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segunda-feira, 5 de junho de 2023

a voz que nunca seca

mais um frila pra querida Revista Monet. era pra ter saído em março, acho, mas a estreia do documentário Maria - Ninguém Sabe Quem Sou Eu acabou sendo adiada para este maio que passou. tem um tanto de biografia e, acima de tudo, uma conversa com o diretor do longa, o jornalista Carlos Jardim, sobre sua ídola maior. mas o melhor é que o assunto é Bethânia, essa potência.

A VOZ QUE NUNCA SECA

Estreia no Canal Brasil Maria – Ninguém Sabe Quem Sou Eu, documentário de Carlos Jardim que traz Maria Bethânia contando e cantando sua própria história

Caetano não tinha 4 anos de idade quando nasceu, em 1946, sua irmã mais nova – ele foi o quinto filho da família formada por Seu Zezinho e Dona Canô, ela a sexta. Numa casa cravada no Recôncavo Baiano com música por todos os cantos, tanto tocada quanto ouvida, tanto cantada quanto dançada, o menino andava fascinado por uma valsa composta por Capiba. “Em sonhos te vejo, Maria Bethânia, és tudo que eu tenho”, cantava a plenos pulmões Nelson Gonçalves. Caetano não teve dúvida, esse tinha que ser o nome de sua irmã, pois era forte, dramático e, acima de tudo, musical. E assim foi batizada Maria Bethânia Viana Teles Veloso.

Prestes a completar 77 anos de vida, e 60 de carreira, Maria Bethânia nunca foi muito de exibir sua intimidade, mas resolveu abrir exceção para Carlos Jardim, jornalista, chefe de redação da GloboNews, e muito fã desde a adolescência. Ele é o diretor do documentário Maria - Ninguém Sabe Quem Sou Eu, uma das estreias do mês no Canal Brasil. “Vi o primeiro show de Bethânia quando tinha 17 anos de idade e fui atravessado por um raio de impacto e emoção que me acompanha até hoje. Quando me formei como jornalista e virei repórter, comecei a fazer entrevistas com ela. Depois, como editor, fiz muitas reportagens especiais. Chegar perto de uma artista íntegra e dedicada como Bethânia é um privilégio. Mas como fã desesperado que sou, tenho até hoje dificuldade com essa proximidade. Sempre fico muito nervoso”, diverte-se.

Foi a objetividade do ofício jornalístico que lhe deu coragem para falar com Bethânia repetidas vezes e a partir desses encontros começou a germinar a ideia de um filme sobre ela. “Fui me aproximando de Bethânia aos poucos, fazendo trabalhos para a televisão, como um programa especial para a GloboNews quando ela fez 70 anos de idade. Convidei a Fernanda Montenegro, outra grande dama das nossas artes, para narrar meu texto e quase desmaiei quando ela aceitou. Acho que fui ganhando a confiança da Bethânia a tal ponto que ela não fez nenhuma exigência sobre o filme. Na verdade, ela nem pediu pra ver e aprovar o filme antes, para surpresa de muita gente, minha inclusive. Foi uma prova de confiança que me deixou muito orgulhoso e feliz”.

Mas é que Jardim não queria fazer um documentário tradicional ou meramente laudatório sobre sua “ídola”. Não queria que falassem sobre a importância dela pela enésima vez ou que ela foi a primeira mulher a vender mais de 1 milhão de discos no Brasil, etc e tal. A voz que a muitas décadas encanta e fascina o Brasil precisava ser a protagonista da própria história. “Existem filmes lindos sobre a cantora, mas sentia falta de ver Bethânia falando mais. Como nestes filmes já havia belíssimos depoimentos sobre a artista, tive a ideia de fazer um filme em que só Bethânia falasse sobre ela mesma. Pesquisei imagens raras nos acervos da TV Globo e da TV Bahia, afiliada da Globo, e fiz um roteiro com perguntas que ‘conversavam’ com essas imagens. Também fiz questão de usar alguns depoimentos antigos da cantora, alguns dos anos 1980, pra mostrar que ela tem uma coerência incrível, se mantém fiel a si mesma ao longo de todos esses anos de carreira. Também selecionei cinco textos que falam da magnitude da artista e convidei novamente a querida Fernanda Montenegro para narrá-los”.

Realmente, só mesmo a voz inconfundível de Fernanda Montenegro poderia estar à altura de uma artista que traçou seu próprio caminho, independente de modismos, desde sua estreia nos palcos em 1963 cantando “Na cadência do samba” de Ataulfo Alves (a convite do irmão Caetano, quando todos ainda moravam em Salvador). “Muita gente comentou comigo que nunca tinha visto Bethânia assim, tão aberta e tão próxima. Essa ideia de proximidade vem de uma decisão que tomei na montagem: toda vez que ela fala algo mais íntimo, mais pessoal, vou para um super close. Dá pra gente ver bem o brilho no olhar e a assertividade dela. Ela é uma artista única no cenário cultural brasileiro, um farol de sensatez e dignidade”.

Só mesmo o farol Bethânia teria coragem de largar o promissor nicho das músicas de protesto após o sucesso de “Carcará” em 1965, logo após o golpe militar, para cantar sambas de Noel Rosa ou fazer um disco ao lado do igualmente iniciante Edu Lobo. Só ela mesmo para cantar Roberto Carlos quando o público elitizado da mpb torcia o nariz para o “Rei”. Só Bethânia para costurar em sua voz pontos de candomblé, Chitãozinho & Xororó, Fernando Pessoa, Castro Alves, Zezé di Camargo & Luciano, Vinicius de Moraes, Batatinha, Zeca Pagodinho, Paulo Vanzolini, Jards Macalé, Gonzaguinha, Chico Buarque, a escola de samba Mangueira e assim por diante.

“O que mais me marcou foi a abertura dela pra falar sobre tudo. Durante o filme você percebe que ela não chegou com respostas prontas, ela está elaborando os pensamentos enquanto fala. Fiz questão de respeitar os silêncios e as pausas dela, bem como os ruídos dos anéis, porque tudo em Bethânia reverte a favor da cena”, refletiu Jardim sobre a experiência de filmá-la no teatro do Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Um tanto dos bastidores dessa gravação, além de muitas outras histórias do fã Carlos Jardim, estão no livro Ninguém Sabe Quem Sou Eu (A Bethânia Agora Sabe!).

Mas o documentário Maria - Ninguém Sabe Quem Sou Eu é um marco para Jardim tanto por ser sua estreia na direção quanto por lhe mostrar uma Bethânia que nem mesmo ele, um fã de longa quilometragem, suspeitava conhecer. “Tive algumas surpresas durante esse depoimento dela para o filme. Tem revelações sobre a época da ditadura, um documento mostrando que ela foi fichada no SNI, sem falar na prisão e a exigência de que ela se apresentasse uma vez por semana no DOPS, durante um ano. Mas o que nunca vou esquecer mesmo é a generosidade e o carinho dela comigo. Quando acabamos de gravar o depoimento ela se virou pra mim e perguntou: ‘ficou bom? Ficou do jeito que você queria?’ Já era muito fã, fiquei mais ainda”.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

35 minutos de história

foi em 2005 que a universal finalmente lançou phono 73 (em dois cds e um dvd), o célebre show que a então gravadora polygram promoveu em são paulo, entre 11 e 13 de maio de 1973, com os artistas de seu casting. se você ainda não viu os 35 minutos de filmagens que sobraram daquelas noites separe um tempinho em sua vida atribulada e divirta-se com grandes encontros, loucuras mil e um pouco do melhor da música brasileira (de então e de sempre).


quase impossível conceber uma gravadora (que mais tarde se transformaria na philips e depois em universal) com um elenco absurdamente excelente como esse. e dá-lhe ronnie von, hermeto pascoal, nara leão, mpb-4, odair josé, jair rodrigues, wilson simonal, maria bethânia, gal costa, dominguinhos, toquinho, vinicius de moraes, caetano veloso (pirando progressivamente em "a volta da asa branca", afinal o baiano estava em sua fase araçá azul), jorge ben (suingando loucamente ainda no violão e também com gilberto gil em "jazz potatoes", por exemplo), raul seixas (em performance endiabrada), elis regina (toda em ritmo de tango), sérgio sampaio (sensualizando "eu quero é botar meu bloco na rua"), chico buarque e gilberto gil (que fazem a mais radical versão de "cálice", com direito a microfone de chico cortado pela censura dos milicos, a letra trocada, o escambau).

quinta-feira, 14 de julho de 2011

transversão #40

muito engraçadinho esse caetano veloso que fez uma letra em inglês para sua irmã maria bethânia (logo ela que não canta em inglês) e lançou no primeiro disco que fez no exílio londrino, o ótimo caetano veloso (philips/universal, 1971). talvez pela própria língua escolhida "maria bethânia" foi poucas vezes regravada por aqui. a mana gal costa registrou em seu histórico ao vivo fa-tal, também de 1971. tem também uma versão instrumental comandada pelo violonista leandro carvalho e que saiu no disco london poem (independente, 2004) e até a própria bethânia usou-a para abrir o show-disco nossos momentos (philips/universal, 1982) de um jeito mezzo instrumental mezzo cantado pelas backing vocals de forma resumida (ela mesmo só entra depois, claro). mas escolhi aqui a recente "maria bethânia" que caetano colocou no repertório da turnê do disco zii e zie (universal, 2009) e que saiu no potente mtv ao vivo - zii e zie (universal, 2011). como a banda cê detona, heim?



a outra participação nesse transversão é uma ótima regravação que apareceu em 2009 pelas mãos e gogós da dupla peixoto & maxado. maxado é felipe machado, vocalista da firebug, e o clima é de um ska pouco mais lento e extremamente original. a música acabou sendo registrada no disco i wanna shoyu (independente, 2010). saca só.




p.s.: depois de fechar essas duas versões encontrei uma dos franceses do les beaux bizarres que fizeram a sua "maria bethânia" de um jeito assim meio iggy pop e um ótimo remix da original caetanística feito pelo dj e produtor pedro zopelar.

segunda-feira, 23 de março de 2009

ô betz

nunca entrevistei maria bethânia. é uma daquelas "coisas pra se fazer antes de morrer", principalmente se for pro gafieiras. então, quando estreou na tv o documentário música é perfume, do suiço georges gachot (janeiro de 2008), fiz uma matéria pra monet e como bethânia não me deu moral (não ela, claro, mas sua assessoria) pensei em falar com algumas cantoras e ver qual era a influência da grande dama em suas carreiras. as gentis (e talentosas) alzira e, rita maria e fabiana cozza me atenderam e o texto saiu assim. ah, lembrei de bethânia porque marcus preto escreveu ontem na folha sobre um blog que compartilha gravações ao vivo da cantora que nunca saíram em disco. é o maria bethânia re(verso). e esse post é dedicado às adoradoras de betz que conheço. minha amada carolina e as amigas daniela, adriana, gabriela, cris e ludmila (que fez aniversário ontem, parabéns). esqueci alguém?

PERFUME DE BETHÂNIA

Bendita entre as cantoras, Maria Bethânia vem conseguindo manter, há pouco mais de 40 anos, uma das carreiras mais originais, coerentes e comercialmente bem sucedidas da história da música popular brasileira. Protagonista do documentário Música é Perfume, uma das estréias do mês no Canal Brasil, a intérprete baiana é mostrada em toda sua paixão e meticulosidade, tanto em shows e ensaios quanto em sua intimidade, tudo sob o olhar atento do cineasta Georges Gachot. Especialista em música erudita, o suíço se encantou com a forte presença de palco de Bethânia em um show no célebre Festival de Montreux. Mas isso é coisa mais que sabida pelo público brasileiro e por inúmeras gerações de cantoras nacionais que a tomaram como referência (mesmo porque não existem “seguidoras de Maria Bethânia”).

Alzira E, Rita Maria e Fabiana Cozza, cantoras de trajetórias e gerações diferentes, já sentiram essa força estranha que tomou o gringo pelos olhos e ouvidos. Cada uma a sua maneira. Mato grossense radicada em São Paulo, Alzira E (E de Espíndola), 50 anos, tem sete discos no currículo e canções gravadas por figuras como Ney Matogrosso e Zélia Duncan, boa parte delas feita em parceria com Itamar Assumpção. “Conheci Bethânia no final dos anos 1960, cantando ‘Carcará’, e ela me passou uma força tão grande com aquela voz e aquele sotaque. Foi quando me interessei por toda uma cultura musical nordestina que até então era muito distante pra mim”. Desde então, as músicas cantadas por Bethânia entraram de vez no repertório da ouvinte e fã. “Ela no palco é tão intensa e real, mas do seu repertório o que mais me acompanhou foi do disco Drama – Anjo Exterminado (1972). Todas ali são muito especiais pra mim”. E ela tem algum defeito, algum ponto fraco? “Só se for o meu, quando escuto
‘Anjo Exterminado’”, e dá uma risada.

Mais jovem e com apenas um disco lançado, Fora de Órbita (2005), a cantora e compositora Rita Maria, 33 anos, ouvia Bethânia em casa por influência dos pais. “Depois veio o programa Plunct Plact Zum, em 1984, com a canção
‘Brincar de Viver’. Mas a primeira audição consciente foi por volta dos 15 anos quando descobri o vinil de Recital na Boite Barroco (1968)”. Pouco mais tarde, quando começou a cantar, a paulistana sentiu as diferenças. “Mesmo não tendo a voz grave ou buscando no meu gesto vocal toda a teatralidade que ela traz, usei isso, a força da interpretação do texto, como uma referência pessoal, inclusive na hora de compor. Vejo o trabalho dela ser construído com muita coerência, tudo o que ela canta vem com a assinatura da intérprete, traz uma marca, uma cara, e transita por muitos repertórios”.

Já Fabiana Cozza, 31 anos, uma das mais elogiadas intérpretes de samba da atualidade e com dois discos na bagagem (o mais recente, Quando o Céu Clarear, acabou de ser lançado) declarou que “ouço Bethânia desde muito pequena. As primeiras canções de que tenho recordação são
‘Explode Coração’ e ‘Sangrando’, ambas do Gonzaguinha”. Hoje em dia, Cozza se espelha em Bethânia nessa busca da intérprete. “Ela fez uma escolha pelo caminho da intérprete, o que amplia a visão da arte dela e nos presenteia com essa grandeza. Costumo dizer que você pode ser uma ótima cantora ou uma intérprete do canto, um ótimo ator ou um intérprete do teatro. Bethânia é essa voz que pode se desdobrar no que quiser sobre o tablado porque tem o palco como espaço do sagrado”. Palavras delas ao som da Abelha Rainha.

e agora, uma pequena entrevista que fiz por e-mail com o diretor georges gachot.

MONET - Quais foram suas primeiras impressões ao ouvir Maria Bethânia? E o que te levou a decidir fazer um filme sobre ela?
GEORGES GACHOT - A primeira vez que ouvi Maria Bethânia foi em Montreux. Acho que em 1996. Foi também meu primeiro contato com a música brasileira. Nesta noite descobri uma fantástica artista que sabe como dividir sentimentos musicais com seu público. Fiquei impressionado por sua musicalidade pura, pela escolha de repertório e pelo modo como passa de uma música para outra. O poder de sua voz pode ser comparado com a força de um planeta! Desde 1989, o sentido da minha vida é transpor sentimentos musicais para a tela. Por causa disso estou permanentemente em busca deste poder musical e de artistas que o carreguem. Não quis produzir uma biografia e sim fazer com que o poder de sua voz fosse visualmente acessível.

Quais foram as maiores surpresas que você teve ao pesquisar e, posteriormente, falar com e sobre ela?
A maior surpresa que tive veio em forma de música. Ainda estou sob o encanto de canções como
“Motriz” (Caetano Veloso), “Luar do Sertão” (Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco) e “Negue” (Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos). Bethânia também me fez descobrir Chico Buarque. Nossa visita a Santo Amaro da Purificação e o encontro com Dona Canô e Caetano Veloso nos deram um panorama maior de como encarar a arte de Bethânia. Também fiquei muito impressionado com suas convicções, concentração, profissionalismo e o jeito como constrói sua arte no trabalho diário. Por causa dela acabei fazendo de um dos versos da música “Samba da Benção” (Baden Powell e Vinicius de Moraes) - “É melhor ser alegre que ser triste” – a filosofia que tento seguir dia após dia.

Como está caminhando este seu novo documentário sobre a Nana Caymmi?
Bethânia me fez entrar no mundo da música brasileira e assim descobri Nana Caymmi. Queremos apresentar um lado de Nana Caymmi que o público brasileiro não conhece e ao mesmo tempo com um apelo diferente para o público internacional. Esperamos finalizar o documentário até o fim de 2009.