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terça-feira, 31 de julho de 2012

o corpo ainda é pouco

no meio dessas novas correrias na istoé esqueci de colocar o último frila que fiz antes de ir pras bandas da lapa de baixo. foi pra revista voetrip esse perfil dos quatro titãs restantes na atual conjuntura 2012, com um pé no passado (reedição luxuosa do clássico cabeça dinossauro nos 30 anos de estrada) e olhos no futuro (começando disco novo, mas ironicamente o site oficial está surrealmente desatualizado). e na urgência de tudo e todos foi por email mesmo. paciência, iracema, paciência. de resto, as fotos que ilustram essa postagem são reproduções celulares de detalhes dos retratos feitos por kiko ferrite.


O PULSO AINDA PULSA

No começo eram nove. Ficaram famosos como oito. Mas agora, 30 anos após seu nascimento, os Titãs são quatro. Não é pouca coisa no eternamente jovem mundo do rock, principalmente se for levado em conta que o grupo segue produzindo material novo e lotando shows. Por essas e outras, os titânicos Paulo Miklos, Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Bellotto estão comemorando a data redonda em alto estilo com a reedição, e consequentes apresentações, de Cabeça Dinossauro (1986), o terceiro e mais célebre de todos os trabalhos dos paulistanos.

“Vamos fazer a turnê do Cabeça Dinossauro neste primeiro semestre e, no segundo, seis shows com os ex-Titãs Arnaldo Antunes e Charles. Gavin. O Nando Reis não tem disponibilidade de datas. Para 2013 estamos preparando um disco de inéditas, rápido e pesado, mas com uma certa brasilidade. Um cruzamento entre Cabeça e Õ Blésq Blom. Vamos ver no que vai dar”, explicou Britto.

Futuro, presente e passado vivem se encontrando na trajetória do grupo, mas a oportunidade de reviver e compartilhar a glória criativa e cheia de energia do então octeto tem sido uma fonte de surpresas. É que agora os novos e velhos fãs podem ouvir o disco original remasterizado e, pela primeira vez, a demotape com as versões cruas de clássicos como “Família”, “Homem primata”, “Igreja” e “Polícia”, além da inédita “Vai pra rua” (“Porrada” entrou em seu lugar no disco). “Nessa demo que gravamos em dois dias o que chamou atenção foi a sonoridade crua, com arranjos diretos e contundentes que já havíamos concebidos antes da gravação e que foram potencializados na produção do disco [a cargo de Liminha]”, relembrou Mello.

O Titãs já era bastante conhecido na época – as rádios tocavam “Sonífera ilha”, “Televisão” e “Insensível”, músicas dos dois discos anteriores -, mas os oito rapazes ainda não tinham conseguido registrar o peso sonoro que viam em si mesmos. Tudo mudaria em novembro de 1985 com a prisão de Tony Bellotto e Arnaldo Antunes (o primeiro por porte e o segundo por porte e tráfico de heroína, o que acabou fazendo com ficasse um mês na cadeia). As traumáticas experiências da prisão, da violência policial, do moralismo da sociedade e dos meios de comunicação deram um caráter de urgência ao conteúdo do novo disco.

“No ano em que lançamos o Cabeça, os Paralamas lançaram Selvagem? e o Legião Urbana, o Dois. São três discos antológicos, cheios de qualidades, mas completamente diferentes entre si. O Cabeça é a ponta mais ácida e virulenta dessa tríade e talvez por isso mesmo seja um fenômeno mais raro ainda no panorama geral da música popular brasileira. Acho que um disco assim, barulhento, com palavrões, cheio de atitude e contestação ainda é coisa muito rara no mainstream”, disse Britto.

E todo esse barulho, toda a crítica social das 13 faixas do disco, caiu como uma luva naquele momento de redemocratização brasileira. Para se ter uma ideia, nem as multas pela veiculação dos palavrões de “Bichos escrotos” impediram as rádios de tocarem (muito) a música e o disco acabou vendendo mais de 250 mil cópias. “Tenho a lembrança que éramos muito jovens, fazendo a nossa música, descobrindo o Brasil e já com a certeza de que era isso que queríamos pras nossas vidas. Deu pra perceber o quanto estávamos sintonizados e afiados para realizar esse disco”, vangloria-se Mello.


Cabeça Dinossauro é o primeiro disco titânico a sair nesse formato luxuoso. Outros álbuns que o grupo lançou pela Warner terão o mesmo fim e os mais esperados são Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1987) e Õ Blésq Blom (1989). “Temos muito material extra. Fitas demo ou caseiras feitas antes de cada disco com o material ainda recém arranjado, em estado bruto. E muito material gravado em ensaios. Pretendemos escolher com cuidado entre estes arquivos o que pode ser lançado em futuras edições especiais”, diz Miklos, muito preocupado com a qualidade e relevância do material a ser lançado, mas acima de tudo, animado.

Por outro lado, essas olhadelas no passado protagonizadas pelos remanescentes acabam revivendo as saídas de Arnaldo Antunes (1992), Nando Reis (2002) e Charles Gavin (2010), além da morte de Marcelo Fromer (2001). Com a palavra, o guitarrista Tony Bellotto: “A saída de um ou mais integrantes muda muita coisa em uma banda. Quando algumas pessoas decidem formar um grupo e tocar é por que elas têm química. Não é à toa que a maioria das bandas acaba ou se desconfigura quando alguém decide sair. No caso dos Titãs, cada saída foi triste, mas a morte do Marcelo [Fromer] foi, sem dúvida, o momento mais doloroso que enfrentamos. É sempre difícil superar perdas, ainda mais neste caso.”

E eles superaram, seguiram em frente, porque o show não pode parar e ainda tem muita química para rolar. “Somos um grupo sui generis, com compositores e cantores. Essa característica nos favorece musicalmente. Sempre soubemos ocupar o vazio deixado, nunca ficou um buraco na questão da sonoridade. Mas é claro que as amizades sempre fazem muita falta”, completa Bellotto.


O fato de todos os integrantes conseguirem tocar seus projetos pessoais ajudou a manter acesa a chama dos encontros titânicos: Bellotto se mostrou um hábil escritor de livros policiais; Miklos ganhou fama como ator (O Invasor, É Proibido Fumar e até uma novela, Bang Bang); Mello assinou projetos infantis como Eu e Meu Guarda-Chuva; e Britto encampou novas sonoridades em seus discos solo no decorrer dos anos 2000.

Envelhecer dentro do rock também não é um problema para nenhum dos quatro, que já estão na altura de seus 50 e poucos anos. “O que muda com o passar do tempo são outros aspectos da vida, o lado pessoal e as atitudes. Claro que fazer rock estará sempre ligado a uma ideia de juventude, mas quando estamos juntos parece que somos ainda aquele bando de garotos que se reuniu pela primeira vez para tocar. O espírito continua o mesmo”, reflete Bellotto.

Miklos concorda com o amigo de tempos de colégio, mas vai mais fundo na diversão e se define como um Titã revigorado, positivo e operante. “Atingimos outro patamar depois de mais uma mutação na formação da banda. Estamos nos divertindo como nunca e isto está muito evidente para o público. Esta excursão comemorativa do Cabeça Dinossauro está nos trazendo muitas alegrias. Casas cheias e o encontro carinhoso com os fãs. É muito bom comemorar com rock’n’roll e encontrar as pessoas em meio a toda essa energia”, resume Miklos, titã de corpo presente.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

caio blat não é mais um menino

taí outro frila que fiz antes da entrada na istoé, dessa vez para a revista de bordo da trip linhas aéreas. caio blat estava em um batidão de entrevistas e a nossa conversa durou pouco mais de dez minutos (por isso não tem nenhum material extra). e foi durante a igualmente breve sessão de fotos para a revista, feitas por érico hiller, que fiz essas que ilustram o perfil.



CRESCENDO NO TRABALHO

Um dos atores que mais trabalha no cinema brasileiro, Caio Blat lança dois longas ao mesmo tempo e comemora a maturidade de seus novos personagens

Caio Blat está cansado. Dormiu pouco, acordou no Rio de Janeiro, pegou ponte aérea e veio até São Paulo para divulgar Uma Longa Viagem, novo longa de Lúcia Murat. Poucas semanas antes estava em outro batidão de entrevistas, dessa vez sobre Xingu, de Cao Hamburger. Sem falar que é pai de um menino de 2 anos, Bento, primeiro fruto de seu casamento com a atriz Maria Ribeiro. Com tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, não é surpresa lhe flagrar soltando um ou outro bocejo entre perguntas e respostas.

“Fazer um filme é um esforço tão grande, um desgaste tão descomunal, que normalmente quando termino um me dá vontade de ir para o extremo oposto”, revela sobre as diferenças entre os dois filmes que protagoniza e que chegaram juntos aos cinemas. Xingu é um épico sobre a expedição dos irmãos Villas-Bôas por desconhecidas terras indígenas nos anos 1940, com grande elenco e filmagens em externas. Já Uma Longa Viagem é um documentário pessoal, no qual Blat, sempre sozinho em cenas filmadas dentro de um casarão, interpreta as cartas escritas na década de 1970 pelo irmão da cineasta Lúcia Murat em suas perambulações pelo mundo. Essas cenas se alternam com imagens de arquivo e entrevistas com o próprio Heitor Murat.

“Minha carreira é pautada por essa busca pela diversidade. Quando termino um filme de violência quero fazer um de amor. Quando termino um de amor quero fazer, sei lá, um documentário. Esse é um dos valores que me move”, e por isso acabou desistindo de atuar em A Montanha, de Vicente Ferraz, sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial (Daniel de Oliveira entrou em seu lugar). Seria muito parecido com sua experiência em Xingu e o deixaria outros meses longe do filho pequeno.


Foi assim que ele partiu de uma grande aventura histórica para essa “viagem absolutamente intimista” retirada do baú de memórias de Lúcia Murat e seu irmão Heitor. “Fiquei comovido com o convite porque o material com que ia trabalhar eram cartas muito íntimas com histórias familiares de muita dor, dificuldades, perdas... era como se ela me chamasse para dentro da família.” E lá se foi Blat ser o irmão mais novo, aquele que mandado a Londres para não se meter na luta contra a ditadura – a irmã Lúcia foi torturada e ficou presa por 3 anos e meio – acabou por cair no mundo em busca de sua própria identidade. O que os irmãos descobriram em suas jornadas e o que se perdeu no caminho calaram fundo no ator. “Foi uma surpresa ver uma pessoa que passou por processo tão maluco de adoecimento e alienação se revelar de uma tremenda lucidez e uma auto-ironia muito forte. Não foi à toa que ele queria ir pra Índia, afinal lá os loucos são considerados iluminados. O Heitor questiona nossa sociedade de uma forma muito genial e autêntica.”


Mas Uma Longa Viagem marcou também o reencontro de Blat com uma época que muito lhe interessa e na qual esteve outras vezes, afinal o curta O Quintal dos Guerrilheiros (2005) e os longas O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006) e Batismo de Sangue (2007) também se passam entre o fim da década de 1960 e início dos anos 70. “É que [nessa época] tem essa predisposição de ir para o mundo, de questionar tudo e todos, de querer romper com a família e as instituições, novas formas de consciência, novas formas de comportamento... acho que a minha geração [ele nasceu em 1980] que já cresceu na democracia nunca vai ter a dimensão do que é viver em um país sob a ditadura, de ter que lutar por liberdade de expressão.”

Esse movimento pendular de uma época entender a outra, de uma geração dialogar com outras, sempre o acompanhou. Foi assim com sua paixão pelos livros desde os tempos de criança, começando pelos romances de mistérios e crimes escritos por Agatha Christie (1890-1976) e seguindo pela poesia de Castro Alves (1847-1871) e Álvares de Azevedo (1831-1852). Lendo sempre e trabalhando muito, Blat foi construindo uma carreira variada, com novelas para toda família (Um Anjo Caiu do Céu, Da Cor do Pecado e Caminho das Índias), filmes densos (Lavoura Arcaica, Quanto Vale ou é por Quilo? e Bróder), trabalhos mais leves (O Bem Amado, Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos e As Melhores Coisas do Mundo) e até, espírita que é, longas que versam sobre sua crença (Bezerra de Menezes - O Diário de um Espírito e As Mães de Chico Xavier).

“Comecei muito novo [a atuar] então meus trabalhos se aproveitaram dessas diversas fases. Tinha uma cara de menino, então isso me manteve durante muitos anos fazendo personagens que tinham certa pureza, mas também fiz filmes fortes com diretores com linguagens muito diferentes como Cláudio Assis (Baixio das Bestas) e Hector Babenco (Carandiru), que inclusive não se bicam”, relembra.

Após lançar Xingu e Uma Longa Viagem, Blat aguarda a finalização de Corpo Fechado, o primeiro longa de Luiz Henrique Rios, diretor de novelas da Rede Globo, baseado em contos do livro Sagarana de Guimarães Rosa. Também está filmando A Pele do Cordeiro, novo filme de Paulo Morelli (Cidade dos Homens), e daqui alguns meses voltará a colocar os pés no Projac para atuar em Lado a Lado, novelas da faixa das 6.

“Essa trajetória me enriqueceu muito, ajudou a criar minha própria linguagem e me deu vontade de interferir mais no processo, tanto que dos últimos sete ou oito filmes que fiz também sou produtor associado. Fora que de uns quatro ou cinco anos para cá comecei a interpretar adultos e foi uma conquista importante. Alcancei uma maturidade nos personagens”, explica o jovem adulto que teima em esconder com uma vasta barba sua eterna cara de menino curioso.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

profissão? ser outro

taí o primeiro perfil que fiz nessa minha volta ao maravilhoso mundo do jornalismo freelancer: o ator caco ciocler para a revista voetrip. a entrevista rolou em sua própria residência, em são paulo, e durou pouco mais de uma hora. ótimo quando temos tempo, maravilha quando podemos nos perder entre um assunto e outro. a deixa era o lançamento nos cinemas do longa dois coelhos (que, infelizmente, ainda não assisti) e a estreia de seu monólogo adaptado do conto a construção, de franz kafka (é a sua primeira produção no teatro, a partir do dia 10, no sesc pompéia). e pouco antes da entrevista em si rolaram as fotos sob o comando de kiko ferrite, amigo dos tempos da sociais na usp e a primeira pessoa com quem trabalhei, lá em 1999, como assistente de fotógrafo (fazia um tempão que não nos encontrávamos). gente finíssima e grande fotógrafo. no mais, o texto que segue é a versão original, um terço maior da que mandei pra revista.


UM HOMEM DE SORTE


Elogiado pela crítica e querido pelo público, o ator Caco Ciocler revê sua trajetória enquanto encara novos desafios no cinema, o filme de ação Dois Coelhos, e no teatro, o monólogo A Construção


Por muito pouco a carreira de Caco Ciocler não virou outra coisa. Hoje, aos 40 anos, consagrado no teatro, cinema e televisão, o ator sabe que alguns dos trabalhos-chave que fez só aconteceram por coincidências muito loucas do destino. Não sabe explicar a razão, mas agradece. Todos os dias. “Tenho muita sorte. Quer dizer, não sei se é sorte ou se é projeção desse meu plano interno, mas uma coisa foi levando a outra. Alguém me via em um trabalho e me chamava para outro”, relembrou no sofá de sua sala de TV. Durante pouco mais de uma hora de conversa, o paulistano foi listando uma série de encontros que mudaram sua vida, causo a causo. Um pouco de tudo que o fez chegar até aqui.


Judeu de família tradicional, Carlos Alberto Ciocler começou a brincar de atuar na pré-adolescência, mas dos 11 aos 15 anos, o teatro era apenas mais uma das muitas atividades do fim de semana. Disciplinado, o garoto ainda dividia seu tempo com futebol, atletismo, natação e dança folclórica. No entanto, o tablado começou a ocupar mais tempo no sábado, depois no domingo e logo até os dias de semana tinham alguma tarefa. “O teatro na Hebraica era um teatro de formação. Não era uma coisa de montar peças. A peça era uma consequência do trabalho”, e diz que apesar do fascínio por atuar nem passava pela sua cabeça de garoto abraçar o ofício profissionalmente.


De uma forma ou de outra, seguiu atuando e trabalhando em outras funções na escola de teatro da Hebraica até receber um convite para protagonizar uma montagem de Equus [peça de Peter Shaffer]. Tinha 17 anos. “Quem me chamou foi o Moisés Miastkwosky... ele sempre reclama que o nome dele não aparece nas entrevistas, mas também, com um sobrenome difícil desses... enfim, era uma peça muito forte e o personagem também tinha a minha idade. Só sei que ocorreu ali uma catarse qualquer que vi que algo estava acontecendo comigo. E ainda tive a sorte de ter a presença de um crítico da Veja.” Essa foi a primeira coincidência-sorte da carreira de Ciocler, afinal o jornalista ia assistir uma peça com Antônio Fagundes no teatro ao lado. Mas chegou atrasado, e como Fagundes não deixa ninguém entrar após o terceiro sinal, ele foi ver a montagem amadora de Equus. “Saiu uma notinha elogiando a peça e falando pra prestarem atenção no menino Caco Ciocler”, diverte-se o homem Caco Ciocler.


Mas essa notinha não era sólida o bastante para lutar contra pressões familiares e quando completou 18 anos, Ciocler entrou em Engenharia Química na USP. Seria uma outra vida, nada disso de fingir ser outras pessoas. Então veio um novo convite transformador: participar da montagem do musical Um Violinista no Telhado com a participação de não-atores da comunidade judaica de São Paulo. “Durante a temporada, isso em 1993, a [atriz] Riva Nimitz faleceu e o salário dela veio pra mim. Foi a primeira vez que ganhei dinheiro fazendo teatro. Coincidência ou não, o diretor da peça, o Iacov Hillel, também era diretor da Escola de Arte Dramática, e ficou me estimulando a entrar na escola.” No ano seguinte, Ciocler entrou na EAD e durante algum tempo conseguiu manter os dois cursos, mas aí veio 1995 e bagunçou tudo em sua vida.


Vieram as duas primeiras peças profissionais, ambas infantis, e numa delas conheceu e começou a namorar a atriz Lavínia Lorenzon. As peças lhe deram os primeiros prêmios como ator, enquanto Lavínia engravidou de Bruno, hoje com quase 16 anos. Uma semana após saber que seria pai, Ciocler recebeu um convite para fazer um teste para o que seria sua primeira novela, O Rei do Gado (alguém da TV Globo o viu numa das infantis). “Em 1995 aconteceu tudo. Ser pai, sair de casa, constituir família, decidir o que seria profissionalmente. Foi uma época de muita tensão, ainda mais porque depois que acabou O Rei do Gado não fui contratado”, mas volta a falar de sorte, pois as peças infantis que geraram toda essa história eram produções do Sesi, o que garantiu carteira assinada para o jovem casal de atores sem nada nos bolsos e um plano de saúde que cobriu todo o primeiro ano do bebê (o casamento, no entanto, não durou muito).


“Não, não foi natural fazer novela. Nem foi relaxado. Hoje tenho plena consciência disso. Não tinha noção alguma, nunca tinha feito televisão. Não foi natural me ver pela primeira vez. Mas fazia parte de um projeto de vida que tinha que dar certo”, e tinha mesmo porque a família de Ciocler não gostou nada dessa história do caçula com uma não-judia e a relação ficou estremecida por anos.


Nessa correria de começo de carreira, Ciocler lembra que foi Herval Rossano, veterano diretor de TV, que fez com que, pouco mais tarde, a Globo lhe oferecesse o primeiro contrato de três anos. Lembra também de alguns episódios do programa Você Decide, umas peças de teatro, aulas, nada de cinema, e uma sensação de que as coisas não iam para frente. Então, nova virada do destino em 1999: “A Denise Saraceni estava vendo os testes de maquiagem de O Rei do Gado para um novo trabalho e me viu passando no corredor. Disse que ficou pensando de onde me conhecia e quando lembrou que era da novela me chamou para fazer o Bento Coutinho na minissérie A Muralha. E esse foi personagem que me lançou. A partir dele tudo mudou. Também foi uma sorte.”


Mais ou menos na mesma época, a atriz Maria Zilda Bethlem estava produzindo um longa, Minha Vida em Suas Mãos, e ainda não tinha o protagonista. Uma certa noite sonhou com o nome ‘Caco Ciocler’, acordou com esse nome na cabeça, mas não sabia quem era. Saiu perguntando para amigos que acabaram por lhe dizer que era um ator que estava no ar em A Muralha. Começou então a assistir a minissérie e teve certeza que seu protagonista estava ali. “Pelo menos foi essa história que ela me contou”, e dá uma risada. Minha Vida em Suas Mãos foi seu primeiro longa a chegar aos cinemas e pouco depois saiu Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, cujo convite veio até antes, mas que acabou sendo lançado posteriormente. Pronto, Caco Ciocler já podia se orgulhar de trabalhar em teatro, televisão e cinema. A partir daí tudo começou a andar mais rápido.


Vieram novelas como Chocolate com Pimenta, América, Páginas da Vida, Duas Caras e Caminho das Índias; as minisséries Quinto dos Infernos, JK e A Cura; e filmes como Desmundo, Olga, Quase Dois Irmãos, Quanto Valeu ou é por Quilo? e Sexo, Amor e Traição. E teatro sempre, obviamente. “Aprendi com o tempo a ter prazer na TV e cinema. Isso demorou um pouco. Sofria pra fazer televisão no começo, sofria muito pra fazer cinema. Sofria no sentido de ingenuidade mesmo. Porque na minha escola, que era do teatro, tinha essa história do processo, né? A televisão não tem esse tempo. Por outro lado, aprendi a exercitar rapidez de raciocínio e como você consegue se ver dá tempo de consertar uma coisa ou outra.”


montagem caseira das páginas da reportagem na voetrip de fevereiro


E então, depois de tudo isso e agora nesse início de 2012, o ator só tem cabeça para duas coisas: o lançamento do longa Dois Coelhos, filme de estreia do diretor Afonso Poyart, e a estreia em São Paulo do monólogo A Construção, baseado em conto de Franz Kafka e sua primeira produção em teatro. Fora isso, Ciocler cita dois filmes já prontos (Meu Pé de Laranja Lima e Disparos), dois que serão filmados ainda esse ano (De Menor e o novo de José Eduardo Belmonte, ainda sem título), e um negócio fora dos palcos e estúdios, o restaurante Biondi, no qual é sócio com o cunhado Bruno Previato (Ciocler está casado há quatro anos com a vídeo-artista Marina Previato). Enfim, muita coisa na cabeça.


“O que me cativou no Afonso foi que ele é muito cheio de paixão, de uma ingenuidade gostosa. Gosto de fazer filmes de diretores estreantes porque encontro essa possibilidade de um diálogo maior. Odeio quem vem com filme pronto na cabeça, desenhadinho. E o roteiro era muito interessante, exigia uma atenção, uma participação do leitor. Não era um roteiro passivo. É um filme que exige uma não-passividade do público. Se o público ficar comendo pipoca não vai entender. Gosto disso”, diz sobre Dois Coelhos de ação com muito tiroteiro, efeitos especiais, traições e um clima pop raro de se ver no cinema brasileiro. No filme, ao lado de Ciocler, também estão Alessandra Negrini, Fernando Alves Pinto e Marat Descartes.


A Construção não poderia ser mais diferente. “Foi na análise, uns três anos atrás, que descobri esse texto do Kafka. Eu estava trabalhando há tempos em um assunto íntimo e meu analista me indicou o texto. Fiquei louco.” A princípio pensou em adaptá-lo para cinema, mas a tarefa pareceu impossível. Depois pensou em unir teatro e cinema com ajuda do amigo, também diretor e ator, Gero Camilo, mas as agendas não bateram. Então pensou em Roberto Alvim que o havia dirigido em outro monólogo, 45 Minutos. “A Construção é a história de um bicho, uma toupeira, de um rato, ninguém sabe direito o que é, e que vive em um buraco cavando alguma coisa. Eu faço o Kafka no escritório no momento em que está escrevendo A Construção. A criação desse texto é a própria metamorfose do Kafka nessa criatura. Acho que a gente acertou nessa escolha.”

De todo esse caminho, de tudo que fez de certo e errado, Ciocler aprendeu, com ajuda da análise, que era preciso “deixar de atender a demandas alheias. Não tenho mais que me preocupar com a construção de uma carreira. Estou tranquilo. E isso é muito gostoso.” Volta então a pensar em A Contrução, trabalho que cada vez mais parece ter sido feito sob encomenda para esse momento do ator. “O fato de estar sozinho no palco é também um sinal de maturidade, estou chamando pra mim a responsabilidade do risco. É um tremendo salto no abismo e é o que me restava fazer. Pode dar errado, posso me esbotecar... não sei se existe essa palavra [risos]... posso me esborrachar no chão, mas o salto já valeu a pena.”


e alguns instântaneos dos bastidores da sessão de fotos

quarta-feira, 23 de março de 2011

uma breve história do cordel

ano passado, o pessoal da voetrip me pediu um texto sobre a história da literatura de cordel, mas acabou não sendo publicada (ainda, acho, me perdi dessa história) porque tiveram problemas para ilustrar a matéria. não acharam imagens legais o bastante ou coisa assim. paciência. na internet esse problema é facilmente contornável.

UMA PELEJA SEM FIM

A história da literatura de cordel é antiga, longa e cheia de personagens. Também é repleta de reviravoltas, duelos e lacunas. Sabe-se que o hábito de registrar histórias orais em folhetos, expostos em varais nas feiras populares, veio junto com os colonizadores portugueses por volta do século 17. Foi só chegar ao porto de Salvador para essa arte se espalhar rapidamente pelo Nordeste brasileiro, terreno fértil para contações de histórias. No entanto, por causa da falta de documentação e de reconhecimento dos eruditos de nossa língua, existe um vazio muito grande sobre essa alvorada da literatura de cordel no país, mas é certo que os primeiros nomes a ficarem conhecidos surgiram somente na segunda metade do século 19.

A razão está na chegada de máquinas de tipografia/impressão mais acessíveis, o que, consequentemente, fez com que os folhetos se espalhassem em maior quantidade e velocidade (bom lembrar que o Brasil foi o último país das Américas a ter uma imprensa própria). Como se vê, a democratização da tecnologia foi tão favorável ao surgimento da literatura de cordel como a conhecemos quanto ao seu renascimento no início do século 21 através da internet. Entre uma ponta e outra dessa saga, muitas brigas de faca, deboches, trava-línguas, mensagens educativas, Deus e o Diabo nas terras do Sol.
De Recife para o mundo

Justiça seja feita. Se, no final do século 19 e início do século 20, Recife foi a cidade responsável por milhares de folhetos soltos pelos ventos e veredas do semi-árido nordestino, foram dois paraibanos os responsáveis por sua produção. Primeiro, Leandro Gomes de Barros (1865-1918), que não só escreveu muitos cordéis como editou outros tantos e criou uma importante rede de agentes distribuidores de sua sofisticada poesia popular. Depois veio João Martins de Athayde (1880-1959) que comprou o projeto editorial de Leandro, à deriva após sua morte precoce, e o ampliou ainda mais, só que privilegiando folhetos de humor e pelejas. A partir do sucesso dessas duas empreitadas em Recife, outras pólos surgiram, tais como Juazeiro do Norte (CE), João Pessoa (PB), Caruaru (PE) e Belém (PA).

Foi nesse período que se consolidou a forma literária mais conhecida do cordel, a sextilha, modalidade com o segundo, o quarto e o sexto versos rimando entre si, deixando o primeiro, terceiro e quinto sem rimas. Um exemplo clássico da sextilha pode ser lido nessa estrofe: “Meu avô tinha um ditado / meu pai dizia também: / não tenho medo do homem / nem do ronco que ele tem / um besouro também ronca / vou olhar não é ninguém”. Um mundo novo se abre quando o cordelista descobre que a sextilha pode ser escrita de cinco modos diferentes, isso sem falar em variações na métrica e em outros estilos de cordel com cinco, sete ou dez versos por estrofe. Prova irrefutável de que é preciso saber muito, principalmente em termos de repertório e vocabulário, para entrar na brincadeira.

Falando em brincadeira, as xilogravuras só passaram a ilustrar as capas dos cordéis a partir da década de 1950 como uma alternativa ao poeta mais pobre, que não podia pagar um desenhista, para ilustrar seu folheto. Com desenhos rudimentares e sintéticos talhados em matrizes de madeira, as xilogravuras logo se tornaram item obrigatório e essa combinação caiu ainda mais no gosto popular. Já o termo “literatura de cordel”, fruto do reconhecimento dos folhetos pela academia, só veio surgir na década de 1960.

Nesse período, anos 1950 e 60, o cordel atingiu seu ápice de reconhecimento se espalhando para além no Nordeste de acordo com as ondas migratórias. Escritores chegavam a vender 10 mil exemplares de uma edição em um único ano, sendo que J. Borges chegou a surpreendentes 100 mil exemplares com seu “A chegada da prostituta no céu”. Durante toda essa longa e altamente produtiva primeira fase do cordel vieram ao mundo clássicos como “A chegada de Lampião no Inferno” (José Pacheco), “Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum” (Firmino Teixeira do Amaral), “O homem da vaca e o poder da fortuna” (Francisco Sales Arêda), “Proezas de João Grilo” (João Ferreira de Lima), “Romance do Pavão Mysteriozo” (João Melchíades Ferreira) e “A greve dos bichos” (Zé Vicente). A boa onda acabou por arrebentar a partir da década de 1970 até virar uma marola preocupantemente inofensiva nos anos 90. Alguns mais afoitos chegaram a pedir pela extrema-unção do cordel, mas o futuro digital tinha uma ou duas surpresas guardadas na manga.


A chegada da prostituta no céu from Marcos Tenorio on Vimeo
Computadores fazem arte

“O cordel continua sobrevivendo. O auge foi no século passado, mas depois foi morrendo e na década de 1990 chegou à beira da cova. Agora começou a voltar. Hoje tá muito animado”, explicou o septuagenário J. Borges, um dos mais ativos cordelistas e xilogravuristas da atualidade, em entrevista a este repórter em 2006. A razão dessa volta animada ao cordel se deve, segundo ele, “ao movimento estudantil. Recebo muita visita de colégio e faculdade. As professoras compram também, além de turistas, pesquisadores e colecionadores. Hoje se vende no Brasil todo e antes era só no Nordeste.” Associações culturais, como a Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), também foram abertas nos mais variados estados, desde o fundamental Pernambuco até os centrais São Paulo e Rio de Janeiro, passando por Piauí, Rio Grande do Norte e Ceará.

Essa nova geração, utilizando as ferramentas da rede mundial de computadores, passou a criar pelejas virtuais que tanto são deixadas disponíveis para os internautas, com direito a todo seu processo de criação em aberto, quanto ganham versão impressa. O projeto Corda Virtual, idealizado pelo site Interpoética, é um ótimo exemplo de como acontecem e se desenvolvem estas pelejas virtuais. Para jovens cordelistas com os cearenses Klévisson Viana e Moreira de Acopiara, o uso do computador não diminui em nada a qualidade da arte. É só mais um recurso. “O que descaracteriza o cordel é escrever errado e não obedecer às regras da métrica, rima e oração”, explicou Viana em entrevista ao site A Nova Democracia. Para provar que a literatura de cordel segue como uma eficaz e bem humorada crônica da atualidade esta nova geração cria, no calor da hora, folhetos como “A famigerada ‘dança’ do Créu” (Waldeck de Garanhuns) e “A chegada de Michael Jackson no Portão Celestial” (João Gomes de Sá e Klévisson Viana).

Para encerrar o assunto, pelo menos por hora, J. Borges fala desse ofício da seguinte forma: “Pra fazer um cordel bom é preciso ter um conhecimento da situação da área onde o cordelista vive. Tem que saber assuntos de amor, de religião, de política e de gracejo. Nas palestras que faço gosto de falar que sou o único que vive de mentira. Sou o maior mentiroso. Porque se falar a verdade morro de fome, e a mentira o povo compra a vida toda. Mas tem que ser uma mentira que se pode acreditar, não pode exagerar muito. Enfim, é um mistério.” E mistérios assim duram para a vida toda.

sábado, 11 de dezembro de 2010

quino, um pai como outro qualquer

e segue aqui o perfil que fiz do quino, também conhecido como pai da mafalda, para a revista voetrip de novembro. foi uma delícia pesquisar sobre o argentino, reler alguns de seus trabalhos (principalmente a mafalda, sempre tão atual) e acabei achando muita coisa pela internet, inclusive as tais animações feitas em cuba e que coloquei no post "o mundo segundo quino".

O PAI DA MATÉRIA

Um rio grande nos separa. A língua também, um pouco. E, claro, o futebol. Visto assim pode não parecer muito, mas durante boa parte do século 20 estes foram motivos suficientes para estabelecer um abismo cultural entre Brasil e Argentina. Por sorte, ou pelo bom e velho “espírito do tempo”, uma menininha furou esse cerco com seu gênio contestador e algumas tiradas de deixar adultos sem ter para onde fugir. Mas Mafalda nunca existiu de verdade, pelo menos não em carne e osso, e o responsável por sua verve é agora um senhor de 78 anos: Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido pelo apelido de Quino, provavelmente o maior e mais conhecido desenhista argentino (ou humorista gráfico, como prefere) de todos os tempos.

Filho de imigrantes espanhóis da Andaluzia radicados em Mendoza, Joaquín é chamado de Quino pela família desde os três anos de idade como uma forma de se diferenciar de um tio de mesmo nome e, não coincidentemente, ilustrador e pintor relativamente famoso na época. Foi esse parente (Joaquín Tejón) que o fez tomar gosto pelo desenho até o ponto de adquirir coragem para ingressar na Escola de Belas Artes de sua cidade. Frustrado com o academicismo das disciplinas, que o obrigavam a reproduzir modelos, estátuas, jarros e animais dissecados, Quino abandonou a escola após dois anos. Queria mesmo era publicar suas historietas (quadrinhos), mostrar seu traço, em revistas e jornais da capital. Algo precisava ser feito e tudo apontava para uma mudança de mala e cuia para Buenos Aires, o que acabou acontecendo em 1954.

Não demorou muito para Quino, em seu novo endereço, conseguir os primeiros trabalhos em jornais, revistas e até em publicidade. O mercado editorial argentino sempre foi muito efervescente desde seu início no final do século 19, tanto em termos de produção quanto de público, e as artes gráficas (tirinhas, ilustrações, cartuns e histórias em quadrinhos) umas das principais demandas. Para coroar uma década de privações, descobertas, reconhecimento e algum sucesso, Quino se casou, em 1960, com Alicia Colombo, com quem vive até hoje. A lua de mel foi no Rio de Janeiro e marcou a primeira viagem internacional do casal, bem como o primeiro contato de Quino com editores e colegas de profissão estrangeiros (entre eles, um jovem Ziraldo).

Os anos 1960 foram um período de grandes transformações para Quino. O trabalho incessante em jornais e revistas ganhou companheiros à altura, tais como exposições e os primeiros livros. Com todo esse material disponível foi possível notar com clareza o tamanho do talento e da modernidade de Quino, seu sofisticado traço simples, o rebuscamento gráfico, uma aguçada observação do cotidiano e o humanismo de suas caracterizações. Foi também nessa década, precisamente em 1963, que o artista moldou a criatura que lhe deu fama mundial. E a luz se fez sobre Mafalda, que nasceu como uma encomenda para divulgar o lançamento de uma linha de produtos eletrodomésticos (Mansfield). A campanha acabou não acontecendo, mas um ano depois, Mafalda e seus pais, além de outros personagens como Felipe, Manolito e Susanita, ganharam tirinhas regulares. O sucesso foi imediato. Aquela coisinha de cabelos negros falava o que todos queriam falar sobre esse mundo difícil e divertido.
A fama da menina de língua afiada que odeia sopa, ama os Beatles e quer ser tradutora da ONU, espalhou-se por livros de coletâneas com suas tirinhas até chegar a Itália em 1968, que valeu a Quino sua primeira viagem a Europa. Na apresentação, o renomado escritor Umberto Eco classificou a menina de 8 anos como “uma heroína zangada que recusa o mundo tal como ele é”. E lá se foi Mafalda ganhando o mundo, falando em espanhol, português, francês, alemão e o que mais aparecesse.

Mas em 1973, e para surpresa mundial, a produção de tirinhas é interrompida (foram, ao total, 1928). Numa entrevista em 1996 para o jornalista Ariel Palácios, correspondente do Estado de S. Paulo na Argentina, Quino se justificou pela enésima vez: “Comecei Mafalda em 1963 e terminei em 1973. Estava muito cansado. Achei mais honesto parar. Não repetir-me era um esforço tão grande que não valia a pena. Para mim era uma historinha que entregava e publicavam. Nunca achei que 23 anos depois viraria o que virou, com sucessivas reedições”. A menina chegou ao Brasil pela primeira vez em 1973 através da revista Patota, mas os primeiros livros só foram lançados na década seguinte e atualmente estão no catálogo da Editora Martins Fontes, como é caso do recente
10 Anos com Mafalda.

Mesmo com o espírito mais leve para poder se dedicar a outros projetos, Quino sentiu que o clima na Argentina estava pesando. Mudou-se para Milão em 1976, mesmo ano do golpe militar que jogou os argentinos em um das mais violentas ditaduras da América Latina e que durou até 1983. Em mais de uma vez Quino declarou que se Mafalda fosse real certamente seria uma das “desaparecidas do regime”, o que de fato aconteceu com as quatro filhas do amigo e célebre escritor de quadrinhos Héctor Gérman Oesterheld, igualmente “desaparecido”.

Discreto, Quino se dividiu entre Europa e Argentina, ganhando prêmios e honrarias, sempre trabalhando e sendo muito reeditado e traduzido. Surgiram livros como
Quanta Bondade, Quinoterapia, Humanos Nascemos e Potentes, Prepotentes e Impotentes. Seus desenhos também ganharam movimentos numa série de curtas feitos em Cuba em 1984, mas isso é assunto meio espinhoso, pois não é chegado em adaptações de uma mídia para outra. Enquanto isso, Mafalda foi se tornando um ícone pop em seu país natal, com direito a praça e estátua no bairro portenho de San Telmo. A menina ainda reapareceu aqui e ali, sempre em campanhas institucionais como na Declaração dos Direitos da Criança, encomendada pela UNICEF em 1977.

No entanto, o artista que desenhou e falou com tanto humor sobre temas como desigualdade social, morte, repressão, burocracia, tabus sexuais, tantas facetas da contradição humana, também deu sua contribuição para essa complexidade. Quando lhe perguntam se Mafalda, sua filha de papel, serviu como substituta de filhos reais, Quino apenas responde, sem cerimônia alguma: “Não, Mafalda é um desenho como outro qualquer”.

atualização em 5 de novembro de 2011: apareceu a íntegra do longa de animação mafalda, o filme (1979), de carlos d. marquez. também dá pra baixar no blog filmes políticos. fiquei sabendo via trabalho sujo.


Mafalda - 1979 from Faces da Liberdade on Vimeo

quarta-feira, 7 de julho de 2010

uma tarde daquelas com mionzera

foi mais ou menos assim. saí da editora globo, na zona oeste de são paulo, sem almoçar e após dar a última lambida na edição de julho da revista monet, que tinha acabado de ir para a gráfica. peguei o carro e fui rumo a sede paulista da tv record para encontrar marcos mion, que só tinha aquela tarde de quarta disponível para uma entrevista (era um frila para a capa da edição de julho da revista voetrip). cheguei uns 20 minutos adiantado, tudo tranquilo. mas a poucos metros do estacionamento um micro ônibus apareceu do nada e rasgou/amassou a lateral esquerda do meu carro (o silvera). foi mais ou menos assim que cheguei para entrevistar o mion, de pernas bambas, com fome e nervoso com todo o processo pós-sinistro. mas deu tudo certo que eu sou profissional e não desisto nunca. ah, nessa pauta - que segue aqui na versão integral, a que mandei pro pessoal da voetrip - estive mais uma vez com o fotógrafo & bróder jefferson dias.


MARCOS MION NÃO É MAIS AQUELE

Ele parece muito seguro. Certamente está feliz. Do alto de seus 31 anos, casado e pai de três filhos (dois meninos e uma menina), Marcos Chaib Mion entrou em uma nova fase da vida com a estreia de Legendários. O programa, que vai ao ar nos sábados à noite na TV Record, vem conseguindo manter um sólido segundo lugar desde que estreou no início de abril. Mas dessa vez ele não é apenas um rostinho bonito e uma presença divertida na telinha. Co-idealizador de Legendários, Mion agora está presente em todas as fases da produção, sabe de tudo, e sente na pele o frenesi do sobe-e-desce da audiência durante a exibição do programa, que é ao vivo. Dez anos após ter estourado na MTV com o anárquivo e jovem Piores Clipes do Mundo, o paulistano sentiu a necessidade de falar com um público mais amplo, de todas as classes e idades. "É a maturidade", confirma o ator, apresentador e homem de negócios em seu sóbrio escritório sem janelas. Mas ali em um canto, em cima de um aparelho de DVD, um grupo de bonequinhos coloridos pode até jurar que esse pai de família ainda tem muito o que aprontar na televisão. Confira abaixo uma entrevista exclusiva onde Marcos Mion fala de seus primeiros passos artísticos, sua paixão pela televisão e dos novos desafios que vem enfrentando com o bom humor de sempre.
Quando você considera que foi o teu início na carreira artística?
Foi quando entrei pela primeira vez no Teatro Escola Célia Helena e comecei a estudar teatro. A princípio, mais por curiosidade, sem saber ao certo no que isso ia dar. Óbvio que eu era do tipo de moleque que fazia todas as peças na escola e só queria fazer se fosse o protagonista [risos]. Sempre fui esse tipo de pessoa acostumado a fazer com que as pessoas me ouvissem. Naturalmente. E aí entrei no Célia Helena com uns 14, 15 anos. Foi uma grande sacada da minha mãe. Mãe, né? Conhece a gente melhor que a gente mesmo imagina. Foi ela que sugeriu que fosse lá ter aulas de teatro, que ia me fazer bem. E realmente foi amor à primeira vista. Nas primeira conversas que tinha um novo mundo possível ali, um mundo de faz-de-conta no qual poderia ser qualquer coisa, contar qualquer história e viver qualquer vida. Isso me fascinou muito. Mas não era um curso profissionalizante. Era uma vez por semana pra brincar, pra perder a timidez de falar em público, então tinha gente de todas as idades. Fiz o curso, era de 6 meses, e logo emplaquei outro, mais 6 meses. Foi nessa segunda vez que conheci e tive aula com a Ligia Cortez, filha da Célia Helena com o Raul Cortez e diretora do Teatro Escola. Nessa época eu estava com muitas questões na cabeça, começando a descobrir muita coisa, e foi ela que me incentivou a fazer o curso pra valer: 3 anos, carga horária, diploma, etc. E eu fui, acreditando nela. Na verdade, mais acreditando nela que em mim mesmo.
E como foi o curso?
Uma loucura. Pirou minha cabeça porque vi que o palco era como uma casa pra mim. Quando chegou no final do curso era época de prestar vestibular e começaram a pintar uma dúvidas, porque minha família toda é de médicos e nunca me faltou nada. Se fosse por ali tava garantido, mas por outro lado tinha essa história que era minha paixão. Quando chegou a hora de entregar a papelada da inscrição tava tudo preenchido, menos a opção do curso. Fui com a minha mãe e ficamos conversando, conversando. Estava na dúvida entre Medicina ou Filosofia, que era pra poder interpretar melhor os textos, entrar em contato com a psique dos personagens, e ser um melhor ator. Quando chegou a minha vez respirei fundo, preenchi Filosofia e entreguei pra Deus. Fiz três semestres e logo depois comecei a trabalhar.
No programa Sandy & Júnior...
Pois é. Na minha peça de formatura no Célia Helena apareceu uma diretora de elenco da TV Globo que acabou me chamando. Ela foi no domingo e na quarta eu já estava na Globo vendo cabelo, figurino, e nunca mais parei. Quer dizer, fiquei só no primeiro ano do Sandy & Júnior e logo depois fui pra MTV. Aliás, essa história é muito louca porque bati na porta da MTV antes de ir pra Globo. Sempre quis trabalhar na MTV, era realmente um sonho, porque cresci com a MTV, era uma linguagem que entendia. Por ser moderna, passar mensagens, ser consciente, ser ativa, por mexer com os jovens. Enfim, fiz um teste e foi muito legal, mas no momento eles não estavam contratando ninguém. Aí a Globo me chamou. Ainda tive o momento de ligar pra MTV e falar - "olha, a Globo tá me chamando" [risos] -, mas eles estavam precisando de uma mulher porque foi na época que a Astrid Fontenelle saiu. Quase um ano depois, quando estava pra acabar o contrato com a Globo, liguei de novo pra MTV. Poderia ter assinado por mais um ano, mas aí foi quando o Cazé Peçanha saiu. Foi minha deixa pra entrar na MTV.
Você teve algum conflito por deixar de atuar para ser um apresentador quando entrou na MTV? Claro que também existia uma representação, mas no caso o personagem era você mesmo, né?
Duelei muito internamente com isso. Do mesmo jeito que foi na Globo de fazer uma série. Porque me formei fazendo Antígona do Sofócles com o Marco Antônio Rodrigues, o diretor mais vertical, mais casca-grossa que poderia existir, e fui fazer Sandy & Junior três dias depois, entendeu? [risos] Quer dizer, é preciso estar aberto para o universo pop, coisa que não acontece muito com as pessoas do teatro. Mas na MTV sofri menos porque era o meu sonho. E tem outra... quando cheguei na MTV já tinha uma opinião formada sobre o que tava faltando na programação, o modo como queria atuar. O teste que fiz já era o Piores Clipes do Mundo, porque era uma coisa que sentia falta, uma molecagem, uma coisa questionadora. Então deu super certo. Sempre pensei em como queria atuar de acordo com o canal, com a situação, etc. Larguei a interpretação clássica, mas fui me virando com o que tinha na mão e criando tipos.
Mas esse teu personagem criado na MTV, e que de outra forma esteve também na Bandeirantes e na volta à MTV, mudou com o decorrer do tempo?
Esse personagem que criei - que é o cara que fala o que todo mundo quer falar, mas não tem coragem, que tira sarro, que é questionador, que é esse do Piores Clipes do Mundo - realmente foi um acerto e caiu como uma luva pra MTV. Poderia fazer ele por anos e anos porque é muito real pra mim. Ele na verdade sou eu com 15, 16 anos [risos]. Pra colocar um boné e falar atrocidades é um segundo pra mim. É muito orgânico. A primeira vez que não me pauto por ele está acontecendo agora com o Legendários, porque o objetivo aqui é atingir um público maior, de todas as idades, de todas as classes. O desafio é outro. Esse personagem que fiz na MTV não fala com 10 pontos de audiência. Ele é mais segmentado. Mas trago comigo e vou me adaptando conforme as situações. Se precisar ele volta.
Então foi uma necessidade tua dar uma pausa nesse personagem?
Foi sim. Porque o que mantém um artista vivo é o desafio. É acreditar que você tem que sair da sua zona de conforto. Porque eu tava querendo falar com um público mais próximo da minha idade, dos meus amigos, e também assuntos mais variados e não só do universo pop. Senti a necessidade de dar esse passo e de ampliar meu público.
Chega a ser uma frustração não trabalhar como ator?
Não, porque me apaixonei pela televisão e vi que ela é mais carente do que o teatro, na verdade. Não de verba, claro. Mas de alma e de gente apaixonada pelo meio. Eu me identifiquei muito com esse meio e sempre quis fazer diferença nele. Trabalhei em algumas peças de teatro, com gente que admiro muito, e que fizeram sucesso. Isso, de certa forma, aplacou minha frustração. Então, agora esse é o meu negócio. E é um desafio gigantesco, e que nunca acaba. Porque posso ser líder uma semana, mas essa minha liderança dura sete dias, né? Então é uma estreia semanal, um desafio que te consome absurdamente. No teatro, apesar de um dia ser diferente do outro, é mais garantido, porque você sabe onde o povo vai rir, ou melhor, onde existe a maior probabilidade deles rirem. Sabe quantas pessoas esperar na plateia. Aqui toda semana é uma loucura.
Chegamos ao Legendários. Nessa transição entre MTV e Record, já existia a ideia do programa ou foi algo que se construiu depois que você foi contratado pelo Record?
A essência do programa veio depois. Quer dizer, nunca chego de mãos abanando. Gostaria de fazer um programa de humor, porque é algo que sei fazer muito bem. Tinha essa vontade, mas não sabia como poderia ser, principalmente porque não conhecia a emissora à fundo. Só depois que entrei que fui saber melhor de como são as coisas por aqui... o código de ética, o padrão de qualidade. Aí esse programa de humor foi se adaptando e virou o que é o Legendários hoje, que não é um programa de humor, e sim de entretenimento baseado no humor. Acho que a gente é mais Fantástico do que Casseta & Planeta, Pânico ou qualquer coisa.
Já tinha ideia da faixa de horário, essas coisas?
Isso foi uma loucura. A gente começou com um programa de 2 horas durante a semana. Aí pesquisa, pesquisa, pesquisa, e a gente chegou a conclusão que era um programa pra terça ou quinta. Mas esses dias são as faixas de reality shows da Record, que eles já vem trabalhando há muitos anos pra consolidar. Tirando isso, nossa melhor opção era apostar no sábado. Porque faz tempo que não tem um programa ao vivo no sábado e o Zorra Total tá lá há muitos anos como única opção. E apesar dos humoristas do Zorra serem muito bons e saberem falar com o publico brasileiro na veia, acredito que tenha uma certa saturação em cima do programa. Não conheço ninguém que fale: "Nossa, é sábado! Vou ver Zorra!" [risos] Imaginamos que seria um lugar legal pra entrar e pegar essa fatia do mercado. Então nos instalamos no sábado com 1h20 de duração. Mas tenho elenco pra um programa de 2 horas.
E agora que você está com um programa maior e mais por dentro da produção dele em todas as etapas... como é agora a batalha da audiência pra você?
Essa pressão é real, existe. Estamos numa emissora que é a segunda do país e audiência é um parâmetro pra vários aspectos, tanto de anunciante quanto de imprensa e tudo mais. E a gente tem uma preocupação muito grande de falar com todo mundo. Vejo o Legendários como um supermercado. Tem que agradar todo mundo. Ninguém sai insatisfeito de um supermercado. Sempre se acha alguma coisa. Você pode não achar no primeiro ou no segundo corredor, mas acha no quarto e no quinto. Então a gente trabalha focando em todos os públicos e todas as idades, e nossa audiência tem sido boa.
Você acompanha a medição de audiência durante o programa?
Sim, acompanho. Essa é uma das motivações pra ter o programa ao vivo, pra poder mexer nas estratégias. A gente sai daqui com um espelho, um roteiro que é sempre concluído meia-hora antes do programa ir para o ar. Aí chega lá e... muda tudo. Por exemplo, muda de acordo com a hora que novela da Globo vai acabar. Aí a gente troca uma matéria por outra, e vai vendo, porque sabemos que quando a novela tá no ar a gente demora a pegar. A novela acabou? É a nossa hora. Se a audiência tiver boa, a gente segura o break e joga mais pra frente. Uma loucura.
Isso é novidade pra você.
É novo. Nesse grau de intensidade é totalmente novo. Mas é que nem jogar na seleção brasileira, entendeu? Quando termina um programa e as estratégias deram certo é como marcar um gol contra a Argentina. É a melhor coisa do mundo.
Logo depois do início do programa houve uma certa polêmica na internet desqualificando o programa porque fazia um "humor do bem". Como surgiu isso?
O Danilo Gentilli [do CQC] criou esse termo pra dar uma queimada. Olha, mas uma das coisas boas do Legendários é que pela primeira vez houve uma união entre o Pânico e o CQC [risos]. Isso foi bacana. Os dois mega-concorrentes se uniram contra um novo “inimigo”. Mas no final das contas a gente deu risada. Assim, quando comecei a conhecer a emissora, o público, as expectativas eu vi que era o caso de fazer uma coisa que tem muito mais a ver comigo hoje em dia. Sou pai de família, tô em outra pegada, penso muito mais no mundo pelo viés dos meus filhos, no povo mesmo. Televisão hoje em dia é educação. Tem uma grande parcela do país que se educa pela televisão. Então comecei a sair disso de fazer um programa de humor como o Pânico ou CQC e tentar uma vertente diferente. Não melhor, nem pior, só diferente. E o que fazia sentido pra mim? Fazer um programa positivo. Fazer um programa "do bem". E foi daí que surgiu essa história. Eu não quero que o cara ligue a TV no sábado a noite e veja um cara sendo humilhado, pessoas rindo da cara do povo ou apelando. Quero uma coisa que passe uma mensagem legal e que ao mesmo tempo fale pra toda família brasileira mesmo, entendeu? Que a avó e o neto possam assistir, conversar e gostar. Então começou essa história de fazer um programa positivo, que tivesse assistencialismo, que tivesse sustentabilidade, e tem humor também. Tem todo um leque. Eu não quero rir das pessoas. Eu quero rir com as pessoas. Isso gerou uma reação em alguns colegas que se apressaram pra tentar pixar o programa. Mas muito disso aconteceu só na internet, não chegou no povão não. Enfim, não criei esse termo, mas visto ele com o maior prazer. Porque uma piada não é apenas uma piada, tudo tem uma consequência. Não dá pra ser isento. Isso tem a ver com maturidade, com paternidade, com ter um conhecimento maior sobre o povo. É sair do microcosmos.
A vida do Legendários tá começando agora, tem pouco mais de dois meses. O que você planeja pro futuro dessa criança?
Tenho contrato com a Record até 2015 e acho que o Legendários terá uma vida longa, principalmente pela diversidade de assuntos que pode e deve abordar, porque a gente pode ir moldando ele de acordo com o que tá acontecendo no país.
Você sente falta de algo na televisão? Ou de algo que você ainda não fez?
Ah, quero fazer muita coisa ainda. Vendo os profissionais que estão na ativa hoje eu tenho mais uns 40 anos de TV, pelo menos [risos]. Dá pra fazer muita coisa.

domingo, 23 de agosto de 2009

denise fraga, bertolt brecht e a comédia humana

nessas lacunas que a gente tem na vida, o teatro é uma das minhas. só passei a frequentar aqui em são paulo e já "velho", meio que no meio da faculdade, final da década de 1990. tive algumas experiências maravilhosas com o xpto (buster, por exemplo, que lindeza que foi), o oficina (cacilda! e boca de ouro), felipe hirsch, grupo galpão, tapa, gabriel vilela, gerald thomas, etc - nunca rolou antunes filho. mas já faz uma cara que não vou por causa dos preços altíssimos e da preguiça de toda a trabalheira que dá. enfim, lacunas.

uma das peças que tive vontade de ver (mas não fui) nos últimos tempos foi
a alma boa de setsuan, montagem produzida pela atriz denise fraga que voltou recentemente aos palcos paulistanos depois de uma turnê nacional. a estreia foi em setembro do ano passado e fiz uma reportagem pra revista voetrip (editora spring). segue.

denise em foto de joão caldas

DE ALMA LAVADA

O palco está montado, aberto e bem iluminado. Assim, aos poucos, a platéia vai se acomodando com suas câmeras, microfones, gravadores, blocos e canetas. Não demora muito e o terceiro sinal soa dentro da cabeça de alguém. Só pode. Já que todos aparecem de uma vez para sentar nas doze cadeiras dispostas sobre o tablado. Todos são o elenco e o diretor de uma nova montagem de A Alma Boa de Setsuan, peça do renomado dramaturgo alemão Bertolt Brecht, que começa sua turnê em São Paulo. De repente alguns câmeras falam alto - “Mais pro meio! A luz, Denise!” – e a atriz Denise Fraga ri e pula de uma cadeira para a outra até chegar na luz certa. Todos estão felizes e tem início a coletiva de imprensa.

“Não escolhi fazer Brecht por queria provar que posso fazer Brecht, e sim porque na hora que li Setsuan pensei: ‘caramba, quero falar isso aqui!’, ‘quero dizer que acho isso pra caramba!’. Acho que você tem que aproveitar a comunicação que tem... dããã... como ator famoso para falar o que te interessa. É uma felicidade infinitamente maior tocar projetos que sejam a sua voz”. Divertida, acessível e tímida em carne e osso, Denise Fraga é um dos muitos talentos nacionais que surgiram na década de 1980. Fez TV Pirata e por seis anos interpretou a desastrada empregada Olímpia na peça Trair e Coçar é Só Começar, além de novelas (Barriga de Aluguel, por exemplo), minisséries (O Auto da Compadecida e a recente Queridos Amigos), cinema (Boleiros 1 e 2) e quadros de muito sucesso no Fantástico (Retrato Falado). E mesmo com todo este sucesso foram necessários cinco anos para concretizar o sonho de um Brecht para chamar de seu. Mas do que se trata Setsuan?

Escrita em 1941 e montada dois anos depois - durante o exílio do escritor nos Estados Unidos por causa da perseguição aos judeus na Alemanha nazista -, A Alma Boa de Setsuan é uma parábola moral ambientada em uma China mítica. Três deuses, transformados em um nesta montagem, descem à Terra em procura de pelo menos uma alma boa. Logo descobrem ser uma tarefa das mais complicadas, mas acabam encontrando a bondosa prostituta Chen Tê e lhe dão uma bela recompensa. Mas o povo de sua província (Setsuan, centro da China) começa a abusar de sua boa vontade e ela precisa criar/interpretar um primo, Chui Ta, para conseguir dizer “não”. É aí que as trocas de personagens e confusões começam, com direito a uma gravidez inesperada e um julgamento. Setsuan, aliás, foi a primeira peça de Brecht a ser montada profissionalmente no Brasil há exatos 50 anos.

“A gente quis provar, mais uma vez, que Brecht é divertido porque acredito no humor como filosofia de vida. O humor é um jatinho. É um veículo rápido. Você pode enfiar a faca no coração do sujeito e deixar ele às gargalhadas. Assim ele leva para casa a questão que você coloca. Essa peça tem isso. É muito legal ver as pessoas pegando uma discussão ética de uma maneira divertida. O negócio é divertir e dar assunto para o jantar”. Todos riem e Denise Fraga se pergunta, como todos do elenco que ainda conta com Ary França, Cláudia Mello e Joelson Medeiros, se nos dias de hoje é preciso ser duro para conseguir as coisas. “Hoje a gente não dá mais a mão com medo que nos tomem o braço. Sendo que, às vezes, só a nossa mão já faria muita coisa”.

Pouco antes de todo o elenco apresentar seus personagens, o diretor Marco Antônio Braz acrescenta novas camadas ao afirmar que “quando lemos essa peça vimos que ela funciona metaforicamente sobre a dualidade humana, o bem e o mal, e até sobre como o Estado trata questões sociais”. Mas não se agüenta e torna pública a admiração pelo trabalho da atriz. O elenco todo faz um “oooh!” carinhoso e Denise Fraga, sinceramente envergonhada, agradece. Então a coletiva volta ao rumo com o eterno questionamento sobre se a atriz se sente estigmatizada por ser mais conhecida como comediante.

Denise Fraga, que por pouco não foi aeromoça, nem espera a bola quicar no chão. “Isso nunca me incomodou porque sempre fiz muitas coisas dramáticas fora do circuito televisivo. Adoro essa mistura porque na vida não existe divisão. Está tudo junto e é essa linha tênue que separa a comédia do drama que é o melhor terreno para o ator. Esse escorrega de emoções é o meu caminho”. E vai além ao louvar seus parceiros de elenco e, conseqüentemente, o teatro de grupo. “Eles também pensam, como eu, que somos um todo que tem que funcionar para essas pessoas que vêm nos assistir”. O público e o teatro, este ser sagrado para os atores, agradecem tamanha disponibilidade, mas Denise sente tudo isso muito mais profundamente.

“Estou me sentindo emocionada por esse retorno ao lar. Quando entrei na escola de teatro, quando pensava no queria ser, te juro que minha rotina imaginária era essa aqui. Porque o nosso trabalho... olha, pra quem gosta é muito bom, mas pra quem não gosta, é chato pra caramba! Tô falando demais, né?”. Imagina, o palco é seu.