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domingo, 15 de dezembro de 2024

56 músicas e 50 discos brasileiros de 2024

neste 2024 que está acabando o esforçado completa 15 anos ininterruptos de retrospectivas musicais (desde a criação do blog, em 2009). acho que no começo tentei manter um número fixo de músicas e discos e depois, com o tempo, fui vendo que muita coisa ia ficando de fora e que era muito mais interessante ter um panorama maior e mais diverso do que ouvi no ano. a partir daí, o número de músicas e discos mudou de ano em ano. muito mais legal.

em alguns anos cheguei a fazer a playlist de músicas também no spotify, mas a preguiça que tenho com a plataforma é tão grande que o bom e velho youtube me basta (tanto para a playlist quanto para os links dos discos na íntegra).

como sempre tem gente nova, novos e velhos veteranos, instrumentais e pop, remixes e tradição, de um tudo. escuta só...


Agnes Nunes – “As ruas não te amaram como eu”
Alessandra Leão & Sapopemba – “Exu Ajuô”
Alice Caymmi – “O amor (El Amor)”
Alvaro Lancellotti – “Maneira de ver”
Arrigo Barnabé & Trisca – “Fico Louco”
ÀTTØØXXÁ & Baco Exu do Blues – “Tranca rua”
Áurea Semiseria – “Big Mama”
Bruna Alimonda – “Estado febril”
Céu – “Raiou” [part. Ladybug Mecca]
Chico Bernardes – “Motivo”
Conjunto Boi de Piranha – “Dançando no escuro” [Ramiro Galas Remix]
Criolo, Dino D'Santiago & Amaro Freitas – “Esperança”
Curumin – “Paixão faixa preta”
Davi Nadier – “MaPeople”
Deize Tigrona – “Prazer sou eu” [feat. Larinhx]
Dom Salvador, Adrian Younge & Ali Shaheed Muhammad – “Os ancestrais”
Don L - Bem alto
Duda Beat – “Desapaixonar”
Duda Brack – “Cumbia Mel” [part. Gaby Amarantos]
FBC, Djonga & Pepito – “Rap bom”
Felipe Cordeiro – “Revolú” [part. Ariel Moura e Victor Xamã]
Giovani Cidreira – “O ouro e a madeira”
Grelo da Seresta – “Vida loka”
Iara Reluxx & Juçara Marçal – “Iroko (Axé que vem do Pé)”
João Gomes & Pabllo Vittar – “Vira lata”
Jup do Bairro, Maria Alcina & Pagode da 27 – “Amor de carnaval”
Karina Buhr – “Poeira da luz”
Liniker – “Ritmada Caju” [Mulú remix]
Lucy Alves & Rachel Reis – “Melaço”
Lurdez da Luz – “Ben Bella”
Maria Beraldo – “Minha missão”
Marina Sena – “Numa ilha”
Marujos Pataxó & Tropkillaz – “A força dos encantados” [Tropkillaz Remix]
MC Reino – “Bom dia princesa/Dono do Porsche”
Melvin Santhana – “Zara” [part. Luedji Luna & Zudizilla]
Meno Del Picchia – “Fogo bom”
Mombojó – “Romance da Bela Inês”
MOMO – “P​á​ra” [part. Jessica Lauren]
Moreno Veloso – “A donzela se casou” [part. Maria Bethânia, Caetano, Tom e Zeca Veloso]
Mulú & Carmen Miranda – “Pra Você Gostar de Mim” [Remix]
Nego Gallo – “Catedrais”
Pabllo Vittar & Duda Beat – “Ai que calor”
Péricles – “Bem que se quis” [Reggae Remix prod. Rincon Sapiência]
Rei Lacoste & Juçara Marçal – “Sem contrato”
Rincon Sapiência – “Jogo de cintura”
Rocha Ishi – “Respira”
Rodrigo Campos & Thiago França – “Gamei”
Russo Passapusso – “Dora” [part. Karina Buhr]
Saulo Duarte – “Canção do Povo”
Thiago França – “Dor elegante” [part. Juçara Marçal]
Verônica Ferriani & Áurea Martins – “Cochicho no silêncio vira barulho, irmã”
Vitor Ramil – “Teu vulto”
Yago Oproprio – “Catedrais”
Zé Manoel – “Malaika” [part. Luedji Luna]
Zeca Baleiro & Wado – “Alma turva”
Zécarlos Ribeiro, Ná Ozzetti & Tulipa Ruiz – “Bem humorado”
  

e agora vamos aos discos... como sempre tem gente que emplacou disco e música, gente que só emplacou música, gente que só emplacou disco e assim que a banda toca por aqui. mas gosto sempre de fazer alguns destaques nessa lista porque dentre esses 50 tem alguns que ouvi muito mais que outros. são aqueles discos que pegaram mais, tais como os poderosamente instrumentais Y'Y do pianista pernambucano Amaro Freitas e Canhoto de pé do saxofonista mineiro/paulistano Thiago França. tem o samba baiano de Ederaldo Gentil na voz do jovem Giovani Cidreira em Carnaval eu chego lá. tem o samba carioca de Zé Keti entortado por Jards Macalé e o Sergio Krakowski Trio em Mascarada. tem toda a beleza do cancioneiro de Milton Nascimento no encontro com a cantora, baixista e fã norte-americana Esperanza Spalding em Milton + esperanza. tem excelentes novos trabalhos de jovens ídolos da casa como Novela da Céu, Pedra de selva do Curumin e Digital Belém de Saulo Duarte. tem o estreante paulistano Yago Oproprio, uma espécie de herdeiro de Criolo (tanto nas rimas quanto no canto), em Oproprio. e, por último, o lindo lindíssimo Coral do cantor, compositor e pianista pernambucano Zé Manoel. mas lista completa tá aqui...
 
Álvaro Lancellotti - Arruda, alfazema e guiné
Amaro Freitas - Y’Y
ÀTTØØXXÁ - Summer Groove
Boogarins - Bacuri
Bruna Alimonda - Estado febril
Céu - Novela
Chico Bernardes - Outros fios
Clube do Balanço - Cadê Tereza
Curumin - Pedra de selva
Davi Nadier - Profundhi
Deize Tigrona - Não tem rolê tranquilo
Duda Beat - Tara e tal
Erasmo Carlos - Erasmo Esteves
FBC - Feito à mão
Felipe Cordeiro - Close, drama, revolução & putaria
Filarmônica de Pasárgada - Música infantil para crianças malcriadas
Giovani Cidreira - Carnaval eu chego lá
Hermeto Pascoal - Pra você, Ilza
Josyara - Mandinga multiplicação
Juçara Marçal - DEB RMX
Jup do Bairro - In.corpo.ração
Kamau - Documentário
Liniker - Caju
Maria Beraldo - Colinho
Mascarada: Zé Keti por Sergio Krakowski Trio & Jards Macalé
Matéria Prima - novidadedasantiga
Meno Del Picchia - Maré cheia
Milton + esperanza       
Mombojó - Carne de caju
Momo - Gira
Moreno Veloso - Mundo paralelo
Ná Ozzetti & Luiz Tatit - De lua
Nabru - Desenredo
Nego Gallo - Yopo
Negro Leo - Rela
Orquestra Frevo do Mundo, Pupillo & Davi Moraes - Moraes é frevo
Rashid - Portal
Rodrigo Campos - Pode ser outra beleza
Saulo Duarte - Digital Belém
Silva - Encantado
Slipmani - Até aqui, Slip nos ajudou
SPVIC & Síntese - Olímpico: Fora do Tempo
Tássia Reis - Topo da minha cabeça
Thiago França - Canhoto de pé
Verônica Ferriani - Cochicho no silêncio vira barulho, irmã
Vitor Ramil - Mantra concreto
Yago Oproprio - Opropio
Zé Manoel - Coral
Zeca Baleiro & Wado - Coração sangrento
Zudizilla - Le FauVe 

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

80 anos de Milton Nascimento

sacudindo a poeira aqui do blog - pois não tenho colocado os frilas que venho fazendo para a revista pesquisa fapesp desde o início de 2022 - venho com um novo frila pra sempre querida revista monet, um perfil frio do octagenário milton nascimento para a edição de outubro. aparentemente fácil de fazer, texto assim é mais difícil de costurar, pois é tanta informação importante e disponível que o trabalho maior é de buscar o mais importante, o que pode interessar mais. acho que deu certo aqui.

80 MILTONS

Shows e uma série documental homenageiam os 80 anos de um dos maiores nomes da música popular brasileira, Milton Nascimento

“Se Deus cantasse, teria a voz de Milton Nascimento”, disse certa vez Elis Regina. No próximo 26 de outubro, Elis, se estivesse viva, poderia dizer que o Deus que canta está completando 80 anos. Para homenagear marco tão importante, o Canal Brasil e o Canal Bis preparam programações especiais: no Brasil, a série documental Milton e o Clube da Esquina (2020) e o show Milton Nascimento: Uma Travessia - 50 Anos de Carreira (2013), enquanto o Bis exibe um show inédito de 1981 com Milton acompanhado pelo parceiro, e amigo desde a infância, Wagner Tiso. 

É um pouco das mais de seis décadas de músicas de um dos maiores artistas brasileiros, e que foi lançado justamente por Elis em 1966 quando a cantora gravou “Canção do sal”. Nascido no Rio de Janeiro, mas criado por sua família adotiva em Três Pontas (MG), Milton ganhou uma sanfona aos 4, cantava em bailes aos 13 e gravou sua primeira canção aos 20 (“Barulho de trem”, em 1962). Quando foi apresentado a Elis via Gilberto Gil – outro grande octogenário deste ano –, Milton já morava em Belo Horizonte e buscava conciliar a vida musical com uma faculdade de Economia. Depois de conhecer Elis, não precisou conciliar mais nada e apenas um ano depois, em 1967, ganhou o prêmio de melhor intérprete no Festival Internacional da Canção com “Travessia”, parceria sua com Fernando Brant.

Nessa época, segunda metade da década de 1960, Milton já havia conhecido Beto Guedes e os irmãos Márcio e Lô Borges, amigos e parceiros da vida toda, mas seus primeiros três discos seguem por um caminho mais bossa jazz. Tanto que o segundo, Courage, foi gravado nos EUA, tem canções em inglês, produção e arranjos de Eumir Deodato e participação de ninguém menos que Herbie Hancock (que viria se tornar um grande amigo e voltaria a gravar com Milton nas décadas seguintes). 

Foi em 1970, em seu quarto disco de estúdio, que Milton reuniu as composições dos irmãos Borges com o piano de Wagner Tiso e sua banda Som Imaginário para criar a sonoridade que melhor definiria sua carreira e criaria coletivamente, poucos anos depois, um dos discos mais importantes da história da música brasileira, Clube da Esquina (1972). Uma coisa assim Beatles encontra Minas Gerais mais psicodelia, progressivo, erudição, jazz e bossa, além de música regional e pitadas afro brasileiras. O coletivo – que além de Milton, Lô Borges e Beto Guedes, ainda era integrado por Toninho Horta e Tavito, entre outros - voltaria a se encontrar em Clube da Esquina 2 (1978).

A verdade é que, durante os anos 1970, Milton fez o seu próprio tropicalismo. Tão discreto, doce e lírico quanto ele mesmo. Tanto como compositor quanto como intérprete, foi nesta época que o carioca-mineiro deu ao mundo canções como “Para Lennon e McCartney”, “Cais”, “Nuvem cigana”, “Cravo e canela”, “Tudo Que você podia ser”, “San Vicente”, “Ponta de areia”, “Fé cega, faca amolada”, “Saudade dos aviões da Panair”, “Paula e Bebeto”, “O que será (À flor da pele)”, “A Lua girou”, “Circo Marimbondo”, “O cio da terra’ e “Maria, Maria”. Enquanto a década corria, foi censurado pela ditadura militar e boa parte das músicas do disco Milagre dos Peixes (1973) saiu de forma instrumental, lançou disco em parceria com o grande saxofonista americano Wayne Shorter (Native Dancer, em 1974), cantou ao lado de artistas como Alaíde Costa, Clementina de Jesus, Chico Buarque, Mercedes Sosa, Naná Vasconcelos, Gonzaguinha, e os grupos Boca Livre e Azimuth. 

Na década de 1980, ainda mais doce e crescentemente popular, Milton foi a cara e a voz da redemocratização do país. Lançada em 1983, “Coração de estudante” foi mais uma parceria com o grande amigo Wagner Tiso e bastou Milton cantar os primeiros versos, “Quero falar de uma coisa / Adivinha onde ela anda / Deve estar dentro do peito / Ou caminha pelo ar” para que um mundo de esperanças enchesse milhões de corações brasileiros durante a campanha das Diretas Já. E Milton não parou por aí, pois nessa década também lançou outras músicas-hinos do quilate de “Canção da América”, “Caçador de mim”, “Nos bailes da vida”, “Encontros e despedidas” e “Bola de meia, bola de gude”, e seguiu registrando grandes encontros, desta vez com Caetano Veloso, Roupa Nova, Ney Matogrosso, Uakti, Pat Metheny e Paul Simon.

Impossível mensurar quantos e quantas influenciou musicalmente, mas Milton sempre soube o que queria, apesar do jeito reservado. “Eu queria mais luz. Sempre foi assim, desde meus tempos de crooner em bailes. Via a cidade a noite, as luzinhas das casas, e queria que todas aquelas luzinhas me conhecessem. Cantando. (...) Tenho pavor do negócio póstumo. Quero tudo meu agora”, disse em entrevista para Bruna Lombardi no programa Gente de Expressão, em 1992. Nesta década gravou dois discos memoráveis, Txai (1990) e Angelus (1994), enfrentou seus primeiros problemas de saúde relacionados a diabetes, e deu a volta por cima com o show Tambores de Minas (1998).

Milton começou então a fazer um acerto de contas criativo com seu passado. Dos tempos de cantor em bailes nasceu Crooner (1999), totalmente de intérprete, depois veio Gil & Milton (2000), disco que registrou pela primeira vez o encontro dos dois. E ainda sobrou tempo para retornar a mão estendida que Elis lhe deu no começo de carreira, ao fazer o mesmo pela então cantora iniciante e filha de Elis, Maria Rita, no disco Pietá (2002). Quieto e inquieto, Milton Nascimento ainda fez, em parceria com Caetano Veloso, músicas para a trilha de O Coronel e o Lobisomem (2005), mas após completar 50 anos de carreira, em 2012, foi desacelerando. 

“Passa rápido demais o tempo, né? Não boto aqui que vou fazer 80 anos. Eu acho que tem um menino sempre dentro de mim”, disse Milton Nascimento em maio deste ano numa entrevista exclusiva para o programa Fantástico. Era tempo de anunciar que estava para sair na sua última turnê pelo país numa série de shows de despedida. Não da música, fez questão de deixar claro, mas dos palcos. Milton continua querendo luz, onde quer que seja.

sábado, 30 de abril de 2011

fique atento! criolo no microfone!

só se você esteve fora do ar na semana. só assim pode não ter cruzado com alguma coisa-notícia-dica relacionada ao paulistano criolo e seu segundo disco, nó na orelha, que foi liberado para download gratuito pelo próprio (agora em maio saem as versões em cd e vinil). se você não ouviu nada a respeito fique atento porque logo vai ter gente aí do seu lado falando que é o disco do ano, que o cara detona, numa corrente daquelas que vira onda grande, unanimidade surpreendente e nada burra. fique atento!

alguns meses atrás um dos produtores do disco, daniel ganjaman colocou em seu soundcloud três aperitivos do disco: o rap forte "grajauex", a balançante e malandra "subirusdoistiozin" e a soul "não existe amor em sp". aí já deu pra sacar que um dos comandantes da lendária rinha dos mcs de são paulo, e que em 2006 estreou com o convencional ainda há tempo, tinha mudado. o rap continuava ali nas suas músicas, mas de repente aquele rap era uma canção! com cara de clássico, "não existe amor em sp" é um bom exemplo de que o tema da cidade, tão caro ao rap, está ali, mas sob violinos, batidas e sentimentos soul. quando as outras sete faixas de nó na orelha caíram oficialmente na rede no início da semana, a variedade de caras e sons de criolo se mostrou ainda maior e melhor (com ajuda de ganjaman e marcelo cabral, do trio marginals, o outro produtor). escuta só o disco todo aí embaixo e me diz se estou mentindo.

Criolo - Nó Na Orelha by PoesiaRitmada

o disco começa com "bogotá" em ritmo de afrobeat, mas tem afrosamba em "mariô" (parceria com kiko dinucci), reggae adubado em "samba sambei", bolerão setentista em "freguês da meia noite", mais rap em "sucrilhos", orientalidades em "lion man" e o sambão divertido "linha de frente", com direito a uma turma da mônica do asfalto. sem parecer esquizofrênico, e muito menos oportunista, a variedade de vozes e ritmos de criolo é toda natural, absolutamente autêntica, fazendo de nó na orelha um microcosmos de achados e possibilidades para o rap e a canção brasileira. são as coisas que se ouve saindo do jeito que se sente. e sem as amarras de um gênero. afinal, quem disse que um rapper não pode fazer um bolero?

mas essas dez faixas são apenas um pedacinho de sua produção. parece que o sujeito está compondo como quem respira. então separei aqui videos de outras músicas. começando com uma homenagem a "cálice", aquela mesmo cantada por chico buarque e milton nascimento.



ou então "pra quê cerol?", numa versão ao vivo, rap meio punk e meio jazz com participações de lurdez da luz e os marginals.



e encerrando com a nordestina "lantejoula", dedicada aos seus pais cearenses (e como meus pais, como eu, também são cearenses, aproveito e dedico também a eles).



e o sujeito tem uma presença de palco que vou te falar...

p.s.: vale ler as resenhas do camilo rocha no bate estaca e a do velot wamba na + soma, e a reportagem do pedro alexandre sanches.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

paulo moura, ano 1978

sensacional que o cineasta e músico paulo roberto martins, do grupo teatro do som, venha recuperando seus curtas setentistas em seu canal no vimeo. tem canoa quebrada no ceará, rio de janeiro e outras bossas, mas a cereja no bolo é esse documentário sobre o grande paulo moura (1932-2010) que vi no URBe. filmado no morro da mangueira, o curta tem participações especiais de jorge ben, milton nascimento, egberto gismonti, hermeto pascoal e os sambacanas.



e como faixa bônus um curta recente de paulo martins sobre as gravações do disco alento (biscoito fino, 2010), que reuniu paulo moura e o teatro do som, mas que passou batido no ano passado (eu mesmo só fiquei sabendo por causa do video).