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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

50 músicas brasileiras de 2013 e um p.s.

dezembro é aquela coisa. listas e balanços, balanços e listas. a retrospectiva aqui no esforçado começa com a de músicas brasileiras e 2013 foi mais um ano sensacional pros lados de cá. como é de costume tento traçar um largo panorama do que ouvi durante o ano - aqui nós é da inclusão, tá ligado? -, mas é claro que ficam coisas de fora e claro que poderia acrescentar mais duas ou três músicas de determinados discos. só que a vida é escolhas, né não? engole o choro e vai...

agora, reparem o seguinte... boa parte da lista é formada por raps, gênero que tem sido o mais ousado, inquieto e variado nesse começo de século no brasil. são manos e minas rimando sobre tudo, sem medo de arriscar e misturar. um desses raps é, muy provavelmente, a música mais bonita desse ano e desde já um clássico: "crisântemo", do emicida. do lado da, digamos assim, mpb destaco a lindíssima, sambística e experimental "sim", de cacá machado, registrada num dueto arrepiante de elza soares e zé miguel wisnik.



aláfia - “ela é favela”
amiri - “trinca”
andreia dias -“brisa tropicana” [part. criolina]
anitta - “show das poderosas”
bárbara eugênia - “roupa suja” [part. pélico]
bruno morais – “insomnio y palabrería” [part. 3 cruzeiros]
bruno souto - “dentro”
cacá machado - “sim” [part. elza soares e zé miguel wisnik]
catarina dee jah - “intercumbia”
cérebro eletrônico - “não bateu nosso santo”
cícero - “duas quadras”
criolo - “duas de cinco”
dj dolores - “álcool” [part. isaar frança]
do amor - “mindingo” [part. lucas santtana]
don l - “cafetina seu mundo”
edi rock - “negro cantou” [part. don pixote]
emicida - “crisântemo”
gang do eletro - “só no charminho”
garotas suecas - “a nuvem” [part. lurdez da luz]
gasparzinho - “vai no cavalinho”
iara rennó - “outros tantos”
joão rosseto - “pagando pra ver”
juliano gauche - “amor do capeta”
karol conká - “sandália” [part. rincon sapiência]
lívia cruz - “sei quem eu sou” [part. karol de souza]
lulina - “lua vazia”
lurdez da luz - “ping pong”
luz marina - “paisagem”
marcelo d2 - “fella” [part. shock, batoré e akira presidente]
marcelo jeneci - “de graça”
mc garden - “isso é brasil”
mc guimê - “país do futebol” [part. emicida]
mc tipocki - “quero bunda”
meno del picchia - “vou pro pará”
momo - “uu”
ná ozzetti - “lizete” [part. kiko dinucci]
rael - “o hip hop é foda”
rodrigo amarante - “maná”
ruspo - “chatuba do agroboy”
síntese - “equação”
slim rimografia - “limpe seu próprio quintal”
sombra - “piada cabeluda”
submarinos - “trampolim”
thiago frança - “caso do bacalau” [part. kiko dinucci e rodrigo ogi]
tono - “tu cá, tu lá”
trio eterno - “saí descalço”
tropkillaz - “morena” [part. nave]
vanguart - “olha pra mim”
verônica ferriani - “estampa e só”
zulumbi - “babe, eu vou bombar”

p.s.: depois de fechar a lista saíram os clipes de "beijinho no ombro" de valesca popozuda e "bai bai" de jaloo, duas músicas que tinha esquecido de colocar na lista. e teve outra música sensacional que não tinha ouvido, passei batido geral, mas que apareceu aos 49 do segundo tempo e senti que precisava deixar o registro. é "bigode grosso" da mc marcelly (aqui num remix à la trap music).





quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

yahoo #61

bateu uma nostalgia lá no yahoo e acabei fazendo, sem querer, um texto que dialogava com o anterior sobre o longa o som ao redor, afinal a morte do cinema de rua tem muito a ver com o tal medo da classe média do resto do brasil. de qualquer forma, ninguém deu a mínima pelota, então o lance é bola pro mato que o jogo é de campeonato (e está no ar "música popular de cavalgar").




SAUDADE DE CINEMA DE RUA

Os primeiros filmes que vi foram em cinemas de rua, mais precisamente no Centro de Fortaleza. Dá-lhe E.T. – O Extraterrestre, Superman III, Loucademia de Polícia e Trapalhões, muitos Trapalhões. O São Luís ainda existe, mas outros como o Diogo passaram dessa pra pior (shoppings, igrejas ou a pura e simples demolição). Depois vieram os do Rio de Janeiro. Vários na Praça Saens Peña, perto de onde morava, outros tantos no Centro e alguns poucos na Zona Sul. E tome Guerreiros de Fogo, Remo – Desarmando e Perigoso, Por Incrível que Pareça, Ran e Brás Cubas. Depois ainda vieram Ribeirão Preto, Campinas e, finalmente, São Paulo. Muitos e muitos filmes em cinemas de rua, sempre.

Tinha algo de mágico nesse movimento de sair da realidade (a cidade) para entrar na fantasia (o cinema) e depois voltar com uma montanha de imagens e assuntos na cabeça. Sempre achei que cinema, literatura, quadrinhos, música, cultura de uma forma geral, fazem a gente viver mais ou, pelo menos, ter mais experiências, conhecimentos e paixões. Cultura fica na gente, por baixo da pele, nos olhos. E os cinemas de rua fazem com que essas sensações se relacionem com a cidade. Mas lá pelo final dos anos 1980 os shoppings começaram a ganhar terreno.

Primeiro como modernidade e status provinciano, e depois como refúgio de classes médias e elites contra uma cidade que lhes parecia cada vez mais assustadora (é o medo do outro, do diferente, do Brasil, como se pode ver no longa O Som ao Redor, assunto que tratei em “Nem todos estão surdos”). Daí que os cinemas de rua foram sendo abandonados em nome de uma bolha de segurança e vitimados pela sempre esperta especulação imobiliária.


Mas não adianta chorar pelo fotograma derramado, pois os cinemas de shopping vieram pra ficar e ficou muito caro manter um cinema de rua. Talvez se houvessem incentivos públicos como isenção de IPTU, a coisa melhorasse um pouco, afinal qualquer equipamento cultural acaba movimentando a região que o cerca e isso é ótimo pra cidade.

No entanto tive sensações conflitantes quando soube que Juca Ferreira, Secretário de Cultura da nova gestão da Prefeitura de São Paulo, planeja comprar o prédio do falecido Cine Belas Artes (esquina da Consolação com a Paulista) para transformá-lo em centro cultural. Quer dizer, todo novo centro cultural é bem vindo, onde quer que seja, e a região agradeceria – bem como os que vivem, trabalham ou passam por ela – que lhe dessem uma chance contra a degradação urbana.

Por outro lado, o Belas Artes não tem nada de especial, a não ser, claro, a relação afetiva com seu frequentadores. Mas prédios também possuem seu ciclo de vida, é normal. Então, não seria o caso de usar esse dinheiro para criar equipamentos culturais em áreas menos favorecidas, como sugere Raul Juste Lores em “O elitismo da ‘compra’ do Belas Artes”? Ou que se pensem em políticas culturais melhores e mais abrangentes como diz Ricardo Queiroz em “A polêmica do Belas Artes”?

De uma forma ou de outra tem que ter pipoqueiro, boteco perto, esses gêneros de primeira necessidade de uma cidade feliz.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

letra/música #24

sou muito fã de zé miguel wisnik, de sua voz pequena, de suas melodias rebuscadas, de sua poesia lírica e próxima. nem lembro direito como o conheci, mas provavelmente foi via o pessoal do rumo (ná ozzetti, luiz tatit, etc) no final dos anos 1990. sei que quando ouvi seu primeiro disco, josé miguel wisnik (camerati, 1992), fiquei encantado por várias músicas: "se meu mundo cair", "laser", "mundo cruel" e "a primeira vez, mamãe, que eu fui ao cinema", por exemplo. depois conheci seu lado ensaísta e vieram outros discos, os igualmente belos são paulo rio (maianga discos, 2000) e pérolas aos poucos (maianga discos, 2003), e a direção musical de do cóccix até o pescoço (maianga disco, 2003) da elza soares. só depois de tudo isso conheci suas trilhas para os espetáculos de dança do grupo corpo (nazareth, parabelo e onqotô). e é deste último, uma parceria de wisnik com caetano veloso lançada em 2005, que saiu a "mortal loucura", música feita em cima de um soneto de gregório de matos (1636-1695). detalhe: a versão que segue logo abaixo está no recém lançado indivisível (circus produções, 2011), lindo disco duplo que reúne inéditas, regravações, composições não registradas por ele, em arranjos enganosamente simples com pouca instrumentação. ao lado de wisnik em quase todas as músicas, os instrumentistas-amigos arthur nestrovski (violão), marcelo jeneci (piano e acordeon), márcio arantes (baixo) e sergio reze (bateria).

dividindo o indivisível

mortal loucura
(zé miguel wisnik sobre o poema de gregório de matos também conhecido como "no sermão que pregou na madre de deus dom joão franco de oliveira, pondera o poeta a fragilidade humana")

na oração que desaterra... a terra,
quer deus que a quem está o cuidado... dado,
pregue que a vida é emprestado... estado,
mstérios mil que desenterra... enterra.

quem não cuida de si que é terra... erra,
que o alto Rei por afamado... amado,
e quem lhe assiste ao desvelado... lado,
da morte ao ar não desaferra... aferra.

quem do mundo a mortal loucura... cura,
à vontade de deus sagrada... agrada,
firmar-lhe a vida em atadura... dura.

ó voz zelosa que dobrada... brada,
já sei que a flor da formosura... usura,
será no fim desta jornada... nada.




p.s.: e olha aqui o lindo trecho do espetáculo
onqotô (2005) no qual aparece a versão original de "mortal loucura" com wisnik e caetano alternando vocais entre efeitos, ecos e silêncios.