sensação de que ainda não foi dessa vez, mas que um caminho próprio está sendo construído. cheio de boas soluções visuais, besouro é filme de sequências bonitas e bem construídas dentro de um todo capenga: buracos no roteiro, final que se anuncia algumas vezes antes de chegar anticlimático e protagonistas que não ajudam muito. o clima geral de fantasia acaba prejudicando um filme que seria melhor se fosse um pouco mais realista (pelo menos nas partes que não são de luta). voltando aos protagonistas, ailton carmo (besouro) e jéssica barbosa (dinorá) se esforçam, mas não conseguem conferir naturalidade aos personagens e nem a um texto que soa por vezes pomposo demais. o grande momento dos dois, e um dos melhores do filme, é a descoberta do amor que começa em forma de jogo lento de capoeira e que, aos poucos, transforma-se em carinho e tesão. mas fora isso não dá, não é o bastante.

as sequências de ação são muito bem filmadas, com coreografia do chinês hiuen chiu ku (kill bill e matrix), ágil trabalho de câmera do equatoriano enrique chediak e edição do brasileiro gustavo giani. o trabalho azeitado entre coreografia, câmera e edição são o segredo de uma eficiente sequência de ação e besouro se dá bem no trabalho (o que não lhe garante solidez, infelizmente). destaque para uma intensa luta entre besouro e o amigo-antagonista quero-quero que sai do chão e pula de galho em galho sob uma luz azulada de final de madrugada, começo de manhã. aliás, ainda é tempo de apresentar quero-quero, amigo de infância de besouro, eterno apaixonado por dinorá e eventual traidor de sua gente. é feito pelo bom anderson santos de jesus e é um dos poucos personagens melhor construídos na trama. não coincidentemente, os outros que se salvam também são os vilões interpretados por flávio rocha (coronel venâncio) e irandhir santos (noca de antônia, o capanga).

um ensinamento de besouro é que a capoeira fica muito bonita no cinema. tem balanço, flexibilidade, plasticidade e surpresas. claro que pra fazer um bom filme de ação brasileiro não é obrigatório que a luta seja capoeira, mas que é um belo jeito de se diferenciar isso é. pra finalizar, tikhomiroff fez uma ótima escolha ao chamar o trio rica amabis, tejo damasceno e pupillo pra assinar a trilha sonora. dão o toque exato de modernidade e tradição, numa roupagem contemporânea, e trazem ainda participações de nação zumbi, gilberto gil e naná vasconcelos (no canal do filme no youtube existem bons videos de making of). não consegui entender porque a trilha não foi lançada em cd. por isso coloco aqui "besouro", canção que o emicida lançou no começo desse ano, é parte do ep sua mina ouve meu rap também, e que também poderia facilmente fazer parte da trilha.

Emicida - Besouro by dafnesampaio


pouco depois de assistir besouro me deparei com um filme chileno chamado mirageman (2007) via indicação de @danielferraz. não sabia de sua existência e muito menos do diretor ernesto diáz espinosa (entrevista boa com o sujeito aqui). este é seu segundo longa. o primeiro foi kiltro (2006) e o terceiro é mandrill (2009). juntos formam uma espécie de trilogia chilena de ação urbana, contemporânea e realista. a história gira em torno de um sujeito solitário e orfão (maco gutierrez, interpretado por marko zaror). ele tem um irmão mais novo, adolescente, que enlouqueceu após presenciar o assassinato dos pais por bandidos. maco vai levando a vida morando em um subsolo, treinando artes marciais e trabalhando como segurança de uma boate mequetrefe. em um dia, meio que por acaso, vê um assalto a uma casa e decide agir. pega a máscara do primeiro meliante que derruba, sai porrando o resto e depois foge na escuridão. detalhe: a mocinha que salva é uma jornalista de tv que no jornal do dia seguinte emplaca uma matéria sobre o tal "justiceiro mascarado". ele se sente envaidecido por essa história de herói, um tanto curioso, meio com tesão pela jornalista e ainda vê seu irmão catatônico se interessar por algo após anos dentro de um quarto. então surge mirageman que enfrentará algumas missões durante o filme, com direito a algumas vitórias, derrotas humilhantes e doloridas e até a companhia de um desastrado pseudo-robin. saca só o trailer.



uma das coisas mais interessantes no roteiro muito bem costurado de mirageman é a seriedade com que trata o assunto, a ação, a trama, os personagens. não existe espaço para deboche ou histrionia. existe humor sim, ironia também, afinal é impossível não rir de uma pessoa que, no mundo real, usa uma fantasia extravagante e sai pela rua lutando contra criminosos. por exemplo, em sua primeira missão, o sujeito demora um bocado para tirar sua roupa de civil (a calça prende no sapato, etc.) e quando, após derrubar quatro marginais, volta para retomá-la a roupa foi roubada. então ele sai pelas ruas, mascarado, e tenta pegar um táxi. não consegue. acaba pegando carona com um caminhão de lixo e até ajuda a recolher uns sacos. no noticiário noturno - a tv/mídia sensacionalista e parcial tem papel importante no filme - uma matéria entrevista testemunhas dessa atabalhoada corrida do herói e dizem que seu uniforme é um tanto ridículo e efeminado. então a apresentadora manda um recado: "sr. justiceiro, se for continuar com o trabalho faça o uso de um uniforme que não faça os criminosos rirem". não tem comédia nenhuma nisso, mas tem humor, o que faz com que o longa não tenha aquela afetação militarista de hollywood. essa diferença no tom é um dos grandes achados do filme.




durante sua trajetória no filme, mirageman bate muito - é o próprio marko zaror, protagonista de todos os filmes de ernesto diáz espinosa, que faz as poderosas coreografias das lutas -, apanha bastante, é inúmeras vezes enganado (por exemplo, pela ardilosa jornalista & interesse amoroso). é o puro de princípios em meio a uma sujeira moral. assim são os heróis. e mirageman mostra mais uma vez que a vida de um herói não é nada fácil, ainda mais na vida real. com tudo isso junto, o filme chileno consegue ser entretenimento com subtexto da pesada, combinação rara no cinema popular brasileiro. fora a ótima trilha blaxploitation assinado por um tal de rocco.

de uma forma ou de outra, besouro e mirageman são prova que heróismo e ação não são exclusividade do "primeiro mundo". a gente é pobre, passa uns perrengues, precisa lidar com escroques de toda sorte e, talvez exatamente por isso, também quer sair por aí distribuindo sopapos, fazendo justiça, ou pelo menos se defendendo das injustiças. de um jeito nosso.

p.s.: mirageman não chegará por aqui em circuito comercial, ou em dvd, mas é fácil de achar nos torrents da vida, mas invariavelmente com legenda em inglês. também é possível assistir o filme todo no youtube, em 9 partes, cortesia do usuário nightmare674.

sexta-feira, 5 de março de 2010

actione! velocitá! terrore! suspenso! romanza!

tudo começou como um trabalho de fim de ano de colegas de faculdade na austrália: o trailer de italian spiderman, um esquecido filme de ação macarrônico do final dos anos 1960. isso aconteceu em 2007 e no final do mesmo ano, o trailer foi colocado na internet e rapidamente ganhou aquela fama viral que nos bombardeia todas as semanas. o sucesso foi tão grande (segundo a página na wikipédia, pois só fiquei sabendo dessa história agorinha via blog do dj uilson) que o idealizador de toda a parada, o diretor e produtor dario russo, transformou em 2008 o trailer numa série em dez episódios divertidamente surreais, naquele mesmo esquema blaxploitation do genial black dynamite (também lembra o hermes & renato).

vai encarar?