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sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

70 músicas e 55 discos brasileiros de 2023

música brasileira é aquela coisa bonita, cada vez mais diversa e territorialmente vasta. e todo ano aparece gente nova, tem povo amadurecendo e veteranos inquietos. mas foi em 2023 que teve Barbara Eugênia cantando Wando, Céu cantando Pitty, DJ Múlu remixando Tetê Espíndola, Martinho da Vila e Chico César cantando Zé Ketti, Valério tocando Luiz Gonzaga e Xande de Pilares cantando Caetano.

também foi em 2023 que finalmente gostei de Ava Rocha e fui surpreendido pelo improvável (a ex-atriz Cleo e Johnny Hooker, a ex-skatista Karen Jonz e o Cansei de Ser Sexy). falando em primeiras vezes, surgiram por aqui a potiguar Sarah Oliver, a mineira Sara Não Tem Nome, os gaúchos Ian Ramil e Duda Brack, o paraibano VictoRAMA, o cearense Mateus Fazeno Rock, o pernambucano Luiz Lins, o carioca Jonathan Ferr e o paulista MC Pedrinho.

também foi em 2023 que precisei quebrar mais uma vez a regra de não colocar mais de uma música por artista. Aleatoriamente de Rodrigo Ogi é tão porrada pulsante de um rapper cronista cada vez mais afiado que foi difícil fechar em apenas uma música (teria colocado mais que duas, aliás), e assim entraram “Chegou sua vez” e “Valha-me” (uma com Juçara Marçal, a outra com Siba, ambas produzidas por Kiko Dinucci). também não fui capaz de escolher entre “Madrugada maldita” e “Estante de livros” (essa com participação certeira de Don L), os dois pontos altos do excelente disco O Amor, o Perdão e a Tecnologia Irão Nos Levar Para Outro Planeta do FBC.

dessas 70 músicas vieram, obviamente, trampos novos & massa de gente já querida pela casa. gente que já sai com uns corpos de vantagem. é o caso de Aíla, Alice Caymmi, Jaloo, Ju Dorotea, Lurdez da Luz, Lucas Santtana, MC Tha, Síntese, Vitor Ramil, Baiana System, Duda Beat, Marcelo D2, Tatá Aeroplano, Xis e sempre sempre a filha Iara Rennó e a mãe Alzira E. mas já tá bom de blábli né. segue a playlist com 70 músicas brasileiras de 2023 segundo os ouvidos da casa.


70 MÚSICAS BRASILEIRAS DE 2023

A Espetacular Charanga do França - “Chevette azul”
Academia da Berlinda - “Bandoleiro”
Afrocidade - “Tá fod*”
Aíla & Jáder - “Me beija”
Alaíde Costa - “Ata-me”
Aldo Sena - “Meu vovô” [part. Saulo Duarte]
Alice Caymmi - “Las brujas”
Alzira E - “Filha da mãe” [part. Ney Matogrosso]
Ana Frango Elétrico - “Insista em mim”
Arquétipo Rafa - “Feito ladeira” [part. Alessandra Leão]
ÀTTØØXXÁ - “Dejavú” [part. Liniker]
Ava Rocha - “Longe longe de mim”
BaianaSystem & Duda Beat - “Borogodó”
BaianaSystem, Gilsons & Tropkillaz - “Presente”
Bárbara Eugênia - “Gosto de maçã”
Bixiga 70 - “Na quarta-feira”
Céu - “Emboscada”
Clarice Falcão - “Chorar na boate”
Cleo - “Seu fim” [part. Johnny Hooker]
Coruja BC1, MC Luanna & Febem - “Versão brasileira”
Djonga - “Coração gelado” [part. Tz da Coronel]
Domenico Lancellotti - “Quem samba” [part. Ricardo Dias Gomes e Marcia]
Don L - “Tudo é pra sempre agora” [part. Luiza de Alexandre]
Duda Brack - “Víbora ligeira”
Eddie - “Máscara negra” [part. Karina Buhr e Isaar]
FBC - “Estante de livros” [part. Don L]
FBC - “Madrugada maldita”
Felipe Cordeiro, Illy & Barro - “Todo céu azul”
Giovani Cidreira - “Dois lados” [part. Russo Passapusso e Melly]
Ian Ramil - “Macho-Rey”
Iara Rennó - “Orí axé”
Iza & MC Carol - “Fé nas maluca”
Jaloo - “Tudo passa”
Jards Macalé - “A foto do amor”
Jonathan Ferr - “Correnteza”
Ju Dorotea - “Raven”
Juliano Gauche - “Nos cânticos de lá”
Karen Jonz - “Coocoocrazy” [part. CSS]
Karol Conká, Tasha & Tracie - “Negona”
Letrux & Lulu Santos - “Zebra”
Lucas Santtana - “What's Life”
Luiz Lins - “Midas”
Luisa e os Alquimistas & Getulio Abelha - “Caninga”
Luiza Lian - “Homenagem”
Lurdez da Luz - “Devastada”
Marcelo D2 - “Povo de fé”
Marina Sena - “Me ganhar”
Martinho da Vila & Chico César - “Acender as velas”
Mateus Fazeno Rock - “Melô de Aparecida”
MC Pedrinho - “Gol bolinha, Gol quadrado 2”
MC Tha & MahalPita - “Coisas bonitas”
Moreno Veloso - “Mundo paralelo”
Mulú - “Escrito nas estrelas” [remix]
niLL - “3.0” [part. Amiri]
Paulo Ohana & Bruna Alimonda - “Um pedido de desculpas”
Rico Dalasam - “Tarde d+”
Rodrigo Campos - “Japonego” [part. Juçara Marçal]
Rodrigo Ogi - “Chegou sua vez” [part. Juçara Marçal]
Rodrigo Ogi - “Valha-me” [part. Siba]
Sara Não Tem Nome - “Nós”
Sarah Oliver - “Redinha”
Síntese - “Éter, dom & maldição”
Tatá Aeroplano - “Canto mistério”
Valério - “Asa Branca”
VictoRAMA - “AfroRobot”
Vitor Ramil - “Acordei sonhando” [part. Alunas e Alunos da Escola Projeto]
Xande de Pilares - “Muito romântico”
Xis - “Cutuco di bituca” [part. Elena Diz, Kami Cruz e Chico Chagas]
YMA & Jadsa - “Meredith Monk”/ “Mete Dance”
Zudizilla - “Groove ou caos” [part. Tuyo]

João Gilberto por Speto (próximo ao Mercadão de São Paulo)

55 DISCOS BRASILEIROS DE 2023

como já disse lá em cima, Aleatoriamente do Rodrigo Ogi e O Amor, o Perdão e a Tecnologia Irão Nos Levar Para Outro Planeta do FBC são dos maiores frutos do ano. discos que são tanto 2023 quanto o futuro. tem balanço e sujeira, esperança e desigualdade, cidade e amor.

outros grandes discos deste ano são o Coração Bifurcado de Jards Macalé, Iboru de Marcelo D2, a Negra Ópera de Martinho da Vila, O Paraíso de Lucas Santtana, a volta de Xis em Invisível Azul, a revelação de Mateus Fazeno Rock em Jesus Ñ Voltará, a delicadeza de Xande de Pilares ao cantar Caetano Veloso e a dobradinha de Rodrigo Campos (com o próprio Pagode Novo e a parceria com Romulo Fróes em Elefante), além do absurdo talento de mãe (a Mata Grossa de Alzira E) e filha (o Orí Okán de Iara Rennó).

seguem os 55 discos brasileiros do ano com link pra ouvir os respectivos na íntegra.

A Espetacular Charanga do França - Baile Espetacular
Aldo Sena - Jamevú
Alzira E - Mata Grossa
Ana Frango Elétrico - Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua
Arquétipo Rafa - Pisa de Conversa
Ava Rocha - Néktar
Banda Del Rey - O Disco
Barbara Eugênia - Foi Tudo Culpa do Amor
Bixiga 70 - Vapor
Cabezadenego, Leyblack e Mbé - Mimosa
Clarice Falcão - Truque
Coruja BC1 - Versão Brasileira, Vol. 1
DJ K - Pânico no Submundo
Djonga - Inocente
Domenico Lancellotti - Sramba
Eddie - Carnaval Chanson
Elza Soares - No Tempo da Intolerância
FBC - O Amor, o Perdão e a Tecnologia Irão Nos Levar Para Outro Planeta
Gaby Amarantos - PiraruCool
George Belasco & O Cão Andaluz - O Trabalho Mortifica
Ian Ramil - Tetein
Iara Rennó - Orí Okán
Iza - Afrodhit
Jaloo - Mau
Jards Macalé - Coração Bifurcado
Jonathan Ferr - Liberdade
Juliana Calderón - Primeiro Ato: Tectônica
Juliano Gauche - Tenho Acordado Dentro dos Sonhos
Letrux - Letrux Como Mulher Girafa
Lirinha - Mêike Rás Fân
Lucas Santtana - O Paraíso
Luiza Lian - 7 Estrelas
Mahmundi - Amor Fati
Marcelo D2 - Iboru
Marcelo Jeneci - Caravana Sairé
Mariana Cavanellas - DNA
Marina Sena - Vício Inerente
Martinho da Vila - Negra Ópera
Mateus Fazeno Rock - Jesus Não Voltará
MC Carol - Tralha
Meno Del Picchia - Pompeia Lo-Fi
Ná Ozzetti - Ná canta Zécarlos Ribeiro
Rico Dalasan - Escuro Brilhante, Último Dia no Orfanato Tia Guga
Rodrigo Campos - Pagode Novo
Rodrigo Campos & Romulo Fróes - Elefante
Rodrigo Ogi - Aleatoriamente
Sara Não Tem Nome - A Situação
Sarah Oliver - Manha
Tatá Aeroplano - Boite Invisível
Totonho e Os Cabra - Canções Pra Macho Chorar e Roer Unhas
Urias - Her Mind
Vários Artistas - Admirável Chip Novo (Re)Ativado
Xande de Pilares - Xande Canta Caetano
Xis - Invisível Azul
YMA & Jadsa - Zelena

sábado, 30 de dezembro de 2017

65 + 45 discos brasileiros de 2017

acabei demorando mais do que esperava pra fechar as retrospectivas musicais brasileiras [as gringas, de discos e músicas, saíram mais rapidamente]. muita coisa como sempre, e querendo ser cuidadoso com tudo que ouvi e gostei e me fez pensar e cantar. mas taí, os discos brasileiros de 2017 segundo o esforçado. a de músicas já está pronta [só falta o texto rsrs].

os raps, sempre - e o rap brasileiro continua numa bueníssima onda com beats, misturas, assuntos e sotaques dos mais diversos. mas quatro discos se destacam entre os destaques: galanga livre do paulistano rincon sapiência, esú do baiano baco exu do blues, roteiro pra ainouz vol. 3 do cearense don l e eletrocardiograma da brasiliense flora matos. rincon e baco, cada um a seu modo, dialogam fortemente com a cultura e a história afro-brasileira, e a violência da opressão e preconceito, e o orgulho das raízes, do amor e da beleza, e o poder dos batuques e beats. já don l e flora, mais hedonistas, tratam de rolês mais pessoais e vão fundo nisso embalados por ótimas produções e excelentes rimas e flows.

rincon, baco, don, flora 
e o rap brasileiro em tempos de glória

só que no mundo rap dessa lista tem ainda a força da experiência no retorno do rzo [quem tá no jogo traz ainda participações de sombra, rael, criolo e negra li] e de mais um trabalho firme e caudaloso de rodrigo ogi [pé no chão], além do diálogo brasil X portugal no belo encontro de emicida, rael, valete e capicua [língua franca] e dos elétricos álbuns de estreia do desbocado djonga [heresia], do raivoso coruja bc1 [no dia dos nossos] e do rimas & melodias, coletivo de minas rappers que já possuem sólidas carreiras solo como tássia reis e drik barbosa.

tem ainda o grupo baiano oquadro com mais um disco irrepreensível [nêgo roque], a estreia solo do brasiliense froid no excelente o pior disco do ano, o surpreendente segundo trabalho de nill [regina é ao mesmo tempo doce, tocante e bem humorado], um rico dalasam mais eletrônico e festeiro [balanga raba] e a densidade dos mineiros matéria prima [2 atos, uma interessante parceria com gui amabis] e thiago elniño [a rotina do pombo]. além disso tudo, tem ainda rap nos delicados sambas urbanos de criolo [espiral de ilusão] e na presença de sombra, yzalú e lurdez da luz na ótima estreia do neompbístico [no bom sentido] coletivo rua.

pop, radicalmente - se o disco de estreia do grupo as bahias e a cozinha mineira era ao mesmo tempo teatral, dramático e universitário, no que isso tem de bom e ruim, este segundo trabalho [bixa] vai além como uma deliciosa, tropical e diversa festa autoral muito bem produzida por daniel ganjaman e com ainda melhores arranjos vocais de assucena assucena e raquel virginia. falando em tropicalidades, a estreia do produtor baiano àttøøxxá [#blvckbvng] é um novo caminho de ritmos para o pop nacional, é o pagodão eletrônico no topo. mas nada consegue ser tão desavergonhadamente pop quanto vai passar mal, de pabblo vittar, uma mistura de funk, forró, sertanejo , arrocha, reggae, trap, balada e muita auto estima [logo após anitta, que aparecerá bastante na lista de músicas, pabblo é certamente a grande figura pop do ano].

a maranhense pabblo vittar e o baiano àttøøxxá

instrumentais, majoritariamente - sensacional o que o macaco bong fez com o nirvana em deixa quieto [nevermind, tá ligado?], e lindo o passeio sonoro do duo cæs em santos 3am, e uma delícia de guitarradas em mais um registro de felipe cordeiro com o pai manoel cordeiro em combo cordeiro, e o bandolinista hamilton de holanda encarando com delicadeza o cancioneiro de milton nascimento em casa de bituca [com participações do próprio milton e de alcione], e a sempre atual herança de moacir santos, edu lobo, naná vasconcelos e baden powell tudo misturado em tempo dos mestres de fabiano do nascimento, e o metá metá mais uma vez quebrando tudo na trilha que fez para o grupo corpo [gira tem ainda participação luxuosa de elza soares], e a guitarra sempre instigante de fernando catatau em dois projetos paralelos [tarde, o segundo disco do lamber vision, e praia futuro, feito em parceria com dengue, yury kalil e ilhan ersahin], e o incansável thiago frança abriu e fechou o ano com dois discos curtos, variados e divertidos [chão molhado da roça e bomba, suor e bafo]. destaque especial para o disco de estreia do onça combo, um power trio paraibano que injeta jazz nas tradições musicais indígenas, ibéricas e nordestinas.

os paraibanos porretas do onça combo

cantautoras, intérpretes - e a safra musical brasileira segue alto nível com um punhado de discos de cantoras/compositoras nessa nossa vasta tradição cancioneira: alzira e, uma das preferidas da casa em qualquer tempo, trouxe mais uma beleza rascante, o corte; letícia novaes, metade do saudoso letuce, estreou solo com o eletrônico, noturno e oitentista letrux em noite de climão; xênia frança, uma das vozes do aláfia, também estreou solo com o forte xênia, disco de composições próprias e releituras de figuras como chico césar, antônio carlos & jocafi, luisa maita, verônica ferriani e tiganá santana; tulipa ruiz, acompanhada apenas de gustavo ruiz e stephane san juan, veio intimista, e até relendo algumas músicas do passado, em tu; linn da quebrada entortou o funk em pajubá, disco violentamente conceitual, experimental, sexual e político; luana carvalho mostrou toda a amplitude de sua poesia, sob produção de moreno veloso, nos discos irmãs branco e sul; e ainda teve o balanço de luciana oliveira em deusa do rio niger, as novas bossas de nina becker em acrílico e as múltiplas faces de mallu magalhães em vem.

alzira e, letícia "letrux" novaes e xênia frança

uns grupos, encontros - o excelente grupo paulistano aláfia não brinca em serviço e o terceiro disco deles, sp não é sopa, é mais um tratado sobre balanço, poesia, afrobrasilidades e política; os goianos do boogarins seguem aprimorando psicodelias em seu terceiro disco, lá vem a morte; e os cariocas do amor também experimentam mais e melhor em fodido demais; já os mineiros do pato fu soltaram mais um disco do seu projeto de versões “infantis” para hits nacionais e internacionais, o divertido música de brinquedo 2 [que tem gilberto gil, joão bosco & aldir blanc, raul seixas, raimundos, rita pavone, ricky martin, etc]; e falando em versões, o nação zumbi deu um tempinho nos discos autorais e fez seu primeiro de covers, o excelente radiola nz, vol. 1, que tem tim maia, beatles, david bowie, the specials, marvin gaye, gilberto gil e secos & molhados [com participação de ney matogrosso]; ainda no terreno das interpretações, o trupe chá de boldo lançou o belo verso que tem canções de amigos como alzira e, andré abujamra, negro leo, leo cavalcanti, iara rennó, marcelo segreto, pélico, juliano gauche e tatá aeroplano; e o tatá, aliás, reuniu-se com a amiga e parceira barbara eugênia nos folks delicados de vida ventureira; pra finalizar esse bloco, o surpreendente sambas do absurdo, o encontro de rodrigo campos com juçara marçal, gui amabis, nuno ramos [co-autor das músicas] e albert camus [inspiração do projeto].

os paulistanos/paulistas do aláfia - e olha xênia, novamente - 
e da trupe chá de boldo

uns caras - chico buarque e guilherme arantes, dois medalhões da música popular brasileira lançaram discos bem interessantes [caravanas e flores & cores, respectivamente]; mas outros veteranos se saíram ainda melhor, como foi o caso do gaúcho vitor ramil e seu delicado e milongueiro campos neutrais e o eterno titã paulo miklos com o belíssimo a gente mora no agora [que o colocou em parcerias com emicida, céu, tim bernardes, lurdez da luz, erasmo carlos, guilherme arantes, silva e russo passapusso]; o tim bernardes, por sua vez, deu uma pausa n’o terno pra lançar seu primeiro solo, o folk intimista confessional recomeçar; também são intimistas, e das mais bonitas e diversas formas, os novos discos de dudu tsuda [bicicleta], lucas santanna [modo avião é uma parceria multimídia de lucas com o escritor joão paulo cuenca e o desenhista rafael coutinho], momo [voá] e domenico lancellotti [serra dos órgãos], e as estreias de giovani cidreira [japanese food], lincoln [malvado canto], felipe s [cabeça de felipe] e zé ed; mas certamente os pontos altos desse bloco estão na crueza punk de cortes curtos de kiko dinucci, no lirismo dolorido de batatinha na voz de celso sim [o amor entrou como um raio], no tropicalismo de experimentos grooveados de boca do curumin e em mais uma beleza romântica e torturada, raivosa e sensível, de otto [ottomatopeia].

otto, paulo miklos e curumin

A Espetacular Charanga do França - Chão Molhado da Roça/Bomba, Suor e Bapho
Aláfia - SP Não é Sopa
Alzira E - Corte
As Bahias e a Cozinha Mineira - Bixa
ÀTTØØXXÁ - #BLVCKBVNG
Baco Exu do Blues - Esú
Barbara Eugênia e Tatá Aeroplano - Vida Ventureira
Boogarins - Lá Vem a Morte
Chico Buarque - Caravanas
Coletivo Rua - Coletivo Rua
Combo Cordeiro - Combo Cordeiro
Coruja BC1 - No Dia dos Nossos
Curumin - Boca
Djonga - Heresia
Do Amor - Fodido Demais
Domenico Lancellotti - Serra dos Orgãos
Dudu Tsuda - Bicicleta
Duo Cæs - Santos 3AM
Emicida, Rael, Valete e Capicua - Língua Franca
Fabiano do Nascimento - Tempo dos Mestres
Felipe S - Cabeça de Felipe
Fernando Catatau, Dengue, Yury Kalil e Ilhan Ersahin - Praia Futuro
Flora Matos - Eletrocardiograma
Giovani Cidreira - Japanese Food
Guilherme Arantes - Flores & Cores
Hamilton de Holanda - Casa de Bituca
Kiko Dinucci - Cortes Curtos
Lamber Vision - Tarde
Lincoln - Malvado Canto
Linn da Quebrada - Pajubá
Luana Carvalho - Branco/Sul
Lucas Santanna - Modo Avião
Luciana Oliveira - Deusa do Rio Niger
Macaco Bong - Deixa Quieto
Mallu Magalhães - Vem
Matéria Prima - 2 Atos
Metá Metá - Gira
Momo - Voá
Nação Zumbi - Radiola NZ, Vol. 1
Nina Becker - Acrílico
niLL - Regina
Onça Combo - Onça Combo
OQuadro - Nêgo Roque
Otto - Ottomatopeia
Pabblo Vitar - Vai Passar Mal
Paulo Miklos - A Gente Mora no Agora
Rico Dalasam - Balanga Raba EP
Rimas & Melodias - Rimas & Melodias
Rincon Sapiência - Galanga Livre
Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis - Sambas do Absurdo
Rodrigo Ogi - Pé no Chão
Thiago Elniño - A Rotina do Pombo
Tim Bernardes - Recomeço
Trupe Chá de Boldo - Verso
Tulipa Ruiz - Tu
Vitor Ramil - Campos Neutrais
Xênia França - Xênia
Zé Ed - Zé Ed

e como já é de lei aqui por essas bandas, uma segunda lista se faz necessária pela quantidade de discos interessantes lançados ano após ano. uns só não entraram na primeira por motivos de não ter ouvido tanto quanto outros. coisa de momento/oportunidade mesmo.

Airto Moreira - Aluê
Akira Presidente - Fa7her
André Sampaio - Alagbe
Angela Ro Ro - Selvagem
Arto Lindsay - Cuidado Madame
Banda Mantiqueira - Com Alma
Camarones Orquestra Guitarrística - Feeexta
Castello Branco - Sintoma
Chaiss - Chara
Cinnamon Tapes - Nabia
Conteção 33 - Ruas Sujas
Davi Moraes - Tá em Casa
Diomedes Chinaski & DJ Caique - Ressentimentos II
Gragoatá - Gragoatá
Haikaiss - Teto Baixo
Hermeto Pascoal & Big Band- Natureza Universal
João Donato e Donatinho - Sintetizamor
Johnny Hooker - Coração
Jonathan Tadeu - Filho do Meio
Juliana Kehl - Lua Full
Kalouv - Elã
Lia Sophia - Não Me Provoca
Luedji Luna - Um Corpo no Mundo
Luiza Lian - Oyá Tempo
Marcelo Callado - Musical Porém
Meia Dúzia de 3 ou 4 - 81 Anos de Tom Zé
My Magical Glowing Lens - Cosmos
Nana - CMG-NGM-PDE
Nevilton - Adiante
Nomade Orquestra - EntreMundos
Satanique Samba Trio - Xenossamba
Seu Pereira e Coletivo 401 - Eu Não Sou Boa Influência pra Você
Tetê Espíndola - Outro Lugar
Tiê - Gaya
Tribalistas - Tribalistas
Valério - Água Pedra
Vanguart - Beijo Estranho

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

50 discos brasileiros de 2014 [e mais 25]

estamos aí no segundo capítulo da retrospectiva musical deste ano. já publiquei aqui a lista com 50 músicas brasileiras e agora é a vez dos discos. são 50 com uma lista bônus de outros 25. coisa pra diabo, eu sei, mas é só um pedacinho dos sons que chegaram a mim. dessa ruma alguns merecem destaque, pois me pegaram mais de um jeito ou outro. é mais ou menos assim...


pedra de sal - EP que é o primeiro de uma trilogia  - chegou agora no final e me derrubou rapidamente. é trabalho de várias belezas e muitas inquietações, alguma dramáticas, e mais um encontro forte de pernambuco [alessandra leão e rodrigo caçapa] e são paulo [kiko dinucci e guilherme kastrup]. e alessandra detona muito [“pedra de sal”, porra, o que é “pedra de sal”?!]. já o que vim fazer aqui é disco novo da alzira, o que me ganha de cara porque ela é uma das minhas cantoras/intérpretes/autoras preferidas de todos os tempos. daí que nesse disco ela canta só itamar assumpção, algumas inéditas, e com uma banda ótima. não é só impossível dar errado como ainda por cima dá muito certo. falando em itamar, o segundo disco de sua filha anelis assumpção, anelis e os amigos imaginários, é diversão do começo ao fim, é adulto e pop, é urbano e leve. anelis tá fazendo um carreira muito massa.


convoque seu buda, o disco de criolo após nó na orelha, corria muitos riscos comparativos e saiu-se muito bem. não tem o ineditismo da reinvenção do rapper e do encontro com Daniel ganjaman, mas tem alguns novos caminhos próprios e justas coerências, além de várias grandes canções. ainda na seara do rap, cruz do elo da corrente é mais uma prova da maturidade do gênero. ousado musicalmente, brasileiro e paulistano na medula, extremamente bem produzido, cruz é uma bela duma pancada. igualmente impactante, goma-laca é o disco do projeto de biancamaria binazzi e ronaldo evangelista com músicas afro-brasileiras gravadas entre as décadas de 1920 e 1950 e rearranjadas por letieres leite. e tudo fica ainda melhor com a escolha acertadíssima dos(as) intérpretes que, não coincidentemente, estão nessa lista também com seus excelentes trabalhos solo [juçara marçal, russo passapusso e lucas santtana – e tem ainda karina buhr, mas que não lançou disco novo esse ano].


chegamos então a juçara marçal e seu encarnado. uma das mais discretas e poderosas cantoras brasileiras, juçara fez de sua estreia solo um aperfeiçoamento natural do trabalho quem tem feito no metá metá: tradições afro-brasileiras sendo rasgadas por guitarras, por uma interpretação segura e pelo presente musical brasileiro. disco impressionante de uma artista idem. coisa boa é também a estreia solo oficial de moreno veloso, após a trilogia que fez com os amigos domenico e kassin, e é seu trabalho mais doce, mais bonito. já o novo nação zumbi pode não ter a pancadaria de outrora, mas os pernambucanos seguem criando músicas ótimas, honrando e muito as duas décadas do mangue beat/bit.


e o racionais mcs? após mais de uma década sem um cd de inéditas, o quarteto lançou cores e valores, um disco-conceito lotado de referências e histórias, um tantinho frustrante pela curta duração, mas as vozes e posturas dos caras continua muito impressionante. com 25 anos de estrada, o racionais é, sem sombra de dúvida, uma das coisas mais importantes da história da música popular brasileira.


finalizando os destaques, dois baianos. russo passapusso, vocalista do baiana system, lançou seu primeiro solo, o lindo paraíso da miragem, que tem reggae, ragga, balanço e muito o que falar e mostrar. o veterano na inquietude tom zé veio com vira lata na via láctea, seu melhor disco em tempos, principalmente porque seus arranjos diferentes, formações instrumentais variadas , e muitas participações interessantes [de criolo a filarmônica de pasárgada, de milton nascimento a kiko dinucci, de caetano veloso a o terno]. e, claro, um leque e tanto de ótimas músicas.

peraí, peraí... últimos destaques. juro! como disse na lista de músicas, continua rolando muito rap bom pra cacete. racionais, criolo e elo da corrente não me deixam mentir. mas vale ressaltar que tem ainda, nessa lista de 50, amiri, rincon sapiência, lurdez da luz, haikaiss e zulumbi aqui de são paulo, o pessoal do r93 de volta redonda e os gaúchos tuty e orquestra celestial do livre arbítrio. 

bom também quando somos pegos no contrapé. foi muito bom ser surpreendido pelos excelentes discos de adriano cintra [animal], alice caymmi [rainha dos raios], celso sim [tremor essencial], ian ramil [ian] e márcia castro [das coisas que surgem], além da descoberta do niteroiense salgueirinho e seu animalia, um disco eletrônico-instrumental bacaníssimo.

segue então, finalmente, a lista com 50 discos brasileiros deste ano segundo o gosto da casa, tudo devidamente linkado para ouví-los na íntegra [e ocasionalmente baixá-los]:

adriano cintra - animal
alessandra leão - pedra de sal EP
alice caymmi - rainha dos raios
amiri - antes, depois
anelis assumpção - anelis e os amigos imaginários
banda do mar - banda do mar
barbara eugênia & chankas - aurora
celso sim - tremor essencial
china - telemática
elo da corrente - cruz
estrelinski e os paulera - leminskanções
fábio trummer - trummer super sub america
filarmônica de pasárgada - rádio lixão
fino coletivo - massagueira
gilberto gil - gilbertos samba
gustavo galo - asa
ian ramil - ian
isaar - todo calor
juçara marçal - encarnado
lucas santtana - sobre noites e dias
lurdez da luz - gana pelo bang
m.takara - puro osso
márcia castro - das coisas que surgem
maurício pereira - pra onde eu que tava indo
mombojó - alexandre
moreno veloso - coisa boa
nação zumbi - nação zumbi
nina becker - minha dolores
o terno - o terno
orquestra celestial do livre arbítrio - o.c.l.a.
racionais mcs - cores e valores
rincon sapiência - sp gueto br EP
romulo fróes - barulho feio
rubinho jacobina - andando no ar
russo passapusso - paraíso da miragem
sacassaia - boca da terra
salgueirinho - animalia
saulo duarte e a unidade - quente
silva - vista pro mar
superlage - superlage
tatá aeroplano - na loucura e na lucidez
zulumbi - zulumbi

e aqui uma lista bônus com outros 25 trabalhos bem bons e que também deixaram suas marcas por aqui:

a banda dos corações partidos - a banda dos corações partidos
a fase rosa - leveza
afroelectro - mocambo EP
ceumar - silencia
de leve - estalactite EP
esdras nogueira - capivara
giancarlo rufatto - cancioneiro
graveola - dois e meio
holger - holger
inquérito - corpo e alma
jaloo - insight EP
judas - nonada
lamber vision - lamber vision
léo cavalcanti - despertador
naná rizinni - lá na naná
nego e - autorretrato
os the darma lóvers - espaço
pipo pegoraro - mergulhar mergulhei
rashid & kamau - seis sons EP
tássia reis - tássia reis EP

sábado, 1 de agosto de 2009

alzira nunca está sozinha

fazia tempo que não postava nenhum texto então fui ao baú, mais especificamente ao das minhas colaborações para a editora spring, e catei esse sobre a cantora alzira espíndola (ou alzira e), que foi publicado, junto com o perfil do saudoso otto stupakoff, em dezembro de 2007 na tam magazine (última edição dessa revista na casa).

sou fã de alzira, de sua voz diferente, de seu jeito tímido, de sua amizade intensa com itamar assumpção (foi nos fundos de sua casa de pinheiros que entrevistei, em 1998, o nego dito; entrevista publicada originalmente na revista a nível D e depois no gafieiras). poucos artistas brasileiros possuem discos tão belos e autorais quanto
amme (baratos afins, 1992), peçamme (baratos afins, 1996), ninguém pode calar (dabliú, 2000), paralelas (duncan discos, 2005) e alzira e (duncan discos, 2007). e olha que ela só tem mais outros dois solo! bem, de lá pra cá, além de shows e projetos, alzira só lançou um compacto com a canção "chega disso", outra parceria com o poeta arrudA, mas que tinha sido lançada anteriormente pela amiga zélia duncan (dá pra ouvir no myspace). enfim, não deixe de conhecer alzira espíndola. ouça e ame.

alzira e itamar no início dos anos 1990, época do
disco amme (foto de glória flügel)

DE INTIMIDADE SE FAZ MÚSICA

Ser independente não é das coisas mais fáceis na vida, principalmente no Brasil. Muita bateção de cabeça, portas fechadas, grana curta e todo um calvário de problemas grandes, médios e pequenos. Existem compensações, claro, e a liberdade é uma delas. Perto de completar 50 anos, a cantora e compositora Alzira Espíndola sabe dos caminhos que chegam e dos que se afastam; e agora comemora uma outra fase de sua independência fortalecida por uma nova geração de ouvintes e pela rapidez de comunicação proporcionada pela internet. Mas não é porque Alzira Espíndola agora assina Alzira E (“além de abreviar o Espíndola confirma que nunca estou só”, e dá uma risadinha) que seu principal motor criativo mudou de foco. Afinal, é da intimidade com amigos como Itamar Assumpção, arrudA, Alice Ruiz e Zélia Duncan, com a cidade de São Paulo e com as raízes sulmatogrossenses que nasceu e nasce sua música.

“Não sei cantar sem viver. Ter certeza disso me deu uma nova segurança. Não me sinto perdida na minha carreira e nem com as minhas músicas. Quer dizer, nunca toquei no rádio, nunca fui à Globo, não tenho gravadora, mas estou feliz, cara! Não adianta ter tudo isso e não ter o que tenho. Eu me achei. A lição é essa”. Descobrir isto levou tempo e essa história começa em Campo Grande (MS) com a pequena Alzira fazendo vocais e tocando violão junto com os irmãos Geraldo e Celito e a irmã Tetê Espíndola em shows caseiros e no circo que de vez em quando apeava em frente de casa. Alzira, a mais nova, era a mascote da família musical e foi chamada pelos irmãos para formar o Luz Azul.

O grupo durou pouco porque as irmãs decidiram sair de casa, ambas para São Paulo, mas por razões diferentes. Tetê veio em busca de horizontes para o seu trabalho, mas Alzira veio mesmo para ter um bebê e formar família. Tetê saiu na frente e através de um novo amigo, o compositor Arrigo Barnabé, conseguiu um contato para gravar seu primeiro LP. Nasceu assim, em 1978, o disco
Tetê & O Lírio Selvagem, sendo que os tais lírios eram os irmãos Sérgio, Celito e Alzira. “Só fui cantar, ter coragem de cantar sozinha em público, aos 21 porque achava que não era cantora. Só fazia uns vocalzinhos. Mas na verdade fazia as vozes mais difíceis, as quartas. Então fui desenvolvendo um vocal diferente e me aperfeiçoando nesse negócio. Fui onde tinha uma beirinha pra mim”. O Lírio Selvagem também não durou, mas desde então os Espíndola mantém uma saudável combinação: eventualmente participam uns dos trabalhos dos outros, mas cada um mantém sua carreira.

Entre o final da década de 1970 e o início dos anos 80, Alzira conheceu toda a turma da Vanguarda Paulistana, mas ainda tímida optou por se dedicar à família e logo vieram outras três crianças no auto-exílio em Ubatuba (SP). O violão nunca lhe deixou, muito menos os amigos e as parcerias, só que tudo tem seu tempo e Alzira voltou de vez a São Paulo, em 1987, para dar início a sua carreira solo. “Eu me identifiquei mais com o pessoal de São Paulo porque nunca consegui compor essas músicas regionais como fazem até hoje Almir Sater, Paulo Simões e até a própria Tetê; trabalhos que exaltam a natureza, os animais. Sempre quis fazer uma coisa mais urbana”. Para seguir em frente, no entanto, Alzira sentiu a necessidade de fazer de sua estréia discográfica um acerto de contas com o seu passado de toadas, guarânias e outras bossas do Centro-Oeste. Feito o disco, estava livre para ser o que bem quisesse.

Seu grande mentor nestes novos tempos de liberdade foi, sem dúvida, o amigo Itamar Assumpção que depois de muita insistência (por parte dela) se tornou seu diretor musical e principal parceiro, além de amigo até debaixo d’água durante boa parte da década de 1990. “[Foi uma relação] intensa e complexa, mas com muito amor. A gente teve muito amor para segurar a nossa convivência e um dos frutos disso é que as nossas filhas ficaram muito amigas [Iara Rennó e Anelis Assumpção, integrantes da banda DonaZica]. Não tem nenhum momento da minha carreira que eu não fale o nome dele”, afirmou, olhos levemente marejados, sobre o artista que deixou a todos orfão em 2003. Os outros frutos dessa amizade foram os belos discos
Amme (1992) e Peçamme (1996), além de uma série de canções que já foram gravadas por artistas como Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Carlos Navas.

A partir deste encontro com Itamar, Alzira se sentiu segura para encarar o que viesse pela frente, desde um disco em que interpretou composições de Maysa (
Ninguém Pode Calar, 2000) até uma reunião de música e poesia com a amiga Alice Ruiz (Paralelas, 2005). Agora, vinte anos depois de sua estréia em disco, a cantora e compositora lança um novo disco, Alzira E, feito em parceria com o jovem poeta arrudA, autor do blog Saudade do Papel. “Tudo o que o Arruda escreveu é como se também fizesse parte de mim. Tem que rolar essa história íntima. Não sou um artista que tenha técnica e por isso entro em um trabalho sem saber pra onde vou, mas sempre parto da minha vida cotidiana. Vivi as músicas regionais pantaneiras, vivi Maysa, vivi Itamar Assumpção, vivi Alice Ruiz e agora o arrudA. Tá bem claro que pra mim é assim. Ah, e outra coisa que é bom falar, não acho que o pop não possa ter poesia”. Independente, popular, mãe, urbana, compositora, autoral, pantaneira e internauta (“É o fim das barreiras que rotulavam artistas como marginais ou malditos”), tanto faz. Alzira E não está sozinha.

e aqui, o video da música "existem coisas na vida" (alzira e itamar). música originalmente gravada por ney matogrosso no disco inclassificáveis (emi, 2008).

segunda-feira, 23 de março de 2009

ô betz

nunca entrevistei maria bethânia. é uma daquelas "coisas pra se fazer antes de morrer", principalmente se for pro gafieiras. então, quando estreou na tv o documentário música é perfume, do suiço georges gachot (janeiro de 2008), fiz uma matéria pra monet e como bethânia não me deu moral (não ela, claro, mas sua assessoria) pensei em falar com algumas cantoras e ver qual era a influência da grande dama em suas carreiras. as gentis (e talentosas) alzira e, rita maria e fabiana cozza me atenderam e o texto saiu assim. ah, lembrei de bethânia porque marcus preto escreveu ontem na folha sobre um blog que compartilha gravações ao vivo da cantora que nunca saíram em disco. é o maria bethânia re(verso). e esse post é dedicado às adoradoras de betz que conheço. minha amada carolina e as amigas daniela, adriana, gabriela, cris e ludmila (que fez aniversário ontem, parabéns). esqueci alguém?

PERFUME DE BETHÂNIA

Bendita entre as cantoras, Maria Bethânia vem conseguindo manter, há pouco mais de 40 anos, uma das carreiras mais originais, coerentes e comercialmente bem sucedidas da história da música popular brasileira. Protagonista do documentário Música é Perfume, uma das estréias do mês no Canal Brasil, a intérprete baiana é mostrada em toda sua paixão e meticulosidade, tanto em shows e ensaios quanto em sua intimidade, tudo sob o olhar atento do cineasta Georges Gachot. Especialista em música erudita, o suíço se encantou com a forte presença de palco de Bethânia em um show no célebre Festival de Montreux. Mas isso é coisa mais que sabida pelo público brasileiro e por inúmeras gerações de cantoras nacionais que a tomaram como referência (mesmo porque não existem “seguidoras de Maria Bethânia”).

Alzira E, Rita Maria e Fabiana Cozza, cantoras de trajetórias e gerações diferentes, já sentiram essa força estranha que tomou o gringo pelos olhos e ouvidos. Cada uma a sua maneira. Mato grossense radicada em São Paulo, Alzira E (E de Espíndola), 50 anos, tem sete discos no currículo e canções gravadas por figuras como Ney Matogrosso e Zélia Duncan, boa parte delas feita em parceria com Itamar Assumpção. “Conheci Bethânia no final dos anos 1960, cantando ‘Carcará’, e ela me passou uma força tão grande com aquela voz e aquele sotaque. Foi quando me interessei por toda uma cultura musical nordestina que até então era muito distante pra mim”. Desde então, as músicas cantadas por Bethânia entraram de vez no repertório da ouvinte e fã. “Ela no palco é tão intensa e real, mas do seu repertório o que mais me acompanhou foi do disco Drama – Anjo Exterminado (1972). Todas ali são muito especiais pra mim”. E ela tem algum defeito, algum ponto fraco? “Só se for o meu, quando escuto
Anjo Exterminado”, e dá uma risada.

Mais jovem e com apenas um disco lançado, Fora de Órbita (2005), a cantora e compositora Rita Maria, 33 anos, ouvia Bethânia em casa por influência dos pais. “Depois veio o programa Plunct Plact Zum, em 1984, com a canção
Brincar de Viver. Mas a primeira audição consciente foi por volta dos 15 anos quando descobri o vinil de Recital na Boite Barroco (1968)”. Pouco mais tarde, quando começou a cantar, a paulistana sentiu as diferenças. “Mesmo não tendo a voz grave ou buscando no meu gesto vocal toda a teatralidade que ela traz, usei isso, a força da interpretação do texto, como uma referência pessoal, inclusive na hora de compor. Vejo o trabalho dela ser construído com muita coerência, tudo o que ela canta vem com a assinatura da intérprete, traz uma marca, uma cara, e transita por muitos repertórios”.

Já Fabiana Cozza, 31 anos, uma das mais elogiadas intérpretes de samba da atualidade e com dois discos na bagagem (o mais recente, Quando o Céu Clarear, acabou de ser lançado) declarou que “ouço Bethânia desde muito pequena. As primeiras canções de que tenho recordação são
Explode Coração e Sangrando, ambas do Gonzaguinha”. Hoje em dia, Cozza se espelha em Bethânia nessa busca da intérprete. “Ela fez uma escolha pelo caminho da intérprete, o que amplia a visão da arte dela e nos presenteia com essa grandeza. Costumo dizer que você pode ser uma ótima cantora ou uma intérprete do canto, um ótimo ator ou um intérprete do teatro. Bethânia é essa voz que pode se desdobrar no que quiser sobre o tablado porque tem o palco como espaço do sagrado”. Palavras delas ao som da Abelha Rainha.

e agora, uma pequena entrevista que fiz por e-mail com o diretor georges gachot.

MONET - Quais foram suas primeiras impressões ao ouvir Maria Bethânia? E o que te levou a decidir fazer um filme sobre ela?
GEORGES GACHOT - A primeira vez que ouvi Maria Bethânia foi em Montreux. Acho que em 1996. Foi também meu primeiro contato com a música brasileira. Nesta noite descobri uma fantástica artista que sabe como dividir sentimentos musicais com seu público. Fiquei impressionado por sua musicalidade pura, pela escolha de repertório e pelo modo como passa de uma música para outra. O poder de sua voz pode ser comparado com a força de um planeta! Desde 1989, o sentido da minha vida é transpor sentimentos musicais para a tela. Por causa disso estou permanentemente em busca deste poder musical e de artistas que o carreguem. Não quis produzir uma biografia e sim fazer com que o poder de sua voz fosse visualmente acessível.

Quais foram as maiores surpresas que você teve ao pesquisar e, posteriormente, falar com e sobre ela?
A maior surpresa que tive veio em forma de música. Ainda estou sob o encanto de canções como
Motriz (Caetano Veloso), Luar do Sertão (Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco) e Negue (Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos). Bethânia também me fez descobrir Chico Buarque. Nossa visita a Santo Amaro da Purificação e o encontro com Dona Canô e Caetano Veloso nos deram um panorama maior de como encarar a arte de Bethânia. Também fiquei muito impressionado com suas convicções, concentração, profissionalismo e o jeito como constrói sua arte no trabalho diário. Por causa dela acabei fazendo de um dos versos da música Samba da Benção (Baden Powell e Vinicius de Moraes) - “É melhor ser alegre que ser triste” – a filosofia que tento seguir dia após dia.

Como está caminhando este seu novo documentário sobre a Nana Caymmi?
Bethânia me fez entrar no mundo da música brasileira e assim descobri Nana Caymmi. Queremos apresentar um lado de Nana Caymmi que o público brasileiro não conhece e ao mesmo tempo com um apelo diferente para o público internacional. Esperamos finalizar o documentário até o fim de 2009.