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domingo, 31 de maio de 2015

plataforma brasileira de política de drogas

aconteceu nesta semana, no salão nobre do largo são francisco em são paulo, o lançamento da plataforma brasileira de política de drogas, mais um importante passo na luta contra o estúpido proibicionismo que vem, entre outros danos, matando e encarcerando a juventude pobre e negra do brasil, dos estados unidos e de tantos outros países. esse é um tema muito caro a mim e fui acompanhar o lançamento por também ter amigos envolvidos - um salve aí pro bróder maurício fiore. foi uma noite com vários discursos fortes, urgentes, necessários, mas o de abertura, proferido pelo advogado cristiano maronna, secretário executivo da plataforma, resume muito bem toda violência ignorante do proibicionismo e a necessidade urgente por mais reflexões, alternativas e liberdades. saca só.


"É com muito orgulho que lançamos nossa Plataforma Brasileira de Política de Drogas. E não haveria lugar mais apropriado para isso do que a quase bicentenária Faculdade de Direito do Largo São Francisco, alma mater das liberdades, morada da amizade e da alegria.

São diversos os caminhos que nos trouxeram a este momento histórico. Muitos caminhamos juntos há tempos. Com outros, ainda estamos acertando o passo para seguirmos juntos ao mesmo destino. E ainda queremos encontrar outros para fortalecer nossa caminhada, porque temos certeza de que já não é possível ignorar a situação trágica que vivemos. Todos. Os que usam e também os que não usam drogas.

Somos moradores e moradoras de favelas e das periferias que convivem com a morte de familiares e amigos em uma guerra cujo sentido não se pode compreender. Somos médicos e médicas que querem tratar pacientes com o remédio adequado para suas enfermidades. Somos militantes de movimentos sociais na luta contra o genocídio da juventude, principalmente da juventude negra, nas cidades brasileiras. Somos cientistas cujas pesquisas com substâncias ilegais estão interditadas pela guerra ás drogas e que percebem que os males causados pela proibição são muito maiores do que aqueles que as drogas podem causar. Somos usuários e usuárias de drogas ilícitas que não aceitam a tutela autoritária e hipócrita do estado sobre corpos e mentes, que não aceitam a exposição a um mercado clandestino de drogas sem nenhum controle sanitário, que não aceitam os abusos policiais. Somos profissionais de saúde e ativistas antimanicomiais que percebem que os usuários problemáticos de drogas são alvo de tratamentos desumanos e cruéis, centrados no encarceramento e no interesse mercantil. Somos cientistas sociais que identificam na guerra às drogas uma guerra contra os mais pobres e os grupos historicamente discriminados. Somos os growers que rompem os vínculos com o crime organizado por intermédio do autocultivo e que sofrem implacável perseguição por parte dos agentes da repressão estatal. Somos os negros e negras que moram nas periferias e que ao serem flagrados com drogas são enquadrados como traficantes, a despeito da pequena quantidade da substância apreendida. Somos as mulheres que carregam drogas em seus corpos nas visitas a parentes e amigos presos e que acabam presas também. Somos aqueles chamados de “zumbis” nos lugares degradados das cidades, cujas vidas de sofrimento e privação são esquecidas para que simplisticamente nos vejam como vítimas de uma substância. Enfim, somos todos os cidadãos e cidadãs que sofrem com o crime e com a corrupção e que vêem policiais matarem e morrerem sem alterar em nada o mercado de drogas ilícitas.

Queremos conviver pacificamente com substâncias capazes de alterar a consciência ordinária. Queremos um cenário de regulação responsável para as substâncias capazes de causar prejuízo à saúde. Queremos informações verdadeiras e cientificamente embasadas, aptas a educar a população respeito do consumo de drogas. Queremos que o usuário de drogas seja visto não como um doente, mas como um sujeito de direitos.

Uma política de drogas deve garantir e promover direitos, não excluí-los. Por isso combatemos a massificação da internação forçada para usuários problemáticos e repudiamos o repasse de recursos públicos a comunidades terapêuticas e religiosas. Basta de uma política de drogas bipolar, que demoniza uma substância com comprovadas propriedades terapêuticas, como a cannabis, e negligencia os danos causados pelas bebidas alcoólicas, cuja propaganda é, ainda hoje e inacreditavelmente, permitida, estimulando o consumo desta substância extremamente perigosa e que pode inclusive levar à morte por overdose.

A Plataforma Brasileira de Política de Drogas surge como construção essencialmente coletiva em função desta realidade que precisa ser transformada. Temos a missão de fortalecer todos os atores que se percebem afetados pela política de drogas atual e que lutam por mudanças. Resultado de uma articulação que vem sendo feita nos últimos anos, reunimos organizações de todo o país e que atuam em diferentes áreas, saúde, justiça, direitos humanos, redução de danos, combate ao racismo, ao machismo, à homofobia. Ajudamos a organizar o Congresso Internacional de Drogas, em 2013 e percebemos a importância de articular uma ação conjunta  que potencialize a atuação de nossos membros. Percebemos também que o Brasil precisa ser parte do movimento global de questionamento do paradigma proibicionista e da insana guerra às drogas e que temos uma chance importante na reunião exclusiva da Assembleia da ONU sobre o tema que acontecerá no ano que vem, a UNGASS 2016. Contamos, para isso, com a parceria de membros da Plataforma, como a Conectas, a Reduc, a ABGLT e o Instituto Igarapé. Também fazem parte da Plataforma: Centro de Referência Sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas (CRR/FCE/UNB); Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC); Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos (ABESUP); Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais (ABGLT); Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos Sobre Drogas (ABRAMD); Associação Brasileira de Redução de Danos (ABORDA); Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME); Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO); Associação Juízes para a Democracia (AJD); Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES); Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID-UNIFESP); Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC) da Universidade Cândido Mendes; Conectas Direitos Humanos; Centro de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP); Growroom; Grupo de Pesquisas em Política de Drogas e Direitos Humanos da UFRJ; Grupo de Trabalho do Programa Álcool, Crack e Outras Drogas da Fundação Oswaldo Cruz; Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM); Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD); Instituto Igarapé; Instituto Sou da Paz; Rede Pense Livre; Laboratório de Estudos Interdisciplinares Sobre Psicoativos da Unicamp (LEIPSI); Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre Psicoativos (NEIP); Observatório Baiano Sobre Substâncias Psicoativas (CETAD); Plantando Consciência; Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (PROAD-UNIFESP); Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos (REDUC); Rede Cidade Fala; Rede Latinoamericana de Pessoas que Usam Drogas (LANPUD). Fazem parte do Conselho Consultivo da Plataforma: Antonio Lancetti; Antonio Nery; Aldo Zaiden; Beatriz Vargas; Bia Labate; Dartiu Xavier da Silveira; Denis Russo Burgierman; Edward Macrae; Elisaldo Carlini; Henrique Carneiro; Ilona Szabó; José Henrique Torres; Julita Lemgruber; Luciana Boiteux; Luiz Eduardo Soares; Maurides Ribeiro; Maria Rita Kehl; Paulo Amarante; Salo de Carvalho; Sidarta Ribeiro; Sueli Carneiro; Sérgio Salomão Shecaira.

E hoje temos também o lançamento em São Paulo da campanha “Daproibição nasce o tráfico”, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Cândido Mendes, sob a liderança de Julita Lemgruber. A campanha, realizada por meio de cartuns dos mais importantes cartunistas brasileiros, chama à atenção para a irracionalidade da guerra às drogas. No Rio de Janeiro, os cartuns foram exibidos nos ônibus por aproximadamente um mês. Em São Paulo, os ônibus começaram a circular com os cartuns no dia de ontem, mas hoje Julita recebeu uma ligação da empresa que comercializa propaganda em ônibus intermunicipais, informando que os cartuns serão retirados dos ônibus porque fazem apologia às drogas. Parece piada, mas não é. É censura gerada pela ignorância que se alimenta da intolerância proibicionista. Alguém já disse que no Brasil o realismo fantástico não pegou porque a realidade faz concorrência desleal.


Outro exemplo clássico: em São Paulo, a Marcha da Maconha, realizada todos os anos em mais de quinhentas cidades ao redor do globo, foi sistematicamente proibida, mercê de decisões judiciais proferidas pelo Tribunal de Justiça, sempre em atendimento a pedidos formulados pelo Ministério Público, sob o pífio argumento de que postular a reforma da política de drogas se confunde com a apologia ao crime e o estímulo ao consumo de drogas. Foi necessário que a Suprema Corte se manifestasse para dizer o óbvio: liberdade de manifestação inclui o direito de pedir mudanças na lei de drogas.


Por aí se percebe a dificuldade de debater política de drogas em bases racionais, dada a tradição autoritária da nossa sociedade e o fundamentalismo que permeia o paradigma proibicionista.  


Estamos todas e todos aqui reunidos, membros e parceiros da Plataforma, porque cada um de nós, em algum momento, individualmente ou em nome das organizações-membro, decidimos assumir a responsabilidade pelos diversos problemas que a guerra às drogas causa à nossa sociedade.

É com o peso dessa responsabilidade e com a pressa para salvar cada uma dessas vidas que iniciamos os trabalhos da Plataforma. E, por isso, nos dispomos a dialogar com os diversos meios de comunicação para ajudar a qualificar o debate e a informar sobre os reais danos causados pelas drogas e pela política de drogas. Vamos impulsionar e articular pesquisadores para que tenhamos mais conhecimento sobre o tema. Vamos aos gabinetes de parlamentares, autoridades e suas assessorias apresentar dados e argumentos que embasem propostas de mudança na política de drogas do Brasil. Vamos dialogar com diversos movimentos sociais e organizações políticas para fortalecer nossa capacidade de mudança. Temos um compromisso com o resultado da nossa ação política, pois ela deve ser capaz de responder aos problemas identificados. Ao mesmo tempo, temos a responsabilidade de potencializar ações já iniciadas pelas organizações que compõem a Plataforma, identificando oportunidades de parcerias e apoios. A dificuldade da tarefa não nos desanima, antes o contrário: estamos mais motivados do que nunca, porque sabemos que estamos combatendo o bom combate. O tabu moral que tornou possível o surgimento da proibição tem a ver com uma mentalidade medievalesca, a qual, em pleno século XXI, não tem mais lugar. Passou da hora de varrer a proibição para o limbo da história.

Precisamos botar um fim nessa guerra. Há um antigo brocardo latino que diz:  si vis paccem, parabellum, que significa “se queres a paz, prepara-te para a guerra”. É tempo de subverter essa lógica: não queremos mais guerra, queremos paz. A paz que existia na relação ancestral entre seres humanos e substâncias psicoativas e que foi rompida há aproximadamente cem anos deve ser restaurada. Basta! Não se constrói paz com guerra. A paz armada é apenas uma contradictio in adjecto. Paz significa ausência de guerra. Paz significa respeito a estilos de vida contramajoritários. Paz significa diversidade. Paz significa mais tolerância e menos ordem. É isso que nós queremos."   

p.s. 1: agradeço ao guilherme werneck, coordenador de comunicação da plataforma, por ter me enviado o discurso de maronna.

p.s. 2: aqui tem a cobertura fotográfica do evento.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

mexidão #04

e o mexidão segue firme e forte. aqui vai "tudo é droga, nada é droga" sobre uma divertida manifestação que aconteceu no viaduto do chá contra o projeto de lei que pretende aumentar a pena para o tráfico de drogas, além de outras barbaridades (felizmente, parece que o projeto está sendo esvaziado). foi um dos textos mais compartilhados dessa nova fase no yahoo (mais de 3300 'likes' no facebook). por lá tem outros três: "música popular de estupro", "o preconceito impune de cada dia" e "o cultuado anonimato de rodriguez".


TUDO É DROGA, NADA É DROGA

Por essa o Viaduto do Chá não esperava. Ontem, 2 de abril, em plena luz do dia, o grupo que promove a Marcha da Maconha distribuiu drogas para os passantes sob a vigília educada de alguns policiais militares. O mundo ficou louco ou já estamos em um futuro mais civilizado? Nem uma coisa, nem outra, muito pelo contrário. O que aconteceu foi um protesto bem humorado contra o Projeto de Lei 7663/2010 que prevê uma maior rigidez na lei antidrogas, na contramão de todas as discussões sobre o tema mundo afora, e que pode ser votado ainda este mês na Câmara.

Peraí, mas quais drogas foram distribuídas? Cigarros, cachaça Camelinho, conhaque Dreher, aspirinas, pirulitos em forma de coração, Fandangos, Flying Horse, trouxinhas de açúcar, revistas Veja e assim por diante. O objetivo era mostrar a hipocrisia da “guerra às drogas”, afinal o que faz uma droga ser considerada legal ou ilegal não são critérios de saúde e sim questões políticas e econômicas. Todo mundo está careca de saber que álcool e tabaco, drogas absolutamente legais, matam muito mais que todas as drogas ilegais juntas, mas esse pessoal legalizado tem um lobby poderoso e muita grana.


Lutando contra gigantes, o pessoal da Marcha da Maconha (que acontecerá em São Paulo no dia 6 de junho) conseguiu chamar atenção da imprensa com essa história de distribuição de drogas. Nenhum jornalista se deu ao trabalho de ler na página do evento no Facebook uma observação importante: “serão distribuídas apenas drogas legais, favor não portar substâncias ilícitas”. A preguiça dos profissionais de imprensa, a vontade burra de ter manchetes “polêmicas”, ajudou e muito o evento, que teve uma ampla cobertura na internet e na TV (cito aqui matérias no Terra, no Estadão e na Carta Capital).

E o que propõe a PL 7663? Um aumento violento e desproporcional das penas por tráfico (um traficante de crack, por exemplo, pode ter uma pena maior que um assassino confesso pego em flagrante, e o resultado disso é uma lotação cada vez maior dos já lotados presídios), um cadastro das escolas para estudantes que usem drogas, terceirização da internação compulsória (instituições privadas ganharam uma baita grana para internar a seu bel prazer) e por aí vai o absurdo proposto pelo deputado federal Osmar Terra (PMDB-RS). E mais absurdo ainda o fato de que o deputado é médico, um profissional que deveria cuidar de pessoas e não encarcerá-las.

Certamente o honorável (só que não) deputado não ouviu seu colegas médicos. Em reportagem da Agência Brasil, integrantes do Conselho Deliberativo da renomada Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) afirmam que “o projeto fortalece a estigmatização e o preconceito em relação aos usuários de drogas ao manter a criminalização do consumo e as políticas de internação compulsória e involuntária” e aprovaram por unanimidade uma recomendação para a retirada do Projeto de Lei da pauta.


Já o Conselho Federal de Psicologia (CFP) afirmou em nota que “o projeto poderá ainda aumentar as condenações, criando uma indústria de internações compulsórias, aumentando de forma exponencial a despesa pública e violando os direitos elementares de pessoas em situação de fragilidade social.” A PL 7633 só servirá para fazer o Brasil andar para trás na questão das drogas como bem diz o antropólogo Maurício Fiore (Cebrap/Neip) no texto “Drogas: o Congresso Nacional pode aprovar um enorme retrocesso” e o jornalista Denis Russo Burgierman, diretor de redação da revista Superinteressante, em “De volta a 1980”.

Então, você aí que gosta de gritar que “drogado tem tudo que morrer” precisa entender de uma vez por todas que dependência é caso de saúde pública e não de polícia. E que o problema verdadeiro, como bem diz o presidente uruguaio Pepe Mujica, não são as drogas e sim o tráfico de drogas, e isso vale tanto para as ilegais quanto para as legais (a famigerada Lei Seca norte-americana só serviu para aumentar a criminalidade e transformar, do dia para a noite, cidadãos comuns em bandidos). A descriminalização, e uma consequente legalização, são a chave de um futuro sem essa guerra estúpida onde nada se resolve e muito se perde.

p.s.: os malucos do centro de São Paulo foram pegando, uma a uma, as drogas (legais) distribuídas ontem no Viaduto do Chá. Só as edições da Veja sobraram.

terça-feira, 29 de maio de 2012

esforçando o instagram #05

edição especial: empurra empurra + marcha da maconha

"surubão do ibira #01"

"surubão do ibira #03"

"surubão do ibira #04"

"surubão do ibira #05"

"surubão do ibira #06" 

"concentração"

"4h20"

"branca de neve veio"

"reta final com fumacê"

"quem avisa amigo é"

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

a proibição mora ao lado

basta dar uma olhada na filmografia do documentarista ken burns – the civil war (1990), frank lloyd wright (1998), jazz (2001), mark twain (2001), the war (2007), etc. – para se ter uma certeza cristalina: taí um sujeito que nasceu na época errada, um nostálgico, um passadista. mas não é bem assim. quer dizer, mais ou menos. seu principal interesse é a história americana e, de preferência, aquela registrada em película fotográfica, afinal seus longas e séries quase sempre são ambientadas no século 19 e primeira metade do século 20. é que o passado de ken burns é preto & branco. mas não é que ele gostaria de viver nos loucos anos 1920 ou durante a guerra civil (secessão), só que é disso que gosta de falar/pesquisar. é uma paixão que vive em permanente luta entre presente e passado.

mas vez ou outra os assuntos “empoeirados” de burns falam muito próximo do presente de todos e, talvez, do nosso futuro. em unforgivable blackness: the rise and fall of jack johnson (2007) questões raciais ainda não curadas voltam a assombrar na intensa e dolorosa trajetória do primeiro campeão de boxe negro dos estados unidos (entre 1908 e 1915). já nas entrelinhas de the national parks: america’s best idea (2009) louvam-se os esforços de indivíduos e alguns governos na defesa da natureza. é também o caso do recente, denso e eletrizante prohibition, série em três partes co-dirigida por lynn novick que trata da gênese moralista que culminou na famigerada lei seca dos anos 1920-30.


como sempre a pesquisa de textos e imagens é avassaladora e a câmera de burns passeia nas minúcias de fotos cheias de histórias ao som da trilha jazzística de wynton marsalis. a narração firme é do ator peter coyote e alguns dos muitos personagens dessa saga ganharam as vozes de gente como tom hanks, john lightgow, patricia clarkson, campbell scott, jeremy irons, sam waterston, samuel l. jackson e paul giamatti. mas tudo isso é perfumaria perto das discussões levantadas por burns e de uma frase que resume muito bem a hipocrisia de leis que tentam “resolver” questões morais numa canetada: segundo burns, a lei seca “fez com que cidadãos comuns virassem criminosos e criminosos se transformassem em reis”. essa é uma história que os morros cariocas (e não só) conhecem muito bem.



era uma vez...

um país livre e em crescimento que no começo do século 19 passou a beber como nunca. é que bebidas destiladas e fermentadas começaram a ser produzidas em maior escala, ficando mais baratas, e transportadas com mais rapidez (ah, o trem). não demorou muito para que essa permissividade alcoólica gerasse uma reação por abstinência, a princípio civil (the washingtonian society) e depois religiosa (o movimento temperance tinha ligações íntimas com a igreja protestante). só que a abstinência pregada no começo dessa história deveria ser voluntária e não obrigatória (daí não seria sincera). enquanto isso, alguns mais afoitos já clamavam por proibição.

afoitos ou não, os “secos” (drys), brancos e protestantes tinham acesso ao poder e na metade do século 19 alguns estados americanos haviam banido, ou dificultado, o acesso ao álcool. e uma das forças mais importantes a estimular essa onda moralizadora veio dos cada vez mais coesos grupos de mulheres, que se reuniam tanto por motivos religiosos quanto pelo antiescravagismo e o direito de voto (sufragistas). também não era nada por acaso que elas estavam nessa linha de frente, pois eram as primeiras vítimas dos excessos da bebida.

quando tudo parecia perdido para os “molhados” (wets) em 1861 estourou a guerra civil, norte x sul, ianques x confederados, e o governo federal interveio liberando todas as bebidas, e taxando-as pesadamente, para cobrir os gastos da matança. quatro anos depois, quando a guerra acabou, o país sobrevivente entrou em estado de euforia, principalmente com a chegada de uma nova grande leva de imigrantes (ah, os alemães e suas cervejarias). só bebendo para aguentar esse rojão.

daí veio a ressaca... é sempre assim, após a guerra vem a euforia, e após a euforia vem a repressão... podem checar na história da humanidade. em 1873, o movimento temperance voltou com tudo e rapidamente se espalhou pelo país, ainda que enfrentando muita resistência nas cidades grandes. se era moralista e conservador no assunto proibição também era progressista quanto a liberação e empoderamento da mulher.

nada disso adiantou e os americanos e novos americanos seguiam bebendo como se não houvesse amanhã. era a incontornável cultura do saloon, espaço de intensa sociabilidade masculina, legal e ilegal. o local era tão importante que estava no nome de seu maior inimigo: a anti-saloon league. fundada em 1893 numa união de batistas e metodistas, a organização tinha como objetivo acabar com o álcool e ponto final. era muito organizada e possuía uma ação política moderna, pois logo percebeu que os resultados apareciam amparados numa união entre lobby no congresso e nos jornais e uma intensa mala direta para simpatizantes do movimento (sem falar em “campanhas educativas” para crianças, eleitores futuros). “votos são balas”, era uma das máximas de seus líderes.

o cerco foi se fechando e no início do século 20 boa parte dos estados norte-americanos possuíam sua filial da anti-saloon league que, além das já conhecidas dicotomias entre campo X cidade, protestantes X católicos e sul X norte, estabeleceu uma nova: “americanos nativos” X imigrantes. com muita sagacidade uniu as faces mais diversas do conservadorismo americano e ainda conseguiram apoio propagandístico de um arte que começava a engatinhar (em 1909 foi lançado ten nights in a bar room, um curta doutrinador sobre a derrocada de um beberrão).

no início da década de 1910, seis estados já proibiam o álcool, mas a liga queria um política nacional que institucionalizasse para todos a conduta (e crenças) de uma minoria. só que pra isso precisaria haver uma mudança na constituição. uma emenda (seria a décima oitava). a entrada dos estados unidos na primeira guerra mundial acabou acelerando o processo, afinal os alemães (inimigos do momento) eram donos das maiores cervejarias do país e ativos integrantes dos “wets”. era o que a liga precisava para conseguir, junto ao congresso, ratificar o proibicionismo, o que acabou virando realidade em 1920. do dia pra noite, a quinta maior indústria do país foi considerada ilegal e uma quantidade considerável da população passou a ser vista como criminosa.



fala baixinho pra não ouvirem

apesar do caos no sistema judiciário - imaginem a quantidade de pessoas sendo presas por beber ou vender álcool -, principalmente em cidades grandes como nova york, os primeiros anos da década de 1920 viram diminuir drasticamente a violência doméstica, prisões por bebedeira e arruaça, acidentes de trânsito e outras questões relacionadas. mas por volta de 1924 o consumo voltou a subir e, consequentemente, casos de cirrose, intoxicação por bebida batizada, prisões e assim por diante.

em “assim por diante” leia-se violência, assassinatos e corrupção, tudo ligado a brigas dentro crime organizado para ver quem ganhava mais dinheiro dentro do altamente lucrativo mercado paralelo da bebida. a proibição foi o que de melhor aconteceu na vida de um grande número de bandidos, particularmente nas cidades de nova york e chicago.

o que os vitoriosos “drys” não esperavam era que sua lei seca, autoritária e burra, desse origem também a primeira revolução sexual em larga escala na história da humanidade. porque foram nos bares e botecos clandestinos – conhecidos como ‘speakeasy’ (os ‘fala baixinho’ em bom português) – que homens e mulheres beberam juntos pela primeira vez em um mesmo ambiente público. descobertas assim são nitroglicerina pura e acabam comendo por dentro a própria lei repressora que as gerou.

em 1928 começaram a aparecer as primeiras tentativas de derrubar a emenda da lei seca, mas nenhuma foi para frente, afinal o governo federal continuava nas mãos dos republicanos, publicamente “drys”, intimamente “wets”. por outro lado, foi uma rica e bem nascida republicana, pauline sabin, que na época começou a discursar, com bastante repercussão, contra a hipocrisia de uma lei que nem resolvia um problema (alcoolismo) e ainda criava muitos outros (violência, corrupção, etc.). pois é, mulheres foram protagonistas-chave tanto do surgimento quanto do fim da lei seca.

um ano depois, o crash da bolsa de valores de nova york tirou o chão dos estados unidos e a extrema necessidade de trabalhos & impostos por causa da grande depressão que se seguiu ajudou muito no processo de derrubada da proibição. só que ainda levaria mais alguns anos. seria preciso que, em 1932, o impopular presidente herbert hoover levasse uma surra nas urnas do democrata franklin d. roosevelt (a republicana sabin, mais realista que o rei, o apoiou). um mês após sua posse, o presidente liberou a cerveja e a dobradinha congresso/senado assinou embaixo sem pestanejar. simples assim. quando foi interessante para uns, a bebida foi proibida. quando deixou de ser interessante para outros, foi liberada. interesses, minha nega.

não levou nem um ano para a proibição cair por completo e no final de 1933 os americanos já conseguiram se aquecer no inverno com sua bebidinha sem se preocupar com prisão ou envenenamento. foi o fim, após 13 anos, de uma das leis mais intransigentes e ineficazes da história do, digamos assim, mundo ocidental democrático. e essa história de erros, injustiças e interesses escusos vem se repetindo com mais violência e hipocrisia nas falidas políticas de combate ao tráfico de drogas. ao fim de prohibition, uma reflexão tão absurdamente óbvia quanto esquecida, ressoa com ferocidade: como pode a moralidade de uns virar lei para todos?



mulheres e homens curtindo uma cervejinha em raceland, louisiana, 1938

p.s. 1: assisti às três partes de prohibition em um curto espaço de tempo há uns dois meses atrás e fiquei logo com muita vontade de escrever algo, mas por um motivo ou outro não conseguia começar (já imaginava que seria grande). após minha demissão da editora globo consegui esse tempo e nas últimas semanas fiquei em cima do texto levando em conta apenas as muitas anotações que fiz enquanto assistia. e na trilha, felipe cordeiro (kitsch pop cult), eccentric soul - the nickel & penny labels [numero 039], ghostpoet (peanut butter blues and melancholy jam), asphalt orchestra, the cool kids (when fish ride bicycles), savave (versão extendida) e rodrigo leão (a montanha mágica).

sábado, 26 de novembro de 2011

yahoo #19

upalelê, novembro puxado esse, viu? postei muito pouca coisa aqui no esforçado, mas foi por um bom motivo (muito trabalho) e o yahoo foi um deles. essa semana subiu por lá o "custe o que custar, uma ova!", meu vigésimo texto para a coluna ultrapop e um dos que mais gostei de fazer. a repercussão foi ótima, até surpreendente porque muita gente elogiou e se identificou com a decepção frente ao "humorismo-político" do cqc. muito diferente desse "pra cima, com raiva", sobre a desocupação da usp e a presença de policiais no campus, que também teve boa repercussão, mas com o pessoal me odiando e coisa e tal.


PRA CIMA, COM RAIVA

Pois é, acabou na segunda a ocupação dos estudantes na reitoria da USP com direito a algumas centenas de soldados da tropa de choque da PM fortemente armados (e sem identificação). Nesses novos tempos bicudos, no qual até um ex-presidente diagnosticado com câncer é alvo de desejos de morte e “campanhas” idiotas para vê-lo se tratar no SUS, esses estudantes foram xingados de tudo quanto é nome pelos comentaristas anônimos e raivosos de plantão.

Filhinhos de papai, playboys, vagabundos, baderneiros, maconheiros e o diabo a quatro. E quando um deles foi fotografado com um casaco da GAP então? Até um pessoal mais esclarecidinho saiu jogando pedra. Ninguém pensou que o casaco poderia ser falsificado? Ninguém pensou que um mero casaco não tem relação alguma com o que está sendo questionado? Em tempos assim, pensar realmente é exigir demais.

Quase toda minha vida escolar passou pelos corredores de escolas públicas e foi assim que entrei na USP, em 1994, no curso de Ciências Sociais. Lembro que boa parte de meus contemporâneos era parecido comigo: ou vinham de escolas públicas ou de outras cidades, ou os dois.

Sempre fui avesso a políticas estudantis. Sentia uma preguiça gigantesca dos papos furados politizados e vazios de sempre, da distância entre as necessidades e problemas diários da universidade e as bandeiras levantadas (abaixo o imperialismo? Por favor). O mais próximo que cheguei do Centro Acadêmico foi na participação de um divertido e farsesco roubo da urna de uma das votações: a ideia porra louca era criticar a ausência de representatividade do processo (íamos fazer um vídeo com a urna amarrada numa cama pedindo que nossas exigências fossem atendidas. Detalhe: não tínhamos exigências). Como era de se esperar deu o maior chabu. Foi sensacional. Era um jeito diferente de fazer política.



Então me formei e de vez em quando ficava sabendo de alguma coisa na faculdade. Tudo meio parado, ninguém se mexia pra nada. Anos e anos de reitores capatazes de um governo do Estado sem interesse por educação resultam nisso mesmo: apatia (estou falando aqui de São Paulo, mas essa história se repete de outras formas em outros Estados).

Quando aconteceu esse recente confronto entre a Polícia Militar e os estudantes achei interessante. Primeiro porque acho que passou da hora de receber paulada de policiais numa boa. Porque só eles podem bater? Segundo porque foi um sinal de movimentação e raiva, e isso é bom, é transformador.

Bem, a questão do policiamento no campus deveria ser pensada pelo Estado em conjunto com estudantes, professores e funcionários. Mas é pedir muito de um reitor autoritário, e com uma extensa folha corrida de barbaridades, como João Grandino Rodas (saiba mais sobre o figura aqui). No entanto não dá para ficar do lado dos estudantes que desejam a total exclusão de policiamento. O campus é público, faz parte da cidade. Agora, o que não pode é a polícia fazer o maior fuzuê por causa de três usuários de maconha e seguir completamente ausente para os casos de estupros, roubos e assassinatos nesse mesmo campus.

Nessas horas é preciso ser inteligente e não cair em armadilhas como a ocupação besta da reitoria. Claro que a justiça iria pedir “reintegração de posse” e que junto disso viriam os policiais e a imprensa sedenta por imagens de impacto desses baderneiros “recebendo o que merecem”. Prato feito para deixar parte da opinião pública de olhos e ouvidos fechados para qualquer discussão. É necessário pensar uma outra forma de confrontar politicamente o sistema e acredito que o Wikileaks, a Primavera Árabe e os movimentos decorrentes do Occupy Wall Street possam nos dar pistas do que fazer no futuro (vale ler o discurso do filósofo Slavoj Zizek, “A tinta vermelha”, feito um mês atrás em Nova York).

Porque você aí ignorante que defende que a polícia bata em estudantes, você pode muito bem ser o próximo. Afinal, a mal treinada e gloriosa Polícia Militar do Estado de São Paulo bate em professores, estudantes, grevistas das mais diversas profissões, e dispersa manifestações pacíficas com bombas e balas de borrachas. Não é esse mundo que eu quero. Não mesmo.



p.s.: aproveito para recomendar outros textos escritos recentemente no calor do momento. São eles “Geração mascarada”, de Marcelo Rubens Paiva, “O choque na USP e a militarização de São Paulo”, de André Forastieri, e “A cortina de fumaça da segurança na USP”, de Pablo Ortellado.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

yahoo #14

até agora, "drogas? tô dentro" foi a coluna mais comentada, curtida, votada de todas que fiz até agora no ultra pop. números muito legais, fiquei bastante feliz e acho que o pessoal lá no yahoo curtiu também (um salve pros manos michel blanco e rafael alvez), mas é claro que uma grande porcentagem não entendeu patavinas do texto. a partir de um clipe-campanha constrangedor que o rock in rio fez ("eu vou sem drogas") apontei uma série de hipocrisias da campanha, de alguns artistas, enfim... mas é que como coloquei um título provocativo boa parte das pessoas acharam que eu estava fazendo uma apologia às drogas e aí rolaram uns xingamentos e coisa e tal. portanto, diversão garantida nos comentários. enquanto isso, tem texto novo por lá: "meu fraco é subcelebridade".

DROGAS? TÔ DENTRO

Poucas coisas nesse planeta são tão prejudiciais a saúde quanto a hipocrisia. Intolerância e ódio, com certeza, e ignorância estão em pé de igualdade. Mas a hipocrisia vai se espalhando silenciosamente pelas sinapses da sociedade fabricando falsas verdades, bagunçando o coreto, jogando para debaixo do tapete o que realmente precisa ser mudado e que tememos encarar (nós mesmos). Acho que provavelmente essa questão – autoreflexão, assumir responsabilidades e quetais – é uma das mais recorrentes aqui nos textos do Ultra Pop. Talvez por ser muito atual. Talvez seja uma encanação pessoal. Vai saber.

É que voltei a pensar nisso após assistir a um clipe feito pelo Rock in Rio para uma campanha chamada “Eu vou sem drogas” (ao evento, pelo menos). Em clima de “We are the world”, músicos, atores e atrizes nacionais cantam em um estúdio versos sem sentido como “Eu tenho escolhas / Só vou nas boas / Às vezes nem tanto assim” ou de contrapropaganda como “Também não aceito / Que as pessoas digam / O que é melhor pra mim”. A música, aliás, foi composta pelo veterano Eduardo Souto Neto, o mesmo do “Tema da vitória” (aquele do Senna), o tema do próprio Rock in Rio e de uma infinidade de jingles que grudaram na cabeça de gerações.

Como se não bastasse ser mais uma música ruim no mundo, “Eu vou sem drogas” ainda deu uma queimadinha no filme de alguns grandes artistas. Quer dizer, não ligo para o que fazem ou deixam de fazer Rogério Flausino, Toni Garrido, Di Ferrero, Claudia Leitte, Eduardo Falaschi (Angra), ou Rodrigo Santos (Barão Vermelho). Muito menos Marcos Frota, Paola Oliveira e Thiago Lacerda (queria muito saber como chegaram a esse elenco). Mas não foi legal ver Herbert Viana, Ivo Meirelles, Sandra de Sá e principalmente Milton Nascimento e Emicida nessa barca errada.

Cada um tem suas motivações para participar dessa paradinha (contrato, identificação, um chamado amigo) e quem sou eu para julgá-las, mas me incomoda a hipocrisia demagoga dos envolvidos numa campanha para proibir algo “que faz mal” sendo que o evento que começa em 23 de setembro é patrocinado pela cerveja Heineken - pense nas brigas e na quantidade de motoristas bêbados saindo lá dos cafundós da Cidade do Rock – e que em suas lanchonetes provavelmente estarão disponíveis aqueles saudáveis sanduíches de microondas da Sadia. Quer dizer, onde está a droga? Sem falar que algumas dessas pessoas conscientes e maravilhosas já deram, dão ou darão algum tapa na pantera. Tudo soa falso demais, da boca pra fora demais. E vazio, acima de tudo vazio.



Só que para minha felicidade, e como um sinal que a humanidade não está perdida, das poucos mais de 700 avaliações do vídeo na página do YouTube (até a manhã desta quarta, dia 31.08), 600 eram negativas. Podem ter achado a música apenas chata e nem atentado para a hipocrisia em cada nota, mas na página oficial do Rock in Rio alguns comentários chamam atenção: “Fácil, tira o NX Zero”, concordaram Yago e Luh; “Eu não uso drogas apenas tomo cerveja, mas cada um sabe o que quer para si e cada um é responsável pelos seus atos. Vocês não vão chegar a lugar nenhum com isso”, desabafou Adriano; “Drogas pra quê? Já nasci doidão”, disse Leo Simmons; já Eduardo e Chernob apontaram para o calcanhar de Aquiles do evento (“Porque estão vendendo bebidas alcoólicas então?”); Paulo Muchon e André enxergaram a hipocrisia; e Diego, na maior sinceridade, declarou que “Ah, na boa eu dou um tapinha no baseado, não mata ninguém... e é bom!!!”

Por essas e outras que concordo com Jeane do Brega, paraibana da cidade de Bananeiras, que no épico e rural vídeo de “É tão fácil chorar” faz uma defesa sacolejante de seus vícios e limites. Ela também não aceita que as pessoas digam o que é melhor pra ela.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

roberto leal tomou um chá e saiu por aí

pois então, o grande, o inesquecível, o bate-pé luso-brasileiro roberto leal participou recentemente de um reality show lá na terrinha. mas último a sair era um falso reality show, no qual a única parte verdadeira eram as identidades dos participantes (todos celebridades). lá pelas tantas um deles faz um chá de cogumelo e o resultado é absolutamente hilariante, principalmente por causa de roberto leal.



valeu demais @henriheu.

p.s.: roberto leal foi o vencedor de último a sair. só pelo surto ao som de prodigy já merecia.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

jornalismo investigação, jornalismo denúncia

no litoral do espírito santo, na pacata e turística guarapari, o prof. germano borges vai às ruas com seu microfone, um câmera amigo e uma enorme vontade de denunciar o que anda errado em sua amada cidade. ele é o dono do quadro "repórter nos bairros", exibido pela tv guarapari, uma emissora que retransmite tv cultura e tv brasil, mas é tão de pequeno porte que seu sinal não alcança toda a cidade de pouco mais de 100 mil habitantes. germano não liga, afinal agora ele tem a amiga internet e sua voz pode ser ouvida por todos (além do rostinho bonito). foi assim que o conhecemos... no encontro com uma moradora de rua...



a situação dos moradores de rua o deixa muito constrangido, incomodado mesmo, e ele voltou a tocar no assunto em outro video. sua delicada abordagem é tocante.



germano não se abala e em outra reportagem denuncia o estado deplorável e alagado da entrada de um quartel da polícia militar. é lá onde encontra uma dupla de pescadores mineiros.



mas nada supera o mergulho sem snorkel no mundo sombrio das drogas que invadem "a cidade mais importante do turismo do espírito santo". é dele que saem pérolas como "a maconha não esconde rosto, é uma droga lícida (...) e tem um efeito alucinógico" ou então "eu sei que o cara que fuma cocaína acaba quebrando tudo, né?".



em um mundo onde o crack é batata baroa, tudo pode acontecer.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

liberalismo ainda que à tardinha

muita coisa aconteceu desde que a marcha da maconha foi brutalmente reprimida pela polícia militar do estado de são paulo, o que acarretou na marcha da liberdade, ocorrida uma semana depois. acho que o assunto e a palavra maconha nunca estiveram tão em uso no país como nessas últimas semanas. isso, em si, foi transformador porque em ambientes repressivos a simples articulação sonora de uma palavra, assim repetidas vezes, pode tirar o medo, o peso, o estigma. mas aconteceram outras coisas.

o stf foi chamado a intervir e disse por acachapante unanimidade o que deveria ser óbvio para qualquer magistrado com dois neurônios e meio: proibir a marcha da maconha é crime contra a liberdade de expressão, um dos bem mais caros de um estado democrático. capisci?

houve outra marcha da liberdade, dessa vez em várias capitais.

estreou nos cinemas o bom documentário quebrando o tabu, de fernando grostein andrade (que antes tinha visto o caetano veloso pelado em coração vagabundo), aquele com fhc ciceroneando uma discussão transglobal sobre alternativas ao proibicionismo, com ênfase na descriminalização e regulação da maconha.



e a revista trip, assumida defensora da causa, fez uma ótima edição temática sobre o “cigarrinho de praia”, com direito a uma longa entrevista com fhc e boas reportagens como a da situação na vizinha argentina (outra vez mais progressista que nosotros). apenas três observações: nada bom usar o título do documentário para chamar para a entrevista do ex-presidente (soou venda casada e a entrevista do bruno torturra é infinitamente melhor que as falas de fhc no filme), deixem de falar com ronaldo laranjeira (aka dr. fruta, que em inúmeras vezes se mostrou uma pessoa preconceituosa e de raciocínio limitado e não há título acadêmico no mundo que me prove o contrário) e muita gente boa ficou de fora das matérias/pautas. no mais, grande trabalho.

quer dizer, momento mais que propício para começar a debater o assunto com o mínimo de maturidade (por parte dos proibicionistas, claro esteja) e acredito que quebrando o tabu tem um papel importante, mesmo com alguns tropeços, na melhora do nível para esse debate. não via cinemas, que pelo jeito sua carreira (ooops) não anda das melhores, mas numa potencial e mais interessante distribuição de seu dvd em escolas da rede pública.

acima de tudo porque é um filme habilmente didático e muito bem ilustrado com dados, além de estar posicionado positivamente sobre a questão das drogas. e o positivo, segundo a linha de pensamento aqui da casa, significa ser favorável a política de redução de danos e descriminalização e regulação, entre outras coisas (o longa trata basicamente da maconha, porque sobre as outras drogas o buraco é mais embaixo). quebrando o tabu e fhc, seu co-autor, desejam sinceramente discutir e entender o assunto, o que é um ganho e tanto para a causa em tempos bicudos de tantas reações neoconservadoras. a presença do tucano, erudito, sério, octogenário, respeitado e paulista fhc também tem um importante valor simbólico, ainda mais quando ele se expõe tão clara e progressistamente sobre um tema “maldito”. mas é isso, se o príncipe fala – “é, gente, esse negócio de combater, essa parada de proibição, deu errado, malzaê
” -, porra, você acredita.

e é isso, o proibicionismo deu errado. a violência aumentou, o consumo aumentou, as rotas do tráfico aumentaram e os grandes cartéis caíram para dar lugar a uma gigante e descentralizada (portanto, sem cara) rede de micros e médios cartéis. a maconha, no meio dessa bagunça, é um droga menor e que causa menos danos a saúde que os legais álcool e tabaco. porque então não tirá-la desse circuito ilegal, retirando assim uma grande quantidade de consumidores do contato com outras drogas (mais pesadas)? essa é uma das teses liberais do filme e que ganha uma ajuda importante por meio de uma constatação econômica: tá dando prejuízo para o estado essa história de proibicionismo, afinal os bilhões gastos por tantos países não estão dando resultado nenhum. fora o singelo fato de que drogas são usadas cotidianamente pela humanidade desde o tempo do zás-trás e que a proibição data somente da primeira metade do século 20 (portanto, não tem nem 100 anos). as pessoas continuarão a usar drogas, proibidas ou não. ah, também se fala rapidamente do uso medicinal. e lá se vão fhc e fernando grostein andrade rumo a amsterdã, lisboa, rio de janeiro e outras cidades – e em diálogos com jimmy carter, bill clinton, paulo coelho, dráuzio varela, etc - na procura de soluções, experiências e questionamentos.



difícil mensurar se o filme chegará aos proibicionistas ou se apenas pregará aos já convertidos, mas é sempre melhor fazer algo do que nada, né não? sua existência, seu contexto, seu momento, sua tese, tudo é importante. mas quebrando o tabu é sobretudo um filme de tese que busca números e falas para comprová-la, o que invariavelmente o transforma em propaganda e lhe deixa com poucas facetas. mas diferente de eduardo escorel, que em crítica mal humorada na revista piauí deu uma desancada no documentário, não procuro eduardo coutinho ou frederick wiseman onde não possa achá-los. um filme não pode ser criticado pelo que ele não se propõe ou entramos na egotrip do crítico.

partindo dessa questão complexa da propaganda gostaria de falar de alguns problemas do documentário. quase todos são decorrentes de sua cara liberal elevada, só que não dá para saber quem é o responsável: se o jovem diretor ou o velho intelectual, ou um pouco de ambos. de qualquer forma, esse liberalismo paternalista coloca todos os usuários de drogas como dependentes necessitados de um tratamento de saúde (isso fica bem claro nas falas de fhc, dráuzio varela e paulo coelho). não se menciona o direito individual, a autonomia de cada cidadão no uso de seu próprio corpo e o uso real de drogas com fins recreativos, religiosos e/ou culturais.

por causa dessa postura, o filme perde a oportunidade de entender porque as pessoas fazem uso de drogas. ao falar com um jovem branco de classe média que enfrenta uma série de perigos na biqueira (tanto por parte dos traficantes quanto dos policiais) para comprar sua maconha, o igualmente jovem cineasta não pergunta o que motiva o garoto a fazê-lo. é para dar risada com os amigos? é para assistir algum filme de ação? é para curtir uma larica total? nada, ele não pergunta qual é o barato.

o filme também não questiona a injustiça social que se esconde nas entrelinhas do proibicionismo mundo afora, afinal são os negros e pobres que continuam sendo majoritariamente presos e mortos nessa roda viva. decorrente dessa constatação, outra pergunta é deixada de lado: quem lucra com o proibicionismo, além dos traficantes? o combate ao tráfico, aliás, aumenta o preço das drogas, aumentando assim o lucro e o interesse comercial.

a discussão ainda está no começo nesse brasilzão conservador, mas a descrimizalização e a regulação da maconha (para uma posterior legalização) devem ser encaradas como os principais objetivos – dentro dessa questã das drogas - para uma sociedade mais igualitária e madura. não dá para fazer tudo de uma vez: o assunto é complicado, a ignorância/hipocrisia é muita e as drogas tem os mais variados usos e diferenças entre si. mas é certo que a proibição não ajuda em nada, só atrapalha. as drogas estão com a gente desde sempre, para o bem e para o mal, como tudo que é nosso. não adianta fugir. somos grandinhos, sabemos o que é certo e errado (e quando não sabemos fazemos merda, independente do jeito ou aditivo). simples assim.



p.s.: gostaria de finalizar com a última resposta de fhc na entrevista dada a trip, justamente sobre um dos lados do assunto não tratados em quebrando o tabu:

“eu desconheço qualquer sociedade que não tenha experiências com suas drogas de preferência. isso tem alguma relação com o transcendental. não é uma experiência religiosa, mas tem algum parentesco. é sair do objetivismo, escapar do que você não consegue escapar, que é a sua carne, da mera matéria. então, claro que não espero que um policial vá encarar nesses termos, mas eu não sou um policial. sou um sociólogo e tenho que pensar nisso. tem gente que tem experiências místicas, uma viagem, um barato espiritual. as pessoas buscam essas coisas. eu estudei umbanda. o que é aquilo? também é uma experiência mística, transcendente. e tem ali tabaco, álcool, no meio de uma tentativa de se comunicar com outro mundo. isso é natural, próprio da experiência humana, eu acho que a gente tem que entender isso com uma visão mais ampla. não estou justificando, mas as pessoas precisam ir em busca de si mesmas. às vezes recorrem à droga como desespero. às vezes recorrem sem desespero, conscientemente. eu acho que temos que encarar como parte da vida. não como algo que temos que eliminar. porque isso não se vai conseguir.”

segunda-feira, 30 de maio de 2011

caminhando e pulando e gritando

imagino que a essa altura todos saibam que correu bem a marcha da liberdade em são paulo, no último sábado (28 de maio), apesar de mais uma absurda proibição por parte do ministério público do estado de são paulo (segundo os excelentíssimos, a marcha da liberdade seria uma marcha da maconha disfarçada!!!). estiveram por lá, da paulista até o centro da cidade, umas 4 mil pessoas, tudo muito tranquilo e festivo. alguns momentos divertidos, outros bonitos (o "minuto de silêncio" em frente ao cemitério da consolação) e até alguns tensos (impressionante como a referência sonora muda após um choque com a polícia e todo rojão se transforma em uma invasão em potencial).

mas duas coisas muito bacanas da marcha me fizeram pensar bastante: a ótima e atual reocupação do espaço público da cidade (em outras é mais fácil, mas são paulo é dureza para estimular esse tipo de reunião de pessoas) e a enorme quantidade de questões no decorrer da marcha. não era uma marcha monotemática e sim uma lombrigona cheia de muitas coisas a discutir e resolver (raça, sexo, direitos civis, questões de classe, etc.), o que deve se tornar cada vez mais comum em manifestações do tipo. a rua serve pra isso, pra encontros, trocas, diálogos, quer o judiciário paulista (e outros) permita ou não. e foi sobre isso que o bróder @mauriciofiore tratou em seu ótimo texto publicado na tendência/debates na folha de sábado (logo abaixo).

Debater nas ruas não é crime
por Mauricio Fiore

O julgamento da constitucionalidade das proibições impostas às Marchas da Maconha por alguns tribunais estaduais será um marco do amadurecimento democrático brasileiro. As ações, impetradas em 2009 pela então procuradora-geral da República Deborah Duprat, objetivam a extinção definitiva das censuras à manifestação.

A Marcha da Maconha é um movimento pacífico pela legalização da planta Cannabis e ocorre anualmente em mais de 200 cidades em todo o mundo. Sua proibição é uma grave violação aos direitos constitucionais de reunião e de expressão. Em São Paulo, esse ritual autoritário se repete desde 2008: o Ministério Público, por meio de promotores do Grupo de Repressão ao Tráfico de Entorpecentes, pede a proibição da marcha em sua véspera. O Tribunal de Justiça sempre os atendeu e, neste ano, o desembargador Teodomiro Méndez decidiu que a manifestação do último sábado era ilegal a menos de 20 horas do seu início. Os organizadores, como nos outros anos, acataram a decisão judicial e realizaram uma Marcha pela Liberdade de Expressão, na qual as pessoas poderiam se manifestar sem mencionar ou portar qualquer referência à maconha.

A ação da Polícia Militar foi ambígua. Primeiro, negociou os termos da marcha e bloqueou o trânsito da avenida. Mas, logo depois que as cerca de mil pessoas saíram do Masp em direção à rua da Consolação, foram surpreendidas, pelas costas, por bombas de gás, balas de borracha e cacetetes. Houve um PM e muitos manifestantes feridos, seis presos e milhares de transeuntes amedrontados com a violência.

Como pesquisador do consumo de drogas psicoativas, convivo com a dificuldade de debater publicamente o tema. O tabu e a desinformação são produtos de um século de proibicionismo - um paradigma autoritário, ineficiente e danoso. Recentemente, o debate entre especialistas e políticos sobre modelos alternativos à "guerra às drogas" se fortaleceu. É fundamental que esse debate aconteça também nas ruas e envolva não só os milhões de consumidores de maconha e outras drogas ilegais, mas todos os que se inquietam com a violência e a corrupção geradas pela proibição.

Entretanto, na democracia de alguns promotores e juízes, temas como o consumo de maconha só podem ser discutidos em ambientes assépticos e climatizados. Alegam que, quando vão às ruas para manifestar sua discordância, os cidadãos fazem apologia do crime de tráfico, justamente o crime que a marcha busca enfraquecer. Falam também em "indução ao uso de maconha". Seguindo esse raciocínio, os brasileiros que se manifestam pela descriminalização do aborto ou pela instituição da pena de morte deveriam ser proibidos de se reunir, porque estariam incitando a interrupção da gravidez ou o extermínio estatal. Felizmente, não são.

A expectativa, agora, é que o STF garanta o direito constitucional dos cidadãos de se manifestar pacificamente pela mudança ou pela manutenção da lei sobre drogas. Isso já ocorre em Marchas da Maconha como as de Porto Alegre, Rio de Janeiro, Recife, Buenos Aires, Berlim, Paris e muitas outras cidades. Na democracia, o convívio com opiniões divergentes é um pressuposto, mesmo que algumas delas nos desagradem. Outro regime? Só perguntando aos skinheads que, no último sábado, aplaudiram entusiasticamente a violência policial.
Mauricio Fiore é antropólogo e pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip) e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

p.s.: e um videozinho feito pela folha sobre a marcha.


segunda-feira, 23 de maio de 2011

arrebatamento na paulista

nos estados unidos anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar neste 21 de maio de 2011, mas ninguém parecia se importar com o apocalipse no início dessa história. sábado, sol, avenida paulista cheia, céu azul outonal. desço do ônibus em frente ao parque trianon, verde compacto raro na cidade de são paulo, e logo dou de cara com uma grande quantidade policial de carros, motos e soldados. mais do que eu imaginava, bem mais que na marcha da maconha do ano passado.

olho pro outro lado da avenida, no vão do masp, e ouço batuques e gritos. atravesso a rua e a primeira manifestação que vejo é de um grupo de 20 skinheads/neonazis malucos (um pleonasmo, eu sei) cantando o hino nacional e segurando cartazes com escritos do tipo "diga não as drogas / drogas destroem famílias". duas fileiras de policiais os protegiam de, naquela hora, cerca de 500 pessoas que nem ligavam, estavam de costas, nem aí, cantando "ei polícia, maconha é uma delícia". ok, estou oficialmente na marcha.


o grupelho de neonazis, os maiores fãs da polícia militar

de fora parece uma micareta hippie, de dentro também, mas o pessoal que organiza a marcha, acho que quase todos ligados ao coletivo dar (desentorpecendo a razão), é bastante sério e corajoso. o que não adiantou em nada na hora que constataram que o megafone estava de farol baixo, pilha fraca ou algo assim, e não conseguia dar conta a todos do que seria feito e de que jeito. por volta das 14h30, e já ao lado dos bróders mauricio fiore e giovanni cirino (pouco depois apareceria cristiano bromberg), comecei a ouvir os gritos de "vamos para paulista".

todos rumaram para a avenida e pararam na calçada para saber o que aconteceria em seguida. sem comunicação entre organizadores e batuque, demorou um pouco até todos perceberam que precisavam sentar para ouvir. e o batuque calou (nessa hora os neonazis aproveitaram para novas provocações, devidamente e rapidamente soterrados por gritos, xingamentos e palavras de ordem como “onha, onha, onha, plínio salgado fumava maconha”).


foto recorte transversal do início da marcha;
tinha mais gente na frente e atrás

o que se seguiu foi um daqueles momentos mágicos, piegas para alguns. centenas e centenas de pessoas sentadas no vão do masp ouvindo e repassando em voz alta a mensagem da organização da marcha, da primeira fileira até a última, um jogral em forma de onda.

por decisão judicial, a marcha da maconha foi considerada mais uma vez ilegal em são paulo, e mais uma vez a decisão saiu no começo da noite da sexta, sem dar chance para apelação. o honorabilíssimo desembargador teodoro cerilo mendez fernandez, espanhol gente fina condenado por espancamento em campos do jordão na década de 1990, declarou que a marcha era pretexto para fumarem em público fazendo apologia da droga ilegal. claro que não atentou para o fato, coitado, que discutir um assunto não é o mesmo que cometê-lo (ou falar sobre hitler é defender o nazismo?).

e, igualzinho a marcha 2010, o que era para ser uma chamada pública para colocar a questão da maconha no debate (alternativas ao proibicionismo, cultivo caseiro, etc.) teve que se transformar em uma manifestação pela, veja só, liberdade de expressão. quer dizer, uma democracia não é bem uma democracia quando um assunto não pode ser discutido, né não? porque essa história não é uma luta para que os maconheiros possam fumar o seu em paz, é muito mais do que isso, é uma tentativa de pensar em soluções para a violência urbana, o fim do tráfico de drogas, questões de saúde pública e também, obviamente, liberdade de expressão. as leis não são imutáveis, as sociedades também não, portanto viver numa sociedade democrática requer eterno diálogo, é casamento de todos com todos pra vida toda.

enfim, consequência prática dessa ilegalidade judiciária? entre os manifestantes não poderia haver nenhuma menção a maconha, nem nos cartazes nem em camisetas, e só assim a caravana poderia seguir. houve um acordo ali na hora entre o comando da polícia estadual (na figura do capitão benedito del vecchio) e a organização, e alguns jornalistas como ricardo galhardo (ig) foram testemunhas (video aqui). não haveria nenhuma menção visual a “erva maldita”, mas não teria como evitar palavras de ordem e coisa e tal. tudo certo e marcha seguiria por uma faixa pela paulista no sentido da avenida consolação até o centro da cidade. o relógio girava ali pelas 15h. pé na avenida, sol forte e bonito na cara.


o início da marcha na paulista, tudo ainda corria bem

achei estranho não ter nenhum policial nas laterais da marcha, mas tudo bem, melhor assim. outros também acharam e começaram a acender baseados. chegamos a convencer um grupo de jovens restarts a apagar o seu porque poderia ser pretexto para a polícia entrar. poucos passos na frente outros foram acesos e já não deu para controlar. foram também uma parca minoria e tenho certeza que isso não foi, e nem poderia ou deveria, ser motivo para o que aconteceu em seguida. certo mesmo é que depois de apenas dois quarteirões o comando da polícia militar do estado de são paulo decidiu que não queriam mais honrar o acordo e que, naquele momento, aquelas mil pessoas deveriam desobstruir a avenida por mal ou por mal.


a parte da frente da marcha, pouco antes
das primeiras bombas estourarem

estava na rabeira da marcha e vi quando começou. não houve provocação de nenhum tipo. houve apenas a decisão unilateral de acabar com aquilo do pior jeito possível. uma “bomba de efeito moral” estourou e a surpresa foi geral. como assim? jura? antes da próxima bomba explodir uma cena insólita e muito reveladora acontece: os neonazis aplaudem a brutalidade da polícia. não corro, fico meio em estado de choque, acreditando que foi só um “efeito moral”. mas novas bombas estouraram no cruzamento com a augusta junto com o bom e velho gás lacrimogêneo. logo depois foi a hora das balas de borracha, sempre na altura do peito ou do rosto, mas principalmente nas costas. e a confusão começou assim, democraticamente, com a polícia atirando pelas costas (nas costas!) de uma manifestação popular e pacífica.



não tô acreditando nisso! não deveria ser surpresa, claro, principalmente em se tratando de uma polícia que anualmente bate em professores, espanca estudantes, etc. só que ali, perplexo e no meio da ação, eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. era tudo muito gratuito. então, no cruzamento com a rua haddock lobo, próximo a igreja são luis, uma nova leva de bombas e gás fez com que eu me perdesse do mauricio, do giovanni e do cris (e o estilhaço de uma delas me acertou no peito, perto do pescoço, e soube depois que o giovanni também foi atingido). o choque estava apertando o passo, quase correndo, e chegando mais perto da marcha que, a essa altura, já tinha virado na consolação.

pouco antes dessas bombas estourarem vi um casal de adolescentes, estudantes do colégio são luis, na esquina da haddock lobo com a paulista. ela olhava meio fascinada para a tropa que avançava. não era admiração, era algo como “nossa, que real”. passei correndo por eles e segundos depois... estouros, ondas de choque se espalhando pelo ar, bem entre a gente. não vi mais nada depois. não sei se a realidade atingiu aquela moça como um meteoro, mas fiquei sabendo que muita gente que não tinha relação com nenhum dos lados da história recebeu sua dose de gás, susto e grosseria (motoristas parados, pedestres, famílias, crianças, fotojornalistas sempre no fogo cruzado, etc.)


souvenir de sábado

nessas também perdi a marcha. a polícia me ultrapassou no pique e rumou para o centro, pela consolação, atirando sempre, de tempos em tempos, aboiando a multidão para dispersá-la. pedro alexandre sanches cruzou o caminho com a marcha, agora marcha atlética, no começo da consolação e escreveu seu relato no texto “augusta, angélica e consolação”. e eu reencontrei mauricio ali pelo falecido cinema belas artes. continuamos descendo, junto com muitas outras pessoas que também ficaram para trás, para ver se alcançávamos o que sobrou daquela tarde.

tudo parecia mais rápido e ao longe a tropa seguia atirando, todos correndo. meio sem fôlego, boca seca, olhos ardendo, ficamos tentando entender o que podia ter dado errado, mas na maioria das vezes só falamos mesmo do quão canalha pode ser uma polícia como a de são paulo e o estado que permite que esse tipo de coisa aconteça. bruno torturra, da revista trip, que esteve na marcha de cabo a rabo e escreveu seu relato em “não somos conduzidos, conduzimos”, deu uma dica para esse clima repressivo na cidade: 25 das 31 subprefeituras são comandadas por coronéis da reserva (texto aqui do deputado estadual adriano diogo). ah, mas a polícia militar é do estado! pois é, mas a guarda civil metropolitana entrou na bagunça, como veremos adiante.

na altura do cemitério da consolação uma correria do nada fez com que eu me perdesse novamente do mauricio. alguns policiais estavam de moto empurrando, com a própria máquina e singelos chutões, os manifestantes para a calçada. dei uma corrida para ver se alcançava alguma coisa, mas acabei atravessando a avenida para comprar uma água no posto de gasolina. desanimado, perdido, com o peito ardendo e um pouco de sangue sujando a gola da camiseta, pensei se talvez não fosse hora de voltar para a casa. derrotado. como em 2010, só que pior.

não. vamos lá. desço agora pelo canteiro central da consolação e testemunho um outro motoqueiro policial chutando as pessoas para a calçada. pouco depois reencontro mauricio pela segunda vez. nada de giovanni e nem cris. chegamos a praça roosevelt toda cercada de tapumes e nem um sinal da manifestação, mas dezenas de motos, carros e soldados da polícia (alguns felizes, eufóricos mesmo), inclusive o tal motoqueiro chutador que acertou uns jornalistas e, para eles, deu a desculpa que estava sem freio.


cartum do francês wolinski, lembrado por @arnaldobranco

para onde todos foram? a dispersão deu tão certo assim? passamos pela biblioteca mário de andrade e chegamos na praça ramos, no teatro municipal. nada. nem sinal. não dava mais, cansado e frustrado decidi ir embora. mauricio também, ia resgatar o carro que tinha ficado no metrô vila madalena e do futuro imediato não sabia (um colega seu pesquisador, henrique carneiro, foi machucado na cabeça e ele conhecia vários dos organizadores da marcha, sendo que alguns tinham sido presos por distribuir o anti-proibicionista). o ônibus subiu a consolação e não era possível ver nenhum vestígio do que tinha acontecido por ali uma hora antes. a higienização repressiva comandada pela prefeitura e o estado de são paulo funciona como uma máquina bem azeitada. a rua pode estar um lixo, os pontos de ônibus em frangalhos, o asfalto cheio de buracos, o metrô insuficiente, não importa, o que interessa mesmo é que manifestações não existam ou não atrapalhem o trânsito do contribuinte (não somos todos?).

pra mim, por volta das 17h, tudo parecia perdido. “eles” conseguiram, mais uma vez. quando cheguei em casa descobri que o núcleo principal da marcha não tinha se dispersado, deu a volta no centro e subiu pela rua augusta rumo a delegacia de polícia nos jardins para onde tinham sido levados alguns detidos. aí a coisa ficou mais feia porque todos estavam mais próximos e a polícia militar decidiu usar cassetetes, chutes e spray de pimenta (e, o melhor, dando ordens para a guarda civil metropolitana ajudar na selvageria). o vídeo abaixo, feito pelo pessoal da folha, é o que melhor mostra o grau de selvageria gratuita da polícia do psdb. aliás, um parênteses para você que acha que é falta de maturidade política (ou coisa de petista) falar de psdb/dem/psd/tucanos numa hora dessas: você está redondamente enganado! só partidos isolacionistas e sabidamente arrogantes como o psdb - na mesma hora da bagunça na paulista, josé serra, em seu mundo parelo e bonito, puxava pra si a sardinha da beatificação da irmã dulce, veja só -, e que sofrem daquelas eternas dificuldades de diálogo com a sociedade civil e movimentos sociais, poderiam estimular e acobertar violências assim.



o pessoal que tomou porrada na rua augusta conseguiu chegar na delegacia de polícia dos jardins e, consequentemente, fechar a rua estados unidos. lá foram recebidos por policiais sem identificação, tática comum na ditadura, pois não? e por lá todos ficaram até que os detidos fossem liberados (foram recebidos por um coro de “maladragem dá um tempo”, e é importante que o bom humor sobreviva). pois é, anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar. não foi bem um apocalipse o que aconteceu em são paulo no sábado, 21 de maio. ninguém foi arrebatado. pelo menos não rumo ao juízo final.

acredito que quem esteve lá e não pode se manifestar ficou com um travo amargo na boca, uma vontade de ir à forra – tanto que foi marcado para o próximo sábado (dia 28, no mesmo masp, 14h) uma manifestação contra a violência policial. e quem não foi viu, ou deveria perceber logo, que seu cômodo baseadinho ilegal fumado em casa é assunto muito mais importante que as voltas do universo umbigo. é preciso discutir, é preciso tomar a rua (as marchas aconteceram muito bem em porto alegre, recife e rio de janeiro), porque fim do mundo mesmo é essa violenta falta de maturidade de nossas instituições – os cidadãos podem ser imaturos, como muitos de fato são, mas o estado e o judiciário não podem continuar cegos a demandas democráticas e legítimas da sociedade civil.


p.s.: fora os textos linkados no decorrer do relato, vale destacar ainda os ótimos trabalhos de camilo rocha, fausto salvadori e leonardo sakamoto, bem como análises sobre a proibição da marcha escrita por walter hupsel e sobre a violência policial assinada por paula miraglia.