quarta-feira, 30 de junho de 2010

do lado de fora da cela

quase três anos depois voltei a escrever uma reportagem para o projeto generosidade (a outra tá aqui), e novamente na revista monet (agora na edição de julho). fui com o fotógrafo jefferson dias rumo a cidade paulista de votorantim, próximo a sorocaba, para saber mais sobre o tv cela, projeto que une as reeducandas da cadeia pública feminina da cidade na criação e realização de um programa que trata de saúde, mulheres, direitos humanos e cultura, entre outros assuntos (e que é exibido em tvs comunitárias e afiliadas da região). tudo feito por elas com o objetivo de quebrar uns tantos preconceitos da sociedade civil. projeto bacana e importante.

uma das coordenadoras do projeto, a jornalista luciana lopez, prende um lençol que serve para suavizar um pouco da luz natural, enquanto a apresentadora do tv cela (e detenta) iara mello observa

CORREDOR DA LIBERDADE

É dia de visita na Cadeia Pública Feminina de Votorantim, cidade que foi distrito de Sorocaba e fica a 100 km de São Paulo, e a alegria é palpável em cada conversa. Mas, como é habitual no sistema prisional brasileiro, existem mais bocas por aqui do que deveriam. Construída para abrigar 48, a cadeia está agora com 172 e já chegou a ter pouco mais de 200 reeducandas – termo utilizado para substituir os estigmatizados ‘detentas’ ou ‘presidiárias’ e que revela o desejo por ressocialização. Com tanta mulher junto, o burburinho não tem fim, nem mesmo quando chega a hora das visitas irem embora, pois a melancolia das despedidas é logo substituída pela euforia das lembranças. E elas cantam, batem palmas, riem. Mas o dia ainda não acabou e é hora de começar a gravação de mais um programa do TV Cela.

Criado e coordenado voluntariamente pelos jornalistas Werinton Kermes e Luciana Lopez, o TV Cela teve início em setembro de 2009 e é filho direto de um programa de rádio chamado Povo Marcado (e um posterior documentário de mesmo nome), realizado no mesmo local entre 2007 e 2008. O estímulo sempre foi muito claro e de mão dupla: os programas servem para desfazer preconceitos da sociedade sobre o universo da carceragem e, ao mesmo tempo, as detentas se descobrem capazes de habilidades até então desconhecidas, afinal são as próprias que assinam roteiro, produção, apresentação e câmeras.


“A gente não costuma perguntar sobre o passado, mas sabemos que a grande maioria das mulheres veio parar aqui por tráfico de drogas ou por associação ao tráfico. E quase todas ainda estão esperando, presas, a sentença. Por isso, nossos assuntos giram sempre sobre o futuro”, explica Luciana. E assim elas falam de saúde, cultura, direitos humanos, leis, beleza e trabalho, além de uma entrevista especial por programa, que é veiculados em canais comunitários como a TV Votorantim, e apoiado pela Associação Cultura Votorantim e pelo CEUNSP (Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio).

A “cela-estúdio” é montada rapidamente em um dos corredores da cadeia, enquanto um maquiador faz o seu trabalho na apresentadora Iara Mello e na cinegrafista Edicleusa Gomes que, experientes, estão no projeto desde o início. Existe um rodízio entre as integrantes da equipe que faz a TV Cela, um tanto para envolver um número maior de detentas, mas também por causa de ocasionais liberdades e transferências.

“O cotidiano aqui é muito parado, então quando o projeto apareceu foi uma maravilha, me deu uma nova esperança”, diz Edicleusa, mãe de três filhas e natural de Itu. “Sabe uma coisa que me impressionou? A repercussão do que a gente faz lá no blog e em cartas que recebemos. Tem do Brasil inteiro, principalmente depois de um programa que fizeram sobre a gente lá na ESPN”, explica Iara, que era auxiliar de modelista em Tietê e agora pensa em apresentar uma atração para jovens. No momento, e um pouco nervosa, entrevistará o respeitado jurista e político Hélio Bicudo que, antes de começar o programa, pede para conhecer a cadeia de cela em cela.

Tudo pronto e uma das detentas manda um “salve geral” para as colegas fazerem silêncio. A gravação transcorre dentro do mais calmo profissionalismo e é visível o encantamento de Bicudo ao se deparar com perguntas tão sérias quanto pertinentes. “Eu vi algo de novo aqui, nesse programa que desvenda uma prisão feminina. Foi muito gratificante participar”, declarou após cerca de uma hora de gravação. Então a noite cai e é hora de partir. Mas não para essas mulheres de Votorantim que já sonham com novos programas, enquanto a liberdade não chega.

p.s.: achei no amigão youtube um trecho desse programa com o hélio bicudo e que acompanhei a gravação. saca só.



também achei esse outro (mais interessante e melhor editado) com cenas do cotidiano da cadeia e bastidores de outras gravações. ao som de "metrô linha 743" (raul seixas) por cássia eller.


terça-feira, 29 de junho de 2010

segunda-feira, 28 de junho de 2010

tarantino vs. irmãos coen vs. kubrick vs. scorsese





“nunca fiz curso de nada relacionado ao cinema. não me considero um editor de verdade, e sim um observador, não inventei ou revolucionei em nada nos meus vídeos. é só você reparar bem nas montagens dos filmes do stanley kubrick e nas edições dos filmes do scorsese que são feitas pela minha montadora favorita (thelma schoonmaker), que você vai encontrar tudo o que eu fiz lá. o que acontece é que muitas pessoas não percebem isso. muita gente diz que um filme bem editado você não deve ser capaz de perceber a edição, acontece que pra mim é completamente ao contrário, eu penso é que você tem que se divertir com ela.”, afirmou leandro braga perluxo (leandro copperfield), o autor destas duas montagens, em entrevista ao blog alienado. esses mashups cinematográficos vem fazendo muito sucesso na internet e já apareceram em sites e blogs mundo afora, gente que até acha que o estudante de direito de 21 anos, nascido e criado em nova iguaçu (rj), é montador profissional.

sábado, 26 de junho de 2010

é tempo de amar



isso mesmo, herbie hancock e céu juntos numa regravação do afro-samba "tempo de amor" (baden powell e vinicius de moraes). acompanhando estão lucas martins (baixo), curumin (bateria) e rodrigo campos (percussão). a versão é muito boa, mas tive a impressão que a céu tava muito tensa ou foi respeitosa demais, porque os pontos altos são a levada afrobeat do curumin e a hora que o hancock se atraca lindamente ao piano. a música faz parte do novo disco do pianista, the imagine project (hancock records, 2010), que foi gravado em sete países com uma porrada de convidados e tem, um pouco, cara de projeto caça-níqueis bem intencionado (afinal, entre os convidados, estão pink, juanes e seal, e também k'naan, john legend, konono nº 1, tinariwen e wayne shorter). tem que ouvir o resto, mas essa valeu. a dica veio do corjaman valtinho (@valtersil).

zumbi é coisa nossa

soube da existência do filme mangue negro (2009) acho que pelo paulo terron. não sou lá muito fã de filmes de terror, mas um longa de zumbis feito na raça em uma vila de pescadores em guarapari, espírito santo, é história boa demais. quando soube que o filme ia passar no canal brasil (é agora, dia 27, domingo, 22h30) coloquei na pauta da revista monet e entrei em contato com o diretor, o capixaba rodrigo aragão. por sorte ele estava passando por são paulo para apresentar o filme em uma mostra no itaú cultural. combinamos de nos encontrar e acabamos parando num boteco na alameda santos entre algumas cervejas (curiosamente, só tinha devassa). foi lá que fiquei sabendo como surgiu esse filme tão precário e irregular quanto apaixonado e original. segue o texto com muitas faixas bônus (entre elas, fotos que o rodrigo mandou para ilustrar a matéria da monet).

zumbi de colete? portanto rodrigo aragão (o diretor de mangue negro) é...

ZUMBI É COISA NOSSA

Era uma vez um “ecossistema costeiro, de transição entre os ambientes marinho e terrestre; uma zona úmida característica de regiões tropicais e subtropicais”. Era uma vez um mangue. Mas não um daqueles normais com peixes, caranguejos, aves e aquelas árvores com raízes retorcidas para fora da água. Era uma vez um mangue infestado de zumbis sedentos por sangue. Essa é a realidade de Mangue Negro, longa de terror escrito e dirigido por Rodrigo Aragão que estreia no Canal Brasil e foi todo filmado próximo a uma vila de pescadores conhecida como Perocão, em Guarapari (ES).

Produção totalmente independente e feita na raça por Aragão e um grupo de amigos malucos, todos nascidos e criados no Perocão e arredores, o filme é sonho antigo desse capixaba. “Meus primeiros esboços sobre um filme de zumbis foram feitos quando tinha uns 14 anos em um caderninho com desenhos e uma espécie de roteiro. Estou agora com 33. Quer dizer, essa história passou por muita coisa”, afirmou em breve passagem por São Paulo para exibir seu primeiro longa em um festival no Itaú Cultural. Filho de um ex-dono de cinema e mágico, Aragão começou a trabalhar nesse ramo de fantasia e ilusão ainda adolescente fazendo maquiagem e efeitos especiais. Queria fazer uma série de terror e colocar pra fora aqueles monstros que povoavam sua cabeça. Queria se divertir.

A adolescência passou e Aragão só conseguiu começar a colocar seus monstros na rua - ou melhor, no palco - a partir de 2000 com o espetáculo teatral Mausoleum (“Era uma loucura: uma estrutura toda de metal com bonecos, máscaras, luz, fumaça, jatos de ar, música e uma história super louca com cenários diferentes”). Depois vieram três curtas que serviram como exercícios de técnicas, brincadeiras e, acima de tudo, modéstia. Um deles, Chupa-Cabras, custou apenas 300 reais, foi feito durante um final de semana em um sítio da família com apenas dois atores e uma câmera emprestada. O sucesso em alguns festivais do Estado e no YouTube lhe deu ânimo para se arriscar no primeiro longa [Chupa-Cabras está aqui em parte 1 e parte 2].

Aragão começou o projeto de Mangue Negro construindo um barraco no quintal de sua casa, onde filmou e editou dez minutos do filme com o objetivo de conseguir algum investidor interessado. Um amigo de longa data topou a empreitada e injetou aproximadamente 60 mil reais nessa saga quixotesca que começou a ser filmada em 2005 e terminou em 2008. E o que acontece nele? Assumidamente exagerado, o roteiro gira em torno de um mangue contaminado pela poluição e de um bando de zumbis que brotam dele esfomeados. A população ribeirinha passa a ser trucidada e um casal - Luís da Machadinha (Walderrama dos Santos) e Raquel, a lavadeira (Kika de Oliveira) – luta por suas próprias vidas e pela busca de uma possível cura. Assim, simples assim.

“Então, na verdade, fiz o filme pra mim mesmo. Tenho total consciência disso, afinal tive total liberdade para colocar tudo que queria ver em um filme de terror nacional. O Mangue Negro é muito brasileiro, muito caipira, e isso é uma coisa que encanta o pessoal lá fora”, explica esse fã da independência e do humor de Mazzaropi e José Mojica Marins (Zé do Caixão) que viu o filme ganhar destaque em mostras na Argentina, Chile e Inglaterra. Por isso tem uma coisa que não entra na sua cabeça: porque até hoje o gênero não decolou no Brasil? Esboça uma explicação. “O brasileiro nunca teve o prazer de se ver lutando contra coisas mais fantasiosas porque nosso cinema é todo muito focado nas nossas mazelas sociais: pobreza, corrupção policial, favela, coisas que a gente vê todo dia no jornal. Você não tem um herói brasileiro que lute contra coisas fora da realidade.” Agora temos o humilde e batalhador Luís da Machadinha estourando cabeças de mortos-vivos em plena luz do sol do Espírito Santo.

Com o filme chegando agora ao grande público televisivo nacional, Aragão sonha em fazer um longa por ano em esquema auto-sustentável. “Filmes baratos que se paguem com o objetivo de financiar o próximo trabalho, para não precisar de leis de incentivo.” A ideia é que Mangue Negro seja o primeiro de uma trilogia local chamada “Fábulas Negras” sendo que o próximo (A Noite do Chupa-Cabras) será filmado em montanhas próximas e o último, ainda sem título, trate de monstros no litoral. É, o terror está cada vez mais próximo da gente.



a conversa com o rodrigo aragão deve ter durado 1 hora, algo por aí, mas como é fácil de imaginar pouca coisa da entrevista acaba entrando na matéria: outras informações pra dar, o ambiente, é preciso toda uma história. mas como aprendi no gafieiras é bom ter acesso a esse material que fica de fora porque é revelador de outras histórias e é gostoso de ouvir (conversa boa de ter é boa de ouvir, acho). então seguem aí trechos graúdos da entrevista do rodrigo sem minhas intromissões.

Fiz com uns 14 anos meus primeiros esboços para um filme de zumbis. Estão em um caderninho com desenhos e uma espécie de roteiro. Estou agora com 33, então essa história passou por muita coisa. Mas o primeiro prego para o Mangue Negro aconteceu no final de 2004 quando comecei a construir um barraco no quintal da minha casa.

Comecei a fazer efeitos especiais aos 15 anos e já tinha um pilha de roteiros. Queria fazer uma série de terror, mas nunca consegui. Aí, em 2000, consegui um sócio para fazer um espetáculo de terror. Foi aí que montei o Mausoleum, assim em latim mesmo, e era uma loucura: uma estrutura toda de metal com bonecos, máscaras, luz, fumaça, jatos de ar, música e uma história super louca com cenários diferentes. Isso foi no Espírito Santo, mas era um espetáculo itinerante que depois foi para Belo Horizonte e Salvador, onde a gente passou quase dois anos. Foi super bacana. Esse grupo do Mausoleum foi o mesmo que fez o Mangue Negro. Em 2004 o espetáculo terminou, o grupo meio que se desfez e eu voltei pro Espírito Santo.

Depois disso fiquei meio desiludido, pensando em abandonar tudo, até que um amigo me ofereceu o equipamento pra filmar meu primeiro curta, em 2005. Passei uns três meses produzindo, escrevendo, procurando ator e uns dois dias antes de começar a filmar esse meu amigo falou que a mulher tava brigando com ele, que não gostava de terror, e as filmagens foram atrasadas alguns meses. Mas pelo teor da conversa já vi que não ia rolar. Foi um negócio tão frustrante, tão frustrante, que engavetei o roteiro e decidi escrever, no lugar, o filme mais simples, o roteiro mais fácil de fazer do mundo. Foi o Chupa-Cabras, um filme mudo, porque não tínhamos microfone; sépia, porque a câmera não era boa e assim dava pra dar uma disfarçada; e só com dois atores. Filmamos com 300 reais, uma câmera emprestada e no sítio dos meus pais durante um fim de semana. Esse filme foi muito além do que imaginava, ganhou vários prêmios em festivais no Espírito Santo. Isso me deu um gás.

Quando acabei o barraco no quintal de casa comecei a fazer o Mangue Negro, eu e mais quatro amigos. Filmamos e editamos 10 minutos de filme e mostrei para um amigo, parceiro dos tempos do Mausoleum, que gostou e decidiu investir 60 mil reais no filme. Mas consegui comprar uma câmera, mesmo que simples, e fizemos o filme no esquema de mutirão. Terminamos Mangue Negro em meados de 2008 e exibimos pela primeira vez no Fantaspoa (o Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre). Depois fomos para Buenos Aires e Santiago, no Chile, e ainda São Paulo e até Londres.

Lá no Espírito Santo vivo meio isolado. Moro numa aldeia de pescadores e sou muito fã de filmes de terror, o que me fez ser o maluco do local. Aliás, o pessoal que trabalhou comigo no filme nem gosta tanto assim do gênero. Então, na verdade fiz o filme pra mim mesmo. Tenho total consciência disso, afinal tive total liberdade para colocar tudo que queria ver em um filme de terror brasileiro. Mas o mais legal do Mangue Negro foi quando mostrei o filme para o público, e vi a reação deles. Porque é um filme feito de fã para fã. O pessoal percebe uma sinceridade no negócio, além de ter as mesmas referências. Quem não tem isso não consegue entender como alguém pode gostar de uma porra dessa.

O terror está dentro da mente humana desde as cavernas. Medo do escuro, de bicho... é que hoje em dia, nessa nossa vida urbana, nossos medos passaram a ser muito reais, da violência, do tráfico, do assalto. Mas esse espaço para o medo sobrenatural, o medo da fantasia, é super importante para o ser humano. É quase inexplicável que o Brasil, com tantas lendas e histórias, com um folclore tão rico, não tenha muito histórico no gênero de terror.

O terror é um gênero muito difícil. Tem que ter um timing certo, não dá pra enrolar. Ou assusta ou não assusta. Ou tem medo ou não tem medo. Ou pula da cadeira ou não pula da cadeira. É ação e reação. É um exercício muito real. Tanto que muitos diretores famosos começaram no terror, tais como Steven Spielberg e Peter Jackson. É um estilo muito honesto. Eu faço por achar muito divertido.

Meu estilo de terror é o dos anos 80. Ritmo legal, exageradíssimo, com humor. Mas com uma linguagem muito brasileira. Essa é a mistura que tenho feito. Esse é o diferencial. O Mangue Negro é muito brasileiro, regional, muito caipira. Isso é uma coisa que encanta o pessoal lá fora. E pra se pagar um filme não dá pra ficar preso ao mercado nacional. Na Argentina, por exemplo, que é o maior mercado produtor de terror da América Latina eles fazem uma coisa que não gosto: eles fazem um filme falado em inglês, em Buenos Aires como se fosse em Los Angeles, tudo para sobreviver. É terrível. Gostaria de ver um filme de terror argentino de verdade. Americano a gente vê um monte.

O brasileiro nunca teve o prazer de se ver lutando contra coisas mais fantasiosas, porque nosso cinema é todo muito focado nas nossas mazelas sociais: pobreza, corrupção policial, favela, coisas que a gente vê todo dia no jornal. Você não tem um herói brasileiro que lute contra coisas fora da realidade.

O sonho da minha vida é poder fazer um filme por ano, fazer cinema auto-sustentável. Fazer filmes baratos que se paguem com o objetivo de financiar o próximo trabalho, para não precisar de leis de incentivo, políticas. Enfim, é um sonho.

e segue abaixo a página com a matéria na monet.

p.s.: e mangue negro está saindo em dvd duplo, com comentários em audio, making of e todos os curtas que rodrigo aragão fez antes de seu primeiro longa. imperdível para quem gosta de cinema de brasileiro e de filmes de terror. ah, e dá pra comprar diretamente com o pessoal mandando email para o vendas@fabulasnegras.com (o dvd duplo sai por 25 reais mais 5 reais de despesas postais). e os dados bancários são...

banco bradesco
agência 1474-5
conta corrente (pessoa jurídica) 032330-6
fábulas negras produções artísticas
cnpj 09. 369.796/0001-29

quinta-feira, 24 de junho de 2010

as cores de um diamante

já tem um tempo que corre pela internet uma versão demo do primeiro trabalho do projeto almaz (que significa diamante em russo). não sei se o nome oficial será almaz ou seu jorge & almaz, mas é certo que o encontro de seu jorge, lúcio maia, antônio pinto e pupillo está entre as boas notícias do ano. a princípio, o quarteto se reuniu para gravar uma versão de "juízo final" (nelson cavaquinho e élcio soares) para a trilha de linha de passe (2008), de walter salles e daniela thomas. no estúdio, uma música virou duas, três, quatro e um repertório foi nascendo com tim maia ("cristina"), kraftwerk ("the model"), martinho da vila ("cirandar"), michael jackson ("rock with you"), jorge ben ("errare humanum est"), noriel vilela ("saudosa bahia") e roy ayers ("everybody loves the sunshine"), entre outras.

pelo que dá pra ouvir nas versões demo, o disco é de encher os ouvidos, cheio de climas e grooves. mas segundo informações da jornalista patricia palumbo, o lp e cd duplo só tem previsão de lançamento no exterior (shows? também só lá fora) e assim, novamente, acontece o mesmo que ocorreu com o sonantes (céu, rica amabis, gui amabis, pupillo e dengue), que lançou um disco fudidaço em 2008 e que nunca ganhou versão nacional. enquanto isso não acontece, a gente torce e acompanha (e ouve mesmo assim). escolhi três entre as doze que já estão por aí, começando com altemar dutra e depois partindo para roy ayers e tim maia. só belezura.







atualização em 24 de setembro: no youtube já existem vários trechos de shows do projeto mundo afora, mas tem essa ótima entrevista feita com seu jorge em chicago.



e na sequência, a gravação de algumas parte da bateria do pupillo para a música "cristina", com a presença no estúdio dos produtores mário caldato jr, beto villares e missionário zé.




atualização em 14 de dezembro: o diretor (e ator) hindu-americano kahlil joseph fez dois curtas, filmados nos estados unidos, inspirados nesse trabalho de seu jorge & almaz (e com a participação dos próprios). climão e coisa e tal.



quarta-feira, 23 de junho de 2010

transversão #34

seguindo em cuba, mas voltando no tempo, dámaso pérez prado (1916-1989) foi um compositor de inúmeros mambos de sucesso no mundo inteiro, principalmente na década de 1950. talvez o seu maior hit tenha sido "patricia", canção deliciosa lançada originalmente em 1958. no video abaixo tem o trecho de um filme com a versão original. o orgão na introdução e o ataque de metais latinos são inesquecíveis.



"patricia" ganhou inúmeras regravações no decorrer das décadas e em todo mundo, como por exemplo na jamaica com ike bennett & the crystalites em algum lugar da década de 1960. versão retirada diretamente do disco from chariot's vault - 16 rocksteady hits vol. 1, mais uma pedrada disponibilizada pelo you & me on a jamboree.



no brasil, o mambo foi gravado por gente como emilinha borba, raul de barros, waldir calmon, ivon cury e sylvio mazzuca. mas aqui a gente vai ouvir a gravação de caetano veloso no disco ao vivo omaggio a federico e giulietta (universal, 1999). ah, e a letra em português é de um tal alexandre bougert.



e pra encerrar, uma excelente versão instrumental criada pelo encontro dos guitarristas ry cooder e manuel galbán no disco mambo sinuendo (nonesuch records, 2003).



p.s.: mas qual o motivo de caetano ter colocado um mambo cubano em sua homenagem ao diretor federico fellini e sua mulher, a atriz giulieta masina? é que "patricia" teve papel fundamental na trilha do clássico a doce vida (1960). saca só. 




atualização em 15 de maio de 2011: não podia deixar de colocar essa versão feita para uma big band colegial de marimbas. o responsável é um tal de anders kirk pedersen, dinamarquês até onde sei.

todos estão surdos

em pouco mais de um ano de uso do twitter, poucas vezes me senti tão cansado como agora. quer dizer, todo mundo que usa a ferramenta com alguma frequência sabe que a quantidade diária de opiniões, mensagens desencontradas, telefones-sem-fio e erros pode ser avassaladora. principalmente quando um assunto domina a maioria das conversas, como é o atual caso “dunga x globo”.

algumas coisas me chamaram atenção nesse bafafá. desde que dunga insultou o jornalista alex escobar (sportv/tv globo) durante a coletiva após a vitória contra a costa do marfim no domingo passado (vídeo aqui) e que teve como primeira consequência um editorial bastante raivoso no fantástico (vídeo aqui), a opinião pública internáutica e tuitêra entrou em campo com heróis e vilões bem definidos. até então, constantemente criticado por público e imprensa por seu jeito carrancudo, muitas vezes abertamente grosseiro e refratário a críticas, dunga virou herói em questão de segundos “porque se voltou contra a toda poderosa globo”. mas se tem uma coisa certa nessa história é que não existem heróis, apesar de tanta torcida maniqueísta. o caso é de briga por poder e questões comerciais. não tem nada ideológico no bate-boca entre dunga e globo que vem se estendendo desde as eliminatórias. dunga não tem nada de davi, mesmo que a globo tenha algo de golias.

dunga é um recalcado de muitos anos. no excelente texto “o homem que ama odiar”, o jornalista aydano andré motta cravou a seguinte descrição: “em todos os lugares, na vitória, no empate e na derrota, [dunga] teve como companheiro o ódio difuso, dirigido a inimigos que só ele enxerga, e a quem vive para destruir” (o texto é do dia 18, portanto antes da bagunça). um tanto desse ódio pode ser explicado porque ele se sente rejeitado, sobretudo pela imprensa, por não ser celebrado (apesar de ser um vitorioso, vide copa de 1994) como outros jogadores brasileiros (que não ganharam nada, vide a geração de 1982) e ainda por cima ter dado nome a uma época de retranca e futebol feio (a “era dunga”, pós-1994). no curto e certeiro post “dunga x globo”, juca kfouri falou um pouco sobre isso, e bob fernandes deu mais detalhes sobre os bastidores desse complexo entrevero.

o fato do técnico não liberar exclusivas e nem privilégios a nenhuma emissora ou jornal é interessante e corajoso (talvez seja o único dado positivo de seu “mandato”). mas não é por isso que os veículos vão se contentar com o que é dado e nada mais justo que todos continuem buscando as exclusivas (por isso não acho nada absurdo que a globo tenha tentado conseguir entrevistas diretamente com ricardo teixeira, como afirma reportagem de maurício stycer, e que dunga tenha vetado em tempo recorde; é parte do jogo).

mas tenho certeza que se dunga tivesse xingado alguém da folha ou da bandeirantes ele teria sido execrado e não defendido pela opinião pública. agora, como foi a “toda e poderosa globo” o tiro saiu pela culatra (da globo) e o editorial lido por tadeu schmidt no fantástico despertou mais uma vez aquele conhecido sentimento anti-globo que existe desde a ditadura militar e que ganhou novos adeptos na década de 1980 (fruto do posicionamento da emissora frente a diretas já e a eleição de collor, por exemplo). agora já existe até um #diasemglobo. sono.

nesse caso, e é isso que me cansa (ou me entristece, sei lá), o twitter reflete mais uma vez aquele espírito histérico de linchamento, tão absurdamente humano, e um jeito cego de torcedor, tão profundamente brasileiro (e que tanto tem contaminado a nossa política). é preciso ser, antes de qualquer coisa, contra algo. para só depois, talvez, ser a favor.

dunga está errado. insultou covardemente e sem motivo um jornalista que estava ali a trabalho (e olha que o jornalismo esportivo brasileiro é um dos mais bonzinhos, mais chapa-branca, entre todos os jornalimos nacionais, mas isso é outra história). dunga não é um vingador. é apenas um rancoroso com tiques populistas de auto-ajuda. a globo não é, nunca foi, e nunca será santa (como qualquer corporação), mas tem lá seu direito de reclamar por acesso (como qualquer outro veículo), afinal gastaram uma nota com direitos de transmissão, tecnologia e pessoal. se o dunga acha que isso atrapalha os jogadores e decide limitar as entrevistas, tá certo, tá no seu direito, e a globo tem que engolir. mas não me venham com esse papinho mirim de dunga-herói e globo-vilã. quer criticar a globo? motivos (reais) não faltam.

então, bola pro mato que o jogo é de campeonato.

p.s. 1: agradecimentos especiais a humberto peron e luís alberto nogueira pelas boas e reveladoras conversas sobre o assunto. afinal, são eles que realmente entendem de futebol. eu só dou uns chutes.


p.s. 2: problemas aqui no blog me fizeram ter que republicar essa postagem e no meio do caminho os comentários que estavam na janela se perderam. consegui recuperá-los e seguem abaixo.

corinthiano - Eu já acho que o Dunga fez muitas coisas certas e a única errada é o seu "jeito" de tratar a imprensa em geral (apesar de amar o que ele tem feito a Globo).

anônimo - Engraçado é ver os vídeos que estão no Youtube mostrando o "trabalho" dos ditos jornalistas da SporTV, comentando apenas os erros de português do Dunga. Não seria melhor a Grobo contratar o professor Pasquale, então? Outra: problemas com a Grobo sempre são discussões ideológicas, já que a emissora não cobre os eventos, edita-os para mostrar o que quer.

paulo almeida prado - "o fato do técnico não liberar exclusivas e nem privilégios a nenhuma emissora ou jornal é interessante e corajoso (talvez seja o único dado positivo de seu “mandato”)." vc esqueceu que até agora, ele ganhou simplesmente TUDO que disputou como técnico da seleção? não to defendendo o Dunga não, mas já acho absurdo falar que o cara não fez nada de útil.

vagner "ligeiro" - Há 3 correntes: Os contra a Globo, Os contra o Dunga e Os contra os twitteiros reclamões. =p Briga vai, briga vem, os cães ladram e a a caravana passa. Dunga ainda é técnico e a Globo continua com sua gigantesca (?) audiência. E cá entre nós, concordo numa coisa: o twitter virou um setor para malhação de Judas no Brasil. Quer malhar alguém? Jogue no Trend Topics e deixem eles cairem. =p No final, essa briga toda só deu audiência para um monte de gente, e enquanto isso as pessoas só se unem para este tipo de coisa, ao invés de se unirem e botar os políticos ladrões na rua ou punir os criminosos que roubam os outros.

m.f. - Ótimo texto! Concordo com praticamente tudo. A parte final principalmente: motivos (reais!) pra criticar a Globo não faltam, né? Mas criticar pelo motivo errado é complicado. E o espírito de manada no Brasil (aliado ao Twitter) acaba fazendo do assunto um popular "trending topic" enquanto existe tanta coisa mais importante a ser falada...

luma rosa - O técnico não liberou exclusivas e nem privilégios a nenhuma emissora ou jornal. Certo. E porque o Dunga iria se dirigir exclusivamente a um jornalista global na coletiva? Concordo quando afirma que a repercusão não seria a mesma se fosse escolhido outro repórter, de outra emissora e o Dunga, por mais 'burro' que ele possa parecer, pode ter sido bem assessorado neste episódio, afinal, foi desviado todo o foco 'da seleção'. Tudo premeditado para preservá-la. Um circo! E nós caímos de patinhos!! Não se fala da seleção, só se fala do Dunga!

paulo santoro - Penso diferente: http://beneficio-da-duvida.blogspot.com/2010/06/dunga-x-globo.html

anônimo - A seleção brasileira é formada por jogadores que atuam na europa, logo se a globo estivesse interessada na seleção cobriria com destaques / chamadas os campeonatos europeus. Mas que nada, somente esse ano ao comprar os direitos da EURO é que foi falar algo [e nada de pré-copa, foi uma ação para evitar o crescimento da Record]. Logo entendo que a Globo colhe o que planta, ou seja, ela não esta preocupada com o produto futebol e o futebol tbm não está mui preocupado com a Globo. Problema maior será qdo o preço dos direitos da copa forem tão grandes que nem ela conseguirá bancar [dentro em breve].

comfelelimao - Concordo totalmente, e é importante essa "tendência linchadora" do twitter. Este movimento vai aumentar com a aproximação das eleições.

silvana - Perfeito! Parabéns pela clareza, lucidez e inteligëncia do texto!

bruno - Foi o twitter que possibilitou a leitura do texto acima. Além disso mostra como as pessoas tendem a se comportar qunado estão à vontade - os pontos que precisam de mudança ficam bem expostos. concordo plenamente com a ideia central do texto.

p.s. 3: muita coisa aconteceu depois desse jogo com a costa do marfim. houve um empate feio e sem gols com o portugal, mas o brasil passou para as oitavas e jogou muito bem contra o chile (3 a 0). dunga pareceu mais leve nas coletivas posteriores e a imprensa deu uma trégua. mas hoje, dia 2 de julho, depois de um ótimo primeiro tempo, o brasil se perdeu em campo e foi supreendido pela holanda que virou o jogo, ganhou de 2 a 1, e nos eliminou. nas quartas-de-final. todas as críticas à falta de criatividade do meio de campo brasileiro (e ao banco de reservas sem opções e a um felipe melo invariavelmente desequilibrado) se mostraram cruelmente verdadeiras. dunga já declarou que não é mais técnico, mas duvido que ele tenha aprendido alguma coisa. será que pelo menos nós aprendemos?

segunda-feira, 21 de junho de 2010

não existem palavras...

danay suarez fernandez, ou simplesmente danay, é uma cantora cubana da novíssima cena rapper da ilha. na verdade ela se considera mais cantora que rapper, e mais jazz que soul, mas tá tudo junto em sua voz. ouçam e vejam "lagrimas de soledad (no existen palabras)", música que está no ótimo disco gilles peterson presents havana cultura: new cuba sound (brownswood, 2010). danay emplacou ainda outras duas participações no disco duplo: "individual" e "la revolución del cuerpo pt. 1".



mais informações sobre danay no site havana cultura (onde achei essa entrevista que segue abaixo) e o disco do produtor francês-inglês gilles peterson está no original pinheiros style.

DANAY / Danay’s interview

domingo, 20 de junho de 2010

domingueira

soube de marcelo coutinho, vulgo qinho, quando ele lançou vulgo qinho & os cara (independente, 2007). som bacana, bom de ouvir, uma certa personalidade, canções próprias e uma ótima regravação de "negra melodia" (jards macalé e wally salomão). quer dizer, teve jards já me ganhou um pouco. mas aí nunca mais soube do sujeito, o "queridinho da nova cena da mpb carioca", até ver uma fotos meio homoeróticas (hehehe), tiradas por jorge bispo, na tpm de maio. pouco depois descobri que ele lançou no ano passado um primeiro trabalho solo, canduras (independente, 2009), cheio de canções românticas, mais soul e bossa, como essa "mais de uma janela" (qinho e botika). música e clipe inspirados pr'um ótimo domingo pra todos.



só soube desse clipe ao pesquisar sobre a música "mais de uma janela" que vi embalando um passeio de bicicleta pela lagoa rodrigo de freitas. pilotando a magrela, o ilustrador
andré dahmer
(o @malvados).



e aqui tem uma versão ao vivo com os parceiros qinho e botika. e aqui tem o vulgo qinho & os cara. e aqui tem canduras.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

o que tem de bom em parar o tempo?

o cineasta andrei tarkovski (1932-1986) responde numa série de polaróides tiradas, no final da década de 1970, na rússia e na itália.

fiquei sabendo dessas polaróides via @andre_conti que me levou ao blog poemas del río wang (em espanhol e inglês) que, por sua vez, indicou o site (em russo) que digitalizou essas e outras imagens. agora, sobre tarkovski. sua carreira se resume a 8 longas (sendo que 1 documentário), 2 médias e 1 curta. vi apenas o belíssimo a infância de ivan (1962) e o impressionante e difícil stalker (1979). não consegui ir até o final de solaris (1972). dormi, confesso. ah, li seu livro esculpir o tempo (martins fontes, 1998). e só. quer dizer, tarkovski é cultuado por muitos cinéfilos mundo afora (e merece toda admiração, afinal é cineasta-artista como poucos), mas definitivamente não está entre meus preferidos. talvez seja por causa de tanta metafísica, tanta filosofia e tanto silêncio (e olha que gosto de silêncio). mas jamais esquecerei o impacto que senti ao ver a infância de ivan e seus lindos movimentos de câmera (como esse, no qual o soldado suspende a moça sobre uma vala e a beija, enquanto a câmera desce e sobe, acompanhando o movimento). observação: esse trecho não tem legenda alguma, portanto é cada um por si e o russo contra todos. mas dá pra sentir bem o clima entre o casal.

sexo ocasional e angolano



o maninho de rosa que começa a chorar, insultado com a pergunta, foi a cereja do bolo. olha, eu ri muito. esse é um quadro do programa "fora de série", feito pelos comediantes do grupo tuneza para uma tv angolana. nem sei o que é entrevista e o que é ficção (interessa?). via @flaviadurante e não salvo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

puma X gnarls barkley

tem uns publicitários e cineastas que capricharam em videos relacionados à copa do mundo de futebol. dois exemplos fizeram muito sucesso: "write the future" da nike (direção de alejandro gonzález iñarritu) e "oh, africa" da pepsi. mas quando vi esse curta da puma (via @chicobarney) só com jogadores africanos batendo um bolão não tive dúvida: esse é o melhor dos três, principalmente por causa da música "going on" do gnarls barkley.



é interessante ver como o curta da puma lembra a euforia dançarina do clipe oficial dessa música do gnarls barkley - que é do segundo disco da dupla danger mouse e cee-lo green, the odd couple (atlantic records, 2008). ah, o clipe foi filmado em kingston, jamaica.

terça-feira, 15 de junho de 2010

o inferno florido de quantic

já falei aqui de um dos projetos do inglês will holland, quantic and his combo bárbaro. mas o seu trabalho mais delicioso se chama quantic presenta flowering inferno. misturando dub, reggae, africanidades e latinidades, quantic lançou, sob essa alcunha, death of the revolution (tru thoughts, 2008) e agora veio com dog with a rope (tru thoughts, 2010), ambos indispensáveis para quem gosta de bons sons. separei aqui três faixas do disco novo. aumenta o som aí.








e como bônus, o vídeo de "death of the revolution", a faixa que deu nome ao primeiro disco do flowering inferno. animação bela e simples.


segunda-feira, 14 de junho de 2010

no lugar onde a coruja dorme

quinze dias depois do anunciado aqui, e em toda rede, a versão 2010 de "ponta de lança africano (umbabarauma)" ganhou clipe e começou a ser vendida online no terra sonora, com toda renda revertida para o capão redondo futebol clube, projeto social comandado pelo rapper mano brown. o clipe foi lançado oficialmente ontem no fantástico, mas numa versão escandalosamente cortada. foi uma vergonha, mais um exemplo que o programa global não consegue trabalhar com material que vem de fora (tem que cortar pra se adequar à grade e coisa e tal). desperdiçaram um belo material exclusivo e que já conta com um belo público de seguidores. duvida? basta fazer uma pesquisa usando a tag #umbabarauma.



mas agora, finalmente ouvindo a música do começo ao fim, deu pra tirar algumas conclusões. o grande achado dessa versão é a presença de mano brown. e não muito mais que isso. a parte do jorge - e até os vocais das negresko sis - é praticamente igual a versão original, o que não acrescenta muito (claro que é uma música poderosa e pelo menos isso não mudou). mas sabe que fiquei com a impressão que o rap do mano brown vai perdendo fôlego, se esticando, do meio pra frente, e meio que acaba do nada, numa espécia de anti-clímax. mas nada disso tiro o brilho dessa reunião inédita. então, bola pra frente.

domingo, 13 de junho de 2010

cala boca, galvão



também conhecido como a piada nacional/interna que ganhou o mundo via twitter (queria tanto ter visto o momento que o galvão ficou sabendo dessa história). tem blog, esse video e muitas outras coisas espalhadas pela internet. aliás, parabéns ao responsáveis por esses minutos inesquecíveis: @nandopax, @nerdskamikaze e não salvo.


não tá sabendo da história? resumo aqui.

domingueira

em 2007, damon albarn (blur, gorillaz, etc.) se meteu em outro projeto paralelo: the good, the bad & the queen. ao seu lado, o baterista tony allen (fela kuti), o baixista paul simonon (the clash) e o guitarrista simon tong (the verve). a expectativa era grande e confesso que me decepcionei um pouco com o disco the good, the bad & the queen (parlophone, 2007), mas teve uma música, lançada apenas no single de "herculean", que salvou tudo (pelo menos pra mim). quase uma canção de ninar em forma de rap, "mr. whippy" conta com a participação de eslam jawaad, rapper de origem libanesa-síria. segue o video de uma apresentação ao vivo.



p.s.: achei dois clipes do ótimo disco de estreia de eslam,
the mammoth tusk (cadiz, 2009). curiossamente, as primeiras duas faixas: "pivot widdit" e "star spangled banner". segura a bronca.




mavi marmara, ou a nau dos insensatos

já vai fazer duas semanas que israel atacou a flotilla, mais precisamente o navio mavi marmara, que estava levando ajuda humanitária para a faixa de gaza. mais de nove pessoas morreram, mas o número exato ainda é uma incógnita (e a onu distribuiu sanções para o irã!). na semana passada, quando escrevi o post "from palestina with love" ainda não estavam disponíveis as imagens que a brasileira iara lee, presente no barco, fez durante o ataque. ela e outros integrantes da organização cultures of resistance esconderam os cartões de memória das câmeras em cuecas, sapatos, onde desse, até serem libertados. na quinta, dia 10 de junho, uma versão com pouco mais de uma hora foi disponibilizada e logo depois veio essa versão de quinze minutos com cenas de pouco antes e durante o ataque. muito mais foi gravado, mas boa parte do material foi apreendido pelo exército. "eu estava na parte de baixo do navio, então você não vai ver um close de tiroteio, mas os nove ativistas que morreram tinham trinta balas no corpo e isso só pode significar uma coisa", disse para dayanne sousa do terra magazine.



é, não dá pra entender muito. gente insensata essa, armada até os dentes de estilingues, pedaços de ferro e câmeras (contra helicópteros e metralhadoras). e que vem de sei lá onde, navegando numa babel de línguas, pra ajudar gente que nem conhece. quer dizer...

ah, já ia esquecendo. na segunda, dia 7 de junho, lanchas e helicópteros mataram mais quatro palestinos na costa de gaza: é que "as forças armadas disseram que o barco levava militantes armados, em roupas de mergulho, preparando-se para atacar israel". saca só o perigo que um barco desse naipe representa para um estado militarizado.


terroristas cada vez mais sofisticados...
num tá vendo? é nanotecnologia, mano!

bem, se israel faz tudo isso contra um pessoal com estilingues e barquinhos, imagine quando cruzarem caminho com a ninja-gata?

... with love

sexta-feira, 11 de junho de 2010

transversão #34

segue uma edição especial e veloz do transversão, desta vez com roberto carlos. desde muito tempo roberto e erasmo carlos possuem um acordo de assinar músicas em parceria, mesmo que só um dos dois tenha feito. coisa de amigo, irmão, camarada. mas é claro que as composições solo apareciam de vez em quando. um exemplo de música assinada apenas por roberto carlos é a doce e ultraromântica "e por isso estou aqui", lançada originalmente no filme e na trilha de roberto carlos em ritmo de aventura (1967), de roberto farias. segue o genial trecho do filme no qual aparece a música com todo sua sonoridade "antiga" à base de um piano-cravo.



por favor, o que é esse diálogo?

músico - cara, o que você tá fazendo aí?
roberto - música.
músico - quem são esses caras de metralhadoras aí fora, heim?
roberto - bandidos.

mas voltando ao transversão. essa música foi gravada outras vezes (os três morais, fábio jr. e até uma versão instrumental pelo bandolinista déo rian), mas lembrei dela ao ouvir a regravação feita pelo grupo os uirapurus em 1968. escuta só.

os uirapurus - e por isso estou aqui by dafnesampaio

essa música é do mesmo disco da genial "sabiá lá na gaiola", que o edson franco colocou no corjacast #6.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

letra/música #16

a trilha memorável de um filme tão belo quanto silencioso - é proibido fumar (2009), de anna muylaert - tem um fecho pra lá de dourado (e que, confesso, não conhecia). "dou you like samba?" é composição de marcelo duran e foi lançada em 1973 pelo cantor baiano ciro aguiar, que começou comendo pelas beiradas da jovem guarda e na virada da década de 1960 pra 70 se mudou de mala e cuia para o sambão (mas também participou de uma montagem do musical jesus cristo superstar). ciro continua por aí fazendo shows e comandando programas de rádio na bahia.

ciro mendes de aguiar, baiano da cidade de salvador do ano de 1942

do you like samba?
(marcelo duran)

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

pra poder cantar meu samba
eu já estou de perna bamba
de tanto esperar
pra você me entender
até inglês fui aprender
pra me comunicar

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

eu conheço muita gente
que querendo ser pra frente
bota a cara para quebrar
compra disco brasileiro
pensando que é estrangeiro
e vai pra casa se esnobar

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

tem um tal de cash box
que é um cara não me toques
que faz a programação
vejo a semana inteira
uma novela brasileira
e nunca vi tocar sambão

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

por favor não leve a mal
mas não entendo o pessoal
alguém tem que me explicar
ouve rock o ano inteiro
e quando chega fevereiro
vai pra escola desfilar

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you


terça-feira, 8 de junho de 2010

um tipo de tristeza reggae

falei desse bolachão aqui em outubro do ano passado e só consegui ouvir agora. a reggae interpretation of 'kind of blue' (secret stash records, 2009) tem apenas quatro faixas - mas tudo bem, afinal o kind of blue original tem só uma a mais ("flamenco sketches") - e é tão bom quanto eu imaginava. ou quase. "so what" (miles davis) e "freddie freeloader" (miles davis) são bem acima da média, "blue in green" (miles davis e gil evans) tá bonita e "all blues" (miles davis) me decepcionou um pouco. mas isso sou eu. elas tão aí, na sequência (e tomara que o goear nos ajude a todos).









de resto, a história desse disco, gravado originalmente em 1981 com músicos jamaicanos sob a direção musical de jeremy taylor, é tão interessante que vou até repostar o video de seu lançamento.



só não consegui achar as tais versões dub.

domingo, 6 de junho de 2010

domingueira



esse é o rapper brother ali, um dos caras mais interessantes que surgiram no estados unidos nos anos 2000. seu fraseado é limpo, diferente, e os beats maravilhosos, e essa música "tight rope", do sensacional disco us (rhymesayers/warner, 2009), tem tudo a ver com o dia de hoje - aqui em são paulo acontece a parada gay e todos ainda sentem as dores do ataque à #flotilla. é um chamado ao diálogo e à convivência pacífica em um frio mundo de extremos (políticos, religiosos, etc.). ia colocar a letra original aqui, mas acabei achando uma versão traduzida por felipe schmidt, lá do excelente blog boom bap. segue (e qualquer correção, avisem)...

corda apertada
(brother ali)

fria e gelada minnesota, moeda no ombro dele
dormindo mal em um sofá estragado
visitante indesejado em uma cultura diferente
sentindo falta de casa, e ele não pode lutar a guerra civil deles
ouça, soldado, esqueça seguir em frente
prisão estadual ao redor da esquina, os sem-teto estão ainda mais próximos
até as crianças com a mesma cor de pele não querem você
cospem e te insultam porque eles têm estado aqui há mais tempo
ele deixa a casa dele e é certo que os policiais vão abordá-lo
aonde você está indo? de onde você é? alguma arma contigo?
sua família está estressada, você está ficando velho
você não vive do modo que eles viviam lá na somália
é ainda mais difícil ser uma filha
tentando se manter modesta com as pecadoras ao seu redor
onde a roupa errada pode provocar uma úlcera nos seus pais
e se você se cobrir toda as outras crianças vão implicar com você

vivendo em dois mundos com seus olhos fechados
na ponta dos pés numa corda apertada
segurando-se pela sobrevivência
ninguém para culpar, é assim que as coisas são

feriados e você sabe como isso funciona
você tem dois aniversários e dois natais
quanto mais velho você fica mais percebe o quão ruim é isso
eles estão tentando compensar a culpa deles com os presentes que lhe dão
pulando da casa dele para a casa dela
é ruim demais que o casamento não tenha dado certo
agora você não tem a sua casa
papai brigando com mamãe, ambos dizem que me amam
se eu ficar próximo demais de um, o outro começa a agir engraçado
mamãe foi e teve um filho com um pai diferente
você finge que está feliz para agradá-los, mas está realmente triste
vendo em primeira mão aquela família que você nunca vai ter
e você nem é um irmão de verdade, é só metade
precisa juntar os pedaços e seguir em frente
guardar as estórias na cama e saudá-las no telefone
desejando que você fosse crescido e tivesse a liberdade de ir embora

vivendo em dois mundos com seus olhos fechados
na ponta dos pés numa corda apertada
segurando-se pela sobrevivência
ninguém para culpar, é assim que as coisas são

papai era um pastor, mamãe era uma professora de escola dominical
o irmão mais velho era o líder do time de futebol
então só sobrou você para desapontá-los ou desagradá-los
você só está fazendo o que você sente ver naquele
espelho toda vez que você se procura nele
engole as lágrimas dentro daquele sentimento vazio
o garoto dela horrorizado para deixar o mundo entrar
ele tem namoradas, mas não quer uma namorada
ele se retira para onde ele vive a própria vida em segredo
papai diz que as pessoas vão para o inferno por serem
o que ele é, e ele acredita nisso
porque não há chama que não incendeie o suficiente
para superar ser odiado pela forma que você ama
e chora para poder dormir e odeia acordar
este é um mundo frio, gente, nos envergonhemos

vivendo em dois mundos com seus olhos fechados
na ponta dos pés numa corda apertada
segurando-se pela sobrevivência
ninguém para culpar, é assim que as coisas são