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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

onfalofobia, a reportagem

mais uma reportagem daora que fiz pra revista trip e dessa vez a pauta veio aqui de casa, com inspiração e ajuda da minha mulher, carolina. é que desde que estamos juntos fui proibido de vir com saliências pro umbigo da moça. então quando o renan fagundes, lá da trip, me contou desse tema 'umbigo' pra edição de novembro, lembrei logo dessa aflição de carolina, que me ajudou a fazer as perguntas e deu o norte para o tipo de abordagem do texto. depois fui no twitter e, surpreendentemente, em menos de uma hora consegui quatro fontes-fóbicas. e o resultado está aqui [como sempre, essa é a versão maior do texto que está nas páginas da revista].

agradecimentos especiais a bia lins, clara souza, daiana de souza e danilo moura que mostraram - pela primeira vez e em público - questões muito íntimas [as íntegras de suas entrevistas estão aqui]. outros agradecimentos à psicóloga paula bonilha e aos psicanalistas arnaldo dominguez e marilucia melo meireles que me ajudaram a entender isso tudo. e, acima de tudo, ao amore carolina, que tem um umbigo lindo [mesmo que ela não acredite].

umbigo, umbigo meu

O MEDO DO UMBIGO DIANTE DO COTONETE

Uma das imagens mais icônicas criadas pelo fetichismo cinematográfico de cinquenta tons de nove semanas e meia de amor é a do cubo de gelo dando voltas ao redor do umbigo, um filete de água gelada escorrendo para dentro dele e, por isso, uma mulher mordendo os lábios de prazer. Mas o que é sexy pra uns é motivo de agonia extrema, quase horror de sexta feira treze, para quem sofre de onfalofobia, o medo aflitivo de umbigos [onfalo é umbigo em grego, e fobia é fobia em qualquer lugar].

“A primeira recordação que tenho de mal estar é minha mãe brincando comigo, tinha uns dois anos, e ela fazia cócegas lá e eu chorava porque doía. Reconheci assim a existência do umbigo e que ele dói. Ainda hoje é como se fosse uma ferida em recuperação, mas ainda muito sensível”, explicou Bia Lins, arquiteta de Curitiba. 

Outras conexões com a mãe, o nascimento ou a primeira infância também são feitas por Daiana de Souza: “Minha mãe sempre ficou intrigada com essa sensação ruim, de agonia, que tenho. Porque veio já na minha infância. Pensei em fazer regressão, porque nada me tira da cabeça que é lance do começo de tudo, lá do meu nascimento, da hora do parto ou de dias depois [ou até da gravidez da minha mãe]”, disse a jornalista gaúcha de Campo Bom, região metropolitana de Porto Alegre.

Lembranças parecidas tem Carolina Toledo, analista de pesquisa de mercado em São Paulo, que diz que “não sei se minha mãe tentava limpar com cotonete quando eu era pequena. Mas a minha aflição não é uma coisa de olhar, foi sempre de tocar ou ser tocada. Dá uma sensação de enjoo, vontade de vomitar. É como se eu ficasse muito vulnerável, sabe? Parece uma invasão, dá sensação de fragilidade. E tem uma dorzinha física também.”

Mineira de Manhuaçu, Clara Souza também se sente vulnerável. “Tenho há muito tempo, não lembro quando começou. Talvez tenha desde sempre. Sinto uma coisa terrível quando alguém toca no meu umbigo. Não é cócega, não é tesão. É uma sensação de invasão, chega a me dar falta de ar”, recorda a fotógrafa que mora e trabalha em Salvador.

primeira dupla da matéria na trip

Não existem dados, estudos ou estimativas sobre onfalofóbicos no Brasil, e muito menos especialistas, grupos de apoio ou páginas no Facebook. É cada um por si, e cada um sem saber da existência de outros. “Quem sofre de onfalofobia acha que é mais uma aflição, o que sugere um nível de ansiedade menor, do que uma fobia. Mas ela é, verdadeiramente, uma fobia, afinal essas pessoas não conseguem fugir do medo. No entanto, como estão em contato com os umbigos diariamente acabam desenvolvendo recursos cognitivos pra lidar com aquela situação. Acaba sendo uma fobia mais branda. Não é paralisante, ou algo que comprometa o dia a dia, e talvez por isso não apareça em consultório”, explica a psicóloga comportamental Paula Bonilha, que tratou uma podofobia [medo dos pés], mas ainda não se deparou com fóbicos de umbigo.

Bia, Carolina, Clara e Daiana tem aflição do próprio e, principalmente, de mexerem nele. Com Danilo Moura a questão é mais externa. “Tenho problemas com esses umbigos para fora. É horrível, me dá agonia, uma sensação estranha. É como se algo estivesse fora do lugar, mas de um jeito grotesco. Sinto o meu antebraço repuxando, os pelos ficam eriçados, uma aflição. Não é nada bom”, disse o assistente de importação em Diadema.

Será coincidência que as quatro mulheres onfalofóbicas ouvidas para esta reportagem tenham questões com o próprio umbigo e justamente o único homem tenha com o dos outros? “Mulheres geralmente têm mais fobias físicas que os homens. Primeiro porque, numa sociedade machista, é menos permitido ao homem sentir medo. Mas acima de tudo tem a questão da relação da mulher com seu próprio corpo, do tabu de certas partes, da maior ou menor exposição das mesmas, de pudor”, opina a psicóloga.

Mas quem vive isso íntima e solitariamente durante tantos anos – e a agonia só piorou com o passar do tempo –, tal questão de gênero é a menos importante. Daiana teve uma época de pesadelos recorrentes com alguém afundando o dedo em seu umbigo. Faz tempo que não os tem. Bia só dorme de bruços, pois tem uma sensação boa de proteção. Quando vira de barriga pra cima cobre o umbigo com as mãos e sempre evita dormir de lado. Danilo busca não olhar pessoas na praia ou piscina para não ser surpreendido por “umbigos pra fora”. Clara tem horror aos umbigos estufados das grávidas, mas precisa encará-los na pós-produção dos retratos que tira.

A gravidez, aliás, é uma grande questão para as onfalofóbicas. Clara não quer ter filhos e Bia, que nunca passou por uma gravidez, acredita que teria problemas ao mexer no umbigo de um bêbe. Daiana não conseguia limpar o umbigo de sua recém-nascida e o marido é que dava conta da tarefa. Hoje, um ano depois de dar à luz, ela consegue limpar, mesmo com alguma agonia. “O que pra mim é uma conquista e tanto”, comemora.

Carolina, que está grávida, não quer nem pensar no próprio umbigo nos próximos meses e também passou para o marido a responsabilidade de limpar o da futura filha nas primeiras semanas. E complementa: “Tenho aflição também com cordão umbilical, e já tinha isso antes de ficar grávida. É como se a qualquer momento o bebê pudesse me puxar pelo cordão, dar um tranco e doer meu umbigo”. Mas mesmo com toda essa aflição, Carolina prometeu enfrentar todos os umbigos do mundo por sua Tereza.

Daiana encarou seu medo, anos atrás, de outra forma. “Resolvi colocar piercing pra tentar boicotar esse troço chato. Pensei: vou colocar um pendurico porque aí quero ver ter essas frescuras. Foi horrível. O negócio inflamou e minha própria pele expeliu o adorno. Até hoje tenho uma cicatriz ali que se potencializou, inclusive, quando engravidei. E detalhe: a linea nigra, comum em gestantes, acentuou justamente quem? Ele, o umbigo”, e dá uma risada, sinal que a aflição anda perdendo terreno para o bom humor.

segunda e última dupla da matéria na trip

Ninguém ouvido por essa reportagem cogitou buscar tratamento. Muito pelo contrário. “Vi na internet que se você estiver perto de alguma pessoa que te incomoda, o tal ‘sugador de energias’, seria indicado tapar o umbigo pra aliviar. Adotei o procedimento, pego fita crepe e lacro todo umbigo. E por incrível que pareça, alivia. Enfim, é um mal estar tão interiorizado que a gente não vê como um problema ou defeito, mas como uma característica pessoal”, e foi assim que Bia conseguiu momentos de tranquilidade.

Se quiserem, onfalofóbicos podem buscar ajuda profissional. “A função da fobia é a de proteger o sujeito da aproximação do desejo [do outro] e seu tratamento se dá, na psicanálise, pela via da transferência. Como a questão da fobia é muito colada no real, para que haja alguma eficácia simbólica exige-se do analista um ato. E a maioria dos analistas sofre de ‘horror’ do ato”, explicou Arnaldo Dominguez de Oliveira, psicanalista e fundador da Associação Etcétera e tal.

Já a terapia comportamental, muito mais pragmática, não possui essa aversão “ao ato” para o tratamento de fobias. “A gente ajuda o indivíduo a enfrentar aquela situação fóbica de uma forma gradativa e sistemática através de pensamentos cognitivos mais positivos. É uma técnica chamada dessensibilização sistemática. Mas, como a psicanálise, também acreditamos que fobia não precisa de medicação, é só terapia mesmo. Medicação só é necessária se a fobia estiver acompanhada de algum quadro depressivo”, afirmou Paula Bonilha.

Sem nunca antes terem falado conscientemente sobre suas fobias, Bia, Carolina, Clara, Daiana e Danilo até acham interessante a ideia de terapia, mas acreditam também que não é pra tanto. Só o fato de terem verbalizado a um completo estranho e saberem que não estão a sós “nessa maluquice” serviu como substituto gratuito para qualquer tratamento; pelo menos, por ora. Também ajuda terem parceiros(as) compreensivos(as). O resto dá-se um jeito.

E, afinal de contas, se pudessem escolher entre ter ou não ter umbigo? O que seria? ‘Ter’ foi a resposta unânime e enfática. “Mas preferia um que não me desse tanto o que falar. Ou melhor: queria descobrir o porquê disso tudo pra poder fazer as pazes com o meu”, resumiu uma Daiana esperançosa de, finalmente, curar essa cicatriz.

onfalofobia, as entrevistas

seguem aqui a íntegra de quatro das cinco entrevistas que fiz com a turma que tem aflição de umbigos. elas [e ele] são protagonistas da reportagem que fiz pra edição de novembro da revista trip. carolina toledo, minha mulher e musa inspirada da vida [e da pauta], ficou de fora porque a entrevista com ela não teve essa formalidade das outras.


fotos de Frederic Fontenoy

BIA LINS, arquiteta, Curitiba-PR

Quando falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
A primeira coisa que vem à minha cabeça é AGONIA. E o ato reflexo imediato é pensar em proteger essa área do corpo.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que vc sentiu?
A sensação de agonia no umbigo parece ter me acompanhado desde cedo. A primeira recordação que tenho de mal estar é minha mãe brincando comigo, uns dois aninhos, de fazer cócegas, passar pelo umbigo e eu chorar porque doía. Reconheci a existência do umbigo e que ele dói.

Como você descreveria a sensação?
A sensação de agonia no umbigo passa por vários sentidos. O mais delicado deles com certeza é táctil. É como se fosse uma ferida em recuperação, mas muito sensível ainda. Você sabe que ali tem um machucado e protege automaticamente. Quase uma coisa de reflexo. Uma ferida de EXISTIR. Ouvir a palavra UMBIGO também gera desconforto e ver umbigos em imagens ou pessoalmente também é estranho, especialmente quando são aqueles umbigos pra fora. Aquela bolota ali dá arrepios na nuca. Mas a sensação mais forte é sensorial mesmo. Não é algo que passe pela razão, que você saiba atribuir uma causa, ou explicar claramente o que sente, mas se tivesse que escolher umas palavras seriam: dor, mal estar, insegurança, vulnerabilidade.

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral? Existem tipos de umbigos que dão mais aflição que outros?
A aflição é com o MEU umbigo. Não tem nada a ver com o umbigo dos outros, mas a associação imediata de que eu tenho um umbigo que dá agonia.  E nem parece agonia propriamente com o umbigo, mas com a região, como se, alegoricamente falando, fosse uma região de fluxo de energias, como se o umbigo fosse uma espécie de portal por onde coisas ruins teriam acesso. Os umbigos gorduchinhos, aquelas bolotas pra fora, no entanto, causam uma agonia grande quando vejo. O meu umbigo é bem fechado pra dentro, às vezes acho que foi fechado tão lá pra dentro que talvez fosse a causa dessa agonia, mas acho que não tem nada a ver porque todo mundo tem umbigo assim ou assado e nem por isso sentem agonia.

Essa aflição mudou durantes os anos?
O que foi mudando ao longo dos anos foi a consciência da agonia. Pra mim, acentuou. Sempre tive, mas me sinto mais sensível com o passar dos anos.

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Não deixei de fazer nada propriamente, é uma agonia que a gente carrega quase como um segredo, porque, você fala ‘tenho agonia no umbigo’ e as pessoas confundem com cócegas, ou sei lá o que, então a gente deixa quieto. Agora, por exemplo, pensei em fazer uma plástica abdominal e o cirurgião falou em mexer no umbigo. Pronto, gelei na hora! Falei que tenho agonia e ele disse que as pessoas sentem isso por causa do excesso de cuidado com o tal do umbigo dos bebês que acaba gerando essa hiper sensibilidade e que isso seria comum. Só de pensar, adivinha, agonia.

E na relações pessoais, íntimas?
Nas relações intimas a comunicação é tudo. Mas não basta sinalizar não. Tem que dizer com TODAS AS LETRAS, nem chega perto do meu umbigo. ‘Porque?’ é a pergunta. ‘Porque eu não gosto!’ é a resposta e nesse ponto não tem negociação. São as particularidades de cada um.

Você conversou sobre isso com alguém? Chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Não é um assunto que eu lembre de ter conversado com ninguém. Tá tão interiorizado esse mal estar que a gente não vê como um problema, mas como uma característica pessoal, uma coisa sua, não um defeito. Nunca parei pra pensar que possa haver uma cura pra isso. Estranho.

Você já encontrou outra pessoa que tem também essa aflição?
Interessante que nunca conheci ninguém que falasse dessa tal agonia.

Tem alguma história engraçada ou pitoresca que aconteceu com vc relacionada a essa aflição de umbigo?
Essa delicadeza com o umbigo é peculiar. Por exemplo, só durmo de bruços, pois a sensação de proteção é boa. Se virar para dormir de barriga pra cima, durmo com as mãos sobre o umbigo. Dormir de lado é um problema porque pra segurar o umbigo com as mãos tem que dormir sobre o braço e daí a gente acorda com dor no corpo todo. Peculiar mesmo foi uma ocasião recente onde li na internet que se você estiver perto de alguma pessoa que te incomoda, o tal ‘sugador de energias’, seria indicado tapar o umbigo pra aliviar. Adotei o procedimento: Pego FITA CREPE e lacro todo umbigo. E por incrível que pareça, alivia.

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? Pq?
Se eu pudesse escolher eu queria ter umbigo sim. Acho bonito. O que eu não queria ter é essa agonia.



CLARA SOUZA, fotógrafa, Manhuaçu-MG/Salvador

Quando falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
Não sinto nada demais... meu "problema" com umbigo é só quando tocam.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que vc sentiu?
Eu tenho há muito tempo e não me lembro de quando começou, talvez eu tenha desde sempre.

Como você descreveria a sensação? É visual, sensorial, táctil?
Sinto uma coisa terrível... não é cócega, não é tesão. é uma sensação de invasão, acontece apenas quando alguém toca no meu umbigo... chega a me dar falta de ar. 

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral? existem tipos de umbigos que dão mais aflição que outros?
Eu só tenho essa aflição com o meu... é apenas quando tocam. meu umbigo é bonitinho, acho ele mais bonito que a média [risos]. Eu, como fotógrafa, tenho horror a umbigo estufado e escuro de grávidas, trato todos na pós produção [risos].

Essa aflição mudou durantes os anos?
Piorou. 

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? Deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Não. É muito íntimo. 

E na relações pessoais, íntimas?
Meu marido sabe que não gosto. Só toca nele quando quer fazer raiva em mim [risos].

Você conversou sobre isso com alguém? Chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Não... na verdade eu nem tinha me tocado quando a esse assunto. Achei legal isso ser tema de entrevista. Quero ler quando sair, pensava que só eu tinha essa maluquice. Nunca tinha ouvido falar que mais pessoas tivessem esse "problema".

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? Pq?
Eu prefiro ter.



DAIANA DE SOUZA, jornalista, Campo Bom-RS

Quando eu falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
Tchê, me dá um arrepio. Uma sensação ruim, de agonia.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que sentiu?
A vida toda! O que SEMPRE sinto é agonia. Inclusive, por muitas vezes, sonhei [tive pesadelo, na real] que alguém afundava o dedo no meu umbigo. Acordava como se tivesse saindo do inferno [mas é bem assim]. Faz tempo que não os tenho.

Como você descreveria a sensação? É visual, sensorial, táctil?
É sensorial, táctil. É algo bizarro porque se assemelha aquela sensação ruim semelhante às cócegas. Quem pratica te vê rindo e acha que tu está então gostando. Mas aquela risada na verdade é de pura angústia. Pois bem, é assim com o lance do umbigo. E eu não rio. Mas me refiro à essa sensação angustiante. Porque ninguém leva a sério isso, sabe? Parece que tu está brincando quando diz: por favor, não encosta no meu umbigo. A pessoa vem e encosta que é pra ver a tua reação. Tipo o lance das cócegas. Insiste.

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral?
Com o meu apenas. Ufa, né?

Essa aflição mudou durantes os anos?
Não. Quando eu tinha uns 25 anos resolvi colocar piercing no umbigo justamente pra tentar boicotar esse troço chato. Porque nem eu consigo encostar no meu umbigo. Sendo assim, àquela época pensei: vou colocar um pendurico porque aí quero ver ter essas frescuras. Resultado: foi horrível, o negócio inflamou e minha própria pele expeliu o adorno. Trash, viu? Até hoje tenho uma cicatriz ali que se potencializou, inclusive, quando eu engravidei, em 2016. Quanto mais a barriga crescia, mais a cicatriz se anunciava. E detalhe: meu umbigo estava PRETO na gestação. A linea nigra, comum em gestantes, acentuou justamente quem? Ele, o umbigo [risos].

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? Deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Sim, sim e sim. Por muito tempo eu tive que aceitar ter um umbigo sujo. Sim, sujo, porque ele é fundo [pro meu terror hahaha] e então nunca conseguia higienizar o local como deveria. Sentia vergonha do umbigo "sem trato", por assim dizer, e sentia uma sensação de derrota por tentar, tentar e não conseguir NUNCA fazer a limpeza. Hoje em dia, pós parto, eu já consigo limpar ali, colocar o dedo só pra me testar. O que pra mim é uma conquista e tanto [risos]. Quem sabe eu não esteja, devagarito, fazendo as tão sonhadas pazes com ele, né?

E na relações pessoais, íntimas?
Bah, sempre foi terrível isso. Como já comentei anteriormente: aquela coisa de que a pessoa não leva a sério que tu NÃO CURTE barato algum no teu umbigo. Hoje em dia, com meu querido marido [que sempre me compreendeu], me livrei dessa tortura. 

Você conversou sobre isso com alguém? Chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Minha mãe sempre ficou intrigada com isso, justamente porque veio já na infância. Mas nunca deu muita bola. Eu já pensei em fazer regressão, porque nada me tira da cabeça que é lance do começo de tudo, lá do meu nascimento, da hora do parto ou de dias depois [ou até da gravidez da minha mãe].

A gestação alterou alguma forma na aflição de umbigo? Limpar umbigo da criança foi possível ou não? A relação com o umbigo mudou?
Pois então. Eu tinha uma coisa pra limpar o umbigo da minha filha [ainda tenho]. Mas quando ela era recém nascida, até ele cair, quem limpava era o Camilo, meu marido. Eu até fazia essa higiene na pequena, às vezes, mas com ressalvas. Hoje, um ano depois de ter dado à luz, eu consigo colocar a mão [o dedo] lá dentro e limpar [o meu e o dela]. Mas a agonia está lá.

Você já encontrou outra pessoa que tem também essa aflição? como foi?
Não, nunca ouvi alguém se queixar dessa mesma aflição. Agora tô me sentindo melhor por poder ter falado sobre

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? Pq?
Preferia ter um umbigo que não me desse tanto o que falar. Ou melhor: queria descobrir o porque disso tudo. E fazer as pazes com o meu.



DANILO MOURA, assistente de importação, Diadema-SP

Quando eu falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
Um umbigo pra fora, extremamente feio e muita agonia.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que vc sentiu?
Quando vi um umbigo "pra fora", aquilo é horrível. Aflição e a sensação estranha, como se algo estivesse fora do lugar, mas de um jeito grotesco.

Como você descreveria a sensação? É visual, sensorial, táctil?
Sensorial. Sinto o meu antebraço repuxando, os pêlos ficam eriçados e não é nada bom. Aflitivo demais.

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral? Existem tipos de umbigos que dão mais aflição que outros?
Umbigos pra dentro [apenas o buraco] é tranquilo, mas os que são externos são muito feios e me incomodam.

Essa aflição mudou durantes os anos?
Sim, piorou com o tempo.

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? Deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Não, mas evito olhar pras pessoas na praia ou piscina, pra não ser surpreendido [risos].

E nas relações pessoais, íntimas?
Não há problemas.

Você conversou sobre isso com alguém? chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Nunca havia pensado nisso, vou verificar essa possibilidade.

Você já encontrou outra pessoa que tem também essa aflição? Como foi?
Nunca encontrei e quase nunca falei sobre isso.

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? pq?
Preferia não ter, sinto incômodo quando faço a limpeza do local.



já na parte dos especialistas, conversei com três e dois entraram no texto: a psicóloga comportamental Paula Bonilha e o psicanalista Arnaldo Dominguez. por motivos de um desencontro de agendas e deadline, a entrevista com a psicanalista Marilucia Melo Meireles acabou ficando de fora, o que foi uma pena porque tem reflexões ótimas. então segue aqui, na íntegra, a conversa por email com Marilucia.


Existe uma distinção entre aflição e fobia?
Não havia ainda pensado na existência desta distinção pois, para mim, a aflição pertence ao campo das manifestações psicológicas mais gerais e genéricas, enquanto que as fobias se encontram dentro do campo das manifestações inconscientes, simbólicas, tratadas no plural e nas singularidades, caso a caso, razão pela qual possuem significações muito próprias, sem semelhança estrutural entre elas.  Avançando mais nesta ideia, a aflição, a meu ver, caracteriza-se por um estado difuso, provisório, de suspensão emocional, que tanto pode se referir a uma ampla gama de sentimentos de mal-estar quanto aos ligados ao bem-estar de uma pessoa. A fobia, nutrindo-nos de alguns textos freudianos a esse respeito, é um sintoma próprio dos quadros das neuroses, em especial o da histeria de angústia, relacionado quase sempre ao surgimento explosivo da angústia.

Existe uma diferença de causas e tratamentos entre fobias físicas e fobias externas ao corpo (elevador, bichos, lugar cheio, etc)?
É importante o uso do plural em se tratando das manifestações fóbicas, pois não existe a possibilidade de isolarmos uma única causa como sendo o fator desencadeante bem como elas, frequentemente, se apresentam combinadas com outros tipos de neurose. Quase sempre são classificadas de acordo com o objeto a que se vincula a angústia. Neste caso tanto pode ser escolhido alguma parte do corpo quanto objetos na externalidade. Os exemplos mais comuns e que receberam em muitos casos “pomposos nomes gregos” são o medo do escuro, o de ser envenenado, o de altura, falar em público, o de animais peçonhentos, medo da morte, o de tempestades, a ereutofobia [medo de enrubescer], dismorfofobia [medo à deformidade] a claustrofobia, a agorafobia como expressão do isolamento e da solidão, a fobia social e as ligadas aos contágios, dentre outras. É importante salientar que todos os objetos do mundo [“externos” ou “físicos”, como você chamou] podem se oferecer, por deslocamentos, às depositações de nossas angústias.

As palavras que mais ouvi dos onfalofóbicos foram 'vulnerabilidade' e 'agonia'. Pq o umbigo sugere isso?
Durante estes anos de atividade clinica é a primeira vez que ouço falar de onfalofobia. Consultando a Internet e encontrei algumas matérias que se referiam a fobia de umbigos, mas que a meu ver são bem superficiais. Fiz também um rápido levantamento sobre o tema, entre colegas, que tampouco ouviram falar sobre o assunto. A hipótese que podemos levantar é a de que esta fobia comtempla uma nova terminologia dada, na contemporaneidade, a um tipo de expressividade para a circulação da angústia, concernente aos medos que nos habitam na atualidade. É certo que encontramos diversos tipos de manifestações sintomáticas próprias de cada época, de cada momento histórico. Se na época de Freud os sintomas giravam em torno de uma sexualidade encoberta de ricos segredos, hoje circulamos por um mundo em que a sexualidade vem sendo cada vez mais redefinida e explicitada. Acho, portanto, uma ótima oportunidade para reabrirmos essa questão levando em consideração o surgimento, na pós modernidade, de outras modalidades de fobia daí, talvez, ser a onfolafobia um bom exemplo de representação social.  Talvez incorramos no risco de ser a onfalofobia mais uma “palavra ônibus”, em que cabe tudo e ao mesmo tempo não nos diz nada. No entanto, se sustentarmos que as fobias são formas agudas de circulação da angústia podemos considerar que a parte do corpo ou o objeto que é seu depositário, na externalidade, é a expressão inequívoca da força que a cultura exerce na produção de novas sintomatologias para o nosso sofrer humano, existencial.

Pq a mesma parte do corpo sugere fobia e também fetiche?
Podemos considerar, a grosso modo, que na medida em que o fetiche possui como uma de suas inúmeras funções a de tamponar a eclosão da angústia na constatação, pelo olhar, da ameaça da castração, podemos fazer uma aproximação desta ideia com a função que o objeto fobígeno, enquanto aplacador do surgimento da angustia, possui. Na verdade, não existe nenhum objeto dotado de um poder contrário ao poder do objeto fóbico ou ao poder do objeto fetiche pois ambos operam no registro imaginário. No caso das fobias, os objetos são antídotos, ajudas, auxílios, que as pessoas se utilizam como dispositivos contra fóbicos, com a finalidade de evitarem a eclosão dos seus medos, das suas angústias. Quanto ao objeto fetiche podemos dizer que ele é o único objeto verdadeiramente e diretamente contrafóbico, um para- castração. Desta maneira, uma cobra, pode ser ao mesmo tempo um bicho esquisito, que horroriza que causa fobia ou, no caso do fetiche, pode compor a estampa de uma lingerie e ser a condição de possibilidade da experiência amorosa.

Na pequena amostra que peguei - 5 pessoas - foram 4 mulheres onfalofóbicas e apenas 1 homem. Mulheres são mais fóbicas com o corpo que os homens? Alguma razão pra isso?
Esta pergunta exigiria retomarmos todas as concepções que foram surgindo a partir de Freud a respeito da mulher e, por conseguinte, da feminilidade. Poderíamos apenas afirmar que há, na mulher, uma gramática psíquica, construída no vínculo estabelecido com seu objeto de amor, a mãe ou alguém que a substituiu, geradora da angústia do desamparo diante da separação do corpo materno e da perda do amor que justifica atribuirmos aos quadros fóbicos femininos. Seguindo por esta via, há também na doutrina psicanalítica outras conceituações clássicas e fundamentais, muito presentes nas formações imaginárias da fobia. Refiro-me, neste sentido aos temas relativos a psicossexualidade infantil: o complexo de castração, o binômio fálico-castrado, a inveja do pênis, todos relativos aos elementos constitutivos da estrutura edípica, incluindo ainda as etapas pré genitais da libido e posteriormente aos destinos que a pulsão vai se encaminhar, além, é claro  das teorias sobre a angústia. Acredito não ser possível fazermos nenhuma extrapolação ou tirar conclusões precipitadas seja pelo fato de que essa “amostragem” colhida possa ter sido simplesmente casual, seja porque, como mencionei anteriormente, as fobias devem ser tratadas no plural e em suas singularidades, caso a caso.

Como você trataria um onfalofóbico? Seria o mesmo tratamento de outras fobias?
Esta pergunta nos remete às distinções existentes entre os métodos tradicionais de cura, praticados pela medicina e o trabalho de análise, proposto pela psicanálise. No nosso caso, as escutas dos sintomas apresentados, terão uma destinação radicalmente opostas às dos sintomas médicos, que aqui não há espaço para desenvolver. O que poderia responder suscintamente, é que a tarefa do psicanalista, no caso de um atendimento de uma pessoa que sofre e que apresenta sintomas fóbicos, é a de usar o seu conhecimento e acolher o sofrimento do analisante sem evidenciar, questionar ou manifestar qualquer atitude diante dos medos, aflições, vividos por ela. O recomendado é atrever-se com o analisante para, juntos, percorrerem a longa  empreitada de um processo analítico, uma verdadeira encruzilhada de Tebas,  independente de serem sintomas, fóbicos ou não.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

o brasil pega mal

o ano pós-golpe não anda fácil para o brasil, mas para frilas jornalísticos está um pouco pior. sorte que de vez em quando surge alguma coisa bacana, como, por exemplo, essa matéria que fiz para a edição de maio da revista trip [anitta na capa] sobre iniciativas para aumentar a acessibilidade da internet no país. a pauta veio do editor renan fagundes e a reportagem foi ilustrada por beto shibata. delícia falar com várias fontes e costurar os muitos lados de um tema complexo e atual. ah, tem a matéria também no site da trip. detalhe: acabei colocando como título do post o que ficou na revista e deixei aqui meu título original.


LIGANDO OS PONTOS

Metade das casas brasileiras já possui acesso a internet, mas e a outra metade? Saiba mais sobre algumas iniciativas – independentes, privadas e públicas – que pretendem conectar áreas remotas do Brasil

No caminho para a maior cachoeira do Estado do Rio de Janeiro, a 32 quilômetros de Resende, existe um povoado chamado Fumaça. Por lá vivem cerca de 800 pessoas e os mais velhos ainda o tratam como Aldeia por ter sido a última morada dos índios Puris. É difícil a comunicação com o mundo a partir do distrito: os três orelhões estão quebrados e sem previsão de conserto, e um antena instalada anos atrás só pega (mal) na Praça da Matriz. Daí que, em 2015, o coletivo Nuvem - Estação Rural de Arte e Tecnologia recebeu uma bolsa internacional para a criação de uma rede wifi e de uma rede autônoma de celular na vila. A vida dos moradores de Fumaça nunca mais foi a mesma.

“Meu filho está em Portugal e hoje consegui falar com ele devido a internet. Tive notícias, sei o que ele está fazendo, como está, e ele também teve notícias da gente. Isso foi maravilhoso”, declarou Elizabeth Nunes, 63 anos, após a instalação dessa rede livre, gratuita, participativa, que não passa por empresas e é gerida pela própria comunidade. Para a pequenina Fumaça a internet deixou de ser um privilégio, só que para 70 milhões de brasileiros que ainda estão desconectados, segundo dados recentes da ONG Internet.org, essa realidade ainda é distante.  Dentre esses 70 milhões quem é mais atingido por esse isolamento estão, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2014, nas zonas rurais, no Norte e Nordeste, tem mais de 50 anos, são negros, e possuem menores faixa salarial e nível de instrução. 

E o que está sendo feito para mudar essa que é uma das muitas desigualdades brasileiras? Internet é um privilégio ou um direito? “A internet é um direito humano essencial porque é um direito à comunicação. Isso está na Constituição e, mais recentemente, no Marco Civil da Internet”, afirmou Fábio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e Coordenador do Laboratório de Estudos sobre Internet e Cultura.

Sancionado em 23 abril de 2014, o Marco Civil é tido como referência mundial para legislações que tratam da internet.  O texto da lei garante neutralidade da rede, privacidade dos usuários, liberdade de expressão, retenção de dados, e obrigações de responsabilidade civil aos usuários e provedores, entre outros temas. Prioriza e assegura, enfim, o caráter aberto da internet.

Tudo muito bem, tudo muito bom, mas como garantir um maior acesso a internet em um país tão grande quanto o Brasil? “Pois é, um dos grandes problemas do país é que o acesso a internet está muito ligado ao mercado consumidor e sua territorialidade. O acesso a banda larga, por exemplo, está concentrado no litoral brasileiro e nas regiões mais ricas do interior. Então, deixar a regulação ser feita pela iniciativa privada acaba gerando um grande número de pessoas sem acesso porque não é economicamente atrativo para as teles”, diz Malini.

Os ativistas da Nuvem, por exemplo, foram na contramão dessa lógica do mercado com a criação de redes como a de Fumaça. Esse projeto serviu também como um dos embriões da Coolab, iniciativa formada por pessoas que trabalham com tecnologia e redes livres e que está “começando agora este processo de apoiar comunidades a se conectarem com recursos e suporte, inspirados pelos princípios cooperativistas e com base na economia colaborativa”, como explicam coletivamente. “Além da metodologia aberta e colaborativa que capacita a própria comunidade a construir sua rede e fazer a manutenção, o modelo de trabalho da Coolab é também aberto e replicável.”

A Coolab cita que, além da Fumaça, os integrantes do coletivo também criaram redes comunitárias no Quilombo Kalungas (Goiás), uma rede de transmissão de dados digitais por ondas curtas na Amazônia, provedores comunitários em Campos (Rio de Janeiro) e implementaram uma rede autônoma na Casa dos Meninos (São Paulo). Mas essas ações, por mais replicáveis e abertas que sejam, são trabalho de formiguinha perto da (ainda) grande lacuna do país em termos de acessibilidade.  


E a iniciativa privada? Um exemplo no Nordeste diz muito sobre como uma aguçada percepção de potencialidades regionais pode transformar acesso em lucro. Fundada em 1998, a Brisanet é a realização do sonho de um empreendedor local, José Roberto Nogueira, que saiu de sua terra natal (Pereiro, interior do Ceará) para trabalhar instalando painéis de aviões na Embraer. Curioso e inquieto, Nogueira sempre quis voltar para resolver problemas de sua região e gerar negócios, e com o dinheiro de uma loja de informática que montou em São José dos Campos começou a construir antenas de rádio. Salto no tempo para 2010, quando Nogueira, já de volta ao berço, viu sua Brisanet se tornar a maior operadora de internet a rádio do Brasil, com 30 mil clientes em 150 cidades nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Nos últimos anos, a transmissão por rádio vem sendo substituída pela fibra ótica, mais segura e rápida, e a Brisanet agora tem planos de, até o fim do ano, chegar a Pernambuco, atingindo assim um total de 230 cidades no semi-árido nordestino. Nogueira, que fez curso de eletrônica por correspondência no início dos anos 1980, sabia desde sempre que sua terra possuía muita gente curiosa e inquieta como ele, mas que sem acesso a conhecimento e a ferramentas não via seu talento florescer. Oferecer todas essas oportunidades, via internet, é estimular negócios, criatividade, produção, sonhos. E isso dá retorno (atualmente, a Brisanet emprega cerca de 1300 pessoas).

Empresas pequenas e médias como a Brisanet são responsáveis por quase 50% dos atendimentos de banda larga no Brasil, de acordo com o Clube de Engenharia. Mas segundo elas próprias, o Governo Federal poderia estimular mais esses negócios e, consequentemente, melhorar a acessibilidade em regiões fora dos eixos. “(Poderia) facilitar e baratear o uso das infraestruturas já existentes, como os postes de utilização da faixa de domínio das rodovias federais e estaduais; criar linhas de financiamento especificas ou incentivos fiscais para pequenas e médias operadoras em regiões mais remotas, pois são elas que estão fazendo esse processo de inclusão digital”, afirma Jordão Estevam, diretor comercial e sócio da Brisanet.

Enquanto isso, no Senado Federal, tramita um projeto de lei (PLS 431/2014), que “permite que Governo Federal assuma a instalação e a operação da banda larga nas regiões mais remotas ou menos desenvolvidas, onde o serviço não é rentável para as empresas privadas”. O dinheiro para custear tamanha empreitada viria do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), mas não existe nenhuma previsão de quando isso se tornará realidade.

Outra ação federal é o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação Estratégicas (SGDC) que deveria ter sido lançado em março para ajudar a expandir o acesso à internet banda larga no país, “especialmente em regiões mais carentes em infraestrutura”. Dividido em duas bandas, uma exclusiva das Forças Armadas e outra para comunicação, o satélite tem sofrido críticas tanto de ativistas digitais quanto de pequenos e médios empresários, pois suas regras de utilização mudaram recentemente quando a banda de comunicação foi dividida em quatro lotes, sendo que três (79%) seriam controlados por grandes da iniciativa privada. Em poucas palavras, sobraria pouco para o serviço público e os pequenos e médios fornecedores não teriam espaço para competir. 

Mas afinal, internet é um privilégio ou um direito? Na teoria, um direito. Na prática, um privilégio para cerca de 70 milhões de brasileiros. No entanto, o caráter aberto da internet , esse “mecanismo de desentermediação do mundo” (nas palavras do professor Fábio Malini), talvez seja justamente o melhor jeito de compartilhar conhecimento, derrubando assim privilégios e garantindo direitos. Os moradores de Fumaça já perceberam isso.

sábado, 22 de dezembro de 2012

caranguejo eu, caranguejo tu

após voltar ao mundo dos frilas uma das primeiras coisas que aconteceu foi uma pauta aceita pela trip. o tema da edição que acabou de chegar às bancas é praia e nela emplaquei uma reportagem sobre a caranguejada, evento tradicional das noites de quinta em fortaleza. quer dizer, originalmente era uma reportagem, mas por causa da dificuldade de encontrar fotos legais do evento (e sem tempo de produzí-las) acabou virando uma nota. de modos que... é uma semi-estreia na trip (agradecimentos a lino bocchini que pegou a pauta e lia hama que editou o texto). segue, portanto, o original.



CARANGUEJAR, VERBO INTRANSITIVO


Nas noites de quinta, as praias de Fortaleza são o palco de uma inusitada mistura que envolve leite de côco, coentro, forró, piadas e crustáceos piauienses

Que uma coisa fique clara logo de início. Os caranguejos que participam de uma das maiores tradições gastronômicas de Fortaleza não são locais. Nenhum deles. A típica caranguejada é feita com exemplares de Ucides cordatus cordatus – o bom e velho caranguejo-uçá – pescados no piauiense Delta do Parnaíba e em Belém. É que o prato ganhou status de atração nobre nas noites de quinta na cidade, tanto nas barracas da Praia do Futuro quanto em restaurantes, e a demanda passou a ser tão alta que os mangues da costa cearense não deram conta.

“Essa história começou aqui no Chico do Caranguejo em 1987 por obra do Seu Francisco Quirino, pai do Chico. É que naquela época os caranguejos chegavam de Parnaíba somente às quintas e era um jeito de comemorar com os bichos mais fresquinhos”, explicou André Brauna Santos, 24 anos, subgerente há três anos da barraca, uma das mais conhecidas da Praia do Futuro.

Atualmente os crustáceos só não chegam às segundas e a logística de seu transporte é quase militar, pois precisam chegar vivos ao caldeirão, distante pelo menos 500 km de seu habitat natural. “Só aqui na barraca são consumidos 3 mil caranguejos por noite de quinta e distribuímos outros 15 mil”, enumera orgulhoso.

Regados a leite de côco, cebola, pimentão, cebolinha e coentro, os milhares de caranguejos-uçá consumidos nos 6 km da costa da Praia do Futuro foram, com o passar do tempo, ganhando acompanhamentos pitorescos. Desde apresentações ao vivo de música até shows de humor, vale tudo para chamar o cliente nativo (os turistas ainda preferem o dia, o pé na areia).

Agora pense no seguinte cenário: famílias, alguns casais, grupos de amigos, todos chegando arrumados para ocupar o grande salão aberto da barraca-restaurante; um vento noturno correndo pela praia; e o barulho incessante de batidas e patas sendo quebradas e devidamente chupadas. Para se chegar à caranguejada ideal liquidifique tudo isso ao som de atrações como grupos de forró pé-de-serra, cantores genéricos de MPB e os comediantes Ciro Santos e Augusto Bonequeiro (e seu boneco Fuleragi). Afinal, os caranguejos podem não ser locais, mas as piadas de corno são 100% cearenses.

p.s.: procurando uma trilha pra cá achei essa boa e caseira versão instrumental de "vendedor de caranguejo" (gordurinha) feita por um tal de araújo bossa nova.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

liberalismo ainda que à tardinha

muita coisa aconteceu desde que a marcha da maconha foi brutalmente reprimida pela polícia militar do estado de são paulo, o que acarretou na marcha da liberdade, ocorrida uma semana depois. acho que o assunto e a palavra maconha nunca estiveram tão em uso no país como nessas últimas semanas. isso, em si, foi transformador porque em ambientes repressivos a simples articulação sonora de uma palavra, assim repetidas vezes, pode tirar o medo, o peso, o estigma. mas aconteceram outras coisas.

o stf foi chamado a intervir e disse por acachapante unanimidade o que deveria ser óbvio para qualquer magistrado com dois neurônios e meio: proibir a marcha da maconha é crime contra a liberdade de expressão, um dos bem mais caros de um estado democrático. capisci?

houve outra marcha da liberdade, dessa vez em várias capitais.

estreou nos cinemas o bom documentário quebrando o tabu, de fernando grostein andrade (que antes tinha visto o caetano veloso pelado em coração vagabundo), aquele com fhc ciceroneando uma discussão transglobal sobre alternativas ao proibicionismo, com ênfase na descriminalização e regulação da maconha.



e a revista trip, assumida defensora da causa, fez uma ótima edição temática sobre o “cigarrinho de praia”, com direito a uma longa entrevista com fhc e boas reportagens como a da situação na vizinha argentina (outra vez mais progressista que nosotros). apenas três observações: nada bom usar o título do documentário para chamar para a entrevista do ex-presidente (soou venda casada e a entrevista do bruno torturra é infinitamente melhor que as falas de fhc no filme), deixem de falar com ronaldo laranjeira (aka dr. fruta, que em inúmeras vezes se mostrou uma pessoa preconceituosa e de raciocínio limitado e não há título acadêmico no mundo que me prove o contrário) e muita gente boa ficou de fora das matérias/pautas. no mais, grande trabalho.

quer dizer, momento mais que propício para começar a debater o assunto com o mínimo de maturidade (por parte dos proibicionistas, claro esteja) e acredito que quebrando o tabu tem um papel importante, mesmo com alguns tropeços, na melhora do nível para esse debate. não via cinemas, que pelo jeito sua carreira (ooops) não anda das melhores, mas numa potencial e mais interessante distribuição de seu dvd em escolas da rede pública.

acima de tudo porque é um filme habilmente didático e muito bem ilustrado com dados, além de estar posicionado positivamente sobre a questão das drogas. e o positivo, segundo a linha de pensamento aqui da casa, significa ser favorável a política de redução de danos e descriminalização e regulação, entre outras coisas (o longa trata basicamente da maconha, porque sobre as outras drogas o buraco é mais embaixo). quebrando o tabu e fhc, seu co-autor, desejam sinceramente discutir e entender o assunto, o que é um ganho e tanto para a causa em tempos bicudos de tantas reações neoconservadoras. a presença do tucano, erudito, sério, octogenário, respeitado e paulista fhc também tem um importante valor simbólico, ainda mais quando ele se expõe tão clara e progressistamente sobre um tema “maldito”. mas é isso, se o príncipe fala – “é, gente, esse negócio de combater, essa parada de proibição, deu errado, malzaê
” -, porra, você acredita.

e é isso, o proibicionismo deu errado. a violência aumentou, o consumo aumentou, as rotas do tráfico aumentaram e os grandes cartéis caíram para dar lugar a uma gigante e descentralizada (portanto, sem cara) rede de micros e médios cartéis. a maconha, no meio dessa bagunça, é um droga menor e que causa menos danos a saúde que os legais álcool e tabaco. porque então não tirá-la desse circuito ilegal, retirando assim uma grande quantidade de consumidores do contato com outras drogas (mais pesadas)? essa é uma das teses liberais do filme e que ganha uma ajuda importante por meio de uma constatação econômica: tá dando prejuízo para o estado essa história de proibicionismo, afinal os bilhões gastos por tantos países não estão dando resultado nenhum. fora o singelo fato de que drogas são usadas cotidianamente pela humanidade desde o tempo do zás-trás e que a proibição data somente da primeira metade do século 20 (portanto, não tem nem 100 anos). as pessoas continuarão a usar drogas, proibidas ou não. ah, também se fala rapidamente do uso medicinal. e lá se vão fhc e fernando grostein andrade rumo a amsterdã, lisboa, rio de janeiro e outras cidades – e em diálogos com jimmy carter, bill clinton, paulo coelho, dráuzio varela, etc - na procura de soluções, experiências e questionamentos.



difícil mensurar se o filme chegará aos proibicionistas ou se apenas pregará aos já convertidos, mas é sempre melhor fazer algo do que nada, né não? sua existência, seu contexto, seu momento, sua tese, tudo é importante. mas quebrando o tabu é sobretudo um filme de tese que busca números e falas para comprová-la, o que invariavelmente o transforma em propaganda e lhe deixa com poucas facetas. mas diferente de eduardo escorel, que em crítica mal humorada na revista piauí deu uma desancada no documentário, não procuro eduardo coutinho ou frederick wiseman onde não possa achá-los. um filme não pode ser criticado pelo que ele não se propõe ou entramos na egotrip do crítico.

partindo dessa questão complexa da propaganda gostaria de falar de alguns problemas do documentário. quase todos são decorrentes de sua cara liberal elevada, só que não dá para saber quem é o responsável: se o jovem diretor ou o velho intelectual, ou um pouco de ambos. de qualquer forma, esse liberalismo paternalista coloca todos os usuários de drogas como dependentes necessitados de um tratamento de saúde (isso fica bem claro nas falas de fhc, dráuzio varela e paulo coelho). não se menciona o direito individual, a autonomia de cada cidadão no uso de seu próprio corpo e o uso real de drogas com fins recreativos, religiosos e/ou culturais.

por causa dessa postura, o filme perde a oportunidade de entender porque as pessoas fazem uso de drogas. ao falar com um jovem branco de classe média que enfrenta uma série de perigos na biqueira (tanto por parte dos traficantes quanto dos policiais) para comprar sua maconha, o igualmente jovem cineasta não pergunta o que motiva o garoto a fazê-lo. é para dar risada com os amigos? é para assistir algum filme de ação? é para curtir uma larica total? nada, ele não pergunta qual é o barato.

o filme também não questiona a injustiça social que se esconde nas entrelinhas do proibicionismo mundo afora, afinal são os negros e pobres que continuam sendo majoritariamente presos e mortos nessa roda viva. decorrente dessa constatação, outra pergunta é deixada de lado: quem lucra com o proibicionismo, além dos traficantes? o combate ao tráfico, aliás, aumenta o preço das drogas, aumentando assim o lucro e o interesse comercial.

a discussão ainda está no começo nesse brasilzão conservador, mas a descrimizalização e a regulação da maconha (para uma posterior legalização) devem ser encaradas como os principais objetivos – dentro dessa questã das drogas - para uma sociedade mais igualitária e madura. não dá para fazer tudo de uma vez: o assunto é complicado, a ignorância/hipocrisia é muita e as drogas tem os mais variados usos e diferenças entre si. mas é certo que a proibição não ajuda em nada, só atrapalha. as drogas estão com a gente desde sempre, para o bem e para o mal, como tudo que é nosso. não adianta fugir. somos grandinhos, sabemos o que é certo e errado (e quando não sabemos fazemos merda, independente do jeito ou aditivo). simples assim.



p.s.: gostaria de finalizar com a última resposta de fhc na entrevista dada a trip, justamente sobre um dos lados do assunto não tratados em quebrando o tabu:

“eu desconheço qualquer sociedade que não tenha experiências com suas drogas de preferência. isso tem alguma relação com o transcendental. não é uma experiência religiosa, mas tem algum parentesco. é sair do objetivismo, escapar do que você não consegue escapar, que é a sua carne, da mera matéria. então, claro que não espero que um policial vá encarar nesses termos, mas eu não sou um policial. sou um sociólogo e tenho que pensar nisso. tem gente que tem experiências místicas, uma viagem, um barato espiritual. as pessoas buscam essas coisas. eu estudei umbanda. o que é aquilo? também é uma experiência mística, transcendente. e tem ali tabaco, álcool, no meio de uma tentativa de se comunicar com outro mundo. isso é natural, próprio da experiência humana, eu acho que a gente tem que entender isso com uma visão mais ampla. não estou justificando, mas as pessoas precisam ir em busca de si mesmas. às vezes recorrem à droga como desespero. às vezes recorrem sem desespero, conscientemente. eu acho que temos que encarar como parte da vida. não como algo que temos que eliminar. porque isso não se vai conseguir.”