uma das coisas certas na vida é que a música popular brasileira - que, bom frisar, é muito mais ampla que a tal mpb - nunca vai te deixar na mão. ano após ano tem gente boa aparecendo, gente ótima surgindo, jovens artistas amadurecendo, gêneros se firmando e se transformando, velhos artistas inquietos. enfim, tem surpresa por todos os lados e de muitas formas.
a cantora e multiartista héloa, sergipana radicada em são paulo, é uma dessas surpresas boas, refrescantes mesmo, e tive a honra de escrever o texto-release pra divulgar seu disco de estreia, o belo 'eu'. não fiz muitos releases na vida e antes deste, foram apenas três - trio esmeril [junior boca, guizado e mauricio takara], projeto manada e paulo carvalho - e é curioso ver um pouco da inquieta e atual diversidade musical brasileira nessa pequena amostra.
agora, sem mais blábláblá, o texto sobre o 'eu' de héloa e sua música.
Uma voz que canta ventos e avenidas, amizades e mudanças, sorrisos e silêncios, amores e lembranças... uma voz assim não se encontra todo dia. Héloa é a dona desta voz e o seu 'Eu' – estreia em disco dois anos após o EP ‘Solta’ - é uma espécie de autorretrato de uma artista em movimento.
A história e os sons de ‘Eu’ começam em Aracaju, Sergipe, terra natal da cantora. É lá que seus caminhos se abrem, é lá que começa a dançar, fazer teatro e artes visuais. E a compor. Amarrando tudo com uma voz de céu, sol e mar. Uma voz quente.
E então, vem a mudança. No segundo semestre do ano passado, Héloa decidiu ir para São Paulo para gravar e encontrar ‘Eu’. Tal movimento é ilustrado no disco pela regravação de “Caravana” [Geraldo Azevedo e Alceu Valença]. Ela sabe que é inevitável se arriscar, se jogar no mundo, e soa muito pessoal e verdadeira quando canta, com um fraseado todo especial: “Corra, não pare, não pense demais / Repare essas velas no cais / Que a vida é cigana”.
Antes de partir em “Caravana”, na vida e no disco, Héloa pede “proteção para minha estrada, que não me aconteça nada que atrapalhe esta jornada de viver” [“Proteção”, de Ruan Levy, é a a faixa que abre ‘Eu’]. Daí faz silêncio pra enxergar e se expressar melhor [na ótima “Calei”, de Allen Alencar, talvez a mais pop do disco] e se espreguiça apaixonadamente ao acordar lado a lado com o amor [“Amanheceu, seu sorriso”, de Allen Alencar].
Acompanhada pelos músicos e produtores Daniel Groove e João Vasconcelos, Héloa vai encontrando novos ‘eus’ em São Paulo, todos muito apaixonados e apaixonantes. Na linda “A avenida” [Héloa e Eduardo Escariz], a cantora lamenta perdas, procura respostas e guarda certezas no coração, e, em meio ao frenesi de uma cidade grande e nova, Héloa vai buscando tranquilidades na vida.
De música em música, e sem nunca se prender a rótulos, a cantora se coloca naturalmente como mais uma força a expandir e misturar os limites da música popular brasileira. Afinal, tem um tanto de afoxé em “A paz que desejei” [Eduardo Escariz], balada em “Super herói” [Daniel Groove], brega romântico em “Se você disser que vem” [Daniel Groove], bossa em “Crua” [Otto] e bluegrass em “Meus amigos” [Saulo Duarte e Daniel Groove]. Mas todas as canções de ‘Eu’ vão muito além de um gênero, muito além da velha e gasta mpb.
É que Héloa canta ventos e avenidas. Uma voz assim não se encontra todo dia.
p.s. 1: saiu o clipe de “Calei”.
p.s. 2: apresentação ao vivo de Héloa no estúdio do Showlivre.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2016
domingo, 14 de abril de 2013
rafael castro, advogado do diabo de si mesmo
no texto mais recente que fiz para o mexidão, “música
popular de estupro” (inspirado pelo texto “amigos,
amigos, cretinices à parte”, da jornalista kátia abreu), falei de duas
músicas que causaram discussões acaloradas nas redes sociais nas últimas
semanas. em suas linhas e entrelinhas, “então se joga” (henrique costa) e “vou
te encher de birinight” (rafael castro) falam de embebedar garotas na balada
para elas “liberarem geral” (no caso de “então se joga”) ou para serem abusadas
(no caso de “vou te encher de birinight”). no texto do yahoo critiquei as
músicas (e não os artistas) por tratarem de forma leviana e sem cuidado de um
assunto muito delicado. poucos dias depois, rafael castro entrou em contato comigo
pelo facebook procurando uma via de falar mais sobre o assunto e tentar
explicar o lado dele da história pr’além do espírito linchador que circula pela
internet. em nenhum momento achei que nenhum dos dois artistas estava fazendo
apologia ao estupro, mas sim que essa mentalidade está muito arraigada no
inconsciente masculino, e gostei da abertura de rafael para discutir o assunto.
então mandei-lhe uma série de perguntas. suas respostas seguem abaixo e não
editei nada para deixar que ele fale por si só.
qual a origem de "vou te encher de birinight"?
quando foi escrita?
a música nasceu como a maioria das minhas canções,
inventando histórias no computador com o violão em punho. não foi inspirada em
nenhum fato ou acontecimento específico. foi composta, gravada e lançada em
2007.
você já tinha tido algum problema com a música antes da
calourada da usp? alguém tinha te falado algo sobre ela?
nunca tinha tido problema algum. na verdade quando viemos
pra são paulo em 2008 e começamos a fazer shows por aqui, essa era uma das
músicas mais pedidas, uma das favoritas da galera que acompanhava os shows.
favorita até de gente que tá falando mal hoje, mas é compreensível e nas
perguntas seguintes eu falo mais sobre isso.
como foi no show [realizado em 27.02.13]? na hora houve algum protesto?
no show foi tranquilo. não houve nenhum protesto além de uma
garota muito alcoolizada pedindo pra tocarmos chico buarque do começo ao fim do
nosso show, mas nós não atendemos.
o pessoal do dce entrou em contato com você depois?
o dce não entrou em contato comigo. um dos membros mandou um
e-mail para meu produtor comentando que algumas pessoas acharam o conteúdo
dessa música estranho e que se conhecessem o artista não chamariam, mas nada
foi falado além disso conosco. fica a curiosidade: como alguém contrata um show
que desconhece?
como você ficou sabendo da moção
de repúdio às "músicas opressoras" de rafael castro? o que achou
dela?
ficamos sabendo por compartilhamentos alheios no próprio
facebook; não nos avisaram em nenhum momento sobre essa moção. eu achei
despropositada e precipitada, porque eu estaria disposto a dar entrevista ou
participar de debates se convidado pelo pessoal do dce, para esclarecer
qualquer mal entendido ou me desculpar com quem houvesse se ofendido.
na moção (onde ninguém assina, permanecendo até agora um
texto anônimo) há várias acusações levianas das quais não pude me defender,
mesmo tendo mandado um texto pedindo “direito de resposta” que não foi nem
respondido nem publicado. além disso, o sistema de moderação de comentários não
permite nenhuma resposta no site onde a moção foi publicada, vetando
completamente qualquer opinião de quem a leia.
participação de tulipa ruiz no show de rafael castro durante
a calourada da usp-sp, agora em fevereiro de 2013
como você acompanhou os desdobramentos pró e contra sua
música na internet?
achei interessante, pelo bem ou pelo mal, a música chegar
onde chegou. como eu disse em um comentário, a música promoveu um grande debate
sobre arte, política, sociedade, machismo, violência, liberdade de expressão,
etc. mesmo sofrendo algumas condenações, achei que esses desdobramentos não
poderiam ser melhores porque os temas levantados são de suma importância, ainda
mais nos tempos que vivemos agora no brasil.
quando a gente conversou no facebook você disse que estava
preocupado com a gritaria [palavra minha] dos dois lados (pró e contra). que
isso estava fazendo com que um não entendesse o outro, que um enfraquecesse o
outro. pode explicar melhor?
o que acontece é o seguinte. tanto as pessoas que condenam a
canção quanto quem me defende, no frigir dos ovos, acaba generalizando muito as
coisas. as pessoas que leram a moção acabam ficando com uma impressão de que
deve existir o julgamento artístico entre certo e errado, entre permissível e
reprimível, um pensamento com um viés maniqueísta onde o artista não deveria
retratar uma violência sem uma crítica fácil de entender ou uma “lição de
moral”. isso enfraquece a arte. por outro lado as pessoas que defendem essa
liberdade de criação, acabam atacando ferozmente os movimentos e as lutas,
ridicularizando-as, diminuindo o trabalho dessas pessoas e dificultando um
diálogo que é muito importante – neste caso a violência contra a mulher. acaba
virando um bate boca desgastante sem qualquer objetivo além da própria polêmica
e isso só faz enfraquecer os dois lados. eu sou a favor dos dois e, para que
conste, sou contra qualquer violência, seja à mulher, ao trabalhador ou à
liberdade, sou a favor da existência urgente de movimentos e lutas sobre essas
e outras questões que ano após ano são reprimidas pelo nosso governo. é
ridículo que isso seja posto em questão por causa de uma obra de ficção.
em um nota
que escreveu no facebook você deu sua interpretação da música falando em
crítica social. essa interpretação mudou conforme o tempo? quando começaram a
aparecer leituras diferentes da música que a sua você se preocupou? o que
achou? pensou em reescrevê-la?
na interpretação que eu escrevi ,eu ainda estava tentando
manter o bom humor e explicar a canção pros amigos da rede social de um ponto
de vista onde poderiam haver variáveis na própria história, tipo “advogado do
diabo”. eu disse que a crítica social estava no comportamento, pessoas que
precisam beber pra se comunicar e pra aceitar outras pessoas, e que a tragédia
seria uma consequência desse comportamento típico dos oprimidos social e
sexualmente. de uma forma mais ampla, eu acho que quando você expõe um problema
do cotidiano em uma obra de arte, este simples fato já é uma crítica social,
porque ela pode agredir, pode gerar reflexões, pode trazer assuntos importantes
pra serem debatidos. eu não me preocupo com leituras diferentes porque a arte é
mutável e suas interpretações também. se compuséssemos a canção da “cabeleira
do zezé” hoje, em tempos onde felicianos e afins querem implodir e exterminar
toda a causa homoafetiva, este compositor talvez fosse hostilizado por alguns
movimentos. em outros tempos, em outros contextos, a canção pode servir como
uma celebração bem humorada da diversidade. eu acho que o ódio e a repressão
artística de tempos em tempos recaem no reflexo do contemporâneo, do medo que
as pessoas sentem, com razão.
olhando em retrospecto você acha que errou em algo ou que
faria diferente? ou está de consciência tranquila?
talvez alguns desgastes pudessem ser evitados se eu não
tivesse dado importância para a tal moção que circulava num circuito muito
restrito antes de ser publicada por mim, mas estou de consciência tranquila
porque é conversando que a gente se entende e o assunto era pertinente. espero
que as pessoas tenham percebido que debater é bom e crucificar é inútil.
o que fazer com essa música agora? como você a vê hoje?
há tempos eu não toco essa música ao vivo, porque eu e o
pessoal da banda já tínhamos enjoado dela, de tanto que pediam. na usp a gente
ressuscitou a canção porque uma das nossas participações especiais, o pélico,
gosta. não pretendo mais tocá-la ao vivo por enquanto porque o tom da música
não está conversando com esses tempos de repressão e medo, além de ter se
desgastado com a polêmica. eu continuo achando que os artistas devem expressar
aquilo que eles querem do jeito que eles querem, mesmo correndo o risco de
serem mal interpretados ou acusados disso ou daquilo. talvez seja justamente
esse tipo de coisa que está faltando. e pra quem pensa que ficar perseguindo
artistas ajuda em alguma coisa, eu sinceramente recomendo que olhem o brasil
pelo buraco mais embaixo.
sábado, 30 de junho de 2012
criolo e mulatu
e o plano de dominação mundial de criolo começa hoje. começou antes, claro, mas hoje é dia de seu primeiro capítulo público, a participação do festival back2black em londres ao lado de mulatu astatke. o festival em si é um capítulo a parte com sua escalação absurdamente boa (e que novamente terá uma versão no rio de janeiro de 24 a 26 de agosto): de roots manuva a gilberto gil, de joão brasil a hugh masekela, de amadou e mariam a emicida, de jorge ben a gilles peterson, de femi kuti a banda tono, de marcelo d2 a linton kwesi johnson, etc. mas ficarei aqui com o potencialmente sensacional encontro do mc paulistano com o mestre do jazz etíope (ethio-jazz), um tanto pelo sentido que faz (imagino a honra e alegria que estão sentindo agora os brasileiros em tocar com seu ídolo), mas também por ser o "primeiro episódio da série de videocasts diários relatando a turnê internacional do criolo", todos levando a assinatura de rodney suguita, o maníaco da câmera, e disponíveis no canal do artista no youtube. olha só os bastidores do ensaio para o show de hoje. máximo respeito.
e londres é a primeira das sete cidades dessa turnê internacional. depois tem paris, milão, roma, festival roskilde (dinamarca), los angeles e nova york (central park). olha o cartaz aí.
e essas fotos que peguei lá no facebook? tem o encontro no lobby do hotel, um instantâneo do ensaio e uma de mulatu com o autor das primeiras fotos e do video, o maníaco da câmera.
e londres é a primeira das sete cidades dessa turnê internacional. depois tem paris, milão, roma, festival roskilde (dinamarca), los angeles e nova york (central park). olha o cartaz aí.
e essas fotos que peguei lá no facebook? tem o encontro no lobby do hotel, um instantâneo do ensaio e uma de mulatu com o autor das primeiras fotos e do video, o maníaco da câmera.
e para fechar o ciclo segue "para mulatu", parceria de criolo com gui amabis gravada em memórias luso-africanas (independente, 2011), a estreia em disco do produtor amabis.
atualização: e já estão no ar os videocasts 2 e 3 dessa turnê do criolo trazendo trechos de seu show em londres e também de uma gravação nos estúdios da rádio bbc, ambos na companhia de mulatu astatke. a adriana ferreira silva, da folha de s. paulo, disse que o show foi o ponto alto do segundo dia do festival.
outra atualização: escuta só o encontro de mulatu e criolo no programa de rádio da bbc, com direito a rimas em português sobre a clássica "netsanet".
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sexta-feira, 26 de agosto de 2011
barba, cabelo e bigode
meio curta ficcional, meio clipe musical, "subirusdoistiozin" é o primeiro video a sair de nó na orelha, o excelente segundo disco do paulistano criolo. além da música ser uma das melhores do trabalho, o filme dirigido por tom stringhini tem uma produção fina, clima setentista, o sempre ótimo cenário da vila maria zélia, a presença marcante do ator abrahão farc (como o barbeiro) e várias referências a outras músicas do disco, tais como "freguês da meia noite" (que passa rapidamente no rádio) e "bogotá" (quando criolo diz para um garoto, "fica atento, quando alguém lhe oferecer o caminho mais curto, fica atento").
só não entendi direito o que motivou o banho de sangue no final. se alguém souber me jogue uma luz.
p.s.: depois vi essa apresentação do criolo no showlivre. músicas e entrevista, serviço completo.
só não entendi direito o que motivou o banho de sangue no final. se alguém souber me jogue uma luz.
p.s.: depois vi essa apresentação do criolo no showlivre. músicas e entrevista, serviço completo.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
jovino santos neto, a entrevista
dei uma olhada na transcrição da entrevista com o jovino, que gerou o perfil "alma em movimento" que fiz para a revista brasileiros, e realmente tinha muita coisa que ficou de fora. separei em blocos que seguem abaixo e vou intercalando com videos para o falatório descer mais gostoso.
AUTOEXÍLIO EM SEATTLE
Engraçado que não foi uma decisão consciente. Quer dizer, houve um planejamento, mas a escolha do lugar... foi mais o lugar que escolheu a gente que o contrário. Na época que sai do grupo do Hermeto... aliás, uma das razões que me fez querer sair do grupo do Hermeto... queria fazer um aperfeiçoamento em certas áreas, regência por exemplo. Conhecia alguns conservatórios ligados a universidades, mas que eram de uma praia mais careta que a minha praia musical. Ópera e coisas assim. Fui perguntando a amigos... por coincidência, dois anos antes, em 1990, quando ainda estava com o Hermeto fizemos uma turnê por várias cidades dos Estados Unidos, todas as grandes. Miami, Chicago, Nova York, Los Angeles, San Francisco e passamos por Seattle a caminho do Canadá. Senti uma vibração muito boa naquela cidade. Senti em outras cidades também. Mas antes de pensar em sair do grupo foi em Seattle que pensei, “poxa, gostaria de morar aqui”. O visual, o verde, muita água, montanhas. Gosto disso, sou do Rio de Janeiro e essas coisas sempre me chamaram. Dois anos depois quando pensei em me aperfeiçoar como regente, compositor e criar minhas raízes próprias pensei na cidade. Não conhecia ninguém lá. Por intermédio de amigos cheguei ao Julian Priester, trombonista excelente que já tocou com o Herbie Hancock e mora lá. Mandei um fax pra ele, não tinha email na época, dizendo que estava procurando um lugar para estudar e se ele conhecia. Imediatamente ele me respondeu que tinha uma escola no qual ele também dava aula e que era um lugar aberto, eclético. Era a Cornish College of the Arts e estou lá até hoje, dando aulas. Fui como aluno, fiz dois semestres e já comecei a dar aula. Não estava atrás do diploma, só queria ter aquela instrução básica e quando começaram a aparecer uns trabalhos de regência larguei as aulas. Também montei uma banda. Fora isso toda a parte burocrática de vistos e green card aconteceu de uma forma meio mágica. Talvez hoje em dia não rolasse, mas naquela época aconteceram uma série de coincidências que ajudaram. Menos de um ano após a nossa chegada já estávamos completamente legalizados e radicados. Como já estamos lá há 15 anos já podemos pegar cidadania americana, mas não é uma coisa que eu pense.
AÇÕES MUSICAIS
Fiz de tudo um pouco, mas toquei principalmente. Toquei com o Airto Moreira e a Flora Purim durante três anos. A gente viajou bastante pra Europa e nos Estados Unidos, viemos até para o Brasil... comecei a me envolver com áreas diferentes da música. Arranjos e composições para formações de câmara... possibilidades que surgiram por essa abertura da Cornish. Toquei com gente do jazz, do free jazz, músicos de outros países... e formei uma banda com amigos da faculdade que está junta até hoje... gravamos três discos juntos e vamos gravar mais...
TRABALHANDO COM HERMETO
Aqui eu trabalhava com o Hermeto Pascoal que é a maior referência musical instrumental que alguém pode ter... 15 anos com o Hermeto é uma escola no qual você aprende todas as coisas possíveis sobre a música instrumental brasileira... sou muito grato por isso, por esse aprendizado... e não foram 15 anos tocando uma vez por semana... foram 15 anos com ensaios 5 dias por semana, 6 horas por dias, 30 horas por semana, religiosamente, faça chuva, faça sol. Além das inúmeras turnês que fizemos pelo Brasil, Ásia, Europa, Estados Unidos. Tivemos uma convivência muito próxima. O ensino não era só piano, era música em geral, arranjos, composição, liderança de conjunto, flexibilidade, improviso, tudo isso a gente aprendeu com o Hermeto. Foi uma formação muito boa.
O Hermeto é um daqueles casos raros. O grau de expansão musical que ele tem... porque dom musical não é tão raro quanto as pessoas querem crer. Quase todas as crianças são musicalmente bem dotadas, mas conforme elas vão crescendo surgem os limites, geralmente auto-impostos. Hermeto também tinha esse dom quando era criança, provavelmente um pouco maior, mas o que aconteceu é que desde criança ele sentiu que aquilo era um trabalho, o seu trabalho. Já tocava aos 8, 9 e já era profissional aos 14. Olha, tocar em rádio naquela época era uma das coisas mais difíceis do mundo porque tinha que saber tocar tudo, rápido e ao vivo. Então ele teve que desenvolver antenas pra captar rapidamente essas informações. E Hermeto é muito disciplinado, estuda muito. Se você for na casa dele hoje, agora, ele estará estudando. Ele não pára e tem uma energia incrível. Fizemos há pouco um show em Toronto, no qual regi uma orquestra com 20 músicos e ele deu um banho em todo mundo. Quase quatro horas de show e a gente só correndo atrás, tentando alcançar ele.
ENSINAR MÚSICA BRASILEIRA
Bossa nova, samba e escola de samba. Procuro escapar desses clichês no curso que dou na universidade sobre a história da música brasileira. Falo de música nordestina, da influência dos ritmos africanos e das linguagens africanas na nossa música e as pessoas ficam impressionadas. Claro que não dá nem para arranhar a complexidade da história da nossa música nesse curso. É só uma casquinha. Agora, a razão da nossa música ser tão rica e tão aceita no mundo inteiro é porque ela condensa influência musicais do mundo inteiro, muito mais que qualquer outra cultura que eu conheça. Leste Europeu, Polônia, Hungria, no caso das polkas; as valsas de Viena da união de Dom João VI com os Habsburgos; as inúmeras e diferentes influências africanas porque em nenhum outro lugar vieram tantos escravos de lugares tão diferentes; a música indígena... tudo isso faz parte de um aprendizado que ainda não acabou.
Ao ir para os Estados Unidos tive oportunidade de entrar em uma área mais histórica. Sou fascinado por História e lá comecei a ler sobre aqui, o que acabou influenciando a minha música. A leitura de O Povo Brasileiro do Darcy Ribeiro influenciou muito o meu primeiro disco (Caboclo).
NO PALCO
Quando subo no palco para fazer um show não estou simplesmente tirando uma coisa de uma caixinha, do zero, do nada. Estou na realidade lançando uma linha, uma rede em um mar cheio de peixes, cheio de idéias musicais que estão ali a mais de 500 anos. É um fonte enorme de alimento para o amanhã, para gerações futuras. Uma das coisas que o Hermeto passou pra gente é que a música está em constante movimento.
ALMA DO NORDESTE, O PROJETO, O DISCO
Esse autor [C. Nery Camello] viajou pelo sertão da Bahia e outros lugares do Nordeste, em 1936, mesmo ano em que Hermeto nasceu. Não é um livro organizadinho. Uma hora está em Pernambuco, outra hora na Bahia, e fala de um cantador e depois fala de outra coisa. É um livro de impressões. Ele anotava tudo, poesias inteiras, o linguajar. Tem fotos no livro. Esse livro me impressionou um bocado. Sou do Rio de Janeiro, neto de nordestinos, mas nunca passei um tempo no Nordeste quando estava aqui. Tenho família em Recife e tudo o mais. Então deu um estalo e montamos o projeto. Refazer os passos desse escritor e retratá-los musicalmente. Em meados de 2006 o projeto foi aprovado. Já tinha esquecido. Levamos mais um ano para deixar tudo amarradinho pra viagem que aconteceu em maio de 2007.
Dentro da idéia musical do projeto estava a vontade de criar a música a partir dos sons, cheiros dessa viagem. Já conhecia muito de música nordestina através do trabalho com o Hermeto. Agora eu queria uma coisa diferente. E deu tão certo essa experiência que voltei para Seattle e levei uma semana para compor quase todas as músicas do disco.
Durante a viagem foi só observação. E também não estava buscando música, especificamente. É bom falar isso. Outro ensinamento de Hermeto: o músico não pode se inspirar só em música porque fica naquele círculo de auto-referência. Você se fecha num universo muito limitado. Você tem que se inspirar nas árvores, nas coisas, nas pessoas... uma freada de carro na rua pode ser uma inspiração musical. No Nordeste aconteceu isso. A gente estava em um hotel em Arapiraca, num sábado anterior ao Dia das Mães, ouvindo a gritaria das pessoas vendendo coisas. Caminhões com auto-falantes, a molecada vendendo CD pirata com uns carrinhos que pareciam aqueles de picolé com caixas de som imensas ligadas em bateria de carro, uma igreja evangélica com banda... uma cacofonia... a princípio eu odiei... tinha uma expectativa porque era a terra do Hermeto, e eu já tinha estado em Arapiraca muitos anos antes com ele... ah, vou encontrar uma coisa linda... cheguei e era um caos urbano como outro qualquer... quis sair correndo, mas parei pra pensar e achei que a gente estava ali por algum motivo. Isso acabou entrando no disco porque em vários momentos os músicos improvisam juntos e ao mesmo tempo. Não é aquela coisa de primeiro improvisa o piano, depois o saxofone e por aí. É uma conexão, todo mundo produz som e se ouve, ao mesmo tempo. Também vimos coisas lindas como a Serra da Borborema...
Foi tudo bem. O carro se comportou [risos]... mas realmente não houve nenhum desapontamento. Estava esperando voltar no tempo nessa viagem, atraso, essas coisas... mas todos os hotéis tinham internet sem frio e de graça, achei as estradas ótimas, a infra estrutura rolou tão legal, toda a pré-produção foi muito boa... e fiz um mapa ao acaso pegando coisas do livro e riscando o trajeto pelo Google Earth. Mas eu não sabia o que ia fazer em algumas cidades, quem ia encontrar... em alguns lugares tinha contato e em outros a gente logo ia pra feira ou pro mercado municipal e a história começava. Foi tudo muito bem. Voltamos com a mala cheia de idéias e por isso a música aconteceu muito naturalmente. Sem sofrimentos. Acabei escrevendo mais que devia. Veio muita música.
INTERNET E COMPARTILHAMENTO
O que é bacana na internet é que o meu outdoor é do mesmo tamanho que o de uma grande gravadora. É do tamanho da tela do computador.
A mídia CD realmente está acabando, mas ao mesmo tempo, quando a gente faz um show, o pessoal procura o CD e pede para autografar. Quer dizer, não dá para assinar o MP3! Sempre haverá a necessidade de um suporte físico. Poxa, até o vinil está voltando. Mas quero disponibilizar minhas músicas no formato digital.
Consigo ver os dois lados. Como compositor que paga aluguel, compra o leite das crianças, e vivendo com os direitos que a gente tem vendendo o nosso trabalho, não é legal ver as pessoas consumindo a minha música sem pagar nada. É como andar na rua e todo mundo passar a mão na sua carteira. Isso não é legal. Por outro lado, faço tanta música que não vejo problema nenhum em colocar algumas dessas músicas para as pessoas baixarem. Serve também como estímulo para as pessoas ouvirem mais músicas. Sempre quis que as pessoas levassem as partituras das minhas músicas após meus shows. Música é trabalho, mas também é fonte e fonte que não pode secar. O sujeito pode ir lá e beber um litro, pode ir lá e pegar três garrafas, é fonte de água e continua jorrando. De onde saiu essa tem muito mais.
ESTRANGEIRO BRASILEIRO
Não dá para dizer que morarei em Seattle para sempre. Mas é uma cidade que tem sido muito boa pra mim e pra minha família. E continua sendo. Existem muitos tipos de imigrantes, gente que perde mais a identidade, que perde menos. O Egberto Gismonti me disse uma vez que todas as vezes que morou fora perdeu a conexão com o Brasil. Já o Airto Moreira mora nos Estados Unidos desde 1968 e não existe uma pessoa mais brasileira que ele. Que nem o Sérgio Mendes, que continua sendo um cara de Niterói, apesar de todo sucesso que ele já fez em todo mundo. Acho que sou desse segundo tipo. Morando lá sou mais brasileiro do que morando aqui. Ampliei meu conceito de lar. Mas ainda não equilibrei porque gostaria de vir mais vezes para cá. Por mim viria muito mais... umas três vezes por anos, passar três semanas no máximo... essa é a minha dose, é um prazo legal... na época do meu avô a gente chamava esse período de “estação de águas” [risos]...
AUTOEXÍLIO EM SEATTLE
Engraçado que não foi uma decisão consciente. Quer dizer, houve um planejamento, mas a escolha do lugar... foi mais o lugar que escolheu a gente que o contrário. Na época que sai do grupo do Hermeto... aliás, uma das razões que me fez querer sair do grupo do Hermeto... queria fazer um aperfeiçoamento em certas áreas, regência por exemplo. Conhecia alguns conservatórios ligados a universidades, mas que eram de uma praia mais careta que a minha praia musical. Ópera e coisas assim. Fui perguntando a amigos... por coincidência, dois anos antes, em 1990, quando ainda estava com o Hermeto fizemos uma turnê por várias cidades dos Estados Unidos, todas as grandes. Miami, Chicago, Nova York, Los Angeles, San Francisco e passamos por Seattle a caminho do Canadá. Senti uma vibração muito boa naquela cidade. Senti em outras cidades também. Mas antes de pensar em sair do grupo foi em Seattle que pensei, “poxa, gostaria de morar aqui”. O visual, o verde, muita água, montanhas. Gosto disso, sou do Rio de Janeiro e essas coisas sempre me chamaram. Dois anos depois quando pensei em me aperfeiçoar como regente, compositor e criar minhas raízes próprias pensei na cidade. Não conhecia ninguém lá. Por intermédio de amigos cheguei ao Julian Priester, trombonista excelente que já tocou com o Herbie Hancock e mora lá. Mandei um fax pra ele, não tinha email na época, dizendo que estava procurando um lugar para estudar e se ele conhecia. Imediatamente ele me respondeu que tinha uma escola no qual ele também dava aula e que era um lugar aberto, eclético. Era a Cornish College of the Arts e estou lá até hoje, dando aulas. Fui como aluno, fiz dois semestres e já comecei a dar aula. Não estava atrás do diploma, só queria ter aquela instrução básica e quando começaram a aparecer uns trabalhos de regência larguei as aulas. Também montei uma banda. Fora isso toda a parte burocrática de vistos e green card aconteceu de uma forma meio mágica. Talvez hoje em dia não rolasse, mas naquela época aconteceram uma série de coincidências que ajudaram. Menos de um ano após a nossa chegada já estávamos completamente legalizados e radicados. Como já estamos lá há 15 anos já podemos pegar cidadania americana, mas não é uma coisa que eu pense.
AÇÕES MUSICAIS
Fiz de tudo um pouco, mas toquei principalmente. Toquei com o Airto Moreira e a Flora Purim durante três anos. A gente viajou bastante pra Europa e nos Estados Unidos, viemos até para o Brasil... comecei a me envolver com áreas diferentes da música. Arranjos e composições para formações de câmara... possibilidades que surgiram por essa abertura da Cornish. Toquei com gente do jazz, do free jazz, músicos de outros países... e formei uma banda com amigos da faculdade que está junta até hoje... gravamos três discos juntos e vamos gravar mais...
TRABALHANDO COM HERMETO
Aqui eu trabalhava com o Hermeto Pascoal que é a maior referência musical instrumental que alguém pode ter... 15 anos com o Hermeto é uma escola no qual você aprende todas as coisas possíveis sobre a música instrumental brasileira... sou muito grato por isso, por esse aprendizado... e não foram 15 anos tocando uma vez por semana... foram 15 anos com ensaios 5 dias por semana, 6 horas por dias, 30 horas por semana, religiosamente, faça chuva, faça sol. Além das inúmeras turnês que fizemos pelo Brasil, Ásia, Europa, Estados Unidos. Tivemos uma convivência muito próxima. O ensino não era só piano, era música em geral, arranjos, composição, liderança de conjunto, flexibilidade, improviso, tudo isso a gente aprendeu com o Hermeto. Foi uma formação muito boa.
O Hermeto é um daqueles casos raros. O grau de expansão musical que ele tem... porque dom musical não é tão raro quanto as pessoas querem crer. Quase todas as crianças são musicalmente bem dotadas, mas conforme elas vão crescendo surgem os limites, geralmente auto-impostos. Hermeto também tinha esse dom quando era criança, provavelmente um pouco maior, mas o que aconteceu é que desde criança ele sentiu que aquilo era um trabalho, o seu trabalho. Já tocava aos 8, 9 e já era profissional aos 14. Olha, tocar em rádio naquela época era uma das coisas mais difíceis do mundo porque tinha que saber tocar tudo, rápido e ao vivo. Então ele teve que desenvolver antenas pra captar rapidamente essas informações. E Hermeto é muito disciplinado, estuda muito. Se você for na casa dele hoje, agora, ele estará estudando. Ele não pára e tem uma energia incrível. Fizemos há pouco um show em Toronto, no qual regi uma orquestra com 20 músicos e ele deu um banho em todo mundo. Quase quatro horas de show e a gente só correndo atrás, tentando alcançar ele.
ENSINAR MÚSICA BRASILEIRA
Bossa nova, samba e escola de samba. Procuro escapar desses clichês no curso que dou na universidade sobre a história da música brasileira. Falo de música nordestina, da influência dos ritmos africanos e das linguagens africanas na nossa música e as pessoas ficam impressionadas. Claro que não dá nem para arranhar a complexidade da história da nossa música nesse curso. É só uma casquinha. Agora, a razão da nossa música ser tão rica e tão aceita no mundo inteiro é porque ela condensa influência musicais do mundo inteiro, muito mais que qualquer outra cultura que eu conheça. Leste Europeu, Polônia, Hungria, no caso das polkas; as valsas de Viena da união de Dom João VI com os Habsburgos; as inúmeras e diferentes influências africanas porque em nenhum outro lugar vieram tantos escravos de lugares tão diferentes; a música indígena... tudo isso faz parte de um aprendizado que ainda não acabou.
Ao ir para os Estados Unidos tive oportunidade de entrar em uma área mais histórica. Sou fascinado por História e lá comecei a ler sobre aqui, o que acabou influenciando a minha música. A leitura de O Povo Brasileiro do Darcy Ribeiro influenciou muito o meu primeiro disco (Caboclo).
NO PALCO
Quando subo no palco para fazer um show não estou simplesmente tirando uma coisa de uma caixinha, do zero, do nada. Estou na realidade lançando uma linha, uma rede em um mar cheio de peixes, cheio de idéias musicais que estão ali a mais de 500 anos. É um fonte enorme de alimento para o amanhã, para gerações futuras. Uma das coisas que o Hermeto passou pra gente é que a música está em constante movimento.
ALMA DO NORDESTE, O PROJETO, O DISCO
Esse autor [C. Nery Camello] viajou pelo sertão da Bahia e outros lugares do Nordeste, em 1936, mesmo ano em que Hermeto nasceu. Não é um livro organizadinho. Uma hora está em Pernambuco, outra hora na Bahia, e fala de um cantador e depois fala de outra coisa. É um livro de impressões. Ele anotava tudo, poesias inteiras, o linguajar. Tem fotos no livro. Esse livro me impressionou um bocado. Sou do Rio de Janeiro, neto de nordestinos, mas nunca passei um tempo no Nordeste quando estava aqui. Tenho família em Recife e tudo o mais. Então deu um estalo e montamos o projeto. Refazer os passos desse escritor e retratá-los musicalmente. Em meados de 2006 o projeto foi aprovado. Já tinha esquecido. Levamos mais um ano para deixar tudo amarradinho pra viagem que aconteceu em maio de 2007.
Dentro da idéia musical do projeto estava a vontade de criar a música a partir dos sons, cheiros dessa viagem. Já conhecia muito de música nordestina através do trabalho com o Hermeto. Agora eu queria uma coisa diferente. E deu tão certo essa experiência que voltei para Seattle e levei uma semana para compor quase todas as músicas do disco.
Durante a viagem foi só observação. E também não estava buscando música, especificamente. É bom falar isso. Outro ensinamento de Hermeto: o músico não pode se inspirar só em música porque fica naquele círculo de auto-referência. Você se fecha num universo muito limitado. Você tem que se inspirar nas árvores, nas coisas, nas pessoas... uma freada de carro na rua pode ser uma inspiração musical. No Nordeste aconteceu isso. A gente estava em um hotel em Arapiraca, num sábado anterior ao Dia das Mães, ouvindo a gritaria das pessoas vendendo coisas. Caminhões com auto-falantes, a molecada vendendo CD pirata com uns carrinhos que pareciam aqueles de picolé com caixas de som imensas ligadas em bateria de carro, uma igreja evangélica com banda... uma cacofonia... a princípio eu odiei... tinha uma expectativa porque era a terra do Hermeto, e eu já tinha estado em Arapiraca muitos anos antes com ele... ah, vou encontrar uma coisa linda... cheguei e era um caos urbano como outro qualquer... quis sair correndo, mas parei pra pensar e achei que a gente estava ali por algum motivo. Isso acabou entrando no disco porque em vários momentos os músicos improvisam juntos e ao mesmo tempo. Não é aquela coisa de primeiro improvisa o piano, depois o saxofone e por aí. É uma conexão, todo mundo produz som e se ouve, ao mesmo tempo. Também vimos coisas lindas como a Serra da Borborema...
Foi tudo bem. O carro se comportou [risos]... mas realmente não houve nenhum desapontamento. Estava esperando voltar no tempo nessa viagem, atraso, essas coisas... mas todos os hotéis tinham internet sem frio e de graça, achei as estradas ótimas, a infra estrutura rolou tão legal, toda a pré-produção foi muito boa... e fiz um mapa ao acaso pegando coisas do livro e riscando o trajeto pelo Google Earth. Mas eu não sabia o que ia fazer em algumas cidades, quem ia encontrar... em alguns lugares tinha contato e em outros a gente logo ia pra feira ou pro mercado municipal e a história começava. Foi tudo muito bem. Voltamos com a mala cheia de idéias e por isso a música aconteceu muito naturalmente. Sem sofrimentos. Acabei escrevendo mais que devia. Veio muita música.
INTERNET E COMPARTILHAMENTO
O que é bacana na internet é que o meu outdoor é do mesmo tamanho que o de uma grande gravadora. É do tamanho da tela do computador.
A mídia CD realmente está acabando, mas ao mesmo tempo, quando a gente faz um show, o pessoal procura o CD e pede para autografar. Quer dizer, não dá para assinar o MP3! Sempre haverá a necessidade de um suporte físico. Poxa, até o vinil está voltando. Mas quero disponibilizar minhas músicas no formato digital.
Consigo ver os dois lados. Como compositor que paga aluguel, compra o leite das crianças, e vivendo com os direitos que a gente tem vendendo o nosso trabalho, não é legal ver as pessoas consumindo a minha música sem pagar nada. É como andar na rua e todo mundo passar a mão na sua carteira. Isso não é legal. Por outro lado, faço tanta música que não vejo problema nenhum em colocar algumas dessas músicas para as pessoas baixarem. Serve também como estímulo para as pessoas ouvirem mais músicas. Sempre quis que as pessoas levassem as partituras das minhas músicas após meus shows. Música é trabalho, mas também é fonte e fonte que não pode secar. O sujeito pode ir lá e beber um litro, pode ir lá e pegar três garrafas, é fonte de água e continua jorrando. De onde saiu essa tem muito mais.
ESTRANGEIRO BRASILEIRO
Não dá para dizer que morarei em Seattle para sempre. Mas é uma cidade que tem sido muito boa pra mim e pra minha família. E continua sendo. Existem muitos tipos de imigrantes, gente que perde mais a identidade, que perde menos. O Egberto Gismonti me disse uma vez que todas as vezes que morou fora perdeu a conexão com o Brasil. Já o Airto Moreira mora nos Estados Unidos desde 1968 e não existe uma pessoa mais brasileira que ele. Que nem o Sérgio Mendes, que continua sendo um cara de Niterói, apesar de todo sucesso que ele já fez em todo mundo. Acho que sou desse segundo tipo. Morando lá sou mais brasileiro do que morando aqui. Ampliei meu conceito de lar. Mas ainda não equilibrei porque gostaria de vir mais vezes para cá. Por mim viria muito mais... umas três vezes por anos, passar três semanas no máximo... essa é a minha dose, é um prazo legal... na época do meu avô a gente chamava esse período de “estação de águas” [risos]...
domingo, 27 de fevereiro de 2011
domingueira jurunas
27 de fevereiro de 2011 será, para sempre, um dia especial para gaby amarantos, a mais elétrica e criativa embaixadora da música paraense. é que na tarde deste dia, a poucos metros de sua casa no bairro de jurunas em belém, ela grava seu primeiro dvd solo (a dita "beyonce do pará" ficou famosa na cena tecnobrega como vocalista da banda tecno show). até aí ok, afinal artistas paraenses gravam dvds/shows como quem come e dorme, naturalmente, diariamente, sem esforço. só que esse caso é diferente porque, e acho que pela primeira vez na história da música brasileira, um artista popular "periférico" ganha para si (e para nós) uma filmagem caprichada, criativa e surpreendente a cargo da igualmente paraense priscilla brasil (greenvision, de clipes e documentários que vez ou outra aparecem por aqui) em parceria com o francês vincent moon, o criador da la blogotheque (disse lá em @vincentmoon: "preparing the biggest shoot of my life for sunday in Belem, with Gaby Amarantos. should be massive"). detalhe importante: moon está viajando pelo brasil fazendo videos para sua blogoteca e já passou por são paulo, rio de janeiro, recife e são luís.
pela alegria de ver o encontro dessas pessoas, nesse lugar, desse jeito, é que resolvi colocar um som de gaby para animar esse domingo (para quem não terá o privilégio de ver ao vivo). escuta só que depois conto como a conheci.
já tinha ouvido falar de gaby amarantos (mas só ouvido, sem ter escutado) quando a vi pela primeira vez em um show da orquestra imperial no sesc pompéia, em são paulo. de repente surge aquela índia acelerada do alto de grandes saltos e com um figurino maluco que parecia de alguma figurante de conan, o bárbaro (ou conan, o destruidor, o que preferir). não teve pra ninguém. não adiantou uma apresentação catártica de "a verdadeira dança do patinho" com o outro convidado, o bnegão. nem a doçura de nina becker e muito menos o suingue de thalma de freitas. não adiantou nem o charme habitual de toda a orquestra. todos, inclusive o grupo, só tinham olhos e ouvidos para gaby amarantos. um imã. um furacão. não lembro o que ela cantou (isso deve ter uns 4 ou 5 anos), mas de sua presença...
isso foi ela que disse, eu juro!
de lá pra cá fui ouvindo outras músicas dela com a tecno show, e ocasionalmente gostando mais dela que das músicas (algo faltava, uma base mais legal ali, uma letra mais interessante acolá, e mesmo assim a mulher mostrava sua força). também acompanhei a aproximação dela com o mundo major televisivo do eixo rio-sp - um tanto pelo rótulo enganoso, mas oportuno, de "beyoncé do pará" que veio a reboque do sucesso da ótima "tô solteira", versão de "single ladies". e gaby seguia gaby, muito genuína, batalhadora e dinâmica, e que viu 2010 se tornar um ano de virada. o sucesso de "tô solteira" a levou a novos lugares, participou do elogiado videocast compacto, foi convidada para a festa da posse da presidenta dilma roussef, fez muitos e muitos shows, e começou a planejar passos mais ambiciosos, tudo devidamente anunciado pela própria no @GabyAmarantos.
foi em seu twitter que disse que "nada estava planejado, e vincent moon veio pra brasil pra gravar um clipe com vários artistas entre eles elza soares, ney matogrosso, thalma. e daqui ele se encantou pela incrível dona onete, sebastião tapajós e vários como mestre vieira que não pode participar! vincent ama belém!". e depois, sobre a escolha da filmagem acontecer na sua vizinhança... "eu sempre me orgulhei da minha periferia e vai ser lindo misturar várias pessoas diferentes nesse lugar! se gosta de cultura popular, cola!". não sei qual é a previsão de lançamento desse dvd, mas atualmente gaby está em estúdio gravando seu disco solo de estreia com produção de carlos eduardo miranda, bases do dj waldo squash (gang do eletro) e participação de fernanda takai (e música de dona onete, talvez de thalma de freitas e iara rennó, etc). mais e melhores coisas bacanas estão acontecendo, e gaby amarantos é uma delas.
p.s.: post dedicado a dois aniversariantes do dia, o bróder e corjaman oga mendonça (projeto manada) e minha tia, a lendária e arretada mileide flores. beijo grande.
pela alegria de ver o encontro dessas pessoas, nesse lugar, desse jeito, é que resolvi colocar um som de gaby para animar esse domingo (para quem não terá o privilégio de ver ao vivo). escuta só que depois conto como a conheci.
já tinha ouvido falar de gaby amarantos (mas só ouvido, sem ter escutado) quando a vi pela primeira vez em um show da orquestra imperial no sesc pompéia, em são paulo. de repente surge aquela índia acelerada do alto de grandes saltos e com um figurino maluco que parecia de alguma figurante de conan, o bárbaro (ou conan, o destruidor, o que preferir). não teve pra ninguém. não adiantou uma apresentação catártica de "a verdadeira dança do patinho" com o outro convidado, o bnegão. nem a doçura de nina becker e muito menos o suingue de thalma de freitas. não adiantou nem o charme habitual de toda a orquestra. todos, inclusive o grupo, só tinham olhos e ouvidos para gaby amarantos. um imã. um furacão. não lembro o que ela cantou (isso deve ter uns 4 ou 5 anos), mas de sua presença...
isso foi ela que disse, eu juro!de lá pra cá fui ouvindo outras músicas dela com a tecno show, e ocasionalmente gostando mais dela que das músicas (algo faltava, uma base mais legal ali, uma letra mais interessante acolá, e mesmo assim a mulher mostrava sua força). também acompanhei a aproximação dela com o mundo major televisivo do eixo rio-sp - um tanto pelo rótulo enganoso, mas oportuno, de "beyoncé do pará" que veio a reboque do sucesso da ótima "tô solteira", versão de "single ladies". e gaby seguia gaby, muito genuína, batalhadora e dinâmica, e que viu 2010 se tornar um ano de virada. o sucesso de "tô solteira" a levou a novos lugares, participou do elogiado videocast compacto, foi convidada para a festa da posse da presidenta dilma roussef, fez muitos e muitos shows, e começou a planejar passos mais ambiciosos, tudo devidamente anunciado pela própria no @GabyAmarantos.
foi em seu twitter que disse que "nada estava planejado, e vincent moon veio pra brasil pra gravar um clipe com vários artistas entre eles elza soares, ney matogrosso, thalma. e daqui ele se encantou pela incrível dona onete, sebastião tapajós e vários como mestre vieira que não pode participar! vincent ama belém!". e depois, sobre a escolha da filmagem acontecer na sua vizinhança... "eu sempre me orgulhei da minha periferia e vai ser lindo misturar várias pessoas diferentes nesse lugar! se gosta de cultura popular, cola!". não sei qual é a previsão de lançamento desse dvd, mas atualmente gaby está em estúdio gravando seu disco solo de estreia com produção de carlos eduardo miranda, bases do dj waldo squash (gang do eletro) e participação de fernanda takai (e música de dona onete, talvez de thalma de freitas e iara rennó, etc). mais e melhores coisas bacanas estão acontecendo, e gaby amarantos é uma delas.
p.s.: post dedicado a dois aniversariantes do dia, o bróder e corjaman oga mendonça (projeto manada) e minha tia, a lendária e arretada mileide flores. beijo grande.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
as 25 canções nacionais de 2010
chegou a hora e a vez dessa coisa louca que é o brasil e a lista com 25 canções que tocaram bastante aqui nas dependências. acho que são músicas bem com a cara desse ano, assim diversas, independentes, divertidas, poéticas, fragmentadas e mestiças. mas antes, uma divagação.
na hora da pesquisa por videos ou audios para cada uma das 25 músicas me dei conta de um vazio audiovisual. como quase todas são de artistas independentes, sem grandes gravadoras para bancar seus clipes, o pouco registro em video que existe vem de shows (e a maioria com imagens captadas precariamente). existem clipes, e ótimos, mas a produção é muito pequena diante de tanta música (mas talvez isso seja histórico e eu, bobão, só pensei nisso agora; ou então até as majors puxaram também o freio de seus poucos artistas).
então é sempre bom agradecer a quem, nos últimos anos, vem produzindo com frequência e qualidade um importante registro visual da música popular brasileira desses tempos. nome aos bois: os veteranos do showlivre, o televisivo pelas tabelas, oi novo som, veja música, e os acima-da-média música de bolso e o videocast compacto. esqueci alguém? tem uma outra coisa que pensei ao rever essa lista: a ausência de medalhões. mas disso falarei no próximo post, o dos 25 discos nacionais. som na caixa.
1. “after work ganja”, de a banda de joseph tourton
2. “amarelasse”, de mini box lunar
3. “antimonotonia”, de mombojó
4. “avenida contorno”, de messias
5. “bravo mar”, de fino coletivo
6. “brocal dourado”, de tulipa ruiz
7. “cama”, de cérebro eletrônico
8. “elegância”, de rincon sapiência
9. “felicidade”, de marcelo jeneci [part. laura lavieri]
10. “i love quebrada”, de emicida
11. “lado b do jornalista”, de joão do morro
12. “mango”, de vitor ramil
13. “mi right number”, de los pirata
14. “minha mulher não deixa não”, de reginho
15. “oxe, como era doce”, de baiana system
16. “panamericano”, de gang do eletro
17. “pepeu baixou em mim”, do amor
18. “plástico bolha”, de karina buhr [e nesse video, especificamente, acompanhada de teresa cristina]
19. “pó da rabiola”, de andreia dias
20. “rei da cocada”, de m. takara 3
21. “skatephaser”, de guizado [part. céu]
22. “todo esse tempo”, de bnegão
23. “tropeços tropicais”, de maquinado [part. lurdez da luz]
24. “tudo cabe num beijo”, de seu jorge & almaz
25. “ziriguidum”, de lurdez da luz [part. rodrigo brandão]
na hora da pesquisa por videos ou audios para cada uma das 25 músicas me dei conta de um vazio audiovisual. como quase todas são de artistas independentes, sem grandes gravadoras para bancar seus clipes, o pouco registro em video que existe vem de shows (e a maioria com imagens captadas precariamente). existem clipes, e ótimos, mas a produção é muito pequena diante de tanta música (mas talvez isso seja histórico e eu, bobão, só pensei nisso agora; ou então até as majors puxaram também o freio de seus poucos artistas).
então é sempre bom agradecer a quem, nos últimos anos, vem produzindo com frequência e qualidade um importante registro visual da música popular brasileira desses tempos. nome aos bois: os veteranos do showlivre, o televisivo pelas tabelas, oi novo som, veja música, e os acima-da-média música de bolso e o videocast compacto. esqueci alguém? tem uma outra coisa que pensei ao rever essa lista: a ausência de medalhões. mas disso falarei no próximo post, o dos 25 discos nacionais. som na caixa.
1. “after work ganja”, de a banda de joseph tourton
2. “amarelasse”, de mini box lunar
3. “antimonotonia”, de mombojó
4. “avenida contorno”, de messias
5. “bravo mar”, de fino coletivo
6. “brocal dourado”, de tulipa ruiz
7. “cama”, de cérebro eletrônico
8. “elegância”, de rincon sapiência
9. “felicidade”, de marcelo jeneci [part. laura lavieri]
10. “i love quebrada”, de emicida
11. “lado b do jornalista”, de joão do morro
12. “mango”, de vitor ramil
13. “mi right number”, de los pirata
14. “minha mulher não deixa não”, de reginho
15. “oxe, como era doce”, de baiana system
16. “panamericano”, de gang do eletro
17. “pepeu baixou em mim”, do amor
18. “plástico bolha”, de karina buhr [e nesse video, especificamente, acompanhada de teresa cristina]
19. “pó da rabiola”, de andreia dias
20. “rei da cocada”, de m. takara 3
21. “skatephaser”, de guizado [part. céu]
22. “todo esse tempo”, de bnegão
23. “tropeços tropicais”, de maquinado [part. lurdez da luz]
24. “tudo cabe num beijo”, de seu jorge & almaz
25. “ziriguidum”, de lurdez da luz [part. rodrigo brandão]
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