sábado, 28 de fevereiro de 2009

um viva para o pica-pau!

pois é, o pica-pau morreu. ontem, aos 75 anos, o coração do grande radialista e produtor musical walter silva, conhecido desde o fim da década de 1950 como pica-pau, não aguentou mais. o tanto que esse sujeito fez pela música brasileira é de encher páginas e páginas. só pra ter uma ideia, foi ele que registrou o célebre show da bossa nova no novaiorquino carnegie hall em 1962. foi ele que "descobriu" elis regina e chico buarque. foi ele que gravou um encontro com tom, vinicius, joão gilberto e os cariocas, o show que trouxe ao mundo "garota de ipanema", "samba da benção" e "só danço samba". saiba mais sobre o homem aqui ou na nota que ricardo tacioli escreveu lá no gafieiras.

agora, o primeiro podcast que fiz lá pra monet foi no ano passado e teve como objetivo homenagear a bossa nova, e como o áudio desse show histórico na boite au bon gourmet tinha caído na rede decidi fazer um especial com as músicas inéditas (5) apresentadas naquelas noites. segue abaixo o programa que coloco hoje no ar em homenagem ao mestre pica-pau. vários minutos de muita música pra ele.


ou você pode baixar aqui.
walter silva estava ouvindo (e registrou) o que acontecia
nessa foto de antônio nery

que tempo bom!

tá lá no gafieiras uma entrevista inédita com thaide. novinha em folha e velha ao mesmo tempo, afinal de contas foi feita em abril de 2007 e só agora veio ao mundo. mas tá lá, grandona, rica e atemporal, como quase tudo do gafieiras. segue abaixo um trecho do texto de abre assinado pelo mano taciba. certo?

De sorriso difícil, mas bem-humorado, Thaíde não se esquivou de nenhuma pergunta. Espantou seus medos de garoto, relembrou suas piruetas quando era dançarino de break, cantou "Cabo Laurindo", contou planos e arrependimentos, mencionou Deus e candomblé, e desnudou suas contradições. Aquela era uma terça-feira de 2007, ano em que lançou seu primeiro disco-solo, Thaíde apenas, o sucessor do longíquo Assim caminha a humanidade (Trama, 2000), último trabalho com DJ Hum.

E é como um bandeirante que empunha há mais de 20 anos seu facão que Thaíde abre sua picada na indústria cultural, amplia sua grade curricular (palestrante, apresentador de TV e ator) e viaja pra cima e pra baixo. Mas apesar do hip hop ser sua casa e o rap o seu quintal, como disse na entrevista, ainda mantém o desejo de comprar sua choupana. Para envelhecer costurando versos e rimas, como sonhou em público.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

fala, padilha!

entrevistei o cineasta josé padilha pruma reportagem na edição de fevereiro da monet (tropa de elite tá estreando no telecine). não costumo gostar de entrevistas por telefone, mas essa conversa com padilha foi bem boa. abaixo, com direito a foto de andré valentim, segue a matéria.

CAPITÃO PADILHA

Parece que foi ontem. O país inteiro foi tomado por uma febre, a princípio disseminada por camelôs, no qual infectados de todas as idades e classes sociais diziam coisas como “Pede pra sair!” ou “Põe na conta do Papa!”. Por todos os lados, DVDs piratas de um filme brasileiro que ainda nem tinha chegado aos cinemas se multiplicavam para, rapidamente, virar tema de debates acalorados. Mas não foi ontem que Tropa de Elite, uma das principais estreias do mês na Rede Telecine, virou assunto nacional. Já se passaram dois anos desde o fim das filmagens do primeiro longa de ficção do diretor José Padilha e, de lá para cá, o fenômeno só ganhou mais corpo. Que o diga o próprio cineasta.

“A popularidade via pirataria foi angustiante, mas teve um lado bacana porque fez com que o público já gostasse do filme antes de ser lançado [em outubro de 2007]. Quer dizer, a relação do público com o Tropa não foi mediada pela crítica. Foi legal aprender isso porque quando você faz cinema quer comunicar, mas não dá para ter certeza se a mensagem vai chegar ou se as pessoas vão se interessar. E o filme pegou na veia”, explicou, em conversa por telefone, com a tranquilidade de quem enfrentou muitos dedos em riste durante o lançamento nos cinemas. Tanto pelos que acharam que o filme e ele eram fascistas quanto pelas pessoas que viam o Capitão Nascimento como o remédio para todos os males brasileiros.

Atento a tudo, o cineasta gosta de listar alguns dos fatores que contribuíram para um dos maiores sucessos da cinematografia nacional: o carisma de Wagner Moura como o atormentado capitão, a câmera inquieta de Lula Carvalho e o complexo roteiro de Bráulio Mantovani, em parceria com Rodrigo Pimentel e com o próprio Padilha. “O Tropa enfoca o problema da violência pela ótica da polícia, o que sempre foi uma premissa do projeto. A gente queria mostrar que o policial também é um ser humano e que se ele se comporta de uma maneira violenta não é de graça e tem causas fortemente relacionadas com a estrutura da corporação, com o abandono e a falência financeira e moral da Polícia Militar. A própria instituição leva o policial a cometer crimes por causa do salário baixo e do risco alto. Também era importante saber como a sociedade civil olha para a polícia e da sua participação nessa economia do tráfico de drogas.”

Visto por 2,5 milhões de pessoas nos cinemas, além de outros 11 milhões que teriam assistido ao DVD pirata segundo dados do Ibope, Tropa de Elite já tinha causado muita comoção interna antes de ser incluído na mostra competitiva do Festival de Berlim em fevereiro de 2008. E aí, para a surpresa de muitos, o filme levou a maior premiação, o Urso de Ouro. “As primeiras perguntas nas coletivas do festival vinham sempre de jornalistas brasileiros e elas acabaram contaminando o debate com esse questionamento se o filme era de direita. Mas o filme foi premiado por um júri presidido pelo Costa-Gavras, que é um cineasta reconhecidamente de esquerda, o que acabou dando um nó na cabeça de muita gente.” Após Berlim, Padilha entrou de vez na lista mundial de “diretores quentes” que já trazia os brasileiros Walter Salles e Fernando Meirelles.

O ano de 2008 seguiu cheio de possibilidades para José Padilha. Surgiram boatos de que o filme iria ser adaptado para uma série de TV e/ou ganharia uma continuação, o que acabou caindo por terra. Depois vieram sinais de Hollywood e o carioca começou a escrever o roteiro de Marching Powder, sobre a história real de um traficante britânico que passou seis anos em um violento e corrupto presídio na Bolívia. O filme será produzido por Brad Pitt e protagonizado por Don Cheadle. Enquanto isso, aqui mesmo no Brasil, Padilha finalizou Garapa, um documentário sobre a fome e que é seu terceiro longa (o primeiro, Ônibus 174, é de 2002).

“Não sei o que o Tropa de Elite ganharia ou perderia se fosse um documentário como meus outros filmes, mas sei o que ele ganhou porque tem uma coisa muito legal no roteiro dele e que nem todo mundo percebe. É que a história de um dos personagens principais, o Matias, é uma metáfora para o Rio de Janeiro”, explicou o flamenguista doente, 41 anos, casado e pai de um menino de 6. “O Matias quer ser um policial convencional, depois um policial do BOPE, quer ser estudante, quer dar seu tapinha ou conviver com os caras que fumam um baseado, quer dar um pulo na favela, quer fazer trabalho social, enfim, quer participar de vários grupos sociais que no fundo são incompatíveis. E ele é o personagem que se torna violento. É uma maneira de dizer que a violência do Rio de Janeiro tem a ver com essa incompreensão entre diferentes grupos sociais que convivem no mesmo espaço.”

De olho nas questões sociais mais urgentes no cenário brasileiro, José Padilha não quer ver a discussão ficar restrita a faculdades e conversas de bares. “A gente juntou dois caminhos no Tropa: o roteiro com uma construção intelectual sofisticada vestido para o público, bem feito e filmado de maneira energética. Tem gente que não consegue passar pela forma do filme e chegar no roteiro. Aconteceu com o Cidade de Deus também.” Padilha respira fundo. Enquanto os projetos em Hollywood seguem em compasso de espera, o cineasta prepara para 2010 sua próxima incursão ficcional, mas desta vez em terreno ainda pantanoso. “O Luiz Eduardo Soares acabou de escrever o roteiro de Nunca Antes na História Desse País, que é uma tentativa de Tropa de Elite no mundo político em Brasília.” Agora, não adianta chamar o Capitão Nascimento para pacificar o Planalto Central. Ele provavelmente seria comido vivo em algum corredor entre o Senado e o Congresso.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

recalque made in uk

o rafael apareceu no messenger com uma notícia tão absurda quanto violenta. e lá veio um link da dita no fotosite. saca só.

Convidado para participar do Encontro de Coletivos, durante o Format Festival, em Derby, na Inglaterra, o coletivo brasileiro Cia de Foto teve sua obra censurada pela prefeitura detentora da galeria onde o projeto 'Caixa de Sapato' seria apresentado. A argumentação para tal impedimento foi que o vídeo que seria exibido, além de cenas de sexo, conteria imagens de crianças desnudas. A ação gerou desagrado por lá – veja mais Aqui - e, claro, no próprio coletivo. Procurada pela redação da FS Online, a curadora do Encontro, Yasmina Reggad concedeu uma entrevista sobre assunto revelando sua indignação em relação a decisão do órgão local. “Agora os espaços públicos querem mostrar arte, mas gostam de controlar o que o público pode ver, e redefinir o que é decência como se fossem promessas eleitorais. (...) Como curadora, não gostaria de nunca ter que fazer a minha seleção em função da decência das fotografias. Mas o importante para mim é mostrar e respeitar a integridade da Caixa de Sapato como a obra coletiva mais inspiradora que vi nos últimos tempos”.

venho acompanhando esse projeto desde o começo no flickr da cia. de foto e a quantidade de fotos belas/assustadoras/tocantes (insira aqui qualquer adjetivo que passe pela sua cabeça) é enorme. já são mais de 250! dê uma olhada, veja o que acha. veja se te horrorizam? e agora, o video que motivou todo esse alvoroço recalcado & inglês.

mil palavras

painel feito com fotos tiradas de celular
são paulo, 2008, próximo a praça benedito calixto

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

tem que ter suingue

"Duke Ellington será primeiro negro a aparecer em moeda americana", é um dos meus maiores ídolos que ganha merecida homenagem nos estados unidos de obama. e o pixinguinha (só pra citar um)? quando receberá uma dessas por aqui?

enquanto isso, duke quebra tudo ao lado dos irmãos pianistas willie "the lion" smith e billy taylor. a música é a clássica "perdido" (juan tizol) e o ano é 1969.


duas fotos

diacho, esqueci qual praia... lázaro em ubatuba, talvez

rua fidalga, vila madalena, são paulo

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

uma bola oval não precisa de black-tie

gosto de futebol americano. não acompanho, não tenho time, mas gosto. tem algo além da pancadaria que nunca soube explicar, nem pra mim mesmo. um ano atrás, o futebol americano me fez estrear na seção esquina da revista piauí (uma outra versão dessa reportagem saiu na monet). acompanhei um jogo em são bernardo do campo no famoso estádio que viu nascer o lula, o pt e o começo de uma nova democracia no brasil. segue abaixo a versão original (não editada e muito menos revisada) do meu texto.

TOUCHDOWNS NO ABC

“Até que ficou bom, o campo”, pensou em voz alta a mulher de um dos funcionários do Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo. Ela não sabia direito o que iria acontecer, nem era de seu interesse. Estava ali apenas para levar o celular de seu marido desmemoriado. Às 11h30 de um ensolarado sábado, 24 de novembro último [2007], o estádio da Vila Euclides, palco de célebres assembléias do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC no final da década de 1970 estava recebendo, quase três décadas depois, os últimos retoques para um evento igualmente histórico, pelos menos segundo seus organizadores: o primeiro jogo oficial de futebol americano no Brasil.

Os tais retoques consistiam na finalização da cabine de som e na instalação de uma enorme embalagem inflável de um dos patrocinadores da contenda entre o time da casa, o São Bernardo Cougars, e os visitantes, o Sorocaba Vipers. De jarda em jarda, a pintura do gramado foi feita poucos dias antes pelos próprios organizadores, a Federação Paulista de Futebol Americano (FPFA), o que facilitou o trabalho de reconhecimento dos envolvidos. Todos estavam vermelho-camarão, incluindo o presidente Hugo Bustilho.


“Até chegar esse dia foram precisos dois anos e meio, mas começou a virar mesmo de um ano pra cá. Trabalhando só nisso. Coloquei na minha cabeça que não iria mais jogar para profissionalizar o negócio. É a minha ocupação principal. Antes? Eu era militar, da Força Aérea, fiquei três anos lá e sempre trabalhando com futebol americano”, afirmou Hugo que, aos 26 anos, possui ainda o canudo de Educação Física pela Universidade Metodista de São Paulo. Enquanto tudo vai sendo checado pelo pessoal da federação e um bando de passarinhos dá rasantes no gramado recém pintado, Hugo retoma o raciocínio e dispara, “já gastei muito dinheiro, sei que vou gastar ainda mais, mas coloquei essa meta pra mim. Se até tal dia não conseguir profissionalizar esse esporte no Brasil, vou embora... mas é claro que não conto que dia é esse! Minha família sabe”.

Ainda faltam cerca de quatro horas para a bola começar a rolar. Quer dizer, bola de futebol americano não faz dessas coisas. “Quando era moleque, uns 12 anos, acompanhava um programa da Bandeirantes em que o Luciano do Valle falava dos esportes americanos. Mas só falava quando era final ou início de temporada. Foi assim que descobri o Chicago White Sox de beisebol e o Chicago Bulls no basquete. Adotei a cidade de Chicago como sendo... vamos dizer, aqui sou Santo André no futebol porque nasci em Santo André, mas de futebol não entendo nada... na verdade, eu tinha um boné escrito Chicago e quis torcer para todos os times da cidade. No futebol americano sou o Chicago Bears”, respondeu Hugo com um ouvido nas perguntas e o outro no rádio, à espera dos problemas.

Mesmo com a entrada gratuita, sorteio de brindes e um show ao vivo de um cover de Elvis Presley – táticas indispensáveis para chamar um público que não sabe nada sobre a bola oval -, um evento desta magnitude está sempre sujeito a um probleminha aqui e outro acolá: um grupo de amigas quer dar um passeio no campo e não pode; o pessoal do time de Sorocaba já deveria ter chegado e provavelmente não terá tempo para se aquecer; as esfihas para alimentar as equipes terão que vir de um Habib’s em Santo André por algum motivo desconhecido e nem todos os jogadores possuem capacete, o que inviabiliza o jogo em toda sua plenitude (o uniforme completo, e importado, custa algo em torno de 500 reais). 
O sol continua forte quando os primeiros espectadores se aprumam nas arquibancadas. “Não esquece de falar para o pessoal pegar leve. Isso aqui é entretenimento!”, afirmou Marcos Granado, diretor de marketing e assessor de imprensa da federação, por rádio. O recado foi endereçado aos jogadores do São Bernardo Cougars que tinham acabado de chegar. Hugo balança a cabeça discretamente em sinal de aprovação e volta a relembrar seus tempos de adolescente. “Comecei jogando basquete, mas fui convidado a me retirar... é que arrumei confusão, joguei uma mesa na torcida, mó várzea! Aí a federação não me deixou mais jogar. Joguei rugby por uns seis meses, mas vi que não era pra mim. Queria um esporte que não existia aqui, então comecei a pesquisar. Comecei a jogar futebol americano em 1998, com uns 17 anos”. Entre partidas amadoras no Parque do Ibirapuera em São Paulo, eventualmente organizadas pela Associação Brasileira de Futebol Americano & Flag (ABRAFA), e jogos com amigos em Santo André, Hugo tomou gosto pelo esporte ao ponto de sonhar em organizar a bagunça. “Olha, preciso ir ao vestiário resolver umas coisinhas. Fica à vontade”, e segue estádio adentro.

“Cadê as cheerleaders???”, gritou um dos 30 e poucos integrantes do São Bernardo Cougars antes do time entrar no campo para o aquecimento. O que havia de mais próximo ao pedido era um grupo de dançarinas das Faculdades Integradas de Santo André (FEFISA) que iriam se apresentar no intervalo de jogo. Bastou uma olhadela nas moças para os jogadores da casa capricharem no aquecimento, mesmo depois de terem sofrido nas mãos do DJ que interrompeu uma série de rocks clássicos para colocar “What a feeling” da trilha do filme Flashdance (“Puta música de boiola”, lamentou desolado um dos jogadores). Corrida para lá, lançamento para cá e algumas trombadas bisonhas acabaram servindo de prato cheio para o deboche se espalhar entre os presentes. “Tá com uma havaiana na mão, porra?”, berrou um senhor de boné vermelho. “Que merda! Eu quero é ver os malucos, pá!!!!”, disse um garoto com camisa da seleção brasileira de futebol batendo uma mão na outra.
 Então, é chegada a hora do Hino Nacional. Ouviram e cantaram, às margens plácidas da Vila Euclides, cerca de 300 pessoas, entre famílias munidas de lanches e refrigerantes de 2 litros, jovens casais, turmas de amigos e crianças, uma delas com a camisa do boleiro inglês Beckham e, obviamente, as duas equipes. Esta partida-exibição é a primeira das quatro etapas do Circuito Paulista de Futebol Americano, uma espécie de laboratório para o primeiro campeonato oficial, a ser realizado em setembro deste ano [2008, e que acabou não acontecendo], e que ainda contará com o Santo André Huskies, o Mauá Wild Horses, o Itatiba Priests, o Santos Black Sharks e os paulistanos Sampa Red Warriors e Hades Nightmare. Enquanto o jogo não começa e a organização dá início ao sorteio de brindes, o cover de Elvis Presley [foto acima] domina o microfone, canta versões de músicas como “Suspicious Mind” e ainda arranja fôlego para ameaças bem humoradas do tipo: “Se não aplaudirem eu canto de novo!”.

Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo. Hugo, o presidente da federação, está de roupa trocada e daqui em diante é o principal juiz da partida. O time da casa não consegue se encontrar e o primeiro tempo acaba com um placar de 19 X 0 para os visitantes. Desesperados com o sacode, alguns jogadores do Cougars xingam o juiz e um deles, mais afoito, solta um “não quero passar vergonha em casa... vamos bater nesses caras!!!”. Mas a casa não queria mais saber deles e, aos brados e risos, um grupo de amigos repetia um mântrico “Ahá! Uhu! Vá tomar no Cougars!”.



O segundo tempo não poderia ser pior para o time da casa. Mais penalizações, expulsões e uma nova saraivada de touchdowns dos visitantes. Era fim de tarde e boa parte do público tinha saído no intervalo para cuidar de sua vida. Mas essa gente não viu o banho que o Vipers levou quando o relógio bateu 6 da tarde e as mangueiras que regam o gramado ligaram automaticamente logo atrás de seu banco de reservas. Também não viram o pequeno cachorro do vigia entrar no campo e encrespar com um jogador do Cougars. Nem ficaram sabendo que o placar final foi 41 X 0. “O grande barato? É o jogo completo. A estratégia, a força, tudo. É um jogo de cabeça, né?”, explicou Hugo, aliviado por ter conseguido produzir a primeira e heróica cabeçada do futebol americano no Brasil.


olhaí o são bernardo cougars (de azul) tentando algo

bad trip da folha

"Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso."

quem escreveu isso? o reinaldo azevedo? diogo mainardi? qualquer um da veja? não, amiguinhos e amiguinhas, isso foi escrito por alguém da "democrática", da "progressista" folha de são paulo, no editorial de 17 de fevereiro ("limites a chávez"). aí um monte de gente se indignou e mandou e-mails e cartas e o diabo a quatro pra barão de limeira (painel@uol.com.br). olha só a resposta que a folha deu ao leitor sérgio pinheiro lopes.

"Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional."

mas o que podia piorar, piorou, pois as críticas de maria victoria de mesquita benevides (educação-usp) e fábio konder comparato (direito-usp) foram respondidas da seguinte forma.

"A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa."

cínica e mentirosa?!?!? quem escreveu isso, 'lamordedeus? sei lá eu, mas o editorial da folha acabou de jogar um caminhão de lama na reputação do próprio jornal (que com todo apoio velado e não velado a serra já não é mais essas coisas). e tá rolando na internet uma petição encabeçada pelo mestre antônio candido de repúdio ao jornal e solidariedade aos professores. assina lá, porque ditabranda é o caralho!

p.s.: hoje, dia 24, o fernando barros e silva, colunista da folha, fez uma crítica direta ao jornal: "O mundo mudou um bocado, mas "ditabranda" é demais. O argumento de que, comparada a outras instaladas na América Latina, a ditadura brasileira apresentou "níveis baixos de violência política e institucional" parece servir, hoje, para atenuar a percepção dos danos daquele regime de exceção, e não para compreendê-lo melhor." mas aí no final dá uma alfinetada no "esquerdista" fábio konder comparato. quer dizer, uma no cravo, outra na ferradura.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

carnaval do larica

encha o tanque da mobilete e vá pra rua!
segue abaixo o mais recente episódio do larica total, o de número 20.

parte 1


parte 2

êêêta, êta, êta, êta

foi o gafieiras que me ensinou a não ter medo de entrevistas e entrevistados. foi lá que aprendi - um tanto pela habitual informalidade dos nossos encontros - que artista é gente (isso parece óbvio, mas não é). então não demorou muito pra conseguir conversar numa boa com pessoas que admiro. lembro agora de figuras como marco nanini, nelson pereira dos santos, tom zé, osgêmeos, marieta severo, aldemir martins, alzira espíndola, otto stupakoff, drauzio varella, itamar assumpção, lázaro ramos, selton mello, marília pêra, denise fraga... porra, muita gente.

mas poucas vezes fiquei tão nervoso quando, em 2007, fui pro rio de janeiro entrevistar caetano veloso. ele parecia cansado. estava no meio da turnê internacional do disco e tinha voltado pro brasil pra divulgar o cd e dvd ao vivo e ainda dar um pulo em santo amaro pro aniversário de dona canô. parecia cansado, mas a conversa foi boa e durou mais que o previsto (o que sempre é um bom sinal). segue abaixo o áudio do bate-papo que saiu editado na edição de outubro de 2007 da monet e em nota do gafieiras.


domingo, 22 de fevereiro de 2009

domingueira de carnaval

genial. wanderléa e raul seixas cantando marchinhas clássicas em um programa do fantástico de 1978.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

atualizando gafieiras

novidades por lá. saca só:

coluna uhf com jards macalé e gal costa cantando torquato neto em programa do fantástico de 1977

coluna 5prauma com dicas do jornalista mauro ferreira (o dia)

nota sobre o disco novo do moacyr luz (batucando)

allah-lá-ô

maracatu em fortaleza, ceará

carro alegórico em são paulo

em frente ao bip-bip, rio de janeiro

não me leve a mal...

pedro dória fez ontem em seu blog mais uma excelente reflexão sobre o futuro do jornalismo, mas desta vez com algumas importantes miradas no próprio papel do jornalista. olha só.

"Jornalista adora culpar o patrão. Mas não é só o patrão que é pouco transparente. Nós, enquanto classe, também somos. Não revelamos nossos processos, não gostamos de pedir desculpas, e temos aversão a interagir com o público. Bem: o público também não anda lá muito satisfeito em sua interação conosco.

Se a imprensa é o quarto poder, é o mais opaco dentre eles. É só que, repetindo que ‘repórter não é notícia’, preferimos fingir que nada temos com a história."

podiscrê. tem muita gente no brasil que ainda vai sofrer um bocado até perder a arrogância. por sorte (leia-se internet), o leitor de hoje tem mais opções.


mas e o carnaval?

frase de sempre

"deus é wireless."
mauricio fiore, o rivolts

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

você é o criminoso!!!

tá rolando lá na suécia um julgamento importantíssimo. o site the pirate bay, um dos mais famosos de compartilhamento p2p (torrent), virou alvo das grandes indústrias de entretenimento, principalmente a de cinema. parece que a acusação tá tomando um baile porque não entende os termos e o conceito-da-coisa-toda (o blog de tecnologia d'o globo tá cobrindo a parada aqui, tem matéria no link do estadão e o torrentfreak tem mais detalhes). não conseguem entender que não existe um mafioso chinês (ou russo ou...) por trás de tudo, lucrando horrores. não entendem que são as pessoas, cidadãos comuns como eu e você, que estão trocando arquivos, informações, etc. não entendem que o "comércio" tá mudando de cara. só entendem que esse tal de "compartilhamento" não reflete em cifras positivas pra eles. o pirate bay tá sendo o bode expiatório da vez (lembram do napster?), mas ainda tem muito chão pela frente.

curiosidade: noruegueses criaram uma espécie de petição online no qual as pessoas postam fotos com o objetivo de... se colocarem como os criminosos que as grandes empresas procuram com tanto afinco. "é assim que um criminoso parece", diz o site. são os consumidores, enfim.


onde estão os wallys?

ser ou não ser blog

um dos fatores que me fez entrar de vez na blogosfera foi o recente caso das gravações caseiras de joão gilberto feitas na casa de chico pereira em 1958 (fiz um resumo no gafieiras, leia aqui). de uma hora pra outra recebi uma enxurrada de e-mails de figuras mais ou menos conhecidas, e todas possuidoras de seus sítios-blogs, espalhando a notícia e suas repercussões na rede e na grande imprensa (matéria na tv cultura, capa na ilustrada da folha, etc.). foi mais um caso de pauta jornalística que nasceu dos blogs (no caso brasileiros, que finalmente vem ganhando corpo e importância de uns quatro anos pra cá). isso me estimulou e muito. mesmo já fazendo parte de um site reconhecido (mas não tão conhecido quanto deveria e será) quis entrar nessa rede com minha própria identidade pra somar, discutir, colocar meus tijolinhos e, acima de tudo, compartilhar. simples assim, ou não.

e pra complementar, um texto interessante lá do blog de guerrilha (fazia um tempo que não passava lá e um post do bruno me chamou atenção). o texto tá aqui, mas tem um trechinho revelador sobre o outro lado dessa história de blogs pautarem a grande mídia:

“Blog tem força para influenciar a mídia, não as conversas no cabelereiro. Se você quer chegar no povão semeando algo em blogs, mire na mídia. Uma coisa que “está bombando na blogosfera” muito provavelmente está sendo ignorada nas ruas. Quem acredita nisso está assumindo que é o centro do universo, quando na verdade nós é que estamos na periferia. O “centro do universo” ainda é o Jornal Nacional.”

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

otto stupakoff, o próprio

escrevi regularmente na tam magazine entre os anos de 2004 e 2007. época de tatiana engelbrecht como editora-chefe. ela, que continua firme e forte lá na editora spring, sempre confiou e me deu muita liberdade nos textos. foi um tempo em que pude apurar o estilo, geralmente em perfis, e conheci pessoas sensacionais. elas certamente aparecerão por aqui, mas começo pelo fim. em dezembro de 2007, na última edição da tam magazine pela spring, emplaquei duas pautas. uma sobre a cantora e compositora alzira espíndola e outra sobre o fotógrafo otto stupakoff. aqui vai o texto sobre o otto, fruto de algumas horas ao lado de um homem cheio de histórias, contradições, alegrias, amargura e muito, muito talento.

COMPAIXÃO & BELEZA
“De tanto uso e abuso, as palavras no Brasil perdem rapidamente seu valor inicial. Todo mundo é ilustre, grande, o maior, formidável, extraordinário, internacional, fora de série, numa total confusão de valores, pesos e medidas. Que fazer então quando essas palavras se impõem para definir o trabalho de um artista? Usá-las, sem dúvida, esclarecendo antes, porém, que elas refletem uma realidade criadora. Não são apenas levianas provas de elogio fácil como tantas vezes acontece. No caso de Otto Stupakoff e de sua realização artística, a explicação fácil é desnecessária, pois diante do resultado que obtém com a câmera, posta diante do mundo para captá-lo e fazê-lo permanecer, ninguém pode duvidar que estamos enfrentando um artista extraordinário cujo sucesso internacional é motivo de orgulho para todos que no Brasil lutamos por nossa afirmação cultural”. Jorge Amado escreveu estas linhas, no dia 6 de outubro de 1980, em carta endereçada ao amigo e fotógrafo Otto Stupakoff. Este Brasil retratado pelo escritor baiano, infelizmente, não mudou, mas a arte de Otto segue digna destes e outros elogios.

De volta ao Brasil há cerca de dois anos após décadas morando em lugares como Paris, Nova York, Miami e Bangkok, Otto recebeu a reportagem da TAM Magazine no flat que mora em São Paulo, cidade que o viu nascer 72 anos atrás. “Vamos tomar um café na padaria e depois a gente volta, porque estou com aqueles últimos estertores da fome que normalmente surgem pouco antes da morte”, e soltou uma risadinha matreira. No caminho do flat até a padaria, Otto cumprimentou todos que cruzaram seu caminho, do porteiro à atendente da padaria, e todos responderam de volta, íntimos. “Vamos ficar perto de mulher bonita”, e dá-lhe outro sorriso malandro. O pedido é o de sempre: croissant simples, suco de melancia, café com leite e dois ovos fritos com gema mole.

“Estou interessado em desenvolver um trabalho sobre a mulher brasileira. Adoro as mulheres. As nossas revistas se preocupam em procurar mulheres que mais pareçam com as de fora e a nossa é desprezada. Olha, nunca fotografei modelos, e sim, mulheres. Modelo é cabide. Foi graças a isso que encontrei meu caminho no exterior. Quando se tratava de ver as coisas de uma maneira humana eles me chamavam”. Foi assim, acompanhado de um humanismo severo e avesso a deslumbres, que Otto Stupakoff se tornou o primeiro fotógrafo brasileiro a ser conhecido e disputado no exterior a partir da década de 1960.
Antes de partir nesta jornada, o paulistano descendente de russos registrou o surgimento de Brasília e da bossa nova, fez capas para LPs de Dorival Caymmi [como esse Caymmi e o mar, de 1957] e Luiz Bonfá, e teve papel fundamental na criação de imagens modernas para os recém-nascidos mercados de publicidade e moda no Brasil durante a segunda metade da década de 1950. Mas Otto queria mais. “Admiro muito o culto a beleza na tradição oriental. O segredo do sucesso japonês, por exemplo, é o respeito e a apreciação da beleza. Isso está no japonês desde que nasce. Eu, no momento, estou sofrendo muito de abstinência de beleza porque no Brasil existe um descaso muito grande. Você acha que um japonês veria uma calçada esburacada como essa e diria que é problema da Prefeitura? O brasileiro nunca assume responsabilidade. A culpa é sempre do outro”.

Voltamos ao discreto quarto e sala que o fotógrafo divide com tintas, pincéis, arquivos de negativos e fotos em papel (o seu grande arquivo foi recentemente doado ao Instituto Moreira Salles), o notebook com seu recente trabalho digital e um pequeno aquário com peixes dourados e objetos flutuantes feitos por ele mesmo. Aliás, o digital é melhor ou pior? “Não gosto de discutir técnica, portanto a minha resposta é a seguinte: a câmera, o filme, o chip, tudo isso não tem significado nenhum, porque as câmeras são todas iguais; elas simplesmente registram o teu sentimento. E você não fotografa com a câmera e sim com tua mente e o coração”. Enquanto esteve em terras estrangeiras, onde criou seis filhos de dois casamentos, a mente e o coração de Otto trabalharam como nunca.
Teve clientes como Harper’s Bazaar, Vogue, Life Magazine, Esquire, Le Figaro, Glamour, Elle e Vanity Fair, e assim conseguiu passe livre para fotografar círculos restritos de glamour e poder. Agora, nem adianta perguntar como foi tirar fotos de pessoas tão diversas quanto Jack Nicholson, Sophia Loren, Richard Nixon, Grace Kelly, Harold Pinter, Truman Capote, Leonard Cohen, Sérgio Mendes, Pelé e Xuxa [ao lado, antes de ser dos baixinhos], pois Otto não gosta de futilidades. Outras coisas o tiram do sério: falta de profissionalismo e falsas amizades. Até hoje não engole o fato de ter sido esnobado pelos “amigos” quando esteve no Brasil entre 1976 e 1980. Foram quatro anos com pouquíssimos trabalhos e muitas ligações sem resposta. Se não fosse Pietro Maria Bardi a lhe dar a honra de ocupar o salão principal do MASP, em 1978, com uma ampla retrospectiva...

“Tenho consciência da minha responsabilidade social para com a humanidade e quando digo que a meta final da minha produção é a compaixão, as pessoas ficam surpresas. Mas toda arte é comunicação e isto implica em um aprendizado sobre o ser humano. Por isso sou fotógrafo e tenho imenso prazer em comunicar aquilo que sei. Levei muitos anos para chegar onde cheguei, e não foi batendo chapas, e sim aprendendo com as pessoas. E isto é coisa que não acaba”. O dia chegou ao fim e a noite vem comendo pelas beiradas. Otto acompanha o repórter até o carro e se despede com um abraço caloroso. E agora? “Vou aqui perto comprar a comida dos peixes”. Otto Stupakoff está de volta e o Brasil ainda tem muito o que aprender.

frase da madrugada

"o homem vai, a panela fica."
bayano, sushiman no bestshop tv

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

e com vocês...

k'naan. isso mesmo, k'naan. quem me apresentou este rapper da somália foi o oga e eu... chapei, chapei & chapei. o primeiro disco dele, the dusty foot philosopher (2005), veio com uma porrada de sonoridades novas para o rap. coisa fina mesmo. tipo "the african way", "wash it down", "strugglin", "soobax" e "i was stabbed by satan". dois anos depois veio um disco ao vivo. e agora acabou de sair seu segundo disco de estúdio, troubadour (2009). tá mais global, digamos assim (menos africano?), afinal teve gravações nos estados unidos, canadá e, principalmente, jamaica, mas segue igualmente foda. seguem abaixo dois clipes novinhos em folha, já deste disco. corra atrás porque ainda tem pedradas do naipe de "i come prepared" (com damian marley), "15 minutes way", "t.i.a.", "america" (com mos def & chali2na) e "abc's" (com chubb rock), que traz samples de mulatu astatke. ainda falarei mais do mestre mulatu porque saiu disco novo do músico etíope, desta vez junto com a big band the heliocentrics. enquanto isso, som na caixa.



aceleeeeeera

taí um texto que entraria na seção 'tesouros perdidos' da saudosa bizz de ricardo alexandre, ali em algum lugar de 2006. acabou ficando de fora porque uma matéria sobre o marcos valle entrou no meio do caminho...

BALANÇO A 300 KM POR HORA

O loirinho Marcos Valle há muito se bandeara da bossa nova para a soul music quando assinou, em parceria com o irmão Paulo Sérgio Valle, a trilha sonora do documentário O Fabuloso Fittipaldi em 1973. Trabalho de encomenda como muitos que iria aceitar no início da década de 1970, tais como a trilha do programa infantil Vila Sésamo (1974) e o jingle de fim de ano da TV Globo (“Hoje é um novo dia”), a trilha deste documentário pouco visto veio com carta branca da produtora independente Ipanema Filmes, dirigida pelo experiente cineasta Roberto Farias (que vinha da bem sucedida trilogia de filmes de Roberto Carlos). O resultado foi um dos trabalhos mais impactantes do autor de “Samba do verão” e despejou altas doses de soul, funk e pop em companhia do veloz Emerson Fittipaldi em seu auge. Detalhe: o filme foi roteirizado e supervisionado por um estreante cineasta vindo da Argentina chamado Hector Babenco.

Com ótimos trechos de depoimentos do próprio Emerson, da mulher Maria Helena, de amigos e parentes, o que só viria a se tornar habitual em trilhas sonoras muito tempo depois, as dez faixas do LP O Fabuloso Fittipaldi (Phonogram, 1973) são instrumentais, exceto a balada “Tema de Maria Helena”. Ao lado de Valle os músicos do célebre trio Azymuth, que acabara de adotar esse nome exatamente por causa de uma música do carioca lançada em 1969 no cultuado disco Mustang cor de sangue. “Azymuth”, a música, é a que abre o LP com o nome de “Fittipaldi show” e vem cheia de balanço, velocidade e um baixo marcadamente soul comandado por Alexandre Malheiros. A saber, os outros dois membros do Azymuth eram Zé Roberto Bertrami (teclados) e Ivan “Mamão” Conti (bateria).

A faixa de abertura serve como carta de intenções para toda trilha, mas deixando espaço para variações como na bela e climática “Acidente”, levada por tamborins, piano, violinos e um delicado violão. “Vitória” vem no mesmo embalo de “Fittipaldi show” com piano e orgão cheios de balanço, enquanto a faixa que encerra o LP, “Virabrequim” com seu metais, atabaques e novamente o baixo forte de Alexandre Malheiros, antecipa algumas levadas instrumentais da disco music. O Fabuloso Fittipaldi marcou também, junto com o disco de carreira Previsão do tempo (1973), o fim da lua-de-mel de Marcos Valle com o Brasil. O compositor carioca ainda lançaria trabalhos no ano seguinte, mas partiria logo depois para um auto-exílio nos Estados Unidos que duraria até a década de 1980.

para ilustrar, a abertura do filme ao som de “fittipaldi show”.



e a balada “tema de maria helena” com direito a fittipaldi correndo pimpão, cabelos ao vento, em câmera lenta. uau.

islândia vs. minas gerais

putzzzzzz, björk cantando "travessia" em português!
peguei lá do matias.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

do título

não tinha ideia qual. tentei um, baita egotrip, saiu rápido. outro, mais genérico, durou um dia. aí veio na cabeça um verso de waly salomão em música de jards macalé: "meu segredo é que sou um rapaz esforçado". cortei. resumi. esforçado. auto-referente, novamente. não consegui fugir. pelo menos por enquanto.

a música é "mal secreto" e já foi gravada algumas vezes. sou suspeito.

gal costa no show fa-tal em 1971



jards em seu disco de estréia, jards macalé, ano de 1972



e a banda numismata, em seu disco brazilians on the moon, chama jards pruma nova versão em 2003

duas fotos gafieiras


jards macalé no villaggio café, 2006

“no meu crossfox vou sair”

depois dos dramas intensos da baiana marli (ver post abaixo), o negócio agora é dar uma relaxada com a alegria e o balanço da piauiense stefhany. a garota já é sucesso faz tempo lá por suas bandas (tenho primos e cunhado de lá, não posso me estender nas piadas), tem segurança e o caramba, e desde o ano passado vem crescendo na lista de fenômenos do youtube. já tinha ouvido falar, mas só fui conhecê-la no domingo passado (valeu, andré). bárbara escreveu uma matéria sobre a moça lá no ego. ah, a música se chama "eu sou stefhany". e olha, ela é mesmo.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

metal, metal, metal & metal

nem falo mais nada. escuta só.

hypnotic brass ensemble



menahan street band



antibalas



budos band

tá com medo do arroz?

desde outubro do ano passado, quando larica total estreou no canal brasil, já foram exibidos 18 dos 24 episódios previstos pr'essa primeira temporada. então dá tempo pra colocar aqui o texto que fiz pra monet de novembro de 2008, com direito a algumas fotos minhas. aproveitei que o ator paulo tiefenthaler estava em são paulo, editando umas das partes da saga os sertões do zé celso martinez corrêa, e batemos um papinho numa praça no pacaembu. conversa boa e ainda deu pra ver que tem muito dele em paulo de oliveira, o protagonista de uma das mais divertidas comédias dos últimos tempos.



tiefenthaler, pacaembu, 2008

COMIDA KUNG FU

Você é solteiro? Solteira? Mora em república de estudantes? É desquitado? Ficou pra titia? Tem medo de fazer arroz? Pavor de panela de pressão? Pois então, seus problemas acabaram, ou pelo menos parte deles. Está no ar Larica Total, nova série do Canal Brasil apresentada por um tal de Paulo de Oliveira que promete desvendar os segredos e mistérios de uma cozinha de guerrilha. Pense em um Jamie Oliver sem eira e nem beira que faz pratos rápidos com o que tem na porta da geladeira. Assim é Paulo, criação do ator suiço-carioca Paulo Tiefenthaler.

Pouco conhecido fora do circuito teatral carioca – ele já trabalhou com Hamilton Vaz Pereira, Antônio Abujamra e Domingos de Oliveira -, o ator chegou ao programa por acaso. “A idéia original surgiu em 2006 com o Terêncio Porto e a Adriana Nolasco. Eles são casados e tem uma produtora que faz curtas e documentários. Tiveram esse estalo de criar um programa sobre uma cozinha rápida, do dia-a-dia. O termo ‘larica’ vem da fome da maconha, mas é uma palavra bem mais antiga. Até me perguntaram se pode colocar esse nome na televisão! Claro que pode, ainda mais que nosso programa é quase de criança, né?”, explicou durante uma breve passagem por São Paulo.



Tiefenthaler fez um teste para o papel e foi tão bem sucedido na improvisação que os cacos criados no dia rapidamente se transformaram em marca registrada do solteirão convicto. “O Paulo tem muita inspiração no meu pai. Minha mãe cozinhava pra 20 pessoas e deixava tudo impecável. Meu pai fazia pra uma e sujava tudo. Ele tinha esse espírito palhaço de quebrar a rotina. Outra inspiração foi meu primo Horácio que era mais velho que eu e vivia na praia porque era guia turístico. Vivia correndo atrás de gringo para vender pacotes. Ele era muito bonito e parecia milionário, mas era um duro. Tinha uma disposição, uma cara-de-pau que poucas vezes vi na vida”. Com estas e outras figuras na cabeça, o ator criou um personagem tão debochado quanto camarada e que já vem fazendo sucesso na internet com sua receitas infalíveis de arroz, macarrão alho e óleo, yakisoba e de um muito suspeito e totalmente genial frango total flex [do episódio que deu origem a série].



“Tenho essas misturas na minha cabeça. Tudo isso precisava sair alguma hora de dentro de mim. Na verdade esse personagem começa comigo, mas não sou isso o tempo todo. É um personagem que trago editado dentro de mim porque muita coisa vem na hora mesmo”. Quando esta entrevista foi feita era início de novembro, 12 dos 24 episódios da primeira temporada já estavam prontos, e todos da equipe aproveitavam para aumentar a biografia do personagem no site oficial do programa. De uma hora para outra, Paulo de Oliveira era formado em Veterinária, mas sem nunca ter exercido, e sobrevivia alugando buggys para turistas. “Não quero congelar o personagem porque ele ainda está em construção. Agora tem que jogar pros leões, amadurecer, encontrar outros personagens, mudar de cenários porque a veia cômica do programa vem muito da rua, do cotidiano. Queremos sofisticar esse cara dentro da loucura dele”.

Louco que só ele, Tiefenthaler também se desdobra esfomeadamente nas funções de diretor [o premiado curta documental Jorjão, de 2004, sobre um dos mais famosos mestres de bateria do Rio de Janeiro] e editor [participou das primeiras edições do Big Brother Brasil e atualmente finaliza parte da saga Os Sertões, adaptação teatral de Zé Celso Martinez Corrêa da obra de Euclides da Cunha, a ser lançado em DVD]. Mas agora ele é Paulo de Oliveira, principalmente Paulo de Oliveira, que grita ao seu pé do ouvido: "E você?! Você tem fome de quê?"



leia mais: entrevista com tiefenthaler sobre a segunda temporada de larica total.

duas fotos

centro de fortaleza, ceará, 2004

rua chabad, jardins, são paulo, 2004

domingo, 15 de fevereiro de 2009

domingueira

na domingueira dessa semana escolhi um clipe que pudesse puxar um texto do baú. daí veio eduardo bid e sua "mandigueira", música do primeiro disco solo do multiinstrumentista e produtor paulistano (bambas & biritas vol. 1, 2005). já sobre o texto, aliás, dois textos... em 3 de março de 2005 rolou o da folha sp sobre o disco, minha segunda colaboração. a seguir vem o que seria minha terceira pauta pra folha, em 9 de abril, mas que acabou não rolando. era sobre o show de lançamento do disco com a participação de alguns feras da soul music brasileira. o texto caiu (portanto, é totalmente inédito) e o que acabou saindo foi apenas uma foto. minha, pelo menos. gostei muito desse disco, inúmeros hits (fora essa "mandingueira" com elza soares, tem "e depois" com seu jorge, "saudades da black rio" com carlos dafé e "fora do horário comercial" com marku ribas), mas foi uma pena que o bid não conseguiu bombá-lo mais (pouquíssimos shows). no mais, parece que tá produzindo o vol. 2. chega de conversa. vai elza (e seu jorge e fernanda lima)...



BID ESTREIA COM MUITOS AMIGOS E SUINGUE

Você talvez não saiba quem é BiD, ou Eduardo BiD, ou ainda Eduardo Bidlovski, mas é certo que já ouviu e muito do trabalho deste produtor, compositor e multiinstrumentista. Ele foi líder e um dos criadores do Funk Como Le Gusta. Produziu
Afrociberdelia do Chico Science & Nação Zumbi e Por Pouco do Mundo Livre S/A, dois dos melhores discos brasileiros da década de 1990. Entre tantas outras coisas, BiD foi compondo, tocando e arrumando parcerias até chegar no ponto em que precisou segurar o microfone com as próprias mãos para se lançar solo. O resultado é Bambas & Biritas Vol. 1 que finalmente chega ao Brasil depois de ter sido lançado em 2004 no Japão e Europa.

“Venho fazendo esse disco há quatro anos, desde que nasceu meu filho, e foi nas lacunas dos trabalhos com o Funk Como Le Gusta, produções e trilhas. Foi um processo muito espontâneo e sem prazo. Não teve nada planejado, mas quando saí do Funk tinha esse disco para trabalhar”, relembra BiD.

Passeando pelas músicas dá para se notar que as amizades de BiD é variado e dos melhores. Tem figuras clássicas da black music nacional como Marku Ribas (“Fora do horário comercial”), Carlos Dafé (“Saudades da Black Rio” e “Não pára”) e Elza Soares (“Mandingueira”), além da unanimidade atual em termos de suingue certeiro, Seu Jorge (“E depois...”, um dos pontos altos do disco). Tem o rap paulistano de Rappin Hood e Funk Buia (“Maestro do Canão”, tocante e animada homenagem a Sabotage) e o rap carioca de Black Alien (“Na noite se resolve”). E ainda DJ Soul Slinger, André Abujamra, Fernandinho Beatbox, Arnaldo Antunes e Caju & Castanha, entre outros.

“Fiz todas as partes instrumentais do disco e fui chamando os parceiros e as participações de acordo com o que eu achava que as músicas pediam”, raciocina o produtor agregador. “Gosto dessas misturas de caras da antiga com gente nova porque todo mundo sai ganhando nesses encontros. Eles se renovam e a gente aprende muito com os feras”, segue BiD com um sorriso na cara. Tudo isso para chegar no trava-línguas eletrônico “Roda rodete rodiano”. Gravada em 1994, a música tem vocais de Chico Science em uma das raras gravações inéditas do mangueboy.

Uma prévia do disco saiu em dezembro de 2004 na forma de um compacto especial. Foram duas músicas, “Não pára” e “Mandingueira”, e dois remixes exclusivos comandados por Marcelinho Da Lua e o Instituto. O compacto trouxe também mídia interativa, as letras e o clipe de “Mandigueira”, estrelado por Seu Jorge, Fernanda Lima e o próprio BiD. Tudo embalado de forma bacana e financeiramente acessível. “A idéia surgiu de conversas com o Tacioli aqui da gravadora porque colecionamos vinil. Essa história do compacto é muito bacana e é uma pena que no Brasil ninguém soube como vender esse produto”, explica BiD.

Tanto no disco quanto no compacto nota-se que é possível ser inteligente e pop, suingado e crítico, lírico e malemolente. O recado está nas mensagens da secretária eletrônica do estúdio de BiD colocadas depois da última faixa. Tem que viajar, viajar e viajar. Música serve para isso.


BID REÚNE BAMBAS DA BLACK NACIONAL EM SHOW

Uma coisa todo mundo sabe, mas pouca gente põe em prática: disco é disco, show é show. Sabendo isso desde menino, o multiinstrumentista e produtor BiD montou uma super banda para fazer do show de lançamento de seu disco de estréia solo,
Bambas & Biritas Vol. 1, um evento único e diferente do que já foi registrado. Para este salto, BiD contou com a ajuda de figuras chave da música black brasileira dos anos 1970 que farão um encontro histórico no palco do teatro do Sesc Pompéia, hoje às 21h.

BiD, melhor que ninguém, apresenta a banda: “voz e piano Fender Rhodes, Carlos Dafé, um malandro carioca sensível, grande figura do samba soul brasileiro; voz, violão, percussão e flauta indígena, Marku Ribas, um ouvido incrível, sempre em busca da simplicidade e com um baita vozeirão; contrabaixo, Lula Barreto, um mestre que quando fala ou é piada ou um comentário que faz muito sentido; bateria, meu irmão Rocco, grande companheiro, econômico, toca comigo desde o começo, mas estamos sem trabalhar há dez anos porque ele está morando nos EUA; percussão, Bruno Buarque, grande músico, faz percussão corporal e tem uma aparelhagem de samplers, um sabor de novidade nessa interação com os mestres. E tem eu”.

Dafé, Marku e Lula possuem histórias o bastante para encher cadernos especiais e continuam tão ativos quanto nos anos 70. Com um disco previsto para ser lançado no segundo semestre com participações de Zeca Baleiro e Toni Garrido, Carlos Dafé tocou com Tim Maia, Dom Salvador e a Banda Black Rio, além de ver músicas suas interpretadas por Nana Caymmi e Seu Jorge, entre outros. Seu aviso é simples e direto, “nós estamos aqui para não deixar a chama apagar”.

Além de seus discos solo, Marku Ribas já acompanhou João Donato, Edison Machado e até os Rolling Stones. Enquanto prepara disco novo e dá uma pausa em sua estréia como ator em
Batismo de Sangue, filme de Helvécio Ratton baseado em livro homônimo de Frei Betto, Marku sente-se “muito feliz com essa emotividade que está rolando nos ensaios. É interessante quando a ligação entre as pessoas é mais pessoal que profissional”.

Lula Barreto não participou do disco por estar no Rio de Janeiro gravando o primeiro disco da volta de sua banda, a União Black (banda que acompanhou Gerson King Combo e lançou disco em 1977 recheado de petardos funk). Agora que o novo disco foi gravado e está para ser lançado nos EUA, Lula pôde entrar na banda: “Está sendo maravilhoso ensaiar com esse pessoal. Vai ser um show pro povo dançar sentado”.

Algum recado para quem ouviu o disco e espera as participações especiais? Com a palavra, BiD, “eu queria que o show tivesse essa cara de banda, seis caras fazendo um som, todos juntos. Esse negócio de convidado já virou uma fórmula. O bom desse show é que traz um frescor para todo mundo. Parece que é uma banda nova que a gente tá fazendo parte e todo mundo virou músico de novo”.

De um lado, músicas do disco tais como “Não pára”, “Mandingueira”, “E depois...” e “Fora do horário comercial”. Pelo outro, preciosidades de Dafé (“Bem querer” e “Escorpião”) e Marku Ribas (“Zamba ben” e “Barranqueiro”). Resultado, uma festa do samba soul brasileiro que se estenderá ao Rio de Janeiro (12/04, no Vivo Open Air) e Brasília (18/05).


sábado, 14 de fevereiro de 2009

trancado por dentro

ainda acompanho, ocasionalmente vejo na verdade, os filmes do wim wenders. mais por respeito, ou esperança, que por qualquer outra coisa. e sinceramente, com exceção do buena vista social club (1999), o sujeito não faz nada decente desde o lindíssimo asas do desejo (1987). será que foi o canto de cisne alemão dele? tem mais de 20 anos, catso! de qualquer forma, o cineasta gaúcho gustavo spolidoro (ainda orangotangos, que infelizmente ainda não vi) pegou wenders em um quarto de hotel em porto alegre e, com todo respeito, fez um video. de volta ao quarto 666 (2008) é um diálogo-homenagem com quarto 666 (1982), video bacana que wenders fez durante um festival de cannes, no qual chamou cineastas de vários lugares do mundo (fassbinder, ana carolina, spielberg, antonioni, herzog, godard, paul morrissey, etc.) pra falar sobre o futuro do cinema. em porto alegre, é wenders que fala, e as imagens e fantasmas de 1982 surgem aqui e ali.

De Volta ao Quarto 666 from Fronteiras do Pensamento on Vimeo.

belo trabalho do spolidoro e, principalmente, lindas as fusões de imagens do passado com as do presente. mas, vamufalá, o wenders é chato, heim? o antonioni matando o futuro a pau e ele no blábláblá. tem umas coisas interessantes ("não é só a câmera que mente, as janelas mentem também", é ótimo), mas... falo isso mais pelos últimos 20 anos dele, e nem tanto pelo que diz no video, mas wenders e seu discurso me lembram aquelas imagens-chavão da década de 1980, tipo um saxofonista mandando ver de silhueta numa varanda de cidade grande, saca?

ah, o 'lemão tava na cidade participando do evento "fronteiras do pensamento" e vi esse video lá no bruno.

duas fotos

paulo vanzolini, 2004

jamelão, 2001

eu & cartola, cartola & eu

opa, uma semana de blog. tá tudo bem, tá tudo legal, e as postagens vem surgindo gostosamente ao acaso. agora, naquele esquema multifunção característico... um podcast. editado pelo amigo-irmão daniel almeida, este foi o terceiro podcast que fiz lá pra monet e cartola foi o sujeito da vez. tenho gostado muito dessa experiência "radiofônica" (e daniel, que foi da eldorado fm, é um tanto responsável por isso), quero fazer mais... ou é gongo?

ah, no cardápio tem nara leão, francisco alves, paulinho da viola, paulo moura, creuza e o próprio cartola.



ou baixe aqui.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

duas fotos

jesus amarelo no crato, ceará

jesus quebrado em fortaleza, ceará

a mais bela do mundo

vindo pro trabalho, nessa manhã chuvosa em são paulo, ouvi pela enésima vez "danada", do eddie. desde que a conheci, acho que em 2006 (quando saiu o disco metropolitano), ela entrou naquele seleto rol das mais belas canções mundiais do mundo. não canso de me surpreender com ela: toda a parte instrumental, a guitarrinha lindona do fábio trummer, e o final cantando pelo erasto vasconcelos. porra, chorei. lembro também que foi trilha sonora, junto com mulatu astatke, de uma ótima viagem a trabalho por minas gerais pra tam magazine (tempos bons de tatiana engelbrecht como editora). pode perguntar pro chapa, e grande fotógrafo, joão kehl.

aqui embaixo, uma versão ao vivo de "danada" (e acompanhada de uma mini-entrevista com o pessoal do eddie, banda boa da porra). não tão bela quanto a do disco, mas...


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

marli mulher

não sei se vocês já tiveram o prazer de cruzar com a marli pelas quebradas da internet. figura genial do interior da bahia, a moça canta baladinhas tristes e surreais, e protagoniza clipes totalmente originais. sempre choro de rir com ela, mas acima de tudo admiro a vontade inabalável que ela tem de mostar o que faz. marli é foda. sinta seu drama no clipe abaixo entre dinossauros, florestas, cachaça e um coração partido. mais, muito mais no canal que ela tem no youtube.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

jardim muy amigo

meu segundo texto pra piauí foi sobre um cemitério de animais na grande são paulo, o jardim do amigo. troço bacana demais de fazer, principalmente porque não tenho nenhuma relação afetiva com bichinhos e tal, o que impediu sentimentalismos (mas não sentimentos). foram duas visitas, dois sábados e saiu o texto abaixo. esta foi a versão que mandei pra revista, inclusive sem revisão. a impressa foi editada pelos gentis e atentos roberto kaz e joão moreira salles e foi publicada na piauí nº 24, em setembro de 2008. no mais, três fotinhas feitas com celular na primeira visita.



O PARAÍSO É AQUI DO LADO 


Ou de como Zeus, Krishna, Saddam e Bradock Ribeiro se encontraram em um jardim

Dois dos três tenores estão lá. A saber, Pavarotti e Placido Domingo. Juntos com Piaf, Prince, James Brown, Janis Joplin e Lady Laura. Próximos de Bambi, Mickey, Lassie, Snoopy, Scooby e She-Ra. Todos em uma área arborizada de 18 mil m² cortada por um riacho e protegida, logo na entrada, por uma placa de “Cuidado Cão Bravo”. Estão ao lado do Paraíso. Ou, para ser mais preciso, dividem terreno com a Pousada Paraíso. No maior cemitério de animais de São Paulo, o Jardim do Amigo, tudo é feito com muito respeito pela memória de 8 mil bichinhos enterrados, desde o atendimento profissional até os nomes dos setores disponíveis (Palmeiras, Colinas, Cascata, etc). Mas como todos sabem, inclusive os animais domésticos, a vida é dura e em um dos folders disponíveis na recepção a realidade não é menos cruel: “Não permita que seu animalzinho tão querido seja incinerado junto com restos hospitalares”.

Situado próximo ao Km 35 da Rodovia Castelo Branco, município de Itapevi, o Jardim do Amigo foi inaugurado em novembro de 1993 como filial do argentino Jardin del Amigo, desde 1987 nos arredores de Buenos Aires. A proprietária de ambos, a hermana Adriana Kreuzer, sentiu um estalo quando sua gatinha adoeceu lá pelos idos de 1975. Foi então que percebeu a fragilidade da vida e a ausência de um lugar em sua terra natal, no qual ainda mora, para enterros dignos de animais domésticos. Em tempos de Mercosul foi pioneira no Brasil ao montar um cemitério parque para um público que desembolsa quantias que variam de R$ 190 a R$ 1.313, dependendo do tamanho do animal e do setor escolhido, além de uma manutenção anual que varia de R$ 160 a R$ 330. O setor Colinas sai mais em conta, enquanto o Pinheiros e o Palmeiras são considerados mais elegantes.


“Você não imagina como estou!”, afirmou de olhos marejados a aposentada Ligia Damasceno enquanto assinava recibos na recepção. “Perdi meus dois gatos esse ano. O Léo tinha 16 anos e morreu em maio e agora, pouco mais de dois meses depois, vim trazer a Dolly que tinha 11 anos e 3 meses. Ela morreu hoje de manhã no veterinário. Ele que sugeriu o Jardim do Amigo. Não sabia da existência disso aqui, mas sempre pensei em enterrá-los. Como minha mãe foi. Como eu serei. Eram muito amigos, muito carinhosos. É um conforto saber que não foram abandonados”. Gatos como Léo e Dolly são 15% dos animais enterrados. A grande maioria, 80%, é canina e o restante é formado por pequenos mascotes como pássaros, hamsters, chinchilas, ferrets, tartarugas, coelhos e um galo chamado Pintinho.

Do outro lado da mesa, Cristina briga com a impressora. Plantonista aos finais de semana, revezando sábados e domingos, ela trabalha no Jardim há sete anos, mas não quer saber de animais na casa que divide com o filho. “Porque é pequena e não quero passar pelo sofrimento que vejo nessas pessoas que vêm aqui. A gente se apega, né?”, e finalmente consegue arrancar uma folha que estava emperrando a impressão de um novo contrato. Daqui a cinco anos, Ligia poderá escolher se permanece com seus gatinhos enterrados ou se encerra tudo de vez e opta pela exumação. Apesar de muito solicitados pela clientela, os caixões de madeira foram abolidos por atrapalhar a decomposição. Lá fora um outro funcionário do cemitério (são dez ao total) anuncia em voz baixa que havia terminado a pequena cova situada na Alameda da Brisa.

Ligia vai até o carro, abre a porta e tira algo enrolado em um cobertor xadrez. Seu choro volta enquanto leva Dolly até a sala de velório, ao lado da recepção. O pequeno cômodo, com um banheiro em anexo, está abarrotado de mensagens escritas à mão ou impressas, inclusive em japonês, além de brinquedos, fotos, desenhos e imagens de Santo Expedito, São Lázaro e São Francisco de Assis. Ligia coloca suavemente sua gatinha branca sobre a mesa da sala e seu choro ganha o reforço de soluços. Hora de deixá-las a sós.
Como em todo fim de semana, o Jardim do Amigo recebe um número maior de visitas que renovam os vasos de flores sob as lápides e relembram as travessuras de Maguila, Jesse James, Toquinho, Lady Di e Sócrates. Ou então de Pentelha, Rasta Johnson, Browser, Cindy Lauper Porto, Boby Degremont e dos irmãos Bingowellow, Bradock e Adelina Ribeiro. Durante muito tempo, a média de enterros mensal girava em torno de 5, mas nos últimos anos esse número vem aumentando e já bate na casa de 60. “Você pode chamar o garoto?”, é Ligia que, cerca de dez minutos após entrar na sala de velório, pede um auxílio. “Sinto falta de uma cerimônia religiosa para os bichinhos, sabe? Não ia fazer mal nenhum”.

Sem nenhuma cerimônia, mas com alguma suavidade, o funcionário cobre o fundo da cova com plástico, envolve Dolly com uma manta branca de algodão e deposita o corpo a três palmos do chão. Léo, o outro gato, está um pouco abaixo. Enquanto a terra vai sendo jogada, Ligia olha para os lados em busca de algo que acaba por encontrar numa encosta próxima. Lança duas pequenas flores e é o fim. “Tem uma coisa que gostaria de falar para sua reportagem. É muita maldade o que se tem feito aos animais, muito abandono e judiação. Falo isso, mas a verdade é que ainda fazem pior com as pessoas, né?”

Mal o carro de Ligia atravessa a ponte sobre o riacho surge um casal na recepção para encerrar sua estada na Pousada Paraíso. Inaugurada em 2001 com o objetivo inicial de abrigar donos de animais de outras cidades e Estados, a pousada “em estilo colonial” vem recebendo cada vez mais jovens casais sem filhos em seus doze quartos. Desfrutam da piscina, da churrasqueira, do salão de eventos e ainda podem fazer shiatsu, cromoterapia ou reflexologia. Logo ali, depois da ponte, passando o jardim. É o Paraíso, afinal.



um xará no jardim do amigo;
cachorro, gato ou galo de campina?