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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

2 perfis: anne hathaway e millie bobby brown

mais dois perfis publicados nas edições de julho e agosto da revista Monet. em julho teve Millie Bobby Brown por causa de Enola Holmes 3 e em agosto, Anne Hathaway, por motivos de O Diabo Veste Prada 2. saca só.

A PRINCESA CRESCEU

Dez anos após cair de paraquedas no mundo fashion, Anne Hathaway retorna madura ao sucesso pop de O Diabo Veste Prada 2

O ano de 2026 está sendo mais que especial para Anne Hathaway. Aos 43, a novaiorquina viu seu time do coração, o New York Knicks, serem campeões da NBA após um jejum de 53 anos. Por uma dessas curiosas coincidências das janelas de lançamento ela viu/verá seis filmes estrelados por ela estrearem: o drama psicológico pop star Mother Mary, o retorno cômico ao mundo fashion em O Diabo Veste Prada 2, o épico A Odisseia de Christopher Nolan, a ficção científica com dinossauros O Fim da Rua, o thriller Verity e o drama de guerra Sozinho ao Amanhecer. E, para coroar tudo, anunciou que está grávida do terceiro filho de seu casamento com designer de joias Adam Shulman.

um pouco de Hathaway em 2026: Mother Mary, Prada 2, A Odisseia, O Fim da Rua e Verity

Apenas com essa amostra de filmes atuais, Hathaway segue mostrando sua versatilidade, da ação ao drama, da comédia ao thriller, sem falar em musicais, romances e animações numa carreira que começou vinte e cinco anos atrás com a estreia de O Diário de uma Princesa nos cinemas. Mas não tem como negar que foi a comédia O Diabo Veste Prada, lançada em 2006, que a transformou em estrela e a fez conhecer sua ídola-guru Meryl Streep. 

Só que o caminho para chegar na desengonçada Andy Sachs no mundo fashion e rigoroso de Miranda Priestly não foi fácil. Numa entrevista em 2021 a atriz confessou que sabia que era a nona opção para o papel de Andy (Rachel McAdams era a primeira da lista, e Hathaway ainda teve que batalhar contra Scarlett Johansson, Kate Hudson, Kirsten Dunst. Natalie Portman e Claire Danes, por exemplo; todas mais conhecidas à época). Na mesma entrevista, a atriz lembrou que chegou a escrever “me contrata” na areia de um jardim na sala de um executivo do estúdio. Deu certo.

E ainda pode trabalhar com a ainda mais novata Emily Blunt, o já experiente Stanley Tucci e a icônica Meryl Streep. “Ela é simplesmente divina. Não é apenas uma questão de ela incorporar a personagem; ela está absolutamente no centro de todas as suas escolhas, da verdade da personagem. E, como artista, é isso com que você sonha. Nada a tira desse estado. O clima não a afeta, nem coisas bobas, como o toque de um celular. Isso não a faz perder o foco na personagem. E estar perto disso — ter sido levada a esse lugar durante nossas cenas — fez com que eu sentisse que estava encurtando o caminho da minha própria descoberta como atriz ao perceber: ‘É isso! Essa é a sensação’. Agora, só preciso chegar lá também”, disse humildemente para a Associated Press do alto de seus 23 anos.

O sucesso comercial de O Diabo Veste Prada foi muito bom para um filme de orçamento mediano, além de ser um tapa na cara dos executivos hollywoodianos que mantinham a lenda de que filmes protagonizados por mulheres não iam bem na bilheteria. No entanto, o que aconteceu mesmo é que os anos se passaram e o filme foi se tornando uma referência pop inescapável em memes, cortes, piadas, diálogos, reexibições anuais, na discussão sobre moda e na atuação do trio feminino.

Em 2013, Lauren Weisberg, a autora do livro que deu origem ao filme, lançou uma sequência, mas Streep e Hathaway não se interessaram pelo retorno das personagens. Quando a Variety perguntou a Hathaway se poderia haver uma sequência, ela foi taxativa. “Não tenho certeza se ‘poder’ é a pergunta certa. Deveria haver uma? Eu adoraria fazer outro filme com todo aquele pessoal, algo totalmente diferente. Mas acho que aquele ali simplesmente acertou em cheio. É bom deixá-lo como está.” Mas na época ela estava entre duas experiências com o diretor Christopher Nolan (O Cavaleiro das Trevas Ressurge e Interestelar), com a cabeça em seu primeiro filme como protagonista e produtora (A Canção de uma Vida), e tendo que lidar com o ódio virtual que recebeu após ganhar o Oscar de Atriz Coadjuvante por Les Misérables.

QUANDO A MATURIDADE CHEGA

Quase vinte anos após o lançamento de O Diabo Veste Prada veio, meio que do nada, a notícia dos primeiros passos de uma sequência e estariam todos de volta: a roteirista Aline Brosh McKenna, o diretor David Frankel e o quarteto Streep, Hathaway, Blunt e Tucci. Fãs de todos os credos suspiraram aliviados. E então começaram a surgir fotos do elenco durante as filmagens em Nova York, que começaram em junho e terminaram em outubro do ano passado, e o frisson antecipatório foi crescendo.

Para atiçar mais os fãs os trailers e notícias foram soltando as participações especiais. Se no primeiro Prada foram poucas, mas de figuras como o estilista Valentino e as ex-modelos Heidi Klum e Gisele Bundchen, o segundo, com o filme já impresso no DNA pop de gerações, os nomes foram muitos: Lady Gaga, Donatella Versace, Marc Jacobs, Naomi Campbell, Jon Batiste, Ronny Chieng, Ciara, Sydney Sweeney (cuja cena caiu na edição final) e, novamente, Heidi Klum.

Mas isso é perfumaria perto do que o grupo conseguiu colocar em discussão em Prada 2, pois o tempo que passou entre um e outro é também personagem fundamental e nesse tempo, nesses vinte anos, a moda e o jornalismo mudaram. O mundo glamoroso regido com humor seco e mão de ferro por Miranda Priestly virou poeira, pois ninguém mais lê impresso, e todos precisam sobreviver de ‘clickbaits’ nas redes sociais. Sem falar em IA e nas fusões de gigantescos grupos de mídia e nas consequentes demissões em massa e precarização do trabalho. Prada 2 é comédia, e um dos maiores sucessos de bilheteria do ano, mas tem muito o que falar.

Outro exemplo é a importante sequência com Lady Gaga cantando em um desfile. No mundo real, a artista estaria cercada de modelos tradicionais, extremamente magras. Foi Hathaway que sugeriu aos produtores uma mudança no casting. “Eu sabia qual era o contexto da cena e achei que ela seria muito mais agradável para o público se exibíssemos uma variedade maior de corpos. Fui até os produtores e perguntei: ‘Vocês não acham que a cena seria mais impactante se adotássemos uma abordagem mais inclusiva em relação aos tamanhos?’. Eles ficaram devastados por não terem pensado nisso. Acho que estavam apenas seguindo o fluxo. Mas, assim que perceberam, eles fizeram isso acontecer em coisa de uma hora”, relembrou a atriz em entrevista Variety. Anne Hathaway cresceu mesmo.

E AGORA, MILLIE BOBBY BROWN?

Após o fim de Stranger Things e o início de sua vida como mãe, a atriz inglesa de 22 anos retornou a uma personagem muito familiar: Enola Holmes

Muita coisa já aconteceu na vida de Millie Bobby Brown, então ela se sente muito confortável para, do alto de seus 22 anos, começar um novo capítulo tanto de sua vida pessoal quanto artística. De um lado, a criança prodígio e a adolescente animada. Do outro, a mãe responsável e a esposa dedicada. Por todos os lados, a atriz reconhecida. E para conectar esses dois lados/capítulos de sua vida, Millie escolheu uma personagem que lhe é muito cara, a jovem aventureira Enola Holmes, a irmã mais nova de Sherlock Holmes, que retorna em Enola Holmes 3.

Mas antes de chegarmos à terceira aventura de Enola, é bom lembrar que dos 9 aos 12 anos, a inglesa nascida na Espanha teve pequenos papéis em séries variadas, de Grey’s Anatomy a NCIS, para então, em 2016, participar de dois testes de elenco que mudariam sua vida. 

O primeiro foi para o papel de Lady Lyanna Mormont na série Game of Thrones, personagem que acabou ficando com Bella Ramsey. E que bom que Millie não pegou, pois só assim conseguiu ser chamada para um teste de uma série que estava para começar, uma tal de Stranger Things. Foi a misteriosa e poderosa Eleven que mudou realmente toda a vida da jovem atriz. Aos 12 anos de idade.

“Em Stranger Things percebi que não precisava falar com a boca, mas sim com o rosto. Em vez de dizer explicitamente que estava com raiva, triste ou confusa, tinha que fazer isso com as minhas expressões faciais, e isso foi um desafio. Mas realmente gosto de interpretar papéis desafiadores e adoro interpretar a Eleven”, disse Brown em uma conversa com a amiga Maddie Ziegler para a Interview poucos meses após o lançamento da primeira temporada da série.

De julho de 2016 a dezembro de 2025, Brown viveu intensamente os dramas, alegrias, traumas e aventuras de Eleven entre um Vecna aqui, uns Demogorgons acolá, e a dureza aterrorizante tanto do Mundo Invertido quanto do mundo real. A atriz – bem como os amigos Finn Wolfhard, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp e Sadie Sink – cresceu junto com as cinco temporadas da série e do surpreendente fenômeno pop que veio a reboque.

“Sei que nunca mais a interpretarei. Mas Eleven já me influenciou muito. E acho que ela ainda é uma força a ser reconhecida, até por mim mesma. Sei que ela me deu muita confiança para ser a heroína da minha própria vida”, afirmou orgulhosa em entrevista para Allure, no final de 2025, com o final de Stranger Things logo ali depois da esquina do Natal.

Nesses cerca de dez anos da série, a atriz aproveitou da fama, investiu em seus interesses e expandiu sua atuação. Desde criar uma marca de beleza e bem estar (Florence by Mills) até fundar um abrigo para animais (Joey’s Friends), passando por uma produtora audiovisual para chamar de sua (PCMA), um livro (Nineteen Steps), ser a cara de marcas como Louis Vuitton e Pandora, receber o título de Embaixadora da Boa Vontade da UNICEF/ONU e dois encontros com o lendário Godzilla (Godzilla: Rei dos Monstros e Godzilla vs. Kong, de 2019 e 2021 respectivamente).

Mas a maior construção dessa década foi uma parceria sólida da atriz com a Netflix, afinal de contas o sucesso de Stranger Things é um dos principais responsáveis pela explosão da plataforma de streaming lá em 2016. Daí a Netflix retribuiu ao produzir o primeiro e o segundo Enola Homes (2020 e 2022), Donzela (2024) e The Electric State (2025), este ao lado de Chris Pratt e sob direção dos irmãos Anthony e Joe Russo. E não importa se o cenário é a Inglaterra vitoriana, algum lugar fantástico medieval com dragões ou uma ficção científica com humanos e robôs em guerra, Millie Bobby Brown sempre encontra aventura nele.

Donzela e Electric State não foram tão bem recebidos, mas Enola Holmes foi, o que deixou a atriz particularmente feliz por ter sido seu primeiro filme como produtora e também por ser uma personagem que se identificou imediatamente. Baseado em uma série de nove livros e um conto escritos por Nancy Springer, a determinada Enola Holmes caiu como uma luva para Brown mostrar um humor que nunca conseguiu colocar em Eleven (por motivos óbvios, claro), e com direitos a piscadelas para o público ao quebrar a quarta parede.

No primeiro Enola Holmes, a irmã mais nova de Sherlock Holmes (Henry Cavill) enfrenta tudo e todos para desvendar o desaparecimento da mãe. Já no segundo, que não é adaptado de nenhum dos livros da série, Enola encara o desafio de se tornar realmente uma detetive particular, mas não é levada a sério pelos seus pares. Inspirado em eventos reais no final do século 19 sobre uma greve de trabalhadoras numa fábrica de fósforos em Londres, Enola Holmes 2 é uma aventura abertamente feminista.

“A greve das operárias de fósforos nos pareceu um símbolo feminista perfeito porque foi a primeira greve de mulheres feita por mulheres”, afirmou Harry Bradbeer, diretor dos dois primeiros Enola, à Variety. “Isso refletia nossa ideia de que Enola, para progredir, precisa trabalhar com outras pessoas e não depender apenas de si mesma. É uma história que vai do ‘eu’ para o ‘nós’, é uma história sobre irmandade”.

Já em Enola Holmes 3, a personagem volta às suas raízes familiares e foge do casamento ao saber que seu irmão Sherlock foi sequestrado. A direção agora ficou a cargo de Philip Barantini (da premiada minissérie Adolescência) e, no elenco, retornam Henry Cavill, Louis Partridge e Helena Bonham Carter (a mãe). Dois meses após o término das filmagens de Enola Holmes 3, em junho de 2025, Brown anunciou que ela e seu marido Jake Bongiovi (filho de Jon Bon Jovi) tinham adotado uma menina. 

A força de Eleven e o espírito independente de Enola Holmes alimentaram e muito Millie Bobby Brown nesse início de nova vida como atriz, produtora, empresária e mãe, mas sempre com os pés no chão. Em junho deste ano, num evento da UNICEF, disse que “apenas tento aprender o máximo que posso e transmitir isso para a vida dela, para que ela só conheça meninas apoiando meninas, mulheres tendo sucesso, mulheres realizando seus sonhos e vivendo em um mundo e construindo um mundo para ela – isso não é irrealista, mas estabelece um padrão para que ela saiba que não deve se contentar com nada menos do que ela quiser”.


terça-feira, 12 de maio de 2026

ryan gosling, o astro relutante

na edição de maio da Monet saiu apenas um texto meu, mas pelo menos foi um perfil do Ryan Gosling. saca só.

ilustração de Tillie Szwartz

O ASTRO RELUTANTE

Após os sucessos de Barbie e Devoradores de Estrelas, Ryan Gosling tornou-se uma das maiores esperanças de Hollywood; mas ele nunca quis essa responsabilidade

Ryan Gosling começou a trabalhar bem cedo, afinal tinha apenas 13 anos quando entrou na famosa temporada do Clube do Mickey, entre 1993 e 1995, que também revelou os igualmente jovens Justin Timberlake, Britney Spears, Christina Aguilera e Keri Russell. Muito discreto e determinado, o canadense seguiu trabalhando na TV e finalmente estreou no cinema aos 20 anos. A carreira meteórica deste veterano de 45 anos já teve muitos sucessos (o mais recente é Devoradores de Estrelas), alguns fracassos e certas pausas para repensar escolhas. Mas, acima de tudo, o ator sempre quis que o trabalho seja o foco de atenção, não ele. 

Tanto é verdade que quando recebeu sua primeira indicação ao Oscar - pelo drama Half Nelson: Encurralados, de 2006 - ele meio que ficou perdido com tantos holofotes. “As pessoas estão me apoiando muito e isso vai contra os meus planos. Meu plano mesmo era ser esquecido”, brincou numa entrevista para o Guardian em 2007. 

Mas mesmo ali, em seu início de carreira, não dava para esquecer Ryan Gosling. Ele já havia ganhado elogios por sua interpretação de um judeu neonazista em Tolerância Zero (2001), conquistado corações mundo afora no cultuado drama romântico Diário de uma Paixão (2004) e surpreendido pelo timing cômico na produção independente A Garota Ideal (2007). 

Rachel McAdams e Ryan, em 2005

No campo pessoal, Gosling teve um relacionamento de três anos (2005 a 2008) com a atriz Rachel McAdams, com quem contracenou em Diário de uma Paixão. O detalhe curioso é que durantes as filmagens os dois se detestaram profundamente. “Nós despertávamos o pior um no outro. Foi uma experiência estranha fazer uma história de amor e não me dar bem com a minha colega de elenco de jeito nenhum. Dois anos depois, eu a vi em Nova York e começamos a ter a impressão de que talvez estivéssemos enganados um sobre o outro”, explicou na mesma entrevista para o Guardian. 

Então, em 2007, veio o primeiro baque na carreira. Gosling foi chamado para o elenco do drama fantasioso Um Olhar do Paraíso, sob a direção de Peter Jackson (já um grande nome após o sucesso da trilogia O Senhor dos Anéis e de King Kong). Inseguro por se achar muito novo para interpretar o pai da menina protagonista (Saoirse Ronan), Gosling decidiu por conta própria deixar a barba crescer e engordar mais de 20 kg. “Não conversamos muito durante a pré-produção e esse foi o problema. Então eu simplesmente apareci no set daquele jeito e, claramente, tinha feito tudo errado. Depois disso, eu estava gordo e desempregado”, confessou ao Hollywood Reporter em 2010. Mark Wahlberg entrou em seu lugar e Gosling deu uma pausa na carreira pra pensar melhor. 

Após cerca de três anos fora dos sets, o ator voltou com tudo em 2011 com nada menos que três filmes muito diferentes entre si e de uma vez: a comédia Amor à Toda Prova (ao lado de Steve Carrell), o drama político Tudo pelo Poder (sob direção de George Clooney) e o thriller estilizado e cool Drive (do dinamarquês Nicolas Winding Refn). “Nunca tive tanta energia”, disse o ator para o New York Times em 2011. “Estou mais animado para fazer filmes do que antes. Antes, eu meio que temia isso. Era muito emocional e desgastante. Mas descobri uma maneira de me divertir enquanto faço e acho que isso se reflete nos filmes”. 

Essa fase enérgica de Gosling seguiu por todos os anos 2010: dirigiu Rio Perdido (2014), seu primeiro, e até agora único, filme; mostrou novos lados cômicos em A Grande Aposta (2015) e Dois Caras Legais (2016); foi cool e silencioso mais uma vez na ficção científica Blade Runner 2049 (2017), sob direção de Denis Villeneuve e ao lado de Harrison Ford; e voltou a derreter corações no premiado musical angelino La La Land (2016). 


Ryan e Eva nos bastidores do Tonight Show do Jimmy Fallon

Foi também quando conheceu, nas filmagens de O Lugar Onde Tudo Termina (2012), a atriz Eva Mendes, com quem casou e cujo relacionamento gerou Esmeralda e Amada, nascidas em 2014 e 2016, respectivamente. “Eu não pensava em ter filhos antes de conhecê-la, mas depois que conheci Eva, percebi que simplesmente não queria ter filhos sem ela. Houve momentos no set [de O Lugar Onde Tudo Termina] em que estávamos fingindo ser uma família, e eu realmente não queria mais que fosse fingimento. Percebi que essa seria uma vida que teria muita sorte de ter”, disse o ator, em 2023, para a revista GQ. 

Após a recepção morna de O Primeiro Homem (2018) e já disposto a passar o máximo de tempo possível com a filhas pequenas, Gosling deu uma nova pausa na carreira, mas desta vez por quatro anos. O retorno aos sets veio com Agente Oculto (2022), um filme de ação genérico dirigidos pelos irmãos Anthony e Joe Russo, mas com um elenco de peso formado por Chris Evans, Ana de Armas, Wagner Moura e Billy Bob Thornton. Tudo bem, tudo certo, Gosling estava apenas se aquecendo. 

E Ken se fez. Quer dizer, a diretora e roteirista Greta Gerwig escreveu Ken para o ator e nem ela e nem a produtora e atriz Margot Robbie aceitavam não como resposta. Barbie (2023) foi um sucesso estrondoso e Gosling mostrou que realmente sabe fazer comédia e, o melhor de tudo, sabe rir de si próprio. E ainda se apresentou ao vivo cantando “I’m Just a Ken” na premiação do Oscar em 2024. 

Enquanto todo o fenômeno Barbie tomava o mundo, Gosling já andava com a cabeça em algo muito próximo ao coração: a adaptação para o cinema de Devoradores de Estrelas, romance de ficção científica escrito por Andy Weir. O ator, que também é um dos produtores do longa, estava nesse projeto desde o início, antes mesmo da contratação dos diretores Phil Lord e Christopher Miller, e foi palpável ver a dedicação, o bom humor e o envolvimento dele na divulgação do filme. 

Devoradores de Estrelas ou La La Land 2? 

Gosling falou de Devoradores de Estrelas em tudo quanto é talk show, programa matinal, podcast e canais do YouTube que se possa imaginar. No Tonight Show do apresentador Jimmy Fallon chegou a comandar um parabéns surpresa para Eva Mendes, que estava no camarim, em uma raríssima aparição pública do casal. O resultado de um marketing tão colado no charme, no entusiasmo e na honestidade do astro fez com que o elogiado longa já tenha conseguido se tornar uma das grandes bilheterias do ano. 

A próxima aventura do ator também será espacial, só que desta vez no universo Star Wars: Starfighter, cuja estreia está prevista para maio de 2027, tem direção de Shawn Levy e quase nada público sobre a trama. “O espaço em geral sempre me interessou, é algo que quero entender e preciso sentir que estou entendendo um pouco a cada filme que faço”, disse em entrevista para a BBC, com olhos para o céu e os pés bem fincados na terra.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

margot robbie & jacob elordi, que perfis

escrevi mais dois perfis na Monet de abril. dois perfis bonitos. de uma dupla. de australianos. que interpretam um casal tragicamente apaixonado na nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, clássico 1800s da inglesa Emily Bronte reimaginado pela roteirista e diretora Emerald Fennell. mas os perfis de Margot Robbie e Jacob Elordi tem muito mais que isso. saca só.

colagem por toscographics 8bit

A DOCE VINGANÇA DE MARGOT ROBBIE

A atriz australiana driblou tentativas de transformá-la em objeto e em O Morro dos Ventos Uivantes mostra mais uma vez quais histórias quer contar

Quando Margot Robbie apareceu pela primeira vez para o grande público em 2013, seduzindo e brigando com Leonardo DiCaprio em O Lobo de Wall Street, o mundo nunca mais foi o mesmo. O impacto daquele grande sorriso e da energia solar que ele trazia junto mudou Hollywoord, mas mudou ainda mais a atriz australiana. Hoje, ao lançar O Morro dos Ventos Uivantes, sua nova empreitada como atriz e produtora, ela tem distância o bastante para refletir como esse momento de seu passado foi ao mesmo tempo empolgante e extremamente assustador. 

Margot Cathy

“Aconteceram coisas muito horríveis naquele início, tanto em termos de assédio da imprensa quanto de inúmeras ofertas para repetir o mesmo papel de ‘loura gostosa’. Lembro de dizer para minha mãe: ‘Acho que não quero fazer isso.’ E ela simplesmente olhou para mim, com a cara mais séria do mundo, e disse: ‘Querida, acho que é tarde demais para desistir.’ Foi aí que percebi que o único caminho era seguir em frente”, disse em entrevista para a Vanity Fair. 

Robbie tanto seguiu em frente que já em 2014 fundou sua própria produtora (LuckyChap Entertainment) ao lado de seu futuro marido (Tom Ackerley) e dois amigos (Sophia Kerr e Josey McNamara) com o objetivo claro de tocar projetos com mulheres protagonistas, mas também com diretoras e/ou roteiristas no comando. Decidiu que a partir daí alternaria filmes comerciais para bancar as produções independentes que gostaria de fazer. E assim foi, e assim continua até hoje. 

ALTOS E BAIXOS E MUITO ALTOS 

Após alguns filmes pequenos em 2015, Robbie entrou no ano de 2016 com duas grandes produções: A Lenda de Tarzan e Esquadrão Suicida. Neste último encontrou Arlequina, a vilã psicopata e feliz dos quadrinhos da DC que encarnaria outras duas vezes. Apesar do filme ter sido um sucesso de bilheteria e ter ganho até um Oscar (Maquiagem), Robbie afirmou anos depois que se sentiu muitas vezes constrangida com os figurinos diminutos e extremamente sexualizados que era obrigada a usar. Fez questão que não repetir esse desconforto e suas Arlequinas em Aves de Rapina (2020) e O Esquadrão Suicida (2021), dessa vez sob a direção de James Gunn, estavam muito mais vestidas e à vontade. 

Margot Arlequina

Então, no ano de 2017, foi lançado o primeiro filme produzido pela LuckyChap, o drama independente Eu, Tonya. Baseado na história real de Tonya Harding (Robbie), uma patinadora norte-americana acusada de planejar com seu marido (Sebastian Stan) um ataque à sua principal rival Nancy Kerrigan, o filme foi um modesto sucesso comercial e um grande sucesso de crítica que deu a primeira indicação ao Oscar para Robbie (já Allison Janney, que interpretou a mãe abusiva de Tonya, ganhou como atriz coadjuvante). 

Margot Tonya

Após o sucesso de Eu, Tonya e o reconhecimento do talento de Robbie, a carreira da atriz teve uma inesperada sequência de anos e escolhas ruins, ou que eram boas e fracassaram nas bilheterias, com exceção de uma participação especial em Era Uma Vez em Hollywood (2019), de Quentin Tarantino, os dois retornos como Arlequina em 2020 e 2021, e a produção de Bela Vingança (2020), o primeiro longa da amiga, roteirista e diretora Emerald Fennell (que levou Oscar de Melhor Roteiro). Nesse período, de 2018 a 2022, Robbie sentiu particularmente o fracasso de dois filmes com os quais se dedicou de corpo e alma: Amsterdam, de David O. Russell, com Christian Bale; e Babilônia, de Damien Chazelle, com Brad Pitt e Diego Calva. 

“A maneira como tento explicar este trabalho - e este mundo - às pessoas é que os momentos bons são realmente muito bons e os momentos ruins são realmente muito ruins. E acho que, se você tiver sorte, tudo se equilibra no meio”, disse para a Vanity Fair. 

XEQUE-MATE DA BONECA 

Então veio a boneca e tudo mudou. Após muito anos de tentativas de levar Barbie para os cinemas, Margot Robbie entrou em contato com a Mattel para apresentar sua visão de como seria Barbie, o filme, e impressionou os executivos da fabricante da lendária boneca. Depois fez o mesmo com o estúdio Warner e ganhou um sinal verde, inclusive com a ousada contratação de Greta Gerwig como diretora e co-roteirista (seu marido, o também diretor Noah Baumbach, seria o parceiro no roteiro). O resto é história cinematográfica com Barbie (2023) ultrapassando a barreira de 1 bilhão de dólares nas bilheterias e se tornando uma das 20 produções mais rentáveis de todos os tempos. 

Margot Barbie

No mesmo ano de 2023, a produtora de Robbie produziu o segundo longa de Emerald Fennell, o elogiado Saltburn, e a atriz tirou o pé do acelerador para cuidar da vida pessoal. Tanto fez que em outubro de 2024 deu à luz ao seu primeiro filho e conseguiu um tempo para pensar nos próximos projetos enquanto cuidava de sua produção mais importante. “As pessoas têm sentimentos fortes sobre as coisas. Mas prefiro isso à indiferença. Então, da minha parte, gosto de subverter as expectativas. É muito mais assustador, mas também é um ótimo ponto de partida”, disse durante uma entrevista antes do parto. 

Subvertendo as expectativas, Robbie escolheu dois projetos muito intensos após se tornar mãe: a fantasia romântica A Grande Viagem da Sua Vida (2025) e o drama ultrarromântico e e kitsch O Morro dos Ventos Uivantes, o terceiro longa da amiga Emerald Fennell. Em um evento na Inglaterra, a diretora se derramou em elogios para a atriz e parceira. “Ela é tão linda, interessante e surpreendente, que acho que é o tipo de pessoa que, como Cathy [a protagonista do filme], poderia se safar de qualquer coisa. Acho que Margot poderia cometer uma série de assassinatos e ninguém se importaria. E é assim que Cathy é para mim, alguém que simplesmente se esforça para ver até onde pode ir. Então, precisávamos de alguém como Margot, que é uma estrela, não apenas uma atriz incrível - o que ela é -, mas alguém que tem um poder, um poder sobrenatural, um poder divino, que faz as pessoas perderem a cabeça”.

MORENO ALTO, BONITO E SENSUAL

Da criatura atormentada de Frankenstein ao violentamente romântico Heatcliff em O Morro dos Ventos Uivantes, Jacob Elordi se firma como um dos grandes jovens atores de Hollywood

Jacob Elordi chegou a Hollywood com apenas 19 anos, o sonho de ser ator, mas quase nada de experiência. Se alguém chegasse para esse jovem australiano que pouco menos de dez anos depois ele seria não só um dos principais galãs da indústria como um ator respeitado por suas escolhas e atuações, ele daria boas gargalhadas. Mas a verdade é que Elordi se consagrou no final de 2025 ao interpretar a criatura em Frankenstein de Guillermo Del Toro, e já começou 2026 a toda velocidade ao contracenar com Margot Robbie na ousada interpretação da diretora Emerald Fennell para o clássico O Morro dos Ventos Uivantes. 

Coincidência ou não, Elordi acabou se tornando o único ator da história a participar de adaptações para o cinema de dois dos maiores romances do gótico inglês: Frankenstein, de Mary Shelley, é de 1818; enquanto O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronte, é de 1847. 

Mas o prestígio agora alcançado por Elordi começou a ser construído poucos anos atrás, mais precisamente em 2023, quando esteve nos elogiados Priscilla, de Sofia Coppola, e Saltburn, o segundo longa de Emerald Fennell. Foi uma espécie de grito de liberdade das comédias românticas juvenis que o deixaram famoso (a trilogia A Barraca do Beijo, por exemplo) e que ele detestava fazer. “Diziam que eu era ingrato, pretensioso, por reclamar. Mas me diz, como se importar com o seu trabalho pode ser pretensioso? E não estou dizendo de se importar e, conscientemente, enganar as pessoas, sabendo que está ganhando dinheiro com o tempo delas, que é literalmente a coisa mais valiosa que elas têm! Como isso pode ser algo legal?”, disse o ator em uma entrevista para a GQ, em novembro de 2023. 

Jacob Felix

E Elordi passou a procurar mais coisas legais para fazer, trabalhos que o desafiassem. Foi a versão jovem de Richard Gere em Oh, Canadá (2024), drama do renomado diretor Paul Schrader, e voltou a Austrália em grande estilo na minissérie O Caminho Estreito para os Confins do Norte (2025), uma superprodução de época. E entre esses trabalhos e a dobradinha gótica formada por Frankenstein e O Morro dos Ventos Uivantes, o ator conseguiu encaixar a gravação da muito aguardada terceira temporada de Euphoria. 

A cultuada série criada por Sam Levinson com adolescentes problemáticos de toda sorte foi responsável por lançar nomes que se tornaram grandes pouco tempo depois, tais como Zendaya, Sydney Sweeney, Hunter Schafer, Barbie Ferreira, Colman Domingo e Jacob Elordi, em um de seus primeiros trabalhos nos Estados Unidos. Em Euphoria, Elordi interpreta Nate Jacobs, o jogador de futebol americano estrela da escola, bonitão e popular. Também tem acessos de raiva perigosos, sexualidade atormentada, conflitos na família e mantém relações abusivas com suas namoradas (uma delas é Cassie, interpretada por Sydney Sweeney). 

Jacob Nate

Ser o antagonista complexo numa série de sucesso – a primeira temporada de Euphoria foi lançada em 2019 e a segunda em 2022 – foi o maior presente de início de carreira que Elordi jamais poderia imaginar. Agora, aos 28 anos, chega à terceira temporada, que estreia neste mês na HBO, com uma bagagem invejável. Seu Nate Jacobs, bem como quase todos os outros personagens, será visto em situações ainda mais complicadas na vida adulta após um salto de tempo de cinco anos. Elordi ganhou um novo presente ao poder reencontrar o personagem e injetá-lo com novas nuances que só a experiência pode dar. 

GÓTICO E ROMÂNTICO 

Tímido e consequentemente avesso a entrevistas, Elordi abriu algumas exceções nas turnês de divulgação de seus dois últimos filmes, Frankenstein e O Morro dos Ventos Uivantes. No primeiro estava ao lado de Oscar Isaac, Mia Goth ou Guillermo Del Toro. No segundo, quase sempre em companhia da conterrânea Margot Robbie. 

Jacob Monstrão

Sobre Frankenstein, que lhe deu sua primeira indicação ao Oscar, invariavelmente falava sobre as onze horas de maquiagem que tinha que passar diariamente para, literalmente, entrar na pele da criatura. “Foi o tempo perfeito. Normalmente você não tem tanto tempo durante as filmagens para realmente entrar no personagem. Então foi o tempo ideal para deixar tudo para trás e me tornar outra coisa”, explicou durante sua passagem no programa de Jimmy Fallon. 

Já sobre O Morro dos Ventos Uivantes, Elordi estava mais salto tanto por já ter trabalhado com a diretora Emerald Fennell quanto por ter se tornado muito amigo de Margot Robbie. A atriz, aliás, confessou em entrevista para a Vogue Austrália que foi ela que sugeriu Elordi para o papel de Felix Catton em Saltburn por causa de sua atuação em Euphoria. E foi no set de Saltburn que Fennell pensou em Elordi para interpretar Heatcliff em O Morro dos Ventos Uivantes, seu terceiro longa como diretora e o terceiro a ser produzido pela empresa de Margot Robbie.

Jacob Heatcliff 

Durante um festival literário na Inglaterra, Fennell confirmou que escolheu Elordi porque “ele parecia exatamente com a ilustração de Heatcliff na capa da primeira edição que li do romance”. Obcecada pelo livro e por adaptá-lo para o cinema, Fennell disse ainda que “queria criar algo que me fizesse sentir quando li o livro pela primeira vez, ou seja, algo que provocasse uma resposta emocional. Algo primitivo, sexual. Queria criar algo que fosse a experiência de ler o livro quando tinha 14 anos”. Elordi e Robbie lhe deram régua e compasso.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

tem brasileiro no k-pop

acho que teria assistido Guerreiras do K-Pop de qualquer forma porque gosto muito de animação, mas o fato de ter uma filha que amou e ficou obcecada pelo filme, pelas personagens e pela música, acrescentou uma dose extra de interesse e carinho por tudo. nem lembro mais quantas vezes assisti o longa e ouvi as músicas. e adorei todas as vezes. 

lá pelas tantas decidi que teria que monetizar isso de alguma forma e tentei emplacar algumas pautas relacionadas que mandei pra BBC Brasil. primeiro pensei em falar com as dubladoras brasileiras, mas não houve interesse. depois lembrei que o compositor da trilha sonora (não das canções) é uma brasileiro radicado nos EUA, o paulistano Marcelo Zarvos. recebi sinal verde e marquei as entrevistas. foram duas via zoom porque tinha muito assunto pra falar, tanto sobre o fenômeno das Guerreiras, mas também sobre sua carreira, o início ao lado de Supla e os filmes que fez com gente das mais alta qualidade como Todd Haynes, Antoine Fuqua, Denzel Washington, Barry Levinson, Susan Seidelman, Robert De Niro, Jodie Foster, Bruno Barreto, etc.

só que logo percebi que a BBC Brasil perderia o interesse quando soubesse que Zarvos chegou no final do processo e sem participação nos hits (aliás, quem não ouviu "Golden" em 2025 não estava vivo). dito e feito. ainda tentei emplacar em outros veículos, mas a pauta tinha ficado "velha". então editei por conta e publico aqui no Esforçado porque ninguém falou com o Zarvos aqui no Brasil e a conversa foi muito boa.

Marcelo Zarvos em seu estúdio em Nova York

GUERREIRAS DO K-POP

Como surgiu pra você o projeto do Guerreiras do K-Pop?

Foi, na verdade, o convite veio pelo estúdio que estava produzindo, a Sony. E eu estava há anos querendo fazer uma animação. Já fiz muitas trilhas, mas nunca tinha conseguido fazer uma animação. E apareceu o Guerreiras do K-Pop. Eles me ligaram, estavam precisando de uma pessoa meio que urgente pra entrar e fazer o projeto. Por uma razão ou por outra eles não conseguiram o que queriam dramaticamente na trilha, então me chamaram. Mas não tive nada a ver com as canções, elas já estavam prontas. Fiz a trilha sonora, a trilha dramática, digamos assim, onde acabei incorporando um pouco das canções. Mas foi uma coisa muito rápida. Assim, animações geralmente demoram anos, né? Eles estavam desenvolvendo esse projeto há mais de sete anos. E eu entrei, conheci eles todos em dezembro, já no final, quer dizer, foi muito, muito rápido. Trabalhei durante seis semanas em Londres, gravando, foi uma coisa louca... acontece isso de receber as coisas de trilha sonora meio que na última hora. Foi uma pauleira, mas uma daquelas que valeram muito mais que a pena. Porque fiquei muito atraído pela história. Realmente é uma história de super-heróis, mas o grande poder delas é a música. E contada pelo ponto de vista feminino, de verdade, não aquela coisa oportunista de que poderia ser um homem e nada mudaria. É um filme de super-herói feminino, assim, profundamente. 

E quando te chegaram com a proposta do filme, qual era o briefing?

A grande estrela do filme é a música K-Pop, que é um gênero que conheço razoavelmente. Não é que seja uma pessoa que ouço K-Pop minha vida inteira, mas é uma indústria muito grande no mundo inteiro, inclusive no Brasil. É um fenômeno musical muito interessante, muito específico, mas que obviamente tem uma grande influência do pop americano. Mas o briefing era explorar o poder do K-Pop, o poder artístico, emocional, dramático do K-Pop. E, como sempre faço nas histórias que trabalho, tento sempre pensar da maneira mais universal possível. Embora, obviamente, K-Pop seja uma coisa coreana, sempre também procuro ver, ao mesmo tempo, o que é universal no projeto. E eu tento entrar dramaticamente por isso. Acho que a música, e, nesse caso, a trilha sonora, que não são as canções, às vezes está usando elementos do K-Pop, mas, muitas vezes, é uma trilha mais tradicional, de uma certa maneira, uma trilha orquestral, com coisas dramáticas, emocionais ou comédia. Busco ir para esse lado de como você vai atrair pessoas que talvez não conheçam o K-Pop. Acho que o poder da história está na música, mas também está no poder dramático das personagens, como elas são construídas e como elas estão falando para a gente como seres humanos. 

Então as canções já estavam prontas quando você entrou...

Totalmente prontas, sim. Todas prontas. Porque a animação, especialmente quando o pessoal está cantando, a animação demora muito tempo. Quando comecei, a animação estava, vamos dizer, 80% lá. É um processo muito, muito demorado e mesmo uma animação que tem um estúdio por trás e toda a infraestrutura e o orçamento que tem um filme desses, demora muito. Foi incrível ver como até o final, quando a gente gravou a minha música, ainda tinha uns 20% para terminar da animação. Mas as canções já estavam prontas porque os animadores precisavam delas pra fazer a sincronia com as bocas, os movimentos. 

Bom, você entregou seu trabalho, seis semanas na batalha, entregou... E aí você só foi saber do filme quando lançou? Ou você chegou a ver alguma coisa antes?

Quando a gente termina a música, tem ainda a mixagem do filme inteiro, que é onde os últimos ajustes são feitos no som e na música. Mas mesmo ali a animação ainda não estava pronta. Assisti pela primeira vez o filme pronto, acho que em maio, junto com amigos e familiares. Não era ainda alguma coisa aberta. O filme só foi sair no final de junho. Mas logo ali percebi que a reação das pessoas estava muito forte. Pessoas que nunca tinham visto esse filme ficavam muito empolgadas... e não só crianças. Isso foi interessante. Por outro lado, minha esposa sempre fala que quando trabalho em um filme eu visto a camisa, digamos assim, de uma maneira bem forte. Mas achei mesmo que as pessoas iam curtir. 

Então você já tinha uma expectativa...

Sim, mas a Netflix não fez um marketing tão grande para o filme. Eles fizeram um marketing ok, e acho que a princípio todo mundo fichou achando que era só mais uma animação da Netflix. As crianças vão ver, os pais vão ver. Legal. E aí semana que vem tem um próximo. Só que foi crescendo. Foi um negócio muito interessante, porque foi realmente viral. Tenho filhos de 13 e 15 anos, e eles começaram a ver muita coisa no TikTok. Realmente foi uma daquelas surpresas que cada vez vai subindo mais. Não para de aumentar, né? [500 milhões de visualizações de junho de 2025 a janeiro de 2026]

 

Sim, ainda não parou. Teve um boca a boca viral que o transformou no filme mais visto da história da Netflix e suas músicas todas entre as mais tocadas da Billboard. Como você acha que aconteceu esse crescimento?

O que está acontecendo é que o filme se tornou um disco que as pessoas tocam e fica rodando. E realmente, uma das coisas que me atraiu muito no filme, quando vi, foram as canções. Especialmente “Golden”. Lembro que quando ouvi “Golden”, pensei que ela ia muito além do K-Pop, porque juntaram com uma coisa de musical mesmo. E a melodia de “Golden” é dificílima de cantar. As músicas são muito difíceis e isso também me atraiu no começo. Quando comecei a trabalhar fiz de uma maneira um pouquinho diferente do que costumo fazer. Escrevi a trilha inteira sem usar as canções e daí, quando a trilha estava emocionalmente certa e os diretores, pô, legal, a gente começou daí a incorporar as canções, as melodias, em certos lugares bem estratégicos, dentro da trilha, e virou uma coisa quase meio operática, de uma certa maneira, porque dentro dessa trilha incidental você tem o DNA e certos pedacinhos da melodia que vão aparecendo aqui e ali. Pensei, pô, legal, a gente está fazendo isso, ninguém nunca vai reparar, mas os fãs reparam em tudo. 

Marcelo Zarvos (centro da foto, ao lado de Supla) na formação original da banda Tokyo dos hits "Humanos" e "Garota de Berlim"

O INÍCIO EM SP, O REEINÍCIO NOS EUA

Queria voltar um pouco para a tua origem. Você foi estudar música nos Estados Unidos bem jovem. Você está aí há muito tempo, né?

Vim com 18 anos para estudar música. Mas comecei profissionalmente na música antes, em São Paulo mesmo, no grupo Tokyo do Supla. Já tocava piano desde os 11 anos, mas rapidamente entrei no negócio de rock. Fazia parte do grupo, escrevia uma grande parte das músicas junto e gravei os dois primeiros e únicos discos do Tokyo [Humanos de 1986 e O Outro Lado de 1987]. No primeiro disco, a gente saiu em turnê, fez aquele negócio com a Nina Hagen [“Garota de Berlim”, 1986], ia no Chacrinha e foi uma experiência incrível. Quando terminei o segundo disco estava com 17 anos e falei logo que não queria sair em turnê. Percebi muito cedo que adorava compor, adorava gravar, mas detestava os shows, as viagens, tocar a mesma coisa todo dia. Então sempre pensei em sair do Brasil para estudar música. Pensando agora que tem uma parte da minha música que tem muito a ver com sintetizadores e música eletrônica, e vem desse negócio dos anos 1980 com o Tokyo. A gente nunca esquece nosso começo, nossas primeiras influências.

E como foi esse começo nos Estados Unidos?

Antes de vir pra cá, saí do grupo e estudei um ano bem forte para conseguir entrar em alguma das faculdades que queria. Fui primeiro pra Berklee, em Boston, e depois pra CalArts, na Califórnia, onde realmente fiz minha graduação. Minha ideia foi sempre estudar trilha sonora, mas quando cheguei achei que era muito cedo, que precisava de mais comida musical, sabe? Precisava me alimentar de mais coisas. Fui, oficialmente, como pianista clássico, mas sempre compus e tocava também jazz e música brasileira. Então fui estudando e tocando, estudando e tocando, porque achei que chegaria naturalmente no caminho da trilha sonora. Acabei fazendo minha primeira trilha praticamente 10 anos depois que vim para os Estados Unidos, e foi com um filme brasileiro, o Uma História de Futebol, do Paulo Machline, um grande amigo meu. É um curta, foi lançado em 1998, e foi um sucesso enorme, foi para o Festival de Brasília, e até ganhei um prêmio. Na verdade, acho que até hoje é o meu único prêmio de música [risos]. Tenho o Calango até hoje no meu estúdio. O filme chegou a ser indicado ao Oscar de curta, foi uma coisa incrível. Dali começou minha carreira no cinema. 

Pensando que desde o início sempre foi um objetivo seu o de fazer trilha sonora... qual era seu interesse?

Antes de qualquer coisa, eu realmente amo cinema e amo cinema desde antes de amar música. Fui um mini cinéfilo, literalmente, e gostava de ficar falando, conversando com as pessoas. Minha família ficava até preocupada. Aquele negócio de você sentar e ver um filme, aquele ritual e aquela experiência, é uma coisa muito visceral para mim. Depois me apaixonei por música e foram dois os principais motivos: número um, Beatles; e número dois, as trilhas sonoras da minha infância, especialmente dos anos 1980. Tinha a do Blade Runner, porque adorava aquelas coisas do Vangelis, e obviamente as trilhas que o John Williams fazia para os filmes do Steven Spielberg. Mas o que mais gostava eram as coisas mais eletrônicas, me apaixonei por isso, tipo Jean-Michel Jarre, Tangerine Dream, Kraftwerk... adorava aquela coisa mecânica, mas com aquela estética bem eletrônica e, ao mesmo tempo, muito emocional. Fui percebendo então que as trilhas sonoras permitiam uma mistura de estilos muito grande. Então você ouvia, de repente, uma trilha com orquestra, mas tinha uma coisa de rock no meio e, de repente, uma coisa eletrônica e, de repente, virava uma coisa africana e isso me atraía muito e fazia muito sentido na minha cabeça. 

AS PRIMEIRAS TRILHAS SONORAS 

Mas você não tentou fazer algo antes de Uma História de Futebol?

Ah, sempre brinco que a primeira trilha sonora que fiz foi uma introdução para os shows do Tokyo. Ficava tudo escuro e fiz uma introdução de teclado, sintetizadores, que era uma coisa dramática, e foi a primeira vez que senti o poder da música instrumental. Porque a trilha sonora é, com poucas exceções, uma coisa instrumental, sem palavras, sem canções, mas que mexe com as pessoas de uma certa maneira. Lembro dessa experiência muito bem porque a primeira vez que fiz essa música em particular, a gente estava abrindo para um show da Nina Hagen no Ibirapuera. Depois fui falar com os músicos da banda dela, eles gostaram do clima, gostaram dessa coisa meio assim dramática, um pouquinho “scary” e tal. Foi aí que percebi que o que queria realmente era fazer era criar essas camas dramáticas, esses climas, né? Nesses anos antes de começar realmente com as trilhas, fiz muita música para companhias de dança em Nova York. Já era uma coisa mais próxima à trilha de cinema. Então veio a oportunidade de Uma História de Futebol e realmente consigo traçar tudo o que fiz em cinema a partir daquele primeiro curta que fiz com Paulo Machline. 

Olhando sua filmografia, Uma História de Futebol é do final dos 1990, né? Mas seu primeiro longa é Beijando Jessica Stein?

Não foi o primeiro, mas foi o primeiro que fez sucesso. Sim, está. O primeiro longa que fiz saiu em 2000 e se chama Tully. Foi também como conheci o meu maior colaborador, e um cara que é um gênio. Acho que no Brasil as pessoas estão começando a se ligar quem é Affonso Gonçalves, também brasileiro que mora aqui, mas ele é montador. Ele editou Ainda Estou Aqui do Walter Salles e o filme do Jim Jarmusch que ganhou Leão de Ouro em Veneza, Father Mother Sister Brother, também foi ele que montou. Ele trabalha bastante com o Jarmusch e com o Todd Haynes. No início de 2000, o Affonso estava montando um filme chamado Tully, um filme independente americano, e ele me viu tocando, naquela época ainda tocava bastante jazz, e ele me viu tocando num programa que teve nos anos 1990, do João Marcello Bôscoli, que chamava Companhia da Música. Era um programa na TV Cultura e eu conhecia o João de garoto, a gente tocou de brincadeira em umas bandas antes do Tokyo surgir pra mim. João me chamou para tocar uma música minha, mencionou no programa que morava em Nova York, e o Affonso viu. Ele estava trabalhando nesse filme e passou meu nome para a diretora [Hilary Birmingham], que me mandou um e-mail do nada. Na mensagem ela nem mencionou que o Affonso tinha falado de mim, que também era brasileiro. Bem, eu nem conhecia ele. Aí trabalhamos em Tully; The Mudge Boy [O Despertar da Adolescência, 2003, de Michael Burke], que foi para o Festival de Sundance; The Door in the Floor [Provocação, 2004, de Tod Williams]; que foi meu primeiro filme de estúdio, tinha Jeff Bridges e Kim Basinger no elenco, pude usar orquestra; e, mais tarde, ele me levou para trabalhar com Todd Haynes e fizemos juntos Dark Waters [O Preço da Verdade, 2019] e May December [Segredos de um Escândalo, 2023]. O Affonso foi meio que um anjo da guarda, colaborador e chapa amigo do peito. Devo minha carreira a ele a ao Paulinho [Machline]. Eles me abriram portas, não é? Muitas portas. O cinema depende muito disso. 

Mas, voltando à sua filmografia, fiquei muito impressionado com o tanto de coisa que você fez nesses 25 anos desde Tully. Tem ano com quatro ou cinco filmes lançados com trilha sua. É possível ver tanto um crescimento em quantidade de trabalho quanto em qualidade, já que você começou a trabalhar com gente bastante conhecida como Denzel Washington, Antoine Fuqua e Todd Haynes. Como você foi, com o perdão do trocadilho, trilhando esse caminho?

Acho que não tem muito como planejar esse caminho. Você quer trabalhar, você quer fazer o que gosta de fazer, mas não dá para direcionar. As coisas vão acontecendo. 

MAIS TRILHAS, NOVAS COLABORAÇÕES

Então, o que geralmente te chama para cada projeto?

Minha filosofia é que, quando você entra para fazer a trilha de um filme você faz parte do elenco, mas você é um ator invisível, e você pode, às vezes, estar fazendo coisas super sutis lá atrás, ou, de repente, você está na frente, aparecendo muito, como foi o caso de Segredos de um Escândalo, do Todd Haynes. Tem sempre uma influência, que pode ser desde muito mínima, efêmera e super delicada, até uma coisa muito na sua cara, muito dramática. Mas, para mim, o desafio é sempre entender o que é o projeto em si. Um dos grandes diretores com que trabalhei muito cedo na minha carreira, e foi uma sorte grande, foi o Barry Levinson [de Rain Man e Bom Dia, Vietnã – Zarvos fez a trilha de cinco filmes do diretor: Fora de Controle, You Don’t Know Jack, Incidente em Claridge, O Último Ato e Rock em Cabul]. E o Barry sempre falava assim, ‘você precisa ouvir o que o filme está te dizendo, porque o filme vai cuspir todas as músicas que não quer’. Com o Barry realmente aprendi muito essa coisa de você não ter medo de experimentar e tentar coisas malucas, e tentar coisas diferentes, porque no final é uma sinergia, não é só a música, não é só o filme. Você pode ter uma cena fantástica que, com a música certa, vai ficar melhor ainda. Você pode ter uma música fraca que com a cena certa vira uma superpotência. E o que eu sempre procuro é isso, é como trazer essa experiência emocional, e pode ser emocional, não só triste, que é o que as pessoas às vezes pensam, mas pode ser uma coisa de comédia, pode ser uma coisa de medo, uma coisa de fantasia, como o Guerreiras do K-Pop, mas é sempre procurando aquela fórmula, e não é uma fórmula, porque cada filme é diferente, mas aquela alquimia, digamos, que vai acontecer. Mesmo hoje em dia, tendo trabalhado com vários diretores, não fica mais fácil. Toda vez a gente começa do zero. Mas tive sorte também de não fazer só um estilo. Tully é um filme dramático, indie, bem triste, daí o Beijando Jessica Stein é uma comédia romântica, então gosto desse desafio. Agora, com mais 25 anos de carreira fui fazer minha primeira animação, que era uma coisa que queria muito fazer. Ainda tem várias outras coisas que adoraria fazer. 

Tiveram alguns cineastas que você trabalhou mais de uma vez, né? O Antoine Fuqua, o Todd Hayes, o Barry Levinson. Imagino que cada trabalho tenha um ponto de partida diferente, tem uma demanda diferente, cada diretor tem um estilo diferente de lidar com a trilha e de falar com você sobre a trilha. Como você definiria essas suas colaborações mais recorrentes?

Tem uma coisa muito boa de você trabalhar com uma pessoa várias vezes é que você já conhece o estilo e tem aquela linguagem que você vai desenvolvendo. Mas, ao mesmo tempo, acho que como o diretor sente a pressão neles próprios de, pô, eu tenho que fazer uma coisa diferente, não dá para ser a mesma coisa, tenho que estar me renovando, então você tem que ir nessa também com a música. Eu tento sempre pensar nos projetos como, assim, estamos começando de novo mesmo. Mas a ideia é sempre você tentar entrar na verdade dramática do projeto específico. Então, por exemplo, com o Antoine Fuqua tem dois tipos de projetos diferentes. Tem os dramas policiais como O Protetor: Capítulo Final e também documentários, alguns sobre esportes. Então a gente desenvolveu uma linguagem de esportes bem diferente do que a gente fez para os dramas policiais. Mas agora, por exemplo, estou trabalhando com ele num documentário sobre o Mandela, que é um documentário histórico, uma coisa que, na verdade, de uma certa maneira, é mais próximo do que a gente fez no Emancipação. É importante acentuar uma coisa ou outra, mas os grandes diretores com quem trabalhei eles estão interessados no que está por trás. O que eles têm em comum é que eles não querem que a música simplesmente fale, olha, aqui o cara está chorando, então vamos fazer uma coisa triste. O Todd Haynes, por exemplo, é um cara extremamente sofisticado e num projeto como o Segredos de um Escândalo, a música é uma coisa super chocante, mas mesmo assim ela está lidando com o que está por trás das cenas. Tem uma cena do filme que a Julianne Moore abre a geladeira e tem aquela música super dramática. Ela não vê nada demais na geladeira, mas com a música super dramática ele quer dizer que a personagem é muito mais instável do que aparenta, e a música está lembrando a gente o tempo inteiro que o que você está vendo ali não é exatamente o que a história é. Mas o grande desafio, pra responder à sua pergunta, é entrar na realidade específica do projeto. Quero que as pessoas lembrem da música que faço para os filmes não só pela melodia, ou o tema, mas também o que a música estava fazendo e como a música funcionava. E a gente está sempre repensando esse relacionamento. 

Tem outra coisa que percebi na sua filmografia, e isso obviamente pode ser apenas uma coincidência, é que você trabalhou com mas tem vários atores/atrizes diretores(as). Robert De Niro, Jodie Foster, Denzel Washington, Eva Longoria...

Interessante você falar isso. Sempre quis que alguém me fizesse essa pergunta e você é a primeira pessoa que fez... porque, realmente, isso foi uma coisa muito, muito marcante pra mim. Eu adicionaria outra pessoa, que não costuma ser lembrada, e que foi uma das pessoas com quem comecei, que é a Jennifer Westfeldt. Ela escreveu e protagonizou Beijando Jessica Stein e depois fiz o primeiro filme dela como diretora [Solteiros com Filhos, de 2011]. Mas, obviamente, começando com De Niro. Foi ele que me ensinou como a música pode afetar a performance de um ator porque ele sabe o poder da música. A diferença entre uma coisa virar melodramática ou uma dramática boa é a música. Muitas vezes o ator está fazendo a mesma coisa. Então, realmente, a gente passou muito tempo esculpindo. O Bom Pastor [lançado em 2006, foi o segundo longa dirigido por De Niro] é, até hoje, um dos maiores filmes que trabalhei em termos de orçamento. Tive uma orquestra enorme, muito tempo nas mãos, e o De Niro ficava tirando coisas. Ah, não, tira isso, tira aquilo, tira aquilo. E eu, às vezes, assim, falando, pô, mas o que vai sobrar? Será que vai sobrar alguma coisa? No final vi como ele estava realmente vendo como um todo, e ele, como ator, sabia que, pô, se essa música for muito pesada ela vai sugerir uma interpretação para o espectador que talvez não esteja na atuação. Aprendi muito, mas não tive coragem de falar que me tornei compositor por causa de três filmes que ele atuou: Taxi Driver [trilha de Bernard Herrmann], O Poderoso Chefão 2 [trilha de Nino Rota] e A Missão [trilha de Ennio Morricone]. 

Com Denzel Washigton já são dois filmes, né? Um Limite Entre Nós, de 2016, e Um Diário para Jordan, de 2021...

Quando trabalhei com o Denzel a primeira vez foi em Fences [Um Limite Entre Nós], filme baseado em uma peça de teatro muito famosa do August Wilson, que é uma espécie de Shakespeare americano. O Denzel dirigiu e era protagonista junto com a Viola Davis. E eram basicamente os dois, então ele criou uma coisa muito mínima. A primeira música da trilha só aparece já com uns 30 minutos do filme. Eu, obviamente, já tinha mais experiência, mas ele me trouxe mais para dentro do processo. Via na sala de edição ele estava cortando e como ele via a própria interpretação dele. Isso foi uma coisa fascinante. Ver um mestre ator refinando sua própria performance, e que já era uma performance perfeita... não, a gente vai ficar mais cinco frames aqui, daí não sei o quê, e a música... E como era sutil, e como fazia a coisa ficar mais forte com menos. O grande negócio do Denzel, e que diria também do De Niro, era que eles têm maneiras diferentes de falar que menos é mais. O De Niro chama isso de “restrain intensity”, uma intensidade contida. Sempre penso muito no De Niro e no Denzel, em tudo que faço. O que eles achariam disso que estou fazendo? [risos] 

O seu primeiro trabalho com trilha foi lá atrás com o Paulo Machline. E depois você só teve mais duas colaborações com um cineasta brasileiro, o Bruno Barreto... enfim, até agora você fez pouca coisa aqui no Brasil. O que acha disso?

Posso dizer que isso é uma das minhas grandes frustrações. Gostaria muito, tem muitos diretores brasileiros que admiro como o Walter Salles, o Fernando Meirelles e o Beto Brant e, sei lá, ainda não aconteceu. Sempre estou aberto, sempre estou curioso do que está acontecendo. Acho que tem coisas fantásticas acontecendo, tanto no cinema como na TV. Acho que a TV brasileira deu um pulo muito grande quando entraram os streamings. Tem muitas séries bacanas e diretores geniais. Mas, enfim, passei quase 25 anos querendo fazer animação e acabei finalmente fazendo, então, se Deus quiser, vou ter uma chance de trabalhar com diretores brasileiros. Vai chegar a hora. Quanto ao Bruno Barreto, eu o conheci pela primeira vez quando fui chamado para trabalhar de assistente do Eumir Deodato no filme Bossa Nova [2000]. Acabei escrevendo umas três músicas do filme, nem tive crédito, mas era uma coisa normal porque, às vezes, como assistente você escreve uma coisinha ou outra. Foi bem legal. Anos depois ele me chamou para fazer a trilha de Última Parada 174 [2008] e depois Flores Raras [2013]. Admiro muito o Bruno, ele fez coisas incríveis e tem um controle do cinema muito grande. 

TRABALHO AUTORAL 

Falando um pouquinho do seu trabalho autoral. Como se dão essas composições mais eruditas, com formações pequenas, de câmara, em meio às funções todas da vida e das encomendas e trabalhos? Como ele vai surgindo para você e como você compararia, se é possível comparar, o seu trabalho autoral com o seu trabalho de trilha sonora?

Olha, para mim é tudo uma coisa só e uma informa muito a outra. Comecei a fazer música de olho em histórias, sempre fui interessado nisso. Logo que me mudei para Nova Iorque gravei três discos, mas a gravadora tem uma coisa com alta resolução e eles se recusam a colocar os discos em streamings, então, infelizmente, essas gravações só existem em CD, o que é uma pena porque essas gravações foram meu laboratório de pesquisa. É uma coisa meio música de câmara brasileira com jazz. Um deles se chama Labyrinths [1999] e foi inspirado na obra do escritor Jorge Luiz Borges. Aliás, muito da minha música autoral vem da literatura, como por exemplo “Nepomuk’s Dances”, que fiz para um espetáculo de dança, e é inspirada em um personagem do livro Dr. Fausto de Thomas Mann, e “Olga Benário”, que fiz depois de ler Olga, o livro maravilhoso de Fernando Moraes. Então, quer dizer, história e música sempre foram uma coisa só pra mim. Falando em dança, também considero o trabalho que fiz para a dança tão autoral quanto o que fiz para música de câmara e os discos de jazz, porque na dança você, a partir de uma ideia ou um briefing, faz a música primeiro. Quero muito registrar essas músicas que fiz para espetáculos de dança. 

Tem muitas maneiras de mostrar sua voz, né?

É porque tento levar minha voz pra tudo o que faço. Uma vez jantei com o Philip Glass, cara super legal, super generoso e, obviamente, um dos meus ídolos. E ele falou que tudo que ele fazia, de um jingle a uma ópera, de uma sinfonia a uma trilha sonora, ele via tudo da mesma maneira. Que é a música dele, e que ele vai dar o melhor de si. Isso ficou muito na minha cabeça, de jogar com tudo em tudo que estiver fazendo. Porque uma das coisas interessantes das trilhas é que sua música pode existir fora dos filmes, então justamente por isso tento sempre fazer a coisa mais expressiva, mais emocional e mais musical, porque talvez vai ter uma pessoa do outro lado do mundo que vai ouvir isso daqui a 15 anos, e quero poder continuar transmitindo o que estava sentindo para essa pessoa. 

PRÓXIMOS TRABALHOS 

Para a gente encerrar, Marcelo, você mencionou esse documentário que você está fazendo com o Fuqua sobre o Mandela. O que mais você tem pela frente de trabalhos em cinema?

São dois documentários com o Antoine Fuqua, esse sobre o Mandela e outro sobre a Death Row, a lendária gravadora que lançou Snoop Dogg, Tupac e Dr Dre nos anos 1990. Também vou trabalhar novamente com o Todd Haynes em um drama com Pedro Pascal que se passa nos anos 1930 e será filmado no México. O título provisório é De Noche. Outro projeto é o novo filme do Stephen Chbosky, com quem trabalhei em Extraordinário, que antes de Guerreiras do K-Pop foi o filme de maior sucesso que fiz e tinha Julia Roberts, Owen Wilson e Sonia Braga no elenco. Esse novo do Chbosky se chama Weekend Warriors e terá o Mark Wahlberg protagonizando. Nos streamings, a Netflix deu sinal verde pra quarta temporada da série A Diplomata e continuarei trabalhando, enquanto FX e Hulu vão lançar a minissérie Cry Wolf, com Olivia Colman e Brie Larson, que foi criada por Sarah Treem, com quem trabalhei na série The Affair [2014-19]. Essas são as coisas que estão no horizonte.