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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

nada mais irritante

encontrei uma única vez com fernanda young para um perfil publicado na edição de dezembro de 2006 da tam magazine. foi em um complexo de estúdios, ali na rua turiassu, onde era gravado o programa irritando fernanda young (2006-10). para minha surpresa na época, a conversa não poderia ter sido melhor, mais franca e solta. e ainda acompanhei a gravação do programa com a deborah secco. o resultado foi um texto que gosto até hoje (nem sei porque demorei tanto para colocar aqui). ah, uma breve atualização daquele final de 2006 para esse começo de 2012. fernanda young escreveu mais dois livros, posou para a playboy em 2009 sob a mira de bob wolfenson, apresentou outro programa (duas histéricas), escreveu outras séries e especiais para tv (o sistema, nada fofa, separação?! e macho man) e um novo capítulo cinematográfico na saga de rui e vani (os normais 2 - a noite mais maluca de todas), e ainda adotou duas crianças (já tinha gêmeas do casamento com o roteirista e parceiro alexandre carvalho). detalhe: o título do texto veio da série de retratos que a cia. de foto tirou na época.



UMA FLOR FEITA DE MUITAS PALAVRAS

O complexo de estúdios onde é gravado Irritando Fernanda Young está em processo de ampliação e os entulhos se acumulam sob uma escada, mas no camarim refrigerado tudo parece tranquilo. Por uma janela é possível acompanhar o silencioso frenesi da equipe nos últimos retoques para mais um dia de trabalho na segunda temporada do programa que vai ao ar nas noites de domingo do GNT. Agitada como parece ser o seu costume, a escritora, roteirista e apresentadora recebe o repórter acompanhada de sua irmã e braço-direito, Renata, com uma preocupação martelando a cabeça. “Sempre fico na dúvida se não estou simplesmente ridícula”, diz sobre as camadas de maquiagem necessárias para as luzes da televisão. A irmã lhe tranquiliza e ela senta, ainda agitada, no sofá. Gravando.

“O Saia Justa era bem mais fácil pra mim. Ia totalmente despreparada e às vezes cometia erros medonhos, mas fazia parte porque dramaturgicamente imaginava que o programa devia ser uma conversa entre amigas. Era como sentia e vivia aquilo, falando coisas interessantes, comoventes, falando abobrinhas”, e dá uma pausa nas boas lembranças de seus três anos ao lado de Rita Lee, Marisa Orth e Mônica Waldvogel, a primeira geração do programa. Corta para a câmera 2. “Hoje recebo convidados e tenho que estar preparada. Sinto que estou melhor como entrevistadora. Na primeira temporada era tudo mais anárquico e eu interrompia mais, falava muito de mim... o que continuo fazendo porque sou uma pessoa muito empírica. Faço isso na minha literatura, na TV, como roteirista e apresentadora. Não eliminei essa minha verborragia, esse meu eu egocêntrico e opinativo”, segue em desabalada carreira. Pausa para os comerciais.

Na primeira temporada do programa, a niteroiense radicada em São Paulo por opção e identificação entrevistou figuras tão diversas quanto Fábio Assunção, John Casablancas, Selton Mello, Rita Lee e Daniel Filho (que dirigiu recentemente Muito Gelo e Dois Dedos d’Água, roteiro seu com o marido e parceiro Alexandre Machado). O ecletismo foi aprofundado na segunda temporada que contou com as presenças de Ney Latorraca, Amaury Jr., Eliana, Deborah Secco, Alexandre Herchcovitch e Supla. Volta para a câmera 1. “Seria incapaz de falar com gente que não me interessa, portanto o que todas essas pessoas têm em comum é o fato de me intrigarem de alguma forma. Adoro conversar, adoro escutar os outros e pago por uma boa conversa. É onde tiro os meus insights”, explica. Corta para um close na câmera 3.

“Acho o programa genial. Se é ou não é, não importa. Você não pode fazer nada sem achar genial. Se não acredito porque vou dar a cara a tapa? Mas depois desta temporada gostaria de fazer algo mais quente, algo nas férias sobre as férias. Carnaval na Bahia ou em Olinda, por exemplo”, e dá um sorriso enigmático. Zoom in. Mas Fernanda Young gosta de carnaval? “Não gosto porque não sou aceita, não sambo, sou cheia de manias e hipocondrias. Tudo que não gosto é simplesmente por causa de rancor. É apenas uma reação à rejeição, mas vou começar a ter umas aulas para sambar. Quem sabe descubro que o carnaval é genial”, revela carnavalizando o próprio mau-humor. Vai para a câmera 2.

O lado conhecido de Fernanda Young é este, o do riso a partir de uma afiada observação do cotidiano popularizado pelos seriados televisivos A Comédia da Vida Privada, Os Normais e Minha Nada Mole Vida. Mas seu combustível é mesmo a paixão. Pela comédia e pelo cotidiano, claro, e acima de tudo pela palavra, presença constante, direta e torrencial em seus roteiros e nos sete livros publicados. “O que faço com mais prazer é escrever romances, mas fazer TV não é um bico. Adoro, sou fascinada pela TV. Fico boba com gente que ainda tem preconceito, porque não só acredito na TV como faço com ideologia. Só que os burros, e eles são muitos, vêem isso como desqualificador para minha literatura. Não sou uma pessoa idônea intelectualmente porque trabalho na Rede Globo... pelo amor de Deus!”, e faz uma careta, língua de fora. Sobem os letreiros.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

marina, cuba e brasil

fazia tempo que não recuperava nada do baú, então segue aqui um perfil que fiz de marina de la riva para a edição de agosto de 2007 da saudosa tam magazine. era época de lançamento de seu ótimo disco de estreia e de lá pra cá a cantora participou de muitos shows do projeto 3namassa (o que acabou lhe garantindo uma participação no especial mtv apresenta: sintonizando recife (2008) e lançou um dvd próprio (ao vivo em são paulo, 2010), entre outras coisas que não faço ideia. mais novidades sobre ela no final do post.


ATENÇÃO! CANTORA EM MOVIMENTO

O tempo fechou. Assim de um dia para outro o sol desapareceu e uma garoa ameaçou cair. O resultado direto destes humores da natureza foi a transferência da entrevista e sessão de fotos, anteriormente marcada no Parque do Ibirapuera. Por sugestão da cantora Marina de la Riva mudamos de mala e cuia para um lugar totalmente diferente, uma loja de roupas femininas nos Jardins. “Tem um café lá dentro, é tranqüilo e bonito também”, explica via celular. Estreante em disco, mas de sólida carreira nas noites paulistanas, Marina chega toda sorrisos apesar do clima esquisito lá fora. Talvez esteja feliz pela ótima receptividade de seu trabalho solo. Talvez a moça seja assim naturalmente. Tudo é talvez até a conversa começar.

“Os senhores vêm sempre aqui?”, brinca ao oferecer um copo de água ao fotógrafo e ao repórter. É que a copeira não aparecia e Marina resolveu ir para trás do balcão e fazer algo. Sede é fogo. “A música sempre foi um negócio tão importante pra mim que não pensava em me profissionalizar. Era uma intimidade com a família, eram os discos da minha avó, uma música que meu pai cantava. A música era como uma placenta passando informações emocionais e intelectuais. Uma forma de viver a saudade deles”. Saudades de Cuba. O pai e uma parte da família paterna da cantora saíram da ilha em exílio e vieram dar com os costados em Baixa Grande da Leopoldina, município de Campos dos Goytacazes (RJ). A mãe mineira também estava pelas bandas e assim Marina de la Riva nasceu.

Mas antes da música sair de sua esfera íntima, Marina passou cinco anos fazendo faculdade de Direito. Estudava as leis à noite e durante o dia trabalhava com a família em uma criação de búfalos. Adorava os búfalos, mas não as leis. Após se formar, a vida de Marina sofreu a primeira virada: casou, mudou-se para São Paulo e teve um filho (que hoje tem 11 anos). “Aí, depois de um tempo, separei, mas continuei em São Paulo. Pensei, vou aproveitar essa cidade da melhor forma possível. Fiz aulas de canto lírico e comecei a cantar com algumas bandas para me encontrar musicalmente. Geralmente cantava jazz. A última em que cantei era muito interessante, chamava-se Alta Fidelidade e fazia um jazz eletrônico. Quero muito fazer um trabalho paralelo com eles porque o som é eletrônico, mas muito orgânico, com metais, bateria e um baixista incrível”.

Só que faltava algo. Não era isso ou não era bem isso. E em 2004, Marina teve a resposta em mais uma virada na sua vida. “Fui à premiação do Grammy e vi o show do [pianista cubano] Bebo Valdés com o [cantor espanhol] Diego Cigala. Nem consegui ver direito o show porque chorei o tempo todo. Ali, naquela hora, entendi o que estava doendo tanto em mim e o que tanto procurava fora, sendo que a história era dentro. No vôo de volta ao Brasil peguei um caderno e escrevi todo o projeto deste disco: onde ia gravar, como ia gravar, a qualidade dos músicos, a sonoridade, o tipo de microfone, o repertório, o que era cubano gravaria em Cuba, o que era brasileiro no Brasil”. A princípio, Marina não iria gravar nada brasileiro, mas quando pisou em solo cubano sentiu vontade de colocar seu lado materno para cantar. Viu que precisava unir musicalmente as duas pontas de sua vida e seguir em frente.

Peraí, mas não rolava nenhuma música cubana em seus tempos de cantora da noite? “Verdade verdadeira? Não. Quer dizer, de vez em quando alguém pedia porque sabia da minha família, mas essas músicas eram íntimas demais. Nunca neguei minha raízes cubanas, afinal sempre que me pediam eu cantava, mas não achava que tinha quer cantar aquilo. Era como uma carta da avó que você não deixa todo mundo ver. É uma coisa sua, e eu adoro a reserva, acho que fortalece o espírito”.

Esta reserva unida a um talento natural fez com que a cantora conseguisse reunir em seu disco de estréia figuras como Davi Moraes, Pepe Cisneros, Webster Santos, Toninho Ferragutti, Papi Olviedo, Ricardo Castellanos e o convidado especial Chico Buarque. E não é todo dia que se pode ouvir, em um mesmo disco, Ernesto Lecuona (“Mariposa”), Dona Ivone Lara (“Sonho meu”), Chano Pozo (“Tin tin deo”), Sivuca (“Adeus Maria Fulô”), Miguel Matamoros (“Juramento”), Silvio Rodríguez (“Te amaré y después”), Ernesto Grenet (“Drume negrita”) e Joubert de Carvalho (“Ta-hí! (Pra você gostar de mim)”). Marina de la Riva conseguiu costurar dentro de si e registrou harmoniosamente em disco duas das culturas musicais mais fortes do mundo. Tem motivos de sobra para distribuir sorrisos em dias nublados.

“A música é o que me interessa, por isso não sou restrita. Precisava escolher uma fotografia, uma identidade verdadeira, para me apresentar. Acho que o processo criativo é como um trem, uma Maria Fumaça... adoro Maria Fumaça... ela é muito pesada e difícil de colocar em andamento, mas depois existe tanta energia que basta mais carvão que ela vai. Com esse meu movimento musical outras coisas estão abrindo e te digo uma coisa, a sensação de sonhar, projetar e realizar é muito boa”. A locomotiva Marina de la Riva não pode (e nem quer) parar.

p.s. 1: recuperei esse texto porque lá no uol fiquei sabendo que a cantora está prestes a lançar disco novo (idílio), cinco longos anos após sua estreia. primeira música e clipe a sair deste trabalho, "voy a tatuar-me" é inédita do cubano amaury gutierrez.


p.s. 2: e aqui o registro da participação no projeto 3namassa. nessa música, especificamente, marina conseguiu a proeza de fazer uma versão a altura da original cantada por thalma de freitas.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

virginias falam, rosas cantam

fazia um tempo que não abria o baú de textos e como hoje acabei cruzando o caminho com a tal pasta fui dar uma olhada. custa nada. bem, achei esse perfil da cantora paulistana virginia rosa que fiz no início de 2007 pra tam magazine. uma das primeiras vocalistas da banda do itamar assumpção - está no disco às próprias custas s.a. (baratos afins, 1983) -, virginia estava lançando seu terceiro disco solo, o ótimo samba a dois (eldorado, 2006), e a conversa rolou em um apartamento em higienópolis (acho que era do empresário e/ou produtor dela, ô memória). de lá pra cá, a moça lançou seu tributo ao grande monsueto (baita negão, 2008) e um dueto com o pianista geraldo flach (voz & piano, 2010), além de muitos shows. é cantora daquelas discretas e fortes, e que ainda tem muito o que cantar.


AS ROSAS NÃO FALAM, CANTAM

A voz é suave e o sorriso aberto. Virginia Rosa é assim ao vivo, mas no palco a doçura se transforma em presença forte e intensa. Tanto faz o repertório ou o tamanho do recinto, o palco é onde ela se sente mais viva. Paulistana filha de mineiros, negra e índia, a cantora está completando em 2007 uma década de seu primeiro disco solo e duas décadas de seu primeiro show como intérprete profissional. E ainda por cima com um disco novo na praça, Samba a Dois, seu terceiro CD e o marco de sua entrada definitiva no time principal de grandes intérpretes da música popular brasileira. No entanto, nada disso seria possível sem um longo aprendizado como vocalista, ou backing vocal como preferirem, de artistas como Itamar Assumpção e Tetê Espíndola. Mas antes, uma volta ainda maior no tempo.

“Meu pai era músico amador, tocava um instrumento de sopro chamado bombardino e um pouco de violão, e minha mãe sempre cantarolava. Então toda a família gostava de brincar de cantar. Meu pai me apresentou Beatles, Secos & Molhados e música sertaneja, enquanto minha mãe cantava Clara Nunes. Depois formei um grupo com meus primos e a gente ouvia Clube da Esquina, Elis Regina, essas coisas”, diz sobre sua formação musical. Para se tornar independente da família decidiu aprender a tocar violão e foi assim que conheceu Rondó, guitarrista que tinha acabado de participar do disco de estréia de Itamar Assumpção, o histórico Beleléu Leléu Eu, DE 1981.

Itamar estava montando uma banda para o lançamento do disco e Rondó perguntou se Virginia não queria conhecê-lo e fazer um teste para ser vocalista. Corria o ano de 1980 e o bichinho da música começava ali a morder seu calcanhar. “Nunca tinha ouvido o Itamar Assumpção. Era um jeito super novo de cantar, uma voz quebrada, percussiva e não muito harmoniosa. E eu gostei muito. Tenho essa característica de ser muito curiosa, não tenho preconceitos. Sempre pago para ver porque só assim fico sabendo se gosto ou não. Depois que entrei vieram a Vânia Bastos e a Suzana Salles, e formamos a Banda Isca de Polícia”, relembra. O aprendizado com Itamar durou cinco anos e resultou em um disco, Às próprias custas S.A., de 1983.

Virginia Rosa partiu desta experiência para as canções brejeiras de Tetê Espíndola e o resultado acabou sendo a participação no Festival dos Festivais da TV Globo em 1985, onde, vestida de coração, fez vocais para a vitoriosa “Escrito nas Estrelas”. “Nessa época ainda não tinha a pretensão de ser uma cantora profissional, mas queria saber mais e comecei a ter, finalmente, aulas de canto”, e foram nestas aulas que ficou amiga de Ná Ozzetti, responsável direta por ter ficado sete anos como cantora da Mexe com Tudo, uma banda de repertório totalmente brasileiro e dançante.

Tudo acontece ao mesmo tempo para quem está aberto e, no mesmo período em que começava com a Mexe com Tudo em 1987, Virginia Rosa fez seu primeiro show solo. “Não foi uma experiência muito agradável. Fiquei muito nervosa, chorei todos os três dias e era tanto de emoção por estar cantando solo quanto por um descontrole pessoal. Não conseguia aliar a técnica do canto a uma interpretação emocionada. Mas foi ali que assumi que era isso que eu queria”, e os palcos foram se sucedendo para uma Virginia mais experiente que conseguiu enfrentar os repertórios variados de grupos como a Unidade Móvel e o Heartbreakers. Em 1997 surgiu o convite para seu disco de estréia e Batuque mostrou uma cantora eclética e firme em seu propósito de cantar o que gosta. “Eu ia pegando as músicas numa ânsia, parecia que não ia conseguir fazer outro disco, parecia que ia morrer”, diverte-se.

“Dos meus três discos o mais maduro em termos de repertório é o Samba a Dois, porque mostra muito bem minhas influências musicais, mas tem um fio condutor muito forte, o samba”, reflete. Mas a princípio e mesmo sendo fã incondicional de samba, Virginia Rosa não se interessou em fazê-lo. “Antes do Batuque tive uma proposta assim, mas não aceitei porque não queria ficar vinculada a um gênero. Hoje as pessoas sabem que sou eclética e só aceitei porque queria fazer um disco de samba no meu estilo”, diz e enumera o repertório que vai de Candeia a Marcos Valle, passando pelos jovens Los Hermanos, Bebel Gilberto e Luisa Maita. Neste balaio, Virginia Rosa ainda encontra espaço para cantar “As Rosas Não Falam” de Cartola em ritmo de tango e dar um mergulho na música portuguesa em duas faixas. “Tenho me interessado por música portuguesa há uns cinco anos e venho querendo concretizar esse casamento entre Portugal e Brasil. Espero que as pessoas gostem porque os portugueses amam nossa música”, explica sobre um cruzamento inédito entre samba-canção e fado.

Após o lançamento de Samba a Dois, a intérprete começa a afiar as cordas vocais para dois novos projetos, um sobre o sambista Monsueto e outro sobre Carmen Miranda, além de lançar em DVD o show que fez em 2003 homenageando Clara Nunes. “Olha, modéstia a parte, eu tenho uma voz agradável...”, e gargalhada ciente de que existem verdades que não adianta esconder.

p.s.: abaixo, virginia canta uma música pouco conhecida de monsueto. "mané joão" (josé batista e monsueto) foi gravado originalmente em um 78 rotações de 1963 e, profeticamente, diz que "menino de rua, menino de barracão, menino que estuda, chega a chefe da nação". o vídeo é cortesia do pessoal do música de bolso.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ela toca campainha e sai correndo

encontrei com maria rita em um café chique na rua oscar freire, em são paulo, acho que em outubro de 2005. nossa conversa estampou a capa da tam magazine (spring) de novembro do mesmo ano, com fotos dos bróders da cia. de foto e coisa e tal. mas antes da entrevista acontecer houve uma certa tensão no ar, principalmente por causa dos assessores da cantora, completamente neuróticos pela recente polêmica criada, com aquela leviandade de sempre, pela revista veja (o caso dos ipods distribuidos pela gravadora warner para algumas figuras da imprensa - aqui, "o mensalinho de maria rita", é comentado por luis antônio giron). nada de fazer perguntas sobre o caso, nada de perguntas sobre a vida pessoal, etc. como se eu me interessasse por fofocas, vejam só vocês. só que quando maria rita chegou e o gravador foi ligado tudo isso desapareceu e a conversa rolou muito bem, e ela sempre muito simpática, muito acessível.

nesse tempo, maria rita estava lançado
segundo (warner, 2005), um disco agradável e sonoramente próximo a sua ótima estreia em maria rita (warner, 2003). depois desse nosso encontro fulgaz, a cantora se mudou para o rio de janeiro e caiu no samba. achei o terceiro disco da moça, samba meu (warner, 2007), um tanto chato, talvez pelo excesso de composições de arlindo cruz - eu realmente não gosto da escola cacique de ramos, não tem jeito - e por respeitar muito o cânone carioca do samba (fiz resenhas dos três discos para o gafieiras e os link estão em maria rita, segundo e samba meu). no mais, maria rita, que ontem completou 33 anos, continua uma das melhores cantoras da atualidade. e a vida continua.

A CERTEZA DE SER MARIA RITA

Quando, há dois anos, a cantora Maria Rita surgiu para o grande público foi com a força de um fenômeno natural, um furacão, um terremoto, um vendaval, e em seu rastro brotaram todo tipo de comentários: produto de gravadora, linda, filha da Elis, produto de marketing, maravilhosa, revelação, filha de César Camargo Mariano, um novo sopro de vida da MPB e assim por diante, para todos os gostos. Muita coisa mudou desde então e Maria Rita tanto ganhou quanto perdeu. Ganhou um filho, Antônio. Ganhou uma legião de fãs de todas as idades, e em mais de 30 países, que levaram as vendas de seu disco de estréia a ultrapassarem as 800 mil cópias. Perdeu o amigo e produtor do primeiro CD, Tom Capone, morto em um acidente nos EUA na noite da entrega do Grammy Latino 2004 (onde Maria Rita, que estava lá, levou três prêmios).

O mundo deu muitas voltas e recentemente deu mais uma paradinha para ver a cantora lançar seu esperado segundo disco, e por isso mesmo intitulado de
Segundo (Warner Music). A Maria Rita que se vê hoje não é a estrela distante que se espera, é apenas uma jovem mulher que sofre quando o filho fica doente, cola frases em sua agenda, brinca, grita, fala palavrão e sente uma força inexplicável quando sobe ao palco e enfrenta platéias com desejos e expectativas tão diversas. “Quem sou eu para julgar as interpretações dos outros. também sou uma intérprete”, disse durante a entrevista exclusiva.

O certo é que Maria Rita faz suas escolhas ouvindo a intuição. Foi assim que manteve a sonoridade ao vivo com piano, baixo e bateria dos amigos Tiago Costa, Sylvinho Mazzuca e Cuca Teixeira: “Se eu mudasse falariam que não tenho personalidade e se eu repetisse diriam que estou seguindo uma fórmula”, brincou. Foi assim que voltou a gravar composições de Marcelo Camelo, da banda carioca Los Hermanos, que no primeiro disco emplacou três e agora volta com duas, “Casa pré-fabricada” e a inédita “Despedida”. Foi assim que apostou suas fichas em compositores pouco conhecidos como Rodrigo Maranhão, Edu Tedeschi e Edino Krieger, além de encarar interpretações pessoais dos clássicos “Sobre todas as coisas” (Chico Buarque e Edu Lobo) e “Minha alma (A paz que eu não quero)” (Marcelo Yuka e O Rappa). Foi assim que chamou o ídolo Lenine para co-produzir o disco a seu lado. E foi assim por diante, feliz e certa de suas escolhas, que chegou ao final das gravações de
Segundo.

mãe elis, filha maria rita

Vendo você nos shows, ouvindo você falar, dá para notar uma postura pessoal bastante discreta. Como é ser assim e ter que lidar com um grande esquema de divulgação que exige superexposição?
É difícil, é algo que gera conflitos mesmo, porque eu realmente sou uma pessoa mais envergonhada, mais caseira. Não gosto muito de falar. E toda essa exposição gera muitos incômodos no dia-a-dia... gente tocando a campainha ou telefonando... mas é claro que é uma escolha. Sou uma artista e quero que as pessoas conheçam meu trabalho, mas é preciso colocar limites. Isso é muito importante.
E onde colocar esse limite?
Também é difícil saber porque uma hora tudo bem e outra hora não. A resposta é vaga... porque sim! Mas a gente também tem que pensar que para a pessoa levantar de onde ela está, respirar fundo... porque, enfim, é um ídolo dela ou é alguém que ela admira... e vir falar exige também uma coragem. Mas ao mesmo tempo vejo palavras minhas numa revista e não disse nada daquilo ou... quem tirou esse foto do meu filho? Quem deu autorização? Eu só trabalho com quem me cobra. Não sou preferencial, preferenciável ou prereferenciada. Não quero isso. Quero que respeitem meu trabalho, e as pessoas com quem trabalho, como respeito o trabalho de todo mundo.
E como foi esse aprendizado de lidar com todas essas questões?
Como tudo aconteceu muito rápido no primeiro disco, foi uma coisa meio no susto, não tive muito tempo para digerir. É assim? Então tá! Mas é um aprendizado diário. Chegou um momento na turnê do primeiro disco que não conseguia dormir, não conseguia sair com os amigos, namorar, tava fazendo mal a minha saúde. Foi muito delicado. E ao mesmo tempo você tá no meio disso tudo e não dá pra parar porque tem gente que tá comprando, gente que tá vendendo, gente que tá segurando a onda.


Maria Rita - Cara Valente
Enviado por azvix_1
Mas você esperava que fosse assim? Qual era tua expectativa?
Eu achei, claro, que fosse ter uma procura porque sou filha de dois grandes ídolos da música brasileira e minha mãe tem muitos fãs até hoje. Achei que houvesse uma curiosidade normal. Mas não achei que fosse tanto e que fosse tão rápido. De repente começou a encher o Supremo Musical
[onde Maria Rita começou a cantar ao lado de Chico Pinheiro e Luciana Alves logo que voltou dos Estados Unidos], que tinha 70 lugares. Tivemos que fazer shows extras. Aí mudamos para um outro lugar um pouco maior, o Crowne Plaza. E começou a lotar também. Recebi até uma carta de uma fã dizendo que apanhou na fila porque queria comprar quatro ingressos e a gente tinha limitado em dois por pessoa. Uma loucura. Essa rapidez com que as coisas aconteceram me impressionou. E tenho que entender meu lugar nisso tudo.
Você já fez os shows de lançamento do disco novo em São Paulo e no Rio de Janeiro. Notou alguma diferença no público deste disco para o público da sua estréia?
A gente já notou uma diferença durante a turnê do primeiro disco. O público foi ficando mais jovem. No começo apareceram os fãs da minha mãe, fãs de todas as idades, mas rapidamente isso foi mudando, foram aparecendo jovens, adolescentes e até crianças. As pessoas cantavam as minhas músicas e, juro, nunca ninguém pediu nenhuma música da minha mãe nos shows. Acho que todos logo perceberam que quem estava ali no palco era a Maria Rita.
E como surgiu a idéia do Lenine produzir o disco?
Quando o Tom Capone morreu eu fiquei muito insegura. Foi um baque muito forte porque a gente se entendeu muito rápido e era uma coisa que não precisava de palavras. No olhar a gente se entendia. Tinha muita verdade, muita entrega. E ele virou logo uma referência musical pra mim porque produziu de tudo, MPB, rock, tudo. Foi difícil pensar em um produtor novo. Aí, um dia, o Álvaro [Alencar], que é amigo de infância do Tom e foi engenheiro de som do primeiro disco, disse: “E o Lenine?”. O Lenine? E foi o primeiro nome com quem me senti confortável. Já tinha gravado uma música dele no primeiro disco (“Lavadeira do rio”) e o admiro muito. Senti que esse era o caminho e que tava tudo bem.


Você manteve a mesma sonoridade do primeiro disco no segundo com piano, baixo e bateria. Ao vivo. Foi uma escolha natural?
Pois é, se eu mudasse falariam que não tenho personalidade e se eu repetisse diriam que estou seguindo uma fórmula [risos]. Um dia eu tava folheando uma revista e vi uma propaganda, tinha uma mulher toda poderosa, um fundo branco ao lado, e uma frase que dizia assim: “A intuição é a arma mais poderosa da mulher. Use-a!”. Achei aquilo o máximo, colei na agenda e tudo. Decidi usar minha intuição, meu coração e pensei... porque mudar? Estou com esses músicos há anos, são meus amigos. Eles entendem minha linguagem corporal no palco. A gente se entende muito bem. Segui então minha intuição.
Mas você tem vontade de se envolver com outras sonoridades, outros tipos de formação?
Tenho sim. Gosto muito de metais e uma paixão pelo trompete. Gosto de cordas. Tenho vontade de fazer uns projetos especiais, mas não sei se esse é um nome adequado. Gosto de rock, tenho isso dentro de mim. Quero colocar isso pra fora. Não sou uma bonequinha! Não mesmo. Fico indignada com muitas coisas, com todas essas injustiças sociais, crianças abandonadas na rua, e acho que tem sonoridades que cabem melhor a esse tipo de indignação. O rock, por exemplo.
E você toca algum instrumento?
Campainha [risos]. Adorava tocar campainha e sair correndo [risos]. Mas tenho vontade de aprender algum instrumento sim, mais até do que compor. Tem esse lance de menininha... papai é meu herói... então tenho um lance com piano. Acho piano tão bonito!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

encontros: ceumar & dante ozzetti

mais um encontro musical do fundo do baú. outro texto feito para a tam magazine, em tempos de editora spring, lá em setembro de 2006. a entrevista com ceumar e dante ozzetti aconteceu na casa de dante numa tarde bonita e foi tão deliciosa quanto a audição do disco que a dupla produziu naquele ano (achou!). de lá pra cá, ceumar se mudou para amsterdã - acho que casou com um gringo - e ano passado lançou o seu terceiro disco solo, meu nome. já dante segue acompanhando a irmã ná ozzetti e em outros projetos especiais, mas não lançou nenhum outro disco autoral.

a colorida capa de achou! (assinada por jaime prades)

PARCERIA É INVESTIMENTO, AMOR TAMBÉM


É fácil ver quando uma música pega em um show. Os pés das pessoas começam a bater ritmadamente, a cintura balança, tudo se espalha por cabeças e braços, sorrisos despontam e dá pra ver a vontade, estampada na cara, de cantar junto. Foi bem assim que o público do Festival de Música Brasileira da TV Cultura, realizado no segundo semestre de 2005 em São Paulo, recebeu a música “Achou!”, parceria de Dante Ozzetti e Luiz Tatit defendida pela cantora Ceumar. A canção ficou com o segundo lugar em uma polêmica decisão dos jurados, mas Ceumar e Dante, que esteve no palco tocando violão ao lado da cantora mineira, preferiram comemorar a alegria de terem tocado juntos uma música cuja recepção foi pra lá de calorosa. Assim mesmo, sem traumas nem esconjuros, como deixaram bem claro em conversa de fim de tarde.


“As músicas concorrentes tinham torcida e ‘Achou!’ acabou sendo incorporada por todas no decorrer do festival porque ela tem uma coisa que contagia todo mundo”, é Dante procurando explicações. Já Ceumar acredita que “a letra fala do amor de um jeito atual e as pessoas estão ligadas nesse jeito novo de falar, nesse jeito novo de amar. Com a recepção do público a gente ficou com uma sensação de ‘e aí?’”. A resposta veio em forma de um convite da gravadora MCD para gravar um disco e o resultado é Achou!, CD com doze faixas, sendo que oito delas compostas especialmente para o projeto por Dante em parcerias com Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Chico César, Kléber Albuquerque e Luiz Tatit. “Fui compondo pensando no meu universo e no universo dela e dos músicos pra construir uma coisa da gente. Tudo deu certo desde o começo”, relembra Dante sobre o processo de composição que atravessou todo o mês de janeiro [de 2006]. Ceumar completa que “uma referência pra gente em termos de parceria foi o Elis & Tom, um disco clássico e básico. Não com a pretensão de ser um outro Elis & Tom, claro, mas buscando aquele primor, aquele cuidado”.
Ceumar e Dante já se conheciam por amigos em comum, mas somente no ano passado começaram a trabalhar juntos. Primeiro, quando o violonista convidou a cantora para participar em uma temporada que fez no paulistano Café Piu Piu. Depois, a cantora convidou o violonista para escrever arranjos para uma apresentação sua com a Orquestra de Cordas de Curitiba. A empatia entre os dois foi rápida e desaguou no festival. “A Ceumar tem uma baita presença de palco. É impressionante. Ao final do show todo mundo quer levar ela pra casa”, derrete-se Dante. Após um breve sorriso, entre orgulhoso e tímido sobre o reconhecimento, Ceumar admitiu que “há tempos adoro as composições e o violão do Dante. Foi legal ver outros lados da minha voz, e muito desafiador também porque tive que estudar para encontrar estas músicas. E elas são lindas e muito sofisticadas nas melodias”.

Samba rasgado, frevo, xote, rock e balada estão no cardápio deste primeiro registro da dupla, e da banda, também creditada como co-responsável pela sonoridade afiada e a alegria coletiva transmitidas pelo CD. “Minha função no grupo era de desestabilizar”, diverte-se a única mulher do bando. Com dois discos solo na bagagem,
Dindinha (MCD, 2000) e sempreviva! (MCD, 2002), Ceumar vem de uma carreira independente e sólida onde é conhecida tanto como compositora quanto como violonista, além de também interpretar canções de Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Zé Ramalho e Zeca Baleiro (autor de “Dindinha”, música que a lançou no final da década de 1990), entre outros. Dante Ozzetti, por sua vez, é mais conhecido por seus trabalhos como músico, arranjador e produtor para a irmã Ná Ozzetti. Ganhou, em 2000, o Prêmio Visa – Compositores o que lhe possibilitou gravar seu disco de estréia solo, o belíssimo e pouco conhecido Ultrapássaro (Eldorado, 2001).

Com o disco nas lojas e shows de lançamento planejados
, Ceumar e Dante concordam em uma coisa: “ninguém sabe o que vai acontecer”. Mas como bem diz a cantora, “o que me interessa é atingir a pessoa que tá ouvindo e fazer ela sorrir ou chorar. Acho que é assim, pelo coração, que a gente consegue atingir mais pessoas. Afinal, não temos nenhuma obrigação, somos independentes, e sabemos que existe um espaço para a curiosidade”. E ambos saem para fazer as fotos que ilustram esta matéria, Dante com seu violão e Ceumar acompanhada de uma sombrinha roxa, felizes porque sabem que investir é isso, é cultivar o amor.

p.s.: segue abaixo o video de uma das apoteóticas apresentações de "achou!" no festival de música brasileira da tv cultura em 2005. e aqui nota que fiz sobre o disco para o gafieiras.


quarta-feira, 17 de março de 2010

encontros: ná ozzetti & andré mehmari

de volta ao baú. essa minha reportagem sobre o encontro da voz de ná ozzetti e o piano de andré mehmari saiu na tam magazine de setembro de 2005. a entrevista com os dois rolou na bela casa-estúdio que o pianista mantém na serra da cantareira, na parte mais verde da zona norte paulistana, e veio à reboque do lançamento do disco piano e voz (mcd, 2005). esse disco ganhou uma versão ao vivo (em cd e dvd) no ano de 2006 e depois disso ná e mehmari voltaram a centrar fogo em suas próprias carreiras. no início de 2009, e após uma bem sucedida série de shows, ná entrou em estúdio para gravar balangandãs (mcd, 2009), sua homenagem a arte de carmen miranda. já o elétrico mehmari gravou dois discos de piano solo pra série mpbaby (beatles em 2005 e clube da esquina em 2008), uma parceria com hamilton de holanda (contínua amizade, 2007), uma com gabriele mirabassi (miramari, 2009) e o autoral ...de árvores e valsas (monteverdi, 2008).

a voz de uma e o piano do outro

DE COMO AFINAR MÚSICAS E AFETOS

Tudo aconteceu muito rápido. Primeiro veio um convite do Rio Grande do Sul ao pianista André Mehmari para uma série de recitais de piano e voz com vários artistas no final de 2004. Mehmari chamou então Ná Ozzetti e sua voz. Nos ensaios ficou claro que a química entre os dois era forte demais para apenas um show e após a bem sucedida apresentação em Porto Alegre decidiram registrar o encontro. Gravado em dezembro na casa-estúdio do pianista e lançado em maio, o disco
Piano e Voz (MCD, 2005) lotou os shows de lançamento em São Paulo e surpreendentemente alcançou o primeiro lugar de vendas em lojas como a Fnac.

“Estamos apenas no começo”, ameaçou entre risos Ná Ozzetti em entrevista exclusiva. Em julho houve uma pausa no lançamento porque ambos estavam com outros compromissos. Mehmari foi ao Japão ao lado de Joyce e Dori Caymmi. Ná esteve na França pelo Projeto Pixinguinha com Jards Macalé, Dona Selma do Coco e o grupo instrumental Nó em Pingo d’Água. O segundo semestre promete shows em outras partes do país como Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte. “Acho que tanto pra mim quanto para o André esse trabalho era apenas um projeto paralelo. Só que o envolvimento acabou sendo tão grande que não encaro mais o disco assim. É um trabalho meu, tem a minha cara nele e é um trabalho do André também”, e os olhos claros da cantora paulistana faíscam de orgulho.

Mehmari não deixa a bola cair e emenda: “Temos gravados todos os ensaios que fizemos e dá para ver bem a evolução natural até chegar ao disco. Não tivemos nenhuma reunião de pré-produção, simplesmente saímos tocando e aí, numa pausa logo nos primeiros ensaios, a Ná disse que a gente precisava gravar um disco”. Em perfeita sintonia, como uma dupla afiada, Ná completa que “era uma judiação tocar apenas um dia e depois nunca mais se ver, ainda mais quando o trabalho estava ficando tão bacana”.

Um dos pontos que mais aproximaram os dois artistas foi o processo de escolha de repertório até o ponto em que, atualmente, nem se lembram direito, ou não se importam, em saber quem sugeriu o quê. “O disco tem uma coisa muito essencial... sei que sou suspeita pra falar... mas o que me agrada no disco, como ouvinte mesmo, é a sinceridade do repertório. Foram músicas que escolhemos como pérolas mesmo e acho que elas representam muita coisa pra muita gente também”, afirma Ná. Basta lembrar então que o disco traz Chico Buarque (“A ostra e o vento”), Caetano Veloso (“O ciúme”), Pixinguinha (“Rosa”), Milton Nascimento (“Os povos”), Beatles (“Because”), Ernesto Nazareth (“Bambino”, com letra de Zé Miguel Wisnik) e Lupicínio Rodrigues (“Felicidade”, misturada a duas músicas de Egberto Gismonti). Para Mehmari “este disco salta como uma obra de arte livre de clichês e convenções mercadológicas onde o encontro de afinidades de duas vozes é o tema principal”. Ambos concordam que o encontro sincero de dois afetos musicais é o motivo para o sucesso do CD e dos shows.

“No disco colocamos “Luz negra” do Nelson Cavaquinho e “Pérolas aos poucos” do Zé Miguel Wisnik, porque não conseguimos ensaiar a tempo do show. Entrou também uma inédita do André, “O vôo da bailarina”. A gente fazia no show três do Jobim e decidiu não colocar no disco porque já ia sair em um livro. Acabou que ficou só uma versão diferente de “Gabriela” porque o André fez questão. Hoje é uma das que eu mais gosto”, relembra Ná. O livro em questão é
Três canções de Tom Jobim (Cosac Naify) onde os ensaístas Lorenzo Mammì, Arthur Nestrovski e Luiz Tatit analisam três clássicos do cancioneiro de Jobim (“Sabiá”, “Águas de março” e “Gabriela”). O livro traz CD encartado com as interpretações de Ná e Mehmari.

E como entender essa química? “Temos posturas parecidas perante a música e disponibilidade de trocar idéias musicais. Muitas vezes os músicos não se permitem fazer essas interfaces musicais com outros músicos. Gosto muito desse diálogo, por isso tenho vários duos, trios, acho muito rica essa experiência. Eu e a Ná somos assim, nos preocupamos com a música”, responde Mehmari enquanto dedilha algumas notas em seu piano. Ná também possui uma resposta para tal pergunta: “Eu me identifico muito com a sensibilidade dele, com o tipo de arranjo que ele faz, o modo como ele conduz a música, tudo isso casa direitinho com o jeito como sinto a música também. Tenho universos musicais em que transito e ele não. Ele tem outros universos musicais em que não transito. Mas naquele lugar que a gente se encontrou tem muita coisa em comum e de uma forma muito forte”.

Ná Ozzetti e André Mehmari divertem-se nesse parêntese musical que a vida lhes pregou, mas não descuidam de suas próprias carreiras. Ná, que surgiu na década de 1980 no cultuado grupo Rumo e seguiu em carreira solo com discos elogiados como
Love Lee Rita (1995), Estopim (1999) e Show (2001), prepara um disco de inéditas. Já Mehmari, vencedor em 1998 ao lado do baixista Célio Barros do 1º Prêmio Visa de MPB e um dos arranjadores brasileiros mais elogiados da atualidade, termina disco com versões instrumentais para canções dos Beatles enquanto ainda colhe os louros pelo disco Lachrimae (2004). Os dois não param, nem poderiam, afiados que são.

pra encerrar o post, o video de ná e mehmari aprontando das suas em "a outra e o vento" (chico buarque), música que estava no shows, entrou no disco original e, obviamente, emplacou no dvd ao vivo. uma das melhores músicas a sair do cancioneiro mais recente de chico numa interpretação de chorar.



p.s.: lá no gafieiras tem resenhas do cd piano e voz, do dvd piano e voz e do mpbaby beatles. isso sem falar na ótima entrevista que fizemos com ná ozzetti em 2008.

sábado, 5 de dezembro de 2009

olhos de sabatella

foi em março de 2005 que começou efetivamente minha colaboração com a tam magazine (spring) e durou até dezembro de 2007 quando a revista se mudou para outro editora. um dos primeiros textos que fiz lá foi uma entrevista com a atriz letícia sabatella, direto de curitiba, onde já estávamos (eu, rafael jacinto e pio figueroa, os manos lá da cia de foto) para fazer outra pauta sobre a própria cidade. naquele momento, a atriz estava descansando e colhendo os elogios pela minissérie hoje é dia de maria, de luiz fernando carvalho. pouco depois enfrentaria a segunda parte da minissérie e pisaria no acelerador atuando em outra minissérie (jk), novelas (páginas da vida, desejo proibido e caminho das índias) e cinema (vestido de noiva, não por acaso, romance e o ainda inédito chico xavier). segue a entrevista com algumas instantâneos que tirei durante a sessão de fotos (tem uma outra, a que mais gosto, que coloquei aqui no blog em maio).
TODA MULHER É MEIO LETÍCIA

Mais uma vez a platéia somos nós. Sentados nas primeiras fileiras do cinquentenário Guairinha - o primeiro dos auditórios construídos no complexo do Teatro Guairá -, observamos a chegada mansa de Letícia Sabatella ao palco. Mineira de nascimento e paranaense de criação, a atriz é um exemplo raro, pelo menos nos dias de hoje, de coerência artística, discrição pessoal e paixão intensa por tudo o que faz.

A razão da entrevista ser em Curitiba é simples. Recarregar as baterias com a família após a excelente repercussão de Hoje é Dia de Maria, microsérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho, onde a atriz contracenou com Rodrigo Santoro, Fernanda Montenegro, Osmar Prado, Daniel Oliveira e Stênio Garcia. Ao vivo parece muito com seus personagens televisivos, Maria inclusive: doce, atenciosa, tranquila, romântica e firme. Em tudo se concentra e se entrega. No palco, as fotos. No camarim, a maquiagem, os cabelos, as roupas e a entrevista.

A data de seu nascimento não podia ser mais reveladora: 8 de março, mais conhecido como Dia Internacional da Mulher, logo ela que já foi muitas, todas apaixonadas. Letícia já se chamou Taís em O Dono do Mundo (onde conheceu o ator Ângelo Antonio, pai de sua filha Clara), Salete em Agosto, Ana em A Muralha e Latiffa em O Clone, fora Luíza, Diana, Márcia, Celeste e outras Marias.

“E se eu virar pra esse lado?”, pergunta Letícia ao fotógrafo. “Tá ótimo, mas é que no retrato da capa as pessoas costumam estar viradas para o lado esquerdo, aparecendo mais o lado direito do rosto, no sentido de quem vai abrir a revista. Ou então de frente”, responde semioticamente o fotógrafo. “Ah, tá! Se ficar de costas, então, ninguém vai ler a revista?”, brinca a atriz. Mesmo de costas na capa é certeza que todos, e todas, abririam a revista à procura de seus olhos grandes e do sorriso maior ainda.
Como é sua relação com Curitiba?
Eu nasci em Belo Horizonte, mas com quatro anos vim pra cá, a família do meu pai é de Curitiba. Hoje meus pais moram aqui, meu irmão, avós. Então, desde os quatro anos até os vinte anos eu morei aqui. Estudei, entrei no balé aos oito anos aqui no Guaíra e fiz até os dezessete. No Guaíra a gente convivia com muitas coisas, com teatro, orquestra, coral... entrei no Coral Sinfônico do Paraná... nessa época eu já estava fazendo faculdade de teatro na PUC. Eu era amiga dos porteiros e via todas as peças que vinham pra cá. Então, o Guaíra era o lugar, né? Curitiba foi onde aprendi muita coisa.

Como foi essa passagem de Curitiba para a TV Globo?
Fiz uns dois anos de faculdade e fui chamada pra fazer um teste na Globo para o especial Tereza Batista. Não fiz esse trabalho, mas acabei logo depois no primeiro especial dirigido pelo Luiz Fernando Carvalho, Os Homens Querem Paz. Foi a primeira pessoa com quem trabalhei. Isso em 1991. E foi ele que dirigiu esse meu último trabalho, Hoje é Dia de Maria. Até hoje, o Luiz é pra mim uma referência muito importante. Ele é o meu mestre e me orienta em muita coisa.

O que teve de diferente em Hoje é Dia de Maria para tuas outras experiências televisivas?
A radicalidade da experiência, da linguagem empregada... acho que foi um marco pelo espaço de arte que conquistou na TV com uma valorização brilhante da cultura popular. O texto é poético o tempo inteiro, e também tão corrente. Existe uma poesia tão grande na fala popular que tem muito a ver com o ambiente que a pessoa vive, os bichos, os passarinhos... tem uma grande amiga que é vizinha do meu sítio lá no interior do Rio de Janeiro e a voz dela me lembra muito o cacarejar de uma galinha... “Mas o quê-quê-quê é isso?” [risos]... isso é lindo. E a minissérie teve coragem de mostrar e dar valor a isso. Outra coisa é pode trazer novamente o símbolo pra televisão. No teatro você não precisa colocar um pássaro de verdade ali voando. Você deixa o público simbolizar o pássaro. E em Hoje é Dia de Maria a gente trouxe isso de novo. Tinha um refletor que era o sol e o refletor era enquadrado. O cavalo... apareciam as rodinhas. O pássaro... apareciam os fiozinhos da marionete. Todo mundo acreditava. Poder trazer o simbólico de novo é muito bom.

A minissérie conseguiu reunir cinema, teatro e TV. Tem algum desses meios que você se sente mais à vontade?
E tem o canto também, tem uma coisa operística. Mas acho que essa experiência da minissérie me fez sentir mais à vontade ali, sabe? Poder usar um veículo tão mágico como a televisão, tão abrangente, e ao mesmo tempo com uma linguagem tão bem cuidada quanto a do cinema e também o lúdico do teatro. Como atriz eu busco tudo isso junto. Sou uma pessoa mais introspectiva e através de um personagem eu me expresso bem melhor. Uma máscara me ajuda muito [ri].

O que te interessa na cultura popular?
A cultura é popular, né? Pra mim não tem como separar uma coisa da outra. Agora, sou uma atriz que moro no Brasil e que é riquíssimo nesse aspecto. Na faculdade a gente tem aulas de Teatro Grego, Commedia Dell’Arte, que é genial, é muito legal, são as origens do teatro, mas quando você começa a viajar pelo Brasil, tem tanta coisa que você fica saciada. Não precisa sair do Brasil porque aqui é muito rico. Claro que é legal viajar e ver outras coisas, mas o Brasil é fantástico, e quando você vai em busca do teatro popular você vê sua função na comunidade. O que o teatro traz pra comunidade? Traz auto-estima, tece críticas à sociedade e abre os olhos pro avesso das coisas de modo que se possa enxergar o caminho da harmonia.

Você acha que suas escolhas, tanto no cinema, quanto no teatro e na TV, se dão em algum sentido por essa função social?
Sim, mas não em um sentido panfletário. Tenho até medo de parecer pedante... porque tenho noção do meu tamanho... mas acho que não tem outro jeito de dar um sentido pra sua vida. Minha escolha pelo teatro não foi pra ser famosa, pra ter um status social e ter dinheiro... pelo contrário, não tinha ninguém na minha família que fazia isso e todo mundo achava que era um trabalho que não tinha estabilidade e tal. Quer dizer, foi uma sede mesmo. E cada vez mais fui descobrindo que apesar de todo aparente culto à vaidade o que na verdade tem que se ter menos é vaidade.

Como você faz para se manter afastada desse mundo de celebridades?
Tem muita celebridade, não é difícil. Sempre vai ter alguém aí [risos]. Mas o legal é não fazer da sua vida um evento, eu não faço isso com a minha. Eu me refugio muito, gosto muito de ir pro mato e também me interesso muito em saber o que está acontecendo nas veias do país... fui agora pela segunda vez ao Fórum Social Mundial em Porto Alegre... então, diante disso a gente pensa, “será que tenho tanto a dizer pra ficar aparecendo nas revistas?”. Às vezes é interessante você falar alguma coisa pra construir o teu espaço e poder tocar na orquestra. Mas não é tão interessante você dizer se emagreceu ou engordou.

Teu aniversário cai no Dia Internacional da Mulher, dia 8 de março. Você já descobriu o que é ser mulher?
O legal é ser e sendo não ter medo do que se é. Pra mim ser mulher passa mais pela essência da pessoa e no momento a minha feminilidade tá plena e, por incrível que pareça, o meu lado masculino também tá sendo exercido. Sinto que estou encontrando esse equilíbrio entre o masculino e o feminino dentro de mim... do que é força, do que é ação, da vontade de revolucionar e mudar algumas coisas, de conquistar coisas, vamos chamar isso de masculino... e do que é amorosidade, conservação, cuidado, receptividade, do que seria feminino. E ser mulher hoje em dia é não abrir mão dessas duas dimensões. Mais que tudo, eu não abro mão de ser uma pessoa. Não quero ser só uma mulher, e muito menos essa mulher da sociedade de consumo, a mulher produto, a mulher desejada, fragmentada em pernas, bundas, seios... não quero ser só isso. A existência é mais importante e a gente tem que olhar o ser humano integrado. Uma criança não é só uma criança, tem uma velha sábia ali. Como em uma velha sábia tem também uma criança. O mais legal é ver o universo em cada um.

abaixo uma cena particularmente bela de hoje é dia de maria, com letícia e rodrigo santoro.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

tom zé chora quando vê moça nua

entrevistei tom zé apenas uma vez e foi na época da tam magazine da spring e do genial disco estudando o pagode - na opereta segregamulher e amor (trama, 2005). fui lá com o pessoal da cia. de foto e passamos um divertido fim de tarde. de lá pra cá, o baiano não parou: lançou o irregular danç-êh-sá (elo music/tratore, 2006), o dvd e álbum virtual danç-êh-sá - dvd ao vivo (trama, 2008) e o interessante, e muito feminino, estudando a bossa - nordeste plaza (biscoito fino, 2008), além de fazer muitos e lotados shows. em tempo: acho que estudando o pagode é um dos melhores e mais finos trabalhos de tom zé (com méritos a produção de jair oliveira), o que não é pouca coisa.

foto tirada durante a coletiva/happening pro disco estudando o pagode

OUTRO BAIANO QUE AMA AS MULHERES

Acompanhar o raciocínio sinuoso, bem humorado e instigante de Tom Zé é uma aventura em si. Sua fala e mais ainda sua música são uma sucessão de corredeiras, montanhas, vales, cascatas e lagoas. Em alguns momentos pode assustar, mas na maioria das vezes a viagem é repleta de surpresas delirantes. Mais elétrico que nunca, este jovem de 67 anos, acaba de lançar seu mais novo trabalho pela Trama, o CD Estudando o Pagode, onde trata de dois assuntos que lhe são muito caros no momento: a cultura de massa e a segregação da mulher.

“Eu trabalho no fio da navalha entre o ridículo e o brilhante”, avisa para quem possa achar que tais assuntos são indigestos para o universo da canção popular brasileira. Nada de tese ou panfletos. O que Tom Zé faz mais uma vez é colocar a política a serviço da música para mostrar mais uma vez que ama as mulheres. Está ao lado delas contra os homens, esses “pobres miseráveis”, que não sabem como satisfazê-las. Não é a toa que são cantoras que mais o interpretam. A lista possui nomes que vão de Mônica Salmaso a Zélia Duncan, passando por Rita Lee, Jussara Silveira, Ana Carolina e Gal Costa, e neste disco o time é reforçado por Suzana Salles, Luciana Mello e Patrícia Marx.

Há pouco tempo atrás o baiano de Irará escreveu uma música reveladora de sua atração pelo sexo oposto no disco Jogos de Armar. Reveladora tanto no título, “Medo de mulher”, quanto em seus deliciosos últimos versos: “Boi, boi, boi cara de lua / Toim Zé ainda chora / Quando vê moça nua”. Confira abaixo o que Tom Zé acha disso tudo:

Qual era a sua expectativa antes de lançar o disco?
Tem duas versões para essa resposta. A primeira é a que eu esperava conseguir vender os 40 mil discos que costumo vender. A outra... quando você faz um disco pensa que tá fazendo o melhor do mundo... não diz isso a ninguém, mas no íntimo você pensa... e que você vai criar um problema na porta das lojas. Esse é o sonho. Mas depois você vê a realidade que não é tanto nem tão pouco. Penso assim: o que adianta você ter algumas idéias se você não ama o público? Você precisa amar as pessoas que lhe sustentam. Quem me sustenta é esse público, então tenho que atender a estas pessoas com algo que dê auto-estima, vontade de aprender alguma coisa e um leque maior de diversificação estética. E tenho que reduzir isso a um sistema que fique viável pra eles. Por isso que resolvi fazer música popular, para ver alegria e entusiasmo nos olhos das pessoas. Trabalho para isso e também para produzir essa proteína chamada rebeldia.

E o que você achou da recepção?
Tenho sempre que agradecer a crítica que é sempre muito gentil. Mas dessa vez foi um pouco mais que o de costume. E o show... ninguém esperava lotar o Sesc Pinheiros três noites seguidas. Mil pessoas por noite. A gente teve medo, mas quando chegou de tarde lá já soube que tava lotado. Foi uma alegria, virei o maior lotador de teatro. Na França não é surpresa, uma semana antes já estava lotado. É mais surpresa ser bom aqui no Brasil porque geralmente o exterior me recebe com muita alegria.

A maioria das matérias sobre o disco privilegiou mais a questão do pagode que a da mulher e isso ficou ainda mais patente na sua participação no Roda Viva (TV Cultura). Porque você acha que a crítica foi mais por esse lado?
O machão brasileiro prova mais uma vez que ele não trata do assunto que não quer tratar (risos), mas não posso querer mal a ninguém, porque as pessoas me ajudam... o engraçado é que todo mundo sente que tá elogiando quando falam que sou um artista complexo, difícil e tal, e eu venho lutando para ser mais popular... mas voltando, o preconceito contra a mulher é muito forte, contra homossexuais, lésbicas, pobres e contra tudo é muito forte. Tanto que as perguntas eram... você fez pra esculachar o pagode? E o assunto de que uma classe no Brasil colocada de lado, completamente excluída, que não tem direito a nenhuma educação e que é submetida a uma cultura de massa terrível... isso não interessa. Só interessa falar mal do pagode.

E qual a saída para o homem deixar de ser esse pateta miserável?
Se soubesse a resposta não tinha feito o disco (risos). Mas é o caso de voltar ao meu tempo de solteiro. A minha primeira namorada... na década de 1960 você não transava com as namoradas, mas quando a intimidade vai aumentando, cinco ou seis anos, você já pega em tudo como todo mundo. E ela, à cada novidade que surgia, interiormente comemorava, vibrava. Com outras namoradas isso não aconteceu e eu não sabia o porquê. Depois soube: elas não vibravam, não gozavam. Era como se não tivesse acontecido nada. A minha tese é que as mulheres não gozam porque foram criadas com preconceito em relação ao sexo. A condição feminina é vilipendiada em todo lugar. Fora isso as mulheres não são convenientemente excitadas ou são largadas pelo macho depois que goza. Esse assunto tem que ser mais discutido. O homem precisa deixar de ser esse autista para ver que é uma desvantagem ter a mulher como uma inimiga em potencial. Foi um péssimo negócio. Olha, a mulher com o pé atrás torna a vida na Terra um desastre.

O homem precisa de educação, de alteridade...
Muito bem. Nós estamos muito ruins nesse negócio de alteridade. Estamos ruins com as mulheres, com os pobres, com as religiões e com o planeta. Respeitar os outros, né? Tudo na vida é um constante aprendizado e cada dia é um mistério.


e pra encerrar, o clipe de "o amor é um rock", um das melhores faixas do disco.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

roberta sá ao vivo e a cores

encontrei pela primeira vez com a cantora roberta sá no final de 2006 para uma reportagem pra tam magazine que saiu em dezembro do mesmo ano (ela estava entre o primeiro e o segundo disco). depois a entrevistei por telefone pra monet, logo após o lançamento do segundo. muito simpática e acessível, a cantora está agora lançando seu terceiro trabalho, e o primeiro dvd ao vivo, pra se ter alegria (mp,b/universal, 2009). gosto bastante dos discos de estúdio e roberta certamente é uma das boas cantoras brasileiras do momento, mas algo me incomodou neste ao vivo (que tem participações de marcelo d2, hamilton de holanda e do maridão pedro luís). ela parece cercada de uma aura de diva, cheia de caras, bocas e gestos, a voz muito impostada. falarei com mais calma, e após assistir novamente o dvd, no gafieiras. no site, aliás, falamos do primeiro (braseiro, 2005) e do segundo disco (que belo estranho dia pra se ter alegria, 2007). detalhe: o show pra se ter alegria será exibido pelo canal brasil (que é parceiro do projeto) em novembro. segue então meu texto de 2006.


AS MUITAS CORES DE ROBERTA SÁ

É samba o que toca no fim do corredor de uma loja colorida e feminina nos Jardins, em São Paulo. Roberta Sá está em casa, quadruplamente em casa. Feminina, colorida, apaixonada por sambas de todas as idades e irmã da dona da tal loja, a cantora que nasceu em Natal (RN) e se mudou aos 9 anos para o Rio de Janeiro é também a dona da voz que sai das caixas de som. A reportagem a pegou em meio ao delicado processo de escolher roupas para as fotos e para o show que faz na mesma noite cumprindo uma movimentada agenda até o fim do ano, época em que pretende dar uma pausa e iniciar a produção de seu aguardado segundo disco.

“Acho que você tem quer fazer um disco quando está com vontade. É uma história nova, não uma obrigação, e só agora é que está começando a pintar novamente essa vontade. Minha vida ficou muito intensa depois que lancei o primeiro disco e agora, depois de tudo que eu ouvi, cantei e li nestes dois anos, é que estou com novas histórias para contar”, explicou sobre o disco que deseja lançar em 2007. Revelada para o grande público há cerca de três anos quando, após uma breve passagem pelo programa Fama (TV Globo), emplacou sua interpretação de “Vizinha do lado” de Dorival Caymmi na trilha sonora da novela Celebridade (TV Globo), Roberta Sá aproveitou o embalo e lançou seu disco de estréia, o elogiado Braseiro (MP,B/Universal), no início de 2005. Além de Caymmi, o disco trouxe uma intérprete segura em canções de autores como Chico Buarque, Marcelo Camelo, Paulinho da Viola, Janet de Almeida, Pedro Luís, Teresa Cristina, Lula Queiroga e Paulo César Pinheiro, entre outros.

“Estou com mais controle da minha voz e da minha emoção no palco. Ficava muito emocionada, mas não acho que fosse ruim, mas é preciso certo autocontrole para canalizar no que as canções pedem”, revelou enquanto se acomodava entre as inúmeras almofadas coloridas de um sofá rústico de madeira. A emoção que Roberta Sá canta atende pelo nome de samba, mas não pára por aí. “Tudo me interessa em questão de música brasileira. Sou apaixonada por todos os ritmos, um tanto porque sou de Natal e lá convivi com a cultura nordestina desde criança, mas em casa também se ouvia de tudo, de Tom Jobim a Geraldo Azevedo, de Ney Matogrosso a MPB-4. Depois que fui para o Rio tive contato também com a música pop, tipo Lulu Santos e Paralamas”, e sorri ao relembrar da mudança que a deixou mais esperta, segundo ela própria.

Foi esta esperteza que não a deixou deslumbrada quando se viu em um programa de TV ou na trilha de uma novela das oito de sucesso. “Fiz essas coisas porque aconteceram na minha vida. O foco não é ficar famosa e sim fazer um trabalho consistente, por isso não tem problema fazer um programa de TV ou participar de um festival [a cantora defendeu “Girando a renda” de Pedro Luís, em dueto com o próprio, e pegou o terceiro lugar no Festival da TV Cultura no final de 2005], porque tudo soma. Eu não penso muito, não sei se é um defeito, mas estou experimentando as coisas e acho que nada é mais enriquecedor que isso”, disse sob a vista de dois coqueiros de acrílico roxo, suspensos na parede.

Todas as cores penduradas nas araras da loja davam uma sensação de que qualquer combinação poderia ser possível. Alegre, triste, novo ou velho, tanto faz. “Sou uma cantora de música popular brasileira como tantas outras. Tento fazer uma música brasileira contemporânea, mas olhando pras coisas maravilhosas que já foram feitas, porque são a minha referência, são o que sou”, assina embaixo como em uma carta de intenções, mas também não admite saudosismo. “Não se faz mais música como antigamente, porque hoje não é antigamente! E antigamente também não se fazia música como mais antigamente ainda. Escuto muita coisa boa hoje em dia. Músicas, cantoras, uma nova geração... acho que estamos vivendo um momento muito especial da música brasileira”, retruca e se coloca. O tempo da entrevista vai escoando e o fotógrafo ansioso para entrar em cena. Os vestidos, os coqueiros de acrílico, as almofadas e todas as cores da loja-cenário também. “O que mais gosto na vida é ouvir e escolher canções para fazer uma música atual, mas respeitando a música brasileira de sempre”, disse e sua voz nunca pareceu tanto quanto a que saía das caixas de som daquela loja feminina e colorida.

pra encerrar, um dueto de roberta sá com o português antônio zambujo no belo e moderno fado "eu já não sei". essa música, numa outra gravação mas também com a presença de zambujo, está presente nos extras do dvd de roberta. são encontros em estúdio e no mesmo ambiente, a cantora duela com chico buarque ("mambembe"), ney matogrosso ("peito vazio"), trio madeira brasil e yamandú costa.

sábado, 1 de agosto de 2009

alzira nunca está sozinha

fazia tempo que não postava nenhum texto então fui ao baú, mais especificamente ao das minhas colaborações para a editora spring, e catei esse sobre a cantora alzira espíndola (ou alzira e), que foi publicado, junto com o perfil do saudoso otto stupakoff, em dezembro de 2007 na tam magazine (última edição dessa revista na casa).

sou fã de alzira, de sua voz diferente, de seu jeito tímido, de sua amizade intensa com itamar assumpção (foi nos fundos de sua casa de pinheiros que entrevistei, em 1998, o nego dito; entrevista publicada originalmente na revista a nível D e depois no gafieiras). poucos artistas brasileiros possuem discos tão belos e autorais quanto
amme (baratos afins, 1992), peçamme (baratos afins, 1996), ninguém pode calar (dabliú, 2000), paralelas (duncan discos, 2005) e alzira e (duncan discos, 2007). e olha que ela só tem mais outros dois solo! bem, de lá pra cá, além de shows e projetos, alzira só lançou um compacto com a canção "chega disso", outra parceria com o poeta arrudA, mas que tinha sido lançada anteriormente pela amiga zélia duncan (dá pra ouvir no myspace). enfim, não deixe de conhecer alzira espíndola. ouça e ame.

alzira e itamar no início dos anos 1990, época do
disco amme (foto de glória flügel)

DE INTIMIDADE SE FAZ MÚSICA

Ser independente não é das coisas mais fáceis na vida, principalmente no Brasil. Muita bateção de cabeça, portas fechadas, grana curta e todo um calvário de problemas grandes, médios e pequenos. Existem compensações, claro, e a liberdade é uma delas. Perto de completar 50 anos, a cantora e compositora Alzira Espíndola sabe dos caminhos que chegam e dos que se afastam; e agora comemora uma outra fase de sua independência fortalecida por uma nova geração de ouvintes e pela rapidez de comunicação proporcionada pela internet. Mas não é porque Alzira Espíndola agora assina Alzira E (“além de abreviar o Espíndola confirma que nunca estou só”, e dá uma risadinha) que seu principal motor criativo mudou de foco. Afinal, é da intimidade com amigos como Itamar Assumpção, arrudA, Alice Ruiz e Zélia Duncan, com a cidade de São Paulo e com as raízes sulmatogrossenses que nasceu e nasce sua música.

“Não sei cantar sem viver. Ter certeza disso me deu uma nova segurança. Não me sinto perdida na minha carreira e nem com as minhas músicas. Quer dizer, nunca toquei no rádio, nunca fui à Globo, não tenho gravadora, mas estou feliz, cara! Não adianta ter tudo isso e não ter o que tenho. Eu me achei. A lição é essa”. Descobrir isto levou tempo e essa história começa em Campo Grande (MS) com a pequena Alzira fazendo vocais e tocando violão junto com os irmãos Geraldo e Celito e a irmã Tetê Espíndola em shows caseiros e no circo que de vez em quando apeava em frente de casa. Alzira, a mais nova, era a mascote da família musical e foi chamada pelos irmãos para formar o Luz Azul.

O grupo durou pouco porque as irmãs decidiram sair de casa, ambas para São Paulo, mas por razões diferentes. Tetê veio em busca de horizontes para o seu trabalho, mas Alzira veio mesmo para ter um bebê e formar família. Tetê saiu na frente e através de um novo amigo, o compositor Arrigo Barnabé, conseguiu um contato para gravar seu primeiro LP. Nasceu assim, em 1978, o disco
Tetê & O Lírio Selvagem, sendo que os tais lírios eram os irmãos Sérgio, Celito e Alzira. “Só fui cantar, ter coragem de cantar sozinha em público, aos 21 porque achava que não era cantora. Só fazia uns vocalzinhos. Mas na verdade fazia as vozes mais difíceis, as quartas. Então fui desenvolvendo um vocal diferente e me aperfeiçoando nesse negócio. Fui onde tinha uma beirinha pra mim”. O Lírio Selvagem também não durou, mas desde então os Espíndola mantém uma saudável combinação: eventualmente participam uns dos trabalhos dos outros, mas cada um mantém sua carreira.

Entre o final da década de 1970 e o início dos anos 80, Alzira conheceu toda a turma da Vanguarda Paulistana, mas ainda tímida optou por se dedicar à família e logo vieram outras três crianças no auto-exílio em Ubatuba (SP). O violão nunca lhe deixou, muito menos os amigos e as parcerias, só que tudo tem seu tempo e Alzira voltou de vez a São Paulo, em 1987, para dar início a sua carreira solo. “Eu me identifiquei mais com o pessoal de São Paulo porque nunca consegui compor essas músicas regionais como fazem até hoje Almir Sater, Paulo Simões e até a própria Tetê; trabalhos que exaltam a natureza, os animais. Sempre quis fazer uma coisa mais urbana”. Para seguir em frente, no entanto, Alzira sentiu a necessidade de fazer de sua estréia discográfica um acerto de contas com o seu passado de toadas, guarânias e outras bossas do Centro-Oeste. Feito o disco, estava livre para ser o que bem quisesse.

Seu grande mentor nestes novos tempos de liberdade foi, sem dúvida, o amigo Itamar Assumpção que depois de muita insistência (por parte dela) se tornou seu diretor musical e principal parceiro, além de amigo até debaixo d’água durante boa parte da década de 1990. “[Foi uma relação] intensa e complexa, mas com muito amor. A gente teve muito amor para segurar a nossa convivência e um dos frutos disso é que as nossas filhas ficaram muito amigas [Iara Rennó e Anelis Assumpção, integrantes da banda DonaZica]. Não tem nenhum momento da minha carreira que eu não fale o nome dele”, afirmou, olhos levemente marejados, sobre o artista que deixou a todos orfão em 2003. Os outros frutos dessa amizade foram os belos discos
Amme (1992) e Peçamme (1996), além de uma série de canções que já foram gravadas por artistas como Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Carlos Navas.

A partir deste encontro com Itamar, Alzira se sentiu segura para encarar o que viesse pela frente, desde um disco em que interpretou composições de Maysa (
Ninguém Pode Calar, 2000) até uma reunião de música e poesia com a amiga Alice Ruiz (Paralelas, 2005). Agora, vinte anos depois de sua estréia em disco, a cantora e compositora lança um novo disco, Alzira E, feito em parceria com o jovem poeta arrudA, autor do blog Saudade do Papel. “Tudo o que o Arruda escreveu é como se também fizesse parte de mim. Tem que rolar essa história íntima. Não sou um artista que tenha técnica e por isso entro em um trabalho sem saber pra onde vou, mas sempre parto da minha vida cotidiana. Vivi as músicas regionais pantaneiras, vivi Maysa, vivi Itamar Assumpção, vivi Alice Ruiz e agora o arrudA. Tá bem claro que pra mim é assim. Ah, e outra coisa que é bom falar, não acho que o pop não possa ter poesia”. Independente, popular, mãe, urbana, compositora, autoral, pantaneira e internauta (“É o fim das barreiras que rotulavam artistas como marginais ou malditos”), tanto faz. Alzira E não está sozinha.

e aqui, o video da música "existem coisas na vida" (alzira e itamar). música originalmente gravada por ney matogrosso no disco inclassificáveis (emi, 2008).