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quinta-feira, 25 de abril de 2013

mexidão #06

fiquei na dúvida se colocava ou não a imagem que deu origem a prisão do "nazista de BH", no qual antônio donato baudson peret enforca um sem teto no centro de belo horizonte. não o fiz no yahoo porque tem uns malucos bem malucos por lá, mas aqui serve como lembrança que a intolerância segue firme, forte e em plena luz do dia (olha lá no fundo da foto, canto direito, um tiozão fotografando ou filmando sem tirar a bunda da cadeira).



O PRECONCEITO IMPUNE DE CADA DIA

Desde que comecei a escrever aqui no Yahoo! – pouco mais de dois anos atrás – sempre tentei acompanhar o máximo possível o que acontece na caixa de comentários. É uma loucura, uma babel de opiniões, alguns elogios e muitos xingamentos. Boa parte das pessoas que comentam nem se dá ao trabalhar de ler o texto e já disparam a lançar pedras contra o colunista. Mas esse é o jogo e, no fundo, gosto também de procurar entender como se manifestam certos ódios. Por exemplo, em um dos textos recentes aqui do Mexidão (“Joelma calada é uma poeta”), o que mais li foi gente reclamando que agora não se podia falar mais nada sobre homossexuais que se corria o risco de ser preso. Nada mais longe da verdade.

Antes de tudo, não é que agora não se pode falar mais de homossexuais (e “falar” aqui é xingar). Nunca pode. Quem falava de “boiolas” e “sapatas” (ou de negros e nordestinos) em tom violentamente pejorativo sempre esteve errado. Não é assim que se trata pessoas, independente de quem sejam, do que façam e de ontem tenham nascido. O que agora está acontecendo é uma maior consciência de todas as partes envolvidas (menos dos preconceituosos, claro) e uma luta por direitos para todos.

Mas voltando ao assunto de ser preso por preconceito. Ontem, 14 de abril, Antônio Donato Baudson Peret, 24 anos, foi preso na rodoviária de Americana (SP). Ele é o tal skinhead mineiro que poucas semanas atrás postou no Facebook uma foto no qual aparecia enforcando um morador de rua negro. A Delegacia Especializada de Investigações de Crimes Cibernéticos (DEICC) de Belo Horizonte em ação conjunta com a Guarda Municipal de Americana (GAMA) monitorou os passou de Antônio Donato até encontrá-lo visitando uma namorada que conheceu na internet e o prendeu ainda dentro do ônibus. Estavam cumprindo um mandato de prisão por apologia ao crime, racismo, nazismo e formação de quadrilha. Com ele foi encontrado um soco inglês, uma faca e um facão.


O sujeito cumprirá 30 dias de prisão preventiva enquanto as investigações prosseguem, mas o que chama atenção é o histórico de crimes impunes de Antônio Donato. Em janeiro de 2009 ele espancou um jovem homossexual de 19 anos. Em setembro de 2011 foi a vez de um casal gay. Nenhum dos dois casos chegou à Justiça. Em abril de 2011, um morador de rua menor de idade foi vítima de sua brutalidade e o caso chegou a ter duas audiências, mas Antônio Donato não apareceu. Na verdade, seu “grande erro” foi ter postado a foto no Facebook, o que lhe garantiu visibilidade na rede e, finalmente, um rosto a ser procurado. Se não fosse por isso ele ainda estaria por aí agredindo com a certeza da impunidade como todos os inúmeros casos Brasil afora (afinal, em 2012, o Disque 100 registrou uma média de 8 casos de violência por dia contra a população LGBT; número que deve ser muito maior)

Em um comentário que postou junto com a foto (ele tentou apagar depois, mas a imagem jpa tinha se espalhado) criticou governo e sociedade na seguinte forma: “Falsos democratas, sociedade libertina, policiais corruptos, direitos humanos e por aí vai... O velho pão e circo para o povo humanista”. É a mesma balela que se espalha como fogo de palha pelos comentários de anônimos e nos discursos de oportunistas como Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e Silas Malafaia. Gente que se acha melhor que os outros, donos da verdade, gente que não respeita a diferença, gente autoritária da pior qualidade. Enquanto a homofobia não for considerada crime essa gente selvagem estará solta por aí agredindo inocentes que só querem viver tranquilos. Deu pra entender?

terça-feira, 23 de abril de 2013

mexidão #05

acelerei o passo lá no mexidão, peguei o ritmo, mas como são três postagens semanais não posso colocar aqui na mesma velocidade. o esforçado viraria um simples espelho do mexidão e aí seria mals. preciso colocar pelo menos uma postagem exclusiva entre uma coluna e outra. vamos ver como vai funcionar. bem, depois que escrevi o texto, rafael castro entrou em contato comigo pelo facebook e muito educadamente se colocou a disposição para falar mais do assunto, explicar seu lado, seu ponto de vista sobre a música e os eventos que se seguiram. a longa entrevista que ele me deu foi publicada com aqui no esforçado com o título "rafael castro, advogado do diabo de si mesmo". ah, as fotos abaixo são todas da marcha das vadias/2012.


MÚSICA POPULAR DE ESTUPRO

O que Henrique Costa, cantor sertanejo de Nobres (MT), tem em comum com Rafael Castro, natural de Lençóis Paulistas (SP) e uma das revelações da nova música independente paulistana? Músicas, digamos assim, polêmicas. Uma de cada, na verdade (o assunto aqui, portanto, não são os artistas e sim essas músicas e o que elas representam). Vamos às provas...

PROVA 1 - “A noite tudo pode acontecer / Traz a tequila pra ela enlouquecer / Um black, um red, um blue e fica no grau / Se bebe tudo elas liberam geral” (“Então se Joga”, Henrique Costa). Adaptação livre de “Psycho Killer” do Talking Heads, a música “Então se Joga” ficou mais conhecida em fevereiro deste ano após o lançamento de seu clipe. Mas, curiosamente, boa parte das críticas negativas acusou o jovem de 18 anos de estragar o clássico do Talking Heads (Como se uma música tomasse lugar da outra, baita bobagem).

PROVA 2 - “Se você bobear eu vou te encher / de birinight / até você me achar jóia e a gente sair daqui / (...) Depois eu tiro sua roupa, / te amo sem você ver. / Você é tão quente quietinha, / me faz derreter...” (“Vou te Encher de Birinight”, Rafael Castro). Essa música de Rafael não é de agora, mas acabou voltando aos holofotes após um show que fez para a Calourada da USP deste ano, o que motivou uma estranha nota do Diretório Central dos Estudantes (a tal “Moção de repúdio às músicas opressoras de Rafael Castro” foi divulgada mais de um mês após o show).


Nos dois casos, a ideia central é bastante clara: embebedar garotas para conseguir sexo. Em entrevista ao site do jornal O Globo, Henrique Costa pediu “desculpas se alguém entendeu errado, mas eu quis mostrar alegria e festa, só isso”. Já Rafael Castro publicou em sua página no Facebook a sua própria (e longa) interpretação da letra, no qual enumera “repressão sexual, julgamento de valores, depressão, baixa auto-estima e alcoolismo se degladiando numa aproximação entre um casal que deveria ser muito mais simples que isso. Nesse caso há uma crítica social implícita e é ela quem vai conduzir nossa tragédia”.

E é disso mesmo que estamos falando, da tragédia que é a violência (física, sexual, psicológica, etc) contra a mulher no Brasil. Não adianta falar que “a música estimula apenas a diversão” ou que é uma “crítica social” quando isso não está claro na letra. A jornalista Kátia Abreu foi justamente nesse nó interpretativo em seu texto “Amigos, amigos; cretinices à parte”: “O argumento mais comum é o de uma suposta ironia na canção [de Rafael Castro]. Ora, se a intenção de uma obra não é compreendida pelo público há de se pensar que o problema está no emissor e não nos receptores da mensagem. Alegar ‘não entenderam a piada’ é se igualar ao discurso de caras como Rafinha Bastos e Danilo Gentili, quase unanimemente criticados por aí”.


Meus caros, se vocês deixaram brecha para interpretarem suas músicas como “apologia ao estupro” é porque algo vocês fizeram errado na composição (em tempo, “Então se Joga” é do mineiro Gui Bittencourt, Henrique Costa é apenas o intérprete). E não é possível deixar brechas quando o assunto é estupro (aqui ou em qualquer outro lugar). Segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2010), foram registrados – repito, registrados, o que significa que o número é maior –15704 casos de estupro em 2008. O número saltou, em 2009, para 22477. Isso sem contar tentativa de estupro e atentado violento ao pudor. É coisa séria, nada pop. Então, fica a dica de Alex Castro no indispensável “Feminismo para homens, um curso rápido”: “Para um homem, simplesmente ouvir as mulheres, sem interpelar grosseiramente nem minimizar as agressões sofridas, já é grande parte do processo”.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

cultura e educação contra o extermínio

um dos grandes momentos da campanha: o encontro de fernando haddad com mano brown, ice blue, leandro lehart, andreia dias, emicida, leci brandão, etc. ainda falarei mais sobre essa experiência (a de trabalhar nessa reta final da campanha), mas deixa passar domingo. nesse trecho, as falas de mano brown, ice blue e haddad.



saiu um segundo trecho do encontro com a presença de netinho de paula, leandro lehart e leci brandão.



e lá no blog H tem outros trechos do encontro transcritos por pedro alexandre sanches. ah, e no último trecho em vídeo, emicida, fernando anitelli (teatro mágico) e andré frateschi.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

laerte da semana #36

e não é que roubaram a casa do laerte e levaram seu computador com boa parte de seu acervo?! daí que seus fãs começaram uma "corrente virtual" para tentar recuperar esse material. laerte agradeceu, mas aproveitou para dizer que "gostaria que as pessoas se ligassem mais em fatos como o que aconteceu na Praça da Sé no dia 2, em que a polícia investiu contra os sem-teto que estavam fazendo uma manifestação. Isso também é um assalto, é um roubo, é uma expropriação e essa gente não tem quem os defenda. São pessoas sem identidade, sem representação, infelizmente."

terça-feira, 20 de março de 2012

o gato, o rato e a ultraviolência

e não é que algum maluco abençoado com disposição e tempo livre compilou todas as aparições da dupla comichão & coçadinha n'os simpsons desde o final da década de 1980?! deu pouco mais de 48 minutos, mas é recomendável ser consumido em doses homeopáticas, afinal ultraviolência, mesmo animada, tem limite.





rever essa selvageria toda me fez lembrar do italiano massimo mattioli e seu squeak the mouse, uma mistura da boa e velha história de gato e rato com pitadas de humor nonsense, sexo explícito e violência à la sexta-feira 13. foi mais um daqueles achados da revista animal (foi capa da número 6).


o curioso é que numa busca por coisas relacionadas a squeak the mouse achei uma animação feita aqui no brasil, como trabalho de fim de curso. não é boa, mas é interessante (e tem uma citações bacanas a marcatti e mzk lá pelo final do curta).



SQUEAK THE MOUSE from MAZZA on Vimeo


pois é, assim caminha a humanidade desde os tempos de tom & jerry. ah, vi no trabalho sujo que viu no roteador.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

muros de mais, pontes de menos

só vi agora que um dos melhores documentários brasileiros dos últimos tempos, o média a ponte (2006-08), de roberto t. oliveira e joão wainer, está na íntegra na internet. traz depoimentos de mano brown, do escritor ferréz e da educadora dagmar garroux, fundadora da casa do zezinho. a trilha é da dupla zé gonzales e daniel ganjaman.


e tem no site da revista trip uma boa entrevista, de 2008, com wainer.

sábado, 26 de novembro de 2011

yahoo #19

upalelê, novembro puxado esse, viu? postei muito pouca coisa aqui no esforçado, mas foi por um bom motivo (muito trabalho) e o yahoo foi um deles. essa semana subiu por lá o "custe o que custar, uma ova!", meu vigésimo texto para a coluna ultrapop e um dos que mais gostei de fazer. a repercussão foi ótima, até surpreendente porque muita gente elogiou e se identificou com a decepção frente ao "humorismo-político" do cqc. muito diferente desse "pra cima, com raiva", sobre a desocupação da usp e a presença de policiais no campus, que também teve boa repercussão, mas com o pessoal me odiando e coisa e tal.


PRA CIMA, COM RAIVA

Pois é, acabou na segunda a ocupação dos estudantes na reitoria da USP com direito a algumas centenas de soldados da tropa de choque da PM fortemente armados (e sem identificação). Nesses novos tempos bicudos, no qual até um ex-presidente diagnosticado com câncer é alvo de desejos de morte e “campanhas” idiotas para vê-lo se tratar no SUS, esses estudantes foram xingados de tudo quanto é nome pelos comentaristas anônimos e raivosos de plantão.

Filhinhos de papai, playboys, vagabundos, baderneiros, maconheiros e o diabo a quatro. E quando um deles foi fotografado com um casaco da GAP então? Até um pessoal mais esclarecidinho saiu jogando pedra. Ninguém pensou que o casaco poderia ser falsificado? Ninguém pensou que um mero casaco não tem relação alguma com o que está sendo questionado? Em tempos assim, pensar realmente é exigir demais.

Quase toda minha vida escolar passou pelos corredores de escolas públicas e foi assim que entrei na USP, em 1994, no curso de Ciências Sociais. Lembro que boa parte de meus contemporâneos era parecido comigo: ou vinham de escolas públicas ou de outras cidades, ou os dois.

Sempre fui avesso a políticas estudantis. Sentia uma preguiça gigantesca dos papos furados politizados e vazios de sempre, da distância entre as necessidades e problemas diários da universidade e as bandeiras levantadas (abaixo o imperialismo? Por favor). O mais próximo que cheguei do Centro Acadêmico foi na participação de um divertido e farsesco roubo da urna de uma das votações: a ideia porra louca era criticar a ausência de representatividade do processo (íamos fazer um vídeo com a urna amarrada numa cama pedindo que nossas exigências fossem atendidas. Detalhe: não tínhamos exigências). Como era de se esperar deu o maior chabu. Foi sensacional. Era um jeito diferente de fazer política.



Então me formei e de vez em quando ficava sabendo de alguma coisa na faculdade. Tudo meio parado, ninguém se mexia pra nada. Anos e anos de reitores capatazes de um governo do Estado sem interesse por educação resultam nisso mesmo: apatia (estou falando aqui de São Paulo, mas essa história se repete de outras formas em outros Estados).

Quando aconteceu esse recente confronto entre a Polícia Militar e os estudantes achei interessante. Primeiro porque acho que passou da hora de receber paulada de policiais numa boa. Porque só eles podem bater? Segundo porque foi um sinal de movimentação e raiva, e isso é bom, é transformador.

Bem, a questão do policiamento no campus deveria ser pensada pelo Estado em conjunto com estudantes, professores e funcionários. Mas é pedir muito de um reitor autoritário, e com uma extensa folha corrida de barbaridades, como João Grandino Rodas (saiba mais sobre o figura aqui). No entanto não dá para ficar do lado dos estudantes que desejam a total exclusão de policiamento. O campus é público, faz parte da cidade. Agora, o que não pode é a polícia fazer o maior fuzuê por causa de três usuários de maconha e seguir completamente ausente para os casos de estupros, roubos e assassinatos nesse mesmo campus.

Nessas horas é preciso ser inteligente e não cair em armadilhas como a ocupação besta da reitoria. Claro que a justiça iria pedir “reintegração de posse” e que junto disso viriam os policiais e a imprensa sedenta por imagens de impacto desses baderneiros “recebendo o que merecem”. Prato feito para deixar parte da opinião pública de olhos e ouvidos fechados para qualquer discussão. É necessário pensar uma outra forma de confrontar politicamente o sistema e acredito que o Wikileaks, a Primavera Árabe e os movimentos decorrentes do Occupy Wall Street possam nos dar pistas do que fazer no futuro (vale ler o discurso do filósofo Slavoj Zizek, “A tinta vermelha”, feito um mês atrás em Nova York).

Porque você aí ignorante que defende que a polícia bata em estudantes, você pode muito bem ser o próximo. Afinal, a mal treinada e gloriosa Polícia Militar do Estado de São Paulo bate em professores, estudantes, grevistas das mais diversas profissões, e dispersa manifestações pacíficas com bombas e balas de borrachas. Não é esse mundo que eu quero. Não mesmo.



p.s.: aproveito para recomendar outros textos escritos recentemente no calor do momento. São eles “Geração mascarada”, de Marcelo Rubens Paiva, “O choque na USP e a militarização de São Paulo”, de André Forastieri, e “A cortina de fumaça da segurança na USP”, de Pablo Ortellado.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

arrebatamento na paulista

nos estados unidos anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar neste 21 de maio de 2011, mas ninguém parecia se importar com o apocalipse no início dessa história. sábado, sol, avenida paulista cheia, céu azul outonal. desço do ônibus em frente ao parque trianon, verde compacto raro na cidade de são paulo, e logo dou de cara com uma grande quantidade policial de carros, motos e soldados. mais do que eu imaginava, bem mais que na marcha da maconha do ano passado.

olho pro outro lado da avenida, no vão do masp, e ouço batuques e gritos. atravesso a rua e a primeira manifestação que vejo é de um grupo de 20 skinheads/neonazis malucos (um pleonasmo, eu sei) cantando o hino nacional e segurando cartazes com escritos do tipo "diga não as drogas / drogas destroem famílias". duas fileiras de policiais os protegiam de, naquela hora, cerca de 500 pessoas que nem ligavam, estavam de costas, nem aí, cantando "ei polícia, maconha é uma delícia". ok, estou oficialmente na marcha.


o grupelho de neonazis, os maiores fãs da polícia militar

de fora parece uma micareta hippie, de dentro também, mas o pessoal que organiza a marcha, acho que quase todos ligados ao coletivo dar (desentorpecendo a razão), é bastante sério e corajoso. o que não adiantou em nada na hora que constataram que o megafone estava de farol baixo, pilha fraca ou algo assim, e não conseguia dar conta a todos do que seria feito e de que jeito. por volta das 14h30, e já ao lado dos bróders mauricio fiore e giovanni cirino (pouco depois apareceria cristiano bromberg), comecei a ouvir os gritos de "vamos para paulista".

todos rumaram para a avenida e pararam na calçada para saber o que aconteceria em seguida. sem comunicação entre organizadores e batuque, demorou um pouco até todos perceberam que precisavam sentar para ouvir. e o batuque calou (nessa hora os neonazis aproveitaram para novas provocações, devidamente e rapidamente soterrados por gritos, xingamentos e palavras de ordem como “onha, onha, onha, plínio salgado fumava maconha”).


foto recorte transversal do início da marcha;
tinha mais gente na frente e atrás

o que se seguiu foi um daqueles momentos mágicos, piegas para alguns. centenas e centenas de pessoas sentadas no vão do masp ouvindo e repassando em voz alta a mensagem da organização da marcha, da primeira fileira até a última, um jogral em forma de onda.

por decisão judicial, a marcha da maconha foi considerada mais uma vez ilegal em são paulo, e mais uma vez a decisão saiu no começo da noite da sexta, sem dar chance para apelação. o honorabilíssimo desembargador teodoro cerilo mendez fernandez, espanhol gente fina condenado por espancamento em campos do jordão na década de 1990, declarou que a marcha era pretexto para fumarem em público fazendo apologia da droga ilegal. claro que não atentou para o fato, coitado, que discutir um assunto não é o mesmo que cometê-lo (ou falar sobre hitler é defender o nazismo?).

e, igualzinho a marcha 2010, o que era para ser uma chamada pública para colocar a questão da maconha no debate (alternativas ao proibicionismo, cultivo caseiro, etc.) teve que se transformar em uma manifestação pela, veja só, liberdade de expressão. quer dizer, uma democracia não é bem uma democracia quando um assunto não pode ser discutido, né não? porque essa história não é uma luta para que os maconheiros possam fumar o seu em paz, é muito mais do que isso, é uma tentativa de pensar em soluções para a violência urbana, o fim do tráfico de drogas, questões de saúde pública e também, obviamente, liberdade de expressão. as leis não são imutáveis, as sociedades também não, portanto viver numa sociedade democrática requer eterno diálogo, é casamento de todos com todos pra vida toda.

enfim, consequência prática dessa ilegalidade judiciária? entre os manifestantes não poderia haver nenhuma menção a maconha, nem nos cartazes nem em camisetas, e só assim a caravana poderia seguir. houve um acordo ali na hora entre o comando da polícia estadual (na figura do capitão benedito del vecchio) e a organização, e alguns jornalistas como ricardo galhardo (ig) foram testemunhas (video aqui). não haveria nenhuma menção visual a “erva maldita”, mas não teria como evitar palavras de ordem e coisa e tal. tudo certo e marcha seguiria por uma faixa pela paulista no sentido da avenida consolação até o centro da cidade. o relógio girava ali pelas 15h. pé na avenida, sol forte e bonito na cara.


o início da marcha na paulista, tudo ainda corria bem

achei estranho não ter nenhum policial nas laterais da marcha, mas tudo bem, melhor assim. outros também acharam e começaram a acender baseados. chegamos a convencer um grupo de jovens restarts a apagar o seu porque poderia ser pretexto para a polícia entrar. poucos passos na frente outros foram acesos e já não deu para controlar. foram também uma parca minoria e tenho certeza que isso não foi, e nem poderia ou deveria, ser motivo para o que aconteceu em seguida. certo mesmo é que depois de apenas dois quarteirões o comando da polícia militar do estado de são paulo decidiu que não queriam mais honrar o acordo e que, naquele momento, aquelas mil pessoas deveriam desobstruir a avenida por mal ou por mal.


a parte da frente da marcha, pouco antes
das primeiras bombas estourarem

estava na rabeira da marcha e vi quando começou. não houve provocação de nenhum tipo. houve apenas a decisão unilateral de acabar com aquilo do pior jeito possível. uma “bomba de efeito moral” estourou e a surpresa foi geral. como assim? jura? antes da próxima bomba explodir uma cena insólita e muito reveladora acontece: os neonazis aplaudem a brutalidade da polícia. não corro, fico meio em estado de choque, acreditando que foi só um “efeito moral”. mas novas bombas estouraram no cruzamento com a augusta junto com o bom e velho gás lacrimogêneo. logo depois foi a hora das balas de borracha, sempre na altura do peito ou do rosto, mas principalmente nas costas. e a confusão começou assim, democraticamente, com a polícia atirando pelas costas (nas costas!) de uma manifestação popular e pacífica.



não tô acreditando nisso! não deveria ser surpresa, claro, principalmente em se tratando de uma polícia que anualmente bate em professores, espanca estudantes, etc. só que ali, perplexo e no meio da ação, eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. era tudo muito gratuito. então, no cruzamento com a rua haddock lobo, próximo a igreja são luis, uma nova leva de bombas e gás fez com que eu me perdesse do mauricio, do giovanni e do cris (e o estilhaço de uma delas me acertou no peito, perto do pescoço, e soube depois que o giovanni também foi atingido). o choque estava apertando o passo, quase correndo, e chegando mais perto da marcha que, a essa altura, já tinha virado na consolação.

pouco antes dessas bombas estourarem vi um casal de adolescentes, estudantes do colégio são luis, na esquina da haddock lobo com a paulista. ela olhava meio fascinada para a tropa que avançava. não era admiração, era algo como “nossa, que real”. passei correndo por eles e segundos depois... estouros, ondas de choque se espalhando pelo ar, bem entre a gente. não vi mais nada depois. não sei se a realidade atingiu aquela moça como um meteoro, mas fiquei sabendo que muita gente que não tinha relação com nenhum dos lados da história recebeu sua dose de gás, susto e grosseria (motoristas parados, pedestres, famílias, crianças, fotojornalistas sempre no fogo cruzado, etc.)


souvenir de sábado

nessas também perdi a marcha. a polícia me ultrapassou no pique e rumou para o centro, pela consolação, atirando sempre, de tempos em tempos, aboiando a multidão para dispersá-la. pedro alexandre sanches cruzou o caminho com a marcha, agora marcha atlética, no começo da consolação e escreveu seu relato no texto “augusta, angélica e consolação”. e eu reencontrei mauricio ali pelo falecido cinema belas artes. continuamos descendo, junto com muitas outras pessoas que também ficaram para trás, para ver se alcançávamos o que sobrou daquela tarde.

tudo parecia mais rápido e ao longe a tropa seguia atirando, todos correndo. meio sem fôlego, boca seca, olhos ardendo, ficamos tentando entender o que podia ter dado errado, mas na maioria das vezes só falamos mesmo do quão canalha pode ser uma polícia como a de são paulo e o estado que permite que esse tipo de coisa aconteça. bruno torturra, da revista trip, que esteve na marcha de cabo a rabo e escreveu seu relato em “não somos conduzidos, conduzimos”, deu uma dica para esse clima repressivo na cidade: 25 das 31 subprefeituras são comandadas por coronéis da reserva (texto aqui do deputado estadual adriano diogo). ah, mas a polícia militar é do estado! pois é, mas a guarda civil metropolitana entrou na bagunça, como veremos adiante.

na altura do cemitério da consolação uma correria do nada fez com que eu me perdesse novamente do mauricio. alguns policiais estavam de moto empurrando, com a própria máquina e singelos chutões, os manifestantes para a calçada. dei uma corrida para ver se alcançava alguma coisa, mas acabei atravessando a avenida para comprar uma água no posto de gasolina. desanimado, perdido, com o peito ardendo e um pouco de sangue sujando a gola da camiseta, pensei se talvez não fosse hora de voltar para a casa. derrotado. como em 2010, só que pior.

não. vamos lá. desço agora pelo canteiro central da consolação e testemunho um outro motoqueiro policial chutando as pessoas para a calçada. pouco depois reencontro mauricio pela segunda vez. nada de giovanni e nem cris. chegamos a praça roosevelt toda cercada de tapumes e nem um sinal da manifestação, mas dezenas de motos, carros e soldados da polícia (alguns felizes, eufóricos mesmo), inclusive o tal motoqueiro chutador que acertou uns jornalistas e, para eles, deu a desculpa que estava sem freio.


cartum do francês wolinski, lembrado por @arnaldobranco

para onde todos foram? a dispersão deu tão certo assim? passamos pela biblioteca mário de andrade e chegamos na praça ramos, no teatro municipal. nada. nem sinal. não dava mais, cansado e frustrado decidi ir embora. mauricio também, ia resgatar o carro que tinha ficado no metrô vila madalena e do futuro imediato não sabia (um colega seu pesquisador, henrique carneiro, foi machucado na cabeça e ele conhecia vários dos organizadores da marcha, sendo que alguns tinham sido presos por distribuir o anti-proibicionista). o ônibus subiu a consolação e não era possível ver nenhum vestígio do que tinha acontecido por ali uma hora antes. a higienização repressiva comandada pela prefeitura e o estado de são paulo funciona como uma máquina bem azeitada. a rua pode estar um lixo, os pontos de ônibus em frangalhos, o asfalto cheio de buracos, o metrô insuficiente, não importa, o que interessa mesmo é que manifestações não existam ou não atrapalhem o trânsito do contribuinte (não somos todos?).

pra mim, por volta das 17h, tudo parecia perdido. “eles” conseguiram, mais uma vez. quando cheguei em casa descobri que o núcleo principal da marcha não tinha se dispersado, deu a volta no centro e subiu pela rua augusta rumo a delegacia de polícia nos jardins para onde tinham sido levados alguns detidos. aí a coisa ficou mais feia porque todos estavam mais próximos e a polícia militar decidiu usar cassetetes, chutes e spray de pimenta (e, o melhor, dando ordens para a guarda civil metropolitana ajudar na selvageria). o vídeo abaixo, feito pelo pessoal da folha, é o que melhor mostra o grau de selvageria gratuita da polícia do psdb. aliás, um parênteses para você que acha que é falta de maturidade política (ou coisa de petista) falar de psdb/dem/psd/tucanos numa hora dessas: você está redondamente enganado! só partidos isolacionistas e sabidamente arrogantes como o psdb - na mesma hora da bagunça na paulista, josé serra, em seu mundo parelo e bonito, puxava pra si a sardinha da beatificação da irmã dulce, veja só -, e que sofrem daquelas eternas dificuldades de diálogo com a sociedade civil e movimentos sociais, poderiam estimular e acobertar violências assim.



o pessoal que tomou porrada na rua augusta conseguiu chegar na delegacia de polícia dos jardins e, consequentemente, fechar a rua estados unidos. lá foram recebidos por policiais sem identificação, tática comum na ditadura, pois não? e por lá todos ficaram até que os detidos fossem liberados (foram recebidos por um coro de “maladragem dá um tempo”, e é importante que o bom humor sobreviva). pois é, anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar. não foi bem um apocalipse o que aconteceu em são paulo no sábado, 21 de maio. ninguém foi arrebatado. pelo menos não rumo ao juízo final.

acredito que quem esteve lá e não pode se manifestar ficou com um travo amargo na boca, uma vontade de ir à forra – tanto que foi marcado para o próximo sábado (dia 28, no mesmo masp, 14h) uma manifestação contra a violência policial. e quem não foi viu, ou deveria perceber logo, que seu cômodo baseadinho ilegal fumado em casa é assunto muito mais importante que as voltas do universo umbigo. é preciso discutir, é preciso tomar a rua (as marchas aconteceram muito bem em porto alegre, recife e rio de janeiro), porque fim do mundo mesmo é essa violenta falta de maturidade de nossas instituições – os cidadãos podem ser imaturos, como muitos de fato são, mas o estado e o judiciário não podem continuar cegos a demandas democráticas e legítimas da sociedade civil.


p.s.: fora os textos linkados no decorrer do relato, vale destacar ainda os ótimos trabalhos de camilo rocha, fausto salvadori e leonardo sakamoto, bem como análises sobre a proibição da marcha escrita por walter hupsel e sobre a violência policial assinada por paula miraglia.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

tucanocracia

no começo da noite de quinta, dia 13 de janeiro, logo depois de saber do que aconteceu no centro de são paulo, escrevi o seguinte no facebook: "parabéns prefeitura, polícia militar e estado de são paulo por dispersarem uma manifestação pacífica (quase exclusivamente de estudantes) contra o aumento da tarifa de ônibus com bombas, balas de borracha e spray de pimenta. é assim que se faz (quer dizer, é assim que o psdb faz). segundo @eduardosterzi: 'a pm não se contentou em prender manifestantes. também obrigou passantes a apagar fotos e vídeos'".

a noite foi correndo e o vírgula publicou uma extensa galeria de fotos, notícias e videos foram saindo aqui e ali, mas acho que esse video do @CarlosLatuff resume bem esse novo ato de violência da polícia/governo de são paulo. covardia, autoritarismo, arbitrariedade, truculência... quê mais?



mas @bferrari resumiu ainda mais, e numa tuitada: "fico impressionado como alguns policiais se tornam machos contra estudantes."