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domingo, 5 de maio de 2013

elas cantam ele, eles cantam ela

neste ano, o selo jóia moderna lançou dois excelentes tributos. não foram os primeiros da curta vida do selo criado pelo dj zé pedro – antes aconteceram literalmente loucas - as canções de marina lima (2011) e a voz da mulher na obra de guilherme arantes (2012) –, mas certamente são os melhores até agora (achei o da marina bom e o do guilherme arantes muito fraco). mulheres de péricles (2013) traz um punhado de cantoras da nova geração ao redor do compositor péricles cavalcanti, enquanto coitadinha bem feito (2013) faz o mesmo com jovens cantores e as músicas de ângela ro ro. ah, como se não bastassem trazer interpretações surpreendentes para algumas canções bem conhecidas, os dois tributos também estão disponíveis para download gratuito.


mulheres de péricles - péricles cavalcanti é um ilustre desconhecido. todos sabem cantar pelo menos uma de suas composições, mas poucos conhecem seus discos solos (são 5) ou associam seu nome a canções gravadas por gal (“negro amor”), caetano (“elegia”), arnaldo antunes (“eva e eu”) e adriana calcanhotto (“medo de amar nº3”). não que isso seja um problema ou motivo de ressentimento para ele (não parece), mas de qualquer forma esse disco é uma oportunidade e tanto para colocar alguns pingos nos is, principalmente sobre a poesia sofisticada e popular de suas letras. por outro lado, a escolha dessas jovens vozes femininas confere diversos tons de delicadeza (sexual, rascante, derramada, etc.) e experimentações musicais das mais variadas a canções feitas no decorrer das últimas quatro décadas. todas soam igualmente fresquinhas, urgentes. cada ouvinte terá suas preferidas e as minhas são “clariô” (marietta vital e mairah rocha), “blues” (céu), “porto alegre” (tulipa ruiz), “elegia” (mallu magalhães), “quem nasceu?” (laura lavieri) e “ode primitiva” (bárbara eugênia). detalhe: os anos indicados após as músicas (o mesmo vale para o próximo tributo) são das gravações originais.


1. céu – “blues” (péricles cavalcanti, 1981)
2. nina becker – “o céu e o som” (péricles cavalcanti, 1974)
3. blubell – “bossa nova” (péricles cavalcanti, 2004)
4. mallu magalhães – “elegia” (péricles cavalcanti & augusto de campos, 1979)
5. bárbara eugênia – “ode primitiva” (péricles cavalcanti & haroldo de campos, 1991)
6. marietta vital & mairah rocha – “clariô” (péricles cavalcanti, 1977)
7. tulipa ruiz – “porto alegre” (péricles cavalcanti, 2007)
8. iara rennó – “nossa bagdá” (péricles cavalcanti, 2004)
9. anelis & serena assumpção – “eva e eu” (péricles cavalcanti & arnaldo antunes, 1996)
10. laura lavieri – “quem nasceu?” (péricles cavalcanti, 1974)
11. karina buhr – “negro amor” (péricles cavalcanti & caetano veloso, 1977)
12. juliana kehl – “será o amor?” (péricles cavalcanti, 2004)
13. ava rocha – “musical” (péricles cavalcanti, 1983)
14. tiê – “medo de amar nº3” (péricles cavalcanti, 2000)
15. juliana perdigão – “canto maneiro” (péricles cavalcanti, 1991)




coitadinha bem feito - felizmente ângela ro ro se tornou objeto de culto ainda em vida, e a partir dos anos 2000 voltou a fazer shows, a gravar e até emplacou um programa de televisão. coitadinha bem feito é um coroamento desse movimento e uma bela homenagem a uma das compositoras mais fortes da música popular brasileira. a costura do repertório é menos original que a do mulheres de péricles – tanto que metade do tributo veio diretamente do disco de estreia de ângela, de 1979 –, mas a escolha por (e dos) intérpretes masculinos é um belo contraponto ao estilo da carioca. suas ironias mudam de lugar, seu romantismo rasgado ganha distância, seu blues ganha novas cores. as preferidas da casa são (sem nenhuma ordem, sempre) “balada da arrasada” (tatá aeroplano), “perdoai-os pai” (rael), “coitadinha bem feito” (otto), “não há cabeça” (pélico), “me acalmo danando” (hélio flanders), “came e case” (léo cavalcanti), “abre o coração” (gui amabis) e “fogueira” (rodrigo campos). baixe aí e veja quais são suas preferidas porque música boa é que não falta.

1. lucas santtana – “amor meu grande amor” (ângela ro ro & ana terra, 1979)
2. lira – “renúncia” (ângela ro ro, 1980)
3. leo cavalcanti – “came e case” (sérgio bandeira & ângela ro ro, 1981)
4. rómulo froés – “só nos resta viver” (ângela ro ro, 1980)
5. thiago pethit – “mares da espanha” (ângela ro ro, 1979)
6. tatá aeroplano – “balada da arrasada” (ângela ro ro, 1979)
7. otto – “coitadinha bem feito” (sérgio bandeira & ângela ro ro, 1981)
8. gui amabis – “abre o coração” (ângela ro ro, 1979)
9. adriano cintra – “gota de sangue” (ângela ro ro, 1979)
10. pélico – “não há cabeça” (ângela ro ro, 1979)
11. rodrigo campos – “fogueira” (ângela ro ro, 1984)
12. kiko dinucci – “tango da bronquite” (ângela ro ro, 1980)
13. rael – “perdoai-os pai” (sérgio bandeira & ângela ro ro, 1981)
14. gustavo galo – “fraca e abusada” (ângela ro ro, 1981)
15. dani black – “tola foi você” (ângela ro ro, 1979)
16. juliano gauche – “a mim e a mais ninguém” (ângela ro ro, 1979)
17. helio flanders – “me acalmo danando” (ângela ro ro, 1979)

sábado, 5 de janeiro de 2013

foi bonita a festa, pá

cultura livre é um daqueles raros espaços para a boa e nova música popular brasileira no rádio e na tv. comandado com graça e interesse por roberta martinelli, o programa ganhou uma promoção e tanto ao ser transformado em um especial de quase duas horas no réveillon da tv cultura. e ele está disponível na íntegra no youtube. olha só que belezura de atrações (tendo o terno como banda de apoio)...

o terno – “zé, assassino compulsivo”
barbara eugênia – “por aí”
barbara eugênia & tatá aeroplano – “sinta o gole quente do café que eu fiz pra ti tomar”
tatá aeroplano – “tudo parado na city”
filipe catto – “adoração”
pélico – “recado” (com tony berchmans)
tulipa ruiz – “script”
márcia castro – “29 beijos”
karina buhr – “não me tanto”
rafael castro – “pra vender mais, agradar mais, se falar mais”
kiko dinucci – “lizete”
todo mundo – “gente aberta” (erasmo carlos)
rael – “caminho” (com carlos café e dj will)
felipe cordeiro – “legal e ilegal” (com manoel cordeiro)
léo cavalcanti – “sonho parasita”
laura lavieri – “quem nasceu”
blubell – “protesto”
letuce & blubell – “que se chama amor”
letuce – “insoniazinha”
juçara marçal – “morto”
maurício pereira & juçara marçal – “trovoa”
maurício pereira – “compromisso”
o terno – “66”

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

paulo carvalho, cantautor

nunca fui um profissional de releases (musicais) para imprensa e nesses meus doze anos de profissão só tinha feito um, no final de 2008, porque foi pedido de um amigo (oga mendonça, do projeto manada), gosto do trabalho dele/grupo, presto muito atenção no rap brasileiro e gostaria de dar uma contribuição e tals. mas daí que em março ou abril, o paulistano paulo carvalho me convidou pelo facebook pra fazer o release de seu segundo disco solo (o amor é uma religião). não sei se ele tinha uma opção anterior, não o conhecia pessoalmente, mas lembrava que tínhamos falado um pouco por emails quando ele lançou seu disco de estreia em 2007 e me agradeceu pela resenha que fiz no gafieiras. fui tomado por receios ético-profissionais. e se não gostar do disco? será que vou ter que apelar pra ficção jornalística? na conversa com paulo decidimos que iria acompanhar um pouco dos ensaios em maio e da gravação em junho para ter mais informações extra-musicais. e, ufa, bastaram alguns minutos do primeiro ensaio pra ter certeza que não precisaria usar de truques para falar sobre um disco que se mostraria cheio de boas surpresas e muitas e belas canções. portanto, seguem algumas fotos que tirei nesse processo, o release em si e o disco em streaming (que também pode ser baixado gratuitamente no site oficial do paulo ou, acima, no link do disco).  



CORAÇÃO NA BOCA

O amor é um daqueles grandes mistérios, e consequentemente temas, da humanidade. Artistas e não-artistas tentam entendê-lo (e assim louvá-lo, amaldiçoá-lo, mil coisas) em verso e prosa desde que a maçã foi comida. Paulo Carvalho gosta de escrever sobre o amor e não é de hoje. Em 2007, sobre sua estreia em disco (De Longe) como cantor e compositor, escrevi o seguinte para o site Gafieiras: “Romântico, o paulistano prefere cantar dores de amor e ausências, mas devidamente colocadas em um cenário urbano e atual”.

Mas foi necessário um pouco mais de tempo e maturação para o também escritor e psiquiatra tomar coragem de se assumir definitivamente como um “cantautor”. O resultado é seu segundo disco, O Amor é uma Religião, que volta a tratar dos solavancos do coração, só que de uma forma mais aberta e ainda mais poética e autoral. O título vem de um dos versos de “Solando no tempo” – canção de Luiz Melodia, gravada originalmente em Mico de Circo (1978) –, uma das duas regravações presentes no disco. A outra é “Aeroplanos” (Jorge Mautner e Rodolfo Grani Jr.), que Mautner gravou em Mil e Uma Noites de Bagdá (1976).

Nessas duas músicas, e também nas autorais “Sóis” e “Segredo” (esta com a irmã Luciana de Carvalho, parceira habitual), existem ligações evidentes entre amor, Deus e religião/crença, como sugere o título desse disco de 12 faixas. Mas na verdade o amor-religião de Paulo Carvalho é feito de belezas e mistérios muito próximos, em nada distantes ou idealizados. Tanto faz ganhar ou perder, o importante é se encantar e se entregar. Amor é vida, o resto é ficção.

É notável a coragem de Paulo Carvalho enfrentar o amor (logo o amor) dentro do historicamente fértil terreno da canção popular brasileira, e ele se sai muito bem nas suas escolhas poéticas, mas teve ainda a grande sabedoria de chamar um afiado quarteto de músicos-arranjadores para todo o disco.

Três deles possuem uma longa convivência no grupo Cidadão Instigado: Dustan Gallas (teclados), Rian Batista (baixo) e Régis Damasceno (guitarra e violão). Rian e Régis haviam tocado na estreia discográfica de Paulo Carvalho e agora o guitarrista é co-produtor ao lado de Yury Kalil (que também co-produziu a estreia de Paulo, mas na época ao lado de Fernando Catatau, o líder do Cidadão Instigado). O baterista Richard Ribeiro poderia ser um estranho no ninho, mas toca com Régis em seu projeto solo (Porto) e na banda de Marcelo Jeneci (e de lá veio Laura Lavieri que cantou junto de Paulo na delicada “Miragem”), além de também colaborar com o Cidadão Instigado.

Nos ensaios, a familiaridade de uns com os outros era patente em quão rápido e fácil encontravam soluções e caminhos para cada música de O Amor é uma Religião. Uma psicodelia aqui, uma bossa nova acolá, pitadas de futurismo, umas colheres de Jovem Guarda, um jeito Caetano Veloso, uma valsinha com clima de praia, uma guitarra Lulu Santos, rocks variados e assim por diante em um disco repleto de surpresas sonoras. Tudo isso, todo esse clima leve, ajudou Paulo a ter mais confiança e lá se foi o rapaz arriscar em espanhol (“Inmersión”) e inglês (“Dreamer”, parceria com Régis) e assinando canções com Pélico (“Teu nome”) e Pecker, cantor e compositor espanhol que veio até São Paulo gravar uma participação em “Inmersión” (além de terem feitos juntos “Segredo”). O amor, esse mistério, nos dá força pra cada coisa.



p.s.: as fotos acima foram tiradas durante os ensaios, que aconteceram no estúdio loop, a as que seguem abaixo nas gravações nos estúdios mosh.


yuri kalil (co-produção)

dustan gallas (teclados)

rian batista (baixo)

régis damasceno (guitarras, violão e co-produção)

richard ribeiro (bateria)

laura lavieri (voz) e tony berchmans (acordeon), 
participações especiais em "miragem"

sábado, 15 de setembro de 2012

música brasileira, essa caixinha de surpresas

muito boa, e notavelmente arriscada, a iniciativa do pessoal do pulsa nova música de reunir alguns músicos e bandas do momento, mais ou menos conhecidos e de lugares variados, para regravar um punhado de clássicos nacionais. boa porque sempre rolam alguns encontros/releituras memoráveis e arriscada porque... bem, tributos são uma loteria, tem vez que não dá certo, tem vez que dá vergonha. coisas da vida, enfim. mas, entre mortos e feridos, essa coletânea brasileiros se sai muito bem. são 15 faixas que podem ser baixadas separadamente a partir do player abaixo.


brasileiros (pulsa nova música, 2012)

1. bazar pamplona – “o que é que a baiana tem?” (dorival caymmi)
2. suéteres – “baby” (caetano veloso)
3. hierofante púrpura – “cuitelinho” (pena branca & xavantinho)
4. sabonetes & pedro pelotas – “detalhes” (roberto carlos)
5. pélico – “sim” (cartola)
6. letuce – “esotérico” (gilberto gil)
7. hidrocor – “alegria alegria” (caetano veloso)
8. nevilton – “amanheceu peguei a viola” (renato teixeira)
9. felippe pompeo – “san vicente” (milton nascimento)
10. nana – “garota de ipanema” (tom jobim e vinicius de moraes)
11. oito mãos –“trem das onze” (adoniran barbosa)
12. seychelles – “dia 36” (mutantes)
13. mahmundi – “corre corre” (rita lee)
14. arthur matos – “disparada” (geraldo vandré)
15. felippe pompeo & guilherme morais –“ travessia” (milton nascimento)

gostei de todas as faixas, nível bom mesmo na curadoria e versões. acho que só o “alegria alegria” do hidrocor me incomodou. mas as preferidas pessoais foram “esotérico” com letuce, “cuitelinho” com o hierofante púrpura, “trem das onze” com oito mãos, “corre corre” com mahmundi e “sim” com o pélico (acho que são as que mais ficam diferentes das originais). a do pélico ganhou um vídeo ótimo feito por filipe franco e a mahmundi, que já tocava essa música da rita lee em seus shows, ganhou um ao vivo registrado pela oi novo som. seguem...


domingo, 22 de abril de 2012

tom zé convida...

um dos projetos contemplados no último edital do natura musical, o novo disco de tom zé, tropicália lixo lógico, está sendo gravado e alguns convidados especiais já deram o ar da graça no estúdio do artista baiano: emicida, mallu magalhães, pélico e rodrigo amarante. confira abaixo os encontros em fotos que tirei do instagram do jornalista marcus preto que está acompanhando a gravação.





e tem também uns videos com trechos desses encontros de tom zé com mallu e amarante. olha só.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

é de graça, meu rei!

cada vez mais comum ver artistas brasileiros, muito independentes sim senhor, disponibilizando seus novos trabalhos para download gratuito. aproveitei a deixa de três novidades - os igualmente excelentes discos de wado (samba 808), karina buhr (longe de onde) e junio barreto (setembro) - para fazer uma lista com 15 discos nacionais lançados dessa forma no decorrer do ano. tem mais coisa, claro, mas essa selecta dá uma boa ideia da alta qualidade e diversidade do que temos ouvido por aqui.

1. wado (samba 808)

2. karina buhr (longe de onde)

3. junio barreto (setembro)

4. camarones orquestra guitarrística (espionagem industrial)

5. rafael castro (rc canta rc)

6. lirinha (lira)



9. china (moto contínuo)

10. bonifrate (um futuro inteiro)


12. rael da rima (música popular do 3º mundo)

13. nuda (amarénenhuma)

14. romulo fróes (um labirinto em cada pé)

15. academia da berlinda (olindance)