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terça-feira, 25 de outubro de 2011

jamaica entre nós

tenho uma história com o bid, não vou negar. um dos dois textos que fiz pra folha de s. paulo foi sobre bambas & biritas vol. 1 (mcd, 2005), tirei uma fotos da turma e uma delas foi publicada no jornal por ocasião do show de lançamento e, por acaso, acabei escrevendo um release do mesmo. então foi com muita curiosidade que acompanhei as primeiras notícias sobre bambas dois (soul city/natura/universal, 2011) há uns dois anos atrás. mais curioso fiquei ao saber, e isso já foi nesse ano, que no lugar do samba e do soul entrariam o reggae e o forró (e o disco que bid produziu para chico césar em 2008, o ótimo francisco, forró y frevo, tem papel fundamental nessa história).



e lá no canal do bamba dois no youtube tem mais uma porrada de videos sobre as gravações na jamaica. mas olha, sem mais delongas, ouça o disco e tire suas próprias conclusões.

BAMBAS DOIS by Bambas2

é claro que bambas dois tem muito mais que reggae e forró. tem dub, maracatu, ragga, xote e um frescor de misturas muito intensas e quase todas inéditas (e o disco tem apenas uma regravação, "something", de george harrison). é disco de produtor atento, aberto, cheio de camadas e sutilezas. agora, pelo seu caráter fragmentário e cheio de convidados, bambas dois correrá o mesmo risco de bambas & biritas: será extremamente difícil divulgá-lo em shows. mas isso é outra história. o lance agora é curtir.



ah, e essa faixa que ganhou o primeiro clipe, "only jah love", recebeu um tratamento dubstep em remix assinado por felipe wrechiski. peguei lá do site oficial do disco e coloquei aqui pro serviço ficar completo.

BiD (Bambas Dois) - ONLY JAH LOVE (Felipe Wrechiski Dub Mix) by dafnesampaio4


uma pena que o blogger limite a quantidade de tags, mas faço questão de colocar aqui um pouco mais desse timaço de músicos reunidos no disco: the heptones, jah marcus, kymani marley, oku onuora, ernest ranglin, luciano, i wayne, queen ifrica, joey altruda, daniel ganjaman, dengue, lúcio maia, zé pitoco, marcelo cabral, bi ribeiro, gilmar bolla 8, marlon sette, tiquinho, adriano magoo, as negresko sis (céu, thalma de freitas e anelis), bruno buarque, james muller e felipe pinaud.

p.s.: poxa, esqueci de mencionar gilberto gil, o pioneiro nesse cruzamento nordeste/jamaica desde os anos 1970 e que sintetizou muito bem todos esses sons no disco kaya n'gan daya (warner, 2002).

sábado, 14 de maio de 2011

yahoo #05

15 dias passam depressa e cá está o texto da minha quinta coluna ultra pop. dessa vez os comentaristas não me xingaram, nem nada (tanto que foi o texto mais 'favoritado' via facebook entre todas as colunas até agora), porque simplesmente preferiram sair em defesa de chico césar, o secretário de cultura da paraíba, e sua política de valorização da música tradicional nordestina. é uma política interessante a dele, mas é conservadora também. sugeri um meio termo, mas ninguém deu bola, claro. enquanto isso, já tá rolando texto novo por lá, "chacrinha continua balançando a pança", um comparativo entre os programas de auditório de chacrinha e faustão.

puxe o fole, zé!

A PELEJA DO FORRÓ JUNINO

Forró é para todo mundo, certo? É música de todo dia para alguns, diversão para muitos e ganha pão de outros tantos. E não é exclusividade do Nordeste, afinal tem nordestino em tudo que é canto do mundo (é de Nova York, por exemplo, o excelente grupo Forró in the Dark). Mas durante o agitado período das festas juninas, o forró vira assunto sério na região, coisa de riscar a faca no chão mesmo. Tanto é verdade que nesse ano o gênero se viu em meio a uma polêmica que começou na Paraíba e se alastrou, por meio das redes sociais, Brasil afora. É que o secretário de cultura do Estado, o músico Chico César, declarou que o governo não pagará por grupos e artistas que “nada têm a ver com a herança da tradição musical nordestina”. Não foram citados nomes – o artista Chico César não cometeria essa indelicadeza com a classe -, mas bastou defini-los como “bandas de forró de plástico e grupos sertanejos” para o arraial pegar fogo.

Ficou uma coisa assim: forró pé-de-serra X forró eletrônico ou então arrasta pé X forró universitário, folclórico X comercial e assim por diante, com direito a presença do sertanejo-estranho-no-ninho bagunçando tudo. Teve gente incomodada com o Estado – esse bicho mau, sufocante e intrometido – escolhendo o que toca e o que não toca no “Maior São João do Mundo” em Campina Grande. Em entrevista ao jornal cearense O Povo, o músico Dorgival Dantas (do hit “Você Não Vale Nada”) declarou que a atitude do colega paraibano era “safadeza, falta de atitude, covardia e besteira”. Mas teve mais gente que soltou rojão a louvar essa defesa da música de raiz, incluindo o próprio governador da Paraíba e Waldonys, o sanfoneiro herdeiro da tradição de Luiz Gonzaga e Dominguinhos.



Acho interessante e corajosa a postura de Chico César de enfrentar pressões comerciais para ter uma festa “autenticamente nordestina”. Em nota oficial, o músico-secretário – cujo último disco lançado, Francisco, Forró y Frevo (2008), foi justamente uma visão nada ortodoxa de suas raízes – defendeu-se das críticas que distorciam sua declaração. Segundo ele, não existe nenhuma proibição por parte do governo de tocar artista X ou música Y, só que o erário público não pagará por isso. Quem quiser que pague. Afinal, as tais “bandas de plástico” e os sertanejos já tocam o ano todo, sem parar, nas rádios (que são concessão pública, sempre é bom lembrar). É muita vitrine! E ainda querem tomar a festa que se tornou o último refúgio de artistas populares/folclóricos como Baixinho do Pandeiro, Cátia de França, Zabé da Loca, Escurinho, Livardo Alves e Pinto do Acordeon.

Mas não seria possível fazer uma ponte entre a tradição e a contemporaneidade, entre o popular e o pop? E misturar tudo nessa grande festa? Porque por melhor que a cultuada e tradicionalíssima Zabé da Loca seja (e é), sua música e sua poesia não dialogam tão facilmente com gerações mais novas. Outro tempo, outra velocidade, outro pique. Então não seria o caso de ter um Aviões do Forró ali no meio do furdunço chamando um público que de outra forma não conheceria Zabé, Pinto do Acordeon, etc.? A cultura popular é dinâmica e o que é “autenticamente nordestino” hoje não é o mesmo de 30 anos atrás, e a política do junto & misturado talvez seja a melhor saída para todos os forrós que existem.