Mostrando postagens com marcador rio de janeiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador rio de janeiro. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 6 de agosto de 2013

mexidão #24 e #31

entre inúmeros passaralhos e algumas novidades, o jornalismo brasileiro tem sido alvo de muitas e importantes discussões. tratei do assunto recentemente em duas colunas no yahoo. no final de junho entrevistei o colega bruno torturra sobre a mídia ninja e agora no início de agosto tratei das demissões que chegaram a editora abril (com direito a várias revistas fechadas como a bravo). resolvi reunir os dois textos aqui no esforçado e ainda acrescentei o programa roda viva, que foi ao ar ontem e entrevistou torturra e pablo capilé (fora do eixo).


JORNALISMO EM FOGO CRUZADO

São Paulo, 18 de junho de 2013. Duas horas após um grupo de alucinados tentarem invadir a Prefeitura de São Paulo, o Choque da PM do governador Geraldo Alckmin chegou ao centro da cidade e foi subindo até a Avenida Paulista expulsando todo mundo da rua com bombas e gás. Quando chegaram ao cruzamento da Paulista com a Rua da Consolação encontraram um painel da Coca Cola em chamas e o cercaram. Ninguém mais pode se aproximar a não ser dois catadores de latinha que fizeram a festa com os restos do painel-propaganda.

Belo Horizonte, 26 de junho de 2013. Dez minutos após a PM do governador Antônio Anastasia expulsar com bombas e gás centenas de manifestantes que estavam pacificamente na Praça 7 de Setembro, um trio elétrico aparece. Nada de Daniela Mercury ou Ivete Sangalo, e sim o Comandante Xuxa (sim, esse era seu nome) da PM mineira com o microfone na mão a falar que a polícia estava devolvendo a cidade às “pessoas de bem nesse momento histórico de resgate da democracia”.

Quem acompanhou ou está acompanhando as manifestações que tomaram o país neste junho pela mídia tradicional nem chegou perto dessas aparentemente pequenas, mas muito reveladoras, cenas brasileiras. Bem, pra falar a verdade, quem está acompanhando as manifestações pela mídia tradicional não está sabendo de muita coisa além de “pequeno grupo de vândalos” ou “a PM jogou bombas de efeito moral para conter a manifestação” e um bando de análises chutadas de especialistas que não tem a mínima ideia do que está acontecendo.

O pessoal da mídia Ninja também não sabe o que está acontecendo, mas eles estão cobrindo as manifestações em várias cidades com disposição, sangue frio e interesse, e tudo ali de muito perto da ação em transmissões ao vivo e sem cortes pela internet (vi as cenas descritas no alto do texto durante as transmissões). É, sem sombra de dúvida, o mais interessante acontecimento jornalístico desses novos tempos. Daí que fui conversar com o jornalista Bruno Torturra (@torturra), um dos idealizadores e linha de frente do Ninja, sobre a origem, os métodos e a assumida não-neutralidade da cobertura que estão fazendo dos protestos Brasil afora.

Belo Horizonte, 26.06.13 [foto: Mídia NINJA]

Você pode contar um pouco da história do surgimento (quando, como) da mídia Ninja e qual seu propósito. E quais outras coberturas importantes que vocês fizeram nesse período de existência.
O Ninja vem sendo pensado e articulado nos bastidores há alguns meses a partir da experiência da postv.org e de coberturas fotográficas pontuais que fizemos em rede. Antes de ser um veículo, começou como a tentativa de pensar e experimentar uma rede de jornalismo independente e descentralizada. Recentemente, no texto “O Ficaralho”, fizemos um chamado público para uma reunião aberta para a apresentação de um projeto e da criação de um banco de colaboradores. No dia da reunião [13 de junho], com mais de 300 confirmados, tivemos que adiá-la por conta do protesto do Passe Livre que terminou sendo o mais reprimido pela PM. Em vez de lançá-lo como um projeto, o Ninja acabou se lançando como um veículo na rua naquele dia. Outras coberturas importantes que fizemos: o Fórum Social Mundial na Tunísia, o julgamento dos acusados pelo assassinato de Zé Cláudio e Maria em Marabá. A cobertura de conflitos entre fazendeiros e povos indígenas no Mato Grosso. Os blocos de rua de SP e algumas cidades do Brasil. E incontáveis marchas e protestos pelo país.

Essas manifestações certamente estão sendo uma prova de fogo (tecnológica e conceitual) para vocês. O que estão aprendendo? Quais os acertos? Houve erros?
Aprendendo, como sempre, fazendo. A grande tecnologia Ninja é a recusa a dizer que "não vai dar". Todos os recursos, digitais e analógicos, podem ser utilizados para cobrir algo na rua. Os maiores acertos do ponto de vista técnico foram as construções e gambiarras cada vez mais portáteis e eficazes de transmissão de vídeo e fotos em tempo real. Do ponto de vista humano, a grande diferença é a disponibilidade 24hs dos envolvidos, a disposição de entrar no meio da ação e a base da articulação de colaboradores no país todo. Erros sempre acontecem. Desde deslizes técnicos a vacilos editoriais, comentários inadequados ou informações que poderiam ter sido melhor apuradas.

Você vê similaridade, na estrutura horizontal, entre a Ninja e movimentos sociais novos como o MPL?
Difícil responder por que não conheço bem o MPL por dentro. Talvez sim. Mas horizontalidade não é um conceito bem definido, nem homogêneo para nos compararmos com eles. Temos o maior respeito e admiração pela capacidade, maturidade e pelos argumentos do movimento passe livre. Mas, olhando de fora, vemos nosso trabalho mais como complementar, dentro de uma grande atualização dos processos políticos e de comunicação do que uma similaridade estrutural.

Já vi críticas à cobertura Ninja por sua “parcialidade”. O que você acha dessa crítica?
Entendo de onde vem a crítica, mas acho, no geral, um pouco equivocada. Nosso ponto de vista, nossa suposta parcialidade é, antes de tudo, assumida. Emitir uma opinião não pode significar, na era da rede, uma quebra da objetividade. Pelo contrário, cada vez mais ser subjetivo é ser objetivo também. Ser “neutro” diante de situações que consideramos injustas não é ser objetivo, é ser omisso. Mas me recuso a aceitar que somos tendenciosos. Basta ver nossa política de não edição. Transmitimos ao vivo, sem corte, direto da rua, dialogando e dando absoluta liberdade de expressão a todos os envolvidos nos protestos. Dos militantes de partidos, aos cidadãos de verde e amarelo, aos fascistas quase assumidos, aos policiais.

Qual sua avaliação pessoal desse momento no Brasil?
Antes de qualquer conclusão, acho que o mais importante nesse momento é a profunda ativação do pensamento político no país. Dos mais sofisticados pensadores ao mané mais despolitizado. O campo está aberto e todo mundo deu as caras na rua e na rede. É uma grande terapia coletiva ainda longe de acabar. Não me arrisco a grandes interpretações nesse ponto, mas sinto que é algo essencialmente bom. E que vai fortalecer, principalmente, os movimentos e organizações que trabalham causas e políticas quando a temperatura estava mais baixa.

Quantas pessoas estão envolvidas nas operações Ninja de cobertura das manifestações?

Difícil responder, já que pelo país muita gente está ajudando na cobertura colaborativamente. Mas existe um núcleo mais ativo em São Paulo e algumas capitais. Esse núcleo, que já estava trabalhando antes dos protestos começarem, e do Ninja ganhar tanta exposição, é de umas 10 ou 15 pessoas.

Belo Horizonte, 26.06.13 [foto: Mídia NINJA]

JORNALISMO TÁ MORTO?! TÁ NADA!

Pouco mais de dois anos atrás o jornalismo brasileiro começou a sofrer regulares ataques cardíacos. Também conhecidos como “passaralhos”, essas demissões em massa atingiram grandes empresas como as editoras Globo e Trip e os jornais Folha de S. Paulo e Estadão (do falecido Jornal da Tarde). Então, logo após a morte Roberto Civita em maio, o tsunami da crise chegou aos costados da Editora Abril. Em junho alguns executivos foram demitidos e entre ontem e hoje a tal “reestruturação” anunciada mostrou sua cara feia: foram encerradas as revistas Bravo, Alfa, Lola e Gloss, bem como os sites da revista Contigo e o abril.com.

As mais de 150 demissões previstas por esses dias alcançaram também as redações das revistas Info, Recreio, Contigo, Quatro Rodas, Viagem & Turismo, Placar, Men´s Health, Claudia e Veja, o portal M de Mulher e o site Bebê.com.

“A Abril encara esta fase como parte da evolução natural dos negócios e segue com a missão de difundir a informação, com excelência editorial, pioneirismo e integridade”, afirmou Fábio Barbosa, presidente da Abril S.A., em comunicado oficial & surreal. Claro que nem ele nem outros grandes executivos de empresas jornalísticas explicam como é possível ter excelência editorial com redações muito menores e profissionais sobrecarregados ou ganhando menos.

Precarizar a profissão jornalística é um caminho sem volta e quem perde mais com isso são justamente a credibilidade da informação e os leitores (esse caminho de mão dupla que é a essência do trabalho). Mas executivos não ligam para detalhes tão pequenos de nós todos e muito menos para os profissionais que estão na rua. Vivem de números, perdem aqui e ganham acolá, e bem podiam comandar a Comunicação de uma empresa farmacêutica ou o marketing de um banco, tanto faz.


Claro que existe uma crise no mercado e que ela tem atingido com mais contundência o jornalismo impresso que o televisivo, só que tantas demissões podem ser melhor explicadas por uma mistura de mau gerenciamento, soberba, investimentos errados, falta de visão estratégica, imediatismo e obsessão cega pelos anunciantes (Será que os anunciantes tão bajulados, e ocasionalmente intrometidos na linha editorial, continuarão juntos de um jornalismo cada vez mais raquítico?).

O jornalismo é maior que empresas jornalísticas e certamente sobreviverá a muitas delas. Para sorte de quem vive e ama a profissão, a boa notícia é que o jornalismo está se reinventando às próprias custas. Às vezes em coletivos independentes como a Pública – Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo, o Centro de Mídia Independente ou a Mídia Ninja e também dentro da grande imprensa por profissionais sérios e dedicados (de todas as gerações).

Vivemos também um momento no qual novas ferramentas jornalísticas estão disponíveis para todos, possibilitando que cada um crie seus próprios paradigmas de informação e comunicação (Não gosta da Folha? Não gosta da Mídia Ninja? Seja você mesmo sua mídia!). E isso é bom, caótico, transparente e renovador.

Tudo isso junto fará diferença para o futuro do jornalismo (além de pensar novas formas de negócio, obviamente) e não abraços simbólicos em homenagem a patrões.

p.s.: em 5 de agosto, o programa roda viva (tv cultura) entrevistou bruno torturra e pablo capilé sobre a mídia ninja.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

marcelo D2, o imparável

mais um perfil grande e bacana pra revista da gol, e dessa vez com marcelo D2, sujeito rapper que eu ainda não tinha entrevistado. conversamos por cerca de uma hora na loja temporária que abriu na galeria ouro fino, nos jardins, após as fotos tiradas por alex batista que ilustram o perfil. como todo bom carioca, D2 fala com desenvoltura, franqueza e humor, e fala de tudo. o resultado foge do papo manjado para lançar trabalho novo (no caso, o bom nada pode me parar) e tem uma parte que me interessou pessoalmente que é a sua visão sobre o passado, o presente e o futuro do rap brasileiro (e da sua contribuição nele). e aqui no esforçado, como sempre, uma versão um pouco maior da que foi impressa e com fotos que tirei durante o encontro.



LIBERDADE É PRA QUEM TEM

Comemorando 20 anos de carreira, e 15 do primeiro trabalho solo, Marcelo D2 lança Nada Pode Me Parar e em entrevista exclusiva fala sobre família, a volta do Planet Hemp e a boa fase do rap brasileiro

Rua Augusta, São Paulo, 4h20 da tarde. Marcelo D2 arruma o boné para cobrir o cabelo que está crescendo absolutamente fora de controle e já com vários fios brancos. Não aparenta 45 anos, principalmente vestido assim de bermuda e tênis, mas basta o fotógrafo pedir que se agache diante de um mural desenhado pelo amigo Flip para seus ossos reclamarem. Nessa hora o título do novo disco do rapper, Nada Pode Me Parar, faz um sentido todo especial e ele ri da situação.

De tempos em tempos a sessão de fotos é interrompida por fãs querendo levar uma lembrança, dar um abraço, fazer alguma piada, e D2 atende a todas e todos. Os tipos que o abordam são os mais diversos: de uma grávida a um jovem engravatado, passando por seguranças dentro de um carro-forte e um bêbado carregando um velocípede. Alguns o conhecem desde os tempos do Planet Hemp, mas uma boa parte já o acompanha na sua procura pela batida perfeita na mistura de rap com samba.

“Já vi que vai ter um monte de gente falando que o Nada Pode Me Parar é a minha volta ao rap, muito por causa do disco cantando Bezerra da Silva [lançado em 2010], mas eu nunca saí do rap! É engraçado isso porque pro rap eu sou do samba e pro samba eu sou do rap [risos]. A verdade é que o disco do Bezerra me deu confiança pra cantar e acabei me aprofundando bastante no samba, quero ir mais fundo até, mas sou do rap e queria que esse fosse um disco de rap”, diz sobre seu sexto trabalho com inéditas exatos 15 anos após sua estreia solo em Eu Tiro é Onda.

D2 está em São Paulo para lançar uma loja temporária com roupas de sua marca Manifesto 33 1/3 (até então vendida apenas em estabelecimentos multimarcas), shapes de skate, isqueiros, copos americanos, fones de ouvido, bonés e outros produtos relacionados ao seu novo disco (sua ideia é levar a loja junto com a turnê no segundo semestre). A abertura acontecerá em dois dias e já está quase tudo pronto, com direito a neon na parede (“Cara, acho que só montei essa loja por causa do neon! Sempre quis ter um neon!”, confessa e gargalha). Após a segunda e última rodada de fotos para ilustrar esta reportagem ele pode então se esparramar no sofá, abrir uma cerveja e falar tranquilamente.


“O título do disco veio de uma lembrança de quando morava numa kitchenette no Catete com o Skunk [um dos fundadores do Planet Hemp, morto precocemente em 1994]. Tinha uma frase pixada no quarto... ‘Eu já caí no chão só que me levantei / Eu faço meu sistema, / Eu dito a minha lei! / Nada pode me parar’, que é um dos versos de um rap do Thaíde & DJ Hum. Era um hino pra gente. Algumas pessoas ficaram incomodadas com o título, mas eu adoro porque acho que tem aquela arrogância boa do rap”, e de vez em quando D2 olha para a TV da loja, no qual são exibidos os clipes que a cineasta Gandja Monteiro fez para todas as 15 faixas do disco.

No telão aparecem cenas de D2 em Nova York, Amsterdam, Los Angeles, Rio de Janeiro, Recife e Luanda, um pouco da grande jornada global que foi a gravação de Nada Pode Me Parar. “Foi com certeza o disco mais longo da minha carreira. Comecei no carnaval de 2011 em Florianópolis e o processo todo levou um ano e pouquinho. Ser um disco assim road movie aconteceu naturalmente porque fui gravando em lugares onde estava indo ou que achava interessante fazer algo”.

Entre escolhas e oportunidades internacionais, o carioca gravou “Na Veia” com banda completa no lendário estúdio Electric Lady criado por Jimi Hendrix em Nova York, convidou os espanhóis do Cooking Soul (que já trabalharam com Jay-Z e Kanye West) para produzir “MD2”, conheceu o cantor Aloe Blacc que acabou participando de “Danger Zone”, e registrou “Vou Por Aí” com o amigo Mário Caldato Jr. (Beastie Boys) em Los Angeles por causa do livro On The Road de Jack Kerouac. Ainda contou com as presenças do trio californiano Pac Div e da cantora nova-iorquina Joya Bravo.

No Brasil, com exceção do amigo de longa data DJ Nuts, o rapper acabou se cercando mais uma vez de uma nova geração: Nave, Renan Saman e os conterrâneos Papatinho e Batoré (ConeCrew), Akira Presidente e Hélio Bentes (Ponto de Equilíbrio). E, claro, o filho mais velho Stephan, cada vez mais atuante. “Me sinto renovado trabalhando com eles, parece que sou eu dez anos atrás. Eles tem o gás que acho necessário e importante pro disco e pra mim”.

O exemplo de Nave é revelador desse bom trânsito que D2 tem entre gerações. O curitibano tinha 22 anos em 2005 e estava começando a produzir bases quando recebeu a ligação do já popstar rapper carioca. “Não acreditei na hora, achei que era trote, mas era ele mesmo e foi louco porque ele e o Planet Hemp foram a minha maior influência em termos de rap brasileiro”, relembra Nave. Hoje, três discos e 11 parcerias depois [quatro neste Nada Pode Me Parar], diz que D2 “alcançou um nível de amadurecimento artístico, um equilíbrio entre simplicidade e sofisticação, que qualquer um reconhece e sabe o que ele está fazendo, desde a minha tia até um criança de 7 anos”.


Voltando ao Nada Pode Me Parar, se o processo de gravação foi repleto de milhagens, novos e velhos amigos, a pós-produção reservou algumas surpresas. “Pra lançar o disco acabou demorando mais um ano porque tive problemas com samples [trechos de músicas]. Acabei tirando muita coisa porque não consegui autorização. Esse foi o lado ruim. O bom da demora foram os shows do Planet Hemp”, e lembra que a banda, celebrando duas décadas de seu surgimento, ainda fará dois ou três shows esse ano. De certo mesmo um no Central Park, em Nova York, e outro no Festival Lollapalooza, em Chicago.

“Posso te listar umas dez coisas legais dessa volta, mas o mais legal mesmo foi a gente voltar a se falar. Colocou as coisas em seus devidos lugares. Sei agora o que é do Planet Hemp e o que é do meu trabalho solo. As coisas ficaram mais claras pra mim. E foi revigorante tocar Planet depois de dez anos parado, foi f***, foi demais!”, e mata, em um gole só, o resto da cerveja e pede licença. “Cara, preciso ir ali no banheiro se não vou começar a responder rapidão tipo ‘sim’, ‘não’, ‘pode ser’, ‘com certeza’ [risos]”.


Volta então aliviado e propõe mais uma rodada de saideira. “Aproveito mais hoje em dia que antigamente. Tenho mais de 40 anos, quatro filhos – Stephan (21), Lourdes (13), Luca (11) e Maria Joana (8) – , estou casado há 13 anos, não dá mais pra ser aquela coisa doidona do tempo do Planet Hemp. A família me ajudou nisso também. Sempre fui um pai carinhoso, mas não era presente. Nunca fiz com o Stephan o que faço com os mais novos de acordar zumbi às 6 da manhã pra levar na escola. Nos últimos anos, finalmente, me tornei um pai de verdade”.

Para melhorar ainda mais o humor de D2, o ótimo momento pessoal vive em harmonia com a cidade que tanto ama e que é cantada em rimas e beats em “Rio”, uma das faixas de Nada Pode Me Parar. “Sem hipocrisia nenhuma... hoje tenho dinheiro, moro bem, então a cidade está boa pra mim [risos], mas percebi que o carioca voltou a gostar muito da cidade. Não gosto de elogiar ninguém, sou contra tudo e contra todos, mas acho que a política de segurança tem sido feita de uma forma interessante... porra, o Rio voltou a ter carnaval de rua, que é demais, um monte de gente bonita na rua e não precisa comprar abadá pra participar... tenho gostado da cidade, mas é também outro momento meu nela”.


Positivo e operante na cultura hip hop há 20 anos, D2 tem ainda acompanhado com curiosidade e interesse a renovação do rap nacional, além de ter ideias bem claras de alguém quem está por dentro dessa história toda. “Acho que o rap demorou pra se renovar no Brasil. Teve uma década ou até mais que todo mundo só queria ser Racionais, sem ser culpa deles, lógico. Racionais é Racionais, é bom pra c******, mas eles são eles. Nessa época estava fazendo outra coisa, mas aquilo me incomodava pra caramba, parecia uma igreja”.

O que D2 está falando, entre um gole e outro, é da liberdade que o hip hop, e consequentemente o rap, contém em sua essência e que não pode e nem deve ser parada por nada neste mundo. “O rap é uma música urbana que se apropria das outras, não pode ser puro, não pode ter uma cara só, e esses moleques novos tem essa liberdade de fazer a sua parada, cada um no seu papel. Tem a loucura da ConeCrew, a sabedoria do Emicida, a vontade de experimentar do Criolo, e por aí vai”. Mas, modéstia às favas, sabe que contribuiu e muito para esse estado das coisas.

“Hoje em dia essa mistura de rap com samba tá mais atual que na época que comecei a fazer, quinze anos atrás. Sinceramente não vejo como o rap brasileiro possa ser uma música respeitada sem usar elementos brasileiros. Isso é uma coisa. Só que acho que o rap ainda é turminha... gostaria muito ver minha tia ouvindo rap, por exemplo... quer dizer, ainda tem um caminho longo para o rap ser popular como um Zeca Pagodinho, mas hoje vejo o caminho mais aberto”, e mata a terceira cerveja, hora de ir embora. Em entrevista por telefone, Pagodinho retribui a gentileza: “Temos a mesma levada de partideiro, essa coisa da rima e do improviso. Ele tem carisma, é inteligente, e fala a nossa língua, fala da nossa realidade e denuncia através das músicas dele coisas que muita gente não sabe”.

O dia seguinte reserva ao rapper-partideiro alguns móveis para arrastar, quadros para pregar e, talvez, uma festa. Sorri com a lembrança dessa agenda. “Quando ficar maduro a gente volta a falar sobre essa parada da maturidade”.





BOX - D2, um bom driblador

Apaixonado por futebol e flamenguista doente, Marcelo D2 já fez até rap homenageando o ex-jogador Ronaldo Fenômeno (“Sou Ronaldo”), atual membro do comitê organizador da Copa do Mundo FIFA de 2014. Sobre o evento e a Copa das Confederações, que começa agora em junho, tem uma posição bastante clara e realista. “O que você prefere? 100 % de nada ou 50 % de alguma coisa? A Copa é meio isso. Acho que vai ser uma coisa importante pra caramba pro brasileiro e o brasileiro gosta de se sentir importante. A gente tá num momento f***, todo mundo viajando, o dinheiro tá forte, a autoestima tá boa, e acho que a Copa veio num momento perfeito com o Brasil tentado se arrumar. E cada um que se vire com isso. Quer fingir que não tá sendo enganado e continuar ficar assistindo sua TV de plasma? Fica aí. Quer fazer disso uma oportunidade e crescer realmente? Taí também. Acho que a gente vive um bom momento. Tem coisa pra consertar? Pra c******! Por isso que digo que o Brasil é um país ótimo pra fazer rap. Quer mais assunto pra rapper do que aqui?”, afirma.

segunda-feira, 11 de março de 2013

naldo ou naldo benny, pra mim tanto faz

após uma entrevista com lia sophia e uma breve reportagem sobre a série "cidades ilustradas" na edição de fevereiro da revista da gol, fiz agora pra de março um longo perfil do cantor naldo (naldo benny). a entrevista aconteceu na tarde da sexta de carnaval lá na fundição progresso, no rio de janeiro, e a noite fui ver um show seu no clube monte líbano, na lagoa rodrigo de freitas. pessoalmente não gosto do som dele, acho que falta uma sujeira aqui e ali, mas é impressionante ver o tanto que o cara deu duro, além de ser trabalhador, obstinado e sério, até colher os frutos, os muitos frutos, nesse seu momento de sucesso (e ainda é gente boa). como sempre, a versão no esforçado é maior que a publicada, mas tenho que agradecer a thiago lotufo, que tanto me chamou pra fazer o perfil como fez uma ótima edição. ah, e as fotos que tirei foram feitas durante o trabalho do marcelo corrêa, autor dos retratos do cantor que estampam a revista.



E ELE QUER MAIS

Sucesso absoluto do verão com músicas como “Amor de Chocolate”, o carioca Naldo, agora Naldo Benny, prepara-se para dominar o mundo com sua mistura de funk, pop e calor da noite

O sorriso de Naldo chega antes de seu próprio dono e motivos não lhe faltam. É o seu cartão de visitas, sua bandeira, a música que faz e, de um ano para cá, seu estrondoso sucesso. Neste verão foi simplesmente impossível andar em qualquer cidade brasileira sem ouvi-lo cantar “uísque ou água de coco, pra mim tanto faz”. De postos de gasolina a coberturas, de bailes de debutantes no interior a barracas de praia, tanto faz. E o carioca diz que isso é só começo, que tem muito chão pela frente e muita coisa para acontecer.

Quando a reportagem da Gol encontrou com o cantor, na tarde da sexta-feira de carnaval, ele estava voltando de Salvador e nos dias seguintes iria encarar um novo batidão de shows (de 2 a 4 por noite e às vezes em cidades e estados diferentes), encontrar com Will Smith e Kanye West no Rio de Janeiro, e participar de um arrastão com Ivete Sangalo e Gaby Amarantos, novamente em Salvador. E o sorrisão lá, fácil, grande, querendo mais.

Mas antes da conversa, a sessão de fotos. O palco da vez é a Fundição Progresso, lugar que frequentou quando fez aulas de movimentos de solo no espaço da Intrépida Trupe. Cuidadoso com a aparência e muito consciente de seus movimentos, o garoto que nasceu em Bonsucesso e cresceu no Complexo da Maré sabe como e de que jeito quer aparecer. Adora usar tênis, por exemplo. É seu objeto de consumo preferido e contabiliza cerca de 350 pares em casa, todos impecáveis. “Uso, chego em casa, limpo e guardo”, diz enquanto pega emprestado o tênis de seu produtor, Thiago Rodrigues, pois justamente naquele dia calçava uma sapatilha. No entanto, antes de colocar no pé não resiste e acaba dando uma esfregadinha. “Eu já gosto de tênis marcado”, diz o produtor se divertindo com a mania de Naldo.



Enquanto as fotos são feitas nos inúmeros cenários possíveis da Fundição chega Rique Silva, produtor geral e irmão do cantor, com mais alguns acessórios. Quatro anos mais novo, Rique começou a trabalhar ainda no tempo de Naldo & Lula, e a dupla já fazia algum sucesso no Rio de Janeiro quando, em 2008, Lula foi assassinado. Nascido Jorge Luiz da Silva, Lula era dois anos mais novo que Naldo e outros dois mais velho que Rique, bem irmão do meio mesmo, e sempre foi considerado o mais brincalhão da família. 

Os dois cantavam juntos desde os 15 anos e ambos começaram, ainda crianças, na Assembleia de Deus que os pais sempre frequentaram. O gosto por black music e os ídolos eternos Stevie Wonder e Michael Jackson também os uniam, mas foi pelo funk carioca, ritmo mais próximo e acessível, que entraram na música. Só que não queriam cantar “proibidões” (funks feitos para facções criminosas) e sabiam que podiam colocar sensualidade em suas letras sem apelar para vulgaridade. Restava procurar qual caminho e trabalhar duro em busca de uma carreira e não apenas uma música de sucesso.

A sorte dos irmãos mudou quando em 2005 a música “Tá Surdo” entrou numa das disputadas coletâneas do veterano DJ Marlboro. Daí surgiram convites para TV, elogios de Ivete Sangalo, clipes e shows, muitos shows, principalmente no Rio de Janeiro. Naldo, que quase desistiu da carreira após a tragédia, chama hoje o irmão de “meu anjo bom”.

“A gente tem uma base familiar muito forte, nossos pais sempre nos mantiveram unidos, e tem a nossa fé também. Acho que essas são algumas razões do sucesso do Naldo. E tem essa roupagem nova que ele deu ao funk, mais puxada para o pop. Quer dizer, nós sempre buscamos o sucesso, mas nunca imaginei que fosse acontecer desse jeito. Assusta um pouco”, explica Rique. 



A tal roupagem nova a que se refere o irmão-produtor ganhou contornos mais claros quando Na Veia, a estreia solo de Naldo, foi lançado de forma independente em 2009 como uma espécie de homenagem ao irmão. O disco trouxe material que vinha sendo trabalhado desde os tempos da dupla, mas de um jeito mais eletrônico e festeiro. E quando começaram os shows houve bastante investimento na dança e em coreografias, uma sugestão de Lula para incrementar o espetáculo. “O gancho dele é o de ser um romântico tipo Buchecha, machão tipo MC Leozinho, e meio ostentador estilo gangsta rap. Nessa pegada do romantismo acho que ele acaba fazendo uma mistura com o pagode mais romântico e o sertanejo. Ou seja, joga num campo que tem muitos admiradores”, explica o jornalista Pedro Alexandre Sanches sobre as variadas misturas do cantor.

As fotos acabam e é hora de Naldo falar. Sempre acompanhado da namorada Ellen Cardoso, a Mulher Moranguinho, ele não aparenta nenhum sinal de cansaço. “Sempre tive certeza que quando meu trabalho conseguisse chegar até o povo, o sucesso aconteceria. Sempre fui muito dedicado, trabalhei muito e sou completamente alucinado pelo palco e pela música. Acho que isso é que não me faz me deslumbrar. Estou sempre pensando no trabalho e em como melhorá-lo”, diz o novo popstar brasileiro que já foi ajudante de feirante, engraxate e segurança de supermercado.

Como disse o irmão Rique logo acima, a coesão familiar teve um papel fundamental nessa perseguição determinada de Naldo pelo sonho de uma carreira musical. A mãe Ivonete vendia produtos cosméticos pra ajudar a pagar seus estudos de canto, as irmãs tomavam conta de Pablo, o filho de 15 anos do cantor resultado de um namorico adolescente, e o pai Manoel, soldador elétrico, lhe dava conselhos que traz até hoje no coração. 

“Ele me disse uma vez que ‘em pelo menos uma coisa na vida se você não for o melhor tem que tentar ser’. Já dá minha mãe trouxe a fé em Deus para o meu dia-a-dia. E dos dois, o respeito e o carinho pelo próximo. Independente do sucesso, carrego dentro de mim esse respeito pelo ser humano”, e nessa hora Naldo lembra quando ganhou o DVD de Ouro (25 mil cópias) pelo Na Veia Tour em janeiro deste ano. Antes de entrar no palco do Citibank Hall, no Rio de Janeiro, sua mãe lhe puxou de canto e disse, com os olhos cheios de lágrimas, que sempre acreditou nele. Pausa para recuperar o fôlego.

“Ah, tenho orgulho mesmo”, diz Dona Ivonete ao telefone. “Ele sempre foi muito honesto, muito trabalhador, e sempre buscou esse sonho com aquele sorrisão bonito. Agorinha mesmo estava fazendo unha na varanda e começou a tocar na vizinha uma música do Naldo & Lula... [e começa a cantarolar] ‘Não sei se sou / O cara que você sonhou / Você precisa acreditar / Não gosto de te ver chorar’... fiquei emocionada. Gosto das músicas também, viu? Só tem umas letras que eu mudaria um pouquinho”, e ri timidamente. Está falando de “Exagerado”, mais especificamente do verso “Falar besteiras no ouvido até você gozar”. Ela trocaria facilmente a última palavra por “pirar” e quando Naldo canta a música na TV ele faz o mesmo.



“Pra minha família nunca houve problema entre as letras mais quentes e a religião. Eles sempre entenderam isso. Sabe que até mostrei minhas músicas para um pastor da minha igreja? Ele disse que não tinha nada de mais, que amor é coisa de Deus”, explica Naldo. Entre as músicas mais “quentes” de seu repertório estão “Exagerado”, “Amor de Chocolate”, “Chantilly” e “Sem Sutiã”, mas também existe espaço para o romantismo de “Meu Corpo Quer Você” (música que, em dueto com Preta Gil, entrou na trilha da novela Salve Jorge).

Só que entre esses dois pólos, a dança acaba aumentando ainda mais o calor das letras (inclusive das românticas). “Quero falar de amor sim, mas também de coisas que rolam na noite e entre quatro paredes. Hoje tenho mais liberdade e quero colocar músicas mais românticas no CD e DVD que lançarei no meio do ano. Mas pra pista não tem jeito, tem que fazer algo mais quente, mais pesado”, confessa. 

Seu próximo trabalho se chamará Benny e será o primeiro assinado por Naldo Benny, seu novo nome artístico pensado para o mercado internacional. Nesse caminho já deu outros dois passos: uma versão em espanhol de “Exagerado” e a participação do rapper norte-americano Fat Joe em “Se Joga”. “Hoje consigo brincar com os universos do funk e do pop. E isso é um som para o mundo. Li que ‘Benny’ em hebraico quer dizer justo, bendito, abençoado, e achei que tinha tudo a ver com essa história mais moderna”, e os olhos brilham ao falar que se programou este ano para três viagens aos Estados Unidos. Em duas se apresentará e em outra conhecerá, via o novo amigo Fat Joe, Chris Brown e Snoop Dogg. O sonho de parcerias com alguns de seus maiores ídolos está cada vez mais próximo.

Logo ali ao lado, por toda Lapa e Rio de Janeiro, o carnaval pega fogo e Naldo tem dois shows à noite. O segundo, com banda e dançarinos, é em um clube tradicional na Lagoa Rodrigo de Freitas, o público previsto é de 4 mil pessoas e os ingressos estão esgotados. “Nunca tive medo de nada. Eu quero o Grammy, a carreira internacional, e vou conseguir. Sei que vai ser trabalhoso e exigir muito de mim. Mas não tenho medo não.” Will Smith que o diga, afinal, dias depois, presenciou Naldo ser adorado e cantado histericamente por centenas de fãs que nem deram bola para o astro norte-americano.

Agora, se Naldo não tem medo de tamanha ousadia internacional obviamente não temeria esse seu público novo de classe média alta e seus cercadinhos VIP. Então, quando sobe ao palco, trata logo de hipnotizar a todos com sua eletricidade e uma saraivada de hits. Mas também faz questão de bater no peito suas origens e canta alto um hino para muitos brasileiros como ele: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci”. Em seu caso, com um Grammy à tiracolo.



p.s.: abaixo, o texto nas sete páginas da revista.





quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

yahoo #61

bateu uma nostalgia lá no yahoo e acabei fazendo, sem querer, um texto que dialogava com o anterior sobre o longa o som ao redor, afinal a morte do cinema de rua tem muito a ver com o tal medo da classe média do resto do brasil. de qualquer forma, ninguém deu a mínima pelota, então o lance é bola pro mato que o jogo é de campeonato (e está no ar "música popular de cavalgar").




SAUDADE DE CINEMA DE RUA

Os primeiros filmes que vi foram em cinemas de rua, mais precisamente no Centro de Fortaleza. Dá-lhe E.T. – O Extraterrestre, Superman III, Loucademia de Polícia e Trapalhões, muitos Trapalhões. O São Luís ainda existe, mas outros como o Diogo passaram dessa pra pior (shoppings, igrejas ou a pura e simples demolição). Depois vieram os do Rio de Janeiro. Vários na Praça Saens Peña, perto de onde morava, outros tantos no Centro e alguns poucos na Zona Sul. E tome Guerreiros de Fogo, Remo – Desarmando e Perigoso, Por Incrível que Pareça, Ran e Brás Cubas. Depois ainda vieram Ribeirão Preto, Campinas e, finalmente, São Paulo. Muitos e muitos filmes em cinemas de rua, sempre.

Tinha algo de mágico nesse movimento de sair da realidade (a cidade) para entrar na fantasia (o cinema) e depois voltar com uma montanha de imagens e assuntos na cabeça. Sempre achei que cinema, literatura, quadrinhos, música, cultura de uma forma geral, fazem a gente viver mais ou, pelo menos, ter mais experiências, conhecimentos e paixões. Cultura fica na gente, por baixo da pele, nos olhos. E os cinemas de rua fazem com que essas sensações se relacionem com a cidade. Mas lá pelo final dos anos 1980 os shoppings começaram a ganhar terreno.

Primeiro como modernidade e status provinciano, e depois como refúgio de classes médias e elites contra uma cidade que lhes parecia cada vez mais assustadora (é o medo do outro, do diferente, do Brasil, como se pode ver no longa O Som ao Redor, assunto que tratei em “Nem todos estão surdos”). Daí que os cinemas de rua foram sendo abandonados em nome de uma bolha de segurança e vitimados pela sempre esperta especulação imobiliária.


Mas não adianta chorar pelo fotograma derramado, pois os cinemas de shopping vieram pra ficar e ficou muito caro manter um cinema de rua. Talvez se houvessem incentivos públicos como isenção de IPTU, a coisa melhorasse um pouco, afinal qualquer equipamento cultural acaba movimentando a região que o cerca e isso é ótimo pra cidade.

No entanto tive sensações conflitantes quando soube que Juca Ferreira, Secretário de Cultura da nova gestão da Prefeitura de São Paulo, planeja comprar o prédio do falecido Cine Belas Artes (esquina da Consolação com a Paulista) para transformá-lo em centro cultural. Quer dizer, todo novo centro cultural é bem vindo, onde quer que seja, e a região agradeceria – bem como os que vivem, trabalham ou passam por ela – que lhe dessem uma chance contra a degradação urbana.

Por outro lado, o Belas Artes não tem nada de especial, a não ser, claro, a relação afetiva com seu frequentadores. Mas prédios também possuem seu ciclo de vida, é normal. Então, não seria o caso de usar esse dinheiro para criar equipamentos culturais em áreas menos favorecidas, como sugere Raul Juste Lores em “O elitismo da ‘compra’ do Belas Artes”? Ou que se pensem em políticas culturais melhores e mais abrangentes como diz Ricardo Queiroz em “A polêmica do Belas Artes”?

De uma forma ou de outra tem que ter pipoqueiro, boteco perto, esses gêneros de primeira necessidade de uma cidade feliz.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

3 do rio

2012 chegando ao fim, novas listas de melhores do ano sendo cozidas, mas enquanto o mundo não acabar os discos não param de sair. agorinha então vieram à luz três novidades vindas do rio de janeiro, duas da cidade e uma do interior de aço (volta redonda). 


...

começamos então com o afrobeat carioca da abayomy afrobeat orquestra e o disco de estreia que leva seu próprio nome. a produção é de andré abujamra e a homenagem ao ritmo criado pelo mestre fela kuti é muito mais respeitosa e fiel que a do bixiga 70 (no entanto, os paulistanos ganham em originalidade no diálogo áfrica X brasil). disco bom, dançante, afro-brasileiro na veia, e ainda traz um cover da potente e felakutiana “no shit”.


...

a estreia solo de alvinho lancellotti, filho do compositor ivor lancellotti e irmão de domenico, veio no tempo certo, devidamente maturada após as ótimas experiências na banda fino coletivo (dos discos fino coletivo, de 2007, e copacabana, de 2010). o tempo faz a gente ter esses encantos, em dowload gratuito, é daqueles discos que mostram como é bonito ouvir um samba atual, respeitoso no pé na porta das tradições. o samba precisa muito desses movimentos para levar em frente o estandarte do gênero que fundou o brasil. e na estreia de alvinho, bom cantor e compositor de tudo, tem delícias absolutas como “alegria da gente”, “são tomé”, “vidigal”, “autoajuda” e “é de mamãe”, além das belezas de “meu bloco do amor” e “vazio”.


...

fechando esta seleção, o pessoal do amplexos, que acabou de lançar seu segundo disco, a música da alma. esse sexteto de volta redonda assume logo que a influência principal é a música negra,  “aquela que vem dos guetos e periferias do mundo” (leia-se afrobeat, ska, dub, funk, reggae), mas tem um tanto de rocks e psicodelias no caldeirão das dez faixas do disco (e, olha, senti um lance picassosfalsos em algumas... pode ser viagem). de qualquer forma, em qualquer som, desejam ainda tratar nas músicas de grandes e pequenos temas e a sinceridade desse engajamento tanto faz parte do projeto quanto tocar muito bem e com balanço. nasceram assim – tudo da cabeça de eduardo “guga” valiante, também cantor e um dos guitarristas – músicas ótimas como “sim”, “falsa salsa”, “mistério”, “o homem”, “boladão”, “leão” e “making love”.


p.s.: ah, o amplexos lançou um minidoc com os bastidores da produção do disco, que, aliás, tem produção de buguinha dub e está disponível para download gratuito. e foi um dos participantes do tributo ao raça negra (jeito felindie) com uma ótima versão de “quando te encontrei”.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

sonhos legais e ilegais

e os clipes nacionais não param de ser lançados. rolando um boom daqueles. e nessa terça, 24 de julho, saíram três ao mesmo tempo. “pra sonhar” é do disco de estreia de marcelo jeneci, de 2010 portanto, mas só veio à tona agora em forma colaborativa com um chamado na internet por imagens de casamento. o resultado é emocionante, música e clipe feitos na medida para fazer qualquer ouvinte-espectador beijar a lona diante de tamanha fofice.


daí vem felipe cordeiro com seu “legal e ilegal”, música de seu disco de estreia, kitsch pop cult (ná music), que foi lançado de forma independente no ano passado, mas tá ganhando mais divulgação por agora mesmo. a música é divertidíssima, tem uma letra tremendamente atual, e o clipe dirigido por brunno regis e carolina matos – com produção executiva de priscilla brasil – ficou a altura. sem falar nas participações de dona onete, manoel cordeiro (guitarrista pai de felipe), keila gentil (gang do eletro) e andré abujamra, o produtor do disco.


finalizando esse post, uma música-clipe novinho em folha. “alteração (éa!)” é do discaço sintoniza lá (coqueiro verde), o segundo e muy esperado disco de bnegão & os seletores de frequência, e ganhou esse clipe com cara de curta esperto dirigido por emílio domingos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

blackberry, o clipe

que puxa, coloquei "samba do blackberry" da banda tono na penúltima coluna do yahoo ("o país da internet moleque") e agora me sai o clipe?! bem divertido, aliás, e com participações especiais de domenico e arto lindsay, dos que reconheci. e dá pra baixar a música gratuitamente aqui.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

na cena do crime (brazilian style)

muito boa essa série csi: nova iguaçu produzida pelo pessoal do anões em chamas em parceria com o kibe louco. rápida, muito bem filmada (e fotografada e editada), profundamente carioca e com alguns finais sensacionais ('oxossi' e 'suicídio doloso' são as melhores tiradas, você verão), essa csi da baixada fluminense acompanha uma dupla de policiais em seu cotidiano de investigações (sempre com o mesmo morto). curioso ver que o primeiro episódio (28.07.11) é um pouco diferente, tem outro ator e é bem menos bom (para não dizer fraco mesmo, ooops, disse). com a entrada de antônio "kibe louco" tabet como um dos policiais no segundo episódio (22.09.11), a série rapidamente tomou uma forma mais interessante. colocarei aqui tudo que saiu, o sétimo acabou de ser lançado, e atualizarei conforme novidades aparecerem.















quinta-feira, 25 de agosto de 2011

rei momo dos sete mares

desde que ouvi marcelo "momo" frota pela primeira vez - mais ou menos na época que o carioca-mineiro estava lançando seu segundo disco, buscador, e participando do fino coletivo - me surpreendeu a densidade melancólica de suas músicas, todas tristes de doer. esqueçam pulinhos, piadas e raios solares porque o lance aqui é cantar a solidão, a busca, o amor, o silêncio, o mar e outras ondas. mas não pense que por causa disso a música é pesada ou, pior ainda, resultado de alguma pose calculada. sincero e com o coração na ponta das notas, o sujeito está lançando seu terceiro disco, serenade of a sailor (pimba noises, 2011), e já conseguiu reservar seu lugarzinho entre os melhores do ano. o disco é tão bonito que até minha habitual reserva quanto a músicas nacionais com letras em inglês desceu pelo cano. agora, se você achar que eu estou exagerando dê uma ouvida no disco que está todo disponível no soundcloud.

Serenade of A Sailor by Momo Serenade of A Sailor

dizem que o momo faz um folk psicodélico. não sei direito o que é isso, mas faz sentido. ah, serenade of a sailor traz as participações de músicos como caetano malta (co-produtor do disco), domenico lancellotti, lucas santtana, régis damasceno, rian batista, max sette, jam da silva e damien seth. só gente fina. e olha aí abaixo o momo em uma recente ediç
ão do cultura livre, programa radiofônico e agora também televisivo, que roberta martinelli apresenta com sua habitual desenvoltura.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

tom zé e as calcinhas voadoras

o baiano estava com a macaca em show no rio de janeiro na semana passada e lá pelas tantas pediu para que as moças jogassem calcinhas no palco. enquanto ia recebendo calcinhas-exocets, tom zé fazia uma defesa apaixonada da buceta e de seus cheiros, reunindo napoleão e a própria mãe no raciocínio. o fotógrafo jorge bispo registrou esse momento épico para a sexualidade musical brasileira... performance é pouco. vi esse video no tumblr do @raulramone.



mas como se isso não fosse divertido o bastante, tom zé voltou a são paulo e na área de serviço de sua casa teceu alguns breves comentários sobre cada uma das calcinhas recebidas. e cheirou-as. e deu uma lavadinha. e disse coisas como "essa calcinha tinha uma presença olfativa muito marcante" ou "a pessoalidade do atolamento" ou ainda "as calcinhas estão derramando gotas que podiam servir de cura para grandes males da humanidade". fiquei sabendo desse segundo video pela paula scarpin, jornalista da revista piauí.



'bsolutamente genial.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

yahoo #08

rádio, esse bicho estranho (pra mim). tentei inúmeras vezes gostar de alguma, desde minha adolescência quando gravava fitas k-7, mas a verdade é que minha curiosidade, a minha demanda pessoal, sempre foi maior que a oferta da grande maiorias das estações brasil afora (no meu caso, rio de janeiro, ribeirão preto e são paulo, porque era muito criança em fortaleza). a rádio no brasil dos dias de hoje foi o assunto da ultra pop #08 (agora, por lá, a mais recente, "jesus não tem dentes no país dos banguelas", tem uma pegada mais polêmica com religiosos intolerantes na mira).


netinho é ouvinte de rádio e não desiste nunca

RÁDIO: ENTRE O AMOR E O JABÁ

Já estava mais que na hora de falar de rádio, esse veículo de comunicação tão potente quanto subestimado (nas últimas décadas) no Brasil. Outros assuntos acabaram tomando à frente aqui na Ultra Pop, mas um texto no site Farofafá!, serviu de estímulo para a frequência modulada finalmente ecoar por essas bandas. Nele, o jornalista Eduardo Nunomura compilou as cinco músicas mais pedidas nas rádios mais populares de 9 grandes cidades brasileiras: Belém (Rádio Liberal), Fortaleza (Jangadeiro FM), Recife (Clube FM), Salvador (Itapoan FM), Belo Horizonte (BH FM), Rio de Janeiro (FM O Dia), São Paulo (Tupi FM), Curitiba (98 FM) e Porto Alegre (Cidade FM). Resolvi acrescentar Goiânia (Rádio Terra 104,3) porque senti falta de um representante do Centro-Oeste.

Mais um estímulo para análises e discussões, o texto de Nunomura é também o retrato de um momento no qual podemos ver que nossas rádios comerciais permanecem latifúndios para poucos gêneros e artistas.

Sertanejo e pagode dominam, terra devastada, sedimentando um caminho construído com altas granas pelas grandes gravadoras na década de 1990. O jovem Luan Santana – tema da coluna “Eu queria gostar Luan Santana” – simplesmente massacra, emplacando três músicas (“Amar não é pecado”, “Um beijo” e “A bússola”) em 9 das 10 cidades (apenas Salvador ficou de fora). Os veteranos do Exaltasamba - que, recentemente, anunciaram um recesso em 2012 após 25 anos de existência – colocaram três músicas em 6 cidades, incluindo uma inusitada parceria com o funkeiro Mr. Catra (o carioca esteve presente na coluna “Não tem papo, não tem alô”). Ainda na categoria destaque nacional pode anotar a presença incontornável da bela Paula Fernandes, enquanto o dueto de Joelma, da Banda Calypso, com Reginaldo Rossi é raio, estrela e luar nas capitais do Nordeste.



Agora, imagine... uma música muito tocada em uma rádio líder de audiência se espalha como fogo em mato seco pelo dial. E não adianta fugir. Você pode navegar por várias rádios o dia todo e só ouvirá cerca de 30 músicas, mudando apenas a ordem de sua execução. Mas será o gosto popular a razão desse monopólio? Ou o bom, velho e misterioso jabá que segue fazendo agrados em donos de rádios, programadores e DJs? Ou, mais provavelmente, um pouco dos dois?

Bem, sobre o gosto popular é preciso admitir que o amor, o romance e a dor-de-cotovelo são preferência nacional e não é de hoje (para quem não sabe, a primeira transmissão radiofônica no Brasil aconteceu em 7 de abril de 1922). Esse coração na ponta das chuteiras define muito bem a alma brasileira, mais até do que o humor, e não é a toa que Roberto Carlos é o Rei e suas canções são a nossa cara. E lá se vão artistas novos e velhos correndo atrás cantando suas próprias paixões, que são as mesmas de seu público. Assim o mundo gira.

Mas é o jabá, fenômeno mais falado que investigado, que explica melhor essa concentração absurda de poucos artistas no dial (e olha que nem toquei no assunto espinhoso que é o fato das rádios serem concessões públicas). É isso, é a velha ganância conhecida de todos: poucos querem ganhar muito e no máximo de tempo possível. Claro que artistas desejam chegar a seu público e, consequentemente, expandí-lo, porém toda essa relação viciada entre gravadoras, empresários, rádios e TVs colocou a música popular brasileira em um beco sem saída. Essa falta de diversidade vem criando uma desconfiança numa boa faixa do público, gente que acredita que não se faz mais música boa no país como antigamente, gente que confunde o que é veiculado em rádios e TVs com o que é produzido (e nem se dá o trabalho de ver/ouvir como existe coisa boa e atual na internet, a um clique de distância).

A sabedoria popular diz que a variedade é o tempero da vida. E eu acrescentaria, parafraseando o saudoso Itamar Assumpção, que tal se a gente sonhasse com o impossível? Uma rádio variada e para todos.


p.s.: e segue aqui, como material extra, a lista completa das 5 músicas mais tocadas nas rádios mais populares dessas dez praças.

Belém – Rádio Liberal
Luan Santana - Amar não é Pecado
AR 15 - Largo tudo
Jorge e Matheus - Chove, chove
Banda Calypso - Perdoa
Luan Santana - Um Beijo

Fortaleza - Jangadeiro FM
Paula Fernandes - Pássaro de fogo
Calypso & Reginaldo Rossi - Não posso negar que te amo
Regis Danese - Família
Luan Santana - Amar não é pecado
Ricky Valen - Sei lá

Recife - Clube FM
Ivete & Seu Jorge - Pensando em nós
Calypso & Reginaldo Rossi - Não posso negar que te amo
Luan Santana - A bússola
Luan Santana - Amar não é pecado
Exaltasamba & Mariana Rios - Viver sem ti

Salvador - Itapoan FM
Paula Fernandes - Pra você
Sorriso Maroto - Clichê
Exaltasamba & Mariana Rios - Viver sem ti
Calypso & Reginaldo Rossi - Não posso negar que te amo
Zezé & Luciano - Mentes tão bem

Goiânia - Rádio Terra FM 104,3
Cristiano Araújo e Jorge & Matheus - Efeitos
Eduardo Costa - Quem é
Bruno & Marrone - Essa droga de carinho
Luan Santana - Um beijo
Exaltasamba - Viver sem ti

Belo Horizonte - BH FM
Sorriso Maroto - Clichê
Luan Santana - Um beijo
Alexandre Pires - Sissi
Exaltasamba - Um minuto
Bruno e Marrone - Tentativas em vão

Rio de Janeiro - FM O Dia
Bom Gosto & Revelação - Pais e filhos
Sorriso Maroto - Clichê
Belo - Defeito meu
Luan Santana - Amar não é pecado
Exaltasamba - Não seria justo

São Paulo - Tupi FM
Luan Santana - Amar não é pecado
Paula Fernandes - Pra você
Victor & Léo - Água de oceano
Leonardo - Alucinação
Léo Magalhães - 24 horas

Curitiba 98 FM
Luan Santana - Amar não é pecado
Manu Gavassi - Planos impossíveis
Paula Fernandes - Pra você
Jorge e Mateus - Seu astral
Luan Santana - Um beijo

Porto Alegre - Cidade FM
Luan Santana - Amar não é pecado
Exaltasamba & Mr. Catra - A gente faz a festa
Grupo Revelação - Trilha do amor
Grupo Pixote - Recado das estrelas
Rodriguinho - Para de falar besteira

terça-feira, 10 de maio de 2011

capitão nascimento reloaded

taí a matéria de capa da revista monet de maio. o grande desafio desse texto era achar um jeito diferente e atual de lidar com um tema tão batido (e o mote para a revista foi a chegada de tropa de elite 2 em ppv e em um sistema de video on demand que está estreando na net). os colegas aqui da revista, sarah mund e itaici brunetti perez, fizeram as entrevistas e eu reuni tudo, editei e costurei no texto tendo em vista capitão nascimento e o bope como fenômenos pop. deu trabalho, viu? mas fiquei bem feliz com o resultado.

local de trabalho é isso aí

ELITE DO CINEMA

Um dos participantes da última edição do
Big Brother Brasil mal colocou os pés na casa e já saiu batendo no peito e gritando que era “faca na caveira”. No bar um amigo fala para o outro: “você é um fanfarrão!”, repetidas vezes. De repente, passando por um ponto de táxi, é possível ouvir um “pede pra sair” ou então “se quer me foder, me beija”. Coisas assim tem acontecido, em qualquer lugar do Brasil, desde 2007, ano da estréia nos cinemas de Tropa de Elite, de José Padilha. Agora, com a chegada de Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro à TV pó assinatura, um ciclo se fecha. Mas o Brasil nunca mais será o mesmo após conhecer a face atormentada de Roberto Nascimento, o Capitão Nascimento. Muito menos as pessoas envolvidas na produção de ambos os filmes.

PADILHA, por exemplo. Em menos de dez anos transformou-se no diretor mais quente do cinema brasileiro, ultrapassando os colegas Walter Salles e Fernando Meirelles. Ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim pelo primeiro
Tropa, com Tropa 2 quebrou um tabu de mais de três décadas o transformando no filme brasileiro mais visto de todos os tempos, e agora se prepara para dirigir um episódio da produção internacional Rio, Eu Te Amo, enquanto não assina o contrato para a refilmagem de RoboCop. Mas o que fez um cineasta e produtor de documentários de prestígio e de público restrito conseguir tocar tão fundo no imaginário popular brasileiro?

“Acho que em
Tropa de Elite 1 e 2 aconteceu um fenômeno de sobreposição, uma soma de dois efeitos: a emoção da dramaturgia dos filmes se somou as emoções que o público já sentia a respeito dos traficantes, do policiais e dos políticos nele representados. Na minha opinião, foi isso que fez com que os filmes se tornassem populares”, explicou Padilha por e-mail. Se o primeiro Tropa pegou a todos de surpresa com um relato cru do cotidiano de guerra urbana no Rio de Janeiro, e sob inédito ponto de vista do policial, o Tropa 2 deixou claro que o conflito nas favelas e o narcotráfico são apenas pálidos reflexos de uma guerra muito maior por poder e dinheiro envolvendo o crime organizado, políticos e policiais corruptos (reunidos em milícias). E isso acontece conforme o espectador acompanha Nascimento saindo das ruas para ganhar os gabinetes na função de Subsecretário de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro.

Essa percepção mais aguçada sobre a realidade brasileira também pegou o ator André Ramiro, outro membro da equipe que teve sua vida mudada em muito pouco tempo. Rapper e ex-porteiro de cinema, Ramiro teve sua primeira experiência como ator ao interpretar Matias, que volta em
Tropa 2, cada vez mais parecido com o Capitão Nascimento do primeiro Tropa, mas sem a mesma experiência. “Minha vida mudou no sentido de que agora realmente tiro o meu sustento daquilo que eu sempre quis viver: da arte. Poder respirar, fazer, estudar arte e ter a oportunidade de conhecer coisas que eu não conhecia”, diz Ramiro, e aproveita para anunciar que seu disco de estréia, Crônicas de um Rimador, sai este ano e traz participações de Gabriel o Pensador e Dudu Nobre.

Mas houveram outras reviravoltas em sua vida. “O que mudou na verdade foi a minha visão do ser humano por debaixo da farda. Não exatamente a instituição. Tem uma frase em inglês que acho muito bacana, acho pertinente para esse momento, que é ‘Don’t hate the players. Hate the game’. Eu não odeio os jogadores, só não concordo com o jogo.” E ainda refletindo a experiência dos dois filmes completa que “na maneira que me envolvi com esse projeto fica difícil não perceber que na verdade irmão está matando irmão. É o policial que não é bem remunerado e o traficante que nem sempre está na vida que escolheu. Ou seja, quem é a vítima? O policial é tão vítima quanto o traficante e vice-versa.”



PAULO STORANI é outro personagem importante nessa saga e representando o lado fardado da história. Ex-integrante do BOPE, o carioca foi responsável pelos treinamentos dos atores e chegou a ter o nariz quebrado por Wagner Moura durante os ensaios do primeiro
Tropa. Também vieram dele algumas das gírias mais conhecidas dos filmes. “Daqui a dez anos, pesquisadores irão mostrar o que o filme representou para o esclarecimento e mobilização das pessoas em torno da segurança pública. A cortina caiu. Nenhum carioca poderá dizer que não sabia do que ocorreu e que ocorre no Rio, e que não é diferente de qualquer lugar do Brasil.”

Orgulhoso de sua participação e do resultado cinematográfico, Storani fez questão de frisar durante a entrevista os princípios que nortearam o treinamento de seus pupilos: mudança constante de cenário, adaptação e superação. “Sabia que
Tropa suscitaria discussões profundas, principalmente por concorrerem contra um histórico de filmes nacionais que quando tratam de temas relacionados com a segurança pública, contam a história de bandidos que passam a heróis, despossuídos que não tem outra opção senão roubar, traficar e matar. Os dois Tropa de Elite foram fiéis à realidade e imparciais, mostrando de uma forma inédita os dramas que envolvem as pessoas que trabalham na segurança pública, pessoas honradas e desonradas, mas acima de tudo o BOPE saiu fortalecido. Os heróis saíram do anonimato e passaram a ter seu trabalho reconhecido, além do batalhão ter sido humanizado.”

Só que existe uma armadilha aí nessa atual relação de boa vizinhança entre policiais e civis, e quem aponta é Luiz Eduardo Soares, escritor, cientista social e ex-Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro. “Se o BOPE persistir por uma unidade violenta, tentando surfar na onda do primeiro filme, vai pagar um preço altíssimo também pela sua própria imagem, porque ficou muito claro no segundo filme que a violência policial não é uma solução, e sim parte de um problema.” Co-autor de
Elite da Tropa (Objetiva) e Elite da Tropa 2 (Nova Fronteira), os livros que serviram de pontapé inicial para os roteiros, Soares aproveita para costurar uma descrição muito afiada do Capitão Nascimento, personagem ficcional próximo de tantas pessoas de carne e osso. “A intenção era apresentar ali um anti-herói, uma pessoa atormentada, capaz de tortura, assassinato, desesperada e sem rumo, que acabava contribuindo para a reprodução do ciclo da violência, mesmo sendo uma pessoa com muitos valores positivos, muitas virtudes também, a simplicidade, a vontade de acertar, o compromisso de cumprir um papel positivo na sua área de atuação.” Portanto, quem o viu como herói, como uma resposta armada para as mazelas sociais brasileiras, precisa urgentemente rever seu conceito de heroísmo.

Em meio a esse fogo cruzado, Padilha também foi muitas vezes vítima, mas as acusações de glorificar um personagem violento e controverso já foram superadas. “Não fiz o filme para responder a crítica, fiz o filme para completar a exposição que iniciei em
Onibus 174 e Tropa de Elite, e para mostrar a relação direta que existe entre a corrupção na política e os problemas da segurança pública que abordei nos filmes anteriores”, afirmou Padilha que, entre um Tropa e outro, dirigiu dois documentários, Garapa (sobre a fome no Nordeste) e Segredos da Tribo (que trata da relação conflituosa entre antropólogos e os índios ianomâmi).

MAS SERÁ QUE todo esse fuzuê ao redor dos filmes foi além das piadinhas de bar? Será que o Capitão Nascimento inspirou uma nova geração de guardiões da lei? Rodrigo, 29 anos, soldado da Polícia Militar do Estado de São Paulo a cinco anos, acha que não: “A maioria das pessoas ainda entra na polícia pela dificuldade de encontrar emprego”, o que não foi seu caso, pois sempre desejou ser policial. Já Thiago Marques Guilherme, 23 anos, está estudando para o concurso da polícia civil e disse que assistir os filmes lhe “deu mais vontade de entrar para tentar fazer alguma coisa, mas não que eu vá ser um capitão Nascimento, né?”

E os filmes retrataram a corporação fielmente? Ambos acreditam que sim. “Tenho um amigo policial que me contou que na polícia tem muita coisa mostrada no filme que realmente acontece. É uma questão de se mostrar e não omitir”, disse Thiago, enquanto Rodrigo vai um pouco mais fundo ao afirmar que os filmes são “um tapa na cara de muito oficial, de muito político e muito governante aqui do Brasil. Sei que o filme se passa no Rio de Janeiro, mas serve para a realidade de qualquer polícia do Brasil. Infelizmente não teve a repercussão que deveria ter tido para poder acontecer alguma mudança. Tem muita coisa envolvida nisso, até dinheiro. Acho que, por exemplo, partes da polícia de São Paulo vivem ainda muito à sombra da ditadura, assim como muitos governantes e políticos.”



OUTRO PERSONAGEM REAL e importantíssimo para
Tropa de Elite 2 é justamente um político. Em seu segundo mandato, o deputado estadual Marcelo Freixo serviu como base para o roteirista Bráulio Mantovani criar Diogo Fraga (Irandhir Santos), um professor de História que se torna político após trabalhar em uma ONG cujo tema principal é a defesa dos direitos humanos. Na vida real, Freixo foi presidente da crucial CPI das Milícias que, em 2008, jogou no colo dos cariocas/brasileiros o envolvimento de alguns de seus colegas de Assembléia Legislativa em assassinatos, extorsões e outras tantas infrações do Código Penal. Até hoje é ameaçado de morte por isso.

Fã dos filmes, e sem nenhum envolvimento com as produções, Freixo viu sua luta (e a de muitos outros e outras) ganhar altas injeções de adrenalina na segunda parte da jornada de Roberto Nascimento. E gostou, confessa. “O
Tropa 2 dá mais complexidade ao assunto de segurança, ele mostra com mais clareza esse problema que o crime organizado não está nos lugares pobres, nem no Rio e nem em nenhum lugar do mundo. Ele consegue demonstrar que essa criminalidade é movida através de interesses políticos, ou seja, existe uma polícia corrupta porque a gente tem uma política corrupta, uma elite política corrupta que se alimenta dessa relação violenta com a periferia dos lugares pobres porque tem uma relação direta com esses criminosos.”

Claro que não seria um filme (ou dois) que mudaria esse amontoado de desigualdades, impunidades e desmandos. E nem adianta pensar em um terceiro com Nascimento partindo para Brasília de Caveirão. Luiz Eduardo Soares pode explicar melhor: “Assunto [para um terceiro filme] não falta. Mas até onde sei, como amigo e colega de trabalho, o José Padilha não considera essa hipótese. É o mesmo que ouço do Wagner [Moura] que diz que o trabalho que tinha que ser feito já foi feito. Da minha parte já estou completamente convencido que não faz sentido produzir uma terceira unidade dessa série pois há um risco muito grande da repetição e, tanto na literatura quanto no cinema, temos muito medo do clichê.”

Sobre Wagner Moura assinamos embaixo. Na tentativa de entrevistá-lo recebemos a seguinte resposta de seu assessor: “O Wagner está num outro momento agora!” Quem é caveira, sabe.