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quarta-feira, 29 de abril de 2026

um papinho com nath finanças

participei deste ano da segunda edição do especial Top Creators para a revista Forbes Brasil e escrevi três dos dez perfis. fiz sobre o comediante Fausto Carvalho, o fisiculturista Toguro e a empreendedora Nath Finanças. mas o da Nath foi particularmente especial porque ela é uma personagem muito interessante com uma trajetória incrível e a entrevista foi muito completa (mesmo que por email). daí deu uma dó porque ficou tanta coisa de fora por causa do tamanho do texto que resolvi colocar tudo aqui.

para quem gosta de jornalismo vale também para entender as escolhas, o que entra como aspas, infos da entrevista que entram direto no texto, adaptações  e edições necessárias para uma fala ou outra. é toda uma ginástica para fazer caber.


Nath por Victor Affaro

ECONOMIA DE VERDADE

Nath Finanças criou um pequeno império injetando educação financeira para pessoas de baixa renda no vocabulário digital brasileiro 

Durante muitos anos, Nathália Rodrigues de Oliveira viveu um dia a dia exaustivo como o de milhões de brasileiras e brasileiros. Acordava por volta das 5 da manhã em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, e depois de duas ou três conduções chegava ao centro do Rio de Janeiro, fazia estágio até final da tarde e então corria para a faculdade (onde cursava Administração) e por lá ficava até às 23h. Só chegava em casa aproximadamente meia-noite. Detalhe: o que ganhava no estágio nem pagava o transporte diário. Mas um conselho de um professor lhe deu o primeiro estalo do que seria seu futuro. 

“Ele disse que não adianta querer empreender ou administrar um negócio se você não tem educação financeira. Pensei, ganho pouco e preciso aprender a administrar isso porque também ajudava em casa. Quando fui pesquisar na internet para montar um canal no YouTube só encontrava conteúdos tipo ‘como fiz meu primeiro milhão’. Isso era impossível pra mim e me gerava uma frustração enorme porque parecia que o problema era comigo. Na realidade, o problema é que ninguém estava falando de finanças para quem ganhava pouco de verdade. Foi aí que veio o segundo estalo e decidi focar em educação financeira para pessoas de baixa renda como eu”, explicou Nathália sobre o momento, em 2019, que deu início ao canal Finanças com Nath (mais tarde alterado para Nath Finanças). 

Nath viu que muitas pessoas, como ela, precisavam se organizar financeiramente. Para não depender do cartão de crédito e seus juros abusivos, para não exagerar no iFood ou Uber, para fazer render o máximo com o pouco que se ganha ou tem. “Então, no início do canal, falava muito sobre dívida. Como sair da Serasa, como sair do SPC, como se organizar ganhando um salário mínimo. Falava muito sobre organização financeira básica. Depois de sete anos com o grupo Nath Finanças, essas perguntas continuam existindo. A diferença é que o público ficou mais diverso e ampliou. Hoje tem empreendedorismo, casa própria, fluxo de caixa. Mas continuo falando de finanças reais para pessoas reais”. 

As redes sociais da Nath Finanças – que hoje somam cerca de 2,5 milhões de seguidores, com destaque para Instagram, YouTube e TikTok –, foram responsáveis por criarem uma comunidade que a fez seguir em frente, enquanto ela própria construía credibilidade a partir de uma ética de trabalho rigorosa. “As pessoas continuam comigo todos esses anos, acreditando no meu trabalho e, principalmente, transformando a própria vida financeira. Isso é o que mais me emociona”. 

No que depender dela, muitas novas transformações ainda acontecerão, pois o futuro do grupo já está bem definido. A ideia é, basicamente, reforçar ainda mais a presença da marca, não só no digital, mas também no presencial, com eventos, palestras e projetos educacionais em escolas e universidades públicas (o Educadin, pensado para crianças, adolescentes e jovens adultos). Outro foco é tecnologia com o Nath Play, uma plataforma de educação financeira que funciona como um hub financeiro que dá acesso a conteúdos em formato de streaming, planilhas, aplicativos, ferramentas de organização financeira, tanto pessoais quanto de negócios, e também mentorias pagas. 

E em meio a isso, a iguaçuana de 27 anos ainda arruma tempo para podcast (‘Fofocas financeiras’), livros (dois deles ilustrados por Ziraldo) e investimentos em negócios, cuidando de uma empresa que começou com ela e um celular Moto G e hoje conta com cerca de 30 funcionários. “Independentemente da idade, seja começando jovem ou mais tarde, o mais importante é começar e acreditar que o seu trabalho pode gerar impacto na vida de alguém”.

making of da sessão de fotos para a Forbes Brasil

A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA

O que te fez criar um canal no YouTube para falar de economia lá em 2019? E por que falar de educação financeira para pessoas de baixa renda?

Bom, quando eu decidi criar o canal em 2019, tudo começou um pouco antes, em 2018. Eu tive uma aula de matemática financeira com o meu professor, José Trigo, e ele falou uma coisa que eu nunca esqueci. Ele disse que não adianta querer empreender ou administrar um negócio se você não tem educação financeira.

Naquele momento eu não entendi muito bem, porque, para mim, educação financeira era só anotar gastos. Era o máximo que eu tinha aprendido vendo meu pai fazer. Eu não fazia ideia de como essa ferramenta podia realmente transformar a vida das pessoas. Depois dessa aula, eu fiquei muito curiosa e comecei a estudar mais sobre o assunto. Nessa época eu trabalhava no Centro do Rio de Janeiro. 

Eu nasci na periferia de Nova Iguaçu e a minha rotina era acordar às 4h30/ 5h da manhã, pegar duas ou três conduções, trem ou ônibus, dependia do dia, para ir trabalhar. Depois do trabalho eu ia direto para a faculdade e chegava lá por volta de 18h ou 18h30. Mesmo saindo direto do trabalho e pegando duas ou três conduções, às vezes eu ainda chegava atrasada na faculdade. As aulas iam de 18h até 22h e, muitas vezes, eu ficava até 22h30 ou 23h para tirar dúvidas e aprender mais. Chegava em casa 23h30/ meia-noite.  Tudo isso porque eu queria entender de verdade o que era educação financeira.

Eu também perguntei para o professor sobre cursos e sobre ensinar isso para pessoas de baixa renda. Porque eu era, e fui por muito tempo, uma pessoa de baixa renda. No meu estágio, antes de ser estágio formal, eu ganhava algo entre R$ 500 e R$ 600 por mês. E ainda tinha um detalhe: parte do transporte eu pagava do meu próprio bolso, porque não cobria tudo. Então, na prática, eu ainda tirava dinheiro do meu salário para conseguir trabalhar. Naquele momento eu pensei: caramba, eu ganho pouco e preciso aprender a administrar isso aqui, porque eu ajudava em casa e tinha minhas responsabilidades. Foi aí que veio o estalo.

Quando eu fui pesquisar na internet para montar o projeto do canal, eu só encontrava conteúdos tipo “como fiz meu primeiro milhão”, “como juntar dinheiro para sua aposentadoria”, “como viver de renda”. E quando você ia ver o vídeo até o final, a dica era sempre a mesma: junte 500 reais por mês, junte 300 reais, junte 1.000 reais. Só que aquilo ali era praticamente o valor do meu salário inteiro. Eu simplesmente não conseguia juntar esse dinheiro. E isso me gerava uma frustração enorme, porque parecia que o problema era comigo, que eu não estava fazendo direito. Mas, na realidade, o meu salário nem era um salário mínimo na época. Então eu percebi que o problema não era falta de esforço. O problema é que ninguém estava falando de finanças para quem ganhava pouco de verdade. 

Foi por isso que eu decidi focar em baixa renda. Porque eu era a Nathália Rodrigues, da periferia de Nova Iguaçu, ganhando entre 500 e 600 reais, usando parte do salário para pagar passagem, pegando duas ou três conduções por dia e gastando cerca de cinco horas do meu dia só em transporte público para conseguir trabalhar e estudar. 

Essa era a minha realidade. Foi nesse momento que eu escrevi no Twitter, eu tinha uns 200 seguidores, que estava pensando em falar sobre educação financeira para quem ganha pouco. Umas cinco pessoas responderam animadas. 

E eu pensei: já é o suficiente para começar. Porque eu tinha uma certeza: se eu vivia essa rotina, existiam milhares de outras pessoas vivendo exatamente a mesma coisa. E essa, na verdade, é a realidade de muita gente no Brasil. 

Quais eram as principais questões que você tratava no início? E que dúvidas mais te enviavam? Isso mudou nesses sete anos de atividade, tanto as questões que você levanta quanto as dúvidas que recebe? 

Mudou um pouco, porque o público também cresceu, mas a essência continua a mesma. Teve uma época em que eu trabalhei fazendo cartão de loja. Eu era a menina que ficava oferecendo 10% de desconto para quem fizesse o cartão na hora da compra, em uma loja de calçados no centro de Nova Iguaçu. Grande parte das pessoas que faziam cartão ali eram pessoas de baixa renda. E o mais interessante é que elas acabavam me contando as histórias delas. Muitas vezes estavam fazendo o cartão para comprar um tênis para o filho ir para a escola, porque a criança não tinha um tênis bom ou simplesmente não tinha. Eu comecei a ouvir muito essas histórias no dia a dia. 

Foi ali que eu passei a sentir de verdade a realidade das pessoas. E eu pensava: nossa, essas pessoas precisam se organizar financeiramente para não depender sempre de cartão. Só que, ao mesmo tempo, eu tinha meta para bater de cartão. Mesmo assim, muitas vezes eu falava para a pessoa: você não precisa fazer mais um cartão agora. Mesmo sabendo que isso podia atrapalhar a minha meta. 

Então, no início do canal, eu falava muito sobre dívida. Como sair da Serasa, como sair do SPC, como se organizar ganhando um salário mínimo. Falava muito sobre organização financeira básica. Também trazia coisas do dia a dia, porque eu vivia essa realidade. Falava sobre como economizar no trabalho, como evitar gastar demais com iFood, como não exagerar no Uber ou nos aplicativos de transporte. Eu mostrava a visão de alguém que pegava trem, ônibus, metrô e que precisava fazer o dinheiro render. 

As principais dúvidas eram justamente essas: como sair das dívidas, como se organizar financeiramente, quais são os primeiros passos para cuidar do dinheiro, e quais são os erros mais comuns que a gente comete. 

Depois de sete anos com o grupo Nath Finanças, essas perguntas continuam existindo. A diferença é que o público ficou mais diverso. Hoje tem gente que me acompanha ganhando um salário mínimo, mas também tem gente que ganha R$ 5 mil por mês e quer aprender a investir, quer comprar a casa própria ou quer se organizar melhor. Até mesmo quem tem 500 mil reais e quer aprender a investir. 

Então o público não mudou, ele ampliou. A essência continua sendo a mesma. Inclusive teve um seguidor que me falou uma coisa que acabou virando quase um slogan para mim. Ele disse: “Nat, eu ganho mais do que um salário mínimo e acompanho você. Eu ganho bem, mas a sua comunicação simples e prática me ajudou muito a me organizar financeiramente.” E ele completou dizendo: “Você não fala só de finanças para pessoas de baixa renda. Você fala de finanças reais para pessoas reais.” Quando eu ouvi isso, virou uma chave na minha cabeça. Porque é exatamente isso que eu faço. Eu falo com o empreendedor que está começando, com quem já está um pouco mais estável e quer aprender a investir, com quem está endividado e também com quem está com medo de se endividar. 

O nosso foco sempre foi trazer acessibilidade para o conteúdo. Porque quando muita gente fala de finanças, parece sempre algo complicado, distante ou até culpando a pessoa pela situação. E eu não acredito nisso. A gente pega na mão e mostra o caminho para que a pessoa consiga, de verdade, alcançar os objetivos financeiros dela. 

Você acha que falar sobre economia para pessoas de baixa renda mudou nesse período? As pessoas ganharam mais consciência ou ainda é um tema complexo?

Eu vejo que, nesses anos, falar de economia para pessoas de baixa renda não é que mudou completamente, mas as pessoas passaram a ter muito mais acesso à informação, e isso já faz uma grande diferença. 

Principalmente depois da pandemia, as pessoas começaram a consumir muito mais redes sociais. E o TikTok teve um papel muito grande nisso. Foi ali que muita gente começou a se abrir mais, a falar sobre salário. Um CLT falando quanto ganha, uma pessoa PJ falando quanto ganha. Coisas que antes eram um tabu. 

Eu cresci muito nas redes por conta do YouTube e do Twitter, mas o TikTok ajudou a ampliar essa conversa. As pessoas começaram a mostrar suas realidades, compartilhar experiências, falar de organização financeira, oferecer planilhas, vender planilhas, ensinar métodos. 

Então hoje eu vejo que a gente tem muito mais acesso a diferentes realidades. A realidade de quem ganha um salário mínimo, de quem ganha dois ou três salários mínimos, de quem está começando a investir. As pessoas, sim, ganharam mais consciência. E com mais consciência também veio mais acesso, mais consumo de conteúdo e mais interesse em aprender. Eu não acho que o tema seja tão complexo quanto antes. Ele está muito mais difundido hoje. 

O desafio agora é outro: filtrar informação. Porque tem muita gente falando sobre finanças, muito conteúdo disponível. Então a pessoa precisa escolher quem ela quer ouvir, qual tipo de conteúdo faz sentido para a realidade dela e qual caminho ela quer seguir. 

Como você definiria o seu crescimento em termos de influência, alcance e relevância após sua entrada de cabeça nas redes sociais?

Eu definiria o meu crescimento com duas palavras: comunidade e credibilidade. Eu construí uma comunidade muito forte. E foi essa comunidade, junto com a credibilidade que eu construí ao longo dos anos, que fez com que eu conseguisse crescer e viver do meu trabalho, tanto na internet quanto fora dela. Sempre tive muito cuidado de não me vender, de manter meus valores, de trazer informação correta e de lembrar da realidade de quem está do outro lado. De quem pega três conduções por dia para trabalhar, porque eu já fui essa pessoa por muitos anos. 

O primeiro grande crescimento veio quando eu viralizei por conta de uma matéria da BBC Brasil, que contou a história de uma estudante que falava de educação financeira para pessoas de baixa renda. Depois disso, o crescimento continuou, mas de uma forma mais gradual. Não foi uma montanha-russa o tempo todo. Foi um crescimento constante de influência, alcance, relevância e credibilidade. 

Os dois primeiros anos foram muito intensos. Mas depois eu percebi que crescer de forma gradual era melhor, porque me permitia acompanhar os momentos da vida das pessoas. 

Tem gente que chega quando quer comprar a casa própria. Tem gente que chega quando quer aprender a investir. Tem gente que chega quando quer sair das dívidas.

E eu também organizo meu conteúdo por fases. Eu gosto de pensar quase como um artista que lança álbuns. Cada ano eu escolho um tema que quero aprofundar mais.

Por exemplo, em 2026 estou falando mais sobre empreendedorismo, porque sou formada em Administração de Empresas. Então estou trazendo conteúdos sobre fluxo de caixa, organização financeira do negócio e como começar a empreender.

Também voltei a falar sobre casa própria, depois de dois anos, e estou trazendo conteúdos sobre carro, como financiamento e decisões financeiras do dia a dia. 

Você tem uma rede social preferida do coração? E qual você acha melhor em termos de comunicação com o seu público?

Hoje em dia, as redes que eu mais gosto de consumir são Instagram e TikTok. Se eu tivesse que escolher uma favorita, talvez fosse o Instagram. Mas quando penso em comunicação com o público, depende muito da plataforma e do tipo de conteúdo. O antigo Twitter era muito bom para comunicação rápida. Era onde a conversa acontecia muito em tempo real. Hoje já não uso com tanta frequência. O LinkedIn tem um público mais voltado para empreendedorismo e negócios. Mas, no geral, as redes em que eu consigo me comunicar melhor com o meu público hoje são YouTube e Instagram, porque ali consigo explicar melhor os conteúdos e criar uma conexão mais direta. 

Do que você tem mais orgulho entre as coisas que conseguiu nesses anos de Nath Finanças?

Acho que o maior orgulho que eu tenho nesses anos de Nath Finanças são as pessoas. As pessoas que me acompanham e conseguiram comprar a casa própria. As que conseguiram comprar um carro. As que saíram das dívidas. As que montaram uma reserva de emergência de forma realista. As que fizeram o primeiro investimento. Saber que, de alguma forma, eu consegui chegar na casa dessas pessoas e ajudar na transformação da vida financeira delas é o que mais me emociona. Porque tudo começou sem estrutura nenhuma. Eu gravava com um Moto G, com um sonho e muita vontade de ajudar. Hoje tenho câmera, microfone, equipe, empresa. Mas o que mais me orgulha é que as pessoas continuam comigo todos esses anos, acreditando no meu trabalho e, principalmente, transformando a própria vida financeira. 

Nath e Ziraldo

Quais são os próximos passos do grupo Nath Finanças? Como você descreveria o seu futuro? 

Os próximos passos do grupo Nath Finanças são reforçar ainda mais a presença da marca, não só no digital, mas também no presencial. Durante muitos anos a educação financeira que eu levei foi principalmente pelas redes sociais. Agora a ideia é fortalecer também o trabalho presencial, com eventos, palestras e projetos educacionais que levem educação financeira para mais pessoas. 

Um dos caminhos é ampliar projetos em escolas públicas e universidades públicas, levando educação financeira de forma transversal. A ideia é falar com crianças, adolescentes e jovens adultos que muitas vezes nunca tiveram acesso a esse tipo de conhecimento em casa. Não porque os pais não quiseram ensinar, mas porque muitas vezes os próprios pais também nunca tiveram acesso à educação financeira.

Então poder fechar projetos com escolas e universidades e levar esse conteúdo é algo muito importante para mim. Inspirar essas crianças e jovens a entenderem como lidar com dinheiro desde cedo. 

Dentro disso também entra o Educadin, que é um projeto criado aqui dentro do grupo Nath Finanças para levar educação financeira para crianças e jovens. Esse projeto nasceu justamente com a ideia de tornar o tema mais acessível desde cedo, de uma forma simples, didática e próxima da realidade das famílias brasileiras.

Eu também tenho dois livros de educação financeira infantil feitos junto com Ziraldo, além de outros conteúdos desenvolvidos por mim e revisados por pedagogos. A ideia é ajudar a construir uma geração que tenha acesso a essas ferramentas desde cedo. 

Porque quando a gente fala de educação financeira para crianças, a gente está falando do presente e do futuro. Quanto mais cedo elas tiverem contato com esse conhecimento, menores são as chances de crescerem sem entender como lidar com dinheiro. 

Outro ponto muito importante para o futuro do grupo Nath Finanças é a tecnologia. Hoje a gente tem a Nath Play, que é a nossa plataforma de educação financeira. Ela funciona como um hub financeiro, onde as pessoas têm acesso a conteúdos em formato de streaming, planilhas, aplicativos, ferramentas de organização financeira, além de conteúdos tanto de finanças pessoais quanto de finanças para negócios. Também temos mentorias a cada 15 dias dentro da plataforma, tudo com um valor acessível, a partir de R$ 12,90 por mês. A Nath Play é uma EdTech, ou seja, uma empresa de tecnologia voltada para educação. Então um dos nossos focos para os próximos anos é fortalecer ainda mais essa área de tecnologia. 

Além disso, eu também tenho investido em negócios nos quais acredito. Hoje já sou sócia de algumas empresas e quero continuar investindo em projetos e companhias que tenham propósito e que possam gerar impacto. 

Então quando a gente fala de futuro do grupo Nath Finanças, estamos falando de várias frentes: educação financeira, tecnologia com a Nath Play, consultorias, investimentos e novos projetos. 

E se eu fosse descrever o meu futuro, eu sempre gosto de lembrar uma coisa: eu ainda sou muito jovem. E eu gosto de falar isso porque inspira outras pessoas a entenderem que, mesmo sendo jovem, você pode construir algo grande, algo que realmente transforme a vida das pessoas. Independente da idade seja começando jovem ou mais tarde, o mais importante é começar e acreditar que o seu trabalho pode gerar impacto na vida de alguém.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

drauzio varella, o site

em março apareceu na minha vida de frila o site do portal drauzio varella, uma nova seara para reportagens, entrevistas e quetais. tudo gira em torno de saúde, obviamente, mas com uma pegada mais humanizada que amei, tudo a ver. vou colocando aqui os links pras matérias conforme elas forem sendo publicadas.

1. "Uma segunda vida, com velocidade" (abril 2023) - perfil de Liége Gautério, atleta que foi a primeira brasileira a ganhar medalhas nos Jogos Mundiais para Transplantados

2. "Do Carandiru ao CPD - Como Drauzio Varella começou seus atendimentos nas cadeias" (maio 2023) - reportagem-entrevista com Drauzio Varella, que narra sua jornada de atendimento médico em cadeias paulistas

Foto - Dafne Sampaio

3. "Câncer nas favelas - 7 em cada 10 moradores não encontram médicos para consultas" (maio 2023)

4. "Como a tecnologia está mudando a implantação de próteses" (agosto 2023)

5. "Como se recuperar após um burnout?" (outubro 2023)

6. "A andropausa é a 'menopausa' dos homens?" (novembro 2023)

7. "Como o exoesqueleto está sendo usado para reabilitação de pacientes" (dezembro 2023)

8. "Principais tipos de interação medicamentosa" (janeiro 2024)

9. "Você conhece do Guia Alimentar para a População Brasileira?" (abril 2024)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

larica total reloaded

tem várias coisas que me orgulho nesses 20 e poucos anos como jornalista e uma delas é, certamente, ter feito a primeira reportagem pra grande imprensa sobre o mítico Larica Total lá no final de 2008. foi um delírio à primeira vista e rapidamente se tornou obsessão e eu falava igual ao personagem, usava frases, entonações, era uma loucura. e o programa foi crescendo e ganhando mais e mais fãs e isso em tempos de redes sociais engatinhando.

entrevistei Paulo Tiefenthaler, o ator-protagonista da série, sobre a primeira temporada ("Comida Kung Fu") e a segunda ("Xablablau no Tucupi"), ambas pra Revista Monet. então, dez anos após o fim da terceira temporada, eu, Larica Total e Monet voltamos a nos encontrar. é pq agora em meados de fevereiro irá ao ar, no Canal Brasil, um episódio inédito feito agora em dezembro junto a um documentário sobre esse reencontro, lembranças do início do programa e das três temporadas. então entrevistei, via zoom, Tiefenthaler, Caíto Mainier e Leandro Ramos. o resultado tá aqui.

Paulo de Oliveira ilustrado por Ronaldo Barata

RETROGOSTO DE QUERO MAIS

O acaso, às vezes, é acrobático. O “autor” desta frase, Paulo de Oliveira, jamais poderia imaginar como as piruetas e cambalhotas do destino o fariam se tornar um dos personagens mais queridos e influentes na recente história do audiovisual brasileiro. Paulo é o cara e a cara do Larica Total, programa que estreou no Canal Brasil em outubro de 2008 e que durante três temporadas e 74 episódios mudou o jeito de fazer comédia e comida na TV. Nunca foi comida de qualquer jeito, foi sempre comida a qualquer custo, feita de verdade, possível. 

Paulo também é, acima de tudo, o ator Paulo Tiefenthaler que, após dez anos do fim da terceira temporada em 2012, voltou a se encontrar com os parceiros-roteiristas-diretores Caíto Mainier, Leandro Ramos e Felipe Abrahão. O motivo é um especial de uma hora com episódio inédito e atual e um documentário dirigido por Pedro Asberg com lembranças, imagens do reencontro, e todo o processo de produção de um programa, desde o roteiro até a gravação (Vai Dar Certo - Larica Total 10 Anos Depois será exibido no Canal Brasil dia 19 de fevereiro, às 21h). 

O Larica Total abriu muitas portas e janelas para Tiefenthaler e nesses dez anos trabalhou bastante e fez de um tudo, desde séries como Amor Veríssimo, Coisa Mais Linda e Nada Suspeitos até filmes como A Noite da Virada, O Roubo da Taça e A Mulher do Meu Marido. Com o parceirão Canal Brasil idealizou as selfies-pensatas TiefenTalks e, mais recentemente, dirigiu e atuou na série Perdido. Criou até dois espetáculos gastronômicos-teatrais (Larica Live Concert e Fome, o Musical - Do Broto ao Bacon, Everybody Rocks). 

Tiefenthaler diretamente de Teresópolis

“Mas estava precisando dar uma retomada na energia solar do personagem. Só que tinha dúvida se conseguiria fazer esse personagem com essa alegria toda dez anos depois. Agora tenho 53 anos, sou um tiozão cinquentão de barba branca e mais careca”, disse Tiefenthaler diretamente de um sítio da família em Teresópolis onde se refugiou desde o início da pandemia em 2020. Foi lá que nasceu a ideia da volta do Larica Total. “Depois encontrei com Caíto e Felipe no Rio e falei... e se o Paulo voltasse nessa época maluca de pandemia e fascismo, e desse um alô, viesse com uma mensagem, e depois sumisse de novo?”. Todos gostaram, todos queriam trabalhar juntos novamente.

“A ideia de voltar sempre foi muito recorrente. Muita gente pedia. Tem os saudosistas, tem o pessoal que descobre o Larica porque é fã do Choque de Cultura que eu e o Leandro fazemos. Então a gente pensava, mas era mais uma coisa de desejo pessoal porque a gente logo lembrava o trabalho que dava com tão pouco dinheiro. Dessa vez tinha uma energia diferente. E todo mundo achou legal fazer o programa hoje, com o Paulo hoje, todo mundo hoje. E que seria legal documentar isso também”, afirmou Caito Mainier, que segue roteirista (Irmão do Jorel, Lady Night, etc), diretor (Décimo Andar), mas que também foi pra frente das câmeras (Falha de Cobertura, o já citado Choque e Os Salafrários).

Caíto Mainier diretamente do Rio de Janeiro

“A gente se colocou na mesma situação porque era interessante tentar refazer como era, e com a mesma equipe. Por outro lado, esse documentário foi como abrir uma caixa preta. Muita gente achava que era o Paulo que fazia tudo sozinho, improvisando. Então essa coisa do processo de fazer, de estar concentrado naquilo, a gente guardava muito pra gente mesmo. Agora, com esse documentário, a gente perdeu o medo de mostrar essa intimidade. A gente viu que rola, que tem um grau de concentração que é nosso. Isso foi libertador”, completou Leandro Ramos que, ultimamente, tem trabalhado mais como ator (nas séries Ninguém Tá Olhando e O Mecanismo e em filmes como Cabras da Peste, Papai é Pop e Juntos e Enrolados, além de uma participação na novela A Dona do Pedaço como Julinho da Van, seu personagem no Choque de Cultura). 

Leandro Ramos diretamente de São Paulo

Mas e aí? Foi tranquilo recuperar o fio da meada ou teve que pegar no tranco? “Ah, foi fácil retomar a energia com todo mundo de volta e naquela cozinha. A cozinha é como se fosse um figurino pro personagem. Mas eu estava muito ansioso, fiquei uns três dias sem dormir”, confessou Tiefenthaler. “Quando a gente chegou no apartamento não parecia que tinham se passado dez anos. Parecia que foram uns seis meses. O cara que mora agora lá não reformou nada e a cozinha estava mais velha”, e gargalhou ao relembrar os dois dias de gravação que aconteceram em meados de dezembro.

Mainier e Ramos também tiveram a mesma sensação. “A gente passou tanto tempo lá, pensando, criando, gravando, vivendo. Foram cinco anos fazendo aquilo, então era tudo muito familiar”, pontuou Mainier. “É que a nossa intimidade permanece a mesma, a gente se encontra, se fala e ocasionalmente trabalhamos juntos. Não teve aquele impacto de ficar dez anos sem ver as pessoas e se reencontrar”, disse Ramos. 

Tudo certo e azeitado no set de gravação, mas qual foi a receita escolhida para celebrar tão aguardado reencontro? Um cozido. “O cozido é uma receita que agrega muitos ingredientes, muitos legumes, e é uma coisa quentinha, gostosa, que reúne pessoas”, lembra Tiefenthaler sobre o prato que fizeram na mesma cozinha de uma década atrás. Mainier assina embaixo e complementa que “é uma receita fácil e dá essa ideia de aglomeração, de combinação de cores, sabores. Fazer esse episódio novo também tem isso da volta, das pessoas voltando a se encontrar. Voltar foi o tema que a gente usou e que permeia o episódio. Mas não significa a volta do Larica, significa apenas a volta do personagem naquele dia”.

Sim, todos deixam bem claro que não existem planos para novas temporadas do Larica Total. Não por vontades próprias. “Acho que no nosso atual universo audiovisual, a gente poderia voltar a fazer o Larica tranquilamente por mais uma, duas, três temporadas. Sem medo, sendo legal. Não seria uma novidade, mas também não precisa”, sentencia Mainier. Então faz uma pausa. “O que não dá mais, e nisso todo mundo concorda, é fazer naquele esquema de guerrilha. A gente não tem mais saúde. Precisa ter uma equipe maior, uma parada com estrutura, um investimento maior”.

Ramos acrescenta, na sinceridade, que “o programa acabou porque a gente não aguentava mais. Era muito exaustivo. Equipe reduzida, todo mundo fazia tudo. Era uma delícia, foi um grande aprendizado, mas daquele jeito a gente não consegue mais. A gente era jovem. Na guerrilha não dá mais”.

E Tiefenthaler adiciona uma dose de experiência pessoal nesse caldo de cansaços que encerrou o programa em 2012. “No começo era divertido gravar na própria casa, mas depois de um tempo foi ficando estressante. A equipe ia embora e eu continuava lá, naquele ambiente, e era um pouco confuso. Me desgastou muito”. Mainier reaparece e reduz o fogo. “Ganhamos APCA, o Prêmio da Revista Monet, tivemos liberdade pra criar, então todo mundo também estava com a sensação de dever cumprido depois de 5 anos intensos. Quando acabou a gente até tirou um pouco férias da gente mesmo”. Bola do jogo, sal na comida, vida que segue, normal.

“O Larica foi interrompido no auge. Um tanto por isso virou cult. E fomos influência pr’um monte de canais no YouTube, essa coisa de culinárias populares, improviso e humor”, diz um orgulhoso Tiefenthaler. O programa saiu do ar deixando os fãs com água na boca por mais receitas como Yakisobra, Sushi de Feijoada, Estragadinho e Churros de Aipim, o que pode muito bem ser reativado por esse tão aguardado reencontro. Vai saber o que ainda pode sair daquela cozinha?

Da ideia original de Terêncio Porto e Adriana Nolasco para um curta lá em 2006, ampliada pelo mítico Frango Total Flex feito no primeiro episódio, Paulo de Oliveira continuou sendo, nas palavras de Ramos, “o cara que cozinha com o que tem em casa, faz com o conhecimento que tem. Ele faz o que é possível, como nós”. E isso é humor que não acaba mais.

seguem abaixo TODOS os episódios das três temporadas de Larica Total

 

MELHORES EPISÓDIOS

Primeira Temporada (2008-09)

- 'Frango Total Flex': o piloto, a origem de tudo, um frango estragado, o erro como personalidade e recurso narrativo, frases lendárias como “Tá com medo do arroz?” e “Não tenho cara de que vou te ajudar?”; tá tudo ali, naquela cozinha

- 'Tenha sempre uma glicose em casa': roteiro espertíssimo costurando manhã de preparação da larica com muito leite condensado e chocolate, noite de festa de casamento e madrugada de volta pra casa bêbado feito um gambá, com direito a um final lindo e melancólico ao som de Bob Marley (“Chances Are”)

Segunda Temporada (2009-10)

- 'Peladona do primeiro andar': o programa teve várias participações especiais, mas a da atriz Karine Carvalho como uma vizinha divertida e naturalmente sedutora, o que gera uma baita química com Tiefenthaler, é uma das melhores e a receita é uma pão caseiro todo multigrãos

- 'Nos litorais do Carnaval me vi peixe ensaboado na Curva do Batman': um dos episódios mais delirantes que tem início com "Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua" do Sérgio Sampaio e Paulo fantasiado de Batman minimalista, um peixe destruído por uma faca sem corte e uma piada maravilhosa com "Eyes Without a Face" de Billy Idol

Terceira Temporada (2011-12)

- 'Em Busca do Camarão Perfeito': o clima do episódio é uma paródia de Apocalypse Now e Paulo vai rio abaixo em busca do misterioso Baba Guru, um rasta criador de camarões; tudo em nome de um bobó pra entrar pra história

- 'Self-Ceviche Milenar': episódio em dois tempos, sendo que em um Paulo faz bico de guia turístico meio charlatão, e n’outro está em casa fazendo um ceviche e disparando frases como a lendária “Pintou tubarão? Vai no crawl”; participações especiais de Caito Mainier e Leandro Ramos

segunda-feira, 3 de julho de 2017

a avó e a boi

foi no dia 10 de junho que @EduardoHanzo começou a contar uma história no twitter sobre uma rixa de décadas entre sua avó e uma vizinha, carinhosamente apelidada [pela vó] de "a boi". tão cômica quanto surrealista, a história viralizou rapidamente no mesmo dia e Hanzo seguiu acrescentando novas peripécias das duas no dia seguinte. pouco tempo depois a saga da avó e da boi chegou aos 'moments' do twitter, ao facebook e a sites que deram prints nos tweets. daí que Hanzo acrescentou mais histórias em 20 de junho.

lendo e relendo a história pensei [como muitas outras pessoas] que maravilhoso filme isso daria. poderia ser uma comédia violenta & surreal bem ao estilo de 'durval discos' da anna muylaert. 

mas verdade mesmo é que fui guardando tudo, separando, editando, e dividi a longa saga em três partes. então pedi pro amigo, e grande desenhista, fernando de almeida ilustrar a história. e se aparecerem mais capítulos acrescento aqui.



A AVÓ E A BOI 
ou 
EU NÃO TINHA NADA PRA FAZER MESMO

PARTE 1

deixa eu contar o conflito que já ultrapassa 50 anos entre minha vó e a vizinha dela, a Boi. Boi é o apelido da vizinha dado por minha avó. até lá pelo meio dos anos 90 minha avó chamava a vizinha de a Vaca, mas lá por 1996 decidiu que isso era muito machista e que tudo tinha limites, e a Vaca foi renomeada pra a Boi. 

minha avó conhece a Boi desde pequena. elas duas moram nas mesmas casas desde crianças. são vizinhas a pelo menos 60 anos. antes de casar com meu avô, minha avó teve 2 namorados. eram épocas mais simples. a Boi roubou os dois namorados, segundo minha avó. anos depois a Boi casou com o segundo namorado roubado num casamento feito NA RUA DE CASA, NA FRENTE DA CASA DA MINHA AVÓ. 

quando eu era criança, minha avó pagava moleques do bairro pra passar dias inteiros tocando a campainha da Boi. varias vezes por hora. minha avó usava uns aparelhos de inalação pra respirar melhor. toda vez que a Boi escutava o som característico do aparelho funcionando, ela ia na frente da casa da minha avó e desligava o disjuntor de energia pra cortar a energia da casa e o inalador parar de funcionar. e o ódio que a minha avó e a Boi compartilham uma pela outra é de longe o sentimento mais forte, intenso e dedicado que eu já vi na vida. 

minha avó tem certeza plena e total que a Boi MATOU pelo menos CINCO cachorros de estimação da minha avó ao longo do anos, e que ela também é responsável pelo desaparecimento de outros dois. um cachorro da minha avó sumiu uma vez. meses depois um conhecido dela foi em um sítio que a família da Boi tinha e viu o cachorro lá. desde que eu me lembro as galinhas que a Boi sempre cria volta e meia aparecem mortas em circunstâncias inexplicáveis e misteriosas. ela não admite mas eu SEI que minha avó tem participação nessa selvageria. dava polícia tantas vezes na rua da casa da minha avó devido a brigas dela com a Boi que eu conhecia vários policiais pelo nome. hoje quase não dá polícia mais porque elas ligam e a polícia, já sabendo da situação, simplesmente não aparece mais. desistiram. uma vez quando a Boi viajou, minha avó PULOU O MURO e envenenou todas as plantas do quintal da Boi com soda cáustica e querosene. todas as plantas. até a última roseira, até a última samambaia. até. o. último. pé. de. boldo.

em uma reviravolta shakespereana e otimista, meus tios e minha mãe eram e são até hoje muito amigos dos filhos da Boi. sempre foram vizinhos mais ou menos das mesmas idades. iam na mesma escola. claro que viraram amigos a despeito da insanidade das mães. pra degosto eterno da minha avó, um tio meu até namorou e depois casou com uma das filhas da Boi. Nem a Boi nem minha avó foram ao casamento. anos atrás, minha avó e a Boi já mulheres idosas, a Boi caiu sozinha em casa, se machucou e ficou gritando pra alguém chamar uma ambulância. minha avó ouviu e não só não chamou a ambulância como GRAVOU O GRITOS DE DOR DA BOI PRA OUVIR DEPOIS. ELA TEM ESSA GRAVAÇÃO ATÉ HOJE. minha avó é a SAVAGE original, ela é completamente implacável e ela não tem misericórdia nenhuma por seus inimigos. 



PARTE 2

o que vocês precisam entender sobre minha avó e a Boi é que:

1 - elas têm muito tempo livre nas mãos
2 - elas têm uma capacidade de FOCO incrível
3 - elas sempre vão até as últimas consequências

minha avó já fez inferno contra a Boi pra mulher do dono do comércio da rua e a mulher convenceu o marido a NÃO VENDER MAIS NADA PRA BOI. então há anos a Boi simplesmente precisa dar uma volta enorme pra ir em outro mercadinho lá na outra rua pra comprar coisas. a minha avó é uma velhinha já meio surda então ela escuta música MUITO ALTO quando tá fazendo as coisas em casa de dia. então a Boi juntou dinheiro da aposentadoria e fez o marido instalar um sistema de som daqueles enormes no carro pra tocar música MAIS ALTO. 

minha avó já caiu dentro da vala que tinha na rua pra se salvar da Boi jogando o carro nela, tem noção? a vala virou A VALA DA VOVÓ pra nós. quando a prefeitura cobriu e pavimentou a vala a gente foi lá se despedir da vala. vovó ficou pistola. minha família só tem gente louca. 

o conflito da minha avó com a Boi não consiste só de agressão física e moral. terrorismo psicológico também é frequente. por exemplo. a Boi acredita em macumba. minha avó não acredita em nada além de tormento e destruição. e no Sílvio Santos. ela acredita no Sílvio Santos. então claro que a minha avó tá sempre fazendo despacho de macumba fake e colocando no quintal e na frente da casa da Boi pra enlouquecer ela. ela já me fez procurar foto de trabalho e despacho no google images e imprimir pra ela poder reproduzir. minhas mãos tão sujas também. a Boi encontra bacia com farofa e galinha no portão de casa, saquinho de pano com ervas pendurados nas árvores do quintal, etc. 

uma vez a Boi achou um saco de veludo EMBAIXO DA CAMA DELA com ervas e um papel com o nome dela riscado que ela é convicta que foi escrito com sangue. (eu não sei se acredito que não foi realmente escrito com sangue. eu honestamente não sei mais no que acreditar a esse ponto). essa foi a primeira vez de muitas que a Boi chamou benzedor pra benzer a casa. ele cobrou 300 reais. não foram feitas perguntas a esse respeito. recentemente a esposa do meu tio, filha da Boi, fez ele confessar que a vovó fez ele entrar na casa e colocar o artefato de macumba lá. 

antes do estatuto do desarmamento passar tanto minha avó quanto a Boi tinha armas em casa, que os maridos usavam pra caçar no interor. todos nós vivíamos constantemente apavorados que alguma coisa ia ser a gota d'água e elas duas iam estourar um tiroteio. meu avô deixava a espingarda trancada no COFRE por causa disso e ninguém sabia a combinação além dele. eventualmente ele acabou se desfazendo da espingarda porque minha avó ficada inventando desculpa pra pedir a combinação do cofre da casa. porque a chance dela querer chegar na arma eram estarrecedoramente altas, e balear inimizades é total algo que ela faria. minha avó 'did not come to play'. eu amo demais essa mulher honestamente, ela me inspira diariamente. acho que a lição que eu tiro disso é que criatividade se apresenta das formas mais inesperadas e que determinação nem sempre dá bons frutos. 

pelo menos uma vez por semana eu ou a mamãe ligamos pra ela pra saber dos desenvolvimentos e inacreditavelmente sempre tem novos episódios. seria de se imaginar que depois de mais de 50 anos de conflito tudo que poderia acontecer já aconteceu né. mas as surpresas não param. é meio que essa piada entre a gente da família ligar pra ela e a primeira coisa que ela falar seja VOCÊS NÃO SABE A ÚLTIMA DA BOI. e é uma desculpa pra gente sempre estar em contato com a véia, ela adora o interesse e a atenção e a gente adora ela. 

acho que outra lição tirada disso é que fazer um inimigo de uma pessoa criativa e com muito tempo livre é uma ideia muito equivocada.



PARTE 3

minha avó chegou do interior de manhã, eu fui lá arrumar a tv dela e encontrei ela sentada numa cadeira no portão. o correio ia passar pra entregar encomenda. ela passou a tarde toda sentada no portão esperando com medo da Boi receber a encomenda e roubar. 

- vó, mulher. entra, por favor. não é assim que funciona. o correio não entrega coisa assim pra qualquer um.

- eu não tinha nada pra fazer mesmo. e tu lembra das contas de luz? a Boi sempre encontra um jeito.

(me ocorreu na hora que se fosse feito filme da história da minha avó com a Boi o nome ia ter que ser Eu Não Tinha Nada Pra Fazer Mesmo e o nome da inevitável sequência teria que ser Eu Não Tinha Nada Pra Fazer Mesmo 2: A Boi Sempre Encontra Um Jeito)

ela fez eu ficar lá no portão esperando enquanto ela entrava pra fazer café pra mim. eu fiquei. não me julguem por ter compactuado. o café da minha avó é muito bom, o suficiente pra não me deixar em posição de negociar no momento. então eu fiquei lá rindo sozinho lembrando do incidente com as contas de luz da minha avó que nunca chegavam. as contas de luz da minha avó nunca chegavam na casa e mais de uma vez contaram a luz porque ela não lembrou de pagar. eventualmente descobriu-se que a Boi sabia o dia que conta chegava e roubava da caixa de correio pra vó não ver e esquecer de pagar.

antes do cabaré realmente pegar fogo entre a vó e a Boi e um muro precisar ser erguido pelo bem de todos, as duas casas ficavam num só terreno enorme com duas caixas de correio, uma do lado da outra. assim como muitas coisas nessa história que fogem à minha compreensão, isso nunca foi mudado. é assim até hoje. talvez tenha a ver com elas serem as duas mulheres mais sovinas do Brasil e não quererem pagar pra mudar a caixa de lugar. ou talvez pra isso elas tivessem que admitir a maluquice que é isso tudo, coisas que elas não fazem. as duas acham que estão certas. a psique da minha avó e da Boi já foi muito analisada por nós nos dias de churrasco, foi concluído que as duas coisas são igualmente plausíveis. 

mas eu divago. enquanto eu tava lá no portão o correio passou. eu recebi a encomenda e entrei. assim que eu entrei minha avó viu o pacote e disse TÁ VENDO ELES ENTREGAM PRA QUALQUER PESSOA QUE TIVER NO PORTÃO SIM. eu odeio quando o viés-confirmatório e as loucuras da minha avó são aparentemente comprovadas e validadas empiricamente. mas eu não tive forças pra explicar que eu assinei o recebimento, mostrei minha identidade, etc. por hoje, o delírio dela foi bem alimentado. 

agora em casa eu estou pensando nas coisas que poderiam ter sido realizadas se essas mulheres não vivessem em estado de paródia constante. e constantemente tentando prever o próximo movimento uma da outra. pesando também que é IMPERATIVO encontrar alguém com a mesma dedicação por você quanto a vó e a Boi se dedicam a arruinar a vida uma da outra.  

PARTE 4 [tuites de 5 de julho]

a guerra secundária da minha avó com a boi pra ganhar a preferência do filho do meu tio com a filha da Boi está escalando muito rápido. elas ficam tratando o garoto como quem trata um Deus caprichoso, exigente, observador, rígido e muito facilmente irritável. 

em maio minha avó comprou um notebook pra ele porque ela achava a tela do celular muito pequena pra ele ver vídeo de Gameplay de Minecraft. mês passado a Boi tentou comprar um desses.



minha avó quer pagar a festa de aniversário dele que tá chegando (contando que seja na casa dela). meu tio e a mãe do menino sendo criados no seio da loucura reconhecem na hora quando é amor genuíno e quando não é e devolvem as coisas. mas as vezes algum suborno emocional passa pela vigilância. é assim que meu primo de 12 anos tem um iphone. meu tio, além de não ter probleminha e portanto não estar disposto de gastar 80 milhões de reais num iPhone ainda detesta Apple. e aí é obrigado a ter um ataque constante desse dentro de casa.

lição: a Guerra tem consequências pra todo mundo. os inocentes são atingidos e frequentemente sofrem destinos piores que a morte. eu aprendi muito mais sobre a moralidade da Guerra crescendo com a minha vó do que 'Catch-22' e Cormac McCarthy nenhum poderiam ter me ensinado.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

o brasil pega mal

o ano pós-golpe não anda fácil para o brasil, mas para frilas jornalísticos está um pouco pior. sorte que de vez em quando surge alguma coisa bacana, como, por exemplo, essa matéria que fiz para a edição de maio da revista trip [anitta na capa] sobre iniciativas para aumentar a acessibilidade da internet no país. a pauta veio do editor renan fagundes e a reportagem foi ilustrada por beto shibata. delícia falar com várias fontes e costurar os muitos lados de um tema complexo e atual. ah, tem a matéria também no site da trip. detalhe: acabei colocando como título do post o que ficou na revista e deixei aqui meu título original.


LIGANDO OS PONTOS

Metade das casas brasileiras já possui acesso a internet, mas e a outra metade? Saiba mais sobre algumas iniciativas – independentes, privadas e públicas – que pretendem conectar áreas remotas do Brasil

No caminho para a maior cachoeira do Estado do Rio de Janeiro, a 32 quilômetros de Resende, existe um povoado chamado Fumaça. Por lá vivem cerca de 800 pessoas e os mais velhos ainda o tratam como Aldeia por ter sido a última morada dos índios Puris. É difícil a comunicação com o mundo a partir do distrito: os três orelhões estão quebrados e sem previsão de conserto, e um antena instalada anos atrás só pega (mal) na Praça da Matriz. Daí que, em 2015, o coletivo Nuvem - Estação Rural de Arte e Tecnologia recebeu uma bolsa internacional para a criação de uma rede wifi e de uma rede autônoma de celular na vila. A vida dos moradores de Fumaça nunca mais foi a mesma.

“Meu filho está em Portugal e hoje consegui falar com ele devido a internet. Tive notícias, sei o que ele está fazendo, como está, e ele também teve notícias da gente. Isso foi maravilhoso”, declarou Elizabeth Nunes, 63 anos, após a instalação dessa rede livre, gratuita, participativa, que não passa por empresas e é gerida pela própria comunidade. Para a pequenina Fumaça a internet deixou de ser um privilégio, só que para 70 milhões de brasileiros que ainda estão desconectados, segundo dados recentes da ONG Internet.org, essa realidade ainda é distante.  Dentre esses 70 milhões quem é mais atingido por esse isolamento estão, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2014, nas zonas rurais, no Norte e Nordeste, tem mais de 50 anos, são negros, e possuem menores faixa salarial e nível de instrução. 

E o que está sendo feito para mudar essa que é uma das muitas desigualdades brasileiras? Internet é um privilégio ou um direito? “A internet é um direito humano essencial porque é um direito à comunicação. Isso está na Constituição e, mais recentemente, no Marco Civil da Internet”, afirmou Fábio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e Coordenador do Laboratório de Estudos sobre Internet e Cultura.

Sancionado em 23 abril de 2014, o Marco Civil é tido como referência mundial para legislações que tratam da internet.  O texto da lei garante neutralidade da rede, privacidade dos usuários, liberdade de expressão, retenção de dados, e obrigações de responsabilidade civil aos usuários e provedores, entre outros temas. Prioriza e assegura, enfim, o caráter aberto da internet.

Tudo muito bem, tudo muito bom, mas como garantir um maior acesso a internet em um país tão grande quanto o Brasil? “Pois é, um dos grandes problemas do país é que o acesso a internet está muito ligado ao mercado consumidor e sua territorialidade. O acesso a banda larga, por exemplo, está concentrado no litoral brasileiro e nas regiões mais ricas do interior. Então, deixar a regulação ser feita pela iniciativa privada acaba gerando um grande número de pessoas sem acesso porque não é economicamente atrativo para as teles”, diz Malini.

Os ativistas da Nuvem, por exemplo, foram na contramão dessa lógica do mercado com a criação de redes como a de Fumaça. Esse projeto serviu também como um dos embriões da Coolab, iniciativa formada por pessoas que trabalham com tecnologia e redes livres e que está “começando agora este processo de apoiar comunidades a se conectarem com recursos e suporte, inspirados pelos princípios cooperativistas e com base na economia colaborativa”, como explicam coletivamente. “Além da metodologia aberta e colaborativa que capacita a própria comunidade a construir sua rede e fazer a manutenção, o modelo de trabalho da Coolab é também aberto e replicável.”

A Coolab cita que, além da Fumaça, os integrantes do coletivo também criaram redes comunitárias no Quilombo Kalungas (Goiás), uma rede de transmissão de dados digitais por ondas curtas na Amazônia, provedores comunitários em Campos (Rio de Janeiro) e implementaram uma rede autônoma na Casa dos Meninos (São Paulo). Mas essas ações, por mais replicáveis e abertas que sejam, são trabalho de formiguinha perto da (ainda) grande lacuna do país em termos de acessibilidade.  


E a iniciativa privada? Um exemplo no Nordeste diz muito sobre como uma aguçada percepção de potencialidades regionais pode transformar acesso em lucro. Fundada em 1998, a Brisanet é a realização do sonho de um empreendedor local, José Roberto Nogueira, que saiu de sua terra natal (Pereiro, interior do Ceará) para trabalhar instalando painéis de aviões na Embraer. Curioso e inquieto, Nogueira sempre quis voltar para resolver problemas de sua região e gerar negócios, e com o dinheiro de uma loja de informática que montou em São José dos Campos começou a construir antenas de rádio. Salto no tempo para 2010, quando Nogueira, já de volta ao berço, viu sua Brisanet se tornar a maior operadora de internet a rádio do Brasil, com 30 mil clientes em 150 cidades nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Nos últimos anos, a transmissão por rádio vem sendo substituída pela fibra ótica, mais segura e rápida, e a Brisanet agora tem planos de, até o fim do ano, chegar a Pernambuco, atingindo assim um total de 230 cidades no semi-árido nordestino. Nogueira, que fez curso de eletrônica por correspondência no início dos anos 1980, sabia desde sempre que sua terra possuía muita gente curiosa e inquieta como ele, mas que sem acesso a conhecimento e a ferramentas não via seu talento florescer. Oferecer todas essas oportunidades, via internet, é estimular negócios, criatividade, produção, sonhos. E isso dá retorno (atualmente, a Brisanet emprega cerca de 1300 pessoas).

Empresas pequenas e médias como a Brisanet são responsáveis por quase 50% dos atendimentos de banda larga no Brasil, de acordo com o Clube de Engenharia. Mas segundo elas próprias, o Governo Federal poderia estimular mais esses negócios e, consequentemente, melhorar a acessibilidade em regiões fora dos eixos. “(Poderia) facilitar e baratear o uso das infraestruturas já existentes, como os postes de utilização da faixa de domínio das rodovias federais e estaduais; criar linhas de financiamento especificas ou incentivos fiscais para pequenas e médias operadoras em regiões mais remotas, pois são elas que estão fazendo esse processo de inclusão digital”, afirma Jordão Estevam, diretor comercial e sócio da Brisanet.

Enquanto isso, no Senado Federal, tramita um projeto de lei (PLS 431/2014), que “permite que Governo Federal assuma a instalação e a operação da banda larga nas regiões mais remotas ou menos desenvolvidas, onde o serviço não é rentável para as empresas privadas”. O dinheiro para custear tamanha empreitada viria do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), mas não existe nenhuma previsão de quando isso se tornará realidade.

Outra ação federal é o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação Estratégicas (SGDC) que deveria ter sido lançado em março para ajudar a expandir o acesso à internet banda larga no país, “especialmente em regiões mais carentes em infraestrutura”. Dividido em duas bandas, uma exclusiva das Forças Armadas e outra para comunicação, o satélite tem sofrido críticas tanto de ativistas digitais quanto de pequenos e médios empresários, pois suas regras de utilização mudaram recentemente quando a banda de comunicação foi dividida em quatro lotes, sendo que três (79%) seriam controlados por grandes da iniciativa privada. Em poucas palavras, sobraria pouco para o serviço público e os pequenos e médios fornecedores não teriam espaço para competir. 

Mas afinal, internet é um privilégio ou um direito? Na teoria, um direito. Na prática, um privilégio para cerca de 70 milhões de brasileiros. No entanto, o caráter aberto da internet , esse “mecanismo de desentermediação do mundo” (nas palavras do professor Fábio Malini), talvez seja justamente o melhor jeito de compartilhar conhecimento, derrubando assim privilégios e garantindo direitos. Os moradores de Fumaça já perceberam isso.

domingo, 11 de dezembro de 2016

50 + 50 discos brasileiros de 2016

já rolaram spoilers de alguns dos melhores discos brasileiros do ano na lista de músicas, então começo a falar desses destaques pessoais dentro da lista de 50 discos. trabalhos poderosos como o segundo do BaianaSystem [Duas Cidades] e o terceiro do Metá Metá [MM3], cheios de raivas e balanços, dubs e punks, música negra brasileira da maior qualidade. ou então os tropicalismos femininos de Céu [Tropix] e Iara Rennó [o duplo Arco e Flecha], docemente antropofágicas.  ou ainda a espiritualidade barroca e periférica do rapper Síntese [Trilha Para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: Amem].

BaianaSystem e Metá Metá

mas talvez os discos mais completamente bonitos de 2016 sejam, infelizmente e/ou surpreendentemente, póstumos. Sabotage é uma sequência de porradas habilmente costuradas durante muitos anos pelo produtor Daniel Ganjaman [e seus parceiros do Instituto] sobre gravações inacabadas deixadas pelo rapper paulistano morto em 2003. é impressionante, quase assustador, a constante atualidade de Sabotage, suas letras, seu som e, acima de tudo, seu fraseado [flow]. o outro póstumo é Ascensão, de Serena Assumpção [a filha mais velha de Itamar morreu em março deste ano, aos 39 anos], um belíssimo “mapeamento” musical das divindades do candomblé.  nesses dois discos profundamente afrobrasileiros, muitos convidados – um belo punhado do melhor da atual música popular – homenageiam dois artistas que foram embora cedo demais.

Sabota e Serena #DEP

mais minas – entre estes 50 discos, outras mulheres deram suas caras. podem ser mais políticas como Aíla [Em Cada Verso Um Contra Ataque, disco bonito com produção de Lucas Santtana], Lay [199129], Ju Dorotea [Sincronia] e MC Carol [Bandida]. podem também ser mais afetivas como Dona Onete [Banzeiro], Héloa [Eu], Kika [Navegante], Luisa Maita [O Fio da Memória] e Mahmundi [Mahmundi]. ou podem ficar no meio desses caminhos como Tássia Reis [Outra Esfera]. todas muito no controle de suas vontades, sonoridades e falas.

mais manos – o rap já apareceu aqui com Sabotage, Síntese, Lay, Ju Dorotea, MC Carol e Tássia Reis, mas tem muito mais versos rimados entre os 50 melhores discos de 2016. tem a atualização do primeiro disco de Criolo [Ainda Há Tempo], o segundo solo de Dexter [Flor de Lôtus] e o primeiro solo de Mano Brown [e mesmo que Boogie Naipe seja um tanto quanto longo e irregular é também muito interessante por mostrar outras facetas do maior rapper brasileiro de todos os tempos]. tem ainda a juventude de Rico Dalasam [Orgunga], Jamés Ventura [Jahbless Ventura], Nego E [Oceano], Rael [Coisas do Meu Imaginário], Rashid [A Coragem da Luz], do coletivo D.D.H [Direto do Hospício] e de MC Guimê [Sou Filho da Lua].

cantautores – em tempos passados, a turma seguinte seria rotulada como mpb, mas sabemos que ‘mpb is no more’ [ou é limitada demais para descrever o que é feito nos últimos tempos, mesmo por veteranos]. tem samba sujo paulistano via Douglas Germano [Golpe de Vista], ópera rock caipira de Meno [Barriga de 7 Janta], as psicodelias folk de Tatá Aeroplano [Step Psicodélico] e Gustavo Galo [Sol], as digressões do mestre Tom Zé [Canções Eróticas de Ninar], a primeira experiência de intérprete do Romulo Fróes [Rei Vadio é sobre Nelson Cavaquinho], o rock pós-brega de Bruno Souto [Forte], os afoxés pops de Wado [Ivete], as pesquisas amazônico-caribenhas de Félix Robatto [Belemgue Banger], o indie solar de Beto Méjia [Kaningawa], a poesia paulistana de Felipe Antunes [Lâmina], os pontos de bossa de Álvaro Lancellotti [Canto de Marajó] e surpreendente estreia de Fióti [Gente Bonita] com um disco pop de sambas, balanço, djavaneios e reggae.

grupos, bandas e vice-versa – se BaianaSystem e Metá Metá encabeçam a lista com seus trabalhos coletivos, outras formações seguem mostrando que não vieram a passeio:  o trio O Terno ganhou metais em seu terceiro disco, Melhor Do Que Parece, e amadureceu sua mistura de vanguarda paulistana com Beach Boys; o brega caribenho da Academia da Berlinda [Nada Sem Ela] é diversão garantida para todas as estações; o carnaval paulistano de rua também é fortemente autoral com A Espetacular Charanga do França [O Último Carnaval de Nossas Vidas]; a Abayomy Afrobeat Orquestra cria novas pontes entre África e Brasil em Abra Sua Cabeça; e Saulo Duarte e A Unidade [Cine Ruptura, produção de Curumin] mergulha em desesperos e esperanças em disco cheio de misturas.

instrumentais – nessa grande lista tem espaço também pra longa tradição do instrumental brasileiro, tanto com o inquieto veterano João Donato [Donato Elétrico] quanto com o jovem estudioso Vitor Araújo [Levaguiã Terê], mas também no encontro de gerações/escolas de Paulo Santos [ex-Uakti] com a banda Hurtmold [Curado], na segunda aula de história e música da Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz [A Saga da Travessia] e no retorno grandioso de Arthur Verocai [No Voo do Urubu possui algumas faixas cantadas e que interessante que nelas participem, por exemplo, Mano Brown e Criolo].

p.s.: vale mencionar que Daniel Ganjaman segue como um dos melhores produtores da atualidade e desses 50 discos de 2016, 5 tem dedos dele [BaianaSystem, Sabotage, Síntese, Criolo e Rael].


sem mais, os 50 discos brasileiros de 2016 segundo o gosto da casa.

A Espetacular Charanga do França - O Último Carnaval de Nossas Vidas
Abayomy Afrobeat Orquestra - Abra Sua Cabeça
Academia da Berlinda - Nada Sem Ela
Álvaro Lancellotti - Canto de Marajó
Arthur Verocai - No Voo do Urubu
BaianaSystem - Duas Cidades
Beto Méjia - Wahyoob
Bruno Souto - Forte
Céu - Tropix
Criolo - Ainda Há Tempo
D.D.H. - Direto do Hospício EP
Dexter - Flor de Lótus
Dona Onete - Banzeiro
Douglas Germano - Golpe de Vista
Felipe Antunes - Lâmina
Felix Robatto - Belemgue Banguer
Fióti - Gente Bonita EP
Gustavo Galo - Sol
Héloa - Eu
Hurtmold & Paulo Santos - Curado
Iara Rennó - Arco & Flecha
Jamés Ventura - Jahbless Ventura
João Donato - Donato Elétrico
Ju Dorotea - Sincronia EP
Kika - Navegante
Lay - 129129 EP
Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz - A Saga da Travessia
Luisa Maita - O Fio da Memória
Mahmundi - Mahmundi
Mano Brown - Boogie Naipe
MC Carol - Bandida
MC Guimê - Sou Filho da Lua
Metá Metá - MM3
Nego E - Oceano
Rashid - A Coragem da Luz
Rico Dalasam - Orgunga
Romulo Fróes - Rei Vadio
Sabotage - Sabotage
Saulo Duarte e A Unidade - Cine Ruptura
Serena Assumpção - Ascensão
Tássia Reis - Outra Esfera
Tatá Aeroplano - Step Psicodélico
Vitor Araújo - Levaguiã Terê
Wado - Ivete

e seguem mais 50 discos muito relevantes deste 2016.

Anna Tréa - Clareia
Arielly Oliveira - Negra Soul
Brisa Flow - Newen
Carne Doce - Princesa
Chave Mestra - Coração no Gelo EP
Clínica Geral - Clínica Geral EP
Côro Mc - Vem Desse Naipe EP
Coutto Orchestra - Voga
Dante Ozzetti - Amazônia Órbita
DeFalla - Monstro
Don Pixote - Don Pixote
Edvaldo Santana - Só Vou Chegar Mais Tarde
Esdras Nogueira - Na Barriguda
Família de Rua - Ontem, Hoje e Sempre
Flow MC - Versátil
francisco, el hombre - Soltasbruxa
Guri Assis Brasil - Ressaca
Ijexá Funk Afrobeat - Ifá
Jonathan Tadeu - Queda Livre
Jonnata Doll & Os Garotos Solventes - Crocodilo
Juliana Perdigão - Ó
Juliano Gauche - Nas Estâncias de Dyzan
Laya - Laya
Lestics - Torto
Liniker e Os Caramelows - Remonta
Lucas Vasconcellos - Silenciosamente
Lulina - Na Moita
Lurdez da Luz & PParalelo - Bem Vinda EP
Matéria Prima - Pocas EP
Paula Cavalciuk - Morte  & Vida
Projeto Nave - Remix vols. 1 e 2
Romulo Fróes & Cesar Lacerda - O Meu Nome é Qualquer Um
Serge Erege - Scorpio
Strobo - Strobo 4
The Baggios - Brutown
Thiago Elniño - Filho de um Deus Que Dança EP