terça-feira, 12 de setembro de 2017

flanelinha porque preciso, cinéfila porque te amo

acabou de sair, agora em setembro, meu quinto texto pra seção 'esquinas' da piauí. minha colaboração com a revista começou com um jogo de futebol americano em são bernardo do campo ['touchdowns no abc'], depois veio um cemitério de animais em itapevi ['o paraíso é aqui do lado'], uma festa cigana na extrema zona leste de são paulo ['e o lenço levou'] e um bingo erótico em santos ['um 69 e eu levo a pintola!', este acabou não sendo publicado]. 

dessa vez a história foi mais próxima, aqui mesmo no bairro onde moro, pinheiros, e a protagonista é rosa, flanelinha de um quarteirão na rua fradique coutinho. é que frequentando o cinema da rua, o cinesala, ou indo na casa de amigos que moram por ali cruzei caminho algumas vezes com rosa e me diverti com as observações dela sobre os filmes em cartaz. mandei a pauta pra revista, recebi sinal verde e passei um domingo com rosa pra conhecer seu cotidiano de trabalho e histórias de sua vida.

aqui, como sempre, vai o versão original do texto. mas dá pra ler também a que saiu na piauí, um pouco menor [ah, a limitação do espaço no impresso], revisada e com alguns toques de edição. no mais, aquele abraço agradecido a rafael cariello e bernardo esteves.

ilustra que andrés sandoval fez pro texto na piauí

A ROSA PÚRPURA DA FRADIQUE

Rosa não estava se sentindo bem naquela semana e, pela primeira vez em 4 anos, faltou ao trabalho. Foram alguns dias nos quais os carros de um quarteirão da Rua Fradique Coutinho – em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo – contaram apenas com a própria sorte. “Esse tempo mais frio né. E o cigarro. Aí a sinusite atacou de novo”. Já é domingo e ela está melhor e de volta ao batente. “Peraí, chegou um carro”.

O quarteirão que Rosa toma conta fica entre as ruas Teodoro Sampaio e Artur de Azevedo, e apesar de possuir estabelecimentos como um banco, uma casa de chás chineses, a sede do Greenpeace, uma padaria e um restaurante capixaba, seu foco de atenção está em quem frequenta o CineSala, um dos poucos cinemas de rua sobreviventes da cidade. 

Inaugurado em 1962 como Cine Fiammeta, “o Cinema Elegante de São Paulo”, o atual CineSala já foi chamado de Studio ABC, Sala Cinemateca, Sala UOL de Cinema, iG Cine, Cinema da Vila, Cine Sabesp e Cinesala Sabesp. Apenas dois anos mais nova que a sala de cinema, Rosa nem lembra a última vez que foi chamada pelo seu nome de batismo, Rosalia. Rosalia Beserra Neta, natural do vilarejo piauiense de Campestre, município de Itainópolis, perto de Picos.

Ainda com alguma tosse decorrente da sinusite, Rosa perdeu a primeira sessão, às 14h. “Mas pelo que estou vendo aqui foi meio fraco. Geralmente é assim no domingo, pode ser o filme que for: a primeira e a última sessão são mais ou menos, enquanto a segunda e terceira são ótimas. Olha, outro carro”. Meros dois passos após avistá-lo, Rosa já está na rua com sua abordagem habitual para desconhecidos: “Boa tarde. Tá precisando de vaga? Vai no cinema? Comprou ingresso? Bom filme”. 

Já são quatro carros encaminhados para a segunda sessão e ela se dá o direito de acender um cigarro. “Aqui não tem filmes de ação, de efeitos especiais. É uma outra categoria, uns filmes mais culturais, dramas. Mas gosto de drama, tenho paciência pra assistir. Gosto de uma história bem contada”. Então estica um pouco o pescoço ao ver um carro se aproximando devagar. “Esse vai pro estacionamento”, e relaxa novamente.


“Na época do Cine Sabesp, quando comecei a trabalhar aqui na rua, não me sentia confortável pra ver os filmes, mas depois que mudou para o CineSala passei a conhecer todo mundo. Às vezes pago ingresso, às vezes me dão cortesia e também já vi filme pago por gente que vem assistir”. Contabiliza uns 25 filmes em pouco mais de 2 anos. Não lembra o nome de todos, mas não esquece a empregada de ‘Que Horas Ela Volta?’, a péssima cantora de ópera de ‘Marguerite’ e o amor proibido de ‘Carol’. Ficou bastante impressionada com ‘O Regresso’, um tanto pela atuação de Leonardo DiCaprio, mas principalmente por descobrir que é possível sobreviver a uma tempestade de neve abrindo a barriga de um cavalo morto e se aquecendo dentro dela.

“Lembro também que vi ‘As Sufragistas’, aquele filme que passa lá atrás quando as mulheres não tinham direito a nada e eram escravizadas no trabalho”. Rosa diz que nunca se sentiu “escravizada” por nada, mas está na lida diária desde antes da maioridade, afinal perdeu os pais aos 10 anos e veio para São Paulo morar com os irmãos. Trabalhar era mais que preciso.

Seu primeiro emprego foi numa metalúrgica no Alto da Mooca, mas logo casou e passou a trabalhar com o marido em feiras-livres. Não demorou muito e recebeu uma licença da Prefeitura de São Paulo pra trabalhar como camelô na região Santana/Tucuruvi, Zona Norte da cidade. Foram 30 anos assim, vendendo todo tipo de coisa, desde guarda chuvas até, mais recentemente, capinhas de celular.

No entanto, 8 anos atrás, durante a gestão de Gilberto Kassab, a Prefeitura cassou todas as licenças da região e Rosa virou clandestina. Em um determinado mês chegou a ter seus produtos apreendidos 8 vezes pelo “rapa”, a Guarda Civil Metropolitana. Resultado: perdeu todo dinheiro que tinha guardado, cerca de R$ 18 mil, e chegou a ser despejada. O momento só não foi pior porque ela já estava separada – sobre o ex-marido não gosta nem de falar – e seus dois filhos, Marcela e Eduardo, já estavam grandinhos, formados. “Agora preciso trabalhar”, e volta para a rua, afinal a segunda sessão de domingo está prestes a começar e sempre aparecem uns carros retardatários.

Rosa ainda insistiu um tempo na clandestinidade, mas a idade e a falta de dinheiro deram um fim à essa correria. Após um período de bicos variados ela decidiu tentar a sorte em uma região que não conhecia. Começou pela Vila Madalena e, apesar de não beber, ficou encantada com a quantidade de barzinhos. Mas nada de trabalho. Então foi descendo pela Rua Fradique Coutinho, chegou ao bairro de Pinheiros e numa conversa casual foi abordada por Raimundo, um flanelinha da área. Foi ele que, quatro anos atrás, “ofereceu” o quarteirão do CineSala, pois não estava dando conta de tantas ruas. Rosa topou na hora e foi ficando, ficando. “Esse quarteirão me acolheu”, confessa.



A segunda e a terceira sessões foram realmente boas, conforme previsto por Rosa, e ela ficou de olho em nove e doze carros, respectivamente. “Quando estreia filme novo a primeira coisa que faço é ler a sinopse. Depois pergunto pra um dos gerentes do cinema se ele acha que vai dar público ou não. Eles até brincam que pareço um dos donos, porque pergunto tudo. Mas é que preciso estar informada porque sempre tem gente que pergunta como é o filme que está passando ou se está lotado”. Falta meia hora para começar a última sessão de domingo, apenas três carros apareceram e quando um quarto surge na esquina ela nem pestaneja. “É Uber”.

“Tem filme que sei que não é bom, ou me falam que não é bom, mas só comento depois que o filme sai. Ou então se tiver intimidade com a pessoa. É o meu ganha pão, não vou falar mal. Meses atrás teve um que entravam umas 50 pessoas e saíam umas 120 antes do filme acabar”, e solta uma gargalhada. “Nunca tinho visto isso. O filme chamava muita gente, é de um diretor conhecido [‘Os Belos Dias de Aranjuez’, de Wim Wenders], mas quando acabava a sessão não tinha mais ninguém”. 

Apaixonada por cinema desde que viu, ainda garotinha, filmes de Bruce Lee no centro de São Paulo, Rosa ficou um bom tempo longe das pipocas. Fase de muito trabalho e crianças pequenas em casa. Mas bastou crescerem um pouco e os levou para assistir ‘O Rei Leão’ e ‘A Bela e a Fera’ e se divertiu tanto quanto eles. “E também gosto muito do Woody Allen, por exemplo. Quando aparece um filme dele tem que ver. Mas esse último, o ‘Café Society’, vi aqui e foi um dos mais fracos dele. Achei uma Sessão da Tarde melhorada”. E dá uma risada.

Um dos que mais gostou no ano foi ‘Capitão Fantástico’. “Fiquei encantada com esse filme. Achei que o pai [interpretado por Viggo Mortensen], mesmo vivendo no mato, conseguiu educar os filhos muito bem. Criei meus filhos da mesma forma, dando liberdade prumas coisas, segurando outras. Me identifiquei muito”. 

É que Rosa criou seus dois filhos com o dinheiro que ganhou em seus tempos de camelô. “Dinheiro da rua, da selva de pedra”, diz com orgulho. Marcela, a mais velha, é formada em Administração, trabalha numa grande empresa, mora em Guarulhos e está prestes a lhe dar o primeiro neto. Eduardo, o mais novo, é formado em Psicologia, fala cinco línguas e há dois anos mora em Tóquio. Os dois não precisaram abandonar os estudos na metade do ensino fundamental, nem trabalhar desde cedo, porque Rosa fez questão que sua história não se repetisse. “Chegou o último carro do domingo”, e sai apressada. 

É sinal de que só tem mais umas duas horas de trabalho. Tempo do filme acabar, as pessoas e seus carros saírem, a luz da marquise apagar e as portas descerem. Aí ela também voltará para casa, cinco quarteirões dali. Queria jantar alguma coisa e ver ‘Velozes e Furiosos 8’, mas o controle remoto do DVD está com defeito e ela terá que se contentar com o Domingo Maior. 


“Olha, sempre adorei trabalhar na rua. Não tem rotina, todo dia tem gente diferente, cada um com sua ideia. Mas gosto mais de lidar com gente de idade porque são pessoas que já viveram o bastante para não desejarem o mal de ninguém. Acho que é porque fui criada sem pai nem mãe, então dou corda, gosto. E gosto que gostem de mim. Acho que sou meio doida, né?”. Enquanto sua pergunta fica no ar, passa uma cadelinha. “Oi, Sofia!”, e a cadelinha se aproxima. “Olha, ela já tá até me cheirando”, diz para o dono. Sofia sai balançado o rabo. Rosa conquistou mais um.

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