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quinta-feira, 23 de maio de 2013

letra/música #27 e transversão #42

foi no blog do blundetto que fiquei sabendo do tributo brassens - echos d'aujourd'hui (fanon records), uma homenagem transglobal ao poeta, cantor e compositor anarquista francês georges brassens. nunca tinha ouvido falar dele, confesso, mas semana passada finalmente achei link para download do disco (aqui ou aqui) e é uma coisa linda. e também surpreendente porque foram reunidos artistas de várias partes do planeta cantando brassens em suas línguas nativas, o que acaba abrindo inúmeras portas para se procurar as versões originais e compará-las, colidí-las, etc. nas 16 faixas aparecem figuras como shawn lee (estados unidos), lianne la havas (inglaterra), grupo canalon de timbiqui (colômbia), las hermanas caronni (argentina), enkhjargal (mongólia), anthony joseph (trinidad), yael naim (israel) e, claro, blundetto (frança). mas então aparece rodrigo amarante cantando "o não-pedido de casamento" e... puxa... que versão, que música espantosamente linda e rebuscada. escuta só.




o não-pedido de casamento
(georges brassens, tradução e adaptação de rodrigo amarante e stephane san juan)

meu bem, por deus, tenho um pedido
não apontemos pro cupido
sua própria flecha
tantos amantes se arriscaram
com seu gozo eles pagaram
tal sacrilégio

uma aliança em cada mão
a jurar ordem de prisão
em domicílio
pro inferno, amélias secas amas
que deixam frias suas camas
pra pilar milho

eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?

vênus presa perde o viço
e com o choriço frita o juízo
cai na comida
por nada neste mundo eu vou
despetalar sobre o escargot
a margarida

cai o véu, com ele o encanto
o segredo da sereia, o canto
de Melusine
o batom nas cartas perde a cor
entre uma e outra página do
Nouvelle Cuisine

eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?
eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?

é muito fácil a gente pensa
largar no fundo da despensa
numa conserva
o belo fruto proibido
perdeu o gosto, foi cozido
não se preserva

de uma empregada eu não preciso
tratado a pão de ló, aviso
não quero nunca ser
como uma noiva eterna intento
a dona dos meus pensamentos
eu sempre ver

eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?
eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?
eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?

amarante, que está para lançar seu primeiro disco solo (cavalo), canta e toca violão acompanhado de berna ceppas (sintetizador), moreno veloso (cello), alberto continentino (baixo) e stephane san juan (percussão). agora veja e escute brassens direto de algum lugar dos anos 1960...



nas buscas por saber e ouvir mais dessa música encontrei ainda uma versão instrumental comandada por eddie "lockjaw" davis (sax tenor) e harry "sweets" edison (trompete) e lançada em 1979.



p.s.: agradecimentos a bebel prates que conseguiu essas informações (banda, tradução e revisão da letra que transcrevi) com o próprio amarante.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

as 25 músicas nacionais de 2011 + bônus

canções inesquecíveis nunca faltaram ao brasil e esse ano viu nascer um monte delas. cantadas ou instrumentais, de recife, belém, curitiba, vitória, são paulo, rio de janeiro, maceió, de tudo que é canto do país. e com muita gente aparecendo em mais de uma - lembro agora de cabeça de rodrigo ogi, karina buhr, marcelo cabral, thiago frança, kiko dinucci e anelis assumpção. seguem agora, na ordem alfabética de sempre, as 25 principais de 2011.

academia da berlinda – "praia do l" (olindance)



anelis assumpção – "neverland" [part. céu] (sou suspeita estou sujeita não sou santa)



autoramas – "abstrai" (música crocante)



bid – "chiquinha hey" [part. luiz melodia, anelis assumpção e negresko sis] (bambas 2)



cícero - "joão e o pé de feijão" (músicas de apartamento)



criolo – "linha de frente" (nó na orelha)



domenico – "fortaleza" (cine privê)



eddie – "o saldo da glória" [part. otto e karina buhr] (veraneio)



emicida – "pequenas empresas" [part. mv bill e dom pixote] (doozicabraba e a revolução silenciosa)



felipe cordeiro – "legal e ilegal" (kitsch pop cult)



gal costa – "recanto escuro" (recanto)



gui amabis – "o deus que devasta mas também cura" [part. lucas santtana] (memórias luso-africanas)



karol conká – "boa festa" (single)



kassin – "potássio " (sonhando devagar)



lirinha – "valete" [part. angela ro ro & otto] (lira)



marcelo camelo – "acostumar" (toque dela)



momo – "barco" (serenade of a sailor)



mundo livre s/a – "o velho james brouse já dizia" (as novas lendas da etnia toshi babaa)



pélico – "levarei" (que isso fique entre nós)



rodrigo ogi & stereodubs – "talarico" (single)



são paulo underground – "colibri" (três cabeças loucuras)



silva – "a visita" (silva EP)



slim rimografia & thiago beats – "batida e alfenim" [part. rapadura] (mais que existir)



vanguart – "mi vida eres tu" (boa parte de mim vai embora)



wado – "si próprio" [part. zeca baleiro] (samba 808)



e tem muitas outras dentro desses discos citados acima. mas a regra (aqui) é clara: só pode uma por álbum. no mais, o país é grande, a produção é imensa e coisa boa não falta, portanto seguem mais trinta músicas que fizeram a minha trilha do ano.

adriana calcanhotto – "beijo sem" (o micróbio do samba)
amiri – "insônia" (êta porra EP)
arthur de faria e seu conjunto – "tango do morto" (música para ouvir sentado)
bixiga 70 – "zambo beat" (bixiga 70)
chimpanzé clube trio – "nos tempos da motown" (tudo veio do nada)
css – "hits me like a rock" [part. bobby gillespie] (la liberación)
douglas germano - "obá iná" (orí)
faria & mori – "precaução" (outro lugar)
flávio renegado - "suave" (minha tribo é o mundo)
gang do eletro – "uno treme treme" (single)
junio barreto - "passione" (setembro)
karina buhr – "não me ame tanto" (longe de onde)
kiko dinucci, juçara marçal e thiago frança – "trovoa" (metá metá)
leandro lehart – "fricote" (ensaio de escola de samba)
mallu magalhães - "velha e louca" (pitanga)
mariana aydar – "cavaleiro selvagem" (cavaleiro selvagem aqui te sigo)
marina lima - "não me venha mais com o amor" (climax)
marisa monte – "o que se quer" [part. rodrigo amarante] (o que você quer saber de verdade)
pio lobato – "luana samba dub" (café 2)
rafael castro - "tô chutando lata" (rc canta rc EP)
rashid – "vou ser mais" (dádiva e dívida)
rodrigo ogi – "eu tive um sonho" (crônicas da cidade cinza)
romulo fróes, kiko dinucci, marcelo cabral e rodrigo campos – "cidadão" (passo torto)
savave – "no bonde" [part. rodrigo ogi] (versão extendida)
seu jorge – "dois beijinhos" (músicas para churrasco vol. 1)
sistema criolina - "manos e molhados [secos & molhados vs. racionais mcs]" (single)
strobo - "zouk house" (coletânea fora do eixo norte vol. 1)
xeiro verde – "loucas no pop" (single)
zé miguel wisnik – "mortal loucura" (indivisível)
tulipa ruiz – "memória fora de hora" (literalmente loucas – elas cantam marina lima)

sábado, 17 de dezembro de 2011

as 25 músicas gringas de 2011 + bônus

música então é mais difícil ainda, principalmente porque faço questão de escolher apenas uma música por artista/disco, o que às vezes é bem injusto. mas a vida é 'escolhas', e optei pela diversidade. sempre. então seguem aqui as 25 principais músicas gringas do ano à moda da casa (ordem alfabética), com direito a clipes, apresentações ao vivo ou apenas as canções, puras e simples. tem de tudo um pouco.

afrodizz - "suspect" (from outer space)



atmosphere - "bad bad daddy" (the family sign)



azealia banks - "212" [part. lazy jay] (single)



beastie boys - "make some noise" (hot sauce committee part 2)



charles bradley – "the world (is going up in flames)" [part. menahan street band] (no time for dreaming)



das racist – "middle of the cake" [part. anand wilder] (relax)



danger mouse & daniele luppi – "two against one" [part. jack white] (rome)



dead combo –"lisboa mulata" [part. marc ribot] (lisboa mulata)



dengue fever – "cannibal courtship" (cannibal courtship)



drc music - "hallo" [part. damon albarn, tout puissant mukalo e nelly liyemge] (kinshasa one two)



ghostpoet - "finished i ain't" (peanut butter blues and melancholy jam)



hail mary mallon - "meeter feeder" (are you gonna eat that?)



j. rawls - "best producer on the mic" [part. diamond d, oh no e kev brown] (the hip-hop affect)



jay-z & kanye west - "gotta have it" (watch the throne)



lee ‘scratch’ perry – "butterfly" (rise again)



mayer hawthorne - "a long time" (how do you do)



quantic y su conjunto - "get ur freak on" (los miticos del ritmo EP)



radiohead – "lotus flower" (the king of limbs)



raphael saadiq – "good man" (stone rollin')



rodrigo leão - "o hibernauta" [part. miguel felipe] (a montanha mágica)



sbtrkt - "wildfire" (sbtrkt)



shabazz palaces – "swerve..." (black up)



shawn lee – "não vacila" [part. curumin] (world of funk)



the cool kids – "get right" (when fish ride bicycles)



the echocentrics – "esclavo y amo" [part. natalia clavier] (sunshadows)



difícil pra cacete chegar nesses 25 acima e a escolha ficou sendo cozida por duas semanas – deu tempo para canções/discos entrarem na última hora, por exemplo –, fiquei com uma considerável lista sobressalente que achei interesante compartilhar. tudo 'linkado' conforme o figurino.

adele – "rolling in the deep" (21)
amsterdam klezmer band – "the new terk" (katla)
architecture in helsinki – "everything’s blue" (moment bends)
blueprint – "radio-inactive" (adventures in counter culture)
dennis coffey - "space traveller" (dennis coffey)
evidence – "well runs dry" [part. krondon] (cats & dogs)
gonjasufi - "the lows" (the ninth inning EP)
ikebe shakedown – "refuge" (ikebe shakedown)
jc brooks & the uptown sound - "baaadnews" (want more)
lack of afro - "lazy lazarus" (this time)
little dragon – "ritual union" (ritual union)
mexicans with guns – "highway to hell" [part. freddie gibbs e bun b] (ceremony)
michael kiwanuka – "tell me a tale" (tell me a tale EP)
ocote soul sounds – "pirata" (taurus)
peter cat recording co. – "prequel/pariquel" (sinema)
roots manuva – "watch me dance" (4everevolution)
spoek mathambo – "put some red on it [shabazz palaces remix]" (put some red on it EP)
the aggrolites – "out of sight" (rugged road)
the funk ark – "a blade won’t cut another blade" (from the rooftops)
the roots - "the otherside" [part. bilal oliver & greg porn] (undum)
the strokes – "taken for a fool" (angles)
the whiskey barons - "la murga skank" (reworks)
vast aire – "almighty jose" [part. karniege] (ox 2010: a street odyssey)
wale – "ambition" (ambition)
wu-tang clan – "only the rugged survive" [part. rza] (legendary weapons)

sábado, 2 de julho de 2011

transversão #39

fazia tempo que não rolava um transversão nos conformes, então retorno com uma edição particularmente recheada e não poderia ser por menos. é que o caso agora é "ain't no sunshine", canção que o mestre bill withers lançou no disco just as i am (sussex, 1971) e virou sucesso mundial instantâneo. sempre tive a impressão que "ain't no sunshine" existe desde que o mundo é mundo. é daquelas músicas completas, totais, na sua mistura de lamento e balanço. é profundamente soul e ao mesmo tempo aberta para possibilidades em outros gêneros como reggae, funk, samba, eletrônica e rock. mas comecemos pela original na voz suada de seu autor (que começou a escrevê-la inspirada no filme vício maldito, drama etílico de blake edwards lançado em 1962).



sucesso! e vocês sabem como sucessos são... todo mundo quer tirar uma lasquinha. só que não falaremos aqui dos oportunistas e sim de gente da pesada como o saxofonista/flautista/etc rahsaan roland kirk (1935-1977) que, em blacknuss (atlantic, 1971), fez essa linda versão instrumental cheia de novas camadas.



e a jamaica, sempre atenta ao soul americano, não podia ficar de fora. ken boothe, por exemplo, gravou sua versão, mas ficaremos aqui com a de boris gardiner lançada no disco a soulful experience is happening (vampisoul, 1971). bela e sentida que só.



provavelmente no mesmo ano, no panamá, o pessoal do the soul fantastics escapou da influência do vizinho caribe e fez de "ain't no sunshine" um funk pesadão (no bom sentido). tá na excelente coletânea panama! vol.2 - latin, funk and calypso on the isthmus 1967-77 (soundway, 2008), que o original pinheiros style disponibilizou para a turma.



outra banda pouco falada. outra data desconhecida. outra coletânea. os moleques da kashmere stage band, regidos pelo prof. conrad o. johnson (1915-2008), quebraram tudo nessa interpretação moderna, e igualmente funk e instrumental, que foi registrada no disco texas thunder soul 1968-1974 (stones throw, 2006).



e então veio o sempre muito inspirado guitarrista josé feliciano (cego como rahsaan roland kirk) que em 1972 mostrou a sua ótima gravação e a registraram em video.



no mesmo 1972, um garoto de 13/14 anos lançou seu disco de estreia solo, got to be there (motown, 1972), e lá estava "ain't no sunshine". o nome dele era michael jackson (1958-2009) e mesmo que já fosse o menino prodígio conhecido e admirado no jackson 5 ninguém estava preparado para tamanho poder interpretativo sobre uma música tão adulta.



brasil não podia faltar. foi o grande sivuca (1930-2006) que, no auge de sua carreira internacional (quando morou em nova york de 1964 a 1976, tocava com miriam makeba), colocou a música de bill withers para abrir o disco sivuca (vanguard, 1972). acompanhado por muitos músicos americanos, o paraibano torceu o soul e acelerou sambisticamente.



agora, se em bill withers o drama é próximo, real, sussurrado, em tom jones a coisa muda um pouco de figura e seu drama é de fera ferida, afetado e poderoso. e os arranjos dessa versão, que saiu no disco the body and soul of tom jones (decca/parrot, 1973), são matadores.



e para encerrar, mais uma instrumental. dessa vez assinada pelo gigante vibrafonista roy ayers na sua fase ubiquity. e a canção pop(ular) transforma-se numa suite épica e suingante. é do disco red, black and green (polydor, 1976).

sábado, 4 de junho de 2011

week end à congolesa

o nome da música é "week end" e quem a interpreta é do congo e se chama ringo star. isso mesmo, ringo star. música divertida com uma guitarra maravilhosa, delicada, límpida e suingante, e só pode ter sido feita para animar finais de semana em qualquer lugar do mundo, independentemente do tempo. conheci lá no sensacional global groove.


e olha só a cara do beatle menos conhecido da áfrica na capa do disco ne refuse pas (1985).

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

cida "winehouse" moreira

pois então. o dj zé pedro criou, em parceria com a distribuidora tratore, o selo "jóia moderna", no qual dá vazão a toda sua paixão pelas vozes femininas brasileiras. de bate-pronto estão saindo quatro discos inéditos e surpreendentes. tem as voltas de silvia maria (ave rara) e zezé motta (cantando luiz melodia e jards macalé em negra melodia), o especial a voz da mulher na obra de taiguara (que tem participações de célia, luciana mello, evinha, vânia bastos, verônica ferriani, fafá de belém, etc.) e um novo disco de cida moreira (a dama indigna). ainda estou começando a ouví-los, mas o primeiro que escutei, o da cida moreira, já pegou bem. produzido pela própria cantora/atriz com thiago marques luiz, a dama indigna traz mais da "canção popular melodramática" que cida destila por aí apenas com voz e piano. entre um david bowie e um gershwin aqui, um caetano veloso e um chico buarque acolá, surge uma versão linda e fortemente teatral de "back to black", de amy winehouse. escuta só.



ah, olha só as capas do disco (também são vendidos separadamente).

p.s.: agradecimento a @valtersil que passou o mp3 pra mim.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

transversão #38

olha só, the cure foi uma das bandas que mais ouvi na vida, pelo menos entre 1986, quando saiu a extraordinária compilação de singles standing on a beach, e os primeiros anos da década de 1990. depois eu me perdi de robert smith & sua gangue ou eles se perderam, enfim, aí vai do ponto de vista de cada um. bem, mas um dos discos essenciais na discografia dos ingleses é o ultra-melancólico disintegration (fiction records, 1989), que trouxe ao mundo canções como "lullaby", "fascination street", "pictures of you" e a belíssima "lovesong". e não é que esta última acabou de ganhar uma excelente interpretação pela voz da jovem adele? é a décima faixa de seu segundo disco, 21 (xl recordins/columbia, 2011). detalhe: também inglesa, adele nasceu um ano antes do lançamento de disintegration.



e aqui, o clipe da "lovesong" do the cure.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

nego dito forévis!
ou transversão #37
ou letra/música #19

essa é caixa preta, senhoras e senhores, a ansiosamente aguardada caixa preta de itamar assumpção (selo sesc sp, 2010). pra mim é o lançamento do ano, sem sombra de dúvida. não só porque reúne em nova edição todos os discos de itamar assumpção como solta ao mundo o desfecho da trilogia pretobrás (volumes 2 e 3). nascido em 1949 e morto precocemente em 2003, o paulista-paulistano ainda não teve sua obra devidamente reconhecida dentro do tal cânone da música popular brasileira. itamar ainda é prazer de poucos, ainda é "maldito", o que é coisa das mais injustas levando-se em conta o humor, a invenção e seu afiado e surpreendente sentido pop. essa caixa precisa se espalhar - talvez não fisicamente porque o preço pode assustar (150 paus, mas são 12 discos, e no site do sesc sai por 120 reais) -, porque a música do nego dito serve pra tudo, é como a vida. saudade.

quem ganha mais é quem ouve, porque itamar já é, pode acreditar. e na caixa preta estão
beleléu leléu eu (1980), às próprias custas s.a. (1982, o único disco ao vivo de itamar e que vem com uma faixa inédita, uma versão de "não vou ficar" do tim maia), sampa midnight - isso não vai ficar assim (1983), intercontinental - quem diria? era só o que faltava!!! (1988), bicho de sete cabeças vols. 1, 2 e 3 (1993), ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora (1996), pretobrás - porque que eu não pensei nisso antes? (1998) e o já póstumo vasconcelos e assumpção - isso vai dar repercussão (2004). tudo lindo. mas são discos que já ouvi de trás para frente, inúmeras e inúmeras vezes. agora, os inéditos pretobrás II - maldito, vírgula (2010) e pretobrás III - devia ser proibido (2010) trazem uma porrada de novidades e convidados em suas 29 faixas, além do próprio itamar em registros caseiros de voz e violão posteriormente arranjados pelos produtores beto villares (pretobrás II) e paulinho lepetit (pretobrás III). separei aqui alguns destaques desses dois discos e já começo com um transversão.



"todo esse tempo" é o nome dessa música e depois de ouví-la com itamar agora é a vez da versão acelerada e totalmente atual de bnegão. as duas estão no volume dois do pretobrás.



ainda em pretobrás II aparecem outros convidados. seu jorge canta "o tempo todo" e tenho certeza que itamar ficaria orgulhoso da versão desse outro grande artista da música negra brasileira.



e para encerrar os destaques desse volume, elza soares cantando "elza soares", música feita por itamar em sua homenagem. de arrepiar versos como "desde que me entendo por gente / eu sambo, eu faço o que gosto / my soul is black, meu sangue é quente / eu quando gosto, me enrosco", ainda mais com a emoção de elza no final.




já no pretobrás III ouvi algumas músicas que achei que nunca iria possuir registro em disco (já tinha ouvido e vibrado em shows). a divertida "pirex", por exemplo, ótimo exemplo das brincadeiras de itamar com a nossa língua (e que nessa versão traz participação de naná vasconcelos).



outra que já tinha ouvido em shows é "devia ser proibido" (itamar assumpção e alice ruiz). música de rachar o coração feita em homenagem ao poeta paulo leminski (marido de alice e amigo/parceiro de itamar). a letra acabou caindo como uma luva para a ausência de itamar porque "devia ser proibido / uma saudade tão má / de uma pessoa tão boa". participação de zélia duncan, uma das mais aguerridas divulgadoras do nego dito.




e pra encerrar, letra e música de "que tal o impossível", doce, amorosa e lírica, que me lembrou carolina de cara (ela é muito fã de itamar, o que me dá um baita orgulho, porque fui eu que apresentei). cante junto e tente não se emocionar. tente não pensar nela/nele.

que tal o impossível
(itamar assumpção)

que tal se nós dois vivêssemos
do jeito que nós quiséssemos
sem nada que aborrecesse-nos
que tal se tudo tivéssemos

que tal se realizássemos
aquilo que nós sonhássemos
maçãs macias comêssemos
que tal se nós nos beijássemos

que tal se nós dois dormíssemos
olho no olho acordássemos
que tal se nós felicíssimos
que tal se nós dois voássemos

que tal se nós dois pudéssemos
aquilo que desejássemos
que tal se nós dois cantássemos
tocassemos e nós dois mesmos dançássemos

que tal se nós dois partíssemos
que tal se a sós ficássemos
que tal se ao máximo amássemos
que tal se no céu morássemos
que tal
que tal o impossível
que tal
que tal o impossível



foto de 1998, em casa de alzira espíndola, época da gravação do pretobrás; foi durante a única entrevista que fiz dele e que está lá no gafieiras

quinta-feira, 24 de junho de 2010

as cores de um diamante

já tem um tempo que corre pela internet uma versão demo do primeiro trabalho do projeto almaz (que significa diamante em russo). não sei se o nome oficial será almaz ou seu jorge & almaz, mas é certo que o encontro de seu jorge, lúcio maia, antônio pinto e pupillo está entre as boas notícias do ano. a princípio, o quarteto se reuniu para gravar uma versão de "juízo final" (nelson cavaquinho e élcio soares) para a trilha de linha de passe (2008), de walter salles e daniela thomas. no estúdio, uma música virou duas, três, quatro e um repertório foi nascendo com tim maia ("cristina"), kraftwerk ("the model"), martinho da vila ("cirandar"), michael jackson ("rock with you"), jorge ben ("errare humanum est"), noriel vilela ("saudosa bahia") e roy ayers ("everybody loves the sunshine"), entre outras.

pelo que dá pra ouvir nas versões demo, o disco é de encher os ouvidos, cheio de climas e grooves. mas segundo informações da jornalista patricia palumbo, o lp e cd duplo só tem previsão de lançamento no exterior (shows? também só lá fora) e assim, novamente, acontece o mesmo que ocorreu com o sonantes (céu, rica amabis, gui amabis, pupillo e dengue), que lançou um disco fudidaço em 2008 e que nunca ganhou versão nacional. enquanto isso não acontece, a gente torce e acompanha (e ouve mesmo assim). escolhi três entre as doze que já estão por aí, começando com altemar dutra e depois partindo para roy ayers e tim maia. só belezura.







atualização em 24 de setembro: no youtube já existem vários trechos de shows do projeto mundo afora, mas tem essa ótima entrevista feita com seu jorge em chicago.



e na sequência, a gravação de algumas parte da bateria do pupillo para a música "cristina", com a presença no estúdio dos produtores mário caldato jr, beto villares e missionário zé.




atualização em 14 de dezembro: o diretor (e ator) hindu-americano kahlil joseph fez dois curtas, filmados nos estados unidos, inspirados nesse trabalho de seu jorge & almaz (e com a participação dos próprios). climão e coisa e tal.



quarta-feira, 23 de junho de 2010

transversão #34

seguindo em cuba, mas voltando no tempo, dámaso pérez prado (1916-1989) foi um compositor de inúmeros mambos de sucesso no mundo inteiro, principalmente na década de 1950. talvez o seu maior hit tenha sido "patricia", canção deliciosa lançada originalmente em 1958. no video abaixo tem o trecho de um filme com a versão original. o orgão na introdução e o ataque de metais latinos são inesquecíveis.



"patricia" ganhou inúmeras regravações no decorrer das décadas e em todo mundo, como por exemplo na jamaica com ike bennett & the crystalites em algum lugar da década de 1960. versão retirada diretamente do disco from chariot's vault - 16 rocksteady hits vol. 1, mais uma pedrada disponibilizada pelo you & me on a jamboree.



no brasil, o mambo foi gravado por gente como emilinha borba, raul de barros, waldir calmon, ivon cury e sylvio mazzuca. mas aqui a gente vai ouvir a gravação de caetano veloso no disco ao vivo omaggio a federico e giulietta (universal, 1999). ah, e a letra em português é de um tal alexandre bougert.



e pra encerrar, uma excelente versão instrumental criada pelo encontro dos guitarristas ry cooder e manuel galbán no disco mambo sinuendo (nonesuch records, 2003).



p.s.: mas qual o motivo de caetano ter colocado um mambo cubano em sua homenagem ao diretor federico fellini e sua mulher, a atriz giulieta masina? é que "patricia" teve papel fundamental na trilha do clássico a doce vida (1960). saca só. 




atualização em 15 de maio de 2011: não podia deixar de colocar essa versão feita para uma big band colegial de marimbas. o responsável é um tal de anders kirk pedersen, dinamarquês até onde sei.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

letra/música #16

a trilha memorável de um filme tão belo quanto silencioso - é proibido fumar (2009), de anna muylaert - tem um fecho pra lá de dourado (e que, confesso, não conhecia). "dou you like samba?" é composição de marcelo duran e foi lançada em 1973 pelo cantor baiano ciro aguiar, que começou comendo pelas beiradas da jovem guarda e na virada da década de 1960 pra 70 se mudou de mala e cuia para o sambão (mas também participou de uma montagem do musical jesus cristo superstar). ciro continua por aí fazendo shows e comandando programas de rádio na bahia.

ciro mendes de aguiar, baiano da cidade de salvador do ano de 1942

do you like samba?
(marcelo duran)

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

pra poder cantar meu samba
eu já estou de perna bamba
de tanto esperar
pra você me entender
até inglês fui aprender
pra me comunicar

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

eu conheço muita gente
que querendo ser pra frente
bota a cara para quebrar
compra disco brasileiro
pensando que é estrangeiro
e vai pra casa se esnobar

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

tem um tal de cash box
que é um cara não me toques
que faz a programação
vejo a semana inteira
uma novela brasileira
e nunca vi tocar sambão

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

por favor não leve a mal
mas não entendo o pessoal
alguém tem que me explicar
ouve rock o ano inteiro
e quando chega fevereiro
vai pra escola desfilar

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you


sábado, 10 de abril de 2010

transversão #32 + letra/música #14

tava aqui com carolina assistindo a um documentário nos extras do dvd o pirulito da ciência (ao vivo) (biscoito fino, 2010), e entre as muitas falas ótimas de tom zé apareceu um de seus poucos sucessos radiofônicos lá no ano de 1973, "se o caso é chorar" (tom zé e antônio "perna" fróes, do disco se o caso é chorar, lançado pela continental em 1972). carolina, que é grande fã do baiano, tinha esquecido dela e assim de bate-pronto a música entrou no seu rol de a-melhor-música-do-tom-zé-de-todos-os-tempos (junto com "qualquer bobagem", "augusta, angélica e consolação", "mã", "o amor é velho-menina" e "lua-gira-sol"; esqueci alguma, carolina?). aí fiquei pensando se tinha alguma regravação para fazer um transversão e fui lá no memória musical. a resposta foi: poucas. é curioso como tom zé não é muito regravado. talvez por suas músicas serem muito pessoais, e sua interpretação invariavelmente as eternizá-las; talvez porque as canções carregam um tanto de não-canções dentro delas, são estranhas, quebradas. enfim, tudo chute. certo mesmo é que "se o caso é chorar" foi regravada por um grupo chamado os caretas no mesmo ano que foi lançada (1972), pelo milton banana em 1973, pelo próprio tom zé em outras ocasiões ao vivo e por bete calligaris em 2002. e é isso. por enquanto, a original.



agora vamos com uma versão instrumental comandada pelo genial baterista milton banana no disco milton banana (odeon, 1973).

milton banana - se o caso é chorar by dafne47

dá pra ver aí como é daquelas canções que se sai muito bem tanto em letra quanto em música, mas não há como negar que a letra de "se o caso é chorar" é das melhores de sua lavra. confira.


se o caso é chorar
(tom zé e perna)

se o caso é chorar
te faço chorar
se o caso é sofrer
eu posso morrer de amor.

vestir toda minha dor
no seu traje mais azul
restando aos meus olhos
o dilema de rir ou chorar.

amor deixei sangrar meu peito
tanta dor, ninguém dá jeito.

amor deixei sangrar meu jeito
pra tanta dor
ninguém tem peito.
se o caso é chorar...

hoje quem paga sou eu
o remorso talvez
as estrelas do céu
também refletem na cama
de noite na lama
no fundo do copo
rever os amigos
me acompanha
o meu violão

o engraçado é que em um show de junho de 1990, e dividido com o violonista e compositor gereba (que saiu no disco independente cantando com a platéia), tom zé explica a letra dessa música, e que na verdade não tem nada de romântica (acho que não vou contar pra carolina essa parte). é uma brincadeira de colagem, um de seus processos preferidos de composição, e nesse balaio tem uma valsinha cantada por hebe camargo, chopin, tom jobim, antônio carlos & jocafi, erasmo carlos e rolling stones, entre outros. na agenda do samba & choro
tem a transcrição dessa explicação e aqui segue o áudio.

tom zé - se o caso é chorar 1990 by dafne47

p.s.: em novembro de 2009, dentro de uma série de shows idealizados por ronaldo evangelista, a doce lulina assinou mais um registro de "se o caso é chorar" (e tem foto do encontro de lulina e tom zé no twitpic do renato parada). segura.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

transversão #31

classicão roqueiro da gota serena, "house of the rising sun" (ou "the house of the rising sun" ou ainda "rising sun blues") não tem pai, nem mãe, mas é fruto da intensa nova orleans no final do século 19 e de seus alegres e fatais puteiros (que também geraram o jazz). os primeiros registros fonográficos só foram acontecer na década de 1930 e devem muito a john e alan lomax (pai e filho), pesquisadores que saíram pelos estados unidos - como mário de andrade fez aqui - gravando músicas tradicionais, negras e brancas. músicas folk, folclóricas. esses primeiros registros possibilitaram que já na década de 1940 surgissem versões de figuras como woody guthrie e lead belly, e depois weavers, frankie laine, joan baez, bob dylan e nina simone. esta gravou em duas ocasiões. mais lentamente em nina at the village gate (colpix, 1962) e numa versão mais rápida em nina simone sings the blues (rca, 1967). fiquei com a mais rápida.



entre uma gravação e outra de nina, a música estourou mundialmente sob a responsabilidade de eric burdon e seus animals. era 1964.



o sucesso foi tão grande e essa música fez tanto sentido para tantas pessoas que logo nasceram traduções mundo afora. no brasil, por exemplo, agnaldo timóteo gravou "a casa do sol nascente" (versão de fred jorge) no disco surge um astro (odeon, 1965).



aqui ao lado, na colômbia, los speakers mandaram ver em "la casa del sol naciente".



e não é que no irã também rolou uma?! é de um pessoal chamado group takhala la e foi chamada de "dokhtar e darya", e não sei o que significa nada disso. mas ouvi essa versão - o gatilho pra esse transversão - no disco raks! raks! raks! 17 golden garage psych nuggets from the iranian 60's scene (raks records, 2009), uma dica quente de zeca camargo em seu blog.



e agora, pra encerrar com chave de ouro e em dose dupla, duas gravações em gêneros preferidos da casa. começando com jazz e donald byrd, e retirada do delicioso disco up with donald byrd
(verve, 1964). ao piano, um jovem herbie hancock.



e passamos a régua com reggae estiloso de gregory isaacs, em registro do disco pardon me! (ras, 1992).