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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

2 perfis: anne hathaway e millie bobby brown

mais dois perfis publicados nas edições de julho e agosto da revista Monet. em julho teve Millie Bobby Brown por causa de Enola Holmes 3 e em agosto, Anne Hathaway, por motivos de O Diabo Veste Prada 2. saca só.

A PRINCESA CRESCEU

Dez anos após cair de paraquedas no mundo fashion, Anne Hathaway retorna madura ao sucesso pop de O Diabo Veste Prada 2

O ano de 2026 está sendo mais que especial para Anne Hathaway. Aos 43, a novaiorquina viu seu time do coração, o New York Knicks, serem campeões da NBA após um jejum de 53 anos. Por uma dessas curiosas coincidências das janelas de lançamento ela viu/verá seis filmes estrelados por ela estrearem: o drama psicológico pop star Mother Mary, o retorno cômico ao mundo fashion em O Diabo Veste Prada 2, o épico A Odisseia de Christopher Nolan, a ficção científica com dinossauros O Fim da Rua, o thriller Verity e o drama de guerra Sozinho ao Amanhecer. E, para coroar tudo, anunciou que está grávida do terceiro filho de seu casamento com designer de joias Adam Shulman.

um pouco de Hathaway em 2026: Mother Mary, Prada 2, A Odisseia, O Fim da Rua e Verity

Apenas com essa amostra de filmes atuais, Hathaway segue mostrando sua versatilidade, da ação ao drama, da comédia ao thriller, sem falar em musicais, romances e animações numa carreira que começou vinte e cinco anos atrás com a estreia de O Diário de uma Princesa nos cinemas. Mas não tem como negar que foi a comédia O Diabo Veste Prada, lançada em 2006, que a transformou em estrela e a fez conhecer sua ídola-guru Meryl Streep. 

Só que o caminho para chegar na desengonçada Andy Sachs no mundo fashion e rigoroso de Miranda Priestly não foi fácil. Numa entrevista em 2021 a atriz confessou que sabia que era a nona opção para o papel de Andy (Rachel McAdams era a primeira da lista, e Hathaway ainda teve que batalhar contra Scarlett Johansson, Kate Hudson, Kirsten Dunst. Natalie Portman e Claire Danes, por exemplo; todas mais conhecidas à época). Na mesma entrevista, a atriz lembrou que chegou a escrever “me contrata” na areia de um jardim na sala de um executivo do estúdio. Deu certo.

E ainda pode trabalhar com a ainda mais novata Emily Blunt, o já experiente Stanley Tucci e a icônica Meryl Streep. “Ela é simplesmente divina. Não é apenas uma questão de ela incorporar a personagem; ela está absolutamente no centro de todas as suas escolhas, da verdade da personagem. E, como artista, é isso com que você sonha. Nada a tira desse estado. O clima não a afeta, nem coisas bobas, como o toque de um celular. Isso não a faz perder o foco na personagem. E estar perto disso — ter sido levada a esse lugar durante nossas cenas — fez com que eu sentisse que estava encurtando o caminho da minha própria descoberta como atriz ao perceber: ‘É isso! Essa é a sensação’. Agora, só preciso chegar lá também”, disse humildemente para a Associated Press do alto de seus 23 anos.

O sucesso comercial de O Diabo Veste Prada foi muito bom para um filme de orçamento mediano, além de ser um tapa na cara dos executivos hollywoodianos que mantinham a lenda de que filmes protagonizados por mulheres não iam bem na bilheteria. No entanto, o que aconteceu mesmo é que os anos se passaram e o filme foi se tornando uma referência pop inescapável em memes, cortes, piadas, diálogos, reexibições anuais, na discussão sobre moda e na atuação do trio feminino.

Em 2013, Lauren Weisberg, a autora do livro que deu origem ao filme, lançou uma sequência, mas Streep e Hathaway não se interessaram pelo retorno das personagens. Quando a Variety perguntou a Hathaway se poderia haver uma sequência, ela foi taxativa. “Não tenho certeza se ‘poder’ é a pergunta certa. Deveria haver uma? Eu adoraria fazer outro filme com todo aquele pessoal, algo totalmente diferente. Mas acho que aquele ali simplesmente acertou em cheio. É bom deixá-lo como está.” Mas na época ela estava entre duas experiências com o diretor Christopher Nolan (O Cavaleiro das Trevas Ressurge e Interestelar), com a cabeça em seu primeiro filme como protagonista e produtora (A Canção de uma Vida), e tendo que lidar com o ódio virtual que recebeu após ganhar o Oscar de Atriz Coadjuvante por Les Misérables.

QUANDO A MATURIDADE CHEGA

Quase vinte anos após o lançamento de O Diabo Veste Prada veio, meio que do nada, a notícia dos primeiros passos de uma sequência e estariam todos de volta: a roteirista Aline Brosh McKenna, o diretor David Frankel e o quarteto Streep, Hathaway, Blunt e Tucci. Fãs de todos os credos suspiraram aliviados. E então começaram a surgir fotos do elenco durante as filmagens em Nova York, que começaram em junho e terminaram em outubro do ano passado, e o frisson antecipatório foi crescendo.

Para atiçar mais os fãs os trailers e notícias foram soltando as participações especiais. Se no primeiro Prada foram poucas, mas de figuras como o estilista Valentino e as ex-modelos Heidi Klum e Gisele Bundchen, o segundo, com o filme já impresso no DNA pop de gerações, os nomes foram muitos: Lady Gaga, Donatella Versace, Marc Jacobs, Naomi Campbell, Jon Batiste, Ronny Chieng, Ciara, Sydney Sweeney (cuja cena caiu na edição final) e, novamente, Heidi Klum.

Mas isso é perfumaria perto do que o grupo conseguiu colocar em discussão em Prada 2, pois o tempo que passou entre um e outro é também personagem fundamental e nesse tempo, nesses vinte anos, a moda e o jornalismo mudaram. O mundo glamoroso regido com humor seco e mão de ferro por Miranda Priestly virou poeira, pois ninguém mais lê impresso, e todos precisam sobreviver de ‘clickbaits’ nas redes sociais. Sem falar em IA e nas fusões de gigantescos grupos de mídia e nas consequentes demissões em massa e precarização do trabalho. Prada 2 é comédia, e um dos maiores sucessos de bilheteria do ano, mas tem muito o que falar.

Outro exemplo é a importante sequência com Lady Gaga cantando em um desfile. No mundo real, a artista estaria cercada de modelos tradicionais, extremamente magras. Foi Hathaway que sugeriu aos produtores uma mudança no casting. “Eu sabia qual era o contexto da cena e achei que ela seria muito mais agradável para o público se exibíssemos uma variedade maior de corpos. Fui até os produtores e perguntei: ‘Vocês não acham que a cena seria mais impactante se adotássemos uma abordagem mais inclusiva em relação aos tamanhos?’. Eles ficaram devastados por não terem pensado nisso. Acho que estavam apenas seguindo o fluxo. Mas, assim que perceberam, eles fizeram isso acontecer em coisa de uma hora”, relembrou a atriz em entrevista Variety. Anne Hathaway cresceu mesmo.

E AGORA, MILLIE BOBBY BROWN?

Após o fim de Stranger Things e o início de sua vida como mãe, a atriz inglesa de 22 anos retornou a uma personagem muito familiar: Enola Holmes

Muita coisa já aconteceu na vida de Millie Bobby Brown, então ela se sente muito confortável para, do alto de seus 22 anos, começar um novo capítulo tanto de sua vida pessoal quanto artística. De um lado, a criança prodígio e a adolescente animada. Do outro, a mãe responsável e a esposa dedicada. Por todos os lados, a atriz reconhecida. E para conectar esses dois lados/capítulos de sua vida, Millie escolheu uma personagem que lhe é muito cara, a jovem aventureira Enola Holmes, a irmã mais nova de Sherlock Holmes, que retorna em Enola Holmes 3.

Mas antes de chegarmos à terceira aventura de Enola, é bom lembrar que dos 9 aos 12 anos, a inglesa nascida na Espanha teve pequenos papéis em séries variadas, de Grey’s Anatomy a NCIS, para então, em 2016, participar de dois testes de elenco que mudariam sua vida. 

O primeiro foi para o papel de Lady Lyanna Mormont na série Game of Thrones, personagem que acabou ficando com Bella Ramsey. E que bom que Millie não pegou, pois só assim conseguiu ser chamada para um teste de uma série que estava para começar, uma tal de Stranger Things. Foi a misteriosa e poderosa Eleven que mudou realmente toda a vida da jovem atriz. Aos 12 anos de idade.

“Em Stranger Things percebi que não precisava falar com a boca, mas sim com o rosto. Em vez de dizer explicitamente que estava com raiva, triste ou confusa, tinha que fazer isso com as minhas expressões faciais, e isso foi um desafio. Mas realmente gosto de interpretar papéis desafiadores e adoro interpretar a Eleven”, disse Brown em uma conversa com a amiga Maddie Ziegler para a Interview poucos meses após o lançamento da primeira temporada da série.

De julho de 2016 a dezembro de 2025, Brown viveu intensamente os dramas, alegrias, traumas e aventuras de Eleven entre um Vecna aqui, uns Demogorgons acolá, e a dureza aterrorizante tanto do Mundo Invertido quanto do mundo real. A atriz – bem como os amigos Finn Wolfhard, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp e Sadie Sink – cresceu junto com as cinco temporadas da série e do surpreendente fenômeno pop que veio a reboque.

“Sei que nunca mais a interpretarei. Mas Eleven já me influenciou muito. E acho que ela ainda é uma força a ser reconhecida, até por mim mesma. Sei que ela me deu muita confiança para ser a heroína da minha própria vida”, afirmou orgulhosa em entrevista para Allure, no final de 2025, com o final de Stranger Things logo ali depois da esquina do Natal.

Nesses cerca de dez anos da série, a atriz aproveitou da fama, investiu em seus interesses e expandiu sua atuação. Desde criar uma marca de beleza e bem estar (Florence by Mills) até fundar um abrigo para animais (Joey’s Friends), passando por uma produtora audiovisual para chamar de sua (PCMA), um livro (Nineteen Steps), ser a cara de marcas como Louis Vuitton e Pandora, receber o título de Embaixadora da Boa Vontade da UNICEF/ONU e dois encontros com o lendário Godzilla (Godzilla: Rei dos Monstros e Godzilla vs. Kong, de 2019 e 2021 respectivamente).

Mas a maior construção dessa década foi uma parceria sólida da atriz com a Netflix, afinal de contas o sucesso de Stranger Things é um dos principais responsáveis pela explosão da plataforma de streaming lá em 2016. Daí a Netflix retribuiu ao produzir o primeiro e o segundo Enola Homes (2020 e 2022), Donzela (2024) e The Electric State (2025), este ao lado de Chris Pratt e sob direção dos irmãos Anthony e Joe Russo. E não importa se o cenário é a Inglaterra vitoriana, algum lugar fantástico medieval com dragões ou uma ficção científica com humanos e robôs em guerra, Millie Bobby Brown sempre encontra aventura nele.

Donzela e Electric State não foram tão bem recebidos, mas Enola Holmes foi, o que deixou a atriz particularmente feliz por ter sido seu primeiro filme como produtora e também por ser uma personagem que se identificou imediatamente. Baseado em uma série de nove livros e um conto escritos por Nancy Springer, a determinada Enola Holmes caiu como uma luva para Brown mostrar um humor que nunca conseguiu colocar em Eleven (por motivos óbvios, claro), e com direitos a piscadelas para o público ao quebrar a quarta parede.

No primeiro Enola Holmes, a irmã mais nova de Sherlock Holmes (Henry Cavill) enfrenta tudo e todos para desvendar o desaparecimento da mãe. Já no segundo, que não é adaptado de nenhum dos livros da série, Enola encara o desafio de se tornar realmente uma detetive particular, mas não é levada a sério pelos seus pares. Inspirado em eventos reais no final do século 19 sobre uma greve de trabalhadoras numa fábrica de fósforos em Londres, Enola Holmes 2 é uma aventura abertamente feminista.

“A greve das operárias de fósforos nos pareceu um símbolo feminista perfeito porque foi a primeira greve de mulheres feita por mulheres”, afirmou Harry Bradbeer, diretor dos dois primeiros Enola, à Variety. “Isso refletia nossa ideia de que Enola, para progredir, precisa trabalhar com outras pessoas e não depender apenas de si mesma. É uma história que vai do ‘eu’ para o ‘nós’, é uma história sobre irmandade”.

Já em Enola Holmes 3, a personagem volta às suas raízes familiares e foge do casamento ao saber que seu irmão Sherlock foi sequestrado. A direção agora ficou a cargo de Philip Barantini (da premiada minissérie Adolescência) e, no elenco, retornam Henry Cavill, Louis Partridge e Helena Bonham Carter (a mãe). Dois meses após o término das filmagens de Enola Holmes 3, em junho de 2025, Brown anunciou que ela e seu marido Jake Bongiovi (filho de Jon Bon Jovi) tinham adotado uma menina. 

A força de Eleven e o espírito independente de Enola Holmes alimentaram e muito Millie Bobby Brown nesse início de nova vida como atriz, produtora, empresária e mãe, mas sempre com os pés no chão. Em junho deste ano, num evento da UNICEF, disse que “apenas tento aprender o máximo que posso e transmitir isso para a vida dela, para que ela só conheça meninas apoiando meninas, mulheres tendo sucesso, mulheres realizando seus sonhos e vivendo em um mundo e construindo um mundo para ela – isso não é irrealista, mas estabelece um padrão para que ela saiba que não deve se contentar com nada menos do que ela quiser”.


segunda-feira, 13 de abril de 2026

margot robbie & jacob elordi, que perfis

escrevi mais dois perfis na Monet de abril. dois perfis bonitos. de uma dupla. de australianos. que interpretam um casal tragicamente apaixonado na nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, clássico 1800s da inglesa Emily Bronte reimaginado pela roteirista e diretora Emerald Fennell. mas os perfis de Margot Robbie e Jacob Elordi tem muito mais que isso. saca só.

colagem por toscographics 8bit

A DOCE VINGANÇA DE MARGOT ROBBIE

A atriz australiana driblou tentativas de transformá-la em objeto e em O Morro dos Ventos Uivantes mostra mais uma vez quais histórias quer contar

Quando Margot Robbie apareceu pela primeira vez para o grande público em 2013, seduzindo e brigando com Leonardo DiCaprio em O Lobo de Wall Street, o mundo nunca mais foi o mesmo. O impacto daquele grande sorriso e da energia solar que ele trazia junto mudou Hollywoord, mas mudou ainda mais a atriz australiana. Hoje, ao lançar O Morro dos Ventos Uivantes, sua nova empreitada como atriz e produtora, ela tem distância o bastante para refletir como esse momento de seu passado foi ao mesmo tempo empolgante e extremamente assustador. 

Margot Cathy

“Aconteceram coisas muito horríveis naquele início, tanto em termos de assédio da imprensa quanto de inúmeras ofertas para repetir o mesmo papel de ‘loura gostosa’. Lembro de dizer para minha mãe: ‘Acho que não quero fazer isso.’ E ela simplesmente olhou para mim, com a cara mais séria do mundo, e disse: ‘Querida, acho que é tarde demais para desistir.’ Foi aí que percebi que o único caminho era seguir em frente”, disse em entrevista para a Vanity Fair. 

Robbie tanto seguiu em frente que já em 2014 fundou sua própria produtora (LuckyChap Entertainment) ao lado de seu futuro marido (Tom Ackerley) e dois amigos (Sophia Kerr e Josey McNamara) com o objetivo claro de tocar projetos com mulheres protagonistas, mas também com diretoras e/ou roteiristas no comando. Decidiu que a partir daí alternaria filmes comerciais para bancar as produções independentes que gostaria de fazer. E assim foi, e assim continua até hoje. 

ALTOS E BAIXOS E MUITO ALTOS 

Após alguns filmes pequenos em 2015, Robbie entrou no ano de 2016 com duas grandes produções: A Lenda de Tarzan e Esquadrão Suicida. Neste último encontrou Arlequina, a vilã psicopata e feliz dos quadrinhos da DC que encarnaria outras duas vezes. Apesar do filme ter sido um sucesso de bilheteria e ter ganho até um Oscar (Maquiagem), Robbie afirmou anos depois que se sentiu muitas vezes constrangida com os figurinos diminutos e extremamente sexualizados que era obrigada a usar. Fez questão que não repetir esse desconforto e suas Arlequinas em Aves de Rapina (2020) e O Esquadrão Suicida (2021), dessa vez sob a direção de James Gunn, estavam muito mais vestidas e à vontade. 

Margot Arlequina

Então, no ano de 2017, foi lançado o primeiro filme produzido pela LuckyChap, o drama independente Eu, Tonya. Baseado na história real de Tonya Harding (Robbie), uma patinadora norte-americana acusada de planejar com seu marido (Sebastian Stan) um ataque à sua principal rival Nancy Kerrigan, o filme foi um modesto sucesso comercial e um grande sucesso de crítica que deu a primeira indicação ao Oscar para Robbie (já Allison Janney, que interpretou a mãe abusiva de Tonya, ganhou como atriz coadjuvante). 

Margot Tonya

Após o sucesso de Eu, Tonya e o reconhecimento do talento de Robbie, a carreira da atriz teve uma inesperada sequência de anos e escolhas ruins, ou que eram boas e fracassaram nas bilheterias, com exceção de uma participação especial em Era Uma Vez em Hollywood (2019), de Quentin Tarantino, os dois retornos como Arlequina em 2020 e 2021, e a produção de Bela Vingança (2020), o primeiro longa da amiga, roteirista e diretora Emerald Fennell (que levou Oscar de Melhor Roteiro). Nesse período, de 2018 a 2022, Robbie sentiu particularmente o fracasso de dois filmes com os quais se dedicou de corpo e alma: Amsterdam, de David O. Russell, com Christian Bale; e Babilônia, de Damien Chazelle, com Brad Pitt e Diego Calva. 

“A maneira como tento explicar este trabalho - e este mundo - às pessoas é que os momentos bons são realmente muito bons e os momentos ruins são realmente muito ruins. E acho que, se você tiver sorte, tudo se equilibra no meio”, disse para a Vanity Fair. 

XEQUE-MATE DA BONECA 

Então veio a boneca e tudo mudou. Após muito anos de tentativas de levar Barbie para os cinemas, Margot Robbie entrou em contato com a Mattel para apresentar sua visão de como seria Barbie, o filme, e impressionou os executivos da fabricante da lendária boneca. Depois fez o mesmo com o estúdio Warner e ganhou um sinal verde, inclusive com a ousada contratação de Greta Gerwig como diretora e co-roteirista (seu marido, o também diretor Noah Baumbach, seria o parceiro no roteiro). O resto é história cinematográfica com Barbie (2023) ultrapassando a barreira de 1 bilhão de dólares nas bilheterias e se tornando uma das 20 produções mais rentáveis de todos os tempos. 

Margot Barbie

No mesmo ano de 2023, a produtora de Robbie produziu o segundo longa de Emerald Fennell, o elogiado Saltburn, e a atriz tirou o pé do acelerador para cuidar da vida pessoal. Tanto fez que em outubro de 2024 deu à luz ao seu primeiro filho e conseguiu um tempo para pensar nos próximos projetos enquanto cuidava de sua produção mais importante. “As pessoas têm sentimentos fortes sobre as coisas. Mas prefiro isso à indiferença. Então, da minha parte, gosto de subverter as expectativas. É muito mais assustador, mas também é um ótimo ponto de partida”, disse durante uma entrevista antes do parto. 

Subvertendo as expectativas, Robbie escolheu dois projetos muito intensos após se tornar mãe: a fantasia romântica A Grande Viagem da Sua Vida (2025) e o drama ultrarromântico e e kitsch O Morro dos Ventos Uivantes, o terceiro longa da amiga Emerald Fennell. Em um evento na Inglaterra, a diretora se derramou em elogios para a atriz e parceira. “Ela é tão linda, interessante e surpreendente, que acho que é o tipo de pessoa que, como Cathy [a protagonista do filme], poderia se safar de qualquer coisa. Acho que Margot poderia cometer uma série de assassinatos e ninguém se importaria. E é assim que Cathy é para mim, alguém que simplesmente se esforça para ver até onde pode ir. Então, precisávamos de alguém como Margot, que é uma estrela, não apenas uma atriz incrível - o que ela é -, mas alguém que tem um poder, um poder sobrenatural, um poder divino, que faz as pessoas perderem a cabeça”.

MORENO ALTO, BONITO E SENSUAL

Da criatura atormentada de Frankenstein ao violentamente romântico Heatcliff em O Morro dos Ventos Uivantes, Jacob Elordi se firma como um dos grandes jovens atores de Hollywood

Jacob Elordi chegou a Hollywood com apenas 19 anos, o sonho de ser ator, mas quase nada de experiência. Se alguém chegasse para esse jovem australiano que pouco menos de dez anos depois ele seria não só um dos principais galãs da indústria como um ator respeitado por suas escolhas e atuações, ele daria boas gargalhadas. Mas a verdade é que Elordi se consagrou no final de 2025 ao interpretar a criatura em Frankenstein de Guillermo Del Toro, e já começou 2026 a toda velocidade ao contracenar com Margot Robbie na ousada interpretação da diretora Emerald Fennell para o clássico O Morro dos Ventos Uivantes. 

Coincidência ou não, Elordi acabou se tornando o único ator da história a participar de adaptações para o cinema de dois dos maiores romances do gótico inglês: Frankenstein, de Mary Shelley, é de 1818; enquanto O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronte, é de 1847. 

Mas o prestígio agora alcançado por Elordi começou a ser construído poucos anos atrás, mais precisamente em 2023, quando esteve nos elogiados Priscilla, de Sofia Coppola, e Saltburn, o segundo longa de Emerald Fennell. Foi uma espécie de grito de liberdade das comédias românticas juvenis que o deixaram famoso (a trilogia A Barraca do Beijo, por exemplo) e que ele detestava fazer. “Diziam que eu era ingrato, pretensioso, por reclamar. Mas me diz, como se importar com o seu trabalho pode ser pretensioso? E não estou dizendo de se importar e, conscientemente, enganar as pessoas, sabendo que está ganhando dinheiro com o tempo delas, que é literalmente a coisa mais valiosa que elas têm! Como isso pode ser algo legal?”, disse o ator em uma entrevista para a GQ, em novembro de 2023. 

Jacob Felix

E Elordi passou a procurar mais coisas legais para fazer, trabalhos que o desafiassem. Foi a versão jovem de Richard Gere em Oh, Canadá (2024), drama do renomado diretor Paul Schrader, e voltou a Austrália em grande estilo na minissérie O Caminho Estreito para os Confins do Norte (2025), uma superprodução de época. E entre esses trabalhos e a dobradinha gótica formada por Frankenstein e O Morro dos Ventos Uivantes, o ator conseguiu encaixar a gravação da muito aguardada terceira temporada de Euphoria. 

A cultuada série criada por Sam Levinson com adolescentes problemáticos de toda sorte foi responsável por lançar nomes que se tornaram grandes pouco tempo depois, tais como Zendaya, Sydney Sweeney, Hunter Schafer, Barbie Ferreira, Colman Domingo e Jacob Elordi, em um de seus primeiros trabalhos nos Estados Unidos. Em Euphoria, Elordi interpreta Nate Jacobs, o jogador de futebol americano estrela da escola, bonitão e popular. Também tem acessos de raiva perigosos, sexualidade atormentada, conflitos na família e mantém relações abusivas com suas namoradas (uma delas é Cassie, interpretada por Sydney Sweeney). 

Jacob Nate

Ser o antagonista complexo numa série de sucesso – a primeira temporada de Euphoria foi lançada em 2019 e a segunda em 2022 – foi o maior presente de início de carreira que Elordi jamais poderia imaginar. Agora, aos 28 anos, chega à terceira temporada, que estreia neste mês na HBO, com uma bagagem invejável. Seu Nate Jacobs, bem como quase todos os outros personagens, será visto em situações ainda mais complicadas na vida adulta após um salto de tempo de cinco anos. Elordi ganhou um novo presente ao poder reencontrar o personagem e injetá-lo com novas nuances que só a experiência pode dar. 

GÓTICO E ROMÂNTICO 

Tímido e consequentemente avesso a entrevistas, Elordi abriu algumas exceções nas turnês de divulgação de seus dois últimos filmes, Frankenstein e O Morro dos Ventos Uivantes. No primeiro estava ao lado de Oscar Isaac, Mia Goth ou Guillermo Del Toro. No segundo, quase sempre em companhia da conterrânea Margot Robbie. 

Jacob Monstrão

Sobre Frankenstein, que lhe deu sua primeira indicação ao Oscar, invariavelmente falava sobre as onze horas de maquiagem que tinha que passar diariamente para, literalmente, entrar na pele da criatura. “Foi o tempo perfeito. Normalmente você não tem tanto tempo durante as filmagens para realmente entrar no personagem. Então foi o tempo ideal para deixar tudo para trás e me tornar outra coisa”, explicou durante sua passagem no programa de Jimmy Fallon. 

Já sobre O Morro dos Ventos Uivantes, Elordi estava mais salto tanto por já ter trabalhado com a diretora Emerald Fennell quanto por ter se tornado muito amigo de Margot Robbie. A atriz, aliás, confessou em entrevista para a Vogue Austrália que foi ela que sugeriu Elordi para o papel de Felix Catton em Saltburn por causa de sua atuação em Euphoria. E foi no set de Saltburn que Fennell pensou em Elordi para interpretar Heatcliff em O Morro dos Ventos Uivantes, seu terceiro longa como diretora e o terceiro a ser produzido pela empresa de Margot Robbie.

Jacob Heatcliff 

Durante um festival literário na Inglaterra, Fennell confirmou que escolheu Elordi porque “ele parecia exatamente com a ilustração de Heatcliff na capa da primeira edição que li do romance”. Obcecada pelo livro e por adaptá-lo para o cinema, Fennell disse ainda que “queria criar algo que me fizesse sentir quando li o livro pela primeira vez, ou seja, algo que provocasse uma resposta emocional. Algo primitivo, sexual. Queria criar algo que fosse a experiência de ler o livro quando tinha 14 anos”. Elordi e Robbie lhe deram régua e compasso.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

o mundo é um bordel

mais três textos pra edição de fevereiro da Revista Monet. os que fiz sobre Amanda Seyfried e Sydney Sweeney, a dupla protagonista do thriller A Empregada, mas acho que não vou colocar por aqui não. prefiro o que fiz pra Dona Beja, nova novela brasileira da HBO, que tem entrevistas com um dos roteiristas (António Barreira) e um dos amores de Beja (David Júnior). não consegui falar com Grazi Massafera porque ela está trabalhando sem parar na novela global das 9 que está no ar agora (As Três Graças).

SENHORA DE TANTOS AMORES

Grazi Massafera é a nova encarnação da sensualidade e dos dramas de Dona Beja, figura lendária e real do Brasil Império, em novela na HBO Max

Ana Jacinta de São José não veio ao mundo a passeio. Ela amou e foi desprezada, enriqueceu e sofreu abusos de todo tipo, foi temida e desejada, criou uma família aos trancos e barrancos e comandou a política de sua cidade diretamente de um bordel. Tudo isso nas Minas Gerais do Brasil Império. Ana Jacinta, mais conhecida como Dona Beja (1800-1873), é até hoje uma lenda muito viva em Araxá (MG). Então, quarenta anos após sua primeira encarnação na TV, interpretada por Maitê Proença na extinta TV Manchete, Dona Beja renasce e ganha novo corpo em Grazi Massafera na segunda novela brasileira da HBO Max. 

Escrita por Daniel Berlinsky e António Barreira, Dona Beja terá 40 capítulos e tem como base os livros Dona Beja: A Feiticeira do Araxá de Thomas Othon Leonardos e A Vida em Flor de Dona Beja de Agripa Vasconcelos. Além, claro, da novela Dona Beija, um grande sucesso em 1986 que transformou Maitê Proença em sex symbol nacional. A atriz, aliás, foi uma das que melhor definiu a trajetória da personagem que interpretou. 

“Antes de completar 15 anos, Beja já era vista como uma ameaça para as damas da sociedade por conta da beleza extraordinária. Não conseguiram enxergar a menina, mas sim uma mulher feita e perigosa. O ouvidor do rei, Dom Joaquim Inácio, ‘apaixonado’, a sequestra e a mantém como sua amante por dois anos. A família, humilde, se viu impotente para recuperá-la das garras de um homem tão poderoso. E ela só volta para casa quando o ouvidor retorna a Portugal. Em Araxá, em vez de vítima, a menina foi tratada como uma sedutora, depravada. Machucada, a Beja vira a mesa e passa a dormir cada noite com o homem de sua escolha. Toma-lhes joias e muito dinheiro, tem filhos com eles. E assim, graças à inveja e ao desejo dos tortos, ela constrói fama, família e fortuna. Tanto fizeram que ela virou mulher rapidinho e soube se vingar”, disse Proença em vídeo de uma série chamada ‘Mulher de Fibra’ que fez para suas redes sociais alguns anos atrás. 

POR ELA SONHAM OS HOMENS

Barreira, um dos roteiristas da nova Dona Beja, é português e destrinchar a história brasileira, e suas relações íntimas e conflitantes com Portugal, foi um desafio à parte. “Isso me obrigou a realizar a maior imersão cultural da minha vida. Precisei entender profundamente o Brasil contemporâneo para, então, compreender o Brasil de duzentos anos atrás. E não apenas a história ensinada oficialmente nas escolas, mas também em narrativas menos difundidas, documentadas, que oferecem outras perspectivas sobre o mesmo período histórico. Esse mergulho cultural me transformou profundamente”, explicou. 

Mas a princípio, o maior desafio dos roteiristas era o de colocar uma história ambientada no século 19 em diálogo com a sociedade contemporânea deste século 21. Barreira viu que, infelizmente, essa expressiva distância temporal não era um abismo tão grande assim, afinal de contas, “ao olhar para o passado, percebemos que muitos conflitos permanecem presentes no cotidiano atual. Bastou, portanto, enfatizar determinados elementos já existentes na trama original para que ganhassem contemporaneidade. Por exemplo, Dona Beja apresenta uma forte jornada de empoderamento feminino. Em uma sociedade que ainda carrega traços machistas e patriarcais, Beja pode ser vista por muitos como uma transgressora. No entanto, ela é, sobretudo, uma mulher que se tornou dona de si, que seguiu seus desejos e não se curvou às imposições masculinas. Sua história revela a hipocrisia da sociedade em que estava inserida — uma hipocrisia que, em muitos aspectos, ainda persiste. O passado, portanto, segue presente”.


QUEM A BEJA, BEIJARÁ?

Os principais interesses românticos da personagem de Grazi Massafera em Dona Beja são Antônio Sampaio e João Carneiro de Mendonça. Interpretados por Gracindo Júnior e Marcelo Picchi na novela dos anos 1980, agora estão sob a responsabilidade de David Júnior e André Luiz Miranda, respectivamente. Mas o fato de ambos serem negros e não escravizados, e isso muito antes da abolição da escravatura em 1888, gerou uma série de questionamentos na época do lançamento do primeiro teaser da novela. 

Já preparado para tais perguntas, Barreira tem a resposta na ponta da língua. “É que grande parte dos brasileiros aprende que a liberdade dos negros só se deu com a Lei Áurea. No entanto, obras como Escritos de Liberdade, da historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, revelam a presença significativa de homens negros livres e influentes na sociedade brasileira da primeira metade do século 19. Censos da época também apontam uma estrutura social diversa em Minas Gerais, onde se passa a novela, com negros livres atuando como advogados, comerciantes, intelectuais e líderes comunitários”, afirma o roteirista. 

Essa particularidade de Minas Gerais pode ser explicada pela exploração do ouro, pois foi desta forma que muitos negros conseguiram comprar sua própria alforria e a de outros, estabelecendo assim comunidades negras livres ainda no Brasil Império. Dona Beja quer, segundo seus autores, convidar o público a ampliar seu olhar sobre o passado só que com fundamento histórico. “Mas a novela também aborda o racismo dentro das próprias famílias, as hierarquias sociais e as violências sutis sofridas por negros livres que ousavam ocupar espaços reservados à elite branca”, diz Barreira.

Com essa premissa instigante, David Júnior, que interpreta Antônio Sampaio, ficou entre o surpreso e o empolgado com o convite. “Dar vida a um corpo preto numa novela de época, montando a cavalo ao invés de puxá-lo, e ocupando lugares de poder, o que nas novelas dos anos 1980 só eram lugares de subserviência, alimentou minha paixão pelo nosso ofício de uma maneira única”, relembrou Júnior. 

Detalhe: o ator, que foi par romântico de Grazi Massafera na novela Bom Sucesso (2019), já filmou cenas tórridas com Maitê Proença na novela Liberdade, Liberdade (2016). Dizem que de Dona Beja ele entende. Quem há de discordar?

sábado, 20 de dezembro de 2025

ma ôe

dose dupla na edição de dezembro da Monet. de um lado, Taylor Swift (que acho que não colocarei aqui). do outro, um novo filme sobre Sílvio Santos. em Silvio Santos Vem Aí!, Leandro Hassum encarna o lendário comunicador durante a estranha, oportunista e mal sucedida tentativa de se candidatar à presidência (na primeira eleição democrática para o cargo desde o fim da ditadura). peguei aspas de Hassum e da co-protagonista Manu Gavassi de um material divulgado para a imprensa, mas entrevistei a diretora Cris D'Amato. o resultado tá aqui.

 
É NAMORO OU AMIZADE

Silvio Santos Vem Aí! traz Leandro Hassum como um dos maiores comunicadores brasileiros em sua tentativa de se tornar Presidente da República

Quando Silvio Santos morreu em 17 de agosto de 2024, aos 93 anos, seus milhões de fãs não puderam velá-lo. É que uma das figuras públicas mais conhecidas da história brasileira quis que sua morte fosse um momento tão íntimo da família como foi sua vida pessoal. Ele sabia também que sua voz, seu humor e seu poder de comunicação permaneceriam vivos e que assim, e somente assim, gostaria de ser lembrado. Mas não custa imaginar o que existe por trás da máscara e é justamente isso que faz Sílvio Santos Vem Aí!, protagonizado por Leandro Hassum e lançamento do mês na Claro.
 
“Ninguém nunca viu o Silvio Santos entre quatro paredes na casa dele. Como era o Silvio Santos? Como ele falava com as suas filhas? Como ele falava com a sua esposa? Porque o que a gente tem é o que a gente viu gravado. Então, o Silvio, na sua intimidade, é uma incógnita, e aí ele virou uma personagem de ficção para a gente. Acho que o Silvio merece muitos filmes, muitos recortes, porque a vida dele é muito rica”, explicou a diretora Cris D’Amato.
 
Especialista em comédias de sucesso para o cinema tais como SOS – Mulheres ao Mar (1 e 2), A Sogra Perfeita (1 e 2) e Pai em Dobro, D’Amato foi apresentada ao projeto pela produtora Verônica Stumpf em 2019 e a princípio pensou em não aceitar porque achou que era pouco tempo para muita vida. Então, para desanimá-la ainda mais, apareceu um outro longa (Silvio, com Rodrigo Faro, que seria lançado em 2020, mas por causa da pandemia só foi em 2024) e uma série (O Rei da TV, com José Rubens Chachá, que teve duas temporadas em 2022 e 2023). Só que o recorte da vida de Silvio Santos escolhido pelo roteirista Paulo Cursino era bom demais para deixar passar.
 
QUEM QUER DINHEIRO?
 
O ano é 1989 e Silvio Santos já era o lendário comunicador e empresário que todos conhecemos. A voz, o deboche, o começo como radialista, os programas de auditório na TV, o Baú da Felicidade do ex-camelô, o dono de concessões de emissoras de TV (dadas pelo presidente Ernesto Geisel em meados da década de 1970, durante a ditadura militar), o programa ufanista ‘Semana do Presidente’ (um agrado ao General Figueiredo, o último presidente militar), tudo de Silvio Santos já existia em 1989.
 
Então, meio que do nada, Silvio anunciou que iria se candidatar à Presidência da República a pouco mais de duas semanas antes do primeiro turno da primeira eleição para presidente após o fim da ditadura. A história de Sílvio Santos Vem Aí! pega o personagem nesse momento. “É um recorte pouco conhecido do público, o dessa época. Os bastidores do programa, as motivações políticas, como é a família e ele na intimidade, tudo vai sendo descoberto para o espectador pela personagem da Manu Gavassi, que é uma diretora de marketing que vai assessorá-lo na campanha. E aí, nos encontros dela com ele, a gente vai descobrindo um pouco da vida do Silvio Santos”, diz D’Amato.
 
Marília, a personagem de Gavassi, funciona como o espectador que vive se equilibrando entre a desconfiança e o encantamento em relação a Silvio. “Achei muito curioso quando esse convite chegou a mim porque não tenho nenhuma relação com ele. Mas depois li o roteiro e entendi que a personagem tinha esse perfil questionador e curioso, que acho que as pessoas veem muito em mim também. Ela não estava convencida sobre o Silvio e sempre com respeito e profissionalismo ousava questionar as atitudes e intenções dele”, afirmou a atriz em material divulgado para a imprensa.
                                                   
QUER PEDIR AJUDA AOS UNIVERSITÁRIOS?
 
Já Leandro Hassum, o protagonista, tem muitas lembranças de Silvio Santos. Por exemplo, tinha 16 anos em 1989 e aquela eleição presidencial também foi sua primeira, então lembrava de todo o quiproquó da candidatura, da empolgação à frustração. Mas recordava, acima de tudo, do carisma do apresentador saltando da telinha toda santa tarde de domingo.
 
“Nunca imitei o Silvio Santos, nunca usei essa ‘arma’ para a minha comédia, porque, afinal de contas, sou ator e não imitador. Então, tentei pegar o espírito dele, o espírito da animação, o jeito do apresentador, e trazer para perto no gestual, no caminhar, na postura, a maneira de se comportar. E isso foi me trazendo o Silvio Santos, pela interpretação mesmo, o que acabou ficando, a meu ver, uma grande homenagem a ele”, confessou Hassum no release do filme.
 
É que todo mundo acha que sabe imitar o Silvio, e justamente por isso o ator resolveu fazer o caminho inverso e a partir da preparação corporal que a voz do personagem surgiu. “Quando faço um personagem fictício, posso usar minhas cartas na manga da comédia e tudo mais. Quando interpreto uma personalidade que realmente existiu, e com a proporção e o tamanho do Silvio, tenho que respeitar isso. Não dá para improvisar e fazer com que o público esqueça que estou contando a história do maior comunicador do Brasil”.
 
QUAL É A MÚSICA?
 
O comprometimento de Hassum foi tão grande que a diretora Cris D’Amato não passou um dia no set sem se impressionar. “Acho o Leandro muito próximo ao Sílvio no que diz respeito à composição da personagem. Era assustadoramente parecido, dava até nervoso”, diz rindo.
 
Para confirmar sua impressão sobre a caracterização de Hassum, D’Amato resolveu pedir então que, na hora de contratar a figuração, chamassem pessoas que participavam das caravanas que iam ao programa de Silvio Santos. O resultado foi uma torrente de emoções para todos os envolvidos. Hassum relembra que “foi muito impactante quando entrei em cena como Silvio e vi muitas pessoas chorando porque tiveram a sensação de estar vendo novamente o Silvio ali. Uma senhora chegou a me pegar pelo braço e me disse “estou te vendo aqui, estou pegando na mão do Silvio Santos”. Foi um momento de arrepiar e agora, só de falar, arrepio novamente”.
 
Por essas e outras emoções que tanto a diretora Cris D’Amato quanto o ator Leandro Hassum fazem questão de frisar que Silvio Santos Vem Aí! não é uma comédia, mesmo que ambos sejam conhecidos por terem produzido alguns dos filmes mais populares do gênero no país nos últimos anos.
 
“Isso mesmo, realmente não é uma comédia, mas existem passagens muito engraçadas. A partir do momento em que o filme chega ao domingo, que era o domingo inteiro dele, a gente vai permeando o filme com momentos divertidos com Domingo no Parque, Namoro ou Amizade, Topa Tudo Por Dinheiro, Show de Calouros, vários momentos icônicos na TV. Então tem cenas muito divertidas, mas sempre com o objetivo de contar a história. Nada de piada pela piada”, explicou Hassum. Sempre rir, mas com naturalidade.

domingo, 9 de novembro de 2025

a morte e a morte de ângela

matéria bem especial essa que saiu na edição de novembro da Revista Monet porque tudo fica melhor quando rolam entrevistas mesmo, exclusivas. o assunto da vez foi a minissérie Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, estreia nacional do mês na HBO. pensei que seria interessante conversar tanto com as responsáveis pelo podcast Praia do Ossos quanto com gente da minissérie, afinal uma gerou a outra. Branca Vianna e Flora Thomson-DeVeaux toparam na hora, mas o pessoal do audiovisual dá um pouco mais de trabalho. originalmente queria falar com Marjorie Estiano (a protagonista) e Andrucha Waddington (o diretor), e acabou rolando Marjorie e Emílio Dantas (o antagonista).

só que em um momento crucial pareceu que as respostas de Marjorie e Emílio não chegariam a tempo. então fui obrigado rapidamente a estruturar o texto ao redor da pesquisa e das respostas de Branca e Flora. terminei o texto, fiquei satisfeito, e mandei pra edição. beleza. daí que algumas horas depois chegaram as respostas de Marjorie e Emílio e era impossível inseri-las no texto. não fariam sentido. o bróder e editor de mão cheia Luís Alberto Nogueira conseguiu mais dois páginas e as colocou como boxes. não dava para perder o material. aqui no Esforçado segue como na revista, o texto e essas duas entrevistas em separado. ficou melhor que a encomenda.

QUEM AMA NÃO MATA

A história da vida e morte de Ângela Diniz, em um crime que abalou o Brasil na década de 1970, é recontada em minissérie na HBO

“Não a mereci, porque não soube compreendê-la, não estava à altura dela. Ela deve ser lembrada com respeito. Desculpe-me, Ângela”. Essa reflexão e pedido de desculpas foi escrito por Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, na contracapa do livro Mea Culpa (2006), lançado 30 anos após ter assassinado Ângela Diniz com quatro tiros em 30 de dezembro de 1976 numa casa na Praia dos Ossos, em Búzios, Rio de Janeiro. 

O arrependimento de Doca pode até ter sido sincero, mas a realidade inescapável é que Ângela tinha apenas 32 anos, e três filhos, quando foi morta por “legítima defesa da honra” de Doca Street, que morreu em 18 de dezembro de 2020, aos 86 anos, vítima de um ataque cardíaco. Ele pode refazer sua vida. Ela, obviamente, não. E toda essa história que movimentou o país na virada dos anos 1970 para os 80, e deu força para o movimento feminista brasileiro, é recontada agora nos seis episódios da minissérie Ângela Diniz: Assassinada e Condenada.

Dirigida pelo experiente Andrucha Waddington – de Eu Tu Eles, Casa de Areia, Sob Pressão, Chacrinha: O Velho Guerreiro e Vitória –, a minissérie é uma adaptação do premiado podcast Praia dos Ossos, lançado em 2020 pela Rádio Novelo, e tem um elenco de peso encabeçado por Marjorie Estiano (Ângela), Emílio Dantas (Doca), Antônio Fagundes, Thiago Lacerda, Stepan Nercessian, Camila Márdila e Renata Gaspar.

Diferentemente do longa Ângela (2023), que optou por focar no drama do relacionamento abusivo do casal com Isis Valverde e Gabriel Braga Nunes nos papéis principais, Ângela Diniz: Assassinada e Condenada vai realmente além seguindo os passos das pesquisas profundas e muitas entrevistas feitas para o podcast. É o antes, o durante e o depois de uma tragédia anunciada, afinal de contas, nos ínfimos quatro meses de relacionamento entre Ângela e Doca ficou claro que a violência doméstica, disfarçada de paixão fulminante, era o tom predominante.

POR TRÁS DA HONRA

Uma das fundadoras da Rádio Novelo, a linguista Branca Vianna foi a idealizadora e apresentadora do podcast Praia dos Ossos. “Me lembro bem do assassinato da Ângela, do julgamento do Doca e da argumentação do advogado dele de que o crime teria sido motivado por legítima defesa da honra. Foi um caso muito noticiado e já tinha 13 anos quando aconteceu. Além disso, a minha mãe, Branca Moreira Alves, foi uma das feministas que organizaram o movimento de protesto e mobilização que ganhou o nome de ‘Quem ama não mata’”, disse. 

Então Branca Vianna, junto das outras fundadoras da Novelo, a jornalista Paula Scarpin e a tradutora e pesquisadora Flora Thomson-DeVeaux, começou a trabalhar na história de Ângela Diniz no início de 2019 e lançaram os oito episódios do podcast entre agosto e outubro de 2020. Durante todo o longo processo de entrevistas – foram cerca de 60 – e pesquisa em revistas, jornais e telejornais, o trio Novelo logo percebeu que precisariam dar conta de uma história com muitas camadas.

“Fizemos Praia do Ossos para contar como um assassino confesso acabou condenado a uma pena de apenas dois anos de prisão com sursis, saindo livre do tribunal. Como um homem mata uma mulher com quatro tiros na cara e vira herói? Também nos interessou o efeito que a justificativa oferecida pelo advogado do Doca Street teve no nascente movimento feminista da época. A noção de que o Doca teria matado a Ângela por amor prevaleceu no primeiro julgamento [1979] e em grande parte da opinião pública naquele momento. Então, as feministas se mobilizaram por este e outros feminicídios da época e conseguiram impactar a opinião pública e as autoridades a respeito do tema da violência doméstica”, afirmou Branca Vianna. 

O resultado desse movimento foi que a Promotoria recorreu da sentença e houve um segundo julgamento, em 1981, e dessa vez Doca Street foi condenado a 15 anos de prisão (cumpriu 5 até obter liberdade condicional em 1987). Foi uma vitória pontual, mas uma vitória, e o movimento feminista brasileiro só foi conseguir mudanças mais concretas em 2006 (com a promulgação da Lei Maria da Penha) e em 2023 (com o STF declarando a ilegalidade do argumento de “legítima defesa da honra”).

Doca e Ângela

POR TRÁS DO MITO

Tal qual Branca Vianna, Flora Thomson-DeVeaux também é uma personagem do podcast, tanto nas entrevistas quanto nos achados em arquivos, mas nos créditos ela é responsável pela pesquisa, coordenação de produção e tratamento de roteiro. “Terminei meu doutorado em letras lusófonas na Brown University e comecei a fazer a pesquisa do podcast no mês seguinte. Foi fascinante passar do Rio de Janeiro do Machado de Assis [Flora traduziu para o inglês Memórias Póstumas de Brás Cubas] direto para o mundo das colunas sociais dos anos 1970 no Brasil”, explicou.

E Ângela Diniz vivia nas colunas sociais desde que se casou muito jovem em Belo Horizonte, e depois vieram os três filhos, o “desquite”, os escândalos, a mudança para o Rio de Janeiro, o desejo de ser livre sem ser julgada. Enfim, tudo o que era da vida da “Pantera de Minas” – apelido criado pelo jornalista Ibrahim Sued –, era notícia. 

“Boa parte do que faz a história da Ângela relevante hoje é o papel que esse caso desempenhou ao impulsionar o movimento feminista brasileiro para as ruas, no combate à violência. Mas para além desse capítulo da história, a desumanização da Ângela, primeiro na mídia e depois no tribunal do júri, continua tristemente atual – sem falar na espiral tão conhecida de violência dentro do relacionamento com Doca que acabou culminando num feminicídio”, explicou Flora. 

Como não poderia deixar de ser, as responsáveis pelo Praia dos Ossos buscaram entender Ângela em toda sua complexidade e o crime que tirou a sua vida, e também o criminoso que o cometeu, como parte de uma estrutura maior de poder masculino sobre o corpo feminino. Branca lembra que “Ângela era retratada na imprensa como a sensual e meio porra louca, uma descrição obviamente redutora e preconceituosa. Foi muito interessante tentar entender quem ela foi, o que pensava, o que queria da vida, quem eram seus amigos, namorados e família, como ela foi criada, como era a sociedade em que ela cresceu”. 

Já Flora, mais estrangeira no lugar que no momento, confessa que foi fisgada de imediato “pelo desafio de encontrar a pessoa por trás do mito, em vida e em morte. Isso foi uma alegria e uma tristeza ao mesmo tempo, claro – é muito estranho conhecer uma pessoa na ausência dela, e por um motivo tão trágico”. Mas, por mais dolorida que seja, a história trágica de Ângela Diniz precisa ser contada sempre. Para nunca ser esquecida e, quem sabe, um dia jamais ser repetida.

ENTREVISTA MARJORIE ESTIANO (ÂNGELA DINIZ)

O quanto você já conhecia da história da Ângela Diniz antes de embarcar no projeto? Já tinha ouvido o podcast? Como esse projeto chegou até você e o que te levou a aceitá-lo?

Não conhecia a história da Ângela quando Andrucha me convidou e o podcast não tinha nem sido lançado também. Ele já tinha comprado os direitos, e ainda não tinha roteiro, mas aceitei na mesma hora. Tenho uma relação com o Andrucha de muita admiração, respeito e confiança [trabalharam juntos em Sob Pressão, tanto filme quanto série]. Ele é, para além de um artista que me inspira muito, um grande amigo. Estarei com ele sempre que chamar. Mas ao mesmo tempo, é um tema que me mobiliza muito. É uma causa que impacta a sociedade inteira, mas especialmente as mulheres e como tal, me sinto pessoalmente convocada. A necessidade de se discutir esse tema à exaustão até que mudanças realmente efetivas aconteçam é de extrema urgência. E depois de ouvir o podcast fiquei perplexa. O podcast Praia dos Ossos, do Rádio Novelo é incrível, muito rico, detalhado, requintado…a abordagem da Branca Viana é clara e complexa ao mesmo tempo, devorei a narrativa e já comecei a me planejar, planejar meu estudo e pesquisa.

Quais eram suas impressões sobre Ângela antes de encarná-la? E depois? Mudou algo após o término das filmagens?

Acho que a Ângela é uma provocação muito forte a todos nós, indivíduos e sociedade, antes e ainda. Ela como personalidade, seu assassinato, todo desdobramento jurídico e impacto na sociedade. Meu processo de estudo sofre e sofreu inevitavelmente influência da formação patriarcal que habita a todos nós, em menor ou maior grau de desconstrução. Foi um processo muito bonito de apropriação, de consciência de gênero, de investigação do papel político e social que nascer mulher determinou a mim. Esse foi dos aspectos mais difíceis e interessantes, para mim. Falar sobre um tema sem distanciamento é muito delicado. A arte não está dissociada dos valores da sociedade. Uma vez que todos nós ainda somos e vivemos em uma sociedade extremamente machista, conseguir ter clareza sobre a origem de uma escolha artística para a personagem não era possível. Assim sendo, nos restava reconhecer o contexto nebuloso de criação e tentar ao máximo compartilhar as decisões.

O que esse feminicídio tão brutal do passado pode nos ensinar sobre o momento atual?

Acho que o espelho de uma época, nem tão distante, que exibia a violência de forma tão exuberantemente explícita e relacioná-la com a atualidade é um exercício de autoanálise interessante. A cronologia da evolução e da não evolução sob a perspectiva da lei, comportamental, social, política…muito se caminhou, em especial no que diz respeito à liberdade individual da mulher, conquistas muito relevantes, porém, quando me volto para o fato por exemplo, de que minha liberdade de vestir, de transitar por espaços públicos ainda está sujeita a critérios específicos ao meu gênero, a sensação é viver em um recorte no tempo, sem perspectiva de mudança. É um tema extremamente urgente quando 4 feminicídios acontecem por dia em 2024/2025. É necessário que o tema fure a bolha do grupo e ocupe a sociedade inteira. A ponta do iceberg é a morte de uma mulher, mas pra isso acontecer tem uma série de falhas estruturais em absolutamente todos os departamentos da sociedade.

ENTREVISTA EMÍLIO DANTAS (DOCA STREET)

O quanto você já conhecia da história da Ângela e Doca antes de embarcar no projeto? Já tinha ouvido o podcast? Como esse projeto chegou até você e o que te levou a aceitá-lo? 

O nome Ângela Diniz sempre foi bastante familiar, devido à magnitude do crime e à repercussão que ele teve. No entanto, passei a conhecer melhor a história apenas depois de ouvir o podcast Praia dos Ossos. Escutei-o quando foi lançado e depois novamente para me aprofundar antes de trabalhar na série. O projeto me chegou por meio de um convite da Conspiração e, assim que entendi do que se tratava — sendo baseado nesse podcast documental, que acompanhei com muito interesse — achei interessante aceitar. Além disso, senti que era importante revisitar esse assunto, que demorou tanto tempo para ser compreendido e reconhecido desde a sua origem.

Qual maior desafio ao encarar um personagem tão controverso?

O maior desafio é saber que ele existiu de fato. Na ficção, conseguimos enxergar valores distorcidos e atitudes baseadas neles com algum distanciamento, o que dá certo conforto à mente. No entanto, ao lidar com fatos reais — sabendo das intenções e do comportamento do personagem — é muito mais difícil, porque você é constantemente lembrado de que isso aconteceu com alguém de verdade. Esse impacto foi ainda maior ao gravarmos em Búzios, próximos ao local onde tudo ocorreu. Essa proximidade tornou o processo emocionalmente mais intenso.

O que esse feminicídio tão brutal do passado pode nos ensinar sobre o momento atual?

Infelizmente, é a nossa atualidade que nos ensina sobre feminicídio, porque os índices de ocorrência continuam altíssimos, com uma brutalidade crescente, e os criminosos frequentemente pagam pouco ou quase nada pelos atos cometidos. É justamente por esse cenário que considero essencial trazer à tona a história de Ângela. Nesse caso, todos esses elementos ficam muito claros: Ângela era uma mulher que defendia sua liberdade, suas escolhas, sua ética, sua integridade e seus direitos. Em contrapartida, Doca Street estava completamente equivocado em suas certezas, seu moralismo e sua compreensão de relacionamentos humanos. Mais problemático ainda foi o judiciário, que aceitou o argumento da “legítima defesa da honra” — um absurdo que perdurou por mais de 30 anos nos tribunais — além da maneira midiática como o julgamento ocorreu. Esse caso, por ser quase inacreditável, oferece um material importante para que o público compreenda o que significa feminicídio no Brasil e como a sociedade e a cultura lidam com tais crimes.

Como você definiria Doca Street? E o seu Doca Street?

Penso sempre que Doca foi um homem que não entendeu nada, completamente equivocado, incapaz de compreender empatia, afeto, humanidade, amor e respeito. Ele morreu dizendo que amava Ângela Diniz, mas, paradoxalmente, cometeu um crime contra ela — algo absurdo e difícil de acreditar. Ele não questionou valores básicos e importantes e, portanto, agiu de forma equivocada. Mesmo após cumprir a quase insignificante sentença que recebeu, ele não parece ter aceitado o julgamento da sociedade em relação ao que fez. Em resumo, foi uma pessoa completamente fora da realidade, errada e, de certa forma, tosco.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

e o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem

Hermeto Pascoal, o homem, a lenda, o bruxo. ele foi o assunto do meu mais recente frila pra Revista Monet. dessa vez conversei com três músicos amigos pra saber mais sobre um dos artistas mais originais da música brasileira. com vcs, Hermeto por Dudu Tsuda, Thiago França e Meno Del Picchia.

Hermeto por Bob Wolfenson

O BRUXO DOS MIL SONS 

Do alto de seus 88 anos, o músico Hermeto Pascoal mostra toda sua energia e originalidade em documentário inédito no canal Curta!

Hermeto Pascoal é um mistério em muitos sentidos. Não se sabe de onde vem tanta energia e muito menos tanta originalidade e inquietação musical. Não se sabe nem em qual localidade de Alagoas nasceu há 88 anos: algumas fontes dizem Canoa da Lagoa (é, inclusive, o nome de um seus mais famosos discos, Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca, de 1984) e outras afirmam que é Olho d´Água Grande (35 km separam uma da outra). Os cineastas Lírio Ferreira e Carolina Sá optaram pela segunda e assim nasceu O Menino d'Olho d'Água, premiado e inédito documentário sobre o músico que estreia este mês no canal Curta! 

O longa traça um perfil de Hermeto a partir de três frentes: uma performance recente; suas lembranças de infância no sertão de Alagoas; e uma conversa sobre música e processo criativo. E a vida e obra do alagoano é um mar sem fim de histórias. Tem o encontro aos 7 anos com o acordeão do pai e os muitos forrós e festas de casamento que tocou ao lado do irmão José Neto. Tem os sons da natureza, os bichos, os instrumentos feitos com plantas e objetos. Tem a mudança para Recife aos 14 anos, o encontro com o igualmente albino e acordeonista Sivuca e as muitas rádios que tocou. Logo após completar 18 anos casou-se com Ilza, a origem de um casamento de 46 anos e 6 filhos, e descobriu o piano. 

Sempre a procura de trabalho, Hermeto foi com a família para João Pessoa atrás da Orquestra Tabajara e depois, em 1958, para o Rio de Janeiro para tocar na Rádio Mauá e também em boates e hotéis refinados. Então, no início da década de 1960, Hermeto se mudou para São Paulo e a flauta foi tomando o lugar do acordeão e do piano. Aos 25 anos, músico e pai de família, seguia tocando de tudo, mas começou a compor mais e sempre injetando Nordeste no samba jazz que fazia sucesso na época. Esteve no Som Quatro, no Sambrasa Trio e nos especialmente cultuados Quarteto Novo (o grupo que acompanhou Edu Lobo em “Ponteio”, a grande vencedora do Terceiro Festival de Música Popular Brasileira, produzido pela TV Record em 1967) e Brazilian Octopus. 

Então o percussionista Airto Moreira, seu companheiro no Quarteto Novo, o chamou para gravar nos Estados Unidos no final da década de 1960 e por lá Hermeto ficou cerca de quatro anos. Nesse período gravou dois discos com Airto e sua esposa, a cantora Flora Purim, atuando como compositor, arranjador e instrumentista. Também conheceu Miles Davis e chegou a trocar sopapos com o trompetista numa brincadeira de boxe (diz a lenda que Hermeto acertou um cruzado no rosto de Miles). O brasileiro albino e estrábico impressionou tanto o norte-americano que gravou duas de suas composições, “Nem um talvez” e “Igrejinha”, em seu disco Live-Evil (1971) com direito a participação de Hermeto tocando vários instrumentos. De volta ao Brasil em 1973, gravou seu primeiro disco solo (A Música Livre de Hermeto Pascoal) e deu início a uma das jornadas mais originais da música instrumental brasileira. 

TUDO É COISA MUSICAL

“Me lembro de escutar Hermeto pela primeira vez quando eu tinha uns 16 anos, em meados dos anos 1990. Um amigo baixista que tocava comigo na época me apresentou a música ‘Bebê’. Logo depois ouvi outras músicas dele e, claro, o seu famoso solo de chaleira que mudaria minha vida pra sempre. Parei e pensei: opa, que troço é esse? Mal sabia que alguns anos mais tarde, em 2002, seguiria nesse caminho que ele abriu e começaria minhas pesquisas em música experimental”, afirmou Dudu Tsuda, músico paulistano que participou de bandas como Cérebro Eletrônico, Jumbo Elektro e Trash Pour 4 e mais recentemente tem se dedicado a trilhas de espetáculos de dança e performances. 

O músico, professor e antropólogo Meno Del Picchia ouviu Hermeto pela primeira vez mais ou menos com a mesma idade que Tsuda. “Devia ter uns 13 ou 14 anos. Foi um disco chamado Hermeto Pascoal & Grupo, que é de 1982. Eu já estava tocando porque comecei a estudar piano ainda pequeno e depois, com 12, fui tocar instrumentos de corda, baixo e violão. E quando ouvi esse disco do Hermeto, eu pirei, achei maravilhoso, e comecei a tentar tirar umas músicas porque mexeu muito comigo. E uma das coisas que mais me impressionou, especificamente nesse primeiro álbum que ouvi, foi a capacidade do Hermeto de transportar a gente pra aquela sonoridade das bandas de coreto e seus instrumentos de sopro e percussão. Mas, ao mesmo tempo que o Hermeto me jogava em pracinhas do interior de Alagoas, ele também compunha músicas que remetiam para um jazz contemporâneo completamente experimental, e sempre com uma brasilidade muito forte”. 

Já Thiago França, criador da Espetacular Charanga do França e integrante do Metá Metá, nunca tinha ouvido nenhum disco de Hermeto até se deparar com o “bruxo” ao vivo no Sesc Campinas no final da década de 1990. “Foi uma loucura o show, porque o Hermeto tocou mais de 3 horas, e o povo do Sesc desesperado pedindo pra ele parar e ele não parava. Até uma hora que tiraram da tomada o teclado que ele estava tocando e ele catou um instrumento de percussão. O povo do Sesc subindo em cima do palco pedindo pra ele parar, pelo amor de Deus, e ele não parava. Então, essa é uma coisa que me identifico e pratico numa seara diferente, que é essa paixão, essa necessidade de tocar, essa coisa de começar a tocar e não querer parar nunca mais. É uma coisa que nunca vi em nenhuma outra pessoa, essa coisa da dedicação absoluta à música”. 

Esses três músicos, com suas sólidas carreiras próprias, não foram influenciados diretamente pela música de Hermeto, mas sim pelo jeito de fazer música de Hermeto e isso é coisa que não se esquece. “Ele é um farol para muitos jovens, pois vê-lo tocando, mesmo sabendo que são peças dificílimas, parece fácil e divertido. Ele aproxima as pessoas da música, as convida a querer também experimentar, a querer também inventar seu próprio modo de tocar. Seu ímpeto em experimentar novas linguagens e sons, por exemplo, formou meu espírito curioso e em constante interesse pela associação ainda não realizada, pelo novo formado a partir do encontro de diferentes. Ao mesmo tempo em que sua jovialidade me traz muita esperança no nosso fazer, não na esperança de ficar rico ou essas coisas banais, mas de que tudo vale à pena, mesmo que, por vezes, tenhamos a sensação que é o caminho mais difícil”, explicou Tsuda. 

Do seu jeitinho, Hermeto foi se espalhando e ganhando o mundo, principalmente Europa e Japão, lugares que nunca deixou de tocar desde os anos 1970. Montou também bandas que revelaram instrumentistas do naipe de Jovino Santos Neto, Carlos Malta, Itiberê Zwarg, Márcio Bahia, Nivaldo Ornelas, Nenê e Vinicius Dorin, que tocaram ao seu lado por anos a fio (uns ainda tocam). “Ele é um dos poucos artistas que consegue manter a mesma banda ao longo dos anos e isso faz toda diferença numa performance ao vivo, porque eles se conhecem muito, um já sabe o que o outro vai fazer e, sendo assim, o som tem uma força ainda maior”, disse Del Picchia. 

Thiago França concorda em gênero, número e degrau. “Ele é um cara que sabe valorizar as pessoas com quem ele toca, e tem essa magia de fazer todo mundo florescer junto. Mas o melhor de tudo é que na música de Hermeto tem frevo, choro, baião, samba, e tem coisas que a gente não consegue identificar direito o que são. Tem coisas super melódicas, outras super complexas, tem coisa muito suingada e tem tempos compostos dificílimos de tocar. Acho que ele foi em todos os lugares, e mapeou todas as possibilidades da música instrumental, e isso dele ter reunido dentro de um trabalho é o que o torna tão relevante. Ele é o cara que nos diz, e não só diz, mas mostra, que todos os caminhos são possíveis na música instrumental”.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

eterna fernandona

mais um frila pra revista Monet e dessa vez o assunto é o aniversário de 95 anos de uma das maiores atrizes da história da humanidade, a muito nossa Fernanda Montenegro. dessa vez não quis fazer apenas uma biografia recheada e entrevistei duas figuras do teatro para falar de Fernandona: o diretor, ator e dramatugro Ivam Cabral (d'Os Satyros, e que fiz perfil em 2018) e a atriz, diretora e dramaturga Érica Montanheiro. segue o texto com fotos de Bob Wolfenson.

Fernanda por Bob Wolfenson, 2024

A DONA DA PALAVRA

Fernanda Montenegro comemora 95 anos de vida e 80 de uma carreira toda dedicada ao texto

“Meu sonho era nunca estrear. Era ficar ensaiando, ensaiando, e aí a coisa ia acontecendo”, confessou certa vez Fernanda Montenegro à sua filha Fernanda Torres. Do alto de seus 95 anos, a grande dama do teatro, do cinema e da TV brasileira, também está comemorando 80 anos de ensaios e estreias. Impossível saber o que mais surpreenderia à pequena Arlette Pinheiro Esteves da Silva, nascida em 16 de outubro de 1929 em Madureira, no Rio de Janeiro: uma vida tão longa, uma carreira tão rica e premiada ou ser reconhecida como Fernanda Montenegro.

O pseudônimo que virou nome foi criação dela própria quando, logo após começar a trabalhar aos 15 anos como locutora e depois atriz na Rádio Ministério da Educação e Saúde (atual Rádio MEC), viu que Arlette Pinheiro não iria muito longe. Pensou em algo grandioso, um nome que poderia ser de uma escritora (ironicamente, muitos e muitos anos depois ela se tornaria um membro imortal da Academia Brasileira de Letras). Da cabeça de Arlette nasceu Fernanda Montenegro, que do rádio passou a atuar regular e apaixonadamente no teatro, onde conheceu seu marido (o ator e diretor Fernando Torres), e na televisão desde seu início no país em 1950. O cinema só viria mais tarde. 

“Minha mãe é um caso sério. E ela é viciada mesmo em teatro. ‘Os teatros estão cheios, minha filha. Cheios!’”, disse Fernanda Torres nos bastidores da apresentação única e gratuita que a mãe fez em agosto deste ano no anfiteatro do Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Numa noite quente de domingo, Fernanda Montenegro apresentou A Cerimônia do Adeus - monólogo baseado em textos de Simone de Beauvoir (1908-1986) sobre os últimos anos de vida de seu marido, Jean Paul Sartre (1905-1980) -, para nada menos que 15 mil pessoas.

“Fernanda Montenegro não é apenas uma mestra do teatro, mas também uma guardiã das múltiplas vozes que compõem o Brasil. Ela, ao longo de décadas, manteve uma companhia de teatro que cruzou as fronteiras do Brasil, levando a arte dramática a lugares onde o teatro era, muitas vezes, um raro visitante. Sua dedicação inabalável a esse trabalho itinerante reflete uma compreensão profunda do teatro como um espaço de encontro, de trocas simbólicas e de construção comunitária. Em um país continental como o nosso, onde as desigualdades culturais se manifestam com tanta força, a prática de Fernanda em levar o teatro aos mais variados rincões é uma forma potente de resistência e de valorização da cultura popular”, afirmou Ivam Cabral, ator, dramaturgo e fundador da companhia teatral Os Satyros.

Cabral nunca trabalhou com Fernanda Montenegro, mas após ser impactado por duas peças que viu com ela nos 1980 (As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant e Fedra), teve a rara oportunidade de ser seu aluno em um curso no Teatro Guaíra, em Curitiba. “Foi assim que, por três dias, tive a chance de conhecê-la em uma sala de aula. Aqueles encontros foram inesquecíveis e marcaram profundamente minha trajetória no teatro”.

Petra Von Kant e Fedra estão entre as Fernandas teatrais preferidas de Ivam Cabral, mas ele recorda também de Dona Doida, uma adaptação da obra de Adélia Prado; Dias Felizes, de Samuel Beckett, dividindo palco com o marido Fernando Torres; e a cultuada The Flash and Crash Days, de Gerald Thomas, apenas ela e a filha Fernanda Torres. “No cinema não tem como não dizer que sua atuação em Central do Brasil, de Walter Salles, é absolutamente magistral; e sua Nossa Senhora em O Auto da Compadecida, de Guel Arraes, Adriana Falcão e João Falcão, baseado na obra de Ariano Suassuna, é inesquecível. Ela não é apenas uma atriz que domina sua técnica com maestria, mas uma intérprete que infunde em cada personagem uma complexidade emocional e uma verdade cênica que transcendem o texto e tocam o espectador de forma visceral”.

Já a atriz, dramaturga e diretora Erica Montanheiro pensa um pouco e um pouco mais até chegar à conclusão que “é muito difícil definir a Fernanda, mas ela é certamente uma das principais referências para as atrizes brasileiras. A Dercy Gonçalves, por exemplo, é quem define o tempo da comédia no Brasil. Já a Marília Pera caminha no fio da navalha entre a comédia e o drama. E a Fernanda é o trabalho com a palavra, o poder da palavra, o domínio da palavra”.

Montanheiro também não teve a sorte de trabalhar com Fernanda Montenegro, mas guarda com carinho um encontro fortuito. “Foi no lançamento de um dos livros do Jô Soares, com quem trabalhei durante 11 anos. Estava lá na fila esperando pelo autógrafo quando percebi que quem estava na minha frente era a Fernanda. Quando a chegou a vez de ela pegar o autógrafo do Jô, os dois ficaram conversando e fui ali plateia desse encontro de dois monstros da cultura brasileira”.

E o que mais ela viu de Fernanda Montenegro que a marcou? Montanheiro lembra da “impressionante e inesquecível” montagem de Dias Felizes e da adaptação que Daniela Thomas fez de A Gaivota, de Anton Tchekhov, que trazia, em certo momento, “Dona Fernanda” como uma gaivota literal, fazendo barulhos e correndo pelo palco. “Muito engraçada, maravilhosa. Era algo que ninguém esperava da Dama do Teatro né, mas ela estava ali brincando como uma criança”. Montanheiro lembra ainda de se divertir horrores com personagem libertária que Fernanda Montenegro interpretou na novela Zazá, mas lembra sobretudo de Dora, a protagonista de Central do Brasil. “É um filme muito bonito e a Fernanda cria essa personagem cheia de contradições e com muitas camadas. E ela, ainda por cima, faz um melodrama com muito requinte”.

Fernanda por Bob Wolfenson, 2000

AZAR DO OSCAR

Fernanda Montenegro já era conhecida no teatro e na televisão, e tinha cerca de 35 anos, quando fez sua primeira protagonista para o cinema em A Falecida, adaptação de Nelson Rodrigues sob direção de Leon Hirszman. Suas prioridades sempre foram outras, e outros filmes notáveis só surgiram na virada da década de 1970 para a de 1980: Tudo Bem de Arnaldo Jabor e Eles Não Usam Black-Tie, novamente com Hirszman. 

Uma participação aqui, outra acolá, o tempo foi passando e outra protagonista apareceu somente no final da década de 1990. Sua Dora de Central do Brasil rapidamente alavancou o filme de Walter Salles a outro patamar de densidade dramática, trazendo consigo elogios derramados da crítica, uma fiel legião de fãs e muitas indicações e premiações por todo o mundo (filme e atriz ganharam os principais prêmios do Festival de Berlim, por exemplo). 

Então, quando vieram as indicações ao Oscar, uma nova esperança acendeu no coração do cinéfilo nacional. Se por um lado a estatueta para Melhor Filme Estrangeiro já estava na mão de Roberto Benigni e seu A Vida é Bela, a de Melhor Atriz, tão inesperada, poderia premiar o azarão e reconhecer Fernanda Montenegro mundialmente.

O momento da indicação ao Oscar foi registrado por uma equipe da TV Globo e quando o nome de Fernanda é anunciado, Walter Salles a abraça e ela diz apenas, meio com orgulho e meio com espanto: “Estou ali entre essas divinas criaturas maravilhosas. Louras”. E dá uma risadinha aérea. Suas “competidoras” eram Meryl Streep, Cate Blanchett, Gwyneth Paltrow e Emily Watson.

Mas em 21 de março de 1999, quando Jack Nicholson subiu ao palco do Dorothy Chandler Pavilion, o envelope que trazia em mãos tinha o nome de Gwyneth Paltrow. Foi uma das joias da coroa que o produtor Harvey Weinstein pagou – em termos de festas e agrados para membros da Academia – pelo sucesso de Shakespeare Apaixonado (que ganhou 7 prêmios naquela noite). Fernanda tanto não ligou que, quando um jornalista do New York Daily News perguntou se ela tinha planos para Hollywood, ela desdenhou elegantemente: “No Brasil, eu tenho uma carreira. Na América, eu tenho sotaque”.

Fernanda Montenegro pode não ter dado muita bola para o Oscar perdido, afinal continuou trabalhando incessantemente, mas a torcida brasileira nunca esquece uma injustiça. E não está só, afinal pouco mais de vinte anos depois, a atriz Glenn Close voltou a abrir a ferida em entrevista para a ABC News: “Honestamente, nunca entendi como é possível comparar atuações. Eu me lembro do ano em que Gwyneth Paltrow ganhou da atriz incrível de Central do Brasil. Eu pensei: ‘O quê? Isso não faz sentido’”, confidenciou. Não faz sentido mesmo, Glenn. Nunca fez.

Fernanda por Bob Wolfenson, 1995