sábado, 31 de março de 2012

yahoo #34

depois que escrevi esse "estamos perdidos?" lá no ultrapop na semana passada, o affair entre o ministério da cultura (gestão ana de hollanda) e o famigerado e enigmático ecad, trazido à baila pelos colegas do farofafá, ganhou alguns novos capítulos. o cineasta cacá diegues saiu em defesa do jeitinho ana-ecad ("a cultura é a alma de um povo"), o colunista d'o globo ancelmo góis lançou notinha venenosa sobre o farofafá e o próprio site do ministério da cultura republicou, como se fosse um clipping, um artigo em sua defesa escrito no estadão por josé nêumanne. artigo, aliás, equivocado, elitista e míope de cabo a rabo (como costuma ser o pensamento de nêumanne, nenhuma novidade nisso). de resto, um revelador pacto de silêncio entre governo, oposição e grande imprensa mantém a ministra de amsterdã no cargo e, consequentemente, o atual estado das coisas.


já o texto dessa semana, "o mal e as más", teve um tema mais, digamos assim, ameno: a maldade de duas vilãs recentes de novelas e como elas podem explicar os seus autores (no caso, joão emanuel carneiro e aguinaldo silva).





ESTAMOS PERDIDOS?

O bicho tá pegando. O couro tá comendo. A estrovenga tá girando. Quem acompanha notícias relacionadas à cultura musical brasileira sabe que vivemos um momento curiosamente ambivalente. Tipo euforia e depressão. Bipolar, apontariam os estudos.  Na internet, ou através dela, vivemos num frenesi inesgotável de eventos, discussões, lançamentos gratuitos, transmissões e compartilhamentos, isto é, variedade e disponibilidade. Enquanto isso, no mundo real, a Ministra da Cultura Ana de Amsterdã afirma, em sabatina no Congresso, que “hoje em dia a pirataria é feita assim. É copiado através da internet, e isso se multiplica, está sendo distribuído e vendido pela internet. (...) Isso vai matar a produção cultural brasileira se não tomarmos cuidado”.

Não parecem ser o mesmo mundo, confere? Aí fiquei dando tratos a bola... mas que mundo é esse da Ministra de Hollanda, seus assessores e secretários, que considera compartilhamento o mesmo que pirataria? E que acredita, consequentemente, que a internet é O MAL disseminador dessa praga que pode matar a produção cultural brasileira? Peraí, que cultura brasileira é essa que pode ser feita em pedacinhos pelos www da vida?

Todas essas perguntas vinham sendo respondidas nas próprias ações do MinC desde seus primeiros passos no início do ano passado. Em poucas semanas, Ana, a ministra, deu um catiripapo nos progressistas oito anos da gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira e transformou a internet em inimiga da coisa toda. Começaram uns papinhos aqui e ali com as poderosas (e míopes) organizações norte-americanas de defesa dos direitos autorais e com o ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), o enigmático & muito nosso órgão privado que não pode ser investigado, que nunca explica direito como arrecada e distribui e que, recentemente, meteu os pés pelas mãos ao tentar cobrar blogs que incorporassem vídeos do You Tube.


O tal artista que o Ministério diz estar defendendo não é o artista que compõe, grava e faz ao vivo e sim o “artista” que lucra com suas retransmissões, isto é, a iniciativa privada. E que hoje não passa de um pequeno grupo de carpideiras de discos de ouro passados, invariavelmente multinacionais. Não estou falando da boca pra fora. Recentemente, o colega aqui de Yahoo! Brasil, Pedro Alexandre Sanches, vem assinando no Farofafá, em parceria com Jotabê Medeiros e Eduardo Nunomura, uma série de reportagens sobre a estranha promiscuidade entre o MinC e o ECAD, com direito a favorecer de um (público) em prol do outro (privado) em um processo contra formação de cartel. Mas, infelizmente, nada disso deve ir muito longe, afinal ninguém liga para a cultura mesmo, não é mesmo Governo e Oposição?

Muito bem. Pouco antes, em fevereiro, durante um evento em Porto Alegre, o ex-ministro Gilberto Gil disse que “a internet chegou para bagunçar o coreto. E tem aqueles que acham que por ordem no coreto é reivindicar a restauração, a ordem tal como ela foi até agora. Para outros não, é preciso criar novas ordens, novas formas de regulação, novas formas de atendimento a questão dos direitos. (...) Essas são as novas disputas e que estão em todas as áreas, no econômico, no político, no cultural, etc.” Para Gil, como para muitos outros (e outras), não estamos nada perdidos. Vivemos é um novo estado das coisas em constante transformação. Nada é sólido e tudo tem que ser para todos, fato que deve causar arrepios nessa gestão vazia, isolada e equivocada do Ministério da Cultura.

Agora, para finalizar, que cultura (musical) brasileira é essa que está sendo ameaçada pela malvada internet? Com certeza não é a de artistas que se viralizaram pela rede, disponibilizando seus trabalhos para download gratuito, e que estão curtindo a dor e a delícia de serem donos de suas próprias carreiras, tais como Criolo, Emicida, Karina Buhr, Wado e Romulo Fróes. Já neste ano três outros artistas (Lucas Santtana, Letuce e Siba) também lançaram e distribuíram seus novos trabalhos no mesmo esquema. Para nenhum deles, a internet é vilã. Talvez esse MinC esteja defendendo a turma de padres-pastores(as) que cantam e que ultimamente tem sido a tábua de salvação (opa!) do mercado fonográfico. Mas como acredito (e não só eu) que santo de casa não faz milagre...

laerte da semana #35

laerte, portanto, é moldureiro

segunda-feira, 26 de março de 2012

os mulheres negras, ano 2012

eles estão de volta por ali, por aqui, em todo lugar (só você que não tá vendo?)... saca só essa instrumental novinha em folha com pitadinhas do "bolero" de ravel aqui, do "carinhoso" do pixinguinha acolá...





e mauricio pereira e andré abujamra, enquanto os mulheres negras, farão shows em curitiba (maio) e rio de janeiro (junho). e fica a torcida para, de repente, um disco novo.

tv on the radio goes africa

acho que não é coincidência que tunde adebimpe e kyp malone, voz e guitarra (e outras coisas) do ótimo tv on the radio andam passeando pela áfrica. em pouco menos de um ano estiveram com o tinariwen em duas faixas ("tenere taqhim tossam" e "walla illa") de tassili (anti records, 2011), mais um disco blues rock da pesada dos tuaregs que vivem no mali (ótimo making of aqui). ah, malone sozinho esteve em outras duas, "asuf d alwa" e "iswegh attay". depois participaram de "willy kataso", música do disco novo de amadou & mariam, folila (nonesuch records, 2012), que está para ser lançado em abril. o casal também é do mali.








não é coincidência porque eles obviamente entenderam que é preciso ser curioso para se permanecer novo e interessante (entre outras coisas). e que existem mais informações musicais em 30 segundos de sobras de estúdio de um tinariwen ou amadou & mariam que em qualquer cena indie rock do mundo ocidental. fugir do universo umbigo, tá ligado?

4 anos atrás...

... perdi meu avó paterno, seu zé júlio. foi na semana santa de 2008. coincidentemente estava em fortaleza para passar uns dias, acho que fazia tempo que não ia, mas quando cheguei não era dia de visita no hospital. ele já andava muito mal, inconsciente, o mal de parkinson correndo solto. daí que fui com pai, mãe, irmão, irmã, sobrinhos e cunhado para uma praia próxima (águas belas, município de cascavel). porém, no início da noite desse primeiro dia meu pai recebeu uma ligação do hospital: seu zé tinha morrido. choros, abraços, mil e uma ligações depois estávamos de volta à estrada... era o início de uma longa noite de vigília e eu, ferrado de sono e todo torto em um banco de madeira no velório, comecei a delirar... não tinha conseguido me despedir no hospital, falar qualquer coisa, sei lá... coincidentemente também estava lendo o livro das vidas - obituários do new york times e foi assim que decidi escrever um obituário, só que mais pessoal obviamente. dias depois voltei para são paulo e mandei o texto que segue abaixo para ser lido na missa de sétimo dia. foi mais ou menos o que queria ter dito pra esse cara tão bacana e tão importante pra mim. beijo grande vô, saudade da porra.


seu zé tá sentado no canto esquerdo com essa camisa style, já eu estou na parte de cima agarrado num caminhão, no colo de meu pai


PARA JOSÉ JÚLIO SAMPAIO

Já se passaram sete dias. Uma semana. Queria estar aí e abraçar todo mundo mais uma vez, falar qualquer bobagem. Lembrar do Zé Júlio, enfim. Pensei então em fazer uma homenagem usando as ferramentas do meu trabalho e me propus a escrever um obituário como aqueles de jornais: objetivo, data de nascimento, localidade, educação, empregos, objetivo, casamento, filhos, grandes e pequenos feitos, objetivo, ética, espiritualidade e assim por diante. Mas não saía palavra. Não conseguia ser objetivo. Não com Zé Júlio, meu avô. Figuraça de coração tão grande quanto ele próprio.

Sei que ele é de 9 de março de 1928, cearense da ponta da serra, município de Tamboril, mas registrado na cidade de Crateús. Primogênito entre os dez filhos de Maria Leitão e Júlio Mariano, Zé Júlio foi “sequestrado” aos 15 anos pela mãe para conseguir ter uma educação formal e fugir do trabalho na roça. Sei que teve essa primeira formação no seminário e que depois, aos 21, entrou nas Casas Pernambucanas com um diploma de Ciências Contábeis. Foi no trabalho que conheceu o amor na forma pequena de Dona Maria. Não demoraram muito para se casar. Nos tempos em que foi gerente das Pernambucanas de Coroatá, no Maranhão, mostrou seu lado empreendedor e fundou a companhia telefônica e o Rotary Club da cidade. Depois foi transferido para Floriano, no Piauí, e seguiu agitando das suas, trabalhando sempre. Sei de suas passagens por São Luís e Macapá. Sei que a aposentadoria o levou para Fortaleza e para a Feira do Livro. Sei de sua paixão pela maçonaria. Sei do filho e das filhas. Sei de tudo isso.

Vou falando e falando, mas lembro mesmo é da risada alta acompanhada de palmas ligeiramente atravessadas. Da presença carinhosa na poltrona reclinável. Do jogo de buraco na praia. Das enciclopédias e do latim. Do escritório de janelas grandes da Feira do Livro do Centro de Fortaleza. Da calculadora. Do refrigerante com pastel na lanchonete em frente à livraria. De perguntar por anos e entre risos se os netos já tinham pentelhos: já tem terra no pé de milho? Genial.

E, acima de tudo, tudo mesmo, ele e Dedé. Dona Maria de Dedé. Coisa mais linda ver os dois juntos pra cima e pra baixo. Ele alto e desajeitado. Ela miúda e precisa. Muito amor e bom humor em um casamento de 58 anos. Tanta lembrança boa.

São coisas assim que vou contar para meus filhos e filhas, sobrinhos e sobrinhas. E assim Zé Júlio se espalhará por aí. Nada objetivo. Ele que já começou a se espalhar ao colocar no mundo Jackson, Gracinha, Mileide e Ana Maria, e toda uma família linda e bagunçada, como as boas famílias são. Nós somos ele. Ele somos nós. E a vida continua.

p.s.: Ah, e agora Seu Zé está do lado do querido genro Flores, o negão beleza, e eles estão se divertindo muito. Certeza.

São Paulo, 26 de março de 2008


p.s. do p.s.: esse flores aí é carlos alberto flores, marido de minha tia paterna mileide (maria do socorro) e pai de marcelo e andré. outro cara importante na minha vida, figuraça de marca maior, gente boa como poucos e que se foi cedo demais em 1997 (coração, ah, coração). ele é o negão sorriso aí da foto abaixo bem no dia de seu casamento com mileidinha (1981?). seu zé júlio ali do lado, todo gabola. e depois me dei conta que as duas fotos desse post foram tiradas na mesma sala (paredes diferentes) da casa dos meus avós, no bairro do montese, em fortaleza.


quarta-feira, 21 de março de 2012

eres tu, o clipe

aqui pra casa, "mi vida eres tu" foi uma das melhores músicas de 2011. é vanguart no melhor estilo baladeiro, apaixonado, bolivariano. e a canção acabou de ganhar um clipaço muito bem filmado (o que já é praxe nos clipes nacionais) e com um roteiro ótimo (isso já é mais raro) sob a direção do especialista ricardo spencer (pitty, criolo & ilê aiyê, cachorro grande, cascadura, etc.). curte aí.


terça-feira, 20 de março de 2012

o gato, o rato e a ultraviolência

e não é que algum maluco abençoado com disposição e tempo livre compilou todas as aparições da dupla comichão & coçadinha n'os simpsons desde o final da década de 1980?! deu pouco mais de 48 minutos, mas é recomendável ser consumido em doses homeopáticas, afinal ultraviolência, mesmo animada, tem limite.





rever essa selvageria toda me fez lembrar do italiano massimo mattioli e seu squeak the mouse, uma mistura da boa e velha história de gato e rato com pitadas de humor nonsense, sexo explícito e violência à la sexta-feira 13. foi mais um daqueles achados da revista animal (foi capa da número 6).


o curioso é que numa busca por coisas relacionadas a squeak the mouse achei uma animação feita aqui no brasil, como trabalho de fim de curso. não é boa, mas é interessante (e tem uma citações bacanas a marcatti e mzk lá pelo final do curta).



SQUEAK THE MOUSE from MAZZA on Vimeo


pois é, assim caminha a humanidade desde os tempos de tom & jerry. ah, vi no trabalho sujo que viu no roteador.

domingo, 18 de março de 2012

a serviço secreto de sua majestade, o sabiá

domingo passado, 11 de março, foi um daqueles dias sui generis. o michel blanco, lá do yahoo, tinha me passado umas semanas antes a pauta de cobrir a visita do príncipe harry, da monarquia de sua majestade elizabeth II, a um haras no interior paulista. e rolaria um jogo de polo para arrecadar fundos para a caridade e um tanto de gente fina, elegante e nada sincera. fui com a missão de tirar algo crítico e bem humorado desse evento que teria uma cobertura bastante oficial e cheia de dedos. isso foi fácil. mas é que naquelas sete horas fui uma redação de um homem só: motorista, repórter e fotógrafo. sim, me pediram para também tirar fotos e lá fui eu reativar um lado adormecido. dizer procês que às vezes foi difícil conciliar jornalismo e fotografia, afinal quando estou fotografando (e tinha esquecido disso) fico um pouco surdo. nada bom para um jornalista. mas deu tudo certo para ambas as partes e junto com o texto, aqui com as duas partes na íntegra e algumas revisões, seguem algumas das muitas fotos que tirei

o título dessa postagem foi o primeiro que pensei para esse trabalho. achei "genial" o mashup de 007 e jair rodrigues, mas depois caí na real, vi que estava um tantinho hermético e o deixei de lado pra poder resgatá-lo aqui no esforçado. já o título que saiu no yahoo é uma brincadeira com uma reportagem clássica de gay talese, "frank sinatra está resfriado" (1965), no qual o jornalista americano traçou um perfil do cantor sem conseguir entrevistá-lo. 


PRÍNCIPE HARRY NÃO ESTÁ RESFRIADO


Última checagem antes de partir. Mochila com máquina fotográfica, celular carregado, bloco de notas, caneta funcionando, cigarros, tudo ok. Pegar a Rodovia dos Bandeirantes até a saída para Monte Mor (SP), coisa de uns 114 km, dois pedágios. Mais uns 7 km até o Haras Larissa, sendo que os últimos 3 km em estrada de terra. “A entrada deverá ser feita pela portaria de serviço do Haras”, diz o comunicado à imprensa.

Chegando lá, por volta das 10 da manhã, a entrada de serviço se mostra um funil para, de um lado, a fila de carros e vans da imprensa e, do outro, os caminhões com os cavalos para o jogo de polo que terá o Príncipe Harry, filho caçula de Charles e Diana, como grande estrela. Seria uma ótima metáfora ter jornalistas e cavalos lutando por espaço nesse evento para poucos até uma das organizadoras falar com um segurança: “Segura aqui, por favor, que os cavalos precisam entrar antes”. Fica claro de quem é a preferência.

helicóptero é gado no haras larissa

Aumentando a confusão, um carro havia atolado numa vala, travando um dos sentidos da estrada de terra e nele três moças, fãs do Príncipe Harry, tentavam entrar sem credencial. “Você não tá entendendo! Quase bati a cabeça no vidro do carro. A gente precisa entrar!”, diz uma delas aos risos. Mas não adianta rir, muito menos chorar, pois os cavalos entraram e elas não têm a mínima chance (nem após tirarem o carro atoleiro). É que esse último dia de compromissos de Harry no Brasil não terá contato popular de nenhum tipo, muito diferente do furdunço festivo que aconteceu no Rio de Janeiro. Aqui, no Haras Larissa, tudo é exclusivo, para poucos, diferenciado. A nobreza agradece.

Enquanto um intenso vaivém de helicópteros ocorre ao lado do campo de pólo, os cerca de duzentos jornalistas credenciados vão tomando seus postos em uma área carinhosamente chamada pelos profissionais de “chiqueirinho”, tudo ao som de músicas do Queen ou versões jazzificadas de hits ingleses como “Can’t Buy Me Love”, dos Beatles. Deve ser para entrar no clima, mas o clima, na verdade, é de mormaço brabo, sendo que a única sombra possível é afastada dos acontecimentos e a água mais próxima (bem como refrigerantes e lanchinhos) fica ainda mais distante. “Nesses eventos o melhor é ser motorista”, suspira uma jornalista de salto alto no misto de grama e areia que cobre a área de imprensa.

câmera ao longe registrando a chegada dos helicópteros

Bem, hora de receber o cronograma dos acontecimentos futuros. Aproximadamente quinhentos convidados começarão a chegar a qualquer minuto e em uma hora e meia o Sr. Álvaro Coelho da Fonseca trará o Príncipe numa carruagem. Depois tem hino, apresentação dos jogadores e às 13h10 está previsto o início da partida entre as equipes de Sentebale e St. Regis, o que deve durar pouco mais de uma hora. Após a premiação da terceira edição do Sentebale Royal Salute Polo Cup, os jornalistas estão convidados a dar no pé, afinal o almoço de US$ 1000,00/convite não é para os seus bicos. O montante arrecadado não é divulgado pela comitiva do Príncipe, mas o dinheiro será doado para a Sentebale, organização criada por Harry para ajudar crianças carentes em Lesoto, pequeno país incrustrado dentro da África do Sul.

Esse será o lado beneficente da viagem de Harry pelo Brasil, pois na parada no Rio de Janeiro o objetivo era divulgar uma tal Campanha GREAT, “um convite para descobrir e compartilhar tudo o que torna o Reino Unido um país ainda mais grandioso em 2012, visto que o país celebra o Jubileu de Diamante da Rainha e é sede de um dos maiores eventos esportivos do mundo, as Olimpíadas”. Em outras palavras, mostrar para o Brasil uma série de possíveis investimentos e investidores ingleses, tal como a British Petroleum, responsável em 2010, no Golfo do México, por um dos maiores acidentes ecológicos da história, e que agora está de olho na exploração do pré-sal brasileiro. O cantor Morrissey, inglês como Sua Majestade, disse na semana passada, durante show no Rio de Janeiro, que Harry “veio pegar o dinheiro de vocês. Por favor, não o deem para ele”. É, não tem mais bobo na realeza.

vista parcial do querido chiqueirinho

O mormaço vai assando lentamente esse tanto de informações. Nada de cadeiras no chiqueirinho e nada de parar. Os primeiros convidados começam a chegar e passam lenta e orgulhosamente diante de um painel com os patrocinadores do evento. “Quem é essa aí?”, pergunta um fotógrafo. “Provavelmente ninguém”, responde outro. “Bem que podia ter uma plaquinha eletrônica pra identificar essas pessoas, heim?”, sugere, sonhadoramente, uma jornalista. Alguns casais passam mais rápido, ele de gel escorrendo na nuca, ela ansiosa para ser parada pelas câmeras, mas o desfile não pode parar rumo à área VIP e sua dança de bandejas com champanhe e whisky, vestidos esvoaçantes e um mar de chapéus panamá cedidos por um dos patrocinadores.

“As pessoas são o que são pelos seus acessórios”, comenta uma jornalista de revista de celebridades. Afirmação um tanto enigmática levando-se em conta que a mulher usa um crucifixo prateado gigante pendurado no pescoço combinando com uma bota de crocodilo. Mas a frase fica mesmo solta no ar, pois um frenesi toma conta dos fotógrafos com a chegada de outra estrela do evento, o playboy e jogador de polo profissional Rico Mansur. “Já joguei contra o Príncipe Harry em outra ocasião, em Nova York, e ganhei. Hoje não vai ter moleza não”, e estufa o peito e sorri magnânimo. No comunicado entregue à imprensa, o polo é descrito como o “esporte dos reis”. Rico Mansur acredita nisso. Faça chuva, faça sol, e mesmo sob esse mormaço.

rico mansur é recebido com confetes e serpentinas virtuais

De vez em quando, alguém importante é trazido para junto do cordão branco que cerca o chiqueirinho. Um gerente de marketing aqui, um CEO acolá, até que surge John Doddrell, o Cônsul Geral Britânico em São Paulo. “O dia de hoje é um momento muito importante para nós”, começa a explicar, em inglês mesmo, até que alguém gritou ao longe: “Olha a carruagem, o Príncipe tá chegando!”. Foi o que bastou para uma desabalada carreira de câmeras e blocos, enquanto o cônsul seguiu falando palavras de release para as três repórteres que permaneceram ao seu lado. Mas não, não era o Príncipe Harry. Ele só viria quatro carruagens depois.

gloria maria e fernanda motta, prontas para as câmeras

Ih, o príncipe chegou, jogou e partiu

Antes. Alguns minutos antes chegaram, em outra carruagem, a jornalista Glória Maria e a modelo Fernanda Motta, ambas também apresentadoras de TV. Tiraram de letra a difícil descida com salto, posaram cheias de dentes e abriram caminho para a atração principal. Então veio Príncipe Harry levando a sua carruagem ao lado de Álvaro Coelho da Fonseca. Nada de parar antes para fotos, nada de falar coisa alguma, nada disso. “Não podia ser mais devagar?”, lamentou uma fotógrafa. E lá se foi o nobre inglês para perto dos seus.

A essa altura do campeonato, a área VIP tinha gente saindo pelo ladrão, mas poucas pessoas eram cobiçadas para entrevistas. Uma delas certamente era a estilista Daniella Helayel, brasileira radicada há duas décadas na Inglaterra e uma das preferidas de Kate Middleton, cunhada de Harry. Depois de alguns gritinhos de duas repórteres, Daniella se aproxima da área de imprensa e, mais uma vez, recebe na lata alguma pergunta sobre como é vestir a nobreza ou algo próximo. Instantaneamente fecha a cara, dispara que não comenta sobre nada disso, vira as costas e dá no pé (devagar, afinal estamos falando de salto e grama). Tudo acontece tão rápido que as repórteres não tiveram tempo de reformular a pergunta, algo sobre a crise na Grécia ou a nomeação de um bispo como Ministro da Pesca. Ficaram lá, bocas e blocos abertos. “Um oferecimento Royal Salute, o whisky de luxo número 1 do mundo”, diz o comentarista do jogo que já vai começar logo após o hino.

olha a daniella helayel aí (a mais baixa) 

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas um jogo de quatro tempos de quinze minutos, quatro jogadores-cavalos pra cada lado, uma bolinha, um juiz-cavalo e um campo grande. “Que jogo disputado!”, diz o comentarista no melhor estilo Galvão Bueno de inflacionar expectativas. Mas não dá pra perceber nada disso. Corre para um lado, corre para outro, trombadas equinas ocasionais, faltas por terem passado a tal linha imaginária (seria um impedimento?) e de repente saem dois gols para o Sentebale, o time do Príncipe. “Vai, Corinthians”, grita um fotógrafo.

E então, momento tenso. O paquistanês Bash Kazi, do St. Regis, literalmente cai do cavalo e se estatela na grama. O príncipe, muito gente, é um dos primeiros a ir a seu socorro, enquanto o comentarista embarga a voz de preocupação e solta um “se tiver uma ambulância...”. Claro que tinha, estava ao lado do campo o tempo todo. Todo o processo de atendimento, com direito a substituição do paquistanês (entrou um Klabin em seu lugar), matou o segundo dos quatro tempos, mas quando o jogo recomeçou o St. Regis rapidamente conseguiu empatar. Teve até um “golaço”, dizem. No mais, Bash Kazi passa bem, obrigado.

existe algo de errado com o taco do príncipe?

Metade do jogo se foi e o placar está empatado em 2 a 2. Então a bola rola novamente e o comentarista decide então ser imparcial: “Infelizmente faltou um pouco de pontaria nessa jogada”. Pouco depois, ainda mais crítico, diz que tem “algo de errado com o taco do príncipe, está um pouco sem direção”. Olhares de consternação cruzam a área de imprensa. E agora?

E agora que o sol decide mostrar sua cara mais altiva e dissipa um pouco do mormaço com calor de verdade. Não consigo mais acompanhar o jogo na beira do campo e recuo até a sombra mais próxima onde, claro, não é possível ouvir a narração e nem saber o que está acontecendo no certame (quer dizer, só quando algum debochado fala “uhhhhhhh” no caso de uma bola que sai pela linha de fundo). E então, do nada, o placar de 2 a 2 se transforma em 3 a 2, 3 a 3 e, tcharam, 6 a 3, para o time do Príncipe Harry, que não fez um gol sequer, mas mostrou “disposição”, palavras do narrador.

colegas jornalistas de olho no "jogaço"

Rapidamente, um pódio é montado no gramado e uma grande área de exclusão é aberta e cercada por seguranças para impedir qualquer fã VIP ou jornalista enxerido de se aproximar de Sua Nobreza. Então, os prêmios são distribuídos por Fernanda Motta, a taça da Sentebale Royal Salute Polo Cup é levantada e o Príncipe Harry exibe orgulhoso um par de bochechas rosadas de calor.

os de camiseta azul clara são da equipe do príncipe e falando com ele o paquistanês que caiu do cavalo no início do jogo

Acabou e Harry segue direto, sem falar com ninguém, ao carro que o levará a trocar de roupa e se preparar para o almoço. No cardápio, picadinho na ponta da faca, pastel, couve, ravioli, brownie com sorvete de creme, tudo pré-aprovado pelo Palácio de Buckingham. Sinceramente, achei meio simples por 1000 dólares/cabeça, mas a nobreza pode achar exótico, vai saber. De qualquer forma, nada mais importa, pois é hora de ser tangido. Resolvo sair antes para evitar novo engarrafamento na estrada de terra e ao ligar o carro, pegando fogo ali parado, vejo que o tanque está na reserva e o posto mais próximo fica a 7 km na cidade de Sumaré (SP). Essa sim uma situação muito real.

sexta-feira, 16 de março de 2012

gainsbourg imperial

em setembro de 2009 rolou aqui um são paulo um daqueles shows históricos, "gainsbourg imperial". foi um encontro do repertório de serge gainsbourg (1928-1991) com a carioquíssima orquestra imperial, caetano veloso, jane birkin (atriz e viúva do grande compositor francês) e o maestro jean-claude vannier (também parceiro de serge). no final de dezembro do mesmo ano foi exibido um programa na tv sesc com os bastidores do show, muitas entrevistas e várias músicas. nunca tinha visto e já está na rede faz um tempão. olha só que beleza.



Orquestra Imperial, Caetano Veloso e jane Birkin cantam Serge Gainsbourg from Andrea Cassola on Vimeo

quinta-feira, 15 de março de 2012

injustiçados, ignorados & esquecidos

paulo beto é músico de muitos sujeitos, predicados e talentos. também é conhecido pela alcunha anvil fx. mas ultimamente ele vem surpreendendo a todos com algumas coletâneas virtuais com pérolas do lado Z da música popular brasileira. no início de janeiro de 2010 ele soltou a primeira (amargurado, triste e sozinho - uma amostragem nua e crua da psicoperiferia) e de lá acabei pinçando "passat", de geraldão da colina, para uma edição da série letra/música. agora, ele e os amigos dj gorky (bonde do rolê) e mestre yupo prepararam mais duas coletâneas cheias de grandes e pequenos achados dos anos 1970 e 80, todos profundamente brasileiros e com download liberado. saca só. 


eu acho isso uma bossa - injustiçados, ignorados & esquecidos vol. 1

01 - mineirinho / “que bobo eu fui”
02 - guto / “palhacinho”
03 - nenê / “eu acho isso uma bossa”
04 - sirley gonçalves / “meio lelé”
05 - cristiano / “você chegou”
06 - elbis alen / “só amo você”
07 - beth maia / “venha viver”
08 - beto douglas / “mascarado do amor”
09 - pablo / “alegria na milonga”
10 - augusto soares / “telefonema a cobrar”
11 - zacarias costa / “an affair to remember”
12 - sergio luiz / “posso morrer de saudade”
13 - geraldo nery / “motorista de taxi”
14 - tony cruz / “casal na praça”
15 - yonara / “estou amando”
16 - dom & ravel / “o que é que você está fazendo aí, meu bem?”
17 - jonas de andrade / “velha solteirona”
18 - tony damito / “zé”
19 - jorge veiga / “deixa comigo”
20 - israel / “ditado do povo”
21 - canário & passarinho / “baixinha e gordinho”
22 - adriano santos / “por incrível que pareça”
23 - pádua / “brastoque”
24 - vic barone / “ela é linda”
25 - almir rogério / “o errante”
26 - roberto barbosa / “quero ser seu namorado”


é uma praga irmão! injustiçados, ignorados e esquecidos vol. 2

01 - geraldão da colina / “celina”
02 - jonas de andrade / “rock baiano”
03 - spray / “tic tic nervoso”
04 - red wagner / “vamos cantar essa canção”
05 – gilberto lima / “você é demaissssssss”
06 - super heróis / “somos todos super amigos”
07 - sui generis / “a praça”
08 - tarantulas / “melô do aplauso”
09 - kaito / “cara feia”
10 - black juniors / “preciso tu amor”
11 - georgie dann, o rei da lambada / “homem com h”
12 - spray / “machucado”
13 - ponto & virgula / “bole bole”
14 - fernando marcel / “juro que te quebro a cara”
15 - lins santos / “garotinha”
16 - rick & kelly / “é o pica-pau”
17 - oswaldo cruz / “você não brinca mais”
18 - alair & alaércio / “cadê o homem”
19 - zé do campo / “carro velho”
20 - osvaldo amorim / “sem aviso”
21 - tony cruz, o menudo do nordeste / “quero você”
22 - edvino / “loto loto loteria”
23 - o cantor prisioneiro / “o crime não compensa”
24 - cada vez mais perto do sucesso / “eu sou errado”
25 - clóvis xavier / “desejo”
26 - guto & moacyr franco / “papi”

yahoo #32

muitas coisas ao mesmo tempo, só digo isso. domingo passado, por exemplo, fui acompanhar (de longe, queimando no mormaço) o príncipe harry numa partida de polo em um haras de bacanas no interior de são paulo. desse evento saíram um tanto de fotos e dois textos ("que horas o príncipe chega, heim?" e "ih, o príncipe chegou, jogou e partiu"), tudo pro yahoo. ah, um desses textos acabou se tornando a coluna dessa semana, mas colocarei os dois juntos quando publicá-los (logo logo) aqui no esforçado. mas voltando um pouco no tempo segue aqui "pancadaria made in brazil", que tratou das possibilidades de um cinema de ação brasileiro a partir da chegada de luta de rua. agradecimentos a bruno soraggi, autor da matéria que me chamou atenção sobre a websérie e que também me passou o contato do ulysses paiva, produtor e roteirista de luta, e ao ulysses, claro. 

kung fu contra as bonecas, podiscrê

PANCADARIA MADE IN BRAZIL

Filme de gênero sempre foi coisa rara no Brasil, talvez por uma mistura de desinteresse, poucos espaços e uma falta de visão mais segmentada do mercado, além do fato óbvio que não temos uma indústria que produza em quantidade para os mais diversos gêneros e mercados. Aí dependíamos de iniciativas solitárias de malucos como José Mojica Marins e seu terror tropicalista protagonizado por Zé do Caixão e Afonso Brazza, o Rambo do Cerrado, e seus vídeos de ação. Mais recentemente, com a rápida disseminação das câmeras digitais e a internet como importante meio de exibição, a produção barateou e mais gente pode colocar a câmera e as ideias para rodar.

Não por coincidência quem mais se beneficiou desse novo estado das coisas foram os filmes de terror e seus fãs, sempre organizados, atuantes e colaborativos. Surgiram assim os perturbantes curtas de Dennison Ramalho (Amor Só de Mãe e Ninjas), os zumbis e monstros capixabas de Rodrigo Aragão (Mangue Negro e A Noite do Chupacabras) e os mortos-vivos paulistanos de Raphael Borghi (do vindouro curta Desalmados – O Vírus). E nessas ficava me perguntando sobre uma das minhas preferências cinematográficas... e os filmes de ação? Onde estão os filmes de ação?

No decorrer dos anos 2000 alguns filmes brasileiros de sucesso (Cidade de Deus e Tropa de Elite 1 e 2) mostraram que já temos expertise para poderosas sequências de ação. Houve também uma interessante, mas comercialmente fracassada, tentativa de inserir a capoeira no imaginário do gênero (Besouro). Porém, só no início desse ano foi lançado 2 Coelhos, o mais ousado e bem produzido longa brasileiro de ação até então. Mas não tem jeito, aprendizado é isso, acúmulo de experiências e feitos. Fiquei então animadão quando li uma reportagem no site da Vice (“Bater e correr em Recife”) sobre a websérie Luta de Rua.


Muito bem coreografado pelos dublês e atores de ação da Pinóia Filmes, com boa filmagem e edição, Luta de Rua tem chances de crescer nos próximos episódios (já existe o trailer do segundo) mostrando, na raça mesmo, que já temos algumas cartas boas nas mãos. E não adianta criticar os “atores”, o “texto” ou o “roteiro” porque o negócio aqui é fazer ação do melhor jeito possível e à moda da casa ("É o que temos!", diria Paulo de Oliveira, do programa Larica Total). No mais, o responsável por toda essa pancadaria-coisa-nossa é o roteirista e produtor Ulysses Paiva, um carioca radicado em Recife, formado em Publicidade e com experiências efeitos visuais e animações 2D e 3D.

“Percebo que, ou importamos muita coisa de fora na tentativa de ‘copiar’ alguns elementos que deram certo, descaracterizando completamente a produção como sendo brasileira, passando a parecer uma cópia mal feita de algum filme estrangeiro de sucesso; ou simplesmente priorizamos demais algo tipicamente brasileiro e acabamos esquecendo que nem tudo da nossa cultura é interessante o suficiente ou entretenimento suficiente para que o público possa apreciar plenamente. Eu acho que temos, sim, como fazer algo dentro da nossa realidade e do nosso cotidiano sem perder o foco na qualidade e entretenimento de todos que assistam a produções brasileiras, inclusive no gênero de ação”, disse em entrevista ao Yahoo! Brasil.

Falta dinheiro, claro, e Paiva esclarece que “no gênero de ação você precisa, inevitavelmente, de grandes auxílios visuais como cenas de luta ou perseguição em ambientes controlados, grande aparato de segurança, uma boa equipe de efeitos especiais e visuais, entre outros. E isso demanda pessoas especializadas e muito talentosas para se chegar a um bom resultado, além dos custos serem maiores por conta disso. O Brasil nunca teve grandes escolas ou centros de ensino para efeitos visuais. Isso também tem mudado nos últimos anos”.

Um dia a gente aprende e enquanto isso não acontece, ou acontece parcialmente, a gente vai tentando, arriscando, experimentando, dando com a cara no muro. Indo à luta.


e aqui seguem outros trechos da conversa que tive por email com ulysses paiva e que não entraram nessa edição da coluna.

"O Brasil não tem uma história de décadas produzindo grandes filmes com orçamentos altíssimos e desenvolvimento de novas tecnologias e técnicas nessa área. Um dos principais motivos, acredito, seja a falta de patrocínio e incentivo para as produções como ocorre em outros países. Mas isso tem mudado nos últimos anos com a melhora do cenário econômico brasileiro. O Brasil tem produzido muitos filmes recentemente e o brasileiro tem, cada vez mais, prestigiado as produções nacionais." 

"Se, por exemplo, você vai fazer um filme de drama, você geralmente não precisa de grandes artifícios visuais. Você precisa de uma boa história, um bom roteiro com bons diálogos e excelentes interpretações. Já no gênero de ação, você precisa, inevitavelmente, de grandes auxílios visuais como cenas de luta ou perseguição em ambientes controlados, grande aparato de segurança, uma boa equipe de efeitos especiais e visuais, entre outros. E isso demanda pessoas especializadas e muito talentosas para se chegar a um bom resultado, além dos custos serem maiores por conta disso. O Brasil nunca teve grandes escolas ou centros de ensino para efeitos visuais. Isso também tem mudado nos últimos anos, mas o conhecimento nesse aspecto ainda é pouco difundido por aqui e são poucos profissionais realmente talentosos e capacitados para fazer esses trabalhos. Isso é refletido no mercado e nas produções. Filmes como 2 Coelhos, Tropa de Elite e Besouro são importantíssimos para abrir caminho e formar uma base para produções cada vez melhores nessa área."

"Trabalho com publicidade e sempre gostei muito de cinema. Comecei na minha área com design gráfico, depois passei muitos anos estudando animação 2D e efeitos visuais. Em seguida estudei animação 3D e daí passei para filmagens. Luta de Rua nasceu do gosto e da vontade de produzir cinema de ação. Nós produzimos um primeiro vídeo, há pouco mais de um ano, para vermos o que poderíamos fazer nesse sentido. Era um vídeo de teste e ainda não existia a ideia de se fazer um seriado. Alguns meses depois é que pensamos em fazer um seriado de luta independente e usar a internet como fonte de divulgação. Na etapa de pré-produção do primeiro episódio, nós não tínhamos a menor idéia se o projeto iria ou não dar certo, por isso o primeiro episódio se resume a, basicamente, uma cena de luta. Já o segundo episódio está bem mais elaborado com diálogos, cenas de luta e perseguição com parkour. Mas a idéia inicial era que, dando certo, nós faríamos o possível para que a gente pudesse continuar a fazer o que gostamos, ou seja, conseguir patrocínio para o projeto seguir em frente. A repercussão do primeiro episódio foi bem maior do que a gente esperava e o potencial publicitário do seriado tem se tornado melhor a cada dia. Atualmente, estamos em negociação com alguns prováveis patrocinadores já para o segundo episódio, que ainda não tem data definida para a estréia devido ao grande número de problemas de temos enfrentado para fazer as gravações. Tivemos até que substituir parte do elenco por conta disso, mas a expectativa é de estréia nas próximas semanas. Nós colocamos informações, fotos, vídeos e novidades na página do seriado no facebook e é lá que vamos divulgar, com antecedência, a estréia do novo episódio. E esperamos que o público do Luta de Rua possa cada vez mais se interessar, se envolver, gostar do projeto e ajudar a compartilhar e divulgar para que o projeto siga em frente."


atualização em 30 de março: e saiu o episódio 2 de luta de rua. chama-se "salitre". saca só.


quarta-feira, 14 de março de 2012

3 na íntegra

se você ainda não ouviu três dos melhores discos lançados nesses primeiros meses de 2012 agora não tem mais desculpa, afinal avante, manja pereneo deus que devasta mas também cura estão inteiros no bom e velho soundcloud. começando então com avante, disco lindo do pernambucano siba, produzido por fernando catatau e que traz o ex-mestre ambrósio de novo tocando guitarra (após anos e anos empunhando uma rabeca). poesia da pesada, sons repletos de surpresas.


manja perene é o segundo disco do casal letuce (letícia novaes e lucas vasconcelos). financiado no esquema de crowdfunding, o trabalho tem psicodelia, rock, bom humor e algumas canções sensacionais como "areia fina", "cataploft", "sutiã", "insoniazinha", "loteria" e "ninguém muda ninguém".


pra finalizar essa selecta, o recente o deus que devasta mas também cura, quinto disco de lucas santtana, um dos artistas preferidos da casa. discaço cheio de camadas, arranjos finos, participações afiadas (céu, guizado, curumin, rica amabis, kassin, do amor e letieres leite & orkestra rumpilezz, por exemplo) e canções memoráveis como "se pá ska sp", "jogos madrugais", "dia de furar onda no mar", "o deus que devasta mas também cura" (lançada ano passado no disco de estreia de gui amabis) e uma versão de chorar de "músico" (rara parceria de tom zé e os paralamas do sucesso originalmente ouvida no disco severino).

segunda-feira, 12 de março de 2012

yahoo #31

a coluna mais recente do yahoo subiu na quarta em ponto, uma beleza, mas acabei metendo os pés pelas mãos (muito trabalho, vocês verão) e demorei pra subir aqui no esforçado a anterior. "quem tem medo de carlinhos brown?" tratou da torcida-contra durante a festa do oscar (assunto velho, eu sei). no entanto, a carlinhosbrownfobia não tem data pra acabar, portanto... ah, e a coluna mais nova do yahoo é a "pancadaria made in brazil", sobre uma tentativa de se fazer cinema de ação no brasil. agora, esperem aí, que preciso colocar "no papel", também pro yahoo, as minhas aventuras em um evento paulista-hípico em homenagem ao príncipe harry em sua passagem pelo brasil. ah, e tirei fotos, que já estão no ar em uma galeria especial.


QUEM TEM MEDO DE CARLINHOS BROWN?

No decorrer desse meu primeiro ano como colunista do Yahoo! Brasil acabei falando, sempre pelos grandes sertões e veredas da cultura popular, de muitos esportes nacionais – o mais recente foi o “segregar sem se dar conta”. Domingo passado, durante a festa de premiação do Oscar, outro esporte muito praticado deu suas caras: a raivosa torcida contra. E Carlinhos Brown foi o alvo da vez. Mais uma vez.

Brown e Sérgio Mendes concorriam pela estatueta dourada com a música “Real in Rio” (do longa de animação Rio) e só tinham um outro competidor, o neozelandês Bret McKenzie (da cultuada série Flight of the Conchords), com a música-tema do longa The Muppets. Como é uma festa americana, apesar dos agrados recentes a outras culturas de olho no mercado internacional, quem ganhou foi “Mar or Muppet”, afinal é preciso reativar a franquia dos fantoches para novas gerações. Normal. O jogo é esse.

Lembro que durante a noite fiquei na torcida pela música. Mas não por sua qualidade (achei chatinha, tipo show de mulatas para gringos) e muito menos por ser Brasil no Oscar (afinal, não era um filme nosso concorrendo e nossas qualidades e defeitos como cinematografia não mudarão com um prêmio internacional), e sim para ver a cara de tacho de quem torcia contra. “Eles” levaram a melhor.


Mas qual o problema com Carlinhos Brown? É por ele ser negro? Baiano? Genro do Chico Buarque? É por ele falar daquele jeito barroco-nagô? Por vestir umas roupas esquisitas, com turbante ou cocar na cabeça? Ele ficaria marrento se ganhasse? Ou por conseguir fazer sucesso tanto entre o pessoal do axé (Timbalada, Asa de Águia e Banda Eva) quanto entre quem gosta de uma “música de qualidade” (Caetano Veloso, Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Bebel Gilberto)? Ou ainda por fazer sucesso na Europa, principalmente na Espanha, onde é conhecido como Carlito Marron?

Não tenho uma resposta para isso. Talvez o próprio Brown tenha alguma pista. Ou o Seu Jorge, que padece da mesma torcida contra. Ou então os metaleiros que jogaram centenas de garrafinhas e copos na cabeça de Brown no Rock in Rio 2001. De qualquer forma, os odiadores continuarão odiando, não tem muito o que fazer ou dizer.

Sei que gosto de Brown e de sua música. Agora de cabeça me recordo de “Pedindo pra voltar”, “Aganju”, “Hawaii e You”, “Meia Lua inteira”, “A namorada”, “Água mineral”, a tribalista “Carnavália” e “Ratamahatta”, essa parceria muito louca com o Sepultura lançada em 1996 no disco Roots. Melhor ser lembrando por trabalhos assim do que pelo prêmio a uma música tão sem graça como “Real in Rio”. Por essas e outras fico com a frase dita pela mãe de Brown a respeito da premiação: “Ele passou pelo tapete vermelho. Quero mais o quê? O boneco é o de menos”.

segunda-feira, 5 de março de 2012

brasil (e portugal) por cyril pedrosa

mas quem diabos é cyril pedrosa? quadrinista e ilustrador francês da cidade de poitiers, mas com um tanto de raízes portuguesas, pedrosa começou trabalhando como animador e foi integrante das equipes dos longas o corcunda de notre-dame (1996) e hércules (1997), ambos da disney. aí decidiu se dedicar exclusivamente ao traço e ao roteiro de seu traço e em 2009 soltou o delicadíssimo três sombras, lançado no início de 2011 no brasil pela companhia das letras. em novembro do ano passado, pedrosa passou duas semanas aqui numa série de compromissos em são paulo, belo horizonte (fiq) e olinda (fliporto) e não parou de rasbicar um minuto sequer (também esteve no rio de janeiro, mas ainda não postou nada). fiz uma seleção aqui do que ele colocou no seu sítio, mas antes... uma palavrinha do próprio, poucas horas antes de embarcar, e publicado no blog da sua editora aqui... "tive a sorte incrível de que três sombras atravessasse fronteiras, sendo traduzido e lido em vários países, me abrindo as portas para belos encontros e inesperadas aventuras… pela primeira vez na minha vida, graças a esse livro, eu vou sobrevoar o atlântico essa noite e chegar amanhã de manhã em são paulo. não consigo acreditar que os livros tenham um poder assim, de mobilizar os homens, de provocar encontros, de mudar vidas. parece, no entanto, que é isso."


são paulo




belo horizonte





olinda





pedrosa tem um traço muito bonito, limpo e classudamente distorcido, e já tem um outro livro em quadrinhos lançado na europa: portugal. nesse video divertido ele "fala" um sobre a gênese desse livro e os três meses que passou na vila de seus antepassados escrevendo e desenhando.




p.s.: e o bruno dorigatti falou com cyril pedrosa quando ele esteve aqui, o que resultou numa baita entrevista

domingo, 4 de março de 2012

domingueira

putz, ontem o bróder fernandinho me apresentou a versão original de uma música que conheci ano passado pelos ingleses do dub colossus. "uptown top ranking" foi o primeiro e único sucesso de uma dupla de vida curta, althea & donna, que estourou com essa música no final de 1977 na inglaterra e jamaica. daí que 1978 foi o ano delas, um disco inteiro saiu (boa resenha no allmusic), mas a falta de experiências das mocinhas (tinham por volta de 18 anos à época) a fizeram cair logo no esquecimento. seguem abaixo duas versões dessa música delícia, ambas ao vivo. a primeira foi na tv inglesa e a segunda veio direto do festival reggae sunsplash.





no mais, o pessoal que tocou em uptown top ranking, o disco, é um impressionante time dos sonhos: joe gibbs na produção (gibbs havia usado o 'riddim', a base, de "upside top ranking" em outras de suas produções anteriores - "i'm still in love with you girl" e "three piece suit"), tommy mccook no trombone, earl "chinna" smith na guitarra, robbie shakespeare no baixo e sly dunbar na bateria, etc. e já que você está aqui, aproveite e escute a versão do dub colossus, fazendo pontes entre jamaica e etiópia.

buster e os livros

não vi os outros concorrentes de melhor curta de animação na última edição do oscar, mas o vencedor, the fantastic flying books of mr. morris lessmore, já me ganhou quando colocou buster keaton como referência do personagem principal. de resto, o curta é muito delicado, mesmo quando ocasionalmente sentimental demais. saca só.



morris lessmore também virou um aplicativo para iPad. não tenho essas coisas, mas pelo trailer pareceu bem interessante, colaborativo e coisa e tal. ah, a direção do curta é de william joyce em parceria com brandon oldenburg. experiente ilustrador e autor de livros infantis, joyce foi também co-produtor e designer de produção de robôs (2005), co-produtor e autor do livro que se baseou a animação a família do futuro (2007) e roteirista, co-produtor e autor do livro rise of the guardians (2012), que estreará no final do ano com vozes de hugh jackman, alec baldwin e jude law. 

pra quem não sabe ou não lembra, a cena inicial do curta - a do furacão, que é o katrina, afinal o filme é nativo do estado de louisiana - é homenagem direta à sequência clássica de buster contra um furacão e uma cidade se desfazendo em steamboat bill jr. (1928). e claro que tem também o mágico de oz (1939) nesse início de história.

p.s.: curioso que vi o curta poucos dias depois de voltar a ser buster keaton na foto do meu perfil no facebook. um salve então para buster e as coincidências.

sexta-feira, 2 de março de 2012

yahoo #30

fim de uma semana maluca com entrega de dois frilas que demandaram muitas fontes e pesquisas (não necessariamente nessa ordem). isto dito, a coluna que era pra subir na quarta foi terminada ontem no fim da tarde e subiu no yahoo hoje por volta das 13h (olha lá, "quem tem medo de carlinhos brown?" trata da torcida contra o baiano no oscar). é a bahia que não me sai do pensamento, ai ai ai. afinal, a anterior, "o espírito tosco do abadá" versa sobre uma declaração infeliz e reveladora de daniela mercury sobre o carnaval baiano.


that’s a half fuck

O ESPÍRITO TOSCO DO ABADÁ

Pois é, mais um carnaval acabou e entre rasgações de notas em São Paulo, milhares de blocos de ruas em cidades como Recife e Olinda, e mais uma vitória da Broadway momesca de Paulo Barros (Unidos da Tijuca) no Rio de Janeiro, o que sempre me chama mais atenção é o apartheid social cada vez mais profundo em Salvador.

Há poucas semanas, nos intervalos de gravação do programa Aprovado (TV Bahia, filiada da Globo), a cantora Daniela Mercury soltou a seguinte pérola testemunhada por muitos e registrada em reportagem do Terra Magazine: “Na verdade, só existe carnaval por causa da iniciativa privada”. O mais revelador é que após o ocorrido sua assessoria de imprensa soltou uma nota negando outra frase (“Caetano e Gil são do passado”), afinal pegaria mal para a cordialidade baiana, e silêncio absoluto sobre a relação carnaval X iniciativa privada.

Óbvio que o carnaval virou negócio milionário em cidades turísticas como Salvador e Rio de Janeiro. Impossível lutar contra e, a princípio, não tem nada de errado nisso. Só não dá para engolir uma frase tão canalha como essa. O carnaval nasceu, existe e se renova por iniciativa popular (o renascimento do carnaval de rua no Rio de Janeiro nos anos 2000 é um exemplo da força dessa iniciativa). No caso de Salvador, e de todas as outras cidades que importaram o conceito de micaretas e trios elétricos, a iniciativa privada veio para dar lucro a poucos e segregar a diversão.

É o tal espírito do abadá que separa os que podem pagar dos que não podem, os brancos dos negros, o pessoal premium da patuléia, os turistas dos locais, os playboys da pipoca, e assim por diante. O negócio foi ficando tão feio, tão na cara, que recentemente surgiram blocos sem cordões em Salvador. Mas no fundo pouca gente se importa. Daniela Mercury não se importa. Artistas globais que ganham um troco para dar as caras nos camarotes também não se importam. É normal. É assim mesmo. Segregar sem “se dar conta”, isto é, achando que é apenas uma busca por mais conforto para si próprio é um dos mais recorrentes esportes nacionais.

Por sorte ainda temos os bailes carnavalescos malucos & trash (que foram assunto de minha primeira coluna aqui, “Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”) e, acima de tudo, a rua, que sempre falará mais alto e com mais potência, humor e graça que a tal iniciativa privada. A rua somos nós feito confete e serpentina.

quinta-feira, 1 de março de 2012

soul de dentro, soul de fora

michael kiwanuka, 24 anos, nativo de muswell high, norte de londres. o sobrenome veio dos pais ugandenses e o soul nasceu com ele. o moleque começou a aparecer no ano passado após uma breve carreira de guitarrista de estúdio e já começou apavorando com a linda "tell me a tale", lançada em seu primeiro EP de mesmo nome, em abril do ano passado. em julho vieram outros dois EPs, itunes festival: london 2011 e i'm getting ready. seu som é soul profundo, filho direto de otis redding e bill withers, mas com umas coisinhas folk aqui e ali, vindas provavelmente de sua confessa paixão por van morrison e joni mitchell.





ainda no ano passado, kiwanuka começou a agilizar seu disco de estreia, home again (polydor/communion records), com data de lançamento marcada para agora, 12 de março. a produção ficou a cargo do músico paul butler (the bees) e as músicas "tell me a tale" e "i'm getting ready" abrem o disco. a canção que deu nome ao disco, a dolorida "home again", é a faixa 5 e já ganhou um clipe à altura.





e como se não bastassem esses dois exemplos do potencial de kiwanuka, há poucos dias o próprio artista disponibilizou em streaming a sensacional "lasan", um lado b do single de "i'm getting ready" e que traz participação de dan auerbach (the black keys).





e vale muito dar uma navegada pelo soundcloud do rapaz. tem muito mais coisa, os EPs inteiros e tal. disco e artista que prometem mais e melhores sons no futuro, né não? ah, e antes de ir, olha só a capa style de home again.


atualização em maio... o pessoal esperto do la blogothèque pegou kiwanuka numa passagem por paris e fez esse belo video para a série "a take away show". destaque para "bones", uma das mais lindas músicas do disco, cantada no balcão de um café parisiense.