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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

onfalofobia, a reportagem

mais uma reportagem daora que fiz pra revista trip e dessa vez a pauta veio aqui de casa, com inspiração e ajuda da minha mulher, carolina. é que desde que estamos juntos fui proibido de vir com saliências pro umbigo da moça. então quando o renan fagundes, lá da trip, me contou desse tema 'umbigo' pra edição de novembro, lembrei logo dessa aflição de carolina, que me ajudou a fazer as perguntas e deu o norte para o tipo de abordagem do texto. depois fui no twitter e, surpreendentemente, em menos de uma hora consegui quatro fontes-fóbicas. e o resultado está aqui [como sempre, essa é a versão maior do texto que está nas páginas da revista].

agradecimentos especiais a bia lins, clara souza, daiana de souza e danilo moura que mostraram - pela primeira vez e em público - questões muito íntimas [as íntegras de suas entrevistas estão aqui]. outros agradecimentos à psicóloga paula bonilha e aos psicanalistas arnaldo dominguez e marilucia melo meireles que me ajudaram a entender isso tudo. e, acima de tudo, ao amore carolina, que tem um umbigo lindo [mesmo que ela não acredite].

umbigo, umbigo meu

O MEDO DO UMBIGO DIANTE DO COTONETE

Uma das imagens mais icônicas criadas pelo fetichismo cinematográfico de cinquenta tons de nove semanas e meia de amor é a do cubo de gelo dando voltas ao redor do umbigo, um filete de água gelada escorrendo para dentro dele e, por isso, uma mulher mordendo os lábios de prazer. Mas o que é sexy pra uns é motivo de agonia extrema, quase horror de sexta feira treze, para quem sofre de onfalofobia, o medo aflitivo de umbigos [onfalo é umbigo em grego, e fobia é fobia em qualquer lugar].

“A primeira recordação que tenho de mal estar é minha mãe brincando comigo, tinha uns dois anos, e ela fazia cócegas lá e eu chorava porque doía. Reconheci assim a existência do umbigo e que ele dói. Ainda hoje é como se fosse uma ferida em recuperação, mas ainda muito sensível”, explicou Bia Lins, arquiteta de Curitiba. 

Outras conexões com a mãe, o nascimento ou a primeira infância também são feitas por Daiana de Souza: “Minha mãe sempre ficou intrigada com essa sensação ruim, de agonia, que tenho. Porque veio já na minha infância. Pensei em fazer regressão, porque nada me tira da cabeça que é lance do começo de tudo, lá do meu nascimento, da hora do parto ou de dias depois [ou até da gravidez da minha mãe]”, disse a jornalista gaúcha de Campo Bom, região metropolitana de Porto Alegre.

Lembranças parecidas tem Carolina Toledo, analista de pesquisa de mercado em São Paulo, que diz que “não sei se minha mãe tentava limpar com cotonete quando eu era pequena. Mas a minha aflição não é uma coisa de olhar, foi sempre de tocar ou ser tocada. Dá uma sensação de enjoo, vontade de vomitar. É como se eu ficasse muito vulnerável, sabe? Parece uma invasão, dá sensação de fragilidade. E tem uma dorzinha física também.”

Mineira de Manhuaçu, Clara Souza também se sente vulnerável. “Tenho há muito tempo, não lembro quando começou. Talvez tenha desde sempre. Sinto uma coisa terrível quando alguém toca no meu umbigo. Não é cócega, não é tesão. É uma sensação de invasão, chega a me dar falta de ar”, recorda a fotógrafa que mora e trabalha em Salvador.

primeira dupla da matéria na trip

Não existem dados, estudos ou estimativas sobre onfalofóbicos no Brasil, e muito menos especialistas, grupos de apoio ou páginas no Facebook. É cada um por si, e cada um sem saber da existência de outros. “Quem sofre de onfalofobia acha que é mais uma aflição, o que sugere um nível de ansiedade menor, do que uma fobia. Mas ela é, verdadeiramente, uma fobia, afinal essas pessoas não conseguem fugir do medo. No entanto, como estão em contato com os umbigos diariamente acabam desenvolvendo recursos cognitivos pra lidar com aquela situação. Acaba sendo uma fobia mais branda. Não é paralisante, ou algo que comprometa o dia a dia, e talvez por isso não apareça em consultório”, explica a psicóloga comportamental Paula Bonilha, que tratou uma podofobia [medo dos pés], mas ainda não se deparou com fóbicos de umbigo.

Bia, Carolina, Clara e Daiana tem aflição do próprio e, principalmente, de mexerem nele. Com Danilo Moura a questão é mais externa. “Tenho problemas com esses umbigos para fora. É horrível, me dá agonia, uma sensação estranha. É como se algo estivesse fora do lugar, mas de um jeito grotesco. Sinto o meu antebraço repuxando, os pelos ficam eriçados, uma aflição. Não é nada bom”, disse o assistente de importação em Diadema.

Será coincidência que as quatro mulheres onfalofóbicas ouvidas para esta reportagem tenham questões com o próprio umbigo e justamente o único homem tenha com o dos outros? “Mulheres geralmente têm mais fobias físicas que os homens. Primeiro porque, numa sociedade machista, é menos permitido ao homem sentir medo. Mas acima de tudo tem a questão da relação da mulher com seu próprio corpo, do tabu de certas partes, da maior ou menor exposição das mesmas, de pudor”, opina a psicóloga.

Mas quem vive isso íntima e solitariamente durante tantos anos – e a agonia só piorou com o passar do tempo –, tal questão de gênero é a menos importante. Daiana teve uma época de pesadelos recorrentes com alguém afundando o dedo em seu umbigo. Faz tempo que não os tem. Bia só dorme de bruços, pois tem uma sensação boa de proteção. Quando vira de barriga pra cima cobre o umbigo com as mãos e sempre evita dormir de lado. Danilo busca não olhar pessoas na praia ou piscina para não ser surpreendido por “umbigos pra fora”. Clara tem horror aos umbigos estufados das grávidas, mas precisa encará-los na pós-produção dos retratos que tira.

A gravidez, aliás, é uma grande questão para as onfalofóbicas. Clara não quer ter filhos e Bia, que nunca passou por uma gravidez, acredita que teria problemas ao mexer no umbigo de um bêbe. Daiana não conseguia limpar o umbigo de sua recém-nascida e o marido é que dava conta da tarefa. Hoje, um ano depois de dar à luz, ela consegue limpar, mesmo com alguma agonia. “O que pra mim é uma conquista e tanto”, comemora.

Carolina, que está grávida, não quer nem pensar no próprio umbigo nos próximos meses e também passou para o marido a responsabilidade de limpar o da futura filha nas primeiras semanas. E complementa: “Tenho aflição também com cordão umbilical, e já tinha isso antes de ficar grávida. É como se a qualquer momento o bebê pudesse me puxar pelo cordão, dar um tranco e doer meu umbigo”. Mas mesmo com toda essa aflição, Carolina prometeu enfrentar todos os umbigos do mundo por sua Tereza.

Daiana encarou seu medo, anos atrás, de outra forma. “Resolvi colocar piercing pra tentar boicotar esse troço chato. Pensei: vou colocar um pendurico porque aí quero ver ter essas frescuras. Foi horrível. O negócio inflamou e minha própria pele expeliu o adorno. Até hoje tenho uma cicatriz ali que se potencializou, inclusive, quando engravidei. E detalhe: a linea nigra, comum em gestantes, acentuou justamente quem? Ele, o umbigo”, e dá uma risada, sinal que a aflição anda perdendo terreno para o bom humor.

segunda e última dupla da matéria na trip

Ninguém ouvido por essa reportagem cogitou buscar tratamento. Muito pelo contrário. “Vi na internet que se você estiver perto de alguma pessoa que te incomoda, o tal ‘sugador de energias’, seria indicado tapar o umbigo pra aliviar. Adotei o procedimento, pego fita crepe e lacro todo umbigo. E por incrível que pareça, alivia. Enfim, é um mal estar tão interiorizado que a gente não vê como um problema ou defeito, mas como uma característica pessoal”, e foi assim que Bia conseguiu momentos de tranquilidade.

Se quiserem, onfalofóbicos podem buscar ajuda profissional. “A função da fobia é a de proteger o sujeito da aproximação do desejo [do outro] e seu tratamento se dá, na psicanálise, pela via da transferência. Como a questão da fobia é muito colada no real, para que haja alguma eficácia simbólica exige-se do analista um ato. E a maioria dos analistas sofre de ‘horror’ do ato”, explicou Arnaldo Dominguez de Oliveira, psicanalista e fundador da Associação Etcétera e tal.

Já a terapia comportamental, muito mais pragmática, não possui essa aversão “ao ato” para o tratamento de fobias. “A gente ajuda o indivíduo a enfrentar aquela situação fóbica de uma forma gradativa e sistemática através de pensamentos cognitivos mais positivos. É uma técnica chamada dessensibilização sistemática. Mas, como a psicanálise, também acreditamos que fobia não precisa de medicação, é só terapia mesmo. Medicação só é necessária se a fobia estiver acompanhada de algum quadro depressivo”, afirmou Paula Bonilha.

Sem nunca antes terem falado conscientemente sobre suas fobias, Bia, Carolina, Clara, Daiana e Danilo até acham interessante a ideia de terapia, mas acreditam também que não é pra tanto. Só o fato de terem verbalizado a um completo estranho e saberem que não estão a sós “nessa maluquice” serviu como substituto gratuito para qualquer tratamento; pelo menos, por ora. Também ajuda terem parceiros(as) compreensivos(as). O resto dá-se um jeito.

E, afinal de contas, se pudessem escolher entre ter ou não ter umbigo? O que seria? ‘Ter’ foi a resposta unânime e enfática. “Mas preferia um que não me desse tanto o que falar. Ou melhor: queria descobrir o porquê disso tudo pra poder fazer as pazes com o meu”, resumiu uma Daiana esperançosa de, finalmente, curar essa cicatriz.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

"my soul is black, meu sangue é quente"

show lindo, poderoso, político, afetivo, cheio de emoções e distorções esse 'a mulher do fim do mundo' da grande gigante elza soares. ela ali no alto de seu trono, frágil e poderosa, entra com tudo nas músicas do disco, algumas difíceis ("benedita", celso sim e pepê mata machado, com participação de celso) ou épicas ("o canal", rodrigo campos), rasgadas ("dança", cacá machado e romulo fróes) ou das ruas ("firmeza?!, rodrigo campos), sambas punk ("pra fuder", kiko dinucci) ou apocalípticas ("luz vermelha", kiko dinucci e clima), espelhos ("a mulher do fim do mundo", romulo fróes e alice coutinho) ou conscientes ("maria da vila matilde", douglas germano). e assim vai, voz tinindo.



e acompanhada de uma puta banda (guilherme kastrup, rodrigo campos, rafa barreto, marcelo cabral e da lua com metais e sopros do bixiga 70 e quarteto de cordas) e uns arranjos tão fiéis ao disco, um dos grandes desse ano, quanto potentes ao vivo. tudo também muito paulistano, tirando beleza e urgência de sujeiras e distorções.

além das músicas inéditas, quatro de seu passado: a já clássica "a carne" (seu jorge, marcelo yuka e ulisses cappelletti), uma arrepiante "malandro" (jorge aragão) e, nos bis, "volta por cima" (paulo vanzolini) e "pressentimento" (elton medeiros).

ela disse, do alto de seus 78 anos, que queria um disco com sexo e negritude. não só conseguiu, em disco e no show, como foi além mostrando que a atual fragilidade física não é páreo pra sua energia inquieta de artista mulher negra.



e foi lindo vê-la feliz sendo aplaudida de pé em vários momentos e amada de muitas formas em um show absolutamente arrebatador, de abrir sorrisos e chorar repetidas vezes (eu chorei pelo menos duas vezes, carolina outras tantas), de pensar e se incomodar, de se enroscar e ser repelido(a). foi um show tipo viver mesmo, no que tem de mais lindo e perturbador. elza soares da vida, diria itamar assumpção. e que bom, que importante, que a gente tenha percebido que temos muita sorte de ter e ser elza.



p.s.: acho, só acho, que teria sido muito foda ela cantar "elza soares" do itamar assumpção.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

mel tormé, algumas moças e um par de motocas



curioso. não tinha lembrança alguma da trilha do filme educação (2009), de lone scherfig, e ela é bem boa. dela saiu essa "comin' home baby!" (bob dorough e ben tucker), suingue blueseiro da pesada que foi sucesso na voz de mel tormé (1925-1999) em 1962. mas esse video sensacional, tirado do "the judy garland show", é de algum lugar entre setembro de 1963 e março de 1964. quem me mostrou essa música foi carolina, que ouviu no blog do estúdio glória, uma loja de móveis garimpados e restaurados aqui em são paulo.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

letra/música #23

ontem a noite, durante a exibição do terceiro programa da série grêmio recreativo arnaldo antunes, pude ouvir uma canção até então inédita pra mim. antes de ser tocada, tulipa ruiz, uma das autoras, disse para arnaldo que era inédita em disco, mas ela e marcelo jeneci, o outro autor, já tinham mostrado em shows. a música começou, dueto de tulipa e jeneci, e foi me pegando de jeito... estávamos em casa eu e carolina e "dia a dia, lado a lado" nos deixou em silêncio, arrebatados, arrepiados... e o final, quando a herança de roberto carlos se mostra mais uma vez determinante na sonoridade de jeneci, deixa bem claro que um novo clássico acabou de nascer.



dia a dia, lado a lado
(tulipa ruiz, marcelo jeneci e gustavo ruiz)

eu sonhei que estava exatamente aqui, olhando pra você
olhando pra você exatamente aqui
'cê não sabe, mas eu tava exatamente aqui, olhando pra você
'cê não sabe, mas eu tava exatamente aqui
pronto para despertar
perto mesmo de explodir
parto para não voltar
tanto para acordar
pronto para estancar
tonto de tanto te ver
perto mesmo de explodir
prestes a saber porque

por que um raio cai?
por que o sol se vai?
se a nuvem vem também
por que você não vem?

eu sonhei que estava exatamente aqui, olhando pra você
olhando pra você exatamente aqui
'cê não sabe, mas eu tava exatamente aqui, olhando pra você
olhando pra você exatamente aqui
pronto para despertar
perto mesmo de explodir
parto para não voltar
pronto para estancar
tanto para acordar
tonto de tanto te ver
perto mesmo de explodir
prestes a saber porque

por que um raio cai?
por que o sol se vai?
se a nuvem vem também
por que você não vem?

por que? por que um raio cai?
por que o sol se vai?
se a nuvem vem também
por que você não vem?

nada haver ficar assim sonhando separado
se no fundo a gente quer o dia a dia, lado a lado
eu não vou deixar você com esse medo de se aproximar
pra ter um fim toda história um dia tem que começar
então me diz por que? por que que um raio cai?
por que que o sol se vai?
se não é pra gente perceber que um milagre assim se faz
por que o sol se vai?

é natural que seja assim
você aí e eu aqui
exatamente aqui

terça-feira, 8 de março de 2011

você, mulher você

dia das mulheres, terça de carnaval e ricardo magrão soltou em seu canal no soundcloud uma mixtape da pesada só com vozes femininas (internacionais e nacionais). é coisa muito fina que dá para ouvir em streaming ou então baixar para soltar em algum bailinho caseiro. sons que dedico a mulheres da minha vida: carolina (amore), celinha (mamma, que fez aniversário no sábado) e ariadne (mana e mãe pela segunda vez), além das amigas reais e virtuais.

PowerTuffGals by Ricardo Magrão

e aqui segue a lista das músicas/artistas presentes na mixtape.

"it's a pity (remix)", tanya stephens
"original", sister nancy & thievery corporation
"moonlight lover", rankin ann
"change your stylee", sister carol
"good daughter", lady g
"ready fi dem", june ranks
"u don't get it", tanya stephens
"raggamuffin style", soraia drummond
"nuff respect", lady g
"bed noise", lady saw
"party tonight", tanya stephens
"jardim de flores", soraia drummond
"master bait", sister carol
"uptown top rankin", estelle & joni rewind
"ready or not (remix)", fugees
"bailar", soraia drummond
"too experienced", ms dynamite & barrington levy
"things change", warrior queen & heatwave
"regular", miss thing
"vento sopra", shirley casaverde
"blud and mia", m.i.a.
"nya me down", junie ranks
"step back", sista widey


p.s.: o título desse post é o nome de uma música de ivan lins em parceria com ronaldo monteiro de souza que foi gravada originalmente em 1971 com o acompanhamento luxuoso e suingante do trio mocotó. aposto que você nunca imaginou que ivan lins já gravou um samba rock e com um refrão tão libertário e feminista: "não está longe a sua independência / vida crua pede providência / mas me lembra uma escravidão / peça abolição!".

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

de volta (quase)

amsterdam

berlin

londres

paris (só o aeroporto mesmo)

e agora, acelerando devagarzinho de volta ao(s) batente(s) e feliz com uma viagem bem da boa. beijo grande pra carolina, minha companheira dessas e de outras cidades.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

ser nordestino é...

justo agora que acabei de vir de um bate-volta de menos de dois dias na terrinha fortaleza (e levei a paulistana carolina, que não conhecia, a tiracolo). justo agora aparece esse video ótimo, direto, com vários não-nordestinos (estrangeiros e nacionais) tentando definir o que é ou como é um nordestino. é de autoria de márcio acselrad (que mora em fortaleza segundo informação em seu twitter meio paradão) e foi dica de @santoisaac.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

nego dito forévis!
ou transversão #37
ou letra/música #19

essa é caixa preta, senhoras e senhores, a ansiosamente aguardada caixa preta de itamar assumpção (selo sesc sp, 2010). pra mim é o lançamento do ano, sem sombra de dúvida. não só porque reúne em nova edição todos os discos de itamar assumpção como solta ao mundo o desfecho da trilogia pretobrás (volumes 2 e 3). nascido em 1949 e morto precocemente em 2003, o paulista-paulistano ainda não teve sua obra devidamente reconhecida dentro do tal cânone da música popular brasileira. itamar ainda é prazer de poucos, ainda é "maldito", o que é coisa das mais injustas levando-se em conta o humor, a invenção e seu afiado e surpreendente sentido pop. essa caixa precisa se espalhar - talvez não fisicamente porque o preço pode assustar (150 paus, mas são 12 discos, e no site do sesc sai por 120 reais) -, porque a música do nego dito serve pra tudo, é como a vida. saudade.

quem ganha mais é quem ouve, porque itamar já é, pode acreditar. e na caixa preta estão
beleléu leléu eu (1980), às próprias custas s.a. (1982, o único disco ao vivo de itamar e que vem com uma faixa inédita, uma versão de "não vou ficar" do tim maia), sampa midnight - isso não vai ficar assim (1983), intercontinental - quem diria? era só o que faltava!!! (1988), bicho de sete cabeças vols. 1, 2 e 3 (1993), ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora (1996), pretobrás - porque que eu não pensei nisso antes? (1998) e o já póstumo vasconcelos e assumpção - isso vai dar repercussão (2004). tudo lindo. mas são discos que já ouvi de trás para frente, inúmeras e inúmeras vezes. agora, os inéditos pretobrás II - maldito, vírgula (2010) e pretobrás III - devia ser proibido (2010) trazem uma porrada de novidades e convidados em suas 29 faixas, além do próprio itamar em registros caseiros de voz e violão posteriormente arranjados pelos produtores beto villares (pretobrás II) e paulinho lepetit (pretobrás III). separei aqui alguns destaques desses dois discos e já começo com um transversão.



"todo esse tempo" é o nome dessa música e depois de ouví-la com itamar agora é a vez da versão acelerada e totalmente atual de bnegão. as duas estão no volume dois do pretobrás.



ainda em pretobrás II aparecem outros convidados. seu jorge canta "o tempo todo" e tenho certeza que itamar ficaria orgulhoso da versão desse outro grande artista da música negra brasileira.



e para encerrar os destaques desse volume, elza soares cantando "elza soares", música feita por itamar em sua homenagem. de arrepiar versos como "desde que me entendo por gente / eu sambo, eu faço o que gosto / my soul is black, meu sangue é quente / eu quando gosto, me enrosco", ainda mais com a emoção de elza no final.




já no pretobrás III ouvi algumas músicas que achei que nunca iria possuir registro em disco (já tinha ouvido e vibrado em shows). a divertida "pirex", por exemplo, ótimo exemplo das brincadeiras de itamar com a nossa língua (e que nessa versão traz participação de naná vasconcelos).



outra que já tinha ouvido em shows é "devia ser proibido" (itamar assumpção e alice ruiz). música de rachar o coração feita em homenagem ao poeta paulo leminski (marido de alice e amigo/parceiro de itamar). a letra acabou caindo como uma luva para a ausência de itamar porque "devia ser proibido / uma saudade tão má / de uma pessoa tão boa". participação de zélia duncan, uma das mais aguerridas divulgadoras do nego dito.




e pra encerrar, letra e música de "que tal o impossível", doce, amorosa e lírica, que me lembrou carolina de cara (ela é muito fã de itamar, o que me dá um baita orgulho, porque fui eu que apresentei). cante junto e tente não se emocionar. tente não pensar nela/nele.

que tal o impossível
(itamar assumpção)

que tal se nós dois vivêssemos
do jeito que nós quiséssemos
sem nada que aborrecesse-nos
que tal se tudo tivéssemos

que tal se realizássemos
aquilo que nós sonhássemos
maçãs macias comêssemos
que tal se nós nos beijássemos

que tal se nós dois dormíssemos
olho no olho acordássemos
que tal se nós felicíssimos
que tal se nós dois voássemos

que tal se nós dois pudéssemos
aquilo que desejássemos
que tal se nós dois cantássemos
tocassemos e nós dois mesmos dançássemos

que tal se nós dois partíssemos
que tal se a sós ficássemos
que tal se ao máximo amássemos
que tal se no céu morássemos
que tal
que tal o impossível
que tal
que tal o impossível



foto de 1998, em casa de alzira espíndola, época da gravação do pretobrás; foi durante a única entrevista que fiz dele e que está lá no gafieiras

sábado, 10 de abril de 2010

transversão #32 + letra/música #14

tava aqui com carolina assistindo a um documentário nos extras do dvd o pirulito da ciência (ao vivo) (biscoito fino, 2010), e entre as muitas falas ótimas de tom zé apareceu um de seus poucos sucessos radiofônicos lá no ano de 1973, "se o caso é chorar" (tom zé e antônio "perna" fróes, do disco se o caso é chorar, lançado pela continental em 1972). carolina, que é grande fã do baiano, tinha esquecido dela e assim de bate-pronto a música entrou no seu rol de a-melhor-música-do-tom-zé-de-todos-os-tempos (junto com "qualquer bobagem", "augusta, angélica e consolação", "mã", "o amor é velho-menina" e "lua-gira-sol"; esqueci alguma, carolina?). aí fiquei pensando se tinha alguma regravação para fazer um transversão e fui lá no memória musical. a resposta foi: poucas. é curioso como tom zé não é muito regravado. talvez por suas músicas serem muito pessoais, e sua interpretação invariavelmente as eternizá-las; talvez porque as canções carregam um tanto de não-canções dentro delas, são estranhas, quebradas. enfim, tudo chute. certo mesmo é que "se o caso é chorar" foi regravada por um grupo chamado os caretas no mesmo ano que foi lançada (1972), pelo milton banana em 1973, pelo próprio tom zé em outras ocasiões ao vivo e por bete calligaris em 2002. e é isso. por enquanto, a original.



agora vamos com uma versão instrumental comandada pelo genial baterista milton banana no disco milton banana (odeon, 1973).

milton banana - se o caso é chorar by dafne47

dá pra ver aí como é daquelas canções que se sai muito bem tanto em letra quanto em música, mas não há como negar que a letra de "se o caso é chorar" é das melhores de sua lavra. confira.


se o caso é chorar
(tom zé e perna)

se o caso é chorar
te faço chorar
se o caso é sofrer
eu posso morrer de amor.

vestir toda minha dor
no seu traje mais azul
restando aos meus olhos
o dilema de rir ou chorar.

amor deixei sangrar meu peito
tanta dor, ninguém dá jeito.

amor deixei sangrar meu jeito
pra tanta dor
ninguém tem peito.
se o caso é chorar...

hoje quem paga sou eu
o remorso talvez
as estrelas do céu
também refletem na cama
de noite na lama
no fundo do copo
rever os amigos
me acompanha
o meu violão

o engraçado é que em um show de junho de 1990, e dividido com o violonista e compositor gereba (que saiu no disco independente cantando com a platéia), tom zé explica a letra dessa música, e que na verdade não tem nada de romântica (acho que não vou contar pra carolina essa parte). é uma brincadeira de colagem, um de seus processos preferidos de composição, e nesse balaio tem uma valsinha cantada por hebe camargo, chopin, tom jobim, antônio carlos & jocafi, erasmo carlos e rolling stones, entre outros. na agenda do samba & choro
tem a transcrição dessa explicação e aqui segue o áudio.

tom zé - se o caso é chorar 1990 by dafne47

p.s.: em novembro de 2009, dentro de uma série de shows idealizados por ronaldo evangelista, a doce lulina assinou mais um registro de "se o caso é chorar" (e tem foto do encontro de lulina e tom zé no twitpic do renato parada). segura.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

in a sentimental mood for carolina

falei aqui, poucos dias atrás, que em 22 de janeiro de 2000, eu e carolina nos beijamos pela primeira vez. já era alta-noite-madrugada quando os olhares trocados - nos conhecíamos desde 1997 - viraram outra coisa. na sequência, sem muito lero-lero porque paixão assim não acontece todo dia e nem dá pra segurar, veio o namoro, as descobertas e muitas outras coisas. alguns anos depois juntamos nossos trapinhos, casamos, e montamos nosso primeiro lar: um apartamento lindo e cheio de boas lembranças lá no baixo pinheiros, na rua joão elias saada. novas descobertas no convívio diário, novas delícias (rusgas, crises e brigas também, quem não as tem). mais um tempo se passou e nos mudamos para um outro apartamento que, desde janeiro de 2007, vem sendo decorado com novas e belas histórias nossas (ali na oscar freire, do lado de pinheiros). e assim, de casa em casa, dez anos se passaram. uma década ao lado de carolina, mulher linda, forte, bem humorada, esperta, companheira e com tantas outras qualidades que se for listar aqui vai parecer que estou mentindo. não estou. mas também não vou entregar o ouro, afinal ela é minha, sacumé. por isso, sobe o som.



taí uma música que é, sem sombra de dúvidas, a nossa música. é também a faixa que abre um dos melhores discos da história mundial do mundo: duke ellington & john coltrane (impulse, 1962). que essa música, e outras mais que virão, embale nossas próximas décadas de amor, conquistas e carinhos sem ter fim.

carolina, eu te amo!

sábado, 16 de janeiro de 2010

transversão #30

tem umas músicas que são tão presentes em tantos filmes, propagandas e tv (tantas versões foram feitas e ouvidas) que o seu autor parece o inconsciente coletivo. "sea of love" é uma dessas, pelo menos pra mim. acho que fiquei sabendo dela pela primeira vez quando assisti, no começo dos 1990, aquele bom policial com al pacino e ellen barkin, vítimas de uma paixão (sea of love, 1989). é música romântica, doce, que me faz lembrar de minha carolina - ela adora uma das versões que colocarei -, por isso, o tranversão #30 é dedicado a essa moça, amor que está ao meu lado já faz uma década (o primeiro beijo, dia 22 de janeiro de 2000).

claro que o nosso amor é só mais um banhado por essa canção escrita por phil phillips, musicada por george khoury e lançada em 1959. de lá pra cá já foi gravada por gente como the honeydrippers, robert plant, iggy pop, the heptones, marty wilde, marcia griffiths, horace andy, tom waits e aquele havaiano gigante, o israel kamakawiwo'ole (no filme do al pacino tocavam duas, a original de phil philips e a torta de tom waits). mas aqui escolhi outras duas. primeiro, a pouco conhecida versão dub de sonia higgs & familyman, registrada no compacto juvenile delinquent (clappers up, 1981). e 'familyman' é a banda de aston barrett, baixista do lendário the wailers. fiquei sabendo desse disco no inesgotável you & me on a jamboree (a "sea of love [dub]" está no lado b do disco e logo após, mas na mesma faixa, de uma versão reggae).



agora, a mais conhecida versão de cat power, do disco the covers record (matador, 2000), e que depois entrou na ótima trilha de juno (2007). essa é a melhor de todas, amorosa e doída na medida. carolina concorda. um beijo e o meu coração pra você. sempre.



p.s.: cat power vem mais uma vez ao brasil, agora em 22 de maio, para shows na virada cultural paulista (em jundiaí e são josé dos campos).

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

... e um 2010 totalmente excelente!

tô com carolina e família (incluindo meus pais que vieram de fortaleza) em algum lugar entre palmital e ibirarema, noroeste paulista. em algum lugar nada, estamos na fazenda santa olinda. depois de cinco dias na roça sem internet deu tempo pra pegar um resfriado, nadar muito na piscina gigante, ficar vermelho pimentão, comer bastante, brincar de rally na terra vermelha, dar uns tiros com uma espingarda de pressão, enfim, fazer coisas diferentes. já tô voltando pra lá. preciso antes passar no supermercado, comprar uns lances e tal. mas olha, que todos que passem por aqui tenham um ótimo reveillon...

essa foto foi tirada na santa olinda tem uns cinco anos; pena que esses cachorros não estão mais lá

terça-feira, 9 de junho de 2009

de coração

essa semana vai ser dose e já começou assim, toda movimentada, no fim de semana passado, com direito a fotos para o novo disco do grupo madeira de vento e uma visita ao butantã com os sobrinhos pedro e andré (os daqui, porque ainda tem joão pedro e iago). e a semana não terá feriado de corpus christi e nem nada parecido. é fechamento da edição de julho da monet.

correria, mano!


não deu nem pra subir a domingueira, pela primeira vez. não deu também para lembrar do "aniversário" de 4 meses do esforçado (é dia 7). 4 meses! um recém-nascido. mas, ao mesmo tempo, parece que tá comigo faz tempo. tem os números também... algo em torno de 3500 visitas e 5600 pageviews. visitas (em ordem decrescente) de portugal, eua, inglaterra, espanha, argentina, frança, bélgica, alemanha, paraguai, japão, suiça, cabo verde, itália, suécia, china, méxico, grécia, uruguai, angola, república tcheca, holanda, índia, bulgária, romênia e paquistão (os "estrangeiros" formam 6% dos visitantes). são números legais que me deixaram muito animado... porra, são apenas 4 meses!

só tenho a agradecer a todos os que passaram por aqui, os que linkaram o esforçado em seus blogs, aos amigos e amigas que deixam comentários, aos (ainda) desconhecidos e desconhecidas que também deixaram comentários, aos seguidores aqui, aos seguidores no twitter e a carolina que é minha ombudsman preferida.

domingo, 10 de maio de 2009

a mulher mais bonita do brasil em 2009

22h12. com mil diabos, perdi as primeiras imagens do miss brasil 2009. quando cheguei na sala as moças já sacudiam pra lá e pra cá ao som de sambas e xotes; aquele forrobodó no memorial da américa latina, em são paulo. todas no palco, umas vem para frente, outras vão para trás. mas são quantas mesmo? opa, perfilaram. entram as apresentadoras, misses de outros tempos, renata fan e nayla micheriff. a loura e a morena respondem a minha dúvida. 27. 27 meninas, com idades que variam de 18 a 25 anos.

bem, o tema desta edição do concurso é “riquezas brasileiras”. renata fala de capim dourado, rendas e pedras. nayla micheriff cita o ibge e lança ao mundo a existência de 8 milhões de artesãos no país sendo que não sei quantos por certo são mulheres. imagino que seja um número alto já que o dado foi citado e está acontecendo um concurso de beleza feminina. hora do primeiro clipe. é um pouco sobre a preparação das moças no dia e, principalmente, sobre as acomodações de luxe. “o hotel é lindo, tem uma estrutura linda”, vaticina a miss são paulo. pelo que deu pra entender, a preparação consistiu em maquiagem, pura e simples. intervalo.

maravilha. meu momento preferido, o desfile de trajes típicos. e carolina que não sai do computador lá no escritório. esta parte do concurso possui jurados próprios e são três: o carnavalesco da unidos da tijuca, uma designer de jóias e um estilista. o(a) autor(a) do traje mais original ganha um prêmio, mas não sei qual é, tinha ido na cozinha (é 5 mil, vi depois). carolinaaa. nada. vem daqui há pouco.

ABREM-SE AS CORTINAS - vamos então aos trajes típicos. acre vem como... uma jardineira? ah, é uma homenagem aos seringueiros, povo trabalhador. devia ter imaginado já que ela trazia em uma das mãos uma bandeirinha com o rosto de chico mendes. alagoas vem com fitinhas, toda folclórica. amapá vascilou um pouquinho na hora de dizer qual era seu estado, mas entrou bem no palco como um pássaro, de asas abertas. sendo mais preciso, é um beija flor. amazonas veio de deusa indígena neutra, nem caprichoso, nem garantido. a princício não entendi bahia, mas ajudou quando as apresentadoras disseram que era “uma exaltação às negras raízes da bahia”. ceará desceu a escadaria cheia de cajus, o ouro da terra. distrito federal veio trazendo uma plumagem espetada com as bandeiras de todos os estados. espírito santo é a rainha do café, enquanto goiás estava com um vestido que simbolizava a riqueza de seu solo. não entendi maranhão, mas saquei na hora que mato grosso estava de árvore pantaneira, com direito a um tucano no braço. mato grosso do sul parecia que tinha acabado de voltar de um safári, mas era mesmo uma vaqueira do pantanal. agora, minas gerais ousou. nada menos que uma nossa senhora com decotão. por mim, levava. mais folclore no pará como uma dançarina de carimbó, na paraíba toda junina, no paraná com a lenda da criação das cataratas do iguaçu, e em pernambuco com uma homenagem ao mestre vitalino (aliás, a primeira negra). também não deu pra entender o piauí, mas tinha a ver com o delta do parnaíba. rio de janeiro veio de carmen miranda e o rio grande do norte trouxe uma lenda e uns botos (ou golfinhos?). tome mais natureza na fauna e flora da amazônia de rondônia, nas riquezas de alguma serra de roraima e nas cebolas de santa catarina (a única loura do concurso). são paulo, a anfitriã do evento, valorizou sua capital fashion (e era também a segunda e última negra a participar desta edição). sergipe prestou loas a maria bonita e, por último, tocantins foi tomada pelo capim dourado.

olha, chuto como favoritas ao caneco (digo, à coroa), e sem nenhuma ordem específica, as misses ceará, minas gerais e rio grande do norte. pensamento interrompido pelas apresentadoras que anunciam: “e nesse clima tão nosso, tão brasileiro... jorge aragão!!!”, que vai de playback mesmo e manda ver em “disciplina”. ok, hora da verdade (sobre a fantasia). é minas gerais! é a religiosidade (com decotão) do nosso povo! intervalo. carolina chega e, agora, o miss brasil 2009 começa de verdade.

ave maria, minas gerais!

PEDRARIAS, BIQUINIS E DOIS OFURÔS FUMEGANTES - recomeçou. e carolina já coloca uma questão importante: “minas gerais está para o miss brasil como a venezuela está para o miss universo?”. suspense. será que leva? agora são roupas de gala e de roupas de gala eu não falo. muitas pedrarias e tal. e não transo swarowski. carolina logo aponta, e também aleatoriamente, para minas gerais, goiás, mato grosso, pará, distrito federal, paraíba e rio grande do norte. sim, ela tem dificuldade em fechar em poucas opções. logo derrubará goiás de sua lista. mas entra um novo clipe com alguns momentos de malhação, no tal hotel lindo, e um ida tímida à piscina. não tiram jamais as faixas, e muito menos os roupões. a diversão acaba em um ofurô. umas três ou quatro de cada vez. “ê, caldão de miss!”, dispara carolina.

uma nova hora da verdade: o desfile de biquínis. “julguem a plástica das meninas”, aconselha renata fan. a plástica, sei. e elas voltam a dançar, todas juntas, ao som de um pout pourri de jorge ben. é aquilo. 1, 2, 3, meia volta, chove chuva. abaixou. levanta, esse país tropical. e depois o desfile solo. carolina fica um pouco indignada com a miss roraima e dispara mais uma: “pelamordedeus, vá timbora!”. no mais, a miss rondônia tem um quê de carrie fisher (a princesa leia), a miss paraná tem olhos de alcione mazzeo, a miss rio grande do sul tem um nariz à la michael jackson e a miss piauí parece um oompa loompa, aqueles ajudantes coloridos do willy wonka. mais não falo. e lá vem outro clipe que flagra as moças dando um tapa no cabelo lá no salão do marco antônio de biaggi, um dos jurados. o clipe continua, mas muda de cenário. elas foram, sempre de faixa e sempre em fila indiana, até a casa da fazenda, no morumbi, para bater um rango e depois votar secretamente na missa simpatia. alguém sabe dizer se já houve uma miss simpatia que virou miss brasil ou mundo? sei que a pergunta é estranha, mas é que me veio, sei lá. ganhou pernambuco. pergunta que não quer calar: miss simpatia é sempre uma consolação? intervalo.

COMIDA PARA QUEM PRECISA OU ÉRAMOS 15 - renata e nayla mudam de figurino para apresentar um novo clipe com passeios das misses por são paulo. tudo começa com um café da manhã no próprio hotel. depois vão pra aquele restaurante mancini na rua avanhadava. com barriga cheia encaram uma espécie de terapia em grupo ou pelo menos algo parecido, afinal teve cena de gente chorando. aula de etiqueta também rolou. “passem credibilidade” e “é preciso valorizar o que se tem de melhor” foram algumas das frases ouvidas com atenção. aí elas se mandaram para o instituto brasileiro do câncer. cidadania dá fome e o ônibus do concurso as deixou no vento haragano. devem ter se acabado no rodízio porque o clipe foi encerrado com elas cantando em coro “extravasa”, aquela da claudia leitte. “pensam que vida de miss é sombra e água e fresca?”, questiona renata fan. jamais pensei isso. intervalo.

opa, agora na peneira só passarão 15 e o voto popular já garante minas gerais entre as finalistas. tambores anunciam, aleatoriamente sempre, que ainda ficam na disputa as misses rio de janeiro, são paulo, espírito santo, ceará, paraíba, rio grande do sul, pará, rio grande do norte, mato grosso do sul, bahia (jura?), goiás, santa catarina (jura mesmo?), paraná e distrito federal. para as restantes sobra um “vocês foram perfeitas” enquanto se comprimem em uma das saídas na parte superior do palco. vocês foram perfeitas e o ônibus tá esperando lá fora. pausa para os nossos comerciais.

as 15 que sobraram encaram a passarela de trajes casuais com apliques providenciados pela fátima rendas. minas gerais gosta de viajar e de estar próxima da natureza. rio de janeiro gosta de malhar e jogar tênis. são paulo adora malhar. espírito santo não gosta de nada (ou pelo menos foi o que renata fan achou porque não citou nada). ceará adora dançar. paraíba adora viajar. rio grande do sul tem como passatempo a patinação. pará gosta de caminhar, ouvir música e tem mania de ler antes de dormir. rio grande do norte gosta das praias do seu estado e não dispensa ficar em casa com a família. mato grosso do sul adora dançar. bahia gosta de andar a cavalo, sair com os amigos e viajar. goiás gosta de ir ao cinema. santa catarina passa suas horas livres lendo. paraná adora desfilar. distrito federal não dispensa um bom cineminha.

novo clipe. novos agitos na noite da capital. foram numa cantina no bixiga (disso a organização não pode ser acusada; as moças foram bem alimentadas). assistiram “a bela e a fera” na broadway paulistana. “é um espetáculo surpreendente”, afirmou miss paraná. depois mandaram uma pizza no piola, dançaram ritmos latinos no rey castro e encerraram a noite em outra cantina, agora no jardins. dormiram todos os dias de barriga cheia, enfim. “elas voltarão aos seus estados com muita história pra contar”, é novamente renata fan, que fez curso de dicção e gestual na escola bestshop tv.

MISS NÃO É SÓ BELEZA OU ÉRAMOS 10 - tensão. agora é de 15 pra 10 e as moças receberão a notícia de maiô. maiô da sweet cacau, claro esteja, bem como o biquíni. agora, acho um pouco cruel ser eliminada em rede nacional trajando um maiô, mas deixa pra lá. ficam então rio de janeiro, minas gerais, pará, ceará, rio grande do sul, rio grande do norte, santa catarina (“ação afirmativa pra loura é o fim da picada”, pensei), bahia (azarão total), distrito federal e paraná. em um novo clipe, as 10 restantes explicam porque desejam ser miss brasil. “ser miss abre portas para várias áreas como o jornalismo, que é a minha área”, afirma minas gerais. e taí uma verdade, abre mesmo.

desfile de maiô, minha gente. rio de janeiro gosta de pizza, mas evita. minas gerais gosta de esportes radicais como mergulho e rapel. pará gosta de ler e quer olhar para trás com a sensação de dever comprido. ceará tem como símbolo a escritora raquel de queiroz, a inteligência da mulher cearense. rio grande do sul diz que foi uma honra ter sido escolhida a miss de seu estado. rio grande do norte quer se realizar no lado profissional e no pessoal, e quer conhecer a grécia. santa catarina comenta que o povo catarinense é muito acolhedor. bahia chama a bahia de terrinha boa, de onde ninguém quer sair. distrito federal acredita que só chegou até aqui pela vontade de deus. paraná tem como símbolo sua mãe, que sempre lhe deu muita força.

Bem, recordar é viver e sobe ao palco a miss brasil 2008, natalia anderle. perguntam como foi a experiência e natalia não se faz de rogada. toma o microfone de renata fan e diz que “foi lindo. descobri que ser miss não é só beleza. tem que se preocupar com as causas, com as questões socioambientais... porque eu que sou green model...”, e o tempo pareceu congelar, o mundo girando e girando... green model!!! ok, intervalo.

ONDE AS FRACAS NÃO TEM VEZ OU ÉRAMOS 5 - de 10 pra 5 e ficam minas gerais, rio grande do norte, ceará, pará e distrito federal. boa seleção, até me surpreendeu. mas surpresa mesmo vem agora com as perguntas, a etapa que diferencia as meninas das mulheres. mas renata fan vai logo avisando que “aqui não é teste de inteligência, muito pelo contrário. é de comunicação”. beleza. combinado. quem merece ser aplaudido de pé, ceará? minha mãe, mulher guerreira, exemplo de mulher e cidadã. qual o homem ideal, minas gerais? o apaixonado. rio grande do norte ganha pontos ao chorar lembrando de um ensinamento de seu avô já falecido. um dia foi pedir emprestado dinheiro pro avô e ele perguntou se ela queria emprestado ou dado, afinal são coisas diferentes. “foi a consolidação da minha honestidade”, disse. não deu pra sacar o que uma coisa teve a ver com a outra, mas uma lágrima escorreu. pará acaba metendo os pés pelas mãos até dizer que ayrton senna faz falta. distrito federal agradece ao criador mais uma vez e afirma messianicamente que “foi deus que criou tudo isso aqui!!!”

o último clipe traz uma visita das misses ao palácio dos bandeirantes, residência do governador josé serra. são os momentos mais fortes da noite com serra de mão mole, olhar bobo e aquele incontornável sorriso amarelo e assustador. fotos e mais fotos. pode acabar logo, por favor?

E O OSCAR VAI PARA... - renata e nayla criam aquela atmosfera de suspense para dar nome aos bois. dá pra cortar o ar com uma faca de tão denso. e o quinto lugar vai para... ceará (que, no entanto, ganhou como melhor nome, khrisley karlen). o quarto lugar é do... pará. já o terceiro vai para o distrito federal. ficaram minas gerais e rio grande do norte. quem leva? deusdocéu, e agora? elas se olham, dão as mãos, riem e choram... a miss brasil 2009 é... a miss brasil 2009 é... rio grande do norte!!! “nossa, a minas gerais ficou muito puta dos infernos”, é carolina e seu olhar cirúrgico. pois é isso, nessa noite de glamour e beleza, a vencedora foi a potiguar larissa costa, formada em pedagogia e locada na secretaria de educação do estado. ganhou, entre outras coisas, um carro no valor de “quase 100 mil reais e com toda a documentação paga”, segundo nayla, e 200 mil reais em contratos (mas não falaram que tipo e nem com quem). e estará, claro, representando o brasil no miss universo que acontecerá em 23 de agosto nas bahamas. 1h10 da manhã. fim das nossas transmissões.


taí, a mulher mais bonita do brasil: larissa costa

sexta-feira, 3 de abril de 2009

surpresa!

carolina tem dessas coisas. é maria bethânia, paulinho da viola, tom zé, itamar assumpção, eduardo gudin e coisas boas e tal. e de repente, hora pra outra, me aparece com pauladas pop de outras veredas. só assim parei pra ouvir músicas que passariam batido no balaio do dia a dia. exemplos? "impressão digital" de pepeu gomes, "flor do reggae" de ivete sangalo e "ela chorou de amor" de gino & geno. a mais recente veio da novela paraíso, o remake que está no ar, e leva a assinatura da dupla victor & leo. deles só sabia que fazem sucesso pra cacete, são jovens, românticos e um tanto americanos como todos os neosertanejos (também tinha ouvido "tem que ser você" que tava na trilha a novela a favorita e me dava uma certa irritação). sei agora que são mineiros e que victor é o principal compositor e, geralmente, a segunda voz. não muito mais. agora, essa música "deus e eu no sertão" me pegou no contrapé: arranjo simples e bonito com violão e sanfona; vozes discretas; e uma nostalgia sincera. e, olha, se fosse cantada em inglês certeza que estaria em podcasts de folk indie. ou não?

atualização: por algum motivo desconhecido, o player com a música subiu no telhado. dá pra ouvir aqui.

segunda-feira, 23 de março de 2009

ô betz

nunca entrevistei maria bethânia. é uma daquelas "coisas pra se fazer antes de morrer", principalmente se for pro gafieiras. então, quando estreou na tv o documentário música é perfume, do suiço georges gachot (janeiro de 2008), fiz uma matéria pra monet e como bethânia não me deu moral (não ela, claro, mas sua assessoria) pensei em falar com algumas cantoras e ver qual era a influência da grande dama em suas carreiras. as gentis (e talentosas) alzira e, rita maria e fabiana cozza me atenderam e o texto saiu assim. ah, lembrei de bethânia porque marcus preto escreveu ontem na folha sobre um blog que compartilha gravações ao vivo da cantora que nunca saíram em disco. é o maria bethânia re(verso). e esse post é dedicado às adoradoras de betz que conheço. minha amada carolina e as amigas daniela, adriana, gabriela, cris e ludmila (que fez aniversário ontem, parabéns). esqueci alguém?

PERFUME DE BETHÂNIA

Bendita entre as cantoras, Maria Bethânia vem conseguindo manter, há pouco mais de 40 anos, uma das carreiras mais originais, coerentes e comercialmente bem sucedidas da história da música popular brasileira. Protagonista do documentário Música é Perfume, uma das estréias do mês no Canal Brasil, a intérprete baiana é mostrada em toda sua paixão e meticulosidade, tanto em shows e ensaios quanto em sua intimidade, tudo sob o olhar atento do cineasta Georges Gachot. Especialista em música erudita, o suíço se encantou com a forte presença de palco de Bethânia em um show no célebre Festival de Montreux. Mas isso é coisa mais que sabida pelo público brasileiro e por inúmeras gerações de cantoras nacionais que a tomaram como referência (mesmo porque não existem “seguidoras de Maria Bethânia”).

Alzira E, Rita Maria e Fabiana Cozza, cantoras de trajetórias e gerações diferentes, já sentiram essa força estranha que tomou o gringo pelos olhos e ouvidos. Cada uma a sua maneira. Mato grossense radicada em São Paulo, Alzira E (E de Espíndola), 50 anos, tem sete discos no currículo e canções gravadas por figuras como Ney Matogrosso e Zélia Duncan, boa parte delas feita em parceria com Itamar Assumpção. “Conheci Bethânia no final dos anos 1960, cantando ‘Carcará’, e ela me passou uma força tão grande com aquela voz e aquele sotaque. Foi quando me interessei por toda uma cultura musical nordestina que até então era muito distante pra mim”. Desde então, as músicas cantadas por Bethânia entraram de vez no repertório da ouvinte e fã. “Ela no palco é tão intensa e real, mas do seu repertório o que mais me acompanhou foi do disco Drama – Anjo Exterminado (1972). Todas ali são muito especiais pra mim”. E ela tem algum defeito, algum ponto fraco? “Só se for o meu, quando escuto
‘Anjo Exterminado’”, e dá uma risada.

Mais jovem e com apenas um disco lançado, Fora de Órbita (2005), a cantora e compositora Rita Maria, 33 anos, ouvia Bethânia em casa por influência dos pais. “Depois veio o programa Plunct Plact Zum, em 1984, com a canção
‘Brincar de Viver’. Mas a primeira audição consciente foi por volta dos 15 anos quando descobri o vinil de Recital na Boite Barroco (1968)”. Pouco mais tarde, quando começou a cantar, a paulistana sentiu as diferenças. “Mesmo não tendo a voz grave ou buscando no meu gesto vocal toda a teatralidade que ela traz, usei isso, a força da interpretação do texto, como uma referência pessoal, inclusive na hora de compor. Vejo o trabalho dela ser construído com muita coerência, tudo o que ela canta vem com a assinatura da intérprete, traz uma marca, uma cara, e transita por muitos repertórios”.

Já Fabiana Cozza, 31 anos, uma das mais elogiadas intérpretes de samba da atualidade e com dois discos na bagagem (o mais recente, Quando o Céu Clarear, acabou de ser lançado) declarou que “ouço Bethânia desde muito pequena. As primeiras canções de que tenho recordação são
‘Explode Coração’ e ‘Sangrando’, ambas do Gonzaguinha”. Hoje em dia, Cozza se espelha em Bethânia nessa busca da intérprete. “Ela fez uma escolha pelo caminho da intérprete, o que amplia a visão da arte dela e nos presenteia com essa grandeza. Costumo dizer que você pode ser uma ótima cantora ou uma intérprete do canto, um ótimo ator ou um intérprete do teatro. Bethânia é essa voz que pode se desdobrar no que quiser sobre o tablado porque tem o palco como espaço do sagrado”. Palavras delas ao som da Abelha Rainha.

e agora, uma pequena entrevista que fiz por e-mail com o diretor georges gachot.

MONET - Quais foram suas primeiras impressões ao ouvir Maria Bethânia? E o que te levou a decidir fazer um filme sobre ela?
GEORGES GACHOT - A primeira vez que ouvi Maria Bethânia foi em Montreux. Acho que em 1996. Foi também meu primeiro contato com a música brasileira. Nesta noite descobri uma fantástica artista que sabe como dividir sentimentos musicais com seu público. Fiquei impressionado por sua musicalidade pura, pela escolha de repertório e pelo modo como passa de uma música para outra. O poder de sua voz pode ser comparado com a força de um planeta! Desde 1989, o sentido da minha vida é transpor sentimentos musicais para a tela. Por causa disso estou permanentemente em busca deste poder musical e de artistas que o carreguem. Não quis produzir uma biografia e sim fazer com que o poder de sua voz fosse visualmente acessível.

Quais foram as maiores surpresas que você teve ao pesquisar e, posteriormente, falar com e sobre ela?
A maior surpresa que tive veio em forma de música. Ainda estou sob o encanto de canções como
“Motriz” (Caetano Veloso), “Luar do Sertão” (Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco) e “Negue” (Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos). Bethânia também me fez descobrir Chico Buarque. Nossa visita a Santo Amaro da Purificação e o encontro com Dona Canô e Caetano Veloso nos deram um panorama maior de como encarar a arte de Bethânia. Também fiquei muito impressionado com suas convicções, concentração, profissionalismo e o jeito como constrói sua arte no trabalho diário. Por causa dela acabei fazendo de um dos versos da música “Samba da Benção” (Baden Powell e Vinicius de Moraes) - “É melhor ser alegre que ser triste” – a filosofia que tento seguir dia após dia.

Como está caminhando este seu novo documentário sobre a Nana Caymmi?
Bethânia me fez entrar no mundo da música brasileira e assim descobri Nana Caymmi. Queremos apresentar um lado de Nana Caymmi que o público brasileiro não conhece e ao mesmo tempo com um apelo diferente para o público internacional. Esperamos finalizar o documentário até o fim de 2009.

domingo, 8 de março de 2009

feminina domingueira

não poderia ser outra. é dia internacional da mulher. e já que o itamar assumpção está nos rondando escolhi uma música dele em parceria com alice ruiz, uma das mais femininas já feitas em todos os tempos, em qualquer lugar: "milágrimas". curioso como não existem boas versões da música no youtube. nada com o itamar assumpção e apenas uma de longe com zélia duncan e anelis assumpção, além de uma quase boa com anelis e a banda orquídeas do brasil (a banda feminina que acompanhou itamar em meados da década de 1990, época do disco bicho de 7 cabeças).

mas achei esse video com as orquídeas tata fernandes, nina blauth e simone julian cantando "milágrimas" em algum sítio, em algum interior, em alguma manhã, com direito a cachorros, varanda, mesa de café e até um barrigão grávido (da simone). mais feminino, impossível.



esse video, essa edição domingueira, é uma homenagem a todas as mulheres que fazem parte da minha vida. mas em especial a carolina, o meu amor, a mulher de todos os meus dias e uma das maiores fãs dessa música; a minha irmã ariadne, jovem mãe das boas; e celinha, minha mãe, que fez aniversário agora no dia 5 de março.