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sexta-feira, 24 de junho de 2011

yahoo #08

rádio, esse bicho estranho (pra mim). tentei inúmeras vezes gostar de alguma, desde minha adolescência quando gravava fitas k-7, mas a verdade é que minha curiosidade, a minha demanda pessoal, sempre foi maior que a oferta da grande maiorias das estações brasil afora (no meu caso, rio de janeiro, ribeirão preto e são paulo, porque era muito criança em fortaleza). a rádio no brasil dos dias de hoje foi o assunto da ultra pop #08 (agora, por lá, a mais recente, "jesus não tem dentes no país dos banguelas", tem uma pegada mais polêmica com religiosos intolerantes na mira).


netinho é ouvinte de rádio e não desiste nunca

RÁDIO: ENTRE O AMOR E O JABÁ

Já estava mais que na hora de falar de rádio, esse veículo de comunicação tão potente quanto subestimado (nas últimas décadas) no Brasil. Outros assuntos acabaram tomando à frente aqui na Ultra Pop, mas um texto no site Farofafá!, serviu de estímulo para a frequência modulada finalmente ecoar por essas bandas. Nele, o jornalista Eduardo Nunomura compilou as cinco músicas mais pedidas nas rádios mais populares de 9 grandes cidades brasileiras: Belém (Rádio Liberal), Fortaleza (Jangadeiro FM), Recife (Clube FM), Salvador (Itapoan FM), Belo Horizonte (BH FM), Rio de Janeiro (FM O Dia), São Paulo (Tupi FM), Curitiba (98 FM) e Porto Alegre (Cidade FM). Resolvi acrescentar Goiânia (Rádio Terra 104,3) porque senti falta de um representante do Centro-Oeste.

Mais um estímulo para análises e discussões, o texto de Nunomura é também o retrato de um momento no qual podemos ver que nossas rádios comerciais permanecem latifúndios para poucos gêneros e artistas.

Sertanejo e pagode dominam, terra devastada, sedimentando um caminho construído com altas granas pelas grandes gravadoras na década de 1990. O jovem Luan Santana – tema da coluna “Eu queria gostar Luan Santana” – simplesmente massacra, emplacando três músicas (“Amar não é pecado”, “Um beijo” e “A bússola”) em 9 das 10 cidades (apenas Salvador ficou de fora). Os veteranos do Exaltasamba - que, recentemente, anunciaram um recesso em 2012 após 25 anos de existência – colocaram três músicas em 6 cidades, incluindo uma inusitada parceria com o funkeiro Mr. Catra (o carioca esteve presente na coluna “Não tem papo, não tem alô”). Ainda na categoria destaque nacional pode anotar a presença incontornável da bela Paula Fernandes, enquanto o dueto de Joelma, da Banda Calypso, com Reginaldo Rossi é raio, estrela e luar nas capitais do Nordeste.



Agora, imagine... uma música muito tocada em uma rádio líder de audiência se espalha como fogo em mato seco pelo dial. E não adianta fugir. Você pode navegar por várias rádios o dia todo e só ouvirá cerca de 30 músicas, mudando apenas a ordem de sua execução. Mas será o gosto popular a razão desse monopólio? Ou o bom, velho e misterioso jabá que segue fazendo agrados em donos de rádios, programadores e DJs? Ou, mais provavelmente, um pouco dos dois?

Bem, sobre o gosto popular é preciso admitir que o amor, o romance e a dor-de-cotovelo são preferência nacional e não é de hoje (para quem não sabe, a primeira transmissão radiofônica no Brasil aconteceu em 7 de abril de 1922). Esse coração na ponta das chuteiras define muito bem a alma brasileira, mais até do que o humor, e não é a toa que Roberto Carlos é o Rei e suas canções são a nossa cara. E lá se vão artistas novos e velhos correndo atrás cantando suas próprias paixões, que são as mesmas de seu público. Assim o mundo gira.

Mas é o jabá, fenômeno mais falado que investigado, que explica melhor essa concentração absurda de poucos artistas no dial (e olha que nem toquei no assunto espinhoso que é o fato das rádios serem concessões públicas). É isso, é a velha ganância conhecida de todos: poucos querem ganhar muito e no máximo de tempo possível. Claro que artistas desejam chegar a seu público e, consequentemente, expandí-lo, porém toda essa relação viciada entre gravadoras, empresários, rádios e TVs colocou a música popular brasileira em um beco sem saída. Essa falta de diversidade vem criando uma desconfiança numa boa faixa do público, gente que acredita que não se faz mais música boa no país como antigamente, gente que confunde o que é veiculado em rádios e TVs com o que é produzido (e nem se dá o trabalho de ver/ouvir como existe coisa boa e atual na internet, a um clique de distância).

A sabedoria popular diz que a variedade é o tempero da vida. E eu acrescentaria, parafraseando o saudoso Itamar Assumpção, que tal se a gente sonhasse com o impossível? Uma rádio variada e para todos.


p.s.: e segue aqui, como material extra, a lista completa das 5 músicas mais tocadas nas rádios mais populares dessas dez praças.

Belém – Rádio Liberal
Luan Santana - Amar não é Pecado
AR 15 - Largo tudo
Jorge e Matheus - Chove, chove
Banda Calypso - Perdoa
Luan Santana - Um Beijo

Fortaleza - Jangadeiro FM
Paula Fernandes - Pássaro de fogo
Calypso & Reginaldo Rossi - Não posso negar que te amo
Regis Danese - Família
Luan Santana - Amar não é pecado
Ricky Valen - Sei lá

Recife - Clube FM
Ivete & Seu Jorge - Pensando em nós
Calypso & Reginaldo Rossi - Não posso negar que te amo
Luan Santana - A bússola
Luan Santana - Amar não é pecado
Exaltasamba & Mariana Rios - Viver sem ti

Salvador - Itapoan FM
Paula Fernandes - Pra você
Sorriso Maroto - Clichê
Exaltasamba & Mariana Rios - Viver sem ti
Calypso & Reginaldo Rossi - Não posso negar que te amo
Zezé & Luciano - Mentes tão bem

Goiânia - Rádio Terra FM 104,3
Cristiano Araújo e Jorge & Matheus - Efeitos
Eduardo Costa - Quem é
Bruno & Marrone - Essa droga de carinho
Luan Santana - Um beijo
Exaltasamba - Viver sem ti

Belo Horizonte - BH FM
Sorriso Maroto - Clichê
Luan Santana - Um beijo
Alexandre Pires - Sissi
Exaltasamba - Um minuto
Bruno e Marrone - Tentativas em vão

Rio de Janeiro - FM O Dia
Bom Gosto & Revelação - Pais e filhos
Sorriso Maroto - Clichê
Belo - Defeito meu
Luan Santana - Amar não é pecado
Exaltasamba - Não seria justo

São Paulo - Tupi FM
Luan Santana - Amar não é pecado
Paula Fernandes - Pra você
Victor & Léo - Água de oceano
Leonardo - Alucinação
Léo Magalhães - 24 horas

Curitiba 98 FM
Luan Santana - Amar não é pecado
Manu Gavassi - Planos impossíveis
Paula Fernandes - Pra você
Jorge e Mateus - Seu astral
Luan Santana - Um beijo

Porto Alegre - Cidade FM
Luan Santana - Amar não é pecado
Exaltasamba & Mr. Catra - A gente faz a festa
Grupo Revelação - Trilha do amor
Grupo Pixote - Recado das estrelas
Rodriguinho - Para de falar besteira

segunda-feira, 4 de abril de 2011

yahoo #02

taí o meu segundo texto pra coluna ultra pop, dessa vez sobre o fenômeno luan santana. o objetivo do texto é tentar entender e dar o devido valor a esse jovem artista que se fez pop dentro desse novo mundo do sertanejo brasileiro. ao mesmo tempo falar que ele (e seu universo) não ressoam no meu coração, simples assim. como não fiz um texto de amor, e muito menos de ódio a luan, o pessoal se confundiu todo e deu o maior chabu. mais de 300 comentários divididos entre os que odeiam e amam Luan (mas nada próximo ao caos da terceira coluna, "não tem papo, não tem alô", que trata do funk carioca).

microfone dentro de um coraçãozinho?
porra, luan, que pouca vergonha!

EU QUERIA GOSTAR DE LUAN SANTANA

No princípio era o verbo. Ou melhor, o nome próprio. Luan Santana. Ouvi falar dele em algum momento de 2009. Pouco depois, no final do mesmo ano, assistindo TV em um recanto do interior paulista, pude vê-lo e ouvi-lo. Eram aquelas propagandas de coletâneas da Som Livre repetidas a exaustão nas transmissões via satélite, e entre um “Paga pau” (Fernando & Sorocaba) e um “Chora, me liga” (João Bosco & Vinicius) despontava “Meteoro” de Luan, esse fenômeno pop nacional que completou 20 anos no domingo passado. “Você é raio de saudade / Meteoro da paixão”, gritava em alto e bom som para uma platéia de 80 e tantas mil pessoas na sua cidade natal, Campo Grande.

Na oitava vez que a propaganda foi exibida fechei os olhos. E aquela voz parecia o encontro jovem de Zezé de Camargo & Luciano com a Ana Carolina. O interior romântico de uns, o senso pop da outra. Não era a toa que a coletânea vendida se chamava Batidão Sertanejo. Os tempos agora são outros e até a dor de cotovelo precisa ser animada. Agora já pode tirar o pé do chão. De qualquer forma, do mesmo balaio de “Meteoro” vieram outros hits, tais como “Tô de cara”, “Você não sabe o que é o amor” e “Sinais”, ou ainda a surpreendente dobradinha reggae em “Aqui é Seu Lugar / Digitais”, e Luan Santana deixou o Gurizinho (seu primeiro nome artístico) definitivamente de lado.

De lá para cá, o garoto de cabelo cuidadosamente rebelde e levemente vesgo (ooops, estrábico) conquistou o campo e as grandes cidades, viu seu cachê por apresentação crescer até os atuais 300 mil reais (numa média de 25 shows por mês, faça as contas), comprou um jatinho pra chamar de seu (o Bicuço) e transformou-se em um artista-empresa que emprega mais de 60 funcionários. Mas acima de tudo isso, ou paralelamente, ele é o retrato da consolidação de um universo pop brasileiro autônomo ao eixo Rio-São Paulo (e que, audaciosamente, é subjugado como prova irrefutável da Vitória, tanto que o segundo DVD ao vivo de Luan foi gravado no final de 2010 no Rio de Janeiro e está prestes a ser lançado).

Também é um novo passo dentro da música sertaneja, e aí faço minhas as palavras de Timpin Pinto, que em seu blog Cabaré do Timpin, afirmou que Luan representa “um tempo em que a música sertaneja evoluiu para se tornar o novo ritmo consumido pela juventude”. E não adianta os ortodoxos torcerem o nariz, e muitos menos os jornalistas tentarem rotulá-lo sob o vago chapéu de “sertanejo universitário”. Luan Santana é pop, simplesmente, tão pop quanto Justin Bieber ou Lady Gaga. E é sertanejo também. Aceitem. Lidem com isso.

Queria gostar de Luan Santana. Não consigo. Talvez porque não seja seu público-alvo de mocinhas e crianças, que compram a música junto com cadernos e chicletes com seu rosto (licenciado oficialmente). Talvez porque a alegria não me atinja com a força de um meteoro e, consequentemente, não dê soquinhos no ar e faça coraçõezinhos com as mãos. Mas então, do nada, escuto uma voz que diz assim: “o jogo do amor recomeça e a vida te pergunta: aqui é o seu lugar?”. Não sei, estava pensando no Luan Santana. Queria gostar de sua música. Paciência.