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quinta-feira, 21 de maio de 2015

diz aí letterman o que cê vai fazer

ontem foi ao ar o último dos 6028 programas – em 33 anos – apresentados por david letterman. é, sem sombra de dúvida, o fim de uma era, mas certeza que ele nunca aceitaria uma afirmação tão categórica e muito menos o fato de que é uma das figuras mais influentes da cultura popular mundial do final do século 20, mais até que o comediante mentor de sua geração, johnny carson.

e não é por [falsa] humildade ou discrição. é que tudo parece natural na sua ocasional rabugice, no humor auto depreciativo, na absoluta gratuidade nonsense de alguns quadros ou intervenções, no interesse genuíno por boas e engraçadas histórias de outras pessoas, na aversão pelo show business, etc. tudo isso era e continua moderno mesmo que já tenha sido assimilado por gerações mais novas.

não lembro quando comecei a acompanhar letterman. deve ter sido em algum lugar do final dos anos 1990. mas imediatamente me identifiquei com seu tipo de entrevistas, mais pra conversas sobre assuntos aparentemente triviais [e que mudaram de estilo, ficaram mais leves, após a cirurgia cardíaca no início dos anos 2000], e com seu humor ácido.

seu último top 10 – uma das marcas mais duradouras do programa e que começou em 1985 com “top 10 things that almost rhyme with peas” – é um belo resumo das melhores qualidades de letterman, de seus roteiristas e do programa [que será comandado, a partir de setembro, pelo genial stephen colbert, uma das melhores substituições da história da tv]. com vocês, dez coisas que que sempre quis falar pro dave que, no caso, são alec baldwin, barbara walters, steve martin, jerry seinfeld, jim carrey, cris rock, julia louis dreyfuss, peyton manning, tina fey e bill murray.


mas o último programa começou assim, cheio de moral, com a presença de três ex-presidentes americanos [bush pai, clinton e bush filho] e obama.


no canal do late show no youtube tem um monte de coisas recentes e do passado. vale muito a pena passar horas e horas nele e se divertir com excelentes e/ou históricos números musicais [aqui o rap], algumas pegadinhas sensacionais, coisas sendo arremessadas do alto do prédio do ed sullivan theatre e top 10 maravilhosos como esse estrelado por barry white.  


torço muito para que letterman não se aposente totalmente e que ainda apronte coisas simples e geniais como seinfeld tem feito com a série comedians in cars getting coffee [foi demais o encontro deles, aqui]. seu humor e sua inteligência são necessários demais, ainda mais neste ano que jon stewart também deixará o daily show. de qualquer forma, muito muito obrigado, dave. 


terça-feira, 28 de maio de 2013

"black is not a color; it's an attitude"

blank on blank é uma série de documentários curtos, quase todos em animação, a partir de entrevistas perdidas. simplesmente uma puta ideia genial que conheci através do tumblr da npr music. o video mais recente é uma conversa com james brown, em 1984, na qual "o poderoso chefão do soul" fala de raça, de como o pai pagou para ser ignorante, de estilo e religião, e ainda elogia ronald reagan. saca só.



e a série, que tem cerca de um ano de vida, trouxe ainda muhammad ali, beastie boys, dave brubeck, david foster wallace, jim morrison, bono, kelly slater, larry king e wilt chamberlain.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

e o nanquim semeou a terra

conheci cuttlas nas páginas da revista animal, nos anos 1980, e nunca mais tinha ouvido falar desse caubói malandro criado com poucos traços pelo espanhol calpurnio até que, no final do ano passado, foi lançado aqui no brasil o livro-compilação o bom e velho cuttlas (zarabatana books, 2012). bom humor, crítica, ótimos personagens, deboche, metalinguagen, enfim, leitura das mais divertidas. foi aí que descobri que calpurnio continuava produzindo novo material para cuttlas - desde 2004 está na versão impressa e digital do diário 20 minutos - e que o personagem completa 30 anos de vida nesse 2013. descobri ainda que entre 1992 e 1994 foi produzida uma série animada (cuttlas microfilms) em 13 episódios com o personagem e achei um deles no youtube. 





p.s.: poucos dias antes de adquirir esse livro do cuttlas comprei uma camiseta na el cabritón, aqui em são paulo, onde se lê "caffeine & cigarette. what else?". qual não foi meu espanto quando vi, tanto no livro quanto neste video acima, que uma das falas famosas de cuttlas é algo como "tenho café e cigarros. o que mais necessita um homem?". pois então, caro pistoleiro...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

y san pablo cumple años...

459 anos, para ser mais exato. quando começou esse 25 de janeiro de 2013 estava ouvindo diablos del ritmo: the colombian melting pot (1960-1985), o mais recente lançamento do selo analog africa, quando, entre as muitas maravilhas do álbum duplo, começo a ouvir um san pablo pra lá, san pablo pra cá. era a "cumbia san pablera", do conjunto son san, música originalmente gravada no disco el polleron (felito records, 1985). claro que a san pablo cantada era a terra natal dos son san, cidade do interior da colômbia entre bogotá e barranquilla, e não são paulo. mas e daí né? então segue "cumbia san pablera" como meu presente de aniversário pra cidade onde vivo há quase 20 anos.



e saca só a capa stáile do disco do conjunto son san.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

daquele itamar em diante

lançado em 2011 em poucos cinemas, depois em DVD e, mais recentemente, encartado no livro cadernos inéditos de itamar assumpção (itaú cultural/editora terceiro nome), daquele instante em diante é documentário sensível e essencial sobre um dos maiores e mais inquietos artistas da música popular brasileira dos últimos anos. e o longa dirigido por rogério velloso agora está todo disponível no youtube em HD para que mais pessoas conheçam o nego dito, cantor da pesada, poeta raivoso e apaixonado, moderno e tradicional, e que foi embora cedo demais (10 anos, porra, em 12 de junho serão 10 anos sem ele!). pra ver, rever e ouvir muito.



aproveitando a deixa, acabei não falando de tudo esclarecido (warner music, 2012), disco de zélia duncan que saiu bem no fim do ano e somente com músicas de itamar assumpção. a cantora, como era de se esperar, aplaina o que itamar tem de mais ousado em suas interpretações. por outro lado mostra como ele pode ser pop e acessível (acompanhada de músicos como kassin e marcelo jeneci, e em duetos com martinho da vila e ney matogrosso, outro dos intérpretes mais assíduos de itamar). o resultado é irregular, algumas versões não descem ("tua boca", por exemplo) e outras surpreendem lindamente como essa "noite torta". 



atualização: rogério velloso, diretor de daquele instante em diante, também disponibilizou o documentário para download gratuito.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

era uma vez uma revista de música

e taí o documentário bizz - jornalismo, causos e rock and roll. feito no esquema às próprias custas s/a, o curta de 25 minutos dirigido por almir santos e marcelo costa (scream & yell) tem edição e áudio irregulares. a parte visual também é meio capenga e nem aparecem tantos causos assim, mas é um bom registro da história de uma publicação imprescindível para o jornalismo musical brasileiro. fui leitor assíduo da lendária e primeira fase nos anos 1980, passei batido pela fase showbizz nos anos 1990 e voltei a ler e, finalmente, colaborar na última fase em meados dos anos 2000. o documentário segue mais ou menos a mesma lógica de importâncias (maior parte nos anos 80, depois anos 2000 e alguma coisa meio vaga nos anos 90). 

é bacana ver mais claramente as relações de vida e morte da revista em paralelo com o mercado musical brasileiro. nos anos 80, o apaixonado e jovem jornalismo musical feito em são paulo (alex antunes, bia abramo, etc.) em choque, pro bem e pro mal, com o pulsante e nascente rock br. a tentativa, ao fim irrelevante, de dialogar com a lógica do mercado dos anos 1990. e, finalmente nos anos 2000, o interessante encontro de várias gerações de quem fez a bizz com uma novos jornalistas, alguns surgidos já na internet, com o mundo musical descentralizado da rede e a indústria fonográfica em ruínas.



minha contribuição para a bizz nessa última fase, capitaneada por ricardo alexandre, foram fotos de shows do premiata forneria marconi e do negritude jr. (com participação dos racionais, sampa crew, etc.), um texto não publicado sobre a trilha que marcos valle fez para o fabuloso fittipaldi e uma reportagem que muito me orgulha, "conexão entre morro e asfalto".

terça-feira, 31 de julho de 2012

o corpo ainda é pouco

no meio dessas novas correrias na istoé esqueci de colocar o último frila que fiz antes de ir pras bandas da lapa de baixo. foi pra revista voetrip esse perfil dos quatro titãs restantes na atual conjuntura 2012, com um pé no passado (reedição luxuosa do clássico cabeça dinossauro nos 30 anos de estrada) e olhos no futuro (começando disco novo, mas ironicamente o site oficial está surrealmente desatualizado). e na urgência de tudo e todos foi por email mesmo. paciência, iracema, paciência. de resto, as fotos que ilustram essa postagem são reproduções celulares de detalhes dos retratos feitos por kiko ferrite.


O PULSO AINDA PULSA

No começo eram nove. Ficaram famosos como oito. Mas agora, 30 anos após seu nascimento, os Titãs são quatro. Não é pouca coisa no eternamente jovem mundo do rock, principalmente se for levado em conta que o grupo segue produzindo material novo e lotando shows. Por essas e outras, os titânicos Paulo Miklos, Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Bellotto estão comemorando a data redonda em alto estilo com a reedição, e consequentes apresentações, de Cabeça Dinossauro (1986), o terceiro e mais célebre de todos os trabalhos dos paulistanos.

“Vamos fazer a turnê do Cabeça Dinossauro neste primeiro semestre e, no segundo, seis shows com os ex-Titãs Arnaldo Antunes e Charles. Gavin. O Nando Reis não tem disponibilidade de datas. Para 2013 estamos preparando um disco de inéditas, rápido e pesado, mas com uma certa brasilidade. Um cruzamento entre Cabeça e Õ Blésq Blom. Vamos ver no que vai dar”, explicou Britto.

Futuro, presente e passado vivem se encontrando na trajetória do grupo, mas a oportunidade de reviver e compartilhar a glória criativa e cheia de energia do então octeto tem sido uma fonte de surpresas. É que agora os novos e velhos fãs podem ouvir o disco original remasterizado e, pela primeira vez, a demotape com as versões cruas de clássicos como “Família”, “Homem primata”, “Igreja” e “Polícia”, além da inédita “Vai pra rua” (“Porrada” entrou em seu lugar no disco). “Nessa demo que gravamos em dois dias o que chamou atenção foi a sonoridade crua, com arranjos diretos e contundentes que já havíamos concebidos antes da gravação e que foram potencializados na produção do disco [a cargo de Liminha]”, relembrou Mello.

O Titãs já era bastante conhecido na época – as rádios tocavam “Sonífera ilha”, “Televisão” e “Insensível”, músicas dos dois discos anteriores -, mas os oito rapazes ainda não tinham conseguido registrar o peso sonoro que viam em si mesmos. Tudo mudaria em novembro de 1985 com a prisão de Tony Bellotto e Arnaldo Antunes (o primeiro por porte e o segundo por porte e tráfico de heroína, o que acabou fazendo com ficasse um mês na cadeia). As traumáticas experiências da prisão, da violência policial, do moralismo da sociedade e dos meios de comunicação deram um caráter de urgência ao conteúdo do novo disco.

“No ano em que lançamos o Cabeça, os Paralamas lançaram Selvagem? e o Legião Urbana, o Dois. São três discos antológicos, cheios de qualidades, mas completamente diferentes entre si. O Cabeça é a ponta mais ácida e virulenta dessa tríade e talvez por isso mesmo seja um fenômeno mais raro ainda no panorama geral da música popular brasileira. Acho que um disco assim, barulhento, com palavrões, cheio de atitude e contestação ainda é coisa muito rara no mainstream”, disse Britto.

E todo esse barulho, toda a crítica social das 13 faixas do disco, caiu como uma luva naquele momento de redemocratização brasileira. Para se ter uma ideia, nem as multas pela veiculação dos palavrões de “Bichos escrotos” impediram as rádios de tocarem (muito) a música e o disco acabou vendendo mais de 250 mil cópias. “Tenho a lembrança que éramos muito jovens, fazendo a nossa música, descobrindo o Brasil e já com a certeza de que era isso que queríamos pras nossas vidas. Deu pra perceber o quanto estávamos sintonizados e afiados para realizar esse disco”, vangloria-se Mello.


Cabeça Dinossauro é o primeiro disco titânico a sair nesse formato luxuoso. Outros álbuns que o grupo lançou pela Warner terão o mesmo fim e os mais esperados são Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1987) e Õ Blésq Blom (1989). “Temos muito material extra. Fitas demo ou caseiras feitas antes de cada disco com o material ainda recém arranjado, em estado bruto. E muito material gravado em ensaios. Pretendemos escolher com cuidado entre estes arquivos o que pode ser lançado em futuras edições especiais”, diz Miklos, muito preocupado com a qualidade e relevância do material a ser lançado, mas acima de tudo, animado.

Por outro lado, essas olhadelas no passado protagonizadas pelos remanescentes acabam revivendo as saídas de Arnaldo Antunes (1992), Nando Reis (2002) e Charles Gavin (2010), além da morte de Marcelo Fromer (2001). Com a palavra, o guitarrista Tony Bellotto: “A saída de um ou mais integrantes muda muita coisa em uma banda. Quando algumas pessoas decidem formar um grupo e tocar é por que elas têm química. Não é à toa que a maioria das bandas acaba ou se desconfigura quando alguém decide sair. No caso dos Titãs, cada saída foi triste, mas a morte do Marcelo [Fromer] foi, sem dúvida, o momento mais doloroso que enfrentamos. É sempre difícil superar perdas, ainda mais neste caso.”

E eles superaram, seguiram em frente, porque o show não pode parar e ainda tem muita química para rolar. “Somos um grupo sui generis, com compositores e cantores. Essa característica nos favorece musicalmente. Sempre soubemos ocupar o vazio deixado, nunca ficou um buraco na questão da sonoridade. Mas é claro que as amizades sempre fazem muita falta”, completa Bellotto.


O fato de todos os integrantes conseguirem tocar seus projetos pessoais ajudou a manter acesa a chama dos encontros titânicos: Bellotto se mostrou um hábil escritor de livros policiais; Miklos ganhou fama como ator (O Invasor, É Proibido Fumar e até uma novela, Bang Bang); Mello assinou projetos infantis como Eu e Meu Guarda-Chuva; e Britto encampou novas sonoridades em seus discos solo no decorrer dos anos 2000.

Envelhecer dentro do rock também não é um problema para nenhum dos quatro, que já estão na altura de seus 50 e poucos anos. “O que muda com o passar do tempo são outros aspectos da vida, o lado pessoal e as atitudes. Claro que fazer rock estará sempre ligado a uma ideia de juventude, mas quando estamos juntos parece que somos ainda aquele bando de garotos que se reuniu pela primeira vez para tocar. O espírito continua o mesmo”, reflete Bellotto.

Miklos concorda com o amigo de tempos de colégio, mas vai mais fundo na diversão e se define como um Titã revigorado, positivo e operante. “Atingimos outro patamar depois de mais uma mutação na formação da banda. Estamos nos divertindo como nunca e isto está muito evidente para o público. Esta excursão comemorativa do Cabeça Dinossauro está nos trazendo muitas alegrias. Casas cheias e o encontro carinhoso com os fãs. É muito bom comemorar com rock’n’roll e encontrar as pessoas em meio a toda essa energia”, resume Miklos, titã de corpo presente.

domingo, 24 de junho de 2012

isto é arrigo barnabé

opa, olhaí minha primeira reportagem em video pro site da istoé. bom começo com arrigo barnabé e uma nova versão de tubarões voadores, o cultuado disco de 1984, que ganhou dois shows no auditório ibirapuera com direito a banda original. agradecimentos totais a experiência de mariane engber, responsável por câmera e edição. e mais videos-reportagem hão de pintar por aí (para a istoé, claro).





e logo abaixo uma imagem do show de sábado: muito divertido, banda afiada, arrigo figuraça, vânia bastos cantando muito, mas é aquela coisa cerebral. exige. às vezes eu topo (esse show foi assim), mas na maioria das vezes não consigo embarcar. de qualquer forma, "lenda" é foda.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

yahoo #44

o texto abaixo, "fã, essa coisa louca", foi o resultado do jeito que assisti o "polêmico" show de tributo à legião urbana com wagner moura nos vocais. não me incomodaram os (muitos) desafinos do ator porque, pelo menos do jeito que vi, ele é um fã que foi alçado ao posto de cantor de uma grande karaokê. simples assim. sem crise. e como renato russo não é deus pra mim (nem deus é deus pra mim)... de resto, a coluna mais recente no yahoo é "comédia mtv e o humor como lente de aumento", de título (quase) autoexplicativo.


FÃ, ESSA COISA LOUCA

Desde que o mundo é mundo o fã é uma das espécies mais resistentes a chuvas e trovoadas. É gente que enfrenta qualquer parada. Sabe aquele grande cometa desgovernado que matou todos os dinossauros? Então, ele não conseguiria arranhar um grupelho de admiradores da Claudia Leitte ou do Luan Santana. É a força das paixões, apontam os estudos.

Ontem e anteontem, a MTV exibiu o Tributo à Legião Urbana, no qual Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá se encontraram com o ator Wagner Moura para tocar, “talvez pela última vez”, o repertório de uma das bandas mais importantes da história recente da música brasileira. No decorrer das transmissões, fãs da Legião, de Renato Russo, de Moura e até os não-fãs se bateram e insultaram nas redes virtuais para provar que seu ponto de vista era o mais certo de todo o universo.

Grande parte das tijoladas mirou o ator e sua voz desafinada (bem, por isso ele é ator e não cantor), mas também choveram acusações ao oportunismo da empreitada. Como todo tributo é oportunista em seu DNA vou aqui me deter apenas em Wagner Moura. Nas chamadas do show ele se declarou muito fã da Legião Urbana (“uma banda que marcou minha geração”) e não coincidentemente cantou duas músicas de Russo & Cia. em filmes recentes que protagonizou (“Será” em VIPs e “Tempo perdido” em O Homem do Futuro).


Aí fiquei pensando... quem não gostaria de ter a oportunidade de cantar músicas que ama, com gente que admira (além de Bonfá e Villa-Lobos estiveram presentes Fernando Catatau e Andy Gill do Gang of Four), para uma plateia gigante e animada, e com transmissão ao vivo pela TV? Ainda mais quando não se é cantor e sim fã?

O tributo foi um grande e emocionante karaokê para Moura e a plateia ali presente não pareceu se importar com o ator desafinado. Cantaram junto, cantaram alto, eram tão fãs quanto ele. E fã é sem noção mesmo, não tem vergonha de pagar mico. Não estou falando aqui de coragem (bravura) e sim de um tipo de desprendimento que só um fã de carteirinha pode ter. Coisa de maluco mesmo. Desafinar é bobagem, afinal em karaokê ganha quem grita mais.

De resto, e essa vai para os indignados do momento, esse Tributo à Legião Urbana é só mais um show. Não é o fim do mundo. Relaxem. Amanhã tem mais.

terça-feira, 20 de março de 2012

o gato, o rato e a ultraviolência

e não é que algum maluco abençoado com disposição e tempo livre compilou todas as aparições da dupla comichão & coçadinha n'os simpsons desde o final da década de 1980?! deu pouco mais de 48 minutos, mas é recomendável ser consumido em doses homeopáticas, afinal ultraviolência, mesmo animada, tem limite.





rever essa selvageria toda me fez lembrar do italiano massimo mattioli e seu squeak the mouse, uma mistura da boa e velha história de gato e rato com pitadas de humor nonsense, sexo explícito e violência à la sexta-feira 13. foi mais um daqueles achados da revista animal (foi capa da número 6).


o curioso é que numa busca por coisas relacionadas a squeak the mouse achei uma animação feita aqui no brasil, como trabalho de fim de curso. não é boa, mas é interessante (e tem uma citações bacanas a marcatti e mzk lá pelo final do curta).



SQUEAK THE MOUSE from MAZZA on Vimeo


pois é, assim caminha a humanidade desde os tempos de tom & jerry. ah, vi no trabalho sujo que viu no roteador.

quinta-feira, 15 de março de 2012

injustiçados, ignorados & esquecidos

paulo beto é músico de muitos sujeitos, predicados e talentos. também é conhecido pela alcunha anvil fx. mas ultimamente ele vem surpreendendo a todos com algumas coletâneas virtuais com pérolas do lado Z da música popular brasileira. no início de janeiro de 2010 ele soltou a primeira (amargurado, triste e sozinho - uma amostragem nua e crua da psicoperiferia) e de lá acabei pinçando "passat", de geraldão da colina, para uma edição da série letra/música. agora, ele e os amigos dj gorky (bonde do rolê) e mestre yupo prepararam mais duas coletâneas cheias de grandes e pequenos achados dos anos 1970 e 80, todos profundamente brasileiros e com download liberado. saca só. 


eu acho isso uma bossa - injustiçados, ignorados & esquecidos vol. 1

01 - mineirinho / “que bobo eu fui”
02 - guto / “palhacinho”
03 - nenê / “eu acho isso uma bossa”
04 - sirley gonçalves / “meio lelé”
05 - cristiano / “você chegou”
06 - elbis alen / “só amo você”
07 - beth maia / “venha viver”
08 - beto douglas / “mascarado do amor”
09 - pablo / “alegria na milonga”
10 - augusto soares / “telefonema a cobrar”
11 - zacarias costa / “an affair to remember”
12 - sergio luiz / “posso morrer de saudade”
13 - geraldo nery / “motorista de taxi”
14 - tony cruz / “casal na praça”
15 - yonara / “estou amando”
16 - dom & ravel / “o que é que você está fazendo aí, meu bem?”
17 - jonas de andrade / “velha solteirona”
18 - tony damito / “zé”
19 - jorge veiga / “deixa comigo”
20 - israel / “ditado do povo”
21 - canário & passarinho / “baixinha e gordinho”
22 - adriano santos / “por incrível que pareça”
23 - pádua / “brastoque”
24 - vic barone / “ela é linda”
25 - almir rogério / “o errante”
26 - roberto barbosa / “quero ser seu namorado”


é uma praga irmão! injustiçados, ignorados e esquecidos vol. 2

01 - geraldão da colina / “celina”
02 - jonas de andrade / “rock baiano”
03 - spray / “tic tic nervoso”
04 - red wagner / “vamos cantar essa canção”
05 – gilberto lima / “você é demaissssssss”
06 - super heróis / “somos todos super amigos”
07 - sui generis / “a praça”
08 - tarantulas / “melô do aplauso”
09 - kaito / “cara feia”
10 - black juniors / “preciso tu amor”
11 - georgie dann, o rei da lambada / “homem com h”
12 - spray / “machucado”
13 - ponto & virgula / “bole bole”
14 - fernando marcel / “juro que te quebro a cara”
15 - lins santos / “garotinha”
16 - rick & kelly / “é o pica-pau”
17 - oswaldo cruz / “você não brinca mais”
18 - alair & alaércio / “cadê o homem”
19 - zé do campo / “carro velho”
20 - osvaldo amorim / “sem aviso”
21 - tony cruz, o menudo do nordeste / “quero você”
22 - edvino / “loto loto loteria”
23 - o cantor prisioneiro / “o crime não compensa”
24 - cada vez mais perto do sucesso / “eu sou errado”
25 - clóvis xavier / “desejo”
26 - guto & moacyr franco / “papi”

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

existem cowboys na bélgica?

dia desses, o @arnaldobranco relembrou um dos quadrinhos mais dementes dos anos 1980: cowboy henk. agora já nem sei direito se conheci a criação dos belgas kamagurka (roteiros) e herr seele (desenhos) na lendária revista animal, mas deve ter sido algo próximo e me impressionou muito com seu humor violento e surrealista. separei alguns quadrinhos aqui (tem mais acolá) e não custa avisar que basta clicar em cada imagem para aumentá-la.











p.s.: achei estranho tão pouca informação sobre o personagem na internet, mas descobri que kamagurka (abaixo, com o dedo no nariz) e herr seele (de língua de fora) também fizeram tv, inclusive como atores, e música.


belgas sim, bobos não

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

isso não vai ficar assim

pois é, banksy virou um documentarista e tanto. seu longa de estreia, exit through the gift shop (2010) é um tsunami de achados visuais, bom humor, temas urgentes, engajamento político, tudo envolto com um roteiro esperto que bagunça as fronteiras entre realidade e ficção. bastou assistir uma vez (e ainda rolaram outras duas) para o longa entrar na minha lista dos 10 melhores documentários de todos os tempos. mas fiquei sabendo via zupi e trabalho sujo que o artista plástico, grafiteiro, guerrilheiro visual aprontou mais uma. audiovisualmente falando.

feito para a tv, the antics roadshow - an incomplete guide to total anarchy é uma coletânea de ações políticas inusitadas, desde um moicano de grama colocado na célebre estátua de winston churchill até o belga atirador de tortas, passando pelos americanos que fingem dar palestras de autoajuda corporativa, o sujeito que invadiu o palácio de buckingham nos anos 80, e assim por diante. com maior ou menor engajamento político, todas as ações exibidas e comentadas durante os poucos mais de 40 minutos do documentário (algumas bem conhecidas) tem em comum uma indignação bem humorada e um vontade de deixar bastante claro a governos e corporações que autoritarismos oficiais não serão suportados sem alguma reação.

banksy, seu genião.


segunda-feira, 18 de julho de 2011

dizem que roque santeiro...

nessa edição de julho da revista monet, a nº 100, estreamos uma seção que trará reportagens sobre bastidores de clássicos da tv e do cinema. começamos com roque santeiro, que volta a ser exibida a partir de hoje às 0h15 no canal viva, e também escrevi a segunda, sobre a minissérie agosto, que está na edição de agosto que acabamos de mandar pra gráfica. agradecimentos a itaici brunetti perez que entrevistou lima duarte e josé wilker.

tô certa ou tô errada?

CLÁSSICOS - ROQUE SANTEIRO

Poucas cidades fictícias são tão profundamente brasileiras como Asa Branca, e não coincidentemente ela foi o principal cenário de uma das novelas de maior sucesso no país. A vegetação e os sotaques de várias regiões foram misturados em vários metros quadrados de ilusão em Guaratiba, extrema Zona Oeste do Rio de Janeiro, e personagens memoráveis como Viúva Porcina, Sinhozinho Malta e Zé das Medalhas encarnaram tipos muito reconhecíveis tanto naquele ano de 1985 quanto agora. Mas a história de Roque Santeiro, que agora ocupa o lugar da reprise de Vale Tudo no Canal Viva, não foi um mar de rosas e teve um início bastante conturbado anos antes de sua consagração.

Tudo começou com Dias Gomes (1922-1999), seu autor, que em 1963 escreveu O Berço do Herói. Dois anos depois, e já com o país mergulhado na ditadura militar, a peça teatral foi censurada e proibida (tratava de um falso herói que foi integrante da Força Expedicionária Brasileira), e de nada adiantou Gomes ter feito tanto sucesso com O Pagador de Promessas e O Bem Amado. Para os militares, o autor baiano era um comunista e isso bastava para qualquer proibição.

Dez anos depois, e com a repressão militar ainda mais forte, a TV Globo decidiu produzir sua primeira novela a cores e chamou Dias Gomes para escrevê-la. Daí surgiu Roque Santeiro, uma adaptação de O Berço do Herói ambientada na fictícia Asa Branca e com o trio de protagonistas interpretados por Betty Faria (Viúva Porcina), Lima Duarte (Sinhozinho Malta) e Francisco Cuoco (Roque Santeiro). Tudo corria às mil maravilhas quando uma ligação telefônica de Gomes foi interceptada pelos militares e sua esperteza foi descoberta.

Com dez capítulos editados e quase trinta gravados, Roque Santeiro foi proibida pela Censura Federal na noite de sua estreia. A justificativa era curta, grossa e, claro, sem direito de resposta: “A novela contém ofensa à moral, à ordem pública e aos bons costumes, bem como achincalhe à Igreja.” Apressadamente, a Globo colocou no ar uma reprise de Selva de Pedra, enquanto outra era escrita (Pecado Capital). Ironicamente as duas eram assinadas por Janete Clair, então mulher de Dias Gomes.

Foram preciso mais dez anos para que o público brasileiro conseguisse assistir as estripulias dos moradores de Asa Branca. Só que a essa altura do campeonato, Gomes não queria mais saber de escrever novelas e indicou o iniciante Aguinaldo Silva para o seu lugar. “Dias tinha 40 capítulos da primeira fase de Roque Santeiro já escritos. Eram capítulos mais curtos para as 22h. Fiz uma readaptação para o horário das 20h, mexi em todos os capítulos já prontos e, a partir dali, continuei a novela. Fui até o capítulo 163 e Roque Santeiro se tornou uma obsessão nacional. Mas o Dias decidiu que ele é que teria que acabar a novela. Tivemos um grande arranca-rabo por causa disso. A desavença durou anos, mas, a certa altura, acabou. (...) Sempre digo que Roque Santeiro é uma novela de Dias Gomes escrita por mim”, declarou Silva no livro Autores - Histórias da Teledramaturgia.



Como sinal de respeito, os atores e atrizes da primeira versão foram chamados para reprisar seus papéis, mas poucos concordaram e do trio principal apenas Lima Duarte seguiu como Sinhozinho Malta. “Pouca coisa mudou de uma versão para outra. O que mudou mais foi a relação com os outros personagens, o que altera muito na composição. Por exemplo, o bordão ‘tô certo ou tô errado?’ já existia e era do Dias Gomes, mas o barulho de cascavel, na hora de balançar o relógio, foi idéia minha”, relembrou Lima Duarte em entrevista para MONET. E ao seu lado, nessa versão definitiva de 1985, vieram Regina Duarte (Porcina) e José Wilker (Roque).

O humor escrachado disfarçando críticas sociais, os bordões inesquecíveis para inúmeras gerações, tudo isso e muito mais estão nos 209 capítulos de Roque Santeiro, e boa parte é de responsabilidade de Aguinaldo Silva. “Nunca havia feito uma comédia e, quando comecei a escrever Roque, descobri que essa era a minha praia, o tipo de trabalho que queria fazer. Percebi que, através da comédia exacerbada e da farsa, conseguia dizer coisas que, provavelmente, se fizesse a sério, não teriam a mesma força.”

E assim, sem perceber, o espectador era levado a entrar gargalhando nessa história sobre um herói/santo de mentira (Roque Santeiro) que todos achavam que estava morto e que volta a sua cidade natal, atrapalhando a vida dos poderosos do lugar (Sinhozinho Malta, o prefeito Florindo Abelha e o empresário Zé das Medalhas) e das mulheres do seu passado (Viúva Porcina e Mocinha Abelha). Para bagunçar ainda mais o coreto, uma equipe de filmagem chega a Asa Branca para reencenar as aventuras desse “santo homem” e o ator que faz Roque Santeiro (Fábio Jr.) dá em cima de boa parte do elenco feminino. Realmente não dava para acompanhar o cotidiano de Asa Branca de forma séria.

O sucesso da novela foi tão grande que a audiência girava em torno de 60 milhões de espectadores, o que na época representava de 67% a 80% das TVs ligadas, segundo dados do IBOPE. E ainda ganhou livro, álbum de figurinhas, duas trilhas sonoras e exibições de sucesso em Cuba e Angola (o mercado popular da capital Luanda é até hoje chamado de Roque Santeiro), além de ter marcado a estreia em novelas de Patrícia Pillar, Maurício Mattar e Cláudia Raia. Sem falar que Raia e Yoná Magalhães ainda posaram nuas para a Playboy.

“Só fui perceber que Roque Santeiro foi importante depois que acabou, o que e me levou a olhar para a televisão de um modo diferente, como um veículo realmente capaz de conversar com um país. Eu tinha a sensação que antes do Roque Santeiro, o Brasil era um país que se dividia pelo menos em quatro, porque o Acre não conversava com o Rio Grande do Sul, Roraima não conversava com Goiás, e por aí vai. A gente era muito estranho um pro outro, e depois da novela, viajando pelo país, de repente eu percebi o quanto a televisão tinha sido capaz a ajudar este país a ser um só”, afirmou José Wilker a MONET durante uma brecha nas filmagens de seu primeiro longa como diretor, Giovanni Improta (personagem criado por Aguinaldo Silva, vejam só).

Se Wilker demonstrou alegria ao falar sobre a volta da novela, Lima Duarte pareceu um pouco temeroso. “Estou apavorado. Tem uma expectativa tão grande em torno da reprise que tenho receio de que as pessoas se decepcionem. Peço ao expectador que se lembre de que ainda não tínhamos internet. Por outro lado, peito e bunda não tinham tanta importância e os galãs ainda não eram um iogurte e, o mais importante, ainda não existia o BBB.” Sim, a realidade era outra, mas Asa Branca continua afiada como sempre.


p.s.: os dois volumes da trilha sonora de roque santeiro fizeram muito, muito, muito sucesso. pense em "isso aqui tá bom demais" (dominguinhos e chico buarque), "sem pecado e sem juízo" (baby consuelo), "mistérios da meia noite" (zé ramalho), "de volta pro aconhego" (elba ramalho), "vitoriosa" (ivan lins) ou então "chora coração" (wando), aqui numa versão voz & violão caseiro do usuário Apoc4liptico, conterrâneo meu de fortaleza.

sábado, 11 de junho de 2011

música é trabalho e fonte

jovino santos neto. antes de conhecê-lo em 2008 era um mistério. quer dizer, sabia que seu nome se repetia inúmeras vezes nos encartes de alguns dos discos mais potentes de hermeto pascoal. jazz brasileiro da pesada. mas esses discos eram da década de 1980 e depois, sobre ele, não sabia mais nada. então o conheci e fiquei sabendo que estava morando em seattle, professor de universidade, criando família e tomates, e tocando bastante jazz pelos estados unidos. estava em são paulo para lançar um disco de "volta às raízes", o belo alma do nordeste, e lá estávamos nós no restaurante de hotel ali na rua turiassú (ele ia tocar no sesc pompéia). conversa boa, durou um tempão e acho que tem muito mais da entrevista (ah, seu canal no youtube é recheado de bons sons). o resultado saiu na revista brasileiros de outubro de 2008 numa versão levemente editada. segue aqui a original de fábrica.

jovino santos neto e hermeto pascoal em 1991 e 2001


ALMA EM MOVIMENTO

Um dos homens de confiança de Hermeto Pascoal, o músico Jovino Santos Neto viajou pelo sertão e descobriu um Nordeste de fábulas e cacofonias

Imagine o verde, montanhas e águas. A natureza logo ali e por todo o lado. Poderia ser o Rio de Janeiro, mas por uma dessas obras do destino este lugar é Seattle. A maior cidade do Estado de Washington, extremo noroeste dos Estados Unidos, vem há quinze anos sendo residência do músico carioca Jovino Santos Neto em um auto-exílio profissional sem maiores crises. No entanto, durante 20 dias de maio de 2007, o ex-integrante da banda mais célebre do mago Hermeto Pascoal saiu do conforto de seu lar em terras distantes para se perder nas estradas e cidades do sertão nordestino. Saiu de lá com as músicas de seu quinto disco solo (Alma do Nordeste), o primeiro a ser lançado no Brasil, e algumas surpresas.

“No final de 2005 minha produtora no Brasil perguntou se tinha algum projeto para colocar no edital da Petrobras. Olhei para estante e vi um livro que tinha acabado de resgatar da biblioteca do meu pai. Era uma edição autografada de Alma do Nordeste, de C. Nery Camello, que pertenceu ao meu avô. O livro foi resultado de uma viagem que o autor fez em 1936 pelo interior da Bahia e Pernambuco. Não é organizadinho, é mais uma coleção de impressões sobre a viagem. Decidi refazer os passos desse escritor e retratá-los musicalmente a partir dos sons e cheiros da jornada”, explicou Jovino em breve passagem por São Paulo para lançamento do disco.

O pianista, compositor, arranjador e regente de 54 anos começou a tocar no início da adolescência, mas durante a segunda metade da década de 1970 sua vida tomou novo rumo ao conhecer Hermeto Pascoal. “Quinze anos com ele é uma escola no qual você aprende todas as coisas possíveis sobre a música instrumental brasileira”. Jovino esteve ao lado de músicos como Itiberê Zwarg e Carlos Malta em uma banda que acompanhou Hermeto em inúmeras turnês mundiais, além de discos clássicos como Cérebro Eletrônico (1980), Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca (1984), Só Não Toca Quem Não Quer (1987) e Festa dos Deuses (1992). No início da década de 1990, o pianista foi tomado por uma urgência de outros aprendizados e acabou em Seattle, mais precisamente no Cornish College of the Arts, que acabou lhe contratando como professor. “Acho que morando lá sou mais brasileiro do que morando aqui. Ampliei meu conceito de lar, mas ainda não equilibrei porque gostaria de vir mais vezes para cá”.


é, o jovino tá no meio dessa bagunça aquática comandada pelo hermeto

O projeto Alma do Nordeste e a viagem por cidades como Campina Grande, João Pessoa, Caruaru, Recife e Cabedelo serviu como um calmante para os embates internos deste neto de sergipanos com o Brasil. Mas nada o havia preparado para o primeiro encontro com o Nordeste do início do século 21. “Estava esperando voltar no tempo, mas todos os hotéis tinham internet sem fio e de graça. Achei as estradas ótimas e a infra-estrutura muito boa no geral. É que tinha um Nordeste na minha cabeça e acabei encontrando outros. Por exemplo, Arapiraca, terra do Hermeto, era um caos urbano como qualquer outro, ainda mais que chegamos no sábado anterior ao Dia das Mães. A princípio quis sair correndo, mas parei pra pensar e achei que a gente estava ali por algum motivo, e a cacofonia da cidade acabou entrando no disco. Em vários momentos os músicos improvisam juntos e ao mesmo tempo”.

O Nordeste fabular também apareceu em alguns momentos. Só que na Fazenda da Macuca, próximo de Garanhuns, o encontro se deu com rara intensidade. Durante três dias o músico tocou com sanfoneiros e percussionistas locais e conheceu o samba de coco de Mestre Zé Romão e uma festa de boi diferente e anárquica. “Mas é bom falar que não fui buscar música, especificamente. Outro ensinamento de Hermeto: o músico não pode se inspirar só em música porque fica naquela auto-referência. É preciso se inspirar nas árvores, coisas e pessoas, e no Nordeste a gente acha muito pra se inspirar”. Nesta e em muitas outras palavras de Jovino é possível notar a assumida reverência aos ensinamentos do mestre Hermeto Pascoal. Um dos principais é que aprendizado e movimento precisam caminhar colados um ao outro. Rodopiando, de preferência.

No liquidificador pessoal de Jovino Santos Neto todas essas informações se misturam ao forró, jazz, baião, choro, free jazz, maracatu e outras milongas. “Quando subo no palco não estou tirando uma coisa do nada. Estou lançando uma rede em um mar cheio de peixes, cheio de idéias musicais que estão ali a mais de 500 anos. Esse movimento constante é uma enorme fonte de alimento para o amanhã. Ainda mais no caso da música brasileira. Acho que a razão da nossa música ser tão rica e aceita no mundo é porque condensa influências musicais de todos os lugares, muito mais que qualquer outra que conheça”.


Ele sabe, afinal é o responsável por um concorrido curso sobre a história da música brasileira na Cornish, em Seattle. Atento e de ouvidos abertos, o músico se mantém informado sobre o noticiário cultural/musical daqui por amigos e, principalmente, pela internet, local onde construiu seu sítio lá pelas bandas do ano 2000. Mais recentemente, no final de 2007, montou sua página no MySpace. “Agora tenho 1000 acessos por mês e uma rede com umas 700 pessoas, sendo que metade é do Brasil. Agora, uma das coisas mais bacanas da internet é que meu outdoor é do mesmo tamanho que o de uma grande gravadora. É do tamanho da tela do computador”.

Mesmo não sendo um alvo em potencial da pirataria digital, o artista gosta de meter a colher nessa panela. “Consigo ver os dois lados. Como compositor que paga aluguel e compra o leite das crianças não é legal ver as pessoas consumindo minha música sem pagar nada. Por outro lado, faço tanta música que não vejo problema em colocar algumas para as pessoas baixem. Serve como estímulo para ouvirem mais músicas”. E, de repente, tomado por metáforas dignas do mestre Hermeto finaliza o raciocínio: “Porque música é trabalho, mas também é fonte. O sujeito pode ir lá e beber um litro, pode ir lá e pegar três garrafas, mas é fonte de água e continua jorrando. De onde saiu essa tem muito mais”.

O retorno a sua casa, mulher e dois filhos, estava marcado para o dia seguinte da entrevista. Não sabia ao certo quando voltaria para o Brasil, mas gostaria de finalmente conseguir manter a rotina de vir três vezes por ano. “Mas agora, nesse exato momento, estou com saudade dos meus tomates em Seattle”. A alma brasileira tem lá seus segredos.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

letra/música #21

a revolução popular que está acontecendo agora no egito me fez lembrar de várias coisas, desde políticas (como a história se repete em tempos e lugares diferentes) até musicais. e como não sou especialista em mundo árabe e nem em relações internacionais (só posso torcer pelo povo egípcio se livrar de uma vez por todos desse mubarak, outro ditador amigo dos estados unidos) vou de música mesmo. pensou em "walking like an egyptian", sucesso oitentista das bangles? e que tal uma das bandas de fela kuti e de seu filho, seun kuti, a egypt 80? ou então o grande músico salah ragab (1936-2008), sujeito que levou o jazz pro egito em 1968 com sua cairo jazz band? não, não e não. o lance aqui é a ponte aérea bahia-áfrica que existe e persiste lindamente no disco egito madagascar (continental, 1987), o primeiro do olodum. em um álbum radicalmente percussivo e pop, e que tem faixas como "madagascar olodum" (rey zulu), a sensacional "faraó, divindade do egito" é uma injeção nas cadeiras de muito surrealismo e mitologia. afinal de contas, se nem osíris sabe como aconteceu a emersão, imagine nós, pobres mortais. e viva o egito!


faraó, divindade do egito
(luciano gomes)

deuses!
divindade infinita do universo
predominante
esquema mitológico
a ênfase do espírito original
shu!
formará
no éden um ovo cósmico...

a emersão!
nem osíris sabe
como aconteceu
a emersão!
nem osíris sabe
como aconteceu...

a ordem ou submissão
do olho seu
transformou-se
na verdadeira humanidade...

epopéia!
do código de geb
eu falei nut
e nut
gerou as estrelas...

osíris!
proclamou matrimônio com ísis
e o mal seth
irado o assassinou
impera-ar.
hórus levando avante
a vingança do pai
derrotando o império
do mal seth
ao grito da vitória
que nos satisfaz...

cadê?
tutancamom
ei gizé!
akhaenaton
ei gizé!
tutancamom
ei gizé!
akhaenaton...

eu falei faraó
êeeeeh faraó!
é!
eu clamo olodum pelourinho
êeeeeh faraó!
é!
pirâmide
da base do egito
êeeeeh faraó!
é!
eu clamo olodum pelourinho
êeeeeh faraó!

é!
que mara mara
maravilha êh!
egito, egito êh!
é!
que mara mara
maravilha êh!
egito, egito êh!
faraó ó ó ó ó!
faraó ó ó ó ó!

hum! pelourinho
uma pequena comunidade
que porém olodum um dia
em laço de confraternidade
despertai-vos
para cultura egípcia
no brasil
em vez de cabelos trançados
veremos turbantes
de tutancamom...

e nas cabeças
enchem-se de liberdade
o povo negro pede igualdade
deixando de lado
as separações...

cadê?
tutancamom
ei gizé!
akhaenaton
ei gizé!
tutancamom
ei gizé!
akhaenaton...

eu falei faraó!
êeeeeh faraó!
é!
eu clamo olodum pelourinho
êeeeeh faraó!
é!
pirâmide da base do egito
êeeeeh faraó!
é!
eu clamo olodum pelourinho
êeeeeh faraó!

é!
que mara mara
maravilha êh!
egito, egito êh!
egito, egito êh!
é!
que mara mara
maravilha êh!
egito, egito êh!
egito egito ê
faraó ó ó ó ó!
faraó ó ó ó ó!
faraó ó ó ó ó!
faraó ó ó ó ó!
faraó ó ó ó ó!
faraó ó ó ó ó!

Olodum - Faraó, divindade do Egito by dafnesampaio4

p.s.: olha, tem o disco todo pra baixar no blog acervinho, mas na pesquisa que fiz pra colocar algum outro material junto dessa pedrada afro-baiana-descendente achei esse vídeo da margareth menezes cantando em 1987, o mesmo ano do lançamento da música.


domingo, 30 de janeiro de 2011

domingueira tropicaliente

calorzão nos quatro cantos do país, certo? então deixa eu aumentar um pouco mais a temperatura com um grupo pouco lembrado dos anos 1980, o kid creole & the coconuts. formado por august darnell e andy hernandez em 1980, o grupo foi um desdobramento conceitual de um trabalho anterior, a dr. buzzard's original savannah band, e nos dois casos a grande idéia foi misturar ritmos latinos, jazz, funk, pop e um visual retrô de big bands dos anos 1930 e 40 (cab calloway, acima de tudo). a minha música preferida do kid creole - que continua na ativa, morando na inglaterra - é "my male curiosity", que é da trilha sonora de um filme que nunca vi, paixões violentas (against all odds, 1984), aquele com jeff bridges e raquel ward se beijando na praia ao som de phil collins ("take a look at me now", urgh). muito mais a alegria cafajeste de kid creole...



dois discos do grupo valem muito a pena (o segundo e o terceiro da discografia): fresh fruit in foreign places (wounded bird records, 1981) tem músicas como "going places", "animal crackers" e "in the jungle", enquanto tropical gangsters (island, 1982) veio ainda mais forte com "stool pigeon", "i'm a wonderful thing baby" e "annie, i'm not your daddy". também vale muito a compilação going places: the august darnell years 1976-1983 (strut records, 2008), que reuniu canções tanto do kid creole quanto do dr. buzzard's (como a sensacional e setentista "cherchez la femme", que segue aí).

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

letra/música #13

exatamente um mês atrás ouvi uma coletânea que me deixou de cara, de queixo caído, assombrado mesmo de tão sensacional quanto verdadeira. foi no blog mundo estranho de pb, do músico paulo beto (ou anvil fx), que me deparei com amargurado, triste e sozinho - uma amostragem nua e crua da psicoperiferia, um catadão de compactos produzidos na década de 1980 por compositores esquecidos e radicados em são paulo, quase todos genéricos de célebres artistas populares dos anos 1970 (tipo odair josé, waldick soriano, etc). tem um luiz heleno e sua "anticoncepcionais", o vesgo catuí e suas "prostituta heroína" e "empregada doméstica", e ainda edval rafael, japecanga, gesildo calixto e o sensacional geraldão da colina, autor de "coquetel no céu" e "passat", música escolhida pra essa edição do letra/música. saca só o tipo...

passat
(geraldão da colina)

cortei o pau
eu mesmo fiz a gamela
eu pintei a casinha branca pra ela
cortei o pau
eu mesmo fiz a gamela
eu pintei a casinha branca pra ela

no mês de agosto,
sabe o que me aconteceu?
o acontecimento foi o que me entristeceu

o cravo branco botei na cabeça dela
veio o passat, lá do rio, e levou ela
o cravo branco botei na cabeça dela
veio o passat, lá do rio, e levou ela

carro veloz derrubou a gameleira
no caminho, quando eu vi, era só poeira
carro veloz derrubou a gameleira
no caminho, quando eu vi, era só poeira

quando eu cheguei, as criança contou tudo
foi um passat que trazia um cabeludo
quando eu cheguei, as criança contou tudo
foi um passat que trazia um cabeludo

Geraldão da Colina - Passat by dafnesampaio

p.s.: toda a história da criação de coletânea e o respectivo e imperdível link para download estão lá no mundo estranho de pb.