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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

50 discos gringos de 2014 [e algo mais]

já rolaram as listas de músicas e discos brasileiros do ano e agora, com alguma demora, segue a de discos gringos. são 50 também e, como sempre, a variedade é grande. tem umas moça daora na lista. veteranas como sharon jones, que acompanhada de sua banda fiel the dap-kings, lançou um disco com altos níveis de balanço e sentimento [give people what they want], e neneh cherry que, sob produção do four tet, retornou solo com blank project, ótimo disco, ao mesmo tempo pop, eletrônico e experimental. e tem novinhas como azealia banks, rapper veloz, elétrica e cheia de saber o que quer, e seu ótimo broke with expensive taste. ainda no rap, vieram ainda excelentes discos novos da chilena ana tijoux [vengo] e da portuguesa capicua [sereia louca], que seguem ampliando o vocabulário do rap, tanto pela língua que versam quanto pelo jeito de ver e pensar sobre as coisas do mundo.

tem instrumentais bacaníssimos. mais jazzísticos como o da molecada do badbadnotgood [III] e o novo encontro do trio medeski, martin & wood com o guitarrista john scofield [juice] ou de sonoridades africanas de várias partes do mundo como a dos holandeses do jungle by night [the hunt], dos alemães do karl hector & the malcouns [unstraight ahead] e do woima collective [frou frou rokko], dos americanos  da budos band [burnt offering], dos ingleses do red snapper [hyena] e do heliocentrics [que acompanham o mestre nigeriano orlando julius no excelente jaiyede afro].

funk afrobeat do togo. não tem como dar errado.

falando em áfrica, o continente que é início, meio e fim do melhor da música mundial, temos na lista também o rapper ganês blitz the ambassador [afropolitan dreams], o sudanês-anglo americano sinkane [e seu belo disco mean love], o blues rock tuareg malinês do tinariwen [emmaar], o gênio nigeriano, e baterista fundamental da banda de fela kuti, tony allen [film of life] e um dos filhos do fela, sean kuti [a long way to the beginning]. outro som da pesada veio da big band congolesa kasai allstars e a mistura de experimentalismos e tradições do disco beware of fetish. fechando o continente, o grupo vaudou game, formado na frança e liderado pelo togonês peter solo, e o sensacional disco apiafo, certamente um dos que mais ouvi esse ano.

capa de ... and then you shoot your cousin
the roots sempre fino. certeza de sons fora de série.

como disse na lista brasileira, o rap tá cada vez mais presente nas minhas audições e é porque é o gênero mais inquieto musicalmente e o mais radicalmente ligado à realidade. já apareceram aqui ana tijoux, capicua e blitz the ambassador, mas o grande manancial continua sendo os estados unidos. tem azealia banks, já mencionada, mas também a ótima dupla atmosphere [que acertaram mais uma vez grandão em southsiders], a dobradinha freddie gibbs & madlib [piñata], o malucão, e um dos integrantes do das racist, kool a.d. [word ok], o supergrupo the roots [...and then you shoot your cousin], os sempre poderosos wu-tang clam [a better tomorrow], o veterano snoop dogg, que não para de produzir e está cada vez melhor [that's my work 5 é seu novo trabalho com tha dogg pound gang], o jovem j. cole [e o surpreendente 2014 forest hills drive], o projeto hail mary mallon, que tem aesop rock como integrante [o sensacional beastiary é o segundo disco deles], a homenagem do produtor shawn lee ao hip hop [golden age against the machine], as rimas muito políticas de bambu [party worker] e, correndo por fora, o ótimo reks [eyes watching god]. enquanto isso, lá do velho mundo, vieram o produtor francês guts [hip hop after all] e o trio escocês-africano young fathers [dead].

leonard cohen. MESTRE.

alguns medalhões também apareceram muito bem em 2014. destaque para o grande leonard cohen e seu lindão popular problems, prince e o balanço de art oficial age, lee ‘scratch’ perry e a renovada magia do dub em back on the controls, o soul que não envelhece de lee fields em emma jean, beck e seu delicado morning phase. um semi medalhão é damon albarn que finalmente, após tantos projetos excelentes pós-blur, assinou pela primeira vez um disco com seu próprio nome [o resultado foi o bonito everyday robots]. 

capa linda de salvadora robot, trabalho mais recente 
dos colombianos do meridian brothers

pra finalizar esses longos [porém breves] comentários sobre os 50 discos escolhidos pela gerência, uma miscelânea de gêneros e lugares. tem a cumbia digital, fascinante e perturbadora, dos colombianos do meridian brothers [salvadora robot], o soul francês, jovem e elegante, de ben l'oncle soul [a coup de reves], o folk eletrônico do australiano chet faker [built on glass], a bossa pop francesa de sébastien tellier [l'aventura], o pop assumido e muito bem feito de pharrell williams [g i r l], o funk global, mas principalmente latino, do produtor norte-americano captain planet [esperanto slang], e uma jovem revelação do soul, o americano curtis harding [soul power]. sem falar em bandas de rock bem estabelecidas e que mantiveram o alto nível, mesmo que o tv on the radio tenha se saído melhor com seeds que o the black keys com turn blue. opa, opa, já ia esquecendo: o retorno triunfal do soulman e ex sex-symbol problemático d’angelo e seu altamente politizado black messiah. é muita coisa boa, minha gente. segue então a lista em ordem alfabética e com links para encontrar os discos.

ana tijoux - vengo
atmosphere - southsiders
azealia banks - broke with expensive taste
bambu - party worker
beck - morning phase
ben l'oncle soul - a coup de reves
blitz the ambassador - afropolitan dreams
capicua - sereia louca
captain planet - esperanto slang
chet faker - built on glass
curtis harding - soul power
d’angelo & the vanguard - black messiah
damon albarn - everyday robots
guts - hip hop after all
hail mary mallon - beastiary
j. cole - 2014 forest hills drive
jungle by night - the hunt
karl hector & the malcouns - unstraight ahead
kasai allstars - beware of fetish 
kool a.d. - word ok
lee ‘scratch’ perry - back on the controls
leonard cohen - popular problems
meridian brothers - salvadora robot
neneh cherry - blank project
pharrell williams - g i r l
prince - art official age
red snapper - hyena
reks - eyes watching god
sébastien tellier - l'aventura
seun kuti & egypt 80 - a long way to the beginning
sharon jones & the dap-kings - give people what they want
shawn lee - golden age against the machine
sinkane - mean love
the black keys - turn blue
the budos band - burnt offering
the roots - ...and then you shoot your cousin
tinariwen - emmaar
tony allen - film of life
vaudou game - apiafo
woima collective - frou frou rokko
wu-tang clama better tomorrow

e quer saber de uma coisa?! tome mais 45! mas agora vão sem links porque daí acaba o ano e eu não publico esse lance, desculpaê rsrs [nossa, ainda falta a lista de músicas gringas! xô correr].

afro latin vintage orchestra - pulsion
big baby gandhi - nhjic
black milk - if there's hell below
blueprint - respect the architect
brian eno & karl hyde - someday world
de la soul - smell the da.i.s.y.
dub colossus - addis to omega
fantasma - eye of the sun EP
fatima - yellow memories
flying lotus - you're dead!
frikstailers - crop circles EP
fujiya and miyagi - artificial sweeteners
ghostface killah - 36 seasons
ginger baker - why
hollie cook - twice
homeboy sandman - hallways
ikebe shakedown - stone by stone
jack white - lazaretto
khun narin - khun narin's electric phin band
king fantastic - the great man theory
le1f - hey
lily allen - sheezus
little dragon - nabuma rubberband
lykke li - i never learn
matisyahu - akeda
melvin van peebles & the heliocentrics - the last transmission
naomi wachira - naomi wachira
people under the stairs - 12 step program
pharoah & the underground - spiral mercury
pharoahe monch - ptsd [post traumatic stress disorder]
rafter - it's reggae
rick ross - mastermind 
run the jewels - run the jewels 2
sbtrkt - wonder where we land
schoolboy q - oxymoron
shabazz palaces - lese majesty
st. vincent - st. vincent
the bad plus - the rite of spring
the cambodian space project - whisky cambodia
the skints - short change EP
the souljazz orchestra - inner fire
thom yorke - tomorrow's modern boxes
tune-yards - nikki nack
we are shining - kara
wiz khalifa - 28 grams

quinta-feira, 28 de março de 2013

yahoo #66

já comecei meu blog solo no yahoo, o mexidão, e a ideia é que passe a tocar apenas ele com umas três atualizações semanais. portanto, este texto sobre o fenômeno "harlem shake" talvez seja meu último no ultrapop (tamos aí nas costuras, no que for melhor para ambas as partes, como diria aquele sujeitinho). os cães rodam e a caravana ruge.



O PRINCÍPIO, O MEIO E O FIM DE "HARLEM SHAKE"

Faz pouco mais de um mês que o mundo foi inundado por um novo e, como tudo na internet, inescapável meme. Impossível que você, caro(a) leitor(a), não tenha visto alguma versão do “Harlem Shake”, mesmo que depois tenha pensado cá com seus botões porque as pessoas estavam fazendo esse fuzuê todo.

A história começou mais ou menos assim. Baauer, um jovem DJ norte-americano nascido Harry Rodrigues, lançou em maio do ano passado a música “Harlem Shake”, mas ninguém deu a mínima pelota para esse batidão eletrônico que não tinha nenhuma relação com a dança de mesmo nome surgida no início dos anos 1980. Daí que o tempo passou e no final de janeiro deste ano, o comediante Filthy Frank pegou um trecho de quase 20 segundos da música, fez uma coreografia maluca com amigos e colocou como o início da compilação “Filthy Compilation #6 – Smell my fingers”. O viral estava quase pronto.

Três dias depois, apenas três dias depois, cinco moleques australianos autoproclamados The Sunny Coast Skate chegaram lá e definiram o formato que se espalharia pelo mundo com a mesma velocidade fatal da gripe espanhola. O vídeo tem apenas 30 segundos. Na primeira metade apenas um integrante do grupo dança ao som de “Harlem Shake”, e este usa um capacete, então acontece um breque na música, um corte seco no vídeo, e de repente todos começam a dançar dos jeitos mais nonsense possíveis. Pronto, o estrago estava feito.

No texto “Um artista desconhecido no topo da parada da Billboard”, o jornalista Alexandre Matias afirma que o vídeo “virou uma pérola de humor nonsense da internet. Justamente por isso pegou. E, como outros, começou a ser citado, referido, misturado. E o ‘do the harlem shake’ convidou as pessoas a fazerem seu próprio ‘Harlem Shake’. O resto é história”.

Essa combinação explosiva de dança, humor, simplicidade e tudo isso em apenas 30 segundos fez nascer versões como a do exército norueguês, os jogadores de basquete do Miami Heat e os mergulhadores da equipe da Universidade da Georgia, além de incontáveis compilações. O Brasil, claro, também deu sua contribuição e teve desde o Programa do Ratinho e o Programa da Eliana, passando por manifestações em Indaiatuba e na Avenida Paulista, até montagens com clipe de “66” da banda O Terno, o caos do transporte público em São Paulo e evangélicos rodopiando. E também compilações nacionais e até uma versão com letra em português (“Harlem Tcheka”) feita pelo Bonde do Rolê. Mas nada, em nenhum lugar, chega próximo da habitual genialidade d’Os Simpsons.


Claro que os mal humorados de plantão acham que por causa dessa febre o mundo vai acabar (mais uma vez). Não conseguem enxergar como um vídeo desses amplia o vocabulário de imagens e referências da cultura pop mundial. É uma Luisa Marilac, um “Gangman Style”, um “David after dentist”, coisas que passam, mas também deixam seus rastros.

De uma forma ou de outra, o sonho “Harlem Shake” está prestes a acabar, tanto que Rubinho Barrichello fez o seu no casamento de Tony Kanaan, mineiros australianos foram demitidos após colocarem sua versão no YouTube e russos foram presos após dançarem em um Memorial da Segunda Guerra. Por outro lado, Baauer está sendo processado por Hector Delgado e Jayson Musson por terem sampleado suas vozes (“Com los terroristas” e “Do the Harlem Shaker”, respectivamente) e ainda cometeu a burrada de brigar com uma estrela em ascensão, a rapper Azealia Banks, por causa de seu remix da música, quando deveria se sentir prestigiado. Escuta (e vê) só.


Já surge uma nova onda, um novo viral, porque a vida também é feita dessas coisas efêmeras e tem maluco pra tudo nesse mundo.