segunda-feira, 23 de março de 2009

ô betz

nunca entrevistei maria bethânia. é uma daquelas "coisas pra se fazer antes de morrer", principalmente se for pro gafieiras. então, quando estreou na tv o documentário música é perfume, do suiço georges gachot (janeiro de 2008), fiz uma matéria pra monet e como bethânia não me deu moral (não ela, claro, mas sua assessoria) pensei em falar com algumas cantoras e ver qual era a influência da grande dama em suas carreiras. as gentis (e talentosas) alzira e, rita maria e fabiana cozza me atenderam e o texto saiu assim. ah, lembrei de bethânia porque marcus preto escreveu ontem na folha sobre um blog que compartilha gravações ao vivo da cantora que nunca saíram em disco. é o maria bethânia re(verso). e esse post é dedicado às adoradoras de betz que conheço. minha amada carolina e as amigas daniela, adriana, gabriela, cris e ludmila (que fez aniversário ontem, parabéns). esqueci alguém?

PERFUME DE BETHÂNIA

Bendita entre as cantoras, Maria Bethânia vem conseguindo manter, há pouco mais de 40 anos, uma das carreiras mais originais, coerentes e comercialmente bem sucedidas da história da música popular brasileira. Protagonista do documentário Música é Perfume, uma das estréias do mês no Canal Brasil, a intérprete baiana é mostrada em toda sua paixão e meticulosidade, tanto em shows e ensaios quanto em sua intimidade, tudo sob o olhar atento do cineasta Georges Gachot. Especialista em música erudita, o suíço se encantou com a forte presença de palco de Bethânia em um show no célebre Festival de Montreux. Mas isso é coisa mais que sabida pelo público brasileiro e por inúmeras gerações de cantoras nacionais que a tomaram como referência (mesmo porque não existem “seguidoras de Maria Bethânia”).

Alzira E, Rita Maria e Fabiana Cozza, cantoras de trajetórias e gerações diferentes, já sentiram essa força estranha que tomou o gringo pelos olhos e ouvidos. Cada uma a sua maneira. Mato grossense radicada em São Paulo, Alzira E (E de Espíndola), 50 anos, tem sete discos no currículo e canções gravadas por figuras como Ney Matogrosso e Zélia Duncan, boa parte delas feita em parceria com Itamar Assumpção. “Conheci Bethânia no final dos anos 1960, cantando ‘Carcará’, e ela me passou uma força tão grande com aquela voz e aquele sotaque. Foi quando me interessei por toda uma cultura musical nordestina que até então era muito distante pra mim”. Desde então, as músicas cantadas por Bethânia entraram de vez no repertório da ouvinte e fã. “Ela no palco é tão intensa e real, mas do seu repertório o que mais me acompanhou foi do disco Drama – Anjo Exterminado (1972). Todas ali são muito especiais pra mim”. E ela tem algum defeito, algum ponto fraco? “Só se for o meu, quando escuto
Anjo Exterminado”, e dá uma risada.

Mais jovem e com apenas um disco lançado, Fora de Órbita (2005), a cantora e compositora Rita Maria, 33 anos, ouvia Bethânia em casa por influência dos pais. “Depois veio o programa Plunct Plact Zum, em 1984, com a canção
Brincar de Viver. Mas a primeira audição consciente foi por volta dos 15 anos quando descobri o vinil de Recital na Boite Barroco (1968)”. Pouco mais tarde, quando começou a cantar, a paulistana sentiu as diferenças. “Mesmo não tendo a voz grave ou buscando no meu gesto vocal toda a teatralidade que ela traz, usei isso, a força da interpretação do texto, como uma referência pessoal, inclusive na hora de compor. Vejo o trabalho dela ser construído com muita coerência, tudo o que ela canta vem com a assinatura da intérprete, traz uma marca, uma cara, e transita por muitos repertórios”.

Já Fabiana Cozza, 31 anos, uma das mais elogiadas intérpretes de samba da atualidade e com dois discos na bagagem (o mais recente, Quando o Céu Clarear, acabou de ser lançado) declarou que “ouço Bethânia desde muito pequena. As primeiras canções de que tenho recordação são
Explode Coração e Sangrando, ambas do Gonzaguinha”. Hoje em dia, Cozza se espelha em Bethânia nessa busca da intérprete. “Ela fez uma escolha pelo caminho da intérprete, o que amplia a visão da arte dela e nos presenteia com essa grandeza. Costumo dizer que você pode ser uma ótima cantora ou uma intérprete do canto, um ótimo ator ou um intérprete do teatro. Bethânia é essa voz que pode se desdobrar no que quiser sobre o tablado porque tem o palco como espaço do sagrado”. Palavras delas ao som da Abelha Rainha.

e agora, uma pequena entrevista que fiz por e-mail com o diretor georges gachot.

MONET - Quais foram suas primeiras impressões ao ouvir Maria Bethânia? E o que te levou a decidir fazer um filme sobre ela?
GEORGES GACHOT - A primeira vez que ouvi Maria Bethânia foi em Montreux. Acho que em 1996. Foi também meu primeiro contato com a música brasileira. Nesta noite descobri uma fantástica artista que sabe como dividir sentimentos musicais com seu público. Fiquei impressionado por sua musicalidade pura, pela escolha de repertório e pelo modo como passa de uma música para outra. O poder de sua voz pode ser comparado com a força de um planeta! Desde 1989, o sentido da minha vida é transpor sentimentos musicais para a tela. Por causa disso estou permanentemente em busca deste poder musical e de artistas que o carreguem. Não quis produzir uma biografia e sim fazer com que o poder de sua voz fosse visualmente acessível.

Quais foram as maiores surpresas que você teve ao pesquisar e, posteriormente, falar com e sobre ela?
A maior surpresa que tive veio em forma de música. Ainda estou sob o encanto de canções como
Motriz (Caetano Veloso), Luar do Sertão (Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco) e Negue (Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos). Bethânia também me fez descobrir Chico Buarque. Nossa visita a Santo Amaro da Purificação e o encontro com Dona Canô e Caetano Veloso nos deram um panorama maior de como encarar a arte de Bethânia. Também fiquei muito impressionado com suas convicções, concentração, profissionalismo e o jeito como constrói sua arte no trabalho diário. Por causa dela acabei fazendo de um dos versos da música Samba da Benção (Baden Powell e Vinicius de Moraes) - “É melhor ser alegre que ser triste” – a filosofia que tento seguir dia após dia.

Como está caminhando este seu novo documentário sobre a Nana Caymmi?
Bethânia me fez entrar no mundo da música brasileira e assim descobri Nana Caymmi. Queremos apresentar um lado de Nana Caymmi que o público brasileiro não conhece e ao mesmo tempo com um apelo diferente para o público internacional. Esperamos finalizar o documentário até o fim de 2009.

2 comentários:

Érico San Juan disse...

Que legal, Dafne. Nunca fui fã do estilo da Maria Bethânia, mas, como muita gente, me arrepiei com a gravação de Fera Ferida que ela fez. Ouvi CDs recentes dela, tipo o da homenagem a Vinicius de Moraes, e gostei. Vou afundar no universo da cantora de nariz adunco. Valeu!

dafne sampaio disse...

pois então érico, eu demorei pra entender e ouvir bethânia... conhecia e tal, mas nunca ia lá... achava excessivamente dramático... gostava (ainda gosto) de intérpretes mais cool... mas ela é uma persona muito forte, muito necessária...