sábado, 11 de dezembro de 2010

quino, um pai como outro qualquer

e segue aqui o perfil que fiz do quino, também conhecido como pai da mafalda, para a revista voetrip de novembro. foi uma delícia pesquisar sobre o argentino, reler alguns de seus trabalhos (principalmente a mafalda, sempre tão atual) e acabei achando muita coisa pela internet, inclusive as tais animações feitas em cuba e que coloquei no post "o mundo segundo quino".

O PAI DA MATÉRIA

Um rio grande nos separa. A língua também, um pouco. E, claro, o futebol. Visto assim pode não parecer muito, mas durante boa parte do século 20 estes foram motivos suficientes para estabelecer um abismo cultural entre Brasil e Argentina. Por sorte, ou pelo bom e velho “espírito do tempo”, uma menininha furou esse cerco com seu gênio contestador e algumas tiradas de deixar adultos sem ter para onde fugir. Mas Mafalda nunca existiu de verdade, pelo menos não em carne e osso, e o responsável por sua verve é agora um senhor de 78 anos: Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido pelo apelido de Quino, provavelmente o maior e mais conhecido desenhista argentino (ou humorista gráfico, como prefere) de todos os tempos.

Filho de imigrantes espanhóis da Andaluzia radicados em Mendoza, Joaquín é chamado de Quino pela família desde os três anos de idade como uma forma de se diferenciar de um tio de mesmo nome e, não coincidentemente, ilustrador e pintor relativamente famoso na época. Foi esse parente (Joaquín Tejón) que o fez tomar gosto pelo desenho até o ponto de adquirir coragem para ingressar na Escola de Belas Artes de sua cidade. Frustrado com o academicismo das disciplinas, que o obrigavam a reproduzir modelos, estátuas, jarros e animais dissecados, Quino abandonou a escola após dois anos. Queria mesmo era publicar suas historietas (quadrinhos), mostrar seu traço, em revistas e jornais da capital. Algo precisava ser feito e tudo apontava para uma mudança de mala e cuia para Buenos Aires, o que acabou acontecendo em 1954.

Não demorou muito para Quino, em seu novo endereço, conseguir os primeiros trabalhos em jornais, revistas e até em publicidade. O mercado editorial argentino sempre foi muito efervescente desde seu início no final do século 19, tanto em termos de produção quanto de público, e as artes gráficas (tirinhas, ilustrações, cartuns e histórias em quadrinhos) umas das principais demandas. Para coroar uma década de privações, descobertas, reconhecimento e algum sucesso, Quino se casou, em 1960, com Alicia Colombo, com quem vive até hoje. A lua de mel foi no Rio de Janeiro e marcou a primeira viagem internacional do casal, bem como o primeiro contato de Quino com editores e colegas de profissão estrangeiros (entre eles, um jovem Ziraldo).

Os anos 1960 foram um período de grandes transformações para Quino. O trabalho incessante em jornais e revistas ganhou companheiros à altura, tais como exposições e os primeiros livros. Com todo esse material disponível foi possível notar com clareza o tamanho do talento e da modernidade de Quino, seu sofisticado traço simples, o rebuscamento gráfico, uma aguçada observação do cotidiano e o humanismo de suas caracterizações. Foi também nessa década, precisamente em 1963, que o artista moldou a criatura que lhe deu fama mundial. E a luz se fez sobre Mafalda, que nasceu como uma encomenda para divulgar o lançamento de uma linha de produtos eletrodomésticos (Mansfield). A campanha acabou não acontecendo, mas um ano depois, Mafalda e seus pais, além de outros personagens como Felipe, Manolito e Susanita, ganharam tirinhas regulares. O sucesso foi imediato. Aquela coisinha de cabelos negros falava o que todos queriam falar sobre esse mundo difícil e divertido.
A fama da menina de língua afiada que odeia sopa, ama os Beatles e quer ser tradutora da ONU, espalhou-se por livros de coletâneas com suas tirinhas até chegar a Itália em 1968, que valeu a Quino sua primeira viagem a Europa. Na apresentação, o renomado escritor Umberto Eco classificou a menina de 8 anos como “uma heroína zangada que recusa o mundo tal como ele é”. E lá se foi Mafalda ganhando o mundo, falando em espanhol, português, francês, alemão e o que mais aparecesse.

Mas em 1973, e para surpresa mundial, a produção de tirinhas é interrompida (foram, ao total, 1928). Numa entrevista em 1996 para o jornalista Ariel Palácios, correspondente do Estado de S. Paulo na Argentina, Quino se justificou pela enésima vez: “Comecei Mafalda em 1963 e terminei em 1973. Estava muito cansado. Achei mais honesto parar. Não repetir-me era um esforço tão grande que não valia a pena. Para mim era uma historinha que entregava e publicavam. Nunca achei que 23 anos depois viraria o que virou, com sucessivas reedições”. A menina chegou ao Brasil pela primeira vez em 1973 através da revista Patota, mas os primeiros livros só foram lançados na década seguinte e atualmente estão no catálogo da Editora Martins Fontes, como é caso do recente
10 Anos com Mafalda.

Mesmo com o espírito mais leve para poder se dedicar a outros projetos, Quino sentiu que o clima na Argentina estava pesando. Mudou-se para Milão em 1976, mesmo ano do golpe militar que jogou os argentinos em um das mais violentas ditaduras da América Latina e que durou até 1983. Em mais de uma vez Quino declarou que se Mafalda fosse real certamente seria uma das “desaparecidas do regime”, o que de fato aconteceu com as quatro filhas do amigo e célebre escritor de quadrinhos Héctor Gérman Oesterheld, igualmente “desaparecido”.

Discreto, Quino se dividiu entre Europa e Argentina, ganhando prêmios e honrarias, sempre trabalhando e sendo muito reeditado e traduzido. Surgiram livros como
Quanta Bondade, Quinoterapia, Humanos Nascemos e Potentes, Prepotentes e Impotentes. Seus desenhos também ganharam movimentos numa série de curtas feitos em Cuba em 1984, mas isso é assunto meio espinhoso, pois não é chegado em adaptações de uma mídia para outra. Enquanto isso, Mafalda foi se tornando um ícone pop em seu país natal, com direito a praça e estátua no bairro portenho de San Telmo. A menina ainda reapareceu aqui e ali, sempre em campanhas institucionais como na Declaração dos Direitos da Criança, encomendada pela UNICEF em 1977.

No entanto, o artista que desenhou e falou com tanto humor sobre temas como desigualdade social, morte, repressão, burocracia, tabus sexuais, tantas facetas da contradição humana, também deu sua contribuição para essa complexidade. Quando lhe perguntam se Mafalda, sua filha de papel, serviu como substituta de filhos reais, Quino apenas responde, sem cerimônia alguma: “Não, Mafalda é um desenho como outro qualquer”.
e aqui uma entrevista com o mestre.



atualização em 5 de novembro de 2011: apareceu a íntegra do longa de animação mafalda, o filme (1979), de carlos d. marquez. também dá pra baixar no blog filmes políticos. fiquei sabendo via trabalho sujo.


Mafalda - 1979 from Faces da Liberdade on Vimeo

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