Mostrando postagens com marcador spring. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador spring. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

kléber, uma caixinha de surpresas

outro frila deste fim de ano foi um perfil do jogador kléber, o gladiador, para a revista oas. a entrevista foi por email, já que o atacante está morando agora em porto alegre e não houve tempo hábil para rolar o encontro, mas gostei do resultado e o texto virou matéria de capa. agradecimentos a humberto peron, bróder dos tempos da revista monet, que me ajudou com seu conhecimento de causa futebolístico (coisa que não tenho, obviamente).


GLADIADOR DE CARA NOVA

Após conquistar títulos e desafetos pelos times que passou, como São Paulo, Palmeiras e Cruzeiro, o atacante Kléber vive a serenidade de uma nova fase ao defender o Grêmio

Kléber Giacomance de Souza Freitas não aparenta os 29 anos que completou no último 12 de agosto. Muito menos ser pai de três meninas. Talvez por causa da cara de moleque ou da timidez nas entrevistas. Mas Kléber se transforma com a bola nos pés e tem sido assim desde que, ainda moleque, jogava nas ruas de terra do bairro Jardim Novo Osasco, em Osasco, Grande São Paulo.

“Ele é um jogador muito voluntarioso que não desiste nunca das jogadas. É um atacante que os zagueiros não gostam de enfrentar, pois tem força física para resistir aos encontrões com os defensores e não tem medo de cara feia”, explicou Humberto Peron, colunista de futebol da Folha.com. Isso porque, entre quatro linhas, ele é o Gladiador, apelido que recebeu na sua vitoriosa passagem pelo Dínamo de Kiev, o segundo time que jogou profissionalmente.

Nos quatro anos que morou na capital da Ucrânia, país que fica entre a Polônia e Rússia, Kléber foi figura central nos cincos títulos que o time recebeu entre 2004 e 2007. “Foi difícil no começo porque não falava nada. Tinha um tradutor, mas ele só ajudava nos assuntos do clube. Na rua, a gente tinha que se virar. Na época tinha 20 anos, e só havia morado com os pais, mas foi uma baita experiência. Não me arrependendo de nada. Aprendi a dar valor a muitas coisas. Só que o frio é muito intenso”, explicou Kléber em entrevista exclusiva.


Além dos ucranianos, outros torcedores já exaltaram a raça de Kléber. Primeiro foram os são paulinos – que o viram nas categorias de base e quando se profissionalizou em 2003 - e depois os palmeirenses, cruzeirenses e, desde novembro de 2011, os gremistas. “Nunca pensei em outra coisa que não fosse jogar futebol. Tentaria até onde desse. Se não rolasse, aí sim pensaria em outra coisa”, disse com sua habitual sinceridade.

Se a raça é uma das características do jogador em campo, a sinceridade é uma das mais notáveis extra-campo. Uma sinceridade quase suicida, afinal Kléber é de uma espécie cada vez mais rara de boleiro: o que pensa e fala o que pensa. Já se indispôs com dirigentes e técnicos, mas ultimamente ganhou a consciência de que “é o resultado de campo que prevalece [sobre qualquer crítica].  Sou um cara bastante esclarecido nesse sentido. Sei que as críticas fazem parte da vida de um jogador de futebol. Me expresso contrariamente quando vejo necessidade, mas sempre com respeito. Claro que às vezes isso tem um preço, mas é normal”.

A combinação de raça e sinceridade ocasionalmente também ganha forma de botinadas e expulsões durante as partidas. “O grande problema é que o Kléber ainda perde a cabeça e muitas vezes toma cartões vermelhos bobos que prejudicam a equipe. Também fala sempre o que pensa, o que muitas vezes, deixa os companheiros ressabiados”, explicou o jornalista Humberto Peron.

No entanto, este ano em Porto Alegre acabou lhe dando mais tempo para refletir sobre si próprio e a carreira. Não foi sua intenção, na verdade, mas a fratura da fíbula em março e uma consequente cirurgia o tiraram de combate durante o final do Campeonato Gaúcho e o início do Campeonato Brasileiro deste ano. Resultado: ficou mais tempo em casa, junto da família e ouviu até um pedido surpreendente de uma das filhas (“Pai, para de ser expulso”). Ele ri toda vez que se lembra da frase.


A lesão/afastamento da principal e mais cara contratação de um time no ano geralmente acarreta mal estar do atleta com dirigentes e torcida, mas aconteceu o contrário com Kléber, o Grêmio e os gremistas. “Desde que cheguei fui tratado de maneira maravilhosa por todos. A lesão acabou até fortalecendo o laço, principalmente com a torcida, que esteve do meu lado durante toda a recuperação. Ficar algum tempo parado prejudicou um pouco porque o problema não é a lesão em si, mas o pós-lesão. Enquanto os demais estavam ‘voando’, eu tive que começar do zero. Mas hoje sei que estou ajudando o grupo em busca dos nossos objetivos”.

E faz questão de frisar a sintonia com a torcida do Grêmio. “Você tem que ter raça e vontade para conquistar o torcedor do Grêmio. Essas características são muito valorizadas aqui. A torcida me apoia muito, o que acaba me incentivando ainda mais”.

O jornalista Humberto Peron concorda com a avaliação de Kléber: “Ele fez um bom campeonato brasileiro e seu estilo guerreiro está agradando a torcida tricolor. Acho que ele deve ficar um bom tempo no Grêmio. No próximo ano, com o time jogando a Libertadores, ele deve brilhar mais”.

O Campeonato Gaúcho e a Libertadores serão os primeiros desafios de Kléber em 2013. O Brasileirão fica para o segundo semestre. São todos títulos inéditos na prateleira do jogador, que ganhou o Paulista em 2008 e o Mineiro em 2009. Mas fora esses títulos inéditos existe uma outra importante lacuna na carreira do Gladiador, a Seleção Brasileira.

Em 2003, Kléber esteve, ao lado de Nilmar e Dagoberto, na seleção que ganhou o Mundial Sub-20. No entanto, por essas obras do destino, nunca foi chamado para a principal. “Ele é um jogador com bons recursos técnicos e que consegue jogar tanto como um homem fixo entre os zagueiros ou atuando pelos lados do campo, o que se chama de segundo atacante - penso até que nessa função ele rende mais. Porém, as chances deles na seleção são remotas, mesmo tendo condições técnicas para jogar. Acho que pesa contra ele a concorrência. Hoje ele teria que brigar por uma vaga com nomes como Neymar e Lucas”, explica Humberto Peron.

Quando o assunto é a “amarelinha”, o jogador sai pela tangente para evitar futuras portas fechadas. “Seleção Brasileira é o sonho de todo jogador e comigo não é diferente. Mas nesse momento não penso nisso. Penso em ser campeão pelo Grêmio e marcar época no clube nesse momento tão importante de saída do Olímpico e ida para a Arena”, resume diplomaticamente.

Por isso nem cogita o que vai fazer quando parar de jogar. Comentarista de TV? Técnico? Dirigente? Nada disso o interessa no momento. Ao mesmo tempo sabe que uma hora, pela idade ou por lesões, terá que se aposentar. Pelas beiradas, Kléber tem se mostrado um versátil homem de negócios com direito a uma pousada no litoral norte de São Paulo e uma série de lojas em um shopping de sua Osasco natal. “Meu pai é formado em Administração e meu irmão em Contabilidade. Tenho estas facilidades. Eles tomam conta de tudo”.

Enquanto não pendura as chuteiras, o jogador segue determinado a ganhar títulos com sua raça de sempre aliada a uma recém-descoberta serenidade. Sabe que sua categoria não é muito unida e que o dinheiro fala sempre alto, mas que também é preciso admitir os avanços do futebol nacional na última década. “O futebol daqui evoluiu bastante. Os clubes também estão se estruturando mais e isso reflete dentro de campo, pois hoje vemos grandes nomes jogando aqui, algo que não acontecia há pouco tempo”.

Mas Kléber não seria Kléber sem deixar de apontar criticamente o que ainda pode melhor. “Temos um problema com o calendário. Vamos terminar 2012 com quase 80 partidas na temporada. Isso não existe na Europa, por exemplo”. Então, de repente, quase é possível imaginar um futuro no qual o jogador seja presidente da CBF. E com a mesma cara de menino de agora. Quem sabe?

sexta-feira, 22 de junho de 2012

caio blat não é mais um menino

taí outro frila que fiz antes da entrada na istoé, dessa vez para a revista de bordo da trip linhas aéreas. caio blat estava em um batidão de entrevistas e a nossa conversa durou pouco mais de dez minutos (por isso não tem nenhum material extra). e foi durante a igualmente breve sessão de fotos para a revista, feitas por érico hiller, que fiz essas que ilustram o perfil.



CRESCENDO NO TRABALHO

Um dos atores que mais trabalha no cinema brasileiro, Caio Blat lança dois longas ao mesmo tempo e comemora a maturidade de seus novos personagens

Caio Blat está cansado. Dormiu pouco, acordou no Rio de Janeiro, pegou ponte aérea e veio até São Paulo para divulgar Uma Longa Viagem, novo longa de Lúcia Murat. Poucas semanas antes estava em outro batidão de entrevistas, dessa vez sobre Xingu, de Cao Hamburger. Sem falar que é pai de um menino de 2 anos, Bento, primeiro fruto de seu casamento com a atriz Maria Ribeiro. Com tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, não é surpresa lhe flagrar soltando um ou outro bocejo entre perguntas e respostas.

“Fazer um filme é um esforço tão grande, um desgaste tão descomunal, que normalmente quando termino um me dá vontade de ir para o extremo oposto”, revela sobre as diferenças entre os dois filmes que protagoniza e que chegaram juntos aos cinemas. Xingu é um épico sobre a expedição dos irmãos Villas-Bôas por desconhecidas terras indígenas nos anos 1940, com grande elenco e filmagens em externas. Já Uma Longa Viagem é um documentário pessoal, no qual Blat, sempre sozinho em cenas filmadas dentro de um casarão, interpreta as cartas escritas na década de 1970 pelo irmão da cineasta Lúcia Murat em suas perambulações pelo mundo. Essas cenas se alternam com imagens de arquivo e entrevistas com o próprio Heitor Murat.

“Minha carreira é pautada por essa busca pela diversidade. Quando termino um filme de violência quero fazer um de amor. Quando termino um de amor quero fazer, sei lá, um documentário. Esse é um dos valores que me move”, e por isso acabou desistindo de atuar em A Montanha, de Vicente Ferraz, sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial (Daniel de Oliveira entrou em seu lugar). Seria muito parecido com sua experiência em Xingu e o deixaria outros meses longe do filho pequeno.


Foi assim que ele partiu de uma grande aventura histórica para essa “viagem absolutamente intimista” retirada do baú de memórias de Lúcia Murat e seu irmão Heitor. “Fiquei comovido com o convite porque o material com que ia trabalhar eram cartas muito íntimas com histórias familiares de muita dor, dificuldades, perdas... era como se ela me chamasse para dentro da família.” E lá se foi Blat ser o irmão mais novo, aquele que mandado a Londres para não se meter na luta contra a ditadura – a irmã Lúcia foi torturada e ficou presa por 3 anos e meio – acabou por cair no mundo em busca de sua própria identidade. O que os irmãos descobriram em suas jornadas e o que se perdeu no caminho calaram fundo no ator. “Foi uma surpresa ver uma pessoa que passou por processo tão maluco de adoecimento e alienação se revelar de uma tremenda lucidez e uma auto-ironia muito forte. Não foi à toa que ele queria ir pra Índia, afinal lá os loucos são considerados iluminados. O Heitor questiona nossa sociedade de uma forma muito genial e autêntica.”


Mas Uma Longa Viagem marcou também o reencontro de Blat com uma época que muito lhe interessa e na qual esteve outras vezes, afinal o curta O Quintal dos Guerrilheiros (2005) e os longas O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006) e Batismo de Sangue (2007) também se passam entre o fim da década de 1960 e início dos anos 70. “É que [nessa época] tem essa predisposição de ir para o mundo, de questionar tudo e todos, de querer romper com a família e as instituições, novas formas de consciência, novas formas de comportamento... acho que a minha geração [ele nasceu em 1980] que já cresceu na democracia nunca vai ter a dimensão do que é viver em um país sob a ditadura, de ter que lutar por liberdade de expressão.”

Esse movimento pendular de uma época entender a outra, de uma geração dialogar com outras, sempre o acompanhou. Foi assim com sua paixão pelos livros desde os tempos de criança, começando pelos romances de mistérios e crimes escritos por Agatha Christie (1890-1976) e seguindo pela poesia de Castro Alves (1847-1871) e Álvares de Azevedo (1831-1852). Lendo sempre e trabalhando muito, Blat foi construindo uma carreira variada, com novelas para toda família (Um Anjo Caiu do Céu, Da Cor do Pecado e Caminho das Índias), filmes densos (Lavoura Arcaica, Quanto Vale ou é por Quilo? e Bróder), trabalhos mais leves (O Bem Amado, Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos e As Melhores Coisas do Mundo) e até, espírita que é, longas que versam sobre sua crença (Bezerra de Menezes - O Diário de um Espírito e As Mães de Chico Xavier).

“Comecei muito novo [a atuar] então meus trabalhos se aproveitaram dessas diversas fases. Tinha uma cara de menino, então isso me manteve durante muitos anos fazendo personagens que tinham certa pureza, mas também fiz filmes fortes com diretores com linguagens muito diferentes como Cláudio Assis (Baixio das Bestas) e Hector Babenco (Carandiru), que inclusive não se bicam”, relembra.

Após lançar Xingu e Uma Longa Viagem, Blat aguarda a finalização de Corpo Fechado, o primeiro longa de Luiz Henrique Rios, diretor de novelas da Rede Globo, baseado em contos do livro Sagarana de Guimarães Rosa. Também está filmando A Pele do Cordeiro, novo filme de Paulo Morelli (Cidade dos Homens), e daqui alguns meses voltará a colocar os pés no Projac para atuar em Lado a Lado, novelas da faixa das 6.

“Essa trajetória me enriqueceu muito, ajudou a criar minha própria linguagem e me deu vontade de interferir mais no processo, tanto que dos últimos sete ou oito filmes que fiz também sou produtor associado. Fora que de uns quatro ou cinco anos para cá comecei a interpretar adultos e foi uma conquista importante. Alcancei uma maturidade nos personagens”, explica o jovem adulto que teima em esconder com uma vasta barba sua eterna cara de menino curioso.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

profissão? ser outro

taí o primeiro perfil que fiz nessa minha volta ao maravilhoso mundo do jornalismo freelancer: o ator caco ciocler para a revista voetrip. a entrevista rolou em sua própria residência, em são paulo, e durou pouco mais de uma hora. ótimo quando temos tempo, maravilha quando podemos nos perder entre um assunto e outro. a deixa era o lançamento nos cinemas do longa dois coelhos (que, infelizmente, ainda não assisti) e a estreia de seu monólogo adaptado do conto a construção, de franz kafka (é a sua primeira produção no teatro, a partir do dia 10, no sesc pompéia). e pouco antes da entrevista em si rolaram as fotos sob o comando de kiko ferrite, amigo dos tempos da sociais na usp e a primeira pessoa com quem trabalhei, lá em 1999, como assistente de fotógrafo (fazia um tempão que não nos encontrávamos). gente finíssima e grande fotógrafo. no mais, o texto que segue é a versão original, um terço maior da que mandei pra revista.


UM HOMEM DE SORTE


Elogiado pela crítica e querido pelo público, o ator Caco Ciocler revê sua trajetória enquanto encara novos desafios no cinema, o filme de ação Dois Coelhos, e no teatro, o monólogo A Construção


Por muito pouco a carreira de Caco Ciocler não virou outra coisa. Hoje, aos 40 anos, consagrado no teatro, cinema e televisão, o ator sabe que alguns dos trabalhos-chave que fez só aconteceram por coincidências muito loucas do destino. Não sabe explicar a razão, mas agradece. Todos os dias. “Tenho muita sorte. Quer dizer, não sei se é sorte ou se é projeção desse meu plano interno, mas uma coisa foi levando a outra. Alguém me via em um trabalho e me chamava para outro”, relembrou no sofá de sua sala de TV. Durante pouco mais de uma hora de conversa, o paulistano foi listando uma série de encontros que mudaram sua vida, causo a causo. Um pouco de tudo que o fez chegar até aqui.


Judeu de família tradicional, Carlos Alberto Ciocler começou a brincar de atuar na pré-adolescência, mas dos 11 aos 15 anos, o teatro era apenas mais uma das muitas atividades do fim de semana. Disciplinado, o garoto ainda dividia seu tempo com futebol, atletismo, natação e dança folclórica. No entanto, o tablado começou a ocupar mais tempo no sábado, depois no domingo e logo até os dias de semana tinham alguma tarefa. “O teatro na Hebraica era um teatro de formação. Não era uma coisa de montar peças. A peça era uma consequência do trabalho”, e diz que apesar do fascínio por atuar nem passava pela sua cabeça de garoto abraçar o ofício profissionalmente.


De uma forma ou de outra, seguiu atuando e trabalhando em outras funções na escola de teatro da Hebraica até receber um convite para protagonizar uma montagem de Equus [peça de Peter Shaffer]. Tinha 17 anos. “Quem me chamou foi o Moisés Miastkwosky... ele sempre reclama que o nome dele não aparece nas entrevistas, mas também, com um sobrenome difícil desses... enfim, era uma peça muito forte e o personagem também tinha a minha idade. Só sei que ocorreu ali uma catarse qualquer que vi que algo estava acontecendo comigo. E ainda tive a sorte de ter a presença de um crítico da Veja.” Essa foi a primeira coincidência-sorte da carreira de Ciocler, afinal o jornalista ia assistir uma peça com Antônio Fagundes no teatro ao lado. Mas chegou atrasado, e como Fagundes não deixa ninguém entrar após o terceiro sinal, ele foi ver a montagem amadora de Equus. “Saiu uma notinha elogiando a peça e falando pra prestarem atenção no menino Caco Ciocler”, diverte-se o homem Caco Ciocler.


Mas essa notinha não era sólida o bastante para lutar contra pressões familiares e quando completou 18 anos, Ciocler entrou em Engenharia Química na USP. Seria uma outra vida, nada disso de fingir ser outras pessoas. Então veio um novo convite transformador: participar da montagem do musical Um Violinista no Telhado com a participação de não-atores da comunidade judaica de São Paulo. “Durante a temporada, isso em 1993, a [atriz] Riva Nimitz faleceu e o salário dela veio pra mim. Foi a primeira vez que ganhei dinheiro fazendo teatro. Coincidência ou não, o diretor da peça, o Iacov Hillel, também era diretor da Escola de Arte Dramática, e ficou me estimulando a entrar na escola.” No ano seguinte, Ciocler entrou na EAD e durante algum tempo conseguiu manter os dois cursos, mas aí veio 1995 e bagunçou tudo em sua vida.


Vieram as duas primeiras peças profissionais, ambas infantis, e numa delas conheceu e começou a namorar a atriz Lavínia Lorenzon. As peças lhe deram os primeiros prêmios como ator, enquanto Lavínia engravidou de Bruno, hoje com quase 16 anos. Uma semana após saber que seria pai, Ciocler recebeu um convite para fazer um teste para o que seria sua primeira novela, O Rei do Gado (alguém da TV Globo o viu numa das infantis). “Em 1995 aconteceu tudo. Ser pai, sair de casa, constituir família, decidir o que seria profissionalmente. Foi uma época de muita tensão, ainda mais porque depois que acabou O Rei do Gado não fui contratado”, mas volta a falar de sorte, pois as peças infantis que geraram toda essa história eram produções do Sesi, o que garantiu carteira assinada para o jovem casal de atores sem nada nos bolsos e um plano de saúde que cobriu todo o primeiro ano do bebê (o casamento, no entanto, não durou muito).


“Não, não foi natural fazer novela. Nem foi relaxado. Hoje tenho plena consciência disso. Não tinha noção alguma, nunca tinha feito televisão. Não foi natural me ver pela primeira vez. Mas fazia parte de um projeto de vida que tinha que dar certo”, e tinha mesmo porque a família de Ciocler não gostou nada dessa história do caçula com uma não-judia e a relação ficou estremecida por anos.


Nessa correria de começo de carreira, Ciocler lembra que foi Herval Rossano, veterano diretor de TV, que fez com que, pouco mais tarde, a Globo lhe oferecesse o primeiro contrato de três anos. Lembra também de alguns episódios do programa Você Decide, umas peças de teatro, aulas, nada de cinema, e uma sensação de que as coisas não iam para frente. Então, nova virada do destino em 1999: “A Denise Saraceni estava vendo os testes de maquiagem de O Rei do Gado para um novo trabalho e me viu passando no corredor. Disse que ficou pensando de onde me conhecia e quando lembrou que era da novela me chamou para fazer o Bento Coutinho na minissérie A Muralha. E esse foi personagem que me lançou. A partir dele tudo mudou. Também foi uma sorte.”


Mais ou menos na mesma época, a atriz Maria Zilda Bethlem estava produzindo um longa, Minha Vida em Suas Mãos, e ainda não tinha o protagonista. Uma certa noite sonhou com o nome ‘Caco Ciocler’, acordou com esse nome na cabeça, mas não sabia quem era. Saiu perguntando para amigos que acabaram por lhe dizer que era um ator que estava no ar em A Muralha. Começou então a assistir a minissérie e teve certeza que seu protagonista estava ali. “Pelo menos foi essa história que ela me contou”, e dá uma risada. Minha Vida em Suas Mãos foi seu primeiro longa a chegar aos cinemas e pouco depois saiu Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, cujo convite veio até antes, mas que acabou sendo lançado posteriormente. Pronto, Caco Ciocler já podia se orgulhar de trabalhar em teatro, televisão e cinema. A partir daí tudo começou a andar mais rápido.


Vieram novelas como Chocolate com Pimenta, América, Páginas da Vida, Duas Caras e Caminho das Índias; as minisséries Quinto dos Infernos, JK e A Cura; e filmes como Desmundo, Olga, Quase Dois Irmãos, Quanto Valeu ou é por Quilo? e Sexo, Amor e Traição. E teatro sempre, obviamente. “Aprendi com o tempo a ter prazer na TV e cinema. Isso demorou um pouco. Sofria pra fazer televisão no começo, sofria muito pra fazer cinema. Sofria no sentido de ingenuidade mesmo. Porque na minha escola, que era do teatro, tinha essa história do processo, né? A televisão não tem esse tempo. Por outro lado, aprendi a exercitar rapidez de raciocínio e como você consegue se ver dá tempo de consertar uma coisa ou outra.”


montagem caseira das páginas da reportagem na voetrip de fevereiro


E então, depois de tudo isso e agora nesse início de 2012, o ator só tem cabeça para duas coisas: o lançamento do longa Dois Coelhos, filme de estreia do diretor Afonso Poyart, e a estreia em São Paulo do monólogo A Construção, baseado em conto de Franz Kafka e sua primeira produção em teatro. Fora isso, Ciocler cita dois filmes já prontos (Meu Pé de Laranja Lima e Disparos), dois que serão filmados ainda esse ano (De Menor e o novo de José Eduardo Belmonte, ainda sem título), e um negócio fora dos palcos e estúdios, o restaurante Biondi, no qual é sócio com o cunhado Bruno Previato (Ciocler está casado há quatro anos com a vídeo-artista Marina Previato). Enfim, muita coisa na cabeça.


“O que me cativou no Afonso foi que ele é muito cheio de paixão, de uma ingenuidade gostosa. Gosto de fazer filmes de diretores estreantes porque encontro essa possibilidade de um diálogo maior. Odeio quem vem com filme pronto na cabeça, desenhadinho. E o roteiro era muito interessante, exigia uma atenção, uma participação do leitor. Não era um roteiro passivo. É um filme que exige uma não-passividade do público. Se o público ficar comendo pipoca não vai entender. Gosto disso”, diz sobre Dois Coelhos de ação com muito tiroteiro, efeitos especiais, traições e um clima pop raro de se ver no cinema brasileiro. No filme, ao lado de Ciocler, também estão Alessandra Negrini, Fernando Alves Pinto e Marat Descartes.


A Construção não poderia ser mais diferente. “Foi na análise, uns três anos atrás, que descobri esse texto do Kafka. Eu estava trabalhando há tempos em um assunto íntimo e meu analista me indicou o texto. Fiquei louco.” A princípio pensou em adaptá-lo para cinema, mas a tarefa pareceu impossível. Depois pensou em unir teatro e cinema com ajuda do amigo, também diretor e ator, Gero Camilo, mas as agendas não bateram. Então pensou em Roberto Alvim que o havia dirigido em outro monólogo, 45 Minutos. “A Construção é a história de um bicho, uma toupeira, de um rato, ninguém sabe direito o que é, e que vive em um buraco cavando alguma coisa. Eu faço o Kafka no escritório no momento em que está escrevendo A Construção. A criação desse texto é a própria metamorfose do Kafka nessa criatura. Acho que a gente acertou nessa escolha.”

De todo esse caminho, de tudo que fez de certo e errado, Ciocler aprendeu, com ajuda da análise, que era preciso “deixar de atender a demandas alheias. Não tenho mais que me preocupar com a construção de uma carreira. Estou tranquilo. E isso é muito gostoso.” Volta então a pensar em A Contrução, trabalho que cada vez mais parece ter sido feito sob encomenda para esse momento do ator. “O fato de estar sozinho no palco é também um sinal de maturidade, estou chamando pra mim a responsabilidade do risco. É um tremendo salto no abismo e é o que me restava fazer. Pode dar errado, posso me esbotecar... não sei se existe essa palavra [risos]... posso me esborrachar no chão, mas o salto já valeu a pena.”


e alguns instântaneos dos bastidores da sessão de fotos

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

nada mais irritante

encontrei uma única vez com fernanda young para um perfil publicado na edição de dezembro de 2006 da tam magazine. foi em um complexo de estúdios, ali na rua turiassu, onde era gravado o programa irritando fernanda young (2006-10). para minha surpresa na época, a conversa não poderia ter sido melhor, mais franca e solta. e ainda acompanhei a gravação do programa com a deborah secco. o resultado foi um texto que gosto até hoje (nem sei porque demorei tanto para colocar aqui). ah, uma breve atualização daquele final de 2006 para esse começo de 2012. fernanda young escreveu mais dois livros, posou para a playboy em 2009 sob a mira de bob wolfenson, apresentou outro programa (duas histéricas), escreveu outras séries e especiais para tv (o sistema, nada fofa, separação?! e macho man) e um novo capítulo cinematográfico na saga de rui e vani (os normais 2 - a noite mais maluca de todas), e ainda adotou duas crianças (já tinha gêmeas do casamento com o roteirista e parceiro alexandre carvalho). detalhe: o título do texto veio da série de retratos que a cia. de foto tirou na época.



UMA FLOR FEITA DE MUITAS PALAVRAS

O complexo de estúdios onde é gravado Irritando Fernanda Young está em processo de ampliação e os entulhos se acumulam sob uma escada, mas no camarim refrigerado tudo parece tranquilo. Por uma janela é possível acompanhar o silencioso frenesi da equipe nos últimos retoques para mais um dia de trabalho na segunda temporada do programa que vai ao ar nas noites de domingo do GNT. Agitada como parece ser o seu costume, a escritora, roteirista e apresentadora recebe o repórter acompanhada de sua irmã e braço-direito, Renata, com uma preocupação martelando a cabeça. “Sempre fico na dúvida se não estou simplesmente ridícula”, diz sobre as camadas de maquiagem necessárias para as luzes da televisão. A irmã lhe tranquiliza e ela senta, ainda agitada, no sofá. Gravando.

“O Saia Justa era bem mais fácil pra mim. Ia totalmente despreparada e às vezes cometia erros medonhos, mas fazia parte porque dramaturgicamente imaginava que o programa devia ser uma conversa entre amigas. Era como sentia e vivia aquilo, falando coisas interessantes, comoventes, falando abobrinhas”, e dá uma pausa nas boas lembranças de seus três anos ao lado de Rita Lee, Marisa Orth e Mônica Waldvogel, a primeira geração do programa. Corta para a câmera 2. “Hoje recebo convidados e tenho que estar preparada. Sinto que estou melhor como entrevistadora. Na primeira temporada era tudo mais anárquico e eu interrompia mais, falava muito de mim... o que continuo fazendo porque sou uma pessoa muito empírica. Faço isso na minha literatura, na TV, como roteirista e apresentadora. Não eliminei essa minha verborragia, esse meu eu egocêntrico e opinativo”, segue em desabalada carreira. Pausa para os comerciais.

Na primeira temporada do programa, a niteroiense radicada em São Paulo por opção e identificação entrevistou figuras tão diversas quanto Fábio Assunção, John Casablancas, Selton Mello, Rita Lee e Daniel Filho (que dirigiu recentemente Muito Gelo e Dois Dedos d’Água, roteiro seu com o marido e parceiro Alexandre Machado). O ecletismo foi aprofundado na segunda temporada que contou com as presenças de Ney Latorraca, Amaury Jr., Eliana, Deborah Secco, Alexandre Herchcovitch e Supla. Volta para a câmera 1. “Seria incapaz de falar com gente que não me interessa, portanto o que todas essas pessoas têm em comum é o fato de me intrigarem de alguma forma. Adoro conversar, adoro escutar os outros e pago por uma boa conversa. É onde tiro os meus insights”, explica. Corta para um close na câmera 3.

“Acho o programa genial. Se é ou não é, não importa. Você não pode fazer nada sem achar genial. Se não acredito porque vou dar a cara a tapa? Mas depois desta temporada gostaria de fazer algo mais quente, algo nas férias sobre as férias. Carnaval na Bahia ou em Olinda, por exemplo”, e dá um sorriso enigmático. Zoom in. Mas Fernanda Young gosta de carnaval? “Não gosto porque não sou aceita, não sambo, sou cheia de manias e hipocondrias. Tudo que não gosto é simplesmente por causa de rancor. É apenas uma reação à rejeição, mas vou começar a ter umas aulas para sambar. Quem sabe descubro que o carnaval é genial”, revela carnavalizando o próprio mau-humor. Vai para a câmera 2.

O lado conhecido de Fernanda Young é este, o do riso a partir de uma afiada observação do cotidiano popularizado pelos seriados televisivos A Comédia da Vida Privada, Os Normais e Minha Nada Mole Vida. Mas seu combustível é mesmo a paixão. Pela comédia e pelo cotidiano, claro, e acima de tudo pela palavra, presença constante, direta e torrencial em seus roteiros e nos sete livros publicados. “O que faço com mais prazer é escrever romances, mas fazer TV não é um bico. Adoro, sou fascinada pela TV. Fico boba com gente que ainda tem preconceito, porque não só acredito na TV como faço com ideologia. Só que os burros, e eles são muitos, vêem isso como desqualificador para minha literatura. Não sou uma pessoa idônea intelectualmente porque trabalho na Rede Globo... pelo amor de Deus!”, e faz uma careta, língua de fora. Sobem os letreiros.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

marina, cuba e brasil

fazia tempo que não recuperava nada do baú, então segue aqui um perfil que fiz de marina de la riva para a edição de agosto de 2007 da saudosa tam magazine. era época de lançamento de seu ótimo disco de estreia e de lá pra cá a cantora participou de muitos shows do projeto 3namassa (o que acabou lhe garantindo uma participação no especial mtv apresenta: sintonizando recife (2008) e lançou um dvd próprio (ao vivo em são paulo, 2010), entre outras coisas que não faço ideia. mais novidades sobre ela no final do post.


ATENÇÃO! CANTORA EM MOVIMENTO

O tempo fechou. Assim de um dia para outro o sol desapareceu e uma garoa ameaçou cair. O resultado direto destes humores da natureza foi a transferência da entrevista e sessão de fotos, anteriormente marcada no Parque do Ibirapuera. Por sugestão da cantora Marina de la Riva mudamos de mala e cuia para um lugar totalmente diferente, uma loja de roupas femininas nos Jardins. “Tem um café lá dentro, é tranqüilo e bonito também”, explica via celular. Estreante em disco, mas de sólida carreira nas noites paulistanas, Marina chega toda sorrisos apesar do clima esquisito lá fora. Talvez esteja feliz pela ótima receptividade de seu trabalho solo. Talvez a moça seja assim naturalmente. Tudo é talvez até a conversa começar.

“Os senhores vêm sempre aqui?”, brinca ao oferecer um copo de água ao fotógrafo e ao repórter. É que a copeira não aparecia e Marina resolveu ir para trás do balcão e fazer algo. Sede é fogo. “A música sempre foi um negócio tão importante pra mim que não pensava em me profissionalizar. Era uma intimidade com a família, eram os discos da minha avó, uma música que meu pai cantava. A música era como uma placenta passando informações emocionais e intelectuais. Uma forma de viver a saudade deles”. Saudades de Cuba. O pai e uma parte da família paterna da cantora saíram da ilha em exílio e vieram dar com os costados em Baixa Grande da Leopoldina, município de Campos dos Goytacazes (RJ). A mãe mineira também estava pelas bandas e assim Marina de la Riva nasceu.

Mas antes da música sair de sua esfera íntima, Marina passou cinco anos fazendo faculdade de Direito. Estudava as leis à noite e durante o dia trabalhava com a família em uma criação de búfalos. Adorava os búfalos, mas não as leis. Após se formar, a vida de Marina sofreu a primeira virada: casou, mudou-se para São Paulo e teve um filho (que hoje tem 11 anos). “Aí, depois de um tempo, separei, mas continuei em São Paulo. Pensei, vou aproveitar essa cidade da melhor forma possível. Fiz aulas de canto lírico e comecei a cantar com algumas bandas para me encontrar musicalmente. Geralmente cantava jazz. A última em que cantei era muito interessante, chamava-se Alta Fidelidade e fazia um jazz eletrônico. Quero muito fazer um trabalho paralelo com eles porque o som é eletrônico, mas muito orgânico, com metais, bateria e um baixista incrível”.

Só que faltava algo. Não era isso ou não era bem isso. E em 2004, Marina teve a resposta em mais uma virada na sua vida. “Fui à premiação do Grammy e vi o show do [pianista cubano] Bebo Valdés com o [cantor espanhol] Diego Cigala. Nem consegui ver direito o show porque chorei o tempo todo. Ali, naquela hora, entendi o que estava doendo tanto em mim e o que tanto procurava fora, sendo que a história era dentro. No vôo de volta ao Brasil peguei um caderno e escrevi todo o projeto deste disco: onde ia gravar, como ia gravar, a qualidade dos músicos, a sonoridade, o tipo de microfone, o repertório, o que era cubano gravaria em Cuba, o que era brasileiro no Brasil”. A princípio, Marina não iria gravar nada brasileiro, mas quando pisou em solo cubano sentiu vontade de colocar seu lado materno para cantar. Viu que precisava unir musicalmente as duas pontas de sua vida e seguir em frente.

Peraí, mas não rolava nenhuma música cubana em seus tempos de cantora da noite? “Verdade verdadeira? Não. Quer dizer, de vez em quando alguém pedia porque sabia da minha família, mas essas músicas eram íntimas demais. Nunca neguei minha raízes cubanas, afinal sempre que me pediam eu cantava, mas não achava que tinha quer cantar aquilo. Era como uma carta da avó que você não deixa todo mundo ver. É uma coisa sua, e eu adoro a reserva, acho que fortalece o espírito”.

Esta reserva unida a um talento natural fez com que a cantora conseguisse reunir em seu disco de estréia figuras como Davi Moraes, Pepe Cisneros, Webster Santos, Toninho Ferragutti, Papi Olviedo, Ricardo Castellanos e o convidado especial Chico Buarque. E não é todo dia que se pode ouvir, em um mesmo disco, Ernesto Lecuona (“Mariposa”), Dona Ivone Lara (“Sonho meu”), Chano Pozo (“Tin tin deo”), Sivuca (“Adeus Maria Fulô”), Miguel Matamoros (“Juramento”), Silvio Rodríguez (“Te amaré y después”), Ernesto Grenet (“Drume negrita”) e Joubert de Carvalho (“Ta-hí! (Pra você gostar de mim)”). Marina de la Riva conseguiu costurar dentro de si e registrou harmoniosamente em disco duas das culturas musicais mais fortes do mundo. Tem motivos de sobra para distribuir sorrisos em dias nublados.

“A música é o que me interessa, por isso não sou restrita. Precisava escolher uma fotografia, uma identidade verdadeira, para me apresentar. Acho que o processo criativo é como um trem, uma Maria Fumaça... adoro Maria Fumaça... ela é muito pesada e difícil de colocar em andamento, mas depois existe tanta energia que basta mais carvão que ela vai. Com esse meu movimento musical outras coisas estão abrindo e te digo uma coisa, a sensação de sonhar, projetar e realizar é muito boa”. A locomotiva Marina de la Riva não pode (e nem quer) parar.

p.s. 1: recuperei esse texto porque lá no uol fiquei sabendo que a cantora está prestes a lançar disco novo (idílio), cinco longos anos após sua estreia. primeira música e clipe a sair deste trabalho, "voy a tatuar-me" é inédita do cubano amaury gutierrez.


p.s. 2: e aqui o registro da participação no projeto 3namassa. nessa música, especificamente, marina conseguiu a proeza de fazer uma versão a altura da original cantada por thalma de freitas.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

um festival-selva

na semana mais louca que tive de trabalho no ano, na segunda metade de novembro, escrevi uma coluna pro yahoo ("custe o que custar, uma ova!"), um texto pra revista piauí (que sairá agora em janeiro), o meu último como editor da revista monet (da viagem a las vegas e do programa trato feito, que sairá na edição de janeiro da revista) e esse aqui, "floresta de imagens", um breve histórico do amazonas film festival, com direito a entrevista com dheik praia, a jovem ganhadora de um prêmio de roteiro patrocinado pelo banco daycoval. essa reportagem está saindo na revista day by day, produção gráfica bonitona feita pela editora spring, de periodicidade anual e distribuída entre os clientes do banco.

camila pitanga e gustavo machado em cena do filme de beto brant e  
renato ciasca, um dos premiados no festival amazonense

FLORESTA DE IMAGENS

Tem muita história acontecendo na floresta; história de árvore, bicho e gente. Tem muita imagem também. E nada melhor que o cinema para traduzir esse mar verde de possibilidades. Pois então, no meio da Floresta Amazônica, na cidade de Manaus, o Amazonas Film Festival, AFF para os íntimos, vem fazendo desde 2004 o nobre trabalho de registrar a floresta para o mundo ao mesmo tempo em que traz o mundo para a floresta.

Sua 8ª edição aconteceu agora, de 3 a 9 de novembro, e para se ter uma ideia da diversidade exibida basta dar uma olhada nos premiados na mostra competitiva de longas: o iraniano A Separação, de Asghar Farhadi, ganhou melhor filme e roteiro; o brasileiro Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, de Beto Brant e Renato Ciasca, levou de  melhor ator (Zécarlos Machado) e atriz (Camila Pitanga); o francês La Source des Femmes, de Radu Mihaileanu, foi laureado pelo júri popular e premiado por sua fotografia; e, finalmente, o argentino El Estudiante deu o prêmio de melhor direção para Santiago Mitre.

Questões históricas e ambientais também são uma marca do evento, tanto que o filme que abriu o festival, em premiere mundial, foi o esperado Xingu, filme dirigido por Cao Hamburguer (O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias) e produzido por Fernando Meirelles, que refaz a história real, os dramas e a jornada de Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas. Interpretados respectivamente por Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat, os irmãos percorreram todo o Brasil Central entre as décadas de 1940 e 60 e seus extraordinários feitos em prol dos índios culminaram na criação do Parque Nacional do Xingu em 1961.

O filme foi exibido com a presença do elenco e de seus realizadores no sempre deslumbrante Teatro Amazonas e por lá também passaram a cineasta norte-americana Randa Haines (Os Filhos do Silêncio) e o ator mexicano Alfonso “Poncho” Herrera (ex-integrante do fenômeno juvenil Rebeldes), que fizeram parte do júri. Poncho, aliás, protagonizou momentos hollywoodianos em Manaus tendo seu nome gritado por fãs enlouquecidas. Em outras edições estiveram presentes personalidades internacionais como os cineastas Claude Lelouch, Alan Parker, Jean-Jacques Annaud, Roland Joffé, John Boorman e John McTiernan, o cartunista francês Wolinski, os atores Matt Dillon e Jeremy Piven, e as atrizes Claudia Cardinale, Parker Posey, Neve Campbell e Leonor Silveira.

Toda essa badalação é apenas uma pequena parte de um festival que vem crescendo ano após ano, mas com os pés muito firmes no solo da mata, dando ênfase a mostra competitiva de curtas produzidos no Estado e ao aguardado Prêmio Daycoval de Roteiro, este ano concedido a Dheik Praia.

Amazonense do pé rachado, isto é, da capital, Dheik trancou a faculdade de jornalismo em 2009 para se dedicar integralmente a sua paixão de fazer cinema (que vem desde seus 14 anos quando participou de um curso patrocinado pelo Ministério da Cultura através do projeto de pontos de cultura). Diretora e roteirista de curtas feitos na raça como Faça o que Eu Digo (que participou do AFF dois anos atrás), Orelhão e A Menina que Mudou o Mundo, a jovem de 22 anos veio com tudo para esta edição do festival, inscrevendo tanto um ambicioso e já finalizado curta de 20 minutos (Jorge) quanto um roteiro (Rota de Ilusão).

“Estava cheia de expectativa, né? Mas levei a primeira decepção porque Jorge não foi selecionado. Fiquei muito triste. Depois disso realmente nem esperava nada do roteiro, mas na noite do encerramento me ligaram gritando ‘Cadê tu? Teu roteiro foi premiado!’ e foi aquela correria. É muito emocionante ter recebido esse prêmio exatamente nesse momento e em 35mm. É a minha oportunidade de fazer um ótimo trabalho e mostrar essa realidade que pouquíssimas pessoas conhecem, dos rios, das viagens de barco, das histórias de amor que acontecem neles”, relembrou em entrevista por email.

A trama criada por Dheik segue os passos de Núbia, uma jovem do interior que anseia dar uma vida melhor a seu filho e coloca o pé na estrada ou, para ser mais preciso, o barco no rio (afinal estamos na Amazônia). Nessa jornada ela conhece e se apaixona por Raimundo, um garimpeiro que está indo trabalhar na Guiana Francesa, e é aí que seus planos e sonhos tomam outro rumo. “Minha área é ficção. Gosto de criar histórias”, mas ela não se furta em assumir que parte desse roteiro foi inspirado em histórias que ouviu durante um “mochilão” que fez pelo Brasil durante quatro meses. Pois é, ficção e realidade vivem se misturando na floresta como bem sabem os que nasceram nela.

A trajetória muito real de Dheik Praia, espectadora em um dia e realizadora premiada em outro, resume muito bem o que de melhor pode acontecer quando se criam possibilidades de estímulo e incentivo cultural. E assim, feliz da vida, ela foi de coração leve até o encerramento do AFF receber a confirmação de que a pré-produção de Rota de Ilusão já pode começar em janeiro.

Lá no Largo São Sebastião, centro da Manaus e local da festa de encerramento, os números também davam outros motivos para alegria: nos sete dias de programação, o festival superou a marca de 300 mil espectadores assistindo seus 180 filmes (curtas e longas) em cerca de 40 teatros, salas de cultura e espaços transformados em cinema, tanto em Manaus quanto em cidades do interior/ribeirinhas como Pau Rosa, Itacoatiara e Manacapuru. Muita gente que nunca viu cinema na vida. Às vezes literalmente como os participantes da mostra inclusiva “Outra Visão do Cinema”, no qual deficientes visuais acompanham filmes a partir de audiodescrição.

Números, histórias e projetos assim consolidam o Amazonas Film Festival como um dos mais importantes eventos de cinema no Brasil. Mas, para os organizadores, tão importante quanto isso é ver o festival estimulando e movimentando a cultura local – em 2013 terá início a primeira turma do curso de cinema na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) –, ou servindo de vitrine para a crescente produção cinematográfica manaura – no ano que vem, a festa de encerramento será transmitida ao vivo pelo Canal Brasil. É a árvore dando frutos onde tem mais espaço para crescer e se multiplicar: fora do eixo.


p.s.: abaixo um programa da tv bandeirantes do amazonas com uma boa entrevista com dheik e alguns de seus curtas.





sábado, 5 de novembro de 2011

olhar mais, olhar além

segundo perfil para a revista oas (o primeiro foi do claude troisgros), esse do escultor e artista plástico mário cravo jr. foi um tanto mais difícil de fazer. personagem complexo, profundo, octogenário, cravo jr. é lenda viva cheia de histórias e foi uma grande pena não poder tê-lo encontrado pessoalmente (como aconteceu com aldemir martins). só dei uma arranhadinha nessa superfície de tantas texturas. saiu isso.

o fotógrafo mário cravo neto, morto precocemente em 2009,
e o pai mário cravo jr.


POETA DAS FORMAS E MATÉRIAS

Existe um homem na Bahia que teima ver coisas onde elas não existem. Pode ser um pedaço de madeira queimada, uma pilha de pneus ou então chapas de acrílico. Bastou o sujeito pousar seus olhos azuis em algumas dessas coisas para que elas se transformem em bichos alados, um Cristo crucificado ou apenas forma, outras formas. E ele vem olhando o mundo assim mais ou menos desde quando nasceu em 13 de abril de 1923, na cidade de Salvador, com o nome de Mario Cravo Jr.

Uma das principais referências da escultura moderna no Brasil, o baiano segue, aos 88 anos, trabalhando sem parar na fundação que leva seu nome, sediada no Parque Metropolitano de Pituaçu, e que abriga milhares de grandes, pequenos ou gigantescos trabalhos seus. O que Cravo viu neles e no que eles se transformaram acabaram por definir visual e graficamente uma nova Bahia, sem mais, nem menos (não é a toa que a monumental “Fonte da Rampa do Mercado”, de 1970, é o símbolo do Estado).

“A Bahia é uma paixão para todo homem, não importa a sua origem. É um estado de espírito. Nossos sincretismos, etnias e costumes ainda encantam aos sensíveis e interessados que nos visitam. O índio, o negro e o branco junto a outros tons, amarelo, vermelho e semitons de pele e almas, aqui são fundidos e amalgamados. Tenho a sorte de aqui ter nascido. Cresci e descobrir a veia criativa convivendo neste mundo afrodisíaco de nossas praias, igrejas, festas populares e candomblés”, explicou Cravo em rara entrevista por e-mail.

fonte da rampa do mercado, 1970

Mas nada melhor que um amigo muito próximo para definir tal veia criativa (alguns diriam fogo) do escultor. No livro Mario Cravo Jr. Desenhos, lançado em 1999, Jorge Amado afirmou que “Mario não sabe por ter aprendido, sabe por trazer dentro de si. Aprendeu, isso sim, seu duro ofício de escultor, seu dramático artesanato, sua consciência de trabalhador. Mas a criação, essa está dentro dele, como se, no momento de criar os pássaros impossíveis, os peixes misteriosos, os santos e os exus, o seu mundo sofrido e exaltante, como se, nesse momento, ele contivesse toda a velha cultura do nosso povo, como se em suas mãos estivessem todo o saber e toda a arte do povo da Bahia.”

A verdade é que ainda criança descobriu o gosto e uma facilidade natural pelo desenho ao mesmo tempo em que foi tomado por uma intensa paixão pela astronomia. Criava na cabeça e no papel máquinas interplanetárias numa versão pessoal do planeta Mongo, principal cenário das aventuras de Flash Gordon, seu herói predileto. Foi levando esses dois amores adolescência afora até descobrir que precisaria encarar a engenharia e muitos cálculos para estudar as estrelas.

A descoberta da argila e uma série de viagens reveladoras - sobre arte popular, geologia, mas não só - pelo interior da Bahia, no final da década de 1930, acabaram lhe dando a confiança necessária para assumir que suas mãos tinham o poder de dar forma e vida ao inanimado. Era escultor. Mas antes era preciso formar-se.

Entre 1945 e 1949, o inquieto e intenso Mario Cravo Jr. teve nada menos que três mestres em três cidades diferentes. Em Salvador trocou a argila por cedro e jacarandá ao trabalhar com Pedro Ferreira, o último grande santeiro baiano. Então partiu para o Rio de Janeiro e conheceu novas técnicas no ateliê do escultor Humberto Cozzo.

Para finalizar esses anos de formação, foi aluno especial do escultor croata Ivan Mestrovic, um dos discípulos mais conhecidos de Auguste Rodin, na Universidade de Syracuse, no Estado de Nova York, Estados Unidos. Descobriu o gesso e as esculturas de grandes proporções. E o ano e meio que se seguiu em Nova York, no boêmio bairro de Greenwich Village, lhe deu a centelha de energia que só o encontro de pessoas criativas em um ambiente favorável pode dar. Cruzou caminho com artistas como Heitor Villa-Lobos, Max Ernst e Marcel Duchamp, quase sempre por intermédio de Maria Martins, escultora e embaixatriz brasileira nos Estados Unidos, e sentiu que no Brasil sua querida Salvador poderia muito bem ser (e era) um lugar assim tão cheio de energia e possibilidades artísticas e não apenas Rio de Janeiro ou São Paulo. Então voltou à sua terra em 1949.

cruz caída, 1999; crédito: girardi photos

Essa mistura de escolas e vivências, aliada ao inspirador calor baiano e a sua própria personalidade – que herdara a política do pai Mário da Silva Cravo e poesia da mãe Marina Jorge Cravo –, fez com que Mario Cravo e seu célebre ateliê no Largo da Barra se tornassem os principais agregadores de uma geração que injetou modernidade e liberdade nas artes plásticas brasileiras, a geração Caderno da Bahia. Passaram por lá artistas como o grande amigo Carybé, Carlos Bastos, Genaro de Carvalho, Pierre Verger, Jenner Augusto, Rubem Valentim, Agnaldo Manoel dos Santos, Pancetti, Aldemir Martins, Marcelo Grassman e Djanira.

Trabalhando euforicamente, desenhando sem descanso, Cravo foi criando um espantoso corpo de obra que ia de formas vegetais aos ferros do candomblé, passando por cerâmica indígena, danças populares, sexo, lutas, carrancas do Rio São Francisco, e sempre com o melhor aproveitamento possível das formas dos materiais que caíam em suas mãos. “O material que mais me identifico entre os que tenho trabalhado? O próximo, sim, aquele que no (amanhã) ainda poderá ser ofertado ao velho escultor. Ainda estou com apetite, meu amigo, e felizmente minha fome e inquietude continuam atuando. Enquanto tiver alguma energia ativa, neste ‘velho corpo’, sinto que todos os materiais podem ser transformados e materializados em mensagens, em arte.”

E foi assim que ganhou, no início dos anos 1950, prêmios nas primeiras Bienais de Arte Moderna em São Paulo, tornou-se professor na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), representou o Brasil na Bienal de Veneza em 1960, ganhou bolsa de artista residente patrocinada pela Fundação Ford para trabalhar e criar em Berlim entre 1964 e 66 e, na volta, tornou-se diretor do Museu de Arte da Moderna da Bahia.

“Nada chega a nós (no mundo da criação) se estamos ou somos passivos. O acaso também existe, ele ajuda e nos afeta, o problema é que aqueles que ficam estáticos aguardando o acaso certamente não conhecem o insubstituível prazer da criatividade”, e desse mal Mario Cravo Jr. nunca sofreu, tanto que, curioso como sempre, acabou sendo pioneiro em exposições ao ar livre de (invariavelmente grandes) esculturas contemporâneas. Uma espécie de comunhão da arte com a natureza, com o terreno, com as pessoas de passagem.

Em 1994, com o estímulo de Jorge Amado e de outro grande amigo, o pintor Carybé, além do apoio do Estado, o Parque de Pituaçu foi inundado com suas esculturas, sendo que cerca de 1.000 obras foram doadas pelo próprio artista, e desde então virou endereço do Espaço Mário Cravo. Foi (e é) uma bela e oportuna homenagem a um homem que tanto fez por sua terra, um artista de tantas obras, um pai de quatro filhos (frutos do casamento com Lúcia, mulher de toda sua vida).

“Filhos, netos e bisnetos são os elos da corrente da natureza e vida do homem em sociedade, em fim da memória de nossa história humana. Meus representantes são os irmãos em arte-fazer, colegas e participantes. E tão natural quanto a floração da semente, o broto só cresce e desenvolve se houver húmus, ambiente favorável”, reflete o artista, poeta delicado das formas, sobre si e os seus. Certa vez, Mário Cravo Jr. disse que é “herdeiro (felizmente) de uma cepa de rebeldes, poetas, sonhadores e lutadores.” Sorte a da Bahia, sorte a do Brasil.



Cosmogonia Cravo from Ayrson Heráclito on Vimeo

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

virginias falam, rosas cantam

fazia um tempo que não abria o baú de textos e como hoje acabei cruzando o caminho com a tal pasta fui dar uma olhada. custa nada. bem, achei esse perfil da cantora paulistana virginia rosa que fiz no início de 2007 pra tam magazine. uma das primeiras vocalistas da banda do itamar assumpção - está no disco às próprias custas s.a. (baratos afins, 1983) -, virginia estava lançando seu terceiro disco solo, o ótimo samba a dois (eldorado, 2006), e a conversa rolou em um apartamento em higienópolis (acho que era do empresário e/ou produtor dela, ô memória). de lá pra cá, a moça lançou seu tributo ao grande monsueto (baita negão, 2008) e um dueto com o pianista geraldo flach (voz & piano, 2010), além de muitos shows. é cantora daquelas discretas e fortes, e que ainda tem muito o que cantar.


AS ROSAS NÃO FALAM, CANTAM

A voz é suave e o sorriso aberto. Virginia Rosa é assim ao vivo, mas no palco a doçura se transforma em presença forte e intensa. Tanto faz o repertório ou o tamanho do recinto, o palco é onde ela se sente mais viva. Paulistana filha de mineiros, negra e índia, a cantora está completando em 2007 uma década de seu primeiro disco solo e duas décadas de seu primeiro show como intérprete profissional. E ainda por cima com um disco novo na praça, Samba a Dois, seu terceiro CD e o marco de sua entrada definitiva no time principal de grandes intérpretes da música popular brasileira. No entanto, nada disso seria possível sem um longo aprendizado como vocalista, ou backing vocal como preferirem, de artistas como Itamar Assumpção e Tetê Espíndola. Mas antes, uma volta ainda maior no tempo.

“Meu pai era músico amador, tocava um instrumento de sopro chamado bombardino e um pouco de violão, e minha mãe sempre cantarolava. Então toda a família gostava de brincar de cantar. Meu pai me apresentou Beatles, Secos & Molhados e música sertaneja, enquanto minha mãe cantava Clara Nunes. Depois formei um grupo com meus primos e a gente ouvia Clube da Esquina, Elis Regina, essas coisas”, diz sobre sua formação musical. Para se tornar independente da família decidiu aprender a tocar violão e foi assim que conheceu Rondó, guitarrista que tinha acabado de participar do disco de estréia de Itamar Assumpção, o histórico Beleléu Leléu Eu, DE 1981.

Itamar estava montando uma banda para o lançamento do disco e Rondó perguntou se Virginia não queria conhecê-lo e fazer um teste para ser vocalista. Corria o ano de 1980 e o bichinho da música começava ali a morder seu calcanhar. “Nunca tinha ouvido o Itamar Assumpção. Era um jeito super novo de cantar, uma voz quebrada, percussiva e não muito harmoniosa. E eu gostei muito. Tenho essa característica de ser muito curiosa, não tenho preconceitos. Sempre pago para ver porque só assim fico sabendo se gosto ou não. Depois que entrei vieram a Vânia Bastos e a Suzana Salles, e formamos a Banda Isca de Polícia”, relembra. O aprendizado com Itamar durou cinco anos e resultou em um disco, Às próprias custas S.A., de 1983.

Virginia Rosa partiu desta experiência para as canções brejeiras de Tetê Espíndola e o resultado acabou sendo a participação no Festival dos Festivais da TV Globo em 1985, onde, vestida de coração, fez vocais para a vitoriosa “Escrito nas Estrelas”. “Nessa época ainda não tinha a pretensão de ser uma cantora profissional, mas queria saber mais e comecei a ter, finalmente, aulas de canto”, e foram nestas aulas que ficou amiga de Ná Ozzetti, responsável direta por ter ficado sete anos como cantora da Mexe com Tudo, uma banda de repertório totalmente brasileiro e dançante.

Tudo acontece ao mesmo tempo para quem está aberto e, no mesmo período em que começava com a Mexe com Tudo em 1987, Virginia Rosa fez seu primeiro show solo. “Não foi uma experiência muito agradável. Fiquei muito nervosa, chorei todos os três dias e era tanto de emoção por estar cantando solo quanto por um descontrole pessoal. Não conseguia aliar a técnica do canto a uma interpretação emocionada. Mas foi ali que assumi que era isso que eu queria”, e os palcos foram se sucedendo para uma Virginia mais experiente que conseguiu enfrentar os repertórios variados de grupos como a Unidade Móvel e o Heartbreakers. Em 1997 surgiu o convite para seu disco de estréia e Batuque mostrou uma cantora eclética e firme em seu propósito de cantar o que gosta. “Eu ia pegando as músicas numa ânsia, parecia que não ia conseguir fazer outro disco, parecia que ia morrer”, diverte-se.

“Dos meus três discos o mais maduro em termos de repertório é o Samba a Dois, porque mostra muito bem minhas influências musicais, mas tem um fio condutor muito forte, o samba”, reflete. Mas a princípio e mesmo sendo fã incondicional de samba, Virginia Rosa não se interessou em fazê-lo. “Antes do Batuque tive uma proposta assim, mas não aceitei porque não queria ficar vinculada a um gênero. Hoje as pessoas sabem que sou eclética e só aceitei porque queria fazer um disco de samba no meu estilo”, diz e enumera o repertório que vai de Candeia a Marcos Valle, passando pelos jovens Los Hermanos, Bebel Gilberto e Luisa Maita. Neste balaio, Virginia Rosa ainda encontra espaço para cantar “As Rosas Não Falam” de Cartola em ritmo de tango e dar um mergulho na música portuguesa em duas faixas. “Tenho me interessado por música portuguesa há uns cinco anos e venho querendo concretizar esse casamento entre Portugal e Brasil. Espero que as pessoas gostem porque os portugueses amam nossa música”, explica sobre um cruzamento inédito entre samba-canção e fado.

Após o lançamento de Samba a Dois, a intérprete começa a afiar as cordas vocais para dois novos projetos, um sobre o sambista Monsueto e outro sobre Carmen Miranda, além de lançar em DVD o show que fez em 2003 homenageando Clara Nunes. “Olha, modéstia a parte, eu tenho uma voz agradável...”, e gargalhada ciente de que existem verdades que não adianta esconder.

p.s.: abaixo, virginia canta uma música pouco conhecida de monsueto. "mané joão" (josé batista e monsueto) foi gravado originalmente em um 78 rotações de 1963 e, profeticamente, diz que "menino de rua, menino de barracão, menino que estuda, chega a chefe da nação". o vídeo é cortesia do pessoal do música de bolso.

sábado, 11 de dezembro de 2010

quino, um pai como outro qualquer

e segue aqui o perfil que fiz do quino, também conhecido como pai da mafalda, para a revista voetrip de novembro. foi uma delícia pesquisar sobre o argentino, reler alguns de seus trabalhos (principalmente a mafalda, sempre tão atual) e acabei achando muita coisa pela internet, inclusive as tais animações feitas em cuba e que coloquei no post "o mundo segundo quino".

O PAI DA MATÉRIA

Um rio grande nos separa. A língua também, um pouco. E, claro, o futebol. Visto assim pode não parecer muito, mas durante boa parte do século 20 estes foram motivos suficientes para estabelecer um abismo cultural entre Brasil e Argentina. Por sorte, ou pelo bom e velho “espírito do tempo”, uma menininha furou esse cerco com seu gênio contestador e algumas tiradas de deixar adultos sem ter para onde fugir. Mas Mafalda nunca existiu de verdade, pelo menos não em carne e osso, e o responsável por sua verve é agora um senhor de 78 anos: Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido pelo apelido de Quino, provavelmente o maior e mais conhecido desenhista argentino (ou humorista gráfico, como prefere) de todos os tempos.

Filho de imigrantes espanhóis da Andaluzia radicados em Mendoza, Joaquín é chamado de Quino pela família desde os três anos de idade como uma forma de se diferenciar de um tio de mesmo nome e, não coincidentemente, ilustrador e pintor relativamente famoso na época. Foi esse parente (Joaquín Tejón) que o fez tomar gosto pelo desenho até o ponto de adquirir coragem para ingressar na Escola de Belas Artes de sua cidade. Frustrado com o academicismo das disciplinas, que o obrigavam a reproduzir modelos, estátuas, jarros e animais dissecados, Quino abandonou a escola após dois anos. Queria mesmo era publicar suas historietas (quadrinhos), mostrar seu traço, em revistas e jornais da capital. Algo precisava ser feito e tudo apontava para uma mudança de mala e cuia para Buenos Aires, o que acabou acontecendo em 1954.

Não demorou muito para Quino, em seu novo endereço, conseguir os primeiros trabalhos em jornais, revistas e até em publicidade. O mercado editorial argentino sempre foi muito efervescente desde seu início no final do século 19, tanto em termos de produção quanto de público, e as artes gráficas (tirinhas, ilustrações, cartuns e histórias em quadrinhos) umas das principais demandas. Para coroar uma década de privações, descobertas, reconhecimento e algum sucesso, Quino se casou, em 1960, com Alicia Colombo, com quem vive até hoje. A lua de mel foi no Rio de Janeiro e marcou a primeira viagem internacional do casal, bem como o primeiro contato de Quino com editores e colegas de profissão estrangeiros (entre eles, um jovem Ziraldo).

Os anos 1960 foram um período de grandes transformações para Quino. O trabalho incessante em jornais e revistas ganhou companheiros à altura, tais como exposições e os primeiros livros. Com todo esse material disponível foi possível notar com clareza o tamanho do talento e da modernidade de Quino, seu sofisticado traço simples, o rebuscamento gráfico, uma aguçada observação do cotidiano e o humanismo de suas caracterizações. Foi também nessa década, precisamente em 1963, que o artista moldou a criatura que lhe deu fama mundial. E a luz se fez sobre Mafalda, que nasceu como uma encomenda para divulgar o lançamento de uma linha de produtos eletrodomésticos (Mansfield). A campanha acabou não acontecendo, mas um ano depois, Mafalda e seus pais, além de outros personagens como Felipe, Manolito e Susanita, ganharam tirinhas regulares. O sucesso foi imediato. Aquela coisinha de cabelos negros falava o que todos queriam falar sobre esse mundo difícil e divertido.
A fama da menina de língua afiada que odeia sopa, ama os Beatles e quer ser tradutora da ONU, espalhou-se por livros de coletâneas com suas tirinhas até chegar a Itália em 1968, que valeu a Quino sua primeira viagem a Europa. Na apresentação, o renomado escritor Umberto Eco classificou a menina de 8 anos como “uma heroína zangada que recusa o mundo tal como ele é”. E lá se foi Mafalda ganhando o mundo, falando em espanhol, português, francês, alemão e o que mais aparecesse.

Mas em 1973, e para surpresa mundial, a produção de tirinhas é interrompida (foram, ao total, 1928). Numa entrevista em 1996 para o jornalista Ariel Palácios, correspondente do Estado de S. Paulo na Argentina, Quino se justificou pela enésima vez: “Comecei Mafalda em 1963 e terminei em 1973. Estava muito cansado. Achei mais honesto parar. Não repetir-me era um esforço tão grande que não valia a pena. Para mim era uma historinha que entregava e publicavam. Nunca achei que 23 anos depois viraria o que virou, com sucessivas reedições”. A menina chegou ao Brasil pela primeira vez em 1973 através da revista Patota, mas os primeiros livros só foram lançados na década seguinte e atualmente estão no catálogo da Editora Martins Fontes, como é caso do recente
10 Anos com Mafalda.

Mesmo com o espírito mais leve para poder se dedicar a outros projetos, Quino sentiu que o clima na Argentina estava pesando. Mudou-se para Milão em 1976, mesmo ano do golpe militar que jogou os argentinos em um das mais violentas ditaduras da América Latina e que durou até 1983. Em mais de uma vez Quino declarou que se Mafalda fosse real certamente seria uma das “desaparecidas do regime”, o que de fato aconteceu com as quatro filhas do amigo e célebre escritor de quadrinhos Héctor Gérman Oesterheld, igualmente “desaparecido”.

Discreto, Quino se dividiu entre Europa e Argentina, ganhando prêmios e honrarias, sempre trabalhando e sendo muito reeditado e traduzido. Surgiram livros como
Quanta Bondade, Quinoterapia, Humanos Nascemos e Potentes, Prepotentes e Impotentes. Seus desenhos também ganharam movimentos numa série de curtas feitos em Cuba em 1984, mas isso é assunto meio espinhoso, pois não é chegado em adaptações de uma mídia para outra. Enquanto isso, Mafalda foi se tornando um ícone pop em seu país natal, com direito a praça e estátua no bairro portenho de San Telmo. A menina ainda reapareceu aqui e ali, sempre em campanhas institucionais como na Declaração dos Direitos da Criança, encomendada pela UNICEF em 1977.

No entanto, o artista que desenhou e falou com tanto humor sobre temas como desigualdade social, morte, repressão, burocracia, tabus sexuais, tantas facetas da contradição humana, também deu sua contribuição para essa complexidade. Quando lhe perguntam se Mafalda, sua filha de papel, serviu como substituta de filhos reais, Quino apenas responde, sem cerimônia alguma: “Não, Mafalda é um desenho como outro qualquer”.

atualização em 5 de novembro de 2011: apareceu a íntegra do longa de animação mafalda, o filme (1979), de carlos d. marquez. também dá pra baixar no blog filmes políticos. fiquei sabendo via trabalho sujo.


Mafalda - 1979 from Faces da Liberdade on Vimeo