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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

cantando caetano

entre ontem e hoje fui ouvindo o recém-lançado a tribute to caetano veloso (universal) e soltando no twitter minhas impressões (pessoais, muito pessoais). acabei reunindo aqui no esforçado porque, afinal de contas, tudo vale a pena. os textinhos, ligeiramente revisados, estão na ordem das faixas e o saldo final do disco de homenagem ao setentão caetano veloso é bastante positivo, mesmo que irregular como qualquer tributo. vamos lá...


ousado o magic numbers escolher "you don't know me". ficou pop-rock normal em inglês e meio bunda no brasileiro com sotaque. magic numbers é fraquinho. são hippies docinhos nas suas próprias músicas, mas não tem estofo pra fazer cover de nada maior que eles.

céu e fernando catatau mandando ver em "eclipse oculto". tudo lindo, oitentista, mas achei esquisito e errado o efeito na voz da céu.

a faixa 3 é chrissie hynde junto com moreno, kassin e domenico...versão linda linda de "the empty boat". anos de estrada fazem diferença... chrissie hynde entende a música e a toma pra si, coisa que o magic numbers não conseguiu.

mas anos de estrada também enganam. mutantes (ou melhor, sérgio dias apenas) esculhambam a originalmente chata "london, london".

beck fez uma versão boa, correta, de "michelangelo antonioni", uma daquelas pouco conhecidas do baiano. mas não anima.

e jorge drexler, bem intencionado e com sotaque, faz boa versão de "fora da ordem", mas dá uma vontade de pular de faixa.

"de manhã" em versão bossinha rocker noisy muito boa comandada por marcelo camelo e hurtmold. ficou linda, uma das melhores.

bem confuso "quem me dera" com devendra banhart, rodrigo amarante e mais um monte de citações de outras músicas de caetano. faltou alguma concisão.

linda e triste "alguém cantando" com o momo. impressionante como a música parece que é dele e não do caetano.

uh, luisa maita, kiko dinucci, rodrigo campos & cia fizeram uma versão movimentada e interessante de "trilhos urbanos".

e caímos no fado com ana moura e uma bonita e dolorida (obviamente) versão de "janelas abertas 2".

uma das mais fodas músicas de caetano, "da maior importância", ganhou versão rascante, brincalhona e ótima por tulipa ruiz (que já cantava a música em shows).

tenho problemas com "força estranha" e na versão em espanhol - feita por miguel poveda - ela parece ainda mais cafona. puxado.

suingante e gostosinha a "qualquer coisa" de qinho (e sua voz parece um pouco com a do baiano). teclados e baixo espertos.

curioso o encontro de seu jorge, toninho horta e arismar do espírito santo, mas é que acho "peter gast" bem chatinha.

e o disco encerra com mariana aydar, duani e letieres leite numa bonita, mesmo que um pouco séria demais, versão de "araçá blue".

atualização caetânica: depois fui ver com calma de quais discos e épocas foram pinçadas as músicas do tributo. como era de se esperar das 16 faixas, 9 vieram da década de 1970, a grande era produtiva de caetano. na sequência, lá longe, vem a década de 1960 (3 músicas), a de 1980 (2) e, empatados, os anos 1990 e 2000 ("fora de ordem" e "michelangelo antonioni", respectivamente). houve uma interessante pulverização dos discos-fonte e, curiosamente, apenas um teve duas músicas escolhidas ("eclipse oculto" e "peter gast" vieram de uns, 1983). 

das 16 faixas, 6 não foram cantadas originalmente por caetano. "de manhã" ganhou de cara interpretações de wilson simonal e maria bethânia em 1965 e caetano nunca a gravou. bethânia gravou originalmente "janelas abertas 2" em 1971 e no ano seguinte a música apareceu no disco caetano e chico - juntos e ao vivo, mas quem cantou foi chico (caetano também nunca a gravou). gal foi a primeira a registrar "london, london" (legal, 1970) e "da maior importância" (índia, 1973) e só depois caetano fez das suas. "força estranha" foi composta especialmente para roberto carlos, que a registrou em seu disco de 1978 (caetano só fez o mesmo em zii & zie - mtv ao vivo, 2011). e, por último, "quem me dera", originalmente gravada pelo tamba trio em 1966 e um ano depois por caetano no disco domingo, aquele que dividiu com gal.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

crítica social no balanço

olhaí o clipe de "that's my way", soul rap da pesada de edi rock (racionais) com participação de seu jorge. a música foi lançada três meses atrás, estará no disco solo de edi rock (contra nós ninguém será) e agora ganhou esse clipe dirigido por rabu gonzalez e protagonizado por darlan cunha (cidade dos homens).





só não entendi máqueporra foi esse lance de seu jorge, o fantasma camarada. de resto, clipe bacana (tem making of aqui). e de uma música sensacional produzida por dj cuca, levada no flow dolente e marcado de edi ("é um texto dantesco de shakespeare, titio", putz, letra ótima) e com um refrão matador de seu jorge. tem a música aí em streaming.





ah, e rabu gonzales, o diretor do clipe era uma das promessas do rap carioca dos anos 2000, mas de uns cinco anos pra cá começou a se dedicar a clipes e fez trabalhos para funkero, livia cruz (com max b.o.), penna firme (com bnegão), tonho crocco, akira presidente e ponto de equilíbrio. só que vou aproveitar pra relembrar "o último malandro", minha preferida do repertório musical de rabu (e com participação linda de thalma de freitas). acho que é de 2004, algo assim, e continua perfeita.


segunda-feira, 9 de abril de 2012

yahoo# 35

novela interessantíssima essa avenida brasil. bem dirigida, bom elenco e um texto cheio de camadas, dramas, humores e surpresas. mais uma bola dentro de joão emanuel carneiro. acabei escrevendo no yahoo sobre a vilã dessa novela, interpretada muito bem por adriana esteves, versus a vilã de fina estampa, de aguinaldo silva, que ficou à cargo de christiane torloni. o texto "o mal e as más" tratou da construção dessas personagens e o que isso podia revelar sobre seus autores. enquanto isso, a coluna mais recente foi a "mimados e sem filtro", sobre a chegada do aplicativo instagram, que ganhou fama com os usuários cool de iphones, aos celulares de "pobres".



O MAL E AS MÁS

É possível entender como funciona a cabeça de um autor de novelas pelas vilãs que cria. Mocinhas não interessam, são todas iguais mesmo. Também não importam muito os vilãos e mocinhos, afinal são as mulheres que fazem as tramas girarem (igual na vida, ora pois). Andei pensando nisso após assistir aos primeiros capítulos do novo folhetim global das 9, Avenida Brasil. O que Carminha (Adriana Esteves) pode dizer sobre seu criador João Emanuel Carneiro? E o que Tereza Cristina (Christiane Torloni), da recém-acabada Fina Estampa, pode revelar sobre Aguinaldo Silva? Fico apenas com esses exemplos mais recentes – tirando assim Gilberto Braga e Manoel Carlos da jogada – para que a prosa não se estenda por demais.

Tal como Flora (Patrícia Pillar), de A Favorita (2008), Carminha é um poço de sentimentos conflitantes. É capaz de amar uma pessoa aqui e outra ali, porém, e ao mesmo tempo, se sente mais à vontade ao explodir em violência física e/ou psicológica rumo aos seus objetivos de vilã (vingança, ascensão social, etc). Tem ainda um passado dolorido, um presente esquizofrênico (boazinha em público, má em todo resto) e um futuro incerto. Tudo temperado com um humor muito afiado. Cortante mesmo.

João Emanuel Carneiro sabe que o folhetim televisivo é uma arte popular muito sofisticada no Brasil e, exatamente por isso, não subestima o espectador. Tanto em A Favorita como no início dessa Avenida Brasil, os personagens são sombrios, o clima é tenso e até as mocinhas nem são tão mocinhas assim. Nada é de mão beijada, muito menos os clichês. E isso não é à toa, pois Carneiro foi um dos roteiristas de Central do Brasil (1998), longa protagonizado por Dora (Fernanda Montenegro), uma mulher dura, cruel e amorosa (de formas meio tortas).
Já Tereza Cristina foi uma versão ainda mais histriônica e cartunesca de sua progenitora direta, Nazaré Tedesco (Renata Sorrah) de Senhora do Destino (2004). Não havia uma explicação para sua maldade, ela simplesmente existia assim. Também não era uma vilã do tipo adulta, maltratada pela vida, e mais parecia uma adolescente birrenta totalmente obcecada pela mocinha. Em uma novela (Fina Estampa) que mais se assemelhava com um cruzamento de Zorra Total com Malhação, no qual todos os personagens eram tremendamente imaturos e forçadamente cômicos, Tereza Cristina era o retrato estampado de seu autor.

Uma pena que o veterano Aguinaldo Silva, co-autor de clássicos noveleiros como Roque Santeiro (1985) e Vale Tudo (1988), tenha virado esse xerox borrado de si mesmo e justamente no terreno onde era especialista: a comédia. Quer dizer, suas novelas continuam fazendo sucesso com um público que gosta de bordões para soltar no dia seguinte na padaria, mas quem acompanha a história da teledramaturgia brasileira sabe que hoje em dia a verve de Aguinaldo Silva está toda nas “polêmicas” (virtuais) com jornalistas e outros autores. Tereza Cristina pode fugir para onde quiser, driblando assim a morte, prisão e/ou loucura destinada aos maus (ai, que revolucionário, Seu Aguinaldo), mas ninguém ligará mais. Inevitável esquecer uma vilã tão vazia e interpretada de modo cafajeste por Christiane Torloni (e a Renata Sorrah, a eterna Nazaré, desperdiçada ali de canto). Já Carminha, em composição cheia de nuances e agressividade a cargo de Adriana Esteves, veio para ficar e aterrorizar suas noites. E ela está só começando...

terça-feira, 10 de maio de 2011

capitão nascimento reloaded

taí a matéria de capa da revista monet de maio. o grande desafio desse texto era achar um jeito diferente e atual de lidar com um tema tão batido (e o mote para a revista foi a chegada de tropa de elite 2 em ppv e em um sistema de video on demand que está estreando na net). os colegas aqui da revista, sarah mund e itaici brunetti perez, fizeram as entrevistas e eu reuni tudo, editei e costurei no texto tendo em vista capitão nascimento e o bope como fenômenos pop. deu trabalho, viu? mas fiquei bem feliz com o resultado.

local de trabalho é isso aí

ELITE DO CINEMA

Um dos participantes da última edição do
Big Brother Brasil mal colocou os pés na casa e já saiu batendo no peito e gritando que era “faca na caveira”. No bar um amigo fala para o outro: “você é um fanfarrão!”, repetidas vezes. De repente, passando por um ponto de táxi, é possível ouvir um “pede pra sair” ou então “se quer me foder, me beija”. Coisas assim tem acontecido, em qualquer lugar do Brasil, desde 2007, ano da estréia nos cinemas de Tropa de Elite, de José Padilha. Agora, com a chegada de Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro à TV pó assinatura, um ciclo se fecha. Mas o Brasil nunca mais será o mesmo após conhecer a face atormentada de Roberto Nascimento, o Capitão Nascimento. Muito menos as pessoas envolvidas na produção de ambos os filmes.

PADILHA, por exemplo. Em menos de dez anos transformou-se no diretor mais quente do cinema brasileiro, ultrapassando os colegas Walter Salles e Fernando Meirelles. Ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim pelo primeiro
Tropa, com Tropa 2 quebrou um tabu de mais de três décadas o transformando no filme brasileiro mais visto de todos os tempos, e agora se prepara para dirigir um episódio da produção internacional Rio, Eu Te Amo, enquanto não assina o contrato para a refilmagem de RoboCop. Mas o que fez um cineasta e produtor de documentários de prestígio e de público restrito conseguir tocar tão fundo no imaginário popular brasileiro?

“Acho que em
Tropa de Elite 1 e 2 aconteceu um fenômeno de sobreposição, uma soma de dois efeitos: a emoção da dramaturgia dos filmes se somou as emoções que o público já sentia a respeito dos traficantes, do policiais e dos políticos nele representados. Na minha opinião, foi isso que fez com que os filmes se tornassem populares”, explicou Padilha por e-mail. Se o primeiro Tropa pegou a todos de surpresa com um relato cru do cotidiano de guerra urbana no Rio de Janeiro, e sob inédito ponto de vista do policial, o Tropa 2 deixou claro que o conflito nas favelas e o narcotráfico são apenas pálidos reflexos de uma guerra muito maior por poder e dinheiro envolvendo o crime organizado, políticos e policiais corruptos (reunidos em milícias). E isso acontece conforme o espectador acompanha Nascimento saindo das ruas para ganhar os gabinetes na função de Subsecretário de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro.

Essa percepção mais aguçada sobre a realidade brasileira também pegou o ator André Ramiro, outro membro da equipe que teve sua vida mudada em muito pouco tempo. Rapper e ex-porteiro de cinema, Ramiro teve sua primeira experiência como ator ao interpretar Matias, que volta em
Tropa 2, cada vez mais parecido com o Capitão Nascimento do primeiro Tropa, mas sem a mesma experiência. “Minha vida mudou no sentido de que agora realmente tiro o meu sustento daquilo que eu sempre quis viver: da arte. Poder respirar, fazer, estudar arte e ter a oportunidade de conhecer coisas que eu não conhecia”, diz Ramiro, e aproveita para anunciar que seu disco de estréia, Crônicas de um Rimador, sai este ano e traz participações de Gabriel o Pensador e Dudu Nobre.

Mas houveram outras reviravoltas em sua vida. “O que mudou na verdade foi a minha visão do ser humano por debaixo da farda. Não exatamente a instituição. Tem uma frase em inglês que acho muito bacana, acho pertinente para esse momento, que é ‘Don’t hate the players. Hate the game’. Eu não odeio os jogadores, só não concordo com o jogo.” E ainda refletindo a experiência dos dois filmes completa que “na maneira que me envolvi com esse projeto fica difícil não perceber que na verdade irmão está matando irmão. É o policial que não é bem remunerado e o traficante que nem sempre está na vida que escolheu. Ou seja, quem é a vítima? O policial é tão vítima quanto o traficante e vice-versa.”



PAULO STORANI é outro personagem importante nessa saga e representando o lado fardado da história. Ex-integrante do BOPE, o carioca foi responsável pelos treinamentos dos atores e chegou a ter o nariz quebrado por Wagner Moura durante os ensaios do primeiro
Tropa. Também vieram dele algumas das gírias mais conhecidas dos filmes. “Daqui a dez anos, pesquisadores irão mostrar o que o filme representou para o esclarecimento e mobilização das pessoas em torno da segurança pública. A cortina caiu. Nenhum carioca poderá dizer que não sabia do que ocorreu e que ocorre no Rio, e que não é diferente de qualquer lugar do Brasil.”

Orgulhoso de sua participação e do resultado cinematográfico, Storani fez questão de frisar durante a entrevista os princípios que nortearam o treinamento de seus pupilos: mudança constante de cenário, adaptação e superação. “Sabia que
Tropa suscitaria discussões profundas, principalmente por concorrerem contra um histórico de filmes nacionais que quando tratam de temas relacionados com a segurança pública, contam a história de bandidos que passam a heróis, despossuídos que não tem outra opção senão roubar, traficar e matar. Os dois Tropa de Elite foram fiéis à realidade e imparciais, mostrando de uma forma inédita os dramas que envolvem as pessoas que trabalham na segurança pública, pessoas honradas e desonradas, mas acima de tudo o BOPE saiu fortalecido. Os heróis saíram do anonimato e passaram a ter seu trabalho reconhecido, além do batalhão ter sido humanizado.”

Só que existe uma armadilha aí nessa atual relação de boa vizinhança entre policiais e civis, e quem aponta é Luiz Eduardo Soares, escritor, cientista social e ex-Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro. “Se o BOPE persistir por uma unidade violenta, tentando surfar na onda do primeiro filme, vai pagar um preço altíssimo também pela sua própria imagem, porque ficou muito claro no segundo filme que a violência policial não é uma solução, e sim parte de um problema.” Co-autor de
Elite da Tropa (Objetiva) e Elite da Tropa 2 (Nova Fronteira), os livros que serviram de pontapé inicial para os roteiros, Soares aproveita para costurar uma descrição muito afiada do Capitão Nascimento, personagem ficcional próximo de tantas pessoas de carne e osso. “A intenção era apresentar ali um anti-herói, uma pessoa atormentada, capaz de tortura, assassinato, desesperada e sem rumo, que acabava contribuindo para a reprodução do ciclo da violência, mesmo sendo uma pessoa com muitos valores positivos, muitas virtudes também, a simplicidade, a vontade de acertar, o compromisso de cumprir um papel positivo na sua área de atuação.” Portanto, quem o viu como herói, como uma resposta armada para as mazelas sociais brasileiras, precisa urgentemente rever seu conceito de heroísmo.

Em meio a esse fogo cruzado, Padilha também foi muitas vezes vítima, mas as acusações de glorificar um personagem violento e controverso já foram superadas. “Não fiz o filme para responder a crítica, fiz o filme para completar a exposição que iniciei em
Onibus 174 e Tropa de Elite, e para mostrar a relação direta que existe entre a corrupção na política e os problemas da segurança pública que abordei nos filmes anteriores”, afirmou Padilha que, entre um Tropa e outro, dirigiu dois documentários, Garapa (sobre a fome no Nordeste) e Segredos da Tribo (que trata da relação conflituosa entre antropólogos e os índios ianomâmi).

MAS SERÁ QUE todo esse fuzuê ao redor dos filmes foi além das piadinhas de bar? Será que o Capitão Nascimento inspirou uma nova geração de guardiões da lei? Rodrigo, 29 anos, soldado da Polícia Militar do Estado de São Paulo a cinco anos, acha que não: “A maioria das pessoas ainda entra na polícia pela dificuldade de encontrar emprego”, o que não foi seu caso, pois sempre desejou ser policial. Já Thiago Marques Guilherme, 23 anos, está estudando para o concurso da polícia civil e disse que assistir os filmes lhe “deu mais vontade de entrar para tentar fazer alguma coisa, mas não que eu vá ser um capitão Nascimento, né?”

E os filmes retrataram a corporação fielmente? Ambos acreditam que sim. “Tenho um amigo policial que me contou que na polícia tem muita coisa mostrada no filme que realmente acontece. É uma questão de se mostrar e não omitir”, disse Thiago, enquanto Rodrigo vai um pouco mais fundo ao afirmar que os filmes são “um tapa na cara de muito oficial, de muito político e muito governante aqui do Brasil. Sei que o filme se passa no Rio de Janeiro, mas serve para a realidade de qualquer polícia do Brasil. Infelizmente não teve a repercussão que deveria ter tido para poder acontecer alguma mudança. Tem muita coisa envolvida nisso, até dinheiro. Acho que, por exemplo, partes da polícia de São Paulo vivem ainda muito à sombra da ditadura, assim como muitos governantes e políticos.”



OUTRO PERSONAGEM REAL e importantíssimo para
Tropa de Elite 2 é justamente um político. Em seu segundo mandato, o deputado estadual Marcelo Freixo serviu como base para o roteirista Bráulio Mantovani criar Diogo Fraga (Irandhir Santos), um professor de História que se torna político após trabalhar em uma ONG cujo tema principal é a defesa dos direitos humanos. Na vida real, Freixo foi presidente da crucial CPI das Milícias que, em 2008, jogou no colo dos cariocas/brasileiros o envolvimento de alguns de seus colegas de Assembléia Legislativa em assassinatos, extorsões e outras tantas infrações do Código Penal. Até hoje é ameaçado de morte por isso.

Fã dos filmes, e sem nenhum envolvimento com as produções, Freixo viu sua luta (e a de muitos outros e outras) ganhar altas injeções de adrenalina na segunda parte da jornada de Roberto Nascimento. E gostou, confessa. “O
Tropa 2 dá mais complexidade ao assunto de segurança, ele mostra com mais clareza esse problema que o crime organizado não está nos lugares pobres, nem no Rio e nem em nenhum lugar do mundo. Ele consegue demonstrar que essa criminalidade é movida através de interesses políticos, ou seja, existe uma polícia corrupta porque a gente tem uma política corrupta, uma elite política corrupta que se alimenta dessa relação violenta com a periferia dos lugares pobres porque tem uma relação direta com esses criminosos.”

Claro que não seria um filme (ou dois) que mudaria esse amontoado de desigualdades, impunidades e desmandos. E nem adianta pensar em um terceiro com Nascimento partindo para Brasília de Caveirão. Luiz Eduardo Soares pode explicar melhor: “Assunto [para um terceiro filme] não falta. Mas até onde sei, como amigo e colega de trabalho, o José Padilha não considera essa hipótese. É o mesmo que ouço do Wagner [Moura] que diz que o trabalho que tinha que ser feito já foi feito. Da minha parte já estou completamente convencido que não faz sentido produzir uma terceira unidade dessa série pois há um risco muito grande da repetição e, tanto na literatura quanto no cinema, temos muito medo do clichê.”

Sobre Wagner Moura assinamos embaixo. Na tentativa de entrevistá-lo recebemos a seguinte resposta de seu assessor: “O Wagner está num outro momento agora!” Quem é caveira, sabe.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

12 músicas e um segredo

o rodrigo salem fez o convite na semana passada com uma ideia simples e ótima: uma mixtape, ou coletânea, com 12 das melhores canções de 2010 (nacional e internacional) e uma faixa-bônus-segredo. como estava preparando uma lista para a rolling stone brasil as músicas já estavam meio que certas e entreguei rápido, mas só quando o salem subiu o projeto na segunda fui ver quem mais tinha sido chamado. gentes finas como @carolnogueira, @stefaniegaspar, @babee, @diegomaia, @pablomiyazawa e @flaviadurante, tudo boa companhia.

de resto, o ano foi muito bom, como todos os últimos, e muita coisa legal ficou de fora da minha 12 músicas e um segredo, mas nos próximos dias postarei listas mais inclusivas de discos e canções nacionais e internacionais. por enquanto, escuta só...

01. “oxe, como era doce”, baiana system
02. “felicidade”, marcelo jeneci [part. laura lavieri]
03. “voices”, blundetto [part. hindi zahra]
04. “tudo cabe num beijo”, seu jorge & almaz
05. “fm tan sexy”, el guincho
06. “ziriguidum”, lurdez da luz [part. rodrigo brandão]
07. “tightrope”, janelle monáe [part. big boi]
08. “brocal dourado”, tulipa ruiz
09. “miss fortune”, aloe blacc
10. “todo esse tempo”, bnegão
11. “ek shaneesh”, das racist
12. “monster”, kanye west [part. jay-z, rick ross e nicki minaj]
13. o segredo

download AQUI.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

nego dito forévis!
ou transversão #37
ou letra/música #19

essa é caixa preta, senhoras e senhores, a ansiosamente aguardada caixa preta de itamar assumpção (selo sesc sp, 2010). pra mim é o lançamento do ano, sem sombra de dúvida. não só porque reúne em nova edição todos os discos de itamar assumpção como solta ao mundo o desfecho da trilogia pretobrás (volumes 2 e 3). nascido em 1949 e morto precocemente em 2003, o paulista-paulistano ainda não teve sua obra devidamente reconhecida dentro do tal cânone da música popular brasileira. itamar ainda é prazer de poucos, ainda é "maldito", o que é coisa das mais injustas levando-se em conta o humor, a invenção e seu afiado e surpreendente sentido pop. essa caixa precisa se espalhar - talvez não fisicamente porque o preço pode assustar (150 paus, mas são 12 discos, e no site do sesc sai por 120 reais) -, porque a música do nego dito serve pra tudo, é como a vida. saudade.

quem ganha mais é quem ouve, porque itamar já é, pode acreditar. e na caixa preta estão
beleléu leléu eu (1980), às próprias custas s.a. (1982, o único disco ao vivo de itamar e que vem com uma faixa inédita, uma versão de "não vou ficar" do tim maia), sampa midnight - isso não vai ficar assim (1983), intercontinental - quem diria? era só o que faltava!!! (1988), bicho de sete cabeças vols. 1, 2 e 3 (1993), ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora (1996), pretobrás - porque que eu não pensei nisso antes? (1998) e o já póstumo vasconcelos e assumpção - isso vai dar repercussão (2004). tudo lindo. mas são discos que já ouvi de trás para frente, inúmeras e inúmeras vezes. agora, os inéditos pretobrás II - maldito, vírgula (2010) e pretobrás III - devia ser proibido (2010) trazem uma porrada de novidades e convidados em suas 29 faixas, além do próprio itamar em registros caseiros de voz e violão posteriormente arranjados pelos produtores beto villares (pretobrás II) e paulinho lepetit (pretobrás III). separei aqui alguns destaques desses dois discos e já começo com um transversão.



"todo esse tempo" é o nome dessa música e depois de ouví-la com itamar agora é a vez da versão acelerada e totalmente atual de bnegão. as duas estão no volume dois do pretobrás.



ainda em pretobrás II aparecem outros convidados. seu jorge canta "o tempo todo" e tenho certeza que itamar ficaria orgulhoso da versão desse outro grande artista da música negra brasileira.



e para encerrar os destaques desse volume, elza soares cantando "elza soares", música feita por itamar em sua homenagem. de arrepiar versos como "desde que me entendo por gente / eu sambo, eu faço o que gosto / my soul is black, meu sangue é quente / eu quando gosto, me enrosco", ainda mais com a emoção de elza no final.




já no pretobrás III ouvi algumas músicas que achei que nunca iria possuir registro em disco (já tinha ouvido e vibrado em shows). a divertida "pirex", por exemplo, ótimo exemplo das brincadeiras de itamar com a nossa língua (e que nessa versão traz participação de naná vasconcelos).



outra que já tinha ouvido em shows é "devia ser proibido" (itamar assumpção e alice ruiz). música de rachar o coração feita em homenagem ao poeta paulo leminski (marido de alice e amigo/parceiro de itamar). a letra acabou caindo como uma luva para a ausência de itamar porque "devia ser proibido / uma saudade tão má / de uma pessoa tão boa". participação de zélia duncan, uma das mais aguerridas divulgadoras do nego dito.




e pra encerrar, letra e música de "que tal o impossível", doce, amorosa e lírica, que me lembrou carolina de cara (ela é muito fã de itamar, o que me dá um baita orgulho, porque fui eu que apresentei). cante junto e tente não se emocionar. tente não pensar nela/nele.

que tal o impossível
(itamar assumpção)

que tal se nós dois vivêssemos
do jeito que nós quiséssemos
sem nada que aborrecesse-nos
que tal se tudo tivéssemos

que tal se realizássemos
aquilo que nós sonhássemos
maçãs macias comêssemos
que tal se nós nos beijássemos

que tal se nós dois dormíssemos
olho no olho acordássemos
que tal se nós felicíssimos
que tal se nós dois voássemos

que tal se nós dois pudéssemos
aquilo que desejássemos
que tal se nós dois cantássemos
tocassemos e nós dois mesmos dançássemos

que tal se nós dois partíssemos
que tal se a sós ficássemos
que tal se ao máximo amássemos
que tal se no céu morássemos
que tal
que tal o impossível
que tal
que tal o impossível



foto de 1998, em casa de alzira espíndola, época da gravação do pretobrás; foi durante a única entrevista que fiz dele e que está lá no gafieiras

quinta-feira, 24 de junho de 2010

as cores de um diamante

já tem um tempo que corre pela internet uma versão demo do primeiro trabalho do projeto almaz (que significa diamante em russo). não sei se o nome oficial será almaz ou seu jorge & almaz, mas é certo que o encontro de seu jorge, lúcio maia, antônio pinto e pupillo está entre as boas notícias do ano. a princípio, o quarteto se reuniu para gravar uma versão de "juízo final" (nelson cavaquinho e élcio soares) para a trilha de linha de passe (2008), de walter salles e daniela thomas. no estúdio, uma música virou duas, três, quatro e um repertório foi nascendo com tim maia ("cristina"), kraftwerk ("the model"), martinho da vila ("cirandar"), michael jackson ("rock with you"), jorge ben ("errare humanum est"), noriel vilela ("saudosa bahia") e roy ayers ("everybody loves the sunshine"), entre outras.

pelo que dá pra ouvir nas versões demo, o disco é de encher os ouvidos, cheio de climas e grooves. mas segundo informações da jornalista patricia palumbo, o lp e cd duplo só tem previsão de lançamento no exterior (shows? também só lá fora) e assim, novamente, acontece o mesmo que ocorreu com o sonantes (céu, rica amabis, gui amabis, pupillo e dengue), que lançou um disco fudidaço em 2008 e que nunca ganhou versão nacional. enquanto isso não acontece, a gente torce e acompanha (e ouve mesmo assim). escolhi três entre as doze que já estão por aí, começando com altemar dutra e depois partindo para roy ayers e tim maia. só belezura.







atualização em 24 de setembro: no youtube já existem vários trechos de shows do projeto mundo afora, mas tem essa ótima entrevista feita com seu jorge em chicago.



e na sequência, a gravação de algumas parte da bateria do pupillo para a música "cristina", com a presença no estúdio dos produtores mário caldato jr, beto villares e missionário zé.




atualização em 14 de dezembro: o diretor (e ator) hindu-americano kahlil joseph fez dois curtas, filmados nos estados unidos, inspirados nesse trabalho de seu jorge & almaz (e com a participação dos próprios). climão e coisa e tal.