sexta-feira, 25 de agosto de 2017

heroísmo pé no chão

durante muitos muitos anos tive preguiça de séries. preguiça de acompanhar, do compromisso, sei lá. mesmo quando na segunda metade dos anos 2000 começou uma mudança na dinâmica tv/cinema e as séries passaram a ser mais adultas que hollywood. em 2014/2015 teve uma segunda explosão com o netflix mudando paradigmas ao estimular novos cultos com o ‘binge watching’, a liberação de temporadas completas numa tacada só [além das elogiadas produções próprias]. fui acompanhando tudo isso ao largo, sem ver as séries, afinal... preguiça. mas agora, em 2017, não consegui mais evitar, tava perdendo muita coisa. e como quadrinhos são uma das preferências da casa fui logo ver o que a marvel andava produzindo via netflix: demolidor [duas temporadas], jessica jones, luke cage, punho de ferro e a recente união de todos em the defenders. seguem algumas impressões...


danny, luke, jessica e matt

DEMOLIDOR

quando comecei a ler quadrinhos, ali pelos meados do anos 1980, o demolidor foi um dos primeiros personagens que me interessou [eram tempos de frank miller reinventando um personagem originalmente dos anos 1960]. então sempre tive um carinho especial pelo herói cego e foi particularmente frustrante ver o bobo demolidor (2003) com ben affleck [sem falar no elektra, dois anos depois]. mas aí vieram as duas temporadas [26 episódios] da série criada por drew goddard [buffy, alias, lost, guerra mundial z, etc] para o netflix e o que sempre imaginei, e o que mais me interessava no personagem, estava ali. era sombrio, torturado, e muito urbano.

um herói em permanente conflito entre usar os meios legais em busca de justiça durante o dia [sendo o advogado matt murdock] e fazer justiça com as próprias mãos a noite [sendo o demolidor]. as conflituosas intersecções entre esses dois mundos. um bando de outros tantos personagens torturados, tanto heróis quanto vilões. a cidade. a noite.

demolidor, a série, vai além em alguns pontos e consegue trabalhar melhor o passado e o presente de quase todos os personagens principais [destaque para a karen page da ótima deborah ann woll] e, acima de tudo, o realismo da violência urbana. é impressionante a quantidade de ótimas cenas de luta, tudo muito bem pensado, coreografado e filmado [um longo plano sequência na segunda temporada, com direito a corredores e escadas, foi uma das coisas mais sensacionais que vi nos últimos tempos em termos de ação].


demolidor é crime, castigo e muitos machucados, principalmente na violentíssima segunda temporada [a que tem o importante co-protagonismo de elektra e justiceiro, além da participação do vilão da primeira, wilson fisk]. é trabalho interessante, denso e popular ao mesmo tempo. lá pelo final da segunda temporada, o realismo de toda série abre espaço para novos vilões, um tanto mais fantásticos: a organização tentáculo [tradução estranha pra ‘the hand’], que terá papel fundamental em punho de ferro e defenders.

atuações: charlie cox manda muito bem tanto como matt murdock quanto como demolidor, ambos diferentes e complementares, e já falei de deborah ann woll, uma determinada e apaixonante karen page, mas vale mencionar também elden henson [foggy nelson], vincent d’onofrio [wilson fisk, o rei da crime], elodie yung [uma interessante elektra, o eterno amor tortuoso de matt] , scott glenn [o lendário stick, que treinou matt e elektra] e rosario dawson [claire temple, personagem que cruza caminho com todos os heróis desse universo marvel mais pé no chão].

JESSICA JONES

não conhecia jessica Jones por serpersonagem dos anos 2000 [já tinha parado de ler quadrinhos de super heróis desde o início dos 90] e a surpresa de gostar de jessica jones, a série, veio [talvez] por não ter expectativas ou referências. mas a verdade é que a primeira temporada é mais um perturbador drama psicológico que uma história de super herói.

criada por melissa rosenberg [dexter e a franquia crepúsculo], a série acompanha uma mulher traumatizada e em fuga de um passado de abuso, dominação e violência – e, claro, de seu abusador -, mas também dos próprios poderes. esse é provavelmente o grande achado de jessica jones, o de colocar no centro da história uma mulher mal se equilibrando, e ainda por cima com muita dor e culpa, entre poder e impotência. nada mais atual.


mesmo que um tanto esticado na série, o duelo de jessica com seu abusador, o [literalmente] controlador kilgrave, é uma das construções mais tensas, violentas e perturbadoras que vi nos últimos tempos. e fica especialmente impressionante, lá pela metade da série, quando os dois invertem momentaneamente os papéis.

a série também apresenta um personagem que ganhou sua própria série pouco tempo depois, luke cage, e que tem papel importante na trama. primeiro, como sexo casual e breve interesse amoroso de jessica. depois, culpa e horror por causa de coincidências fatais envolvendo a ex-mulher de luke. e então, acerto e cooperação.

atuações: krysten ritter é uma excelente jessica jones, dura, frágil e sarcástica. david tennant é um absurdo kilgrave, encantador e repulsivo em doses cavalares. mas do elenco vale ainda mencionar carrie-anne moss como jeri hogarth, uma advogada durona e um tanto inescrupulosa, e eka darville como malcolm ducasse, amigo de jessica. já mike colter, o luke cage, parece ser gente boa, mas é só ok como ator.

LUKE CAGE

nos quadrinhos, o surgimento e a breve fama de luke cage ficou circunscrita aos anos 1970. então, quando comecei a ler hqs em meados dos anos 1980, ele já tinha sumido. sabia da existência, lembrava da cara, da camisa amarela, da tiara de ferro, mas só isso. tava, portanto, sem expectativas também [foi, aliás, a primeira das quatro séries marvel/netflix que vi].

criada por cheo hodari coker [das televisisas southland e ray donovan e do longa notorious b.i.g.], a série luke cage é uma blaxploitation cool e a mais realista, mais pé no chão, de todas as séries marvel/netflix. tem questões pulsantes e complexas como violência policial, desigualdade social, especulação imobiliária/gentrificação, falta de oportunidades para a juventude negra, e por aí vai. é um ‘black lives matter’ com um herói negro à prova de bala.

atuações: como já disse antes, mike colter cumpre seu papel, não compromete, mas lhe falta carisma. destaque, destaque mesmo, vai pra dupla mahershala ali e alfre woodard, os primos [e vilões] cottonmouth e mariah dillard. os dois enchem seus personagens de humanidade, dores íntimas e maldades públicas. e dá-lhe também rosario dawson e a dignidade amorosa de sua claire temple, bastante importante na trama [como foi em demolidor e como será em punho de ferro]. destaque afetivo para a pequena e boa participação de sonia braga como a mãe de claire.


música: a trilha de luke cage é um caso à parte com o mais fino da música negra americana, do blues ao rap. tem nina simone, ghostface killah, the stylistcs, gang starr e wu tang clam, por exemplo. tem música originalmente composta pra série, a ótima “bulletproof love” de adrian younge, ali shaheed muhammad e method man [que faz uma pequena participação]. e tem ainda apresentações ao vivo na casa noturna de cottonmouth/mariah com ninguém menos que raphael saadiq [“good man”], faith evans [“mesmerized”], charles bradley [“ain’t it a sin”], jidenna [“long live the chief”], the delfonics [“stop & look and you have found love”] e sharon jones & the dap kings [“100 days, 100 nights”].

PUNHO DE FERRO

enquanto luke cage era uma tentativa de pegar o bonde do cinema blaxploitation, o punho de ferro quis tirar uma casquinha dos filmes de kung fu. dois frutos desesperado da crise dos quadrinhos nos anos 1970. ambos não renderam muito, nem mesmo quando lutaram juntos, brevemente nos quadrinhos, no final da década. enfim, tal qual luke cage, só sabia da existência de punho de ferro e nada mais.

daí que o último dos quatro heróis pé no chão da dobradinha marvel/netflix é justamente o menos pé no chão de todos. punho de ferro é uma fantasia de ação com misticismos orientais diluídos que traz para nova york uma terrível organização secreta originária da mesma sagrada & tibetana k’un-l’um que o treinou [é o tal tentáculo, o lado negro da força]. é que punho de ferro é danny rand, um garoto que perdeu os pais em um acidente de avião e foi criado e treinado por monges nesse lugar místico [é lá que se torna o ‘punho de ferro imortal, inimigo do tentáculo’].

danny rand volta a nova york já adulto, quando todos achavam que estava morto, e com poderes, mas seu desejo é de retomar a vida, refazer raízes, reencontrar com o que sobrou de seu passado. danny, ingênuo e arrogante, começa acreditando em todo mundo para, depois de ser traído por pessoas próximas, não acreditar mais em ninguém [e ainda tem o tentáculo para bagunçar mais sua cabecinha]. esse é o grande drama pessoal do punho de ferro: confiança. muito pouco, muito raso, perto dos dramas de matthew murdock, jessica jones e luke cage. ah, falei que danny rand é herdeiro de uma empresa bilionária?! daí você para e pensa: o mundo precisa de outro branco bilionário com superpoderes?


punho de ferro é a mais fraca das quatro séries marvel/netflix. tem boas cenas de luta, e kung fu é sempre bonito de ver, mas não tem a explosão física e coreográfica de demolidor. o personagem também não possui conexões com uma comunidade/bairro como demolidor [hell’s kitchen] e luke cage [harlem] ou relações difíceis com o passado como luke cage, demolidor e jessica jones. os roteiristas scott buck, das séries dexter, roma e à sete palmos, e raven metzner da famigerada elektra e da série sleepy hollow, não conseguem resolver o principal problema do punho de ferro/danny rand: ele é um riquinho mimado da porra.

atuações: o protagonista finn jones é fraco e não tem jeito, nem com boa vontade [mas ainda acho que seu personagem é pior], mas a série tem as boas performances de jessica henwick [a lutadora colleen wing, que acaba se tornando parceira e interesse amoroso de danny], wai ching ho [a misteriosa madame gao, uma das integrantes do tentáculo], tom pelphrey [o torturado ward meachum] e, claro, mais uma vez rosario dawson [novamente claire temple tem um papel fundamental na trama – aliás, ela só não participa muito em jessica jones].

THE DEFENDERS

e então surgiu a primeira temporada da união desses quatro heróis em the defenders. os roteiristas douglas petrie e marco ramirez, que trabalharam juntos na segunda temporada de demolidor, tinham que pensar em um inimigo forte o bastante para justificar a união desses heróis-indivíduos tão diferentes [tão isolados em seus mundos pessoais/espaciais]. a única solução foi o tentáculo, o que faz defenders ficar mais próximo, fantasiosamente falando, de punho de ferro e do final da segunda temporada de demolidor.


em apenas oito episódios – contra os habituais 13 das séries anteriores –, defenders diverte, é bem feita, mas não empolga. nunca se entende muito bem o que motiva os vilões, afinal a busca por imortalidade não é algo que se possa relacionar [ou, de cara, criticar]  no nosso dia a dia. punho de ferro continua mimado e irritantemente repetitivo. o demolidor matthew murdock já começa a irritar com sua culpa cristã. os coadjuvantes das séries individuais mal aparecem e pouco interagem, e os encontros dos protagonistas são subutilizados [sem falar que algumas sequências de luta poderiam ser tão melhores se não fossem tão editadas]. mesmo a ameaça de destruição de nova york pelo tentáculo não parece real ou ameaçadora de verdade e eles, os vilões, nem parecem mais tão durões assim. tudo é meio corrido demais.

mas existem momentos interessantes na série, principalmente quando os dois outsiders desse mundo de fantasia, jessica jones e luke cage, viram superego da porra toda. jessica com o seu sarcasmo não aguenta o papo místico de danny e matt, enquanto luke dá uma bela lição racial sobre o ‘privilégio do homem branco’ para danny. não é à toa que são raros momentos assim. também são interessantes, mesmo que igualmente subutilizados, os conflitos por poder entre os membros do tentáculo, com destaque para o trio alexandra, murakami e madame gao [os outros dois dedos do tentáculo, sowande e bakuto, aparecem menos], com participação decisiva da versão ressuscitada de elektra [aka ‘black sky’]. no mais, tão triste e tortuosa a relação amorosa de elektra e matthew murdock [e a luta dos dois no final de defenders é um bom resumo disso tudo].

atuações: krysten ritter e charlie cox continuam com as melhores atuações entre os protagonistas, mas a verdade é que nenhum dos quatro precisa se esforçar muito na correria dos oito episódios. os coadjuvantes, muito menos, a não ser scott glenn [stick], jessica hanwick [colleen] e rosario dawson [claire], que possuem papeis importantes na trama. daí que o lance mesmo é a grande vilã alexandra, que sigourney weaver injeta altas doses de dignidade, humanidade, e um delicado desequilíbrio entre força e fragilidade. a relação maternal de sua personagem com elektra é bem interessante e tem um final surpreendente. aliás, elodie yung, que faz elektra/black sky, tem momentos ótimos na série. vale destacar também outros dois ótimos vilões, o murakami de yutaka takeuchi e, novamente, a madame gao de wai ching ho.


a melhor sequência de luta de defenders, no final do terceiro episódio

p.s.: desse universo marvel/netflix já estão confirmadas a terceira temporada de demolidor [que, pelo final de defenders, será uma adaptação da clássica saga ‘a queda de murdock’], e as segundas de jessica jones, luke cage e punho de ferro. ainda este ano será lançada a primeira de justiceiro.

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