quarta-feira, 4 de março de 2009

fico louco, faço cara de mau

outro ídolo da casa é itamar assumpção. entrevistei uma vez, em 1998, e foi divertido e inusitado (e na casa da amiga alzira espíndola, mãe de iara rennó, que deve ter passado por ali em algum momento). vi um tantão de shows (inesquecível um de 1997 no café piu-piu). tenho todos os discos. paixão das fortes que começou em 1995 ou 96. mas um sacana de um cancêr levou o homem cedo demais. lá no gafieiras lhe prestamos uma homenagem particularmente sentida (não entrevistamos um de nossos heróis, afinal).

em setembro de 2006 saiu, na revista continente multicultural, um texto em que tentei dar conta do artista, mesmo que dando altas palas de fã-orfão.

MALDITO, UMA VÍRGULA!

Foi difícil de acreditar. Surpreendente também. Mas no final de 2005 uma música do compositor paulista Itamar Assumpção, o “maldito”, entrou com destaque na trilha sonora da novela Belíssima de Sílvio de Abreu, um dos maiores sucessos do horário nobre da TV Globo. “Dor elegante”, parceria com o poeta curitibano Paulo Leminski, surgiu para o grande público através da voz de Zélia Duncan, uma das mais ardentes divulgadoras da obra de Itamar, e certamente a com maior entrada no mundo das TVs e rádios. Só que, ironia do destino, Itamar não estava aqui para ver. Morto por um câncer em 2003, aos 53 anos, Itamar fez de sua vida música e também fez música em vida, música popular brasileira, mas não foi reconhecido como deveria.


No entanto, seu “rock de breque”, como gosta de definir o parceiro Luiz Tatit (ex-Rumo), ganhou o reforço de um livro em dois volumes intitulado Pretobrás – Por que eu não pensei nisso antes? O livro de canções e histórias de Itamar Assumpção (Ediouro, 2006). Organizado por Luiz Chagas, também guitarrista de Itamar em muitas ocasiões, e Mônica Tarantino como um misto de songbook, biografia, coleção de depoimentos e galeria de imagens, os dois livros põe os pingos nos ‘is’ de uma carreira dolorosamente independente e radicalmente brasileira, além de revelar um vasto cancioneiro que é muito maior que seus oito discos. O lançamento dos livros, em julho no Itaú Cultural de São Paulo, teve como apoio uma exposição de objetos, vídeos e músicas de Itamar, com destaque para uma letra inédita (“Maldito vírgula”).

Itamar Assumpção nasceu em 1949 na cidade paulista de Tietê e depois se mudou para as paranaenses Arapongas e Londrina, onde conheceu os irmãos Arrigo e Paulo Barnabé. A chegada em São Paulo, cidade que lhe deu régua e compasso, aconteceu em 1973, quando já tinha descartado as profissões de jogador de futebol e ator. A estréia em palcos paulistanos só foi acontecer em 1978 para, três anos depois, Itamar lançar seu primeiro disco, Beleléu, leléu, eu, onde despontaram as músicas “Fico louco” e “Nego Dito”. Neste seu primeiro trabalho Itamar já mostrou traços que carregaria e refinaria em todas suas composições posteriores: a expansão do “eu” dentro da canção, isto é, suas músicas comportam uma imensa variedade de falas, vozes e línguas, muitas vezes sobrepostas; uma inquietação constante com a música e a cultura brasileira; a ironia afiada como navalha; o lirismo pulsante e uma mistura pessoal do rock de Jimi Hendrix, do atonalismo de Arrigo Barnabé e da tradição musical popular negra de figuras como Ataulfo Alves (homenageado em Ataulfo Alves por Itamar Assumpção – Pra sempre agora, de 1995), Clementina de Jesus e Milton Nascimento.


Sempre com alguma dificuldade, os discos de Itamar foram se sucedendo. Vieram Às próprias custas S/A (1982), Sampa midnight – Isso não vai ficar assim (1985) e Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava!!! (1988), todos envoltos pela busca de uma moderna canção popular brasileira em faixas como “Batuque”, “Prezadíssimos ouvintes”, “Navalha na liga”, “Sutil”, “Maremoto” e “Zé Pelintra”. Na virada da década de 1980 para 90, Itamar deixou de lado sua fiel Banda Isca de Polícia para reunir - e tutelar, afinal era personalidade forte que exigia dedicação total de seus músicos à sua música - uma banda exclusivamente feminina, a Orquídeas do Brasil. Surgiu assim Bicho de 7 cabeças (1993) com 33 músicas em três LPs e, para muitos, o auge de seu refinamento como compositor, afinal foram nestes discos que surgiram canções como “Milágrimas”, “Noite torta”, “Vê se me esquece” e “Vou tirar você do dicionário”. Cinco anos depois apareceu um disco que seria o primeiro de uma nova trilogia, Pretobrás – Por que eu não pensei nisso antes..., e uma nova série de canções fortes como “Cultura Lira Paulistana”, “Vida de artista”, “Dor elegante” e “Abobrinhas não”. Mas em 2000 apareceu um câncer no intestino. Itamar seguiu fazendo shows, um sempre diferente do outro, as músicas sempre novas. Entrou ainda outra vez em estúdio, ao lado de Naná Vasconcelos, mas o disco Isso vai dar repercussão (2004) só saiu um ano após sua morte.

Itamar Assumpção foi ídolo de poucos. Um marginal sem opção de fuga. Quando aparecia em jornal tinha que carregar o fardo de ser “maldito”. O compositor de vez em quando tocava em rádios, invariavelmente por vozes femininas. Vozes de Ná Ozzetti, Ney Matogrosso, Cássia Eller, Mônica Salmaso, Ceumar, Rita Lee e Virginia Rosa, além de Zélia Duncan. Mas Itamar também foi cantado por Alzira Espíndola, Jards Macalé, Branca di Neve, Suzana Salles, a irmã Denise Assunção e muitos outros e outras. Seu legado musical também pode ser visto em ação no trabalho da banda paulistana DonaZica. Tendo como integrante sua filha mais nova, Anelis Assumpção, a banda jogou Itamar em mais um liquidificador de vozes, ritmos, poesias e referências das mais diversas. Estas e outras vozes continuarão perpetuando Itamar Assumpção rumo ao futuro. Talvez ele esteja lá esperando. Talvez já esteja noutra.

p.s.: a tv cultura exibiu um show do itamar lá pelos idos de 1983. já tinha visto umas três músicas soltas pelo youtube, mas não sabia que tinham colocado o especial inteiro (acho, tem pouco mais de 40 minutos). olha aí que eu vou ver também: parte 1, parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5.

outro p.s.: depois de achar no youtube guigo & hani dublando "milágrimas" tive a certeza que itamar assumpção é sim popular (ou seria zélia duncan?).

3 comentários:

Mari Varella disse...

bonito, dafne! bjs

Monica disse...

é pra isso que serve o Pretobras: conhecer mais de perto o itamar, sua obra, se encantar...bjs
Monica Tarantino

dafne sampaio disse...

aê, monica, obrigado pela visita. e parabéns pelo livro. é uma das coisas mais bonitas da minha estante. e o itamar merecia algo assim. e sempre mais, claro.