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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

era uma vez uma revista de música

e taí o documentário bizz - jornalismo, causos e rock and roll. feito no esquema às próprias custas s/a, o curta de 25 minutos dirigido por almir santos e marcelo costa (scream & yell) tem edição e áudio irregulares. a parte visual também é meio capenga e nem aparecem tantos causos assim, mas é um bom registro da história de uma publicação imprescindível para o jornalismo musical brasileiro. fui leitor assíduo da lendária e primeira fase nos anos 1980, passei batido pela fase showbizz nos anos 1990 e voltei a ler e, finalmente, colaborar na última fase em meados dos anos 2000. o documentário segue mais ou menos a mesma lógica de importâncias (maior parte nos anos 80, depois anos 2000 e alguma coisa meio vaga nos anos 90). 

é bacana ver mais claramente as relações de vida e morte da revista em paralelo com o mercado musical brasileiro. nos anos 80, o apaixonado e jovem jornalismo musical feito em são paulo (alex antunes, bia abramo, etc.) em choque, pro bem e pro mal, com o pulsante e nascente rock br. a tentativa, ao fim irrelevante, de dialogar com a lógica do mercado dos anos 1990. e, finalmente nos anos 2000, o interessante encontro de várias gerações de quem fez a bizz com uma novos jornalistas, alguns surgidos já na internet, com o mundo musical descentralizado da rede e a indústria fonográfica em ruínas.



minha contribuição para a bizz nessa última fase, capitaneada por ricardo alexandre, foram fotos de shows do premiata forneria marconi e do negritude jr. (com participação dos racionais, sampa crew, etc.), um texto não publicado sobre a trilha que marcos valle fez para o fabuloso fittipaldi e uma reportagem que muito me orgulha, "conexão entre morro e asfalto".

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

jornalismo musical, esse desconhecido

foi nos meus tempos de gafieiras que comecei a perder o interesse em fazer crítica musical. geralmente gosto de ler, e mesmo quando não concordo acho interessante, mas comecei a achar bobo (eu) falar se um trabalho era bom ou não. em um mundo tão cheio de opiniões - os críticos, na maioria das vezes e em todas as áreas, disfarçam opiniões pessoais com objetividade jornalística - achei que era mais interessante falar com o artista, tratar de suas referências, de seu trabalho, e deixar para o leitor ter suas próprias opiniões em vez de sair adjetivando por aí. claro que minhas opiniões também apareciam aqui e aqui, nas entrelinhas do texto (não existe objetividade, pronto), mas aquilo já não era crítica musical. e assim meu coração acalmou. muito bem.

umas duas semanas atrás fui convidado, e nem lembro mais por quem, a participar de uma comunidade da bizz (a falecida revista da abril que colaborei uma vez em sua última encarnação; foi o texto 'conexão entre o morro e o asfalto') no facebook. sabia que a comunidade da bizz no orkut era (e acho que ainda é) bastante intensa, mas depois de uns três dias nessa do facebook simplesmente desisti e saí. muita egotrip de jornalista, papinho furado, polêmica vazia, briga de turminhas, fofoca. "brinquedo de menino", segundo bia abramo (@biawabramo). "ufc de jornalistas musicais" nas palavras de nina lemos (@ninalemos).

mais ou menos ao mesmo tempo, o pedro alexandre sanches escreveu no farofafá o texto "criolo, o esqueleto do hype" e o circo de jornalistas musicais pegou fogo. para quem não é desse mundo (99,999% do brasil), uma breve contextualização. nó na orelha, o segundo disco do mc paulistano, foi saudado por muita gente como o disco do ano e seu autor, criolo, começou a aparecer em tudo que é lugar. com o hype veio seu irmão gêmeo, o antihype. ambos apaixonados, assertivos, totais. e nesse texto, o pedro tentou entender o fenômeno, o que era e o que não era "moda", para então chegar à música (que, segundo ele, e concordo com isso, quase sempre foi esquecida nas avaliações; apenas ser pró ou contra bastava).
daniel ganjaman (@danielganjaman), co-produtor do disco do criolo e um dos linhas de frente dessa história, elogiou o texto do pedro (@pdralex) e os dois começaram um diálogo interessante no twitter, mas fernanda couto (@sete8), assessora de imprensa do artista (e de tulipa ruiz, marcelo jeneci, etc) acabou atravessando o samba e alfinetou o jornalista ao afirmar que ele não podia julgá-lo sem também ter visto sua performance no palco. nas entrelinhas desse quiprocó, nos ditos e não-ditos, a velha rixa entre imprensa e artistas. mas nesse caso específico do criolo era uma briga que vinha acontecendo nos bastidores (hype X antihype) e que acabou vindo a tona a partir desse texto.

o bicho pegou lá no facebook e foi exatamente nessa hora que saí da comunidade. não queria saber. já tinha lido muitas resenhas, reportagens e avaliações sobre o nó na orelha. algumas entrevistas também. fora inúmeras conversas (reais e virtuais) com gente de dentro e fora da cena rapper paulistana. gosto imensamente do disco. não sei se o criolo vai emplacar como artista (e não é uma capa da serafina, suplemento descolado da folha de s. paulo, ou um dueto com caetano veloso no vmb que fará isso acontecer), mas tenho certeza que nó na orelha é um disco que vai entrar para a história. a versatilidade vocal, o carisma e as letras fortes e lotadas de referências de criolo, a produção e os arranjos inspirados de ganjaman, marcelo cabral e banda. é um grande disco de gênero indefinido porque não é rap, mas é do rap que vem toda sua essência. é ótima música popular (negra, branca, índia) brasileira. mas isso sou apenas eu dizendo, cê tá me entendendo?

mas quando achei que tinha saído, "eles" me puxaram de novo. foi no sábado que @igordisco (que também escreveu sobre aqui) me passou o link para um texto do daniel ganjaman espinafrando o jornalismo musical brasileiro a partir da comunidade da bizz no facebook. ele compilou uma série de frases polêmicas, quase todas de josé flávio jr. (bravo) e algumas poucas de alex antunes, tirou algumas fora de contexto, deu aquela generalizada e desceu o pau. algumas de suas críticas são bastante pertinentes, principalmente quando fala de leviandade de certas avaliações (polêmica gera audiência, todo mundo sabe), mas seu jeito irônico-agressivo acaba deixando transparecer uma dificuldade para lidar com críticas (negativas). sem falar no velho chavão, pretensamente deslegitimador, de que todo crítico é um artista frustrado ou então de que ele "apenas" escreve, não cria.

logo depois, o marcelo santiago (@meiodesligado) postou no blog meio desligado sua avaliação pessoal (bastante ponderada) do evento e uns printscreens com a continuação desse bate-boca, agora com as principais partes envolvidas (ganjaman, alex antunes e flávio jr.), lá no facebook. tiroteio pra lá, tiroteio pra cá e se de alguma forma eu também não estivesse envolvido nessa história (ossos do ofício) teria uma preguiça desgraçada de entendê-la, principalmente por questões escancaradamente pessoais entre ganjaman e flavio jr. isso me fez lembrar uma frase do livro de anthony bourdain (ao ponto) que estou lendo: "usar a função de crítico para resolver pendências pessoais o coloca no mesmo pântano interesseiro de seus colegas que usam o poder para obter vantagens pessoais". isso vale para ambos os lados e dá pano pr'algumas reflexões.

não acredito que o jornalismo musical - essa "especialização" criada no final da década de 1960 - no brasil vá mal. acho que estamos passando por uma entressafra. os "revolucionários" das décadas de 1980 e 90 já andam meio barrigudos, mal humorados e ocasionalmente perdidos nesse mundo novo descentralizado, sem certezas. a garotada dos anos 2000 ainda precisa descobrir que música não é tudo. mas também existem pessoas de gerações distintas que já se ligaram nisso e que mesmo assim mantém aquele tesão, aquela curiosidade pelo que é produzido ontem e hoje, aqui e no mundo, e pra além de seus gostos pessoais. agora, pra mim, curiosidade e tesão são diferentes de deslumbramento e tendência. e sinceridade é mais interessante que cinismo. no mais, tem espaço pra tudo nesse mundo e é assim que tem que ser. e cada um que faça o seu filtro, que busque sua turma. como eu nunca fui de turmas...

também não acho que artistas independentes (e sua entourage) sejam coisinhas puras de deus e nem os jornalistas demônios armados de iphones. a coisa não funciona assim. todo mundo pode ser alvo de críticas ou piadas. resta saber se são boas ou não, e se você aí sabe lidar com isso. "se nem jesus agradou a todos", diria algum comentarista ululante de grandes portais.

agora, pra encerrar, que esse texto já ficou mais longo que deveria, gostaria de falar um pouquinho sobre uma das acusações do antihype criolo: a do lobby na imprensa. acho que já passou da hora de encararmos o lobby como uma coisa natural do sistema. e quando digo lobby não me refiro a jabá. tentar vender seu peixe é uma coisa. empurrá-lo contra a vontade de outrem é diferente. quer dizer, é tão imaturo fingir indignação com a existência de algo que efetivamente existe (e que, a princípio, não é errado), fora que é ingênuo achar que a grande mídia e interesses privados estão criando um monstro-produto. a grande mídia não consegue nem mais eleger presidentes, um assunto que lhes interessa diretamente, quanto mais artistas pop. fora que o tal sucesso de criolo é totalmente entre aspas. 95% do país não sabe que ele existe e ainda mais pessoas não estão nem aí para o que o andré forastieri pensa dele.

falta humildade. falta interesse. falta voltar pra rua e abrir os ouvidos. falta discutir com pessoas diferentes. sobra se esparramar na redação à espera dos discos mandados pelas assessorias ou de link exclusivos. sobra a correria para ser o primeiro a falar da novidade da hora nas redes sociais. nesse universo umbigo quem mais perde são os jornalistas que, pouco a pouco, se vêem escrevendo para seus 13 amigos de cerveja e por alguns míseros 'curtir' no facebook. exatamante como talvez eu esteja fazendo agora...

damn!

atualização em 20 de setembro: e fernanda couto e daniel ganjaman fizeram ressalvas e comentários sobre o texto na janela de comentários, mas resolvi colocar aqui também pra enriquecer a discussão e não deixar "escondido" na janela de comentários. seguem...

fernanda couto: "oi Dafne, só corrigindo, não "atravessei" nenhuma conversa entre PAS e Ganja, até porque quando direcionei uma pergunta ao PAS no sábado de manhã, Ganja não estava nem online. questionei se PAS já tinha assistido a um show e ele respondeu que não."

daniel ganjaman: "Olá, Dafne. Gostei do seu texto e apesar de discordar de certos pontos, fico feliz de ver o assunto sendo discutido assim, abertamente. Gostaria de incluir algumas ressalvas, se me permitir.

A Fernanda Couto tem toda razão de fazer a correção, já que a conversa entre ela e o PAS foi "atravessada" por mim, e não o contrário. A discussão no caso tinha foco muito mais na capa da Serafina do que um confronto entre hype X antihype. Achei pertinente dar essa atravessada pois percebi que haviam outros pontos na conversa dos dois, em função do envolvimento da Fernanda com o trabalho e a posição "antifolha" que o Pedro faz questão de ressaltar sempre que tem a oportunidade. Na minha opinião, isso de certa forma deslegitimava um pouco os discursos, mas achei tudo super saudável e natural.

Em relação ao meu texto, gostaria só de deixar claro que não disse em momento algum que "todo crítico é um artista frustrado". É fato que um trabalho depende do outro, mas acho que essa forma comum de encarar o assunto diminui (e muito) a discussão. Críticas construtivas são sempre bem vindas e os textos que mais gostei sobre o trabalho do Criolo foram também os únicos que apontaram os defeitos do disco, escritos pelo próprio PAS (para o portal ig) e pelo Arthur Dantas (para a revista +Soma). O que eu questiono ali não são críticas. São todos os pontos também apontados por você no texto, como "egotrip de jornalista, papinho furado, polêmica vazia, briga de turminhas, fofoca".

No mais, concordo com oque você falou e aceito também suas críticas ao meu texto de forma construtiva, como deve ser. Abs! Daniel Ganjaman"

terça-feira, 31 de março de 2009

samba 65

março tá acabando. e exatos três anos atrás saiu um texto meu na saudosa bizz de ricardo alexandre. a pauta veio dele: o encontro do pessoal da bossa nova com os compositores do morro, ano de 1965. e na revista ficou entre uma matéria sobre o evanescence (a capa) e uma entrevista com o fatboy slim.

um de meus textos mais longos, uma das reportagens mais complexas que tive nas mãos (e aí vai um agradecimento especial a ronaldo evangelista que ajudou a descascar o abacaxi). detalhe importante: a imagem que ilustra o texto é do indispensável acervo hermínio bello de carvalho.

CONEXÃO ENTRE O MORRO E O ASFALTO

Ou de como Zé Kéti, Nara Leão, Cartola, Carlos Lyra e outros bambas tentaram, aos trancos e barrancos, estabelecer uma ponte entre a bossa nova e o samba

As balas perdidas não mentem: o asfalto e o morro não se entendem mais, e isso não é de hoje. Mas no terreno da música tudo vai muito bem, obrigado: o samba é a voz de toda uma nova geração, da Lapa carioca até a Vila Madalena paulistana e espalhada por todo o Brasil. Hoje é fácil Marcelo D2 dizer que “Você quer sair do gueto / Mas a sua mente é o gueto / Você quer fugir do gueto / Mas o mundo inteiro é o gueto”, mas quando Nara Leão gravou, no início da década de 1960, sambas de compositores do morro então desconhecidos, como Zé Kéti, o buraco era mais embaixo. Uma cantora branca, moradora de um apartamento com vista para o mar e ligada à bem sucedida, e também jovem, bossa nova cantando sambas de compositores negros e mais velhos sobre a realidade dos morros soou estranho para muita gente. A bossa nova de barquinhos e tardinhas deveria ser engajada? O morro e o asfalto podiam se entender? A criação, em 1961, do Centro de Cultura Popular da UNE e o surgimento, em 1963, do Zicartola, a primeira casa de samba do Brasil, estabeleceram as primeiras conexões entre pontas soltas da realidade social e musical brasileira.

“Na bossa nova era muito uma questão de forma, e depois de um tempo tudo foi se tornando uma mesmice”, diz o violonista e compositor Carlos Lyra. Autor de clássicos como “Lobo bobo”, “Saudade fez um samba” e “Maria Ninguém”, gravadas por João Gilberto em seu primeiro LP, Chega de saudade (1959), Lyra foi um dos membros mais ativos e polêmicos da primeira geração da bossa nova. “A forma era importante, mas eu também queria que houvesse uma preocupação maior com o conteúdo e que tivesse realidade nas letras", esclarece, tomando para si os méritos de ter dado o pontapé inicial à criação de uma bossa nova mais “realista”.

Ligado ao Partido Comunista e ao Teatro de Arena, Lyra foi um dos fundadores, ao lado do ator e dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha), do poeta Ferreira Gullar e do cineasta Leon Hirszman, do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, o CPC-UNE, em 1961. "Fiz parte desse sonho do CPC de mudar o Brasil. Era um ambiente muito democrático e muito produtivo, apesar do pouco dinheiro que tínhamos", relembra Lyra. O CPC atuou em diversas áreas culturais, desde o cinema e o teatro até a literatura, mas foi no terreno mais acessível da música que teve seu maior cartaz. “Nosso objetivo era procurar a raiz da música brasileira nos morros e no Nordeste. Isso daria um conteúdo realista para a música que vinha da bossa nova”, diz Lyra. Era uma doce utopia este encontro sem ressentimentos entre os intelectuais e músicos burgueses cariocas e os compositores das periferias de então, mas de real mesmo aconteceu, em dezembro de 1962, a 1ª Noite da Música Popular Brasileira no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, reunindo Pixinguinha, Vinicius de Moraes e a bateria da Portela.

De fora dos movimentos estudantis e da música cantada pela Zona Sul carioca, e dentro do mundo das escolas de samba, o então pouco conhecido compositor Elton Medeiros relembra o período: “O pessoal da bossa nova tinha um interesse legítimo na realidade social brasileira e mesmo os que não eram politizados traziam uma atitude de renovação. E se provoca uma transformação cultural, tem um cunho ideológico, consciente ou não”. No entanto, não deixa de ser esclarecedor que por trás das boas intenções da diretoria do CPC existisse um discurso extremamente elitista, fruto da intelectualidade da UNE. Publicado em 1962, o Manifesto do CPC-UNE definiu a instituição como “fruto da própria iniciativa, da própria combatividade criadora do povo” para logo depois afirmar que “os membros do CPC optaram por ser povo”. Tal atitude paternalista não passava de populismo que acabava sendo revelado, sem meias palavras, em outro trecho do manifesto: “a arte do povo é tão desprovida de qualidade artística e de pretensões culturais que nunca vai além de uma tentativa tosca e desajeitada de exprimir fatos triviais dados à sensibilidade mais embotada”. Existia um grande, imenso, abismo entre o povo idealizado pela UNE e o povo real, qualquer que fosse ele.

hermínio sentadinho no palco improvisado com
nelson cavaquinho ao violão e zé keti cantando


Mas não existia nada de tosco ou desajeitado nas músicas de Cartola, Zé Kétti e Nelson Cavaquinho, presenças regulares nos shows produzidos pelo próprio CPC nas universidades. “São compositores maravilhosos, muito fortes, e foi revitalizador este encontro porque era um contraste muito estimulante”, afirma Lyra. Faltava somente um lugar para todos se encontrarem e ainda comer, beber, selar parcerias, salvar o Brasil e o mundo, fazer e ouvir música. No ano de 1963, em um sobrado na Rua da Carioca, número 53, centro do Rio de Janeiro, surgiu o Zicartola, restaurante e bar comandado pelo sambista Cartola e sua mulher, Dona Zica. “Foi a primeira casa de samba do país", afirma o jornalista Sérgio Cabral. Opinião compartilhada com o compositor, poeta e produtor musical Hermínio Bello de Carvalho: “O Zicartola era um reduto de intelectuais de esquerda, e era o centro de discussões estéticas importantes para o cinema, a dramaturgia e a música popular. Digo sempre que ali se fincaram as raízes de dois importantes musicais: o Rosa de Ouro e o Opinião, onde levado pelo amigo Vianinha, estreei como compositor”. Outro freqüentador, Elton Medeiros, chegou ao bar para mostrar seus sambas e se apresentar, mas acabou conhecendo “o pessoal da Zona Sul”. “Era um lugar para ouvir e cantar junto, mas também de trocas entre pessoas que tinham preocupações semelhantes. O pessoal do Cinema Novo, do CPC, artistas plásticos, jornalistas, escritores, sambistas e muitos outros. Nunca existiu nada parecido nem antes nem depois em todo o Brasil”, acredita.

O Zicartola não possuía luxo algum, mas tinha um cardápio com sambas de todos os tipos e idades. “O idealizador das noitadas musicais do Zicartola foi, indiscutivelmente, o Zé Kéti. Eu apenas formatei a parte musical e, inclusive, datilografava os cardápios iniciais da casa”, explicou Hermínio sobre os shows de quartas e sextas. Outros dois amigos, Sérgio Cabral e Albino Pinheiro (fundador da Banda de Ipanema), também faziam as vezes de produtores musicais. “Tinha muito improviso. Por exemplo, eu inventei a Ordem da Cartola Dourada para agraciar os convidados especiais que iam lá dar uma força pro Cartola”, seguiu Hermínio nas lembranças e Cabral completou que “foi um jeito de chamar músicos que de outra forma não iriam porque não tínhamos cachê. Desse jeito apareceram Tom Jobim, Dorival Caymmi, Ataulfo Alves, Elizeth Cardoso, um monte de gente. Aí rolava sempre uma canja”. Jovens talentos também apareciam e um deles, o tímido Paulinho da Viola, veio por insistência de Hermínio.

Casa cheia, muita música, muitos planos e em meio a toda esta movimentação Cartola via sua carreira de compositor tomar um novo fôlego, após mais de vinte anos de silêncio e pobreza. No entanto, corria 1964, o ano que viu a manhã do dia 1º de abril ser tomada por tanques em muitas capitais e os militares darem um golpe de Estado, depondo o presidente João Goulart. A UNE foi extinta (e consequentemente o CPC), sua sede foi queimada e todos os seus membros foram presos ou colocados sob vigilância. O Zicartola sobreviveu, mas com medo.

Curiosamente, a primeira alfinetada da música brasileira em direção aos militares veio pela voz de um jovem cantora estreante, Nara Leão, que lançou seus dois primeiros LPs em 1964. O LP de estréia, Nara, trouxe Nelson Cavaquinho (“Luz negra”), Zé Kéti (“Diz que fui por aí”) e a dobradinha Cartola e Elton Medeiros (“O sol nascerá”), além do primeiro hino pós-golpe, assinado por Carlos Lyra e Vinicius de Moraes (“Marcha da quarta-feira de cinzas”), com seus melancólicos versos “Acabou nosso carnaval / Ninguém ouve cantar canções”. Na seqüência veio Opinião de Nara com mais Zé Kéti (“Acender as velas” e “Opinião”) e a chegada de João do Vale (“Sina de caboclo”). Todos freqüentadores do Zicartola. Em ambos os discos uma hábil mistura de bossa nova e samba, alegria e melancolia, e a opinião de Nara, através dos versos de Zé Kéti, era bem clara: “Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião / Daqui do morro eu não saio não”.

Mas Opinião acabou indo mais longe e rachou de vez a turma da bossa nova. Em inúmeras entrevistas da época Nara renegou o gênero “alienado” e defendeu o “samba puro” e a “expressão do povo”. A réplica da turma, e de alguns setores da imprensa carioca, não tardou e a musa do protesto foi chamada de “ingrata” por cuspir no prato que lhe deu fama e “oportunista” por cantar as mazelas do povo brasileiro no conforto de seu apartamento com vista para o mar. Os irmãos Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle foram os mais diretos em “A resposta” (gravada em 1965 no disco O compositor e o cantor, de Marcos): “O samba pode ser feito de céu e de mar / O samba bom é aquele que o povo cantar / De fome basta a que o povo na vida já tem / Pra que lhe fazer cantar isso também? / (...) Falar de terra na areia do Arpoador / Quem pelo pobre na vida não faz um favor / Falar de morro morando na frente do mar / Não vai fazer ninguém melhorar”. Zé Kétti, Cartola & Cia. passavam ao largo desta discussão de comadres, afinal estavam sendo gravados, faziam shows e isso era dinheiro no bolso. Eles, que eram brancos, que se entendessem.

O cenário de repressão nas ruas deu um caráter de urgência para o show Opinião que reuniu, em um mesmo palco, a jovem branca bem nascida Nara Leão, o sambista negro Zé Kéti e o nordestino, também negro, João do Vale. Burguesia, operariado e campesinato, juntos. Uma utopia musical criada nas mesas do Zicartola por integrantes do recém-extinto CPC. Dirigido por Augusto Boal do Teatro de Arena, escrito por Vianinha e com produção musical de Carlos Lyra, o show estreou em 11 de dezembro de 1964 no pequeno Teatro Super Shopping Center, em Copacabana, e logo passou da condição de pequeno espetáculo para se transformar em evento político de amplas proporções. Ir ao Opinião significava ser contra a ditadura e a favor da democracia e da liberdade e não havia nada que os militares pudessem fazer contra o espetáculo, pois qualquer intervenção acarretaria um desgaste político que as Forças Armadas ainda não estavam prontas para bancar. Nara Leão não perdia tempo e em determinado momento do show afirmava delicadamente: “Não acho que porque vivo em Copacabana só posso cantar determinado estilo de música. Mas é mais ou menos isso, quero cantar toda música que ajude a gente a ser mais brasileiro. Que faça todo mundo querer ser mais livre. Que ensine a aceitar tudo, menos o que pode ser mudado”.

Os problemas da reforma agrária e das favelas, as desigualdades sociais e a defesa da cultura brasileira estavam representados em músicas como “Carcará”, “O favelado”, “Sina de caboclo”, “Marcha da quarta-feira de cinzas”, “Malvadeza Durão” e até “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, da trilha sonora do filme homônimo de Glauber Rocha. Porém, com pouco mais de um mês de apresentações, Nara Leão pediu licença por motivo de estafa e em fevereiro de 1965 uma cantora conhecida apenas no circuito universitário de Salvador ocupou seu lugar. Seu nome, Maria Bethânia. O registro do show em LP, no entanto, saiu logo no início de 1965 e não capturou a elogiada participação da cantora baiana.

“O Opinião tinha uma preocupação igualitária e passava um sentido de agregação muito bonito. Era o projeto de um país, um país que é nosso, não das Forças Armadas, nem dos advogados, nem do marceneiro ou do pedreiro”, explicou Elton Medeiros, que começava a ter suas composições gravadas, entre elas a nada política “Mascarada”, marcha feita em parceria com Zé Kéti. Após a saída , Nara voltou aos estúdios para gravar o LP O canto livre de Nara e registrar novas composições de Zé Kéti (“Malvadeza Durão” e “Nega Dina”) e João do Vale (“Carcará”), estouradas por causa do show-evento, além de “Samba da legalidade”, uma parceria inédita entre Carlos Lyra e Zé Kéti que foi, apesar de tantos encontros e boas vontades, a única concretização musical entre os compositores do morro e do asfalto.

Paralelamente ao Opinião, mas com ênfase no samba urbano e na cultura popular, aconteceu também o show Rosa de Ouro que reuniu uma cantora veterana (Araci Côrtes), uma iniciante com mais de sessenta anos (Clementina de Jesus) e um jovem grupo de compositores e instrumentistas liderado por Zé Kéti (Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro), tudo sob a direção e produção de Hermínio Bello de Carvalho. Menos político e mais musical, o Rosa de Ouro ganhou registro em vinil no mesmo ano de 1965 e ainda teve uma segunda edição dois anos depois. O tal grupo de acompanhamento vivia nas mesas e noites do Zicartola e devido ao sucesso do show adotou oficialmente o nome de A Voz do Morro e lançou dois discos intitulados Roda de samba também em 1965. “Os shows Opinião e Rosa de Ouro são filhos legítimos do Zicartola e foram a concretização de um casamento entre a classe média e o morro”, atestou Sérgio Cabral. Tudo parecia correr às mil maravilhas, mesmo sob o manto de uma crescente repressão, mas o que era de vidro finalmente quebrou-se.

Apesar de viver lotado, o Zicartola fechou as portas em 1965 por dificuldades financeiras, afinal Cartola sabia muito de música e nada de números (e os clientes e amigos viviam pendurando as contas além de, ironicamente, o show Opinião ter garfado uma boa parte do público do bar). Chegou ao fim, após quase dois anos de existência, o mais importante ponto de encontro cultural entre a Zona Norte e a Zona Sul. Se a bossa nova continuava a fazer cada vez mais sucesso no exterior cristalizando-se enquanto fórmula, no Brasil passou a se misturar com outros ritmos e gêneros dando início ao que se convencionou chamar de MPB. O samba estava incluído nesse balaio, mas novamente deixou de ser o protagonista com a entrada de novos atores e atrizes.

Mesmo à margem, o samba conseguiu garantir seu nicho no mercado fonográfico após as experiências do Zicartola, do Opinião e do Rosa de Ouro. Produtores como Hermínio Bello de Carvalho e os paulistas Fernando Faro, J. C. Botezelli (Pelão) e Marcus Pereira conseguiram lançar, no final da década de 1960 e durante os anos 70, os primeiros LPs solo de Cartola, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus e Elton Medeiros, entre outros. Paulinho da Viola saiu do grupo A Voz do Morro após o terceiro e último disco (Os sambistas, 1966), estreou ao lado do amigo e parceiro Elton Medeiros no LP Na madrugada (1966) e deu início a uma bem sucedida carreira solo unindo as pontas soltas do encontro do samba com a bossa nova, e ainda acrescentando sua formação de choro. O jovem estreante Chico Buarque também construiu sua carreira a partir deste encontro. Todos juntos ampliaram ainda mais a área de influência do samba dentro da música popular brasileira possibilitando que o gênero fosse misturado a outros nas décadas seguintes e surgissem provocações como as de Chico Science e sua Nação Zumbi. Afinal, não importa de que lado você samba, desde que sambe bem.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

aceleeeeeera

taí um texto que entraria na seção 'tesouros perdidos' da saudosa bizz de ricardo alexandre, ali em algum lugar de 2006. acabou ficando de fora porque uma matéria sobre o marcos valle entrou no meio do caminho...

BALANÇO A 300 KM POR HORA

O loirinho Marcos Valle há muito se bandeara da bossa nova para a soul music quando assinou, em parceria com o irmão Paulo Sérgio Valle, a trilha sonora do documentário O Fabuloso Fittipaldi em 1973. Trabalho de encomenda como muitos que iria aceitar no início da década de 1970, tais como a trilha do programa infantil Vila Sésamo (1974) e o jingle de fim de ano da TV Globo (“Hoje é um novo dia”), a trilha deste documentário pouco visto veio com carta branca da produtora independente Ipanema Filmes, dirigida pelo experiente cineasta Roberto Farias (que vinha da bem sucedida trilogia de filmes de Roberto Carlos). O resultado foi um dos trabalhos mais impactantes do autor de “Samba do verão” e despejou altas doses de soul, funk e pop em companhia do veloz Emerson Fittipaldi em seu auge. Detalhe: o filme foi roteirizado e supervisionado por um estreante cineasta vindo da Argentina chamado Hector Babenco.

Com ótimos trechos de depoimentos do próprio Emerson, da mulher Maria Helena, de amigos e parentes, o que só viria a se tornar habitual em trilhas sonoras muito tempo depois, as dez faixas do LP O Fabuloso Fittipaldi (Phonogram, 1973) são instrumentais, exceto a balada “Tema de Maria Helena”. Ao lado de Valle os músicos do célebre trio Azymuth, que acabara de adotar esse nome exatamente por causa de uma música do carioca lançada em 1969 no cultuado disco Mustang cor de sangue. “Azymuth”, a música, é a que abre o LP com o nome de “Fittipaldi show” e vem cheia de balanço, velocidade e um baixo marcadamente soul comandado por Alexandre Malheiros. A saber, os outros dois membros do Azymuth eram Zé Roberto Bertrami (teclados) e Ivan “Mamão” Conti (bateria).

A faixa de abertura serve como carta de intenções para toda trilha, mas deixando espaço para variações como na bela e climática “Acidente”, levada por tamborins, piano, violinos e um delicado violão. “Vitória” vem no mesmo embalo de “Fittipaldi show” com piano e orgão cheios de balanço, enquanto a faixa que encerra o LP, “Virabrequim” com seu metais, atabaques e novamente o baixo forte de Alexandre Malheiros, antecipa algumas levadas instrumentais da disco music. O Fabuloso Fittipaldi marcou também, junto com o disco de carreira Previsão do tempo (1973), o fim da lua-de-mel de Marcos Valle com o Brasil. O compositor carioca ainda lançaria trabalhos no ano seguinte, mas partiria logo depois para um auto-exílio nos Estados Unidos que duraria até a década de 1980.

para ilustrar, a abertura do filme ao som de “fittipaldi show”.



e a balada “tema de maria helena” com direito a fittipaldi correndo pimpão, cabelos ao vento, em câmera lenta. uau.