Mostrando postagens com marcador andrés sandoval. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador andrés sandoval. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

bauru, mico leão de cara dourada & diabética

está na edição de janeiro da revista piauí minha sexta contribuição pra seção 'esquinas'. é sobre o tratamento de um mico leão diabético no zoológico de são paulo. essa pauta surgiu de uma conversa com uma amiga querida, bia abramo, que ficou sabendo de uma farmácia de manipulação na rua líbero badaró, centro da cidade, que fornecia medicamentos pro zoo. dores crônicas, antidepressivos, reposições de cálcio, problemas tão humanos, tão animais.

em tempo, minha colaboração com a revista começou com um jogo de futebol americano em são bernardo do campo ['touchdowns no abc'], depois veio um cemitério de animais em itapevi ['o paraíso é aqui do lado'], uma festa cigana na extrema zona leste de são paulo ['e o lenço levou'], um bingo erótico em santos ['um 69 e eu levo a pintola!', este acabou não sendo publicado] e uma flanelinha cinéfila ['a rosa púrpura da fradique'].

segue então uma versão maior do texto, pré-edição do bernardo esteves.

METFORMINA OU MORTE

A luta de um mico-leão diabético por sua independência metabólica


ilustração de Andrés Sandoval

Bauru estava diferente. Parecia eletricamente irritado com qualquer coisa, mas, sobretudo, com quem ousava se aproximar de sua comida. Chegou a brigar, sair na mão de verdade. E sempre com muita fome, muita mesmo, mais que o normal. Muita sede também e, por consequência, uma quantidade assombrosa de xixi. Bauru não era assim.

Então alguns pelos começaram a cair e com a pele mais exposta surgiram feridas que, por sua vez, demoravam a cicatrizar. Definitivamente era muita coisa estranha acontecendo ao mesmo tempo e, em fevereiro de 2016, Bauru deu entrada na creche do Zoológico de São Paulo, lugar que serve tanto para cuidar de filhotes abandonados pelas mães quanto para tratar de algumas enfermidades em espécies menores, como é o caso de Bauru, um dos 51 micos-leões-de-cara-dourada da instituição. 

“Logo depois que ele chegou aqui conseguimos rapidamente diagnosticar a diabetes pela dosagem da glicose sanguínea e também pelos sinais clínicos, porque ele estava com polidipsia [bebendo muita água], polifagia [comendo muito e vorazmente] e poliuria [muito xixi]”, explicou Suzana Hirata, veterinária que tem acompanhado o animal, enquanto caminha pelo corredor do seu principal local de trabalho. A edificação térrea fica entre a creche e a diretoria da Fundação que administra a vida de pouco mais de 3000 animais [eram 400 quando o zoo foi inaugurado em 1958, ao redor das nascentes do Riacho do Ipiranga, pelo então governador Jânio Quadros]. 

É nesse lugar cercado pela Mata Atlântica que cobre os 824.529 m² do zoológico – e que tem centro cirúrgico, sala de incubação para ovos de aves e répteis e almoxarifado, entre outros – que a veterinária e seus colegas preparam os remédios que serão administrados pelos tratadores nas mais diversas formas para as mais diversas espécies. Todo santo dia, várias vezes ao dia.



Agora é a vez de Bauru. Hirata pega um pouco de ração, mistura com banana amassada, acrescenta 3 gotas de metformina, um antidiabético também usado por humanos, e faz um bolinho. Esse é o tratamento diário para a diabetes do mico prestes a completar 17 anos [2 anos a mais que a média esperada para a espécie]. No entanto, o problema de saúde de Bauru é um pouco mais complexo. 

“A doença base não está diagnosticada ainda e ela é a causadora da diabetes que, no caso, é uma doença secundária. É sempre um desafio fechar diagnósticos em animais selvagens porque a gente não tem parâmetros de laboratório. Não temos referências de normalidades para todas as espécies, então trabalhamos com dosagens por alometria, que são fórmulas baseadas em metabolismos como o do cão, e vamos adequando conforme a espécie”, diz Hirata, enquanto prepara mais um bolinho.

Na parede ao lado é possível ver um painel com a organização de todos os tratamentos, dosagens, horários e seus respectivos “pacientes”. Tem, por exemplo, homeopatia e acupuntura para um urso-pardo idoso que sofre de osteoartrose, e só acupuntura para uma cobra-cipó que está passando por um processo degenerativo ósseo, ou então suplementos alimentares para animais como o leão-marinho e os pelicanos, pois eles comem peixes que chegam congelados ao zoo e que, nesse processo, perdem nutrientes.



Caminhando rumo à creche, já com os bolinhos batizados com metformina em mãos, Hirata fala mais sobre a doença base de Bauru: “A gente acha que pode ser hiperadrenocorticismo porque tem isso da alopecia [queda de pelos] e a diabetes pode ser secundária a ela. Em humanos essa doença está muito associada a tratamentos prolongados com corticoides. Em primatas não humanos não existem trabalhos publicados e, no caso dele, certamente não foi por causa de corticoides. Ainda não sabemos como isso aconteceu com ele. Mudamos dosagens, alteramos dieta, nada de frutas ou legumes, e esperamos ter alguma resposta nos próximos meses”.

Só que Bauru terá que esperar mais um pouco pelo bolinho porque o portão da creche está fechado e Hirata precisa voltar ao escritório para pegar a chave. Enquanto isso, é bom esclarecer para fins biográficos que, segundo sua ficha, Bauru não nasceu em Bauru. Sua procedência é o Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, sua data de nascimento é 15 de dezembro de 2000, e o pequeno primata chegou ao micário do Zoológico de São Paulo em 14 de fevereiro de 2008 “para compor o plantel e integrar as ações de conservação da espécie”.

Mesmo com os portões fechados é possível ver, pelo lado de fora, grande parte dos cerca de 70 m² da creche. Habitado majoritariamente por pequenos primatas e aves, o espaço ao ar livre possui uma série de ambientes com casinhas, troncos, cordas, chão de cimento, teto e, quando necessário, aquecimento. Mas cada um no seu gradeado. “O caso do Bauru é difícil, mas ele melhorou com o tratamento para controlar a glicemia. Melhoraram os sinais clínicos e o comportamento. Mas é como acontece com as pessoas, pois melhorar a glicemia não significa, necessariamente, voltar pra normalidade”.



Nem é preciso quatro passos dentro da creche para ouvir – “Esse é o Bauru” – e ver sua cara dourada grudada na grade. Ágil, ansioso e com uma juba vistosa, Bauru parece bem, mas tão logo se vira para voltar à casinha, o dorso se revela ainda sem pelos e com algumas feridas. “O Bauru é um animal idoso, o que dificulta o tratamento e uma eventual cura. Nem tudo se resolve, nem tudo a gente consegue tratar. Nem a medicina humana consegue, né? Às vezes dá uma certa frustração, mas a gente continua mesmo assim. A ideia é que ele se sinta bem, com qualidade de vida, sem dor, sem mal estar”, e Bauru sai da casinha novamente, dessa vez acompanhado por Cláudia.

Parceira de Bauru em seu retiro, Cláudia é fruto do programa de conservação do Zoológico de São Paulo, nasceu na instituição em 21 de janeiro de 2009 e tem uma saúde de ferro. “Estar acompanhado é uma decisão de bem estar. Micos leões são animais gregários, então o ideal é que sempre tenha pelo menos uma companheira ou companheiro”, e Cláudia, a mica, foi a escolhida. 

Enquanto o casal de micos se agita na expectativa por comida, Hirata coloca suas luvas, pega dois bolinhos – o batizado com metformina para um lado, o de Cláudia para o outro –, tira pequenos pedaços e os oferece. “Bauru já era de um grupo de micos que fazem parte do programa de conservação, então já não estava em exposição para o público do zoológico. Pra ele tanto faz estar aqui na creche, ou no micário. Pra gente, o que importa é ele estar bem”.

Bauru é o primeiro a acabar seu bolinho e quando chega a vez de Cláudia dar a última mordiscada, ele pula à frente, pega o pedaço e sai correndo. Hirata, a veterinária, balança a cabeça e diz entredentes, “Ai, Bauru”. 

p.s.: abaixo seguem os discos que fizeram a trilha da produção desse texto.

Brooklyn Raga Massive - Terry Riley in C 
Trent Reznor & Atticus Ross - The Vietnam War [Original Score] 
Sébastien Tellier - A Girl Is a Gun [Music from the Original Series]
Incredible Bongo Band - The Return of the Incredible Bongo Band 
Nicole Willis & UMO Jazz Orchestra - My Name Is Nicole Willis
Ghostpoet - Dark Days and Canapes
Hermeto Pascoal & Big Band - Natureza Universal

terça-feira, 12 de setembro de 2017

flanelinha porque preciso, cinéfila porque te amo

acabou de sair, agora em setembro, meu quinto texto pra seção 'esquinas' da piauí. minha colaboração com a revista começou com um jogo de futebol americano em são bernardo do campo ['touchdowns no abc'], depois veio um cemitério de animais em itapevi ['o paraíso é aqui do lado'], uma festa cigana na extrema zona leste de são paulo ['e o lenço levou'] e um bingo erótico em santos ['um 69 e eu levo a pintola!', este acabou não sendo publicado]. 

dessa vez a história foi mais próxima, aqui mesmo no bairro onde moro, pinheiros, e a protagonista é rosa, flanelinha de um quarteirão na rua fradique coutinho. é que frequentando o cinema da rua, o cinesala, ou indo na casa de amigos que moram por ali cruzei caminho algumas vezes com rosa e me diverti com as observações dela sobre os filmes em cartaz. mandei a pauta pra revista, recebi sinal verde e passei um domingo com rosa pra conhecer seu cotidiano de trabalho e histórias de sua vida.

aqui, como sempre, vai o versão original do texto. mas dá pra ler também a que saiu na piauí, um pouco menor [ah, a limitação do espaço no impresso], revisada e com alguns toques de edição. no mais, aquele abraço agradecido a rafael cariello e bernardo esteves.


ilustra que andrés sandoval fez pro texto na piauí

A ROSA PÚRPURA DA FRADIQUE

Rosa não estava se sentindo bem naquela semana e, pela primeira vez em 4 anos, faltou ao trabalho. Foram alguns dias nos quais os carros de um quarteirão da Rua Fradique Coutinho – em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo – contaram apenas com a própria sorte. “Esse tempo mais frio né. E o cigarro. Aí a sinusite atacou de novo”. Já é domingo e ela está melhor e de volta ao batente. “Peraí, chegou um carro”.

O quarteirão que Rosa toma conta fica entre as ruas Teodoro Sampaio e Artur de Azevedo, e apesar de possuir estabelecimentos como um banco, uma casa de chás chineses, a sede do Greenpeace, uma padaria e um restaurante capixaba, seu foco de atenção está em quem frequenta o CineSala, um dos poucos cinemas de rua sobreviventes da cidade. 

Inaugurado em 1962 como Cine Fiammeta, “o Cinema Elegante de São Paulo”, o atual CineSala já foi chamado de Studio ABC, Sala Cinemateca, Sala UOL de Cinema, iG Cine, Cinema da Vila, Cine Sabesp e Cinesala Sabesp. Apenas dois anos mais nova que a sala de cinema, Rosa nem lembra a última vez que foi chamada pelo seu nome de batismo, Rosalia. Rosalia Beserra Neta, natural do vilarejo piauiense de Campestre, município de Itainópolis, perto de Picos.

Ainda com alguma tosse decorrente da sinusite, Rosa perdeu a primeira sessão, às 14h. “Mas pelo que estou vendo aqui foi meio fraco. Geralmente é assim no domingo, pode ser o filme que for: a primeira e a última sessão são mais ou menos, enquanto a segunda e terceira são ótimas. Olha, outro carro”. Meros dois passos após avistá-lo, Rosa já está na rua com sua abordagem habitual para desconhecidos: “Boa tarde. Tá precisando de vaga? Vai no cinema? Comprou ingresso? Bom filme”. 

Já são quatro carros encaminhados para a segunda sessão e ela se dá o direito de acender um cigarro. “Aqui não tem filmes de ação, de efeitos especiais. É uma outra categoria, uns filmes mais culturais, dramas. Mas gosto de drama, tenho paciência pra assistir. Gosto de uma história bem contada”. Então estica um pouco o pescoço ao ver um carro se aproximando devagar. “Esse vai pro estacionamento”, e relaxa novamente.



“Na época do Cine Sabesp, quando comecei a trabalhar aqui na rua, não me sentia confortável pra ver os filmes, mas depois que mudou para o CineSala passei a conhecer todo mundo. Às vezes pago ingresso, às vezes me dão cortesia e também já vi filme pago por gente que vem assistir”. Contabiliza uns 25 filmes em pouco mais de 2 anos. Não lembra o nome de todos, mas não esquece a empregada de ‘Que Horas Ela Volta?’, a péssima cantora de ópera de ‘Marguerite’ e o amor proibido de ‘Carol’. Ficou bastante impressionada com ‘O Regresso’, um tanto pela atuação de Leonardo DiCaprio, mas principalmente por descobrir que é possível sobreviver a uma tempestade de neve abrindo a barriga de um cavalo morto e se aquecendo dentro dela.

“Lembro também que vi ‘As Sufragistas’, aquele filme que passa lá atrás quando as mulheres não tinham direito a nada e eram escravizadas no trabalho”. Rosa diz que nunca se sentiu “escravizada” por nada, mas está na lida diária desde antes da maioridade, afinal perdeu os pais aos 10 anos e veio para São Paulo morar com os irmãos. Trabalhar era mais que preciso.

Seu primeiro emprego foi numa metalúrgica no Alto da Mooca, mas logo casou e passou a trabalhar com o marido em feiras-livres. Não demorou muito e recebeu uma licença da Prefeitura de São Paulo pra trabalhar como camelô na região Santana/Tucuruvi, Zona Norte da cidade. Foram 30 anos assim, vendendo todo tipo de coisa, desde guarda chuvas até, mais recentemente, capinhas de celular.

No entanto, 8 anos atrás, durante a gestão de Gilberto Kassab, a Prefeitura cassou todas as licenças da região e Rosa virou clandestina. Em um determinado mês chegou a ter seus produtos apreendidos 8 vezes pelo “rapa”, a Guarda Civil Metropolitana. Resultado: perdeu todo dinheiro que tinha guardado, cerca de R$ 18 mil, e chegou a ser despejada. O momento só não foi pior porque ela já estava separada – sobre o ex-marido não gosta nem de falar – e seus dois filhos, Marcela e Eduardo, já estavam grandinhos, formados. “Agora preciso trabalhar”, e volta para a rua, afinal a segunda sessão de domingo está prestes a começar e sempre aparecem uns carros retardatários.

Rosa ainda insistiu um tempo na clandestinidade, mas a idade e a falta de dinheiro deram um fim à essa correria. Após um período de bicos variados ela decidiu tentar a sorte em uma região que não conhecia. Começou pela Vila Madalena e, apesar de não beber, ficou encantada com a quantidade de barzinhos. Mas nada de trabalho. Então foi descendo pela Rua Fradique Coutinho, chegou ao bairro de Pinheiros e numa conversa casual foi abordada por Raimundo, um flanelinha da área. Foi ele que, quatro anos atrás, “ofereceu” o quarteirão do CineSala, pois não estava dando conta de tantas ruas. Rosa topou na hora e foi ficando, ficando. “Esse quarteirão me acolheu”, confessa.



A segunda e a terceira sessões foram realmente boas, conforme previsto por Rosa, e ela ficou de olho em nove e doze carros, respectivamente. “Quando estreia filme novo a primeira coisa que faço é ler a sinopse. Depois pergunto pra um dos gerentes do cinema se ele acha que vai dar público ou não. Eles até brincam que pareço um dos donos, porque pergunto tudo. Mas é que preciso estar informada porque sempre tem gente que pergunta como é o filme que está passando ou se está lotado”. Falta meia hora para começar a última sessão de domingo, apenas três carros apareceram e quando um quarto surge na esquina ela nem pestaneja. “É Uber”.

“Tem filme que sei que não é bom, ou me falam que não é bom, mas só comento depois que o filme sai. Ou então se tiver intimidade com a pessoa. É o meu ganha pão, não vou falar mal. Meses atrás teve um que entravam umas 50 pessoas e saíam umas 120 antes do filme acabar”, e solta uma gargalhada. “Nunca tinho visto isso. O filme chamava muita gente, é de um diretor conhecido [‘Os Belos Dias de Aranjuez’, de Wim Wenders], mas quando acabava a sessão não tinha mais ninguém”. 

Apaixonada por cinema desde que viu, ainda garotinha, filmes de Bruce Lee no centro de São Paulo, Rosa ficou um bom tempo longe das pipocas. Fase de muito trabalho e crianças pequenas em casa. Mas bastou crescerem um pouco e os levou para assistir ‘O Rei Leão’ e ‘A Bela e a Fera’ e se divertiu tanto quanto eles. “E também gosto muito do Woody Allen, por exemplo. Quando aparece um filme dele tem que ver. Mas esse último, o ‘Café Society’, vi aqui e foi um dos mais fracos dele. Achei uma Sessão da Tarde melhorada”. E dá uma risada.

Um dos que mais gostou no ano foi ‘Capitão Fantástico’. “Fiquei encantada com esse filme. Achei que o pai [interpretado por Viggo Mortensen], mesmo vivendo no mato, conseguiu educar os filhos muito bem. Criei meus filhos da mesma forma, dando liberdade prumas coisas, segurando outras. Me identifiquei muito”. 

É que Rosa criou seus dois filhos com o dinheiro que ganhou em seus tempos de camelô. “Dinheiro da rua, da selva de pedra”, diz com orgulho. Marcela, a mais velha, é formada em Administração, trabalha numa grande empresa, mora em Guarulhos e está prestes a lhe dar o primeiro neto. Eduardo, o mais novo, é formado em Psicologia, fala cinco línguas e há dois anos mora em Tóquio. Os dois não precisaram abandonar os estudos na metade do ensino fundamental, nem trabalhar desde cedo, porque Rosa fez questão que sua história não se repetisse. “Chegou o último carro do domingo”, e sai apressada. 

É sinal de que só tem mais umas duas horas de trabalho. Tempo do filme acabar, as pessoas e seus carros saírem, a luz da marquise apagar e as portas descerem. Aí ela também voltará para casa, cinco quarteirões dali. Queria jantar alguma coisa e ver ‘Velozes e Furiosos 8’, mas o controle remoto do DVD está com defeito e ela terá que se contentar com o Domingo Maior. 



“Olha, sempre adorei trabalhar na rua. Não tem rotina, todo dia tem gente diferente, cada um com sua ideia. Mas gosto mais de lidar com gente de idade porque são pessoas que já viveram o bastante para não desejarem o mal de ninguém. Acho que é porque fui criada sem pai nem mãe, então dou corda, gosto. E gosto que gostem de mim. Acho que sou meio doida, né?”. Enquanto sua pergunta fica no ar, passa uma cadelinha. “Oi, Sofia!”, e a cadelinha se aproxima. “Olha, ela já tá até me cheirando”, diz para o dono. Sofia sai balançado o rabo. Rosa conquistou mais um.

p.s.: no final de outubro encontrei Rosa mais uma vez no quarteirão do Cinesala e, coisa rara, ela tava toda emocionada. é que pouco minutos antes um casal de clientes-amigos de longa data passou por ali com um presente: o perfil dela que fiz pra Piauí numa moldura.

domingo, 8 de janeiro de 2012

cigano igor não mora mais aqui

meus dois primeiros textos para a revista piauí foram publicados em 2008 ("touchdowns no abc" e "o paraíso é aqui do lado"). depois fiquei um tempo afastado após ser efetivado como editor da revista monet. mas o comichão de escrever sobre outros assuntos e em outros veículos voltou a me pegar ali pelo final de 2010 e fui tentando emplacar outras pautas que não foram pra frente por um motivo ou outro (a ex-liga das senhoras católicas foi uma delas, roberto leal na festa de aniversário da portuguesa de desportos foi outra). até que em outubro do ano passado apareceu, via o grande amigo pitris claudino, a história de uma festa cigana nas profundezas da zona leste paulistana e a revista topou (na figura de bernardo esteves, atual editor da seção "esquinas").

a festa aconteceu na noite de 11 de novembro (11.11.11), poucas horas depois d'eu ter chegado de las vegas (onde nasceu "penhores e delírios em las vegas" pra monet), e eu estava absolutamente no fim das minhas forças. ainda mais depois de mais de duas horas de trânsito para chegar até o polo cultural da zona leste. no entanto, chegando lá, fui recobrando as energias com a versão brasileira dessa cultura que me interessa muito e há tanto tempo (desde o começo dos anos 1990 quando assisti a filmes de emir kusturica como vida cigana e underground).

logo que comecei a escrever decidi que não iria me ater ao tamanho que me foi pedido (6 mil toques) e depois cortaria. mas quando coloquei o ponto final, o texto estava com 12 mil e uns quebrados. fui cortando parágrafos inteiros até chegar a 7800 e vi que não conseguiria mais, então soltei a bomba nas mãos do bernardo esteves que, muy gentilmente, a desarmou e a editou como o novo título de "lenços ao vento" (que está na edição de janeiro da revista). segue aqui então a versão original da reportagem com espaço para todo tipo de digressão. 


desenho de andrés sandoval para o texto na revista

E O LENÇO LEVOU

Rodrigo Valenzuela não parou um minuto naquela sexta chuvosa em São Paulo e quando a noite caiu o trabalho estava apenas começando. Foi então que precisou se desdobrar em anfitrião, mestre de cerimônias, produtor, chefe de família, marido, pai e dançarino, além de porta-voz da cultura cigana. Nada podia dar errado na 3ª Festa da Abertura dos Portais, uma responsabilidade familiar dentro da comunidade e, ao mesmo tempo, homenagem a avó Maria Gomes Valenzuela Fernandez. Pelo menos a chuva foi embora. Ficou apenas o vento.

E às 20h30 tinha mais vento que gente no Polo Cultural da Zona Leste, altura do número 3300 da Avenida Águia de Haia, Ponte Rasa. A fogueira não tinha sido acesa, as barracas dos oráculos estavam vazias e a grande quadra – que em outras noites recebeu shows de Arlindo Cruz a Racionais MCs, de Belo a Clube do Balanço – nem suspeitava que pouco mais de mil pessoas passariam por ali nas próximas 10 horas (estimativa do próprio Valenzuela). De resto, tudo positivo e operante, com cerca de 20 expositores prontos para vender bijouterias, pinturas com motivos ciganos, bonecas, roupas, espadas, punhais, uma bebida a base de vinho chamada Sangue de Dragão, almofadas com a bandeira cigana (metade de cima é azul/céu/liberdade, metade de baixo é verde/terra, com uma roda de carroça no meio, a vida nômade) e até cocares vendidos por um trio de índios. Como Valenzuela deixaria mais claro posteriormente este não seria o primeiro sincretismo da noite cigana.

“Eu e minha esposa Jovanka sempre soubemos que tínhamos raízes ciganas, mas foi só a partir do nosso casamento, cinco anos atrás, que a gente partiu pro resgate da nossa cultura”, explicou Valenzuela, hoje com 33 anos e fabricante de perfumes ciganos. “Minha família veio da Espanha, sempre tive isso comigo. Cresci falando espanhol, só que não sei escrever, mas quando fui ficando mais velho descobri que algumas palavras que eles diziam, umas 20, eram diferentes. Eles só me diziam que era língua da família. Depois descobri que era romani”.

Enquanto as pessoas vão chegando, o espaço é dominado por música, uma mistureba de sons do mundo cigano, ora mais pops, ora folclóricos, e em várias línguas. Mulheres de todas as idades dançam sozinhas, mas homens nunca o fazem desacompanhados. Quando casais se formam, o homem protege a dança da mulher como um porta-bandeira e essa proteção às vezes ganha o reforço simbólico e muito real de um punhal.

Próximo aos dançarinos, uma das três barracas de comida presentes ao evento solta cheiros dos mais diversos, mas apesar do cartaz “culinária cigana”, seu dono, Wildão, não trouxe nada muito típico para a noite. “Resolvi não arriscar porque em festas com muitos gadjés (ou gadjôs, isto é, não-ciganos) a comida cigana não tem muita saída”, confessa. Nada de carneiro (bacrô) ou charuto (sarmá), por exemplo. Conversando com todos os clientes que encostam a barriga no balcão, o próprio Wildão comanda a chapa, de onde saem lanches de pernil (balô) e linguiça (boí), enquanto seus assistentes fazem pastéis, tempurás e yakisobas. Wildão, aliás, usa uma bandana com ideogramas orientais que evita de cabelos caírem na comida, mas não impede de uma gota ou outra de suor pingar na chapa quente.


wildão, de camiseta azul e bandana, com bandeira cigana em destaque 

“Gosto de cozinhar, sempre gostei e faz muito tempo que vivo trabalhando assim em festas, feiras e rodeios. Só que quase morri uma vez na estrada e desisti dessa vida. Agora tenho uns pontos fixos em Santo André, que chamo de Rancho do Wildão, e de uns 15 anos pra cá comecei a trabalhar em festas ciganas”, e segue misturando pernil e linguiça com vinagrete em altas temperaturas. “É que minha avó espanhola era cigana e encontrou com meu avô, que era italiano, aqui no Brasil, em Garibaldi, Rio Grande do Sul. Mas tem índio bugre na minha família também. Quer dizer, tenho sangue cigano, mas não me considero cigano. Sou curioso”, diz o homem grande de braços lotados de pelos já brancos. 

Por volta das 21h, com quase 300 pessoas presentes, começa a primeira atividade da noite, uma missa ecumênica comandada pelo Bispo Edivaldo dos Santos, da Igreja Católica Apostólica da Redenção, direto de Brasília. “Sabe o que está diluindo a tradição? A criminalidade, a falta de compreensão, a falta de humanidade entre nós”, conclama o bispo do alto do palco para uma minoria atenciosa, majoritariamente do sexo feminino, tanto de cabelo solto (solteiras) quanto de cabelo preso (casadas), todas descalças e sem jamais mostrar as pernas.

No entanto, mesmo que a maioria dos estimados 800 mil ciganos que vivem no Brasil tenha uma ligação mais próxima com a Igreja Católica, existem famílias evangélicas, muçulmanas, espíritas, missa em romani, ciganos que não praticam mais a vidência e por aí vai. Valenzuela foi descobrindo isso durante esses cinco anos de resgate pessoal e viu que “os gadjé confundem raça e religião. Somos uma etnia, estamos livres para todas as religiões. Eu, por exemplo, amo a umbanda. O que quero dizer é que religião e cultura mudam muito de clã pra clã, de subclã pra subclã, de família pra família”. 

Só que numa ocasião especial como essa, Valenzuela optou por abrir os festejos com uma missa cristã (não é comum). Era um jeito de agradar o máximo possível de convidados e também de estreitar laços com as famílias ciganas de Brasília que vem, no centro do poder federal, conseguindo benefícios para a comunidade como a possibilidade de ser atendidos pelo SUS sem precisar comprovar residência e o Centro Calon de Desenvolvimento Integral (CCDI), primeiro centro de referência cigana do Brasil, inaugurado em 2009 na cidade de Sousa, semiárido paraibano (um dos 291 municípios brasileiros que possuem acampamentos ciganos segundo censo do IBGE do ano passado).

Para um gadjé de primeira viagem é impossível distinguir entre os grupos de ciganos. Quem são Caló (ou Calon, ou Calon), provenientes da Península Ibérica e invariavelmente de acampamento? Quem são Romani (ou Rom), os que vieram do Leste Europeu e fixaram residência? Quem são os Kalderash, que vieram da Rússia? Quem são Matchuaya, ortodoxos, menos propensos a absorverem as culturas locais como os outros? Ainda mais na festa, quando as roupas os unem com suas cores berrantes, lenços, acessórios, brilhos e miçangas. A cantilena do bispo interrompe o raciocínio.


o bispo edivaldo dos santos em ação

“Geralmente o bispo aqui é acompanhado por um grupo de fiéis cantando, mas seria muito dispendioso trazer todos até aqui, por isso só vim acompanhado da minha secretária, que está muito cansadinha da viagem. Então me ajudem na cantoria”, pede o bispo durante a missa que se estende por uma hora, interminável para os casais que querem voltar dançar. A maioria nem liga e permanece conversando, comendo pastéis e tempurás, ocasionalmente gritando quando reencontram velhos amigos.

Para a alegria de alguns, a missa acaba e pouco depois, quando o relógio marca 22h20, começa o cortejo de Santa Sara Kali, padroeira dos ciganos. Só mulheres de cabeças cobertas são permitidas e apenas virgens podem levar as imagens. Portanto, duas meninas, rindo orgulhosas para os flashes, são colocadas à frente das mulheres. Exibem Santa Sara e sua equivalente católica, Nossa Senhora Aparecida, que são postas em um pequeno altar cercado por frutas e pães no meio da quadra, de cara para o palco. As frutas, dentre elas melancias, uvas, ameixas e melões, não demoram muito a serem comidas. De vez em quando uma voz surge ao microfone falando de um lenço perdido, uma cena que se repete algumas vezes durante a noite. 

Então, com as santas devidamente entronadas chega a hora de acender a fogueira que acompanhará todo o resto da festa. Um homem mais velho é escolhido para ser seu guardião, ele não pode nem sonhar em deixá-la apagar, e a partir dele se forma um círculo de outros subguardiões com tochas. Passando por eles, a primeira-dama da festa Jovanka Valenzuela acende a fogueira com muito custo, afinal o vento continua passeando solto pela quadra, e uma cigana do Rio de Janeiro, Lumiar, amiga da família e oraculista respeitada na comunidade, abençoa a fogueira aos gritos de “optchá!”. 


o guardião do fogo de olho no lance

Também oraculista, Silvana acompanha de longe o cortejo e o acendimento da fogueira. Ela é uma matchuaya e em outros tempos nem estaria ali. “Eu não poderia nem falar com você sem baixar os olhos, mas cinco anos atrás me separei, não aguentava mais traição. Os homens matchuaya não fazem nada, são como os leões, só gritam e batem nas mulheres. Virei vagabunda por causa da separação, mas recentemente acabei voltando para que não acontecesse o mesmo com minha fllha. Ela agora tem 16 anos e queria casá-la”. Silvana sabe que é impossível fugir desse assunto, é questão de vida ou morte para os ciganos, mas não demonstra nenhum maior interesse quando é anunciado o casamento da noite. “Sabia que existem versões romani para ‘Morango do Nordeste’ e algumas músicas do Roberto Carlos?”, desconversa.

O relógio passa das 23 horas e, na verdade, uma das ideias originais era que às 23h11 desse dia 11 do mês 11 do ano de 2011, os autofalantes tocassem o hit “La Bamba” a plenos pulmões. É que seu autor, Ritchie Valens  (1941-1959), nasceu Ricardo Esteban Valenzuela Reyes a partir de um ramo da família que foi para o México e Estados Unidos, e sua música acabou virando hino informal de todos os Valenzuelas. Porém, com o atropelar dos eventos, o “sim” dos noivos pareceu mais adequado para coroar o momento. Ritchie Valens compreenderia.

De qualquer forma foi preciso correr para o “sim” cair exatamente às 23h11. Giovana, toda vestida de vermelho (o que para algumas famílias significaria que ela não era mais virgem), desceu de uma escada na lateral do palco e agarrou o braço do pai. O noivo Arthur já a esperava no palco junto com os padrinhos, madrinhas e o Bispo Edivaldo. E os poucos metros que os separavam foram preenchidos por uma explosão de papéis laminados. Deu tudo certo.


rodrigo valenzuela, o pai da noiva e a noiva giovana

Na segunda parte do casamento, Arthur e Giovana foram levados para próximo da fogueira e a cigana Lumiar também os abençoou, mas de uma forma mais requintada: com um punhal fez um corte no pulso esquerdo de ambos e os uniu com uma fita vermelha. Vinho tinto foi bebido, taças foram quebradas na fogueira e a partir dali nada mais seria o mesmo para o casal. “Arriba, minha gente”, gritou e dançou Lumiar. A essa altura mais de 600 pessoas circulavam pelo Polo Cultural, grande parte na quadra, que também já recebia um dos quatro grupos musicais da noite, além de uma das muitas companhias de dança.

Numa cultura que sempre foi mais de defesa, de “consumo interno”, que de afirmação, principalmente por não ter versão escrita, Valenzuela transformou uma festa familiar numa arriscada e pública carta de intenções. “Palavra qualquer papagaio aprende. Cigano é muito mais que isso, é atitude, por isso reconheço a ciganidade de cada um chamando de primos esses ciganos de coração. Quem sou eu para tirar isso deles? Só que por causa disso muita gente de dentro da comunidade me critica”.

Mas onde entra a “abertura dos portais” nessa história? “São portais para o nosso resgate cultural. Queríamos que essa festa fosse um resumão de tudo o que a gente tem de melhor. Porque eu já nem me preocupo mais com os preconceitos, essa coisa de roubar criança. Claro que tem cigano que não presta, mas também existem portugueses que não prestam, japoneses que não prestam. Hoje em dia o nosso maior problema, fora a educação para as crianças, é interno: de um querer ser mais cigano que o outro. Maldito seja o cigano que quer ser mais que o outro porque vai morrer sozinho”. 

Meia-noite passou faz tempo quando Rodrigo e Jovanka Valenzuela pegam o microfone para agradecer emocionadamente os presentes, ciganos e gadjés de todos os cantos do país. Citam nominalmente uns e outras. Mas ele, de repente, parte para uma linha mais confessional. “Sou um brasileiro que começou a resgatar a sua própria tradição. Já fui da umbanda, hoje sou de Deus. Somos de tudo e não somos de nada. Vivemos no meio da roda, somos ciganos. Um salve para minha mãe Oxum! Oraiêiê Oxum!”. Jovanka o olha, sorri, pega o microfone e arremata pragmaticamente: “Agora sim vai começar a festa!”.


e a festa cigana pega fogo

p.s. 1: esse texto foi escrito sob o efeito de uma trilha sonora formada por bambara mystic soul – the raw sound of burkina faso; erkin koray (meçhul: singles & rarities); hypnotic brass ensemble (bulletproof brass); bad bad not good (bbng/the odd future sessions); chocolate milk (action speaks louder than words); e são paulo undergound (três cabeças loucuras).

p.s. 2: o polo cultural da zona leste é também conhecido como espaço cultural chico mourão. quando comecei a escrever o texto procurei me informar sobre ele e achei pouquíssima coisa e nada que pudesse entrar no texto. mas segue aqui o pouco que achei... chico mourão (1950-1998), paulistano de são miguel paulista (das redondezas, portanto), foi cantor, compositor e produtor. trabalhou com figuras como tim maia, leandro & leonardo, déo lopes, agnaldo timóteo e cida moreira, entre outros e outras. lançou apenas um disco solo, baião absurdo (cactus discos, 1980), com oito canções próprias e destaque para a ótima "eu chupo um drops".

p.s. 3: agradecimentos públicos a pitris claudino que não só me deu a deixa para essa pauta (te devo essa, picles!) como foi meu guia durante toda a noite. 

p.s. 4: o título desse post ("cigano igor não mora mais aqui") foi minha primeira ideia para o titulo do texto, mas não consegui encaixar o personagem de jeito maneira na reportagem e guardei a piadinha para quando a publicasse no blog. para quem não lembra, cigano igor foi o personagem interpretado pelo ator ricardo macchi na novela explode coração (1995-95), de gloria perez.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

uma bola oval não precisa de black-tie

gosto de futebol americano. não acompanho, não tenho time, mas gosto. tem algo além da pancadaria que nunca soube explicar, nem pra mim mesmo. um ano atrás, o futebol americano me fez estrear na seção esquina da revista piauí (uma outra versão dessa reportagem saiu na monet). acompanhei um jogo em são bernardo do campo no famoso estádio que viu nascer o lula, o pt e o começo de uma nova democracia no brasil. segue abaixo a versão original (não editada e muito menos revisada) do meu texto.

TOUCHDOWNS NO ABC

“Até que ficou bom, o campo”, pensou em voz alta a mulher de um dos funcionários do Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo. Ela não sabia direito o que iria acontecer, nem era de seu interesse. Estava ali apenas para levar o celular de seu marido desmemoriado. Às 11h30 de um ensolarado sábado, 24 de novembro último [2007], o estádio da Vila Euclides, palco de célebres assembléias do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC no final da década de 1970 estava recebendo, quase três décadas depois, os últimos retoques para um evento igualmente histórico, pelos menos segundo seus organizadores: o primeiro jogo oficial de futebol americano no Brasil.

Os tais retoques consistiam na finalização da cabine de som e na instalação de uma enorme embalagem inflável de um dos patrocinadores da contenda entre o time da casa, o São Bernardo Cougars, e os visitantes, o Sorocaba Vipers. De jarda em jarda, a pintura do gramado foi feita poucos dias antes pelos próprios organizadores, a Federação Paulista de Futebol Americano (FPFA), o que facilitou o trabalho de reconhecimento dos envolvidos. Todos estavam vermelho-camarão, incluindo o presidente Hugo Bustilho.


“Até chegar esse dia foram precisos dois anos e meio, mas começou a virar mesmo de um ano pra cá. Trabalhando só nisso. Coloquei na minha cabeça que não iria mais jogar para profissionalizar o negócio. É a minha ocupação principal. Antes? Eu era militar, da Força Aérea, fiquei três anos lá e sempre trabalhando com futebol americano”, afirmou Hugo que, aos 26 anos, possui ainda o canudo de Educação Física pela Universidade Metodista de São Paulo. Enquanto tudo vai sendo checado pelo pessoal da federação e um bando de passarinhos dá rasantes no gramado recém pintado, Hugo retoma o raciocínio e dispara, “já gastei muito dinheiro, sei que vou gastar ainda mais, mas coloquei essa meta pra mim. Se até tal dia não conseguir profissionalizar esse esporte no Brasil, vou embora... mas é claro que não conto que dia é esse! Minha família sabe”.

Ainda faltam cerca de quatro horas para a bola começar a rolar. Quer dizer, bola de futebol americano não faz dessas coisas. “Quando era moleque, uns 12 anos, acompanhava um programa da Bandeirantes em que o Luciano do Valle falava dos esportes americanos. Mas só falava quando era final ou início de temporada. Foi assim que descobri o Chicago White Sox de beisebol e o Chicago Bulls no basquete. Adotei a cidade de Chicago como sendo... vamos dizer, aqui sou Santo André no futebol porque nasci em Santo André, mas de futebol não entendo nada... na verdade, eu tinha um boné escrito Chicago e quis torcer para todos os times da cidade. No futebol americano sou o Chicago Bears”, respondeu Hugo com um ouvido nas perguntas e o outro no rádio, à espera dos problemas.

Mesmo com a entrada gratuita, sorteio de brindes e um show ao vivo de um cover de Elvis Presley – táticas indispensáveis para chamar um público que não sabe nada sobre a bola oval -, um evento desta magnitude está sempre sujeito a um probleminha aqui e outro acolá: um grupo de amigas quer dar um passeio no campo e não pode; o pessoal do time de Sorocaba já deveria ter chegado e provavelmente não terá tempo para se aquecer; as esfihas para alimentar as equipes terão que vir de um Habib’s em Santo André por algum motivo desconhecido e nem todos os jogadores possuem capacete, o que inviabiliza o jogo em toda sua plenitude (o uniforme completo, e importado, custa algo em torno de 500 reais). 
O sol continua forte quando os primeiros espectadores se aprumam nas arquibancadas. “Não esquece de falar para o pessoal pegar leve. Isso aqui é entretenimento!”, afirmou Marcos Granado, diretor de marketing e assessor de imprensa da federação, por rádio. O recado foi endereçado aos jogadores do São Bernardo Cougars que tinham acabado de chegar. Hugo balança a cabeça discretamente em sinal de aprovação e volta a relembrar seus tempos de adolescente. “Comecei jogando basquete, mas fui convidado a me retirar... é que arrumei confusão, joguei uma mesa na torcida, mó várzea! Aí a federação não me deixou mais jogar. Joguei rugby por uns seis meses, mas vi que não era pra mim. Queria um esporte que não existia aqui, então comecei a pesquisar. Comecei a jogar futebol americano em 1998, com uns 17 anos”. Entre partidas amadoras no Parque do Ibirapuera em São Paulo, eventualmente organizadas pela Associação Brasileira de Futebol Americano & Flag (ABRAFA), e jogos com amigos em Santo André, Hugo tomou gosto pelo esporte ao ponto de sonhar em organizar a bagunça. “Olha, preciso ir ao vestiário resolver umas coisinhas. Fica à vontade”, e segue estádio adentro.

“Cadê as cheerleaders???”, gritou um dos 30 e poucos integrantes do São Bernardo Cougars antes do time entrar no campo para o aquecimento. O que havia de mais próximo ao pedido era um grupo de dançarinas das Faculdades Integradas de Santo André (FEFISA) que iriam se apresentar no intervalo de jogo. Bastou uma olhadela nas moças para os jogadores da casa capricharem no aquecimento, mesmo depois de terem sofrido nas mãos do DJ que interrompeu uma série de rocks clássicos para colocar “What a feeling” da trilha do filme Flashdance (“Puta música de boiola”, lamentou desolado um dos jogadores). Corrida para lá, lançamento para cá e algumas trombadas bisonhas acabaram servindo de prato cheio para o deboche se espalhar entre os presentes. “Tá com uma havaiana na mão, porra?”, berrou um senhor de boné vermelho. “Que merda! Eu quero é ver os malucos, pá!!!!”, disse um garoto com camisa da seleção brasileira de futebol batendo uma mão na outra.
 Então, é chegada a hora do Hino Nacional. Ouviram e cantaram, às margens plácidas da Vila Euclides, cerca de 300 pessoas, entre famílias munidas de lanches e refrigerantes de 2 litros, jovens casais, turmas de amigos e crianças, uma delas com a camisa do boleiro inglês Beckham e, obviamente, as duas equipes. Esta partida-exibição é a primeira das quatro etapas do Circuito Paulista de Futebol Americano, uma espécie de laboratório para o primeiro campeonato oficial, a ser realizado em setembro deste ano [2008, e que acabou não acontecendo], e que ainda contará com o Santo André Huskies, o Mauá Wild Horses, o Itatiba Priests, o Santos Black Sharks e os paulistanos Sampa Red Warriors e Hades Nightmare. Enquanto o jogo não começa e a organização dá início ao sorteio de brindes, o cover de Elvis Presley [foto acima] domina o microfone, canta versões de músicas como “Suspicious Mind” e ainda arranja fôlego para ameaças bem humoradas do tipo: “Se não aplaudirem eu canto de novo!”.

Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo. Hugo, o presidente da federação, está de roupa trocada e daqui em diante é o principal juiz da partida. O time da casa não consegue se encontrar e o primeiro tempo acaba com um placar de 19 X 0 para os visitantes. Desesperados com o sacode, alguns jogadores do Cougars xingam o juiz e um deles, mais afoito, solta um “não quero passar vergonha em casa... vamos bater nesses caras!!!”. Mas a casa não queria mais saber deles e, aos brados e risos, um grupo de amigos repetia um mântrico “Ahá! Uhu! Vá tomar no Cougars!”.



O segundo tempo não poderia ser pior para o time da casa. Mais penalizações, expulsões e uma nova saraivada de touchdowns dos visitantes. Era fim de tarde e boa parte do público tinha saído no intervalo para cuidar de sua vida. Mas essa gente não viu o banho que o Vipers levou quando o relógio bateu 6 da tarde e as mangueiras que regam o gramado ligaram automaticamente logo atrás de seu banco de reservas. Também não viram o pequeno cachorro do vigia entrar no campo e encrespar com um jogador do Cougars. Nem ficaram sabendo que o placar final foi 41 X 0. “O grande barato? É o jogo completo. A estratégia, a força, tudo. É um jogo de cabeça, né?”, explicou Hugo, aliviado por ter conseguido produzir a primeira e heróica cabeçada do futebol americano no Brasil.


olhaí o são bernardo cougars (de azul) tentando algo

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

jardim muy amigo

meu segundo texto pra piauí foi sobre um cemitério de animais na grande são paulo, o jardim do amigo. troço bacana demais de fazer, principalmente porque não tenho nenhuma relação afetiva com bichinhos e tal, o que impediu sentimentalismos (mas não sentimentos). foram duas visitas, dois sábados e saiu o texto abaixo. esta foi a versão que mandei pra revista, inclusive sem revisão. a impressa foi editada pelos gentis e atentos roberto kaz e joão moreira salles e foi publicada na piauí nº 24, em setembro de 2008. no mais, três fotinhas feitas com celular na primeira visita.



O PARAÍSO É AQUI DO LADO 


Ou de como Zeus, Krishna, Saddam e Bradock Ribeiro se encontraram em um jardim

Dois dos três tenores estão lá. A saber, Pavarotti e Placido Domingo. Juntos com Piaf, Prince, James Brown, Janis Joplin e Lady Laura. Próximos de Bambi, Mickey, Lassie, Snoopy, Scooby e She-Ra. Todos em uma área arborizada de 18 mil m² cortada por um riacho e protegida, logo na entrada, por uma placa de “Cuidado Cão Bravo”. Estão ao lado do Paraíso. Ou, para ser mais preciso, dividem terreno com a Pousada Paraíso. No maior cemitério de animais de São Paulo, o Jardim do Amigo, tudo é feito com muito respeito pela memória de 8 mil bichinhos enterrados, desde o atendimento profissional até os nomes dos setores disponíveis (Palmeiras, Colinas, Cascata, etc). Mas como todos sabem, inclusive os animais domésticos, a vida é dura e em um dos folders disponíveis na recepção a realidade não é menos cruel: “Não permita que seu animalzinho tão querido seja incinerado junto com restos hospitalares”.

Situado próximo ao Km 35 da Rodovia Castelo Branco, município de Itapevi, o Jardim do Amigo foi inaugurado em novembro de 1993 como filial do argentino Jardin del Amigo, desde 1987 nos arredores de Buenos Aires. A proprietária de ambos, a hermana Adriana Kreuzer, sentiu um estalo quando sua gatinha adoeceu lá pelos idos de 1975. Foi então que percebeu a fragilidade da vida e a ausência de um lugar em sua terra natal, no qual ainda mora, para enterros dignos de animais domésticos. Em tempos de Mercosul foi pioneira no Brasil ao montar um cemitério parque para um público que desembolsa quantias que variam de R$ 190 a R$ 1.313, dependendo do tamanho do animal e do setor escolhido, além de uma manutenção anual que varia de R$ 160 a R$ 330. O setor Colinas sai mais em conta, enquanto o Pinheiros e o Palmeiras são considerados mais elegantes.


“Você não imagina como estou!”, afirmou de olhos marejados a aposentada Ligia Damasceno enquanto assinava recibos na recepção. “Perdi meus dois gatos esse ano. O Léo tinha 16 anos e morreu em maio e agora, pouco mais de dois meses depois, vim trazer a Dolly que tinha 11 anos e 3 meses. Ela morreu hoje de manhã no veterinário. Ele que sugeriu o Jardim do Amigo. Não sabia da existência disso aqui, mas sempre pensei em enterrá-los. Como minha mãe foi. Como eu serei. Eram muito amigos, muito carinhosos. É um conforto saber que não foram abandonados”. Gatos como Léo e Dolly são 15% dos animais enterrados. A grande maioria, 80%, é canina e o restante é formado por pequenos mascotes como pássaros, hamsters, chinchilas, ferrets, tartarugas, coelhos e um galo chamado Pintinho.

Do outro lado da mesa, Cristina briga com a impressora. Plantonista aos finais de semana, revezando sábados e domingos, ela trabalha no Jardim há sete anos, mas não quer saber de animais na casa que divide com o filho. “Porque é pequena e não quero passar pelo sofrimento que vejo nessas pessoas que vêm aqui. A gente se apega, né?”, e finalmente consegue arrancar uma folha que estava emperrando a impressão de um novo contrato. Daqui a cinco anos, Ligia poderá escolher se permanece com seus gatinhos enterrados ou se encerra tudo de vez e opta pela exumação. Apesar de muito solicitados pela clientela, os caixões de madeira foram abolidos por atrapalhar a decomposição. Lá fora um outro funcionário do cemitério (são dez ao total) anuncia em voz baixa que havia terminado a pequena cova situada na Alameda da Brisa.

Ligia vai até o carro, abre a porta e tira algo enrolado em um cobertor xadrez. Seu choro volta enquanto leva Dolly até a sala de velório, ao lado da recepção. O pequeno cômodo, com um banheiro em anexo, está abarrotado de mensagens escritas à mão ou impressas, inclusive em japonês, além de brinquedos, fotos, desenhos e imagens de Santo Expedito, São Lázaro e São Francisco de Assis. Ligia coloca suavemente sua gatinha branca sobre a mesa da sala e seu choro ganha o reforço de soluços. Hora de deixá-las a sós.
Como em todo fim de semana, o Jardim do Amigo recebe um número maior de visitas que renovam os vasos de flores sob as lápides e relembram as travessuras de Maguila, Jesse James, Toquinho, Lady Di e Sócrates. Ou então de Pentelha, Rasta Johnson, Browser, Cindy Lauper Porto, Boby Degremont e dos irmãos Bingowellow, Bradock e Adelina Ribeiro. Durante muito tempo, a média de enterros mensal girava em torno de 5, mas nos últimos anos esse número vem aumentando e já bate na casa de 60. “Você pode chamar o garoto?”, é Ligia que, cerca de dez minutos após entrar na sala de velório, pede um auxílio. “Sinto falta de uma cerimônia religiosa para os bichinhos, sabe? Não ia fazer mal nenhum”.

Sem nenhuma cerimônia, mas com alguma suavidade, o funcionário cobre o fundo da cova com plástico, envolve Dolly com uma manta branca de algodão e deposita o corpo a três palmos do chão. Léo, o outro gato, está um pouco abaixo. Enquanto a terra vai sendo jogada, Ligia olha para os lados em busca de algo que acaba por encontrar numa encosta próxima. Lança duas pequenas flores e é o fim. “Tem uma coisa que gostaria de falar para sua reportagem. É muita maldade o que se tem feito aos animais, muito abandono e judiação. Falo isso, mas a verdade é que ainda fazem pior com as pessoas, né?”

Mal o carro de Ligia atravessa a ponte sobre o riacho surge um casal na recepção para encerrar sua estada na Pousada Paraíso. Inaugurada em 2001 com o objetivo inicial de abrigar donos de animais de outras cidades e Estados, a pousada “em estilo colonial” vem recebendo cada vez mais jovens casais sem filhos em seus doze quartos. Desfrutam da piscina, da churrasqueira, do salão de eventos e ainda podem fazer shiatsu, cromoterapia ou reflexologia. Logo ali, depois da ponte, passando o jardim. É o Paraíso, afinal.



um xará no jardim do amigo;
cachorro, gato ou galo de campina?