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terça-feira, 8 de agosto de 2023

bicho é mais que bicho

mais um release pra minha coleção. costumo fazer mais pra música, mas teve uma época que fiz vários pra Globo Livros (biografia do Will Eisner, livros de história, etc). só que nunca tinha feito de um livro infantil, mas como chamado da amiga Renata Assumpção é uma ordem, topei na hora. Estranhos, de Luiz Antônio Barros, é uma beleza cheia de camadas e tensões (e as ilustrações e projeto gráfico de Alex Gyurkovicz são um show à parte). saca só.

UMA ODISSEIA PARA BICHOS E CRIANÇAS

Em 1945, George Orwell criou, em A Revolução dos Bichos, uma parábola sobre a busca de uma sociedade utópica onde os animais de uma fazenda viveriam por conta própria livres de seus opressores, os humanos. E de como esse paraíso rui diante da traição e corrupção de seu ideal. Já em 1976, Chico Buarque lançou o musical teatral Os Saltimbancos e nele alguns animais fogem de seus donos para tentar a sorte, coletiva e artisticamente, na cidade grande. Estamos em 2023, e os animais de Estranhos, livro infantil escrito por Luiz Antonio Barros e ilustrado pelo designer Alex Gyurkovicz, não buscam mais uma autogestão idílica longe dos humanos. É impossível fugir deles, então querem apenas sobreviver. 

A história é toda contada por Gesilda, uma pequena aranha negra, para o autor do livro e sua neta. É uma história sobre três dias dramáticos para os bichos da Baixada Santista e que começa com um grande incêndio nas matas do Xixová-Japuí, parque estadual que fica entre os municípios de Praia Grande e São Vicente. 

Espécies nativas das mais diversas – de insetos a macacos-prego, de guaxinins a roedores, de cobras e lagartos a cães-do-mato – buscam então refúgio do outro lado da baía de Santos, nos morros do Guarujá. São levados, em perigosa travessia, por mar (a bordo de tartarugas-marinhas) e ar (por aves de todos os portes). Mas nada sai como esperado e os animais do Guarujá não os querem por lá. 

Nova travessia rumo aos jardins das praias de Santos. Novo, e ainda mais violento, conflito, mas dessa vez com os animais santistas que não querem saber de dividir espaço com desconhecidos, invasores, imigrantes, essa gentinha (segundo eles, claro). A única saída possível, sugerida por uma coruja, é que esses “estrangeiros” sigam para os morros do Marapé pelas águas do Canal 1. 

Segue então a derradeira aventura de Estranhos e nela pequenas tartarugas-marinhas aproveitam uma grande chuva para conseguir driblar as comportas do canal e assim levar os animais do Xixová-Japuí até o Marapé em segurança (e até deixando alguns pelo caminho, mais precisamente, no Orquidário). Tudo finalmente dá certo, ou quase, pois três tartarugas acabam sendo capturadas pelos humanos, esses selvagens, quando tentam regressar ao mar. Todos os animais da cidade fazem uma espécie de minuto de silêncio para os colegas que, presos no aquário da cidade, nunca mais serão livres. Gesilda, a pequena aranha negra, sobrevive para contar a história. 

Descrevendo assim, Estranhos não parece nada com literatura infantil. Diferente de A Revolução dos Bichos ou Os Saltimbancos, o livro de Luiz Antonio Barros é de um duro realismo até para adultos. Não existem muitas chances de um mundo melhor para os animais. Só se conseguirem, talvez, ficar o mais longe possível dos humanos. Ou aperfeiçoarem um senso de comunidade próprio, afinal mesmo entre os animais podem acontecer (e certamente acontecerão) brigas. A natureza também não é sopinha no mel. 

No entanto, a delicadeza utilizada por Barros para contar esse pequeno épico santista faz um contrabalanço perfeito aos assuntos difíceis, atuais e necessários que trata, tanto políticos quanto sociais e ambientais. É o cuidado com a forma unido ao respeito pela inteligência das crianças, e é justamente dessa forma que alcança, de igual para igual, o exigente público infantil. Como se tudo isso não fosse o suficiente, Estranhos é ilustrado e diagramado com um esmero expressionista por Alex Gyurkovicz. Parece um sonho. Será que aranhas sonham?

O livro Estranhos será lançado em Santos no dia 12 de agosto, na Realejo Livros (Rua Marechal Deodoro, 2)

quinta-feira, 20 de abril de 2017

de barafondas e sambas, a barra funda

não sei porque diabos deixei de colocar aqui um frila legal que fiz em 2014 - convite do michel blanco, amigo desde os tempos da coluna do yahoo. o lance era escrever um texto grande sobre a história da barra funda, bairro tradicional da região central de são paulo. lá fui andar a pé pelo bairro e pesquisar. de algumas coisas já sabia, poucas, e as que conhecia era de modo superficial [sabia que é considerado o berço do samba paulistano, mas não de que modo aconteceu ali]. trabalho massa que resultou numa das partes do livro barra funda em três tempos [paralaxe editora, 2014], organizado por marcelo aflalo, editado pelo michel e com fotos de lalo de almeida [desculpa lalo, vou colocar umas fotos minhas, umas que tirei nessas andanças pelo bairro e em outros momentos].


BARRA FUNDA, OUTROS TEMPOS

Até hoje não se sabe ao certo de onde veio o nome Barra Funda. Uns dizem que dos italianos, seus primeiros habitantes, que carinhosamente falavam que o lugar era uma ‘barafonda’, uma confusão, e muito provavelmente por sua própria presença. Outros dizem que veiodas curvas do Rio Tietê e dos portos de areia da região, pois uma barra funda facilitava a aproximação de barcos maiores. De uma forma ou de outra, Barra Funda nasceu e Barra Funda ficou.

Na segunda metade do século 19, a região era apenas um pedacinho das posses do Barão de Iguape (1778-1875) e lá se encontrava, por exemplo, a bucólica Chácara do Carvalho. Mas as construções das estações de trem da Estrada de Ferro Sorocabana (1875) e da São Paulo Railway (1892) mudaram toda a dinâmica da região. A Barra Funda virou então um movimentado entreposto, um importante meio do caminho entre o Porto de Santos e o interior do Estado, e era preciso muita mão de obra para movimentar essas novas engrenagens. Vieram então os italianos e, após a Abolição, os negros.

Em um tempo no qual as periferias eram próximas ao Centro, a Barra Funda rapidamente se transformou em um amontoado de vilas e cortiços que forneciam importante força de trabalho tanto para as ferrovias e indústrias quanto para as casas ricas no vizinho bairro dos Campos Elíseos. Não foi à toa que o primeiro bonde elétrico de São Paulo foi inaugurado em 7 de maio de 1900 ligando a Barra Funda, onde morava o então primeiro prefeito da cidade e neto do Barão de Iguape (Antônio da Silva Prado, 1840-1929), ao Largo São Bento.


Chaminé de fumaças passadas, 
escutam de perto 
os sons do Espaço das Américas

Com toda essa malha de transportes e distribuição, o desenvolvimento industrial do bairro ocorreu a passos largos a partir de 1900. Indústrias têxteis, químicas e metalúrgicas de pequeno, médio e grande porte, além de olarias e curtumes, começaram a se instalar na Várzea da Barra Funda, a parte do bairro entre as linhas de trem e o Rio Tietê. São dessa época no bairro a Cristaleria Paulista, a Fábrica de Vapor de Tecido e Fiação de Corda e de Barbante, a fábrica de papel Divani, a L. Queiróz (do lança-perfumes Pierrot) e a Bebidas Palhinha. Já na parte de cima da Barra Funda, entre o trem e os Campos Elíseos, concentrou-se a área residencial operária, além de pequenas oficinas (mecânicas, marcenarias, etc).

Boa parte das residências desse início da Barra Funda, bem como de outros bairros da cidade com predominância italiana, tinham como característica a “ponta de chuva”. Era um desenho básico para os pedreiros, dando ênfase à fachada, feito pelos capomastri (mestres de obras) com a ponta de seus guarda-chuvas na terra da construção. O restante das casas era ainda mais simples: entrada lateral, quarto enfileirados como um vagão de trem, porão e muita área de fundo, onde ficavam a cozinha e o banheiro.


A linha de trem atrás do muro, 
o pé do Viaduto Pacaembu, 
nenhum sinal do Largo do Banana

Barra Funda é que mora o samba

Um dos pontos mais importantes do bairro na primeira metade do século 20 foi o Largo da Banana, onde atualmente é o Viaduto Pacaembu e parte do Memorial da América Latina. O largo desapareceu sem deixar vestígio físico, mas o que aconteceu ali se ouve até hoje, pois é unanimidade entre historiadores que o Largo da Banana foi o berço do samba paulista. Em um triângulo de poucos metros quadrados, no qual milhares de cachos de banana e outras frutas eram vendidas e compradas diariamente, a comunidade negra do bairro se encontrava para batuques e improvisos em seus momentos de lazer, já que regularmente eram impedidos de participarem dos ranchos carnavalescos no Centro da cidade.

Foi então na Barra Funda que aconteceu a mistura urbana do samba rural vindo do interior do Estado de São Paulo (Pirapora do Bom Jesus) com o samba carioca que chegava via Porto de Santos. Tudo trazido e levado por trens e confluindo numa cidade que crescia rapidamente com a força econômica do café e da indústria.


Geraldo Filme (1928-1995) cantou essa história em diversas composições, como em “Samba da Barra Funda” - “Alô alô, gente bamba. Na Barra Funda é que mora o samba” -, lembrando de quando, ainda menino, acompanhava as rodas de samba e tiririca (capoeira) que os engraxates e carregadores improvisavam no Largo da Banana. Em “O Último Sambista”, Geraldo voltou a cantar o bairro, dessa vez com certo travo amargo de nostalgia: “Levo saudade lá do Largo da Banana / Onde nóis fazia samba / Todas noites da semana / Deixo esse samba / Que eu fiz com muito carinho / Levo no peito a saudade nas mãos o meu cavaquinho / Adeus Barra Funda”.

Esses agrupamentos festivos que aconteciam no Largo deram origem, em 1914, ao Grupo Carnavalesco Barra Funda. Seus integrantes saíam pelas ruas do bairro vestidos de camisas verdes e calças brancas e, como é de costume em manifestações realmente populares na rua, eram perseguidos pela polícia. Quando ocorriam essas repressões as festas eram transferidas para os quintais ou porões de teto baixo que, a princípio, foram feitos para guardar mantimentos, mas com o adensamento da população ganharam função domiciliar.

Na década de 1930, durante o ditatorial Estado Novo de Getúlio Vargas, os foliões foram sistematicamente “confundidos” com simpatizantes da Ação Integralista Brasileira, partido político do líder fascista Plínio Salgado, que usavam verde. A repressão foi tão dura que o grupo deixou de desfilar em 1936 e só voltou, com nome novo (Escola de Samba Camisa Verde e Branco), na década de 1950.

Em meados da década de 1950, com a cidade em franca expansão, surgiu a necessidade de ligar o bairro com a Zona Norte. Como existiam poucas passagens sobre a linha de trem foi construído o Viaduto Pacaembu, que acabou passando por cima (literalmente) do Largo da Banana. Desde então não existem mais vestígios do ainda pouco conhecido berço do samba paulista. Geraldo Filme também cantou esse triste e silencioso fim do Largo em “Vou Sambar Noutro Lugar”: “Fiquei sem o terreiro da escola / Já não posso mais sambar / Sambista sem o Largo da Banana / A Barra Funda vai parar / Surgiu um viaduto, é progresso / Eu não posso protestar / Adeus, berço do samba / Eu vou-me embora, vou sambar noutro lugar”.

Favela do Moinho

Felizmente algumas edificações históricas sobreviveram à sanha do progresso. Uma delas é o Theatro São Pedro, na esquina da Rua Barra Funda com a Rua Dr. Albuquerque Lins. Sua construção aconteceu por obra e graça do português Manuel Fernandes Lopes, homem de negócios que fez vida em São Paulo e decidiu retribuir com nada menos que um teatro (que hoje é o segundo mais velho da cidade ainda na ativa, perdendo apenas para o Theatro Municipal de 1911). O nome São Pedro veio do local de nascimento de seu benfeitor, Sarzedas de São Pedro, vilarejo próximo a Coimbra.

De estilo eclético, meio neoclássico e meio art nouveau, o teatro foi inaugurado em 20 de janeiro de 1917, e manteve durante muito tempo uma programação que ia desde sessões de cinema até operetas, passando por concertos, espetáculos de variedades e dança. A partir do final da década de 1960 passou por diversas fases de abandono e efervescência. No final da década de 1960, por exemplo, as atrizes Lélia Abramo e Beatriz Segall comandaram uma guinada para as artes cênicas e foram montadas peças de autores como Bertolt Brecht, Ariano Suassuna e Chico Buarque.

O tombamento pelo Patrimônio Histórico aconteceu em 1984, mas o Theatro São Pedro só voltou a abrir ao público definitivamente a partir de uma grande reforma em 1998 e desde então segue firme como uma das poucas edificações que lembra a fase áurea do bairro.

Outras edificações sobreviventes são o palacete da Chácara do Carvalho, situado na Alameda Barão de Limeira, e a Casa Mário de Andrade, na esquina da Rua Lopes Chaves com a Rua Margarida.

O palacete é um dos marcos iniciais do bairro, foi construído no final do século 19 e pertenceu a família do Barão de Iguape. A princípio era um lugar de criação de cavalos puro sangue, mas com a instalação das ferrovias o terreno valorizou e Antônio da Silva Prado, que foi o primeiro prefeito da cidade (1899-1911) e neto do Barão de Iguape, decidiu construir um palacete projetado pelo italiano Luigi Pucci.

Durante a década de 1920, o palacete foi palco de inúmeros convescotes da elite paulistana e chegou até a hospedar Alberto I, o então Rei da Bélgica, e sua corte em visita a cidade. Hoje a Chácara do Carvalho abriga o Instituto de Educação Boni Consilii.

Já a casa de Mário de Andrade não tem particularmente nada de especial (arquitetonicamente falando). É um sobrado geminado típico da classe média paulistana do início do século 20, mas desde que a família do escritor modernista se mudou para lá em 1918, apenas um ano depois de sua construção, a casa ganhou importância histórica.

Lá ficava sua gigantesca e diversa biblioteca, e móveis desenhados por ele. Era lá também que Mário de Andrade dava aulas de composição e, às quartas, recebia importantes intelectuais da época, incluindo amigos que participaram da Semana de Arte de Moderna de 1922.

Durante a década de 1930, quando foi diretor do Departamento Municipal de Cultura, idealizou neste sobrado uma série de atividades culturais acessíveis para a população, tais como bibliotecas circulantes, concertos e espetáculos a preços módicos. Em 1937, pouco antes de sair para um breve autoexílio no Rio de Janeiro, viajou até Pirapora do Bom Jesus. De volta à Rua Lopes Chaves escreveu “O Samba Rural Paulista”, texto seminal sobre as origens do gênero em terras bandeirantes.

Foi no sobrado, em 25 de fevereiro de 1945, que Mário de Andrade sofreu um ataque cardíaco fulminante. Em seu testamento dava dois fins possíveis para a casa: ou ficava com a família ou deveria ser transformada em centro cultural. A casa foi tombada em 1975 e abriga desde 1990 a Oficina da Palavra, uma instituição estadual dedicada a literatura.


Casa das Caldeiras, março de 2013

Outra edificação sobrevivente do glorioso passado industrial da Barra Funda fica no extremo oeste do bairro, quase Pompéia. A Casa das Caldeiras, que desde sua reforma no final da década de 1990 é um local para eventos e shows mantido pelo Estado, era parte das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, que foi a seu tempo o maior complexo industrial da América Latina.

Tombado pelo Patrimônio Histórico em 1986, a Casa das Caldeiras é um espaço impressionante de alvenaria, pé direito altíssimo e três chaminés monumentais que levam às caldeiras que dão nome ao espaço. Sua construção começou na década de 1920 e o espaço foi ampliado em outros dois momentos (1936 e 1953) em um vasto terreno de mais de 100 mil m2. No complexo fabril do Conde Francesco Matarazzo (1854-1937) eram produzidos sabonetes, álcool, óleo vegetal, vela, sacarias, etc. Tudo devidamente escoado por uma linha de trem própria ligada à Estrada de Ferro Sorocabana.

Mas nem só de passado remoto vive o patrimônio histórico e cultural da Barra Funda, pois em 1989 o bairro ganhou o Memorial da América Latina. Idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) e projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), o Memorial foi construído em um grande terreno entre o Viaduto Pacaembu e o Terminal Intermodal da Barra Funda. Em um terreno de 84.482 m2, o complexo arquitetônico é formado pela Praça Cívica, o Parlamento Latino-Americano, a Galeria Marta Traba, a Sala de Atos, o Queijinho (Centro de Recepção de Turistas), o Pavilhão da Criatividade e o Auditório Simon Bolivar.

Até hoje, mais de duas décadas após sua inauguração, o Memorial da América Latina ainda sofre críticas. De um lado, pela completa aridez do espaço. Nada de árvores ou jardins, apenas o concreto, a ideia fixa de Niemeyer. Do outro, pela falta de diálogo com o entorno. Segundo os críticos é como se tivessem sido jogadas aleatoriamente umas construções naquele espaço e o entorno, e a cidade, que se vire para correr atrás.


Fugindo parada 
bem na ruazinha 
Chácara do Carvalho

Transformações barafondas

A partir do processo de desindustrialização que a cidade de São Paulo viveu a partir da década de 1960 – com a criação de parques industriais na região do ABC, por exemplo –, bairros como a Barra Funda sofreram sucessivas quedas demográficas. Grandes áreas, outrora fábricas e oficinas, permaneceram abandonadas durante muitos anos assombrando velhos moradores, assustando possíveis novos moradores. E o bairro foi se degradando, junto com outras partes próximas ao Centro de São Paulo, sem ninguém se dar conta de sua posição estratégica na cidade, de sua boa malha de transporte público e variedade de serviços. Nem mesmo as estações de metrô, construídas no final da década de 1970, e nem o Memorial da América Latina, do final da década de 1980, reverteram o processo. Afinal, o mais comum em São Paulo é o surgimento de iniciativas urbanas isoladas sem nenhuma preocupação com o entorno.

Segundo levantamento divulgado pelo IBGE, o distrito tinha em 2011 uma população de 14.481 pessoas moradoras, sendo que quase metade na faixa entre 30 e 59 anos. Em 1980, o número era 17.894. Por outro lado, esse mesmo censo de 2011 afirmou que a queda foi estancada e o número de habitantes permanece praticamente o mesmo desde o final dos anos 1990 (ao redor dos 14 mil), enquanto a população flutuante voltou a aumentar.

Uma das explicações para esse novo movimento na Barra Funda é que durante esse período recente, uma série de iniciativas (empresariais, de serviços, entretenimento, etc.) injetou novos dinamismos no bairro. É possível citar, entre outros, o Centro Empresarial Água Branca, os estúdios da TV Record, o 1º Tribunal do Júri da Cidade de São Paulo, o Espaço das Américas, além de bares, casas noturnas e faculdades.

Durante muitas décadas, a Barra Funda, como outros bairros de São Paulo, sofreu com a falta de planejamento urbanístico. Aos poucos, e por consequência dos limites que a cidade chegou, novas ideias precisam ser testadas, afinal o futuro da cidade depende de seu presente.

sábado, 2 de agosto de 2014

indiscotíveis: 'sobrevivendo no inferno'

uma dessas surpresas sensacionais da vida. itaici brunetti, colega jornalista com quem trabalhei na revista monet, me convidou em maio do ano passado para fazer parte de um livro ainda sem título sobre grandes discos da música brasileira a ser lançado pela jovem e independente editora lote 42. eu disse que sim claro com certeza. ele me passou uma lista gigante de discos e de cara escolhi sobrevivendo no inferno do racionais mcs. há tempos queria escrever sobre o disco, sobre os shows que vi do grupo na virada cultural, sobre rap, etc. mandei o texto no início de setembro e a vida seguiu.

achei desde o início que seria um livro bacana, mas quando vi indiscotíveis, o prazer foi maior porque ficou muito mais interessante e bonito do que esperava: o projeto gráfico de luciana martins, a ilustração de luciano salles para sobrevivendo, os textos de emicida, rael, arthur de faria, tatá aeroplano, marcelo costa, etc.

indiscotíveis foi lançado no início de julho e teve uma excelente cobertura da imprensa [até dei entrevista ao vivo pra rádio estadão] e ótimas resenhas, o que me deixou ainda mais orgulhoso de fazer parte do projeto.

além de itaici, meus sinceros agradecimentos a joão varella e cecília arbolave da lote 42, e a bia abramo, que leu o texto quando este ainda estava no berço. provavelmente a versão que segue aqui está um pouquinho diferente da impressa, já nem lembro mais. o que importa mesmo é que tem texto aqui e também no livro, que está a venda na loja virtual da lote 42. leia aqui, compre lá e divirta-se.



SOBREVINDO NO INFERNO, 1997
Racionais MCs

Ogunhê! Jorge sentou praça na Cavalaria... Deus fez o mar, as árvore, as criança, o amor; o Homem me deu as favelas, o crack, a trairagem, as arma, as bebida, as puta... Minha intenção é ruim, esvazia o lugar... Tô ouvindo alguém gritar meu nome... Parece que alguém está me carregando perto do chão... Aqui estou, mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia... Este lugar é um pesadelo periférico... Eu me formei suspeito profissional, Bacharel pós-graduado em tomar geral... Aquele moleque sobrevive como manda o dia-a-dia; tá na correria, como vive a maioria... Essa porra é um campo minado; quantas vezes eu pensei em me jogar daqui... As grades nunca vão prender nosso pensamento.



Não lembro onde, nem como, nem quando escutei Sobrevivendo no Inferno pela primeira vez. Sei que foi no comecinho de 1998 – o lançamento oficial aconteceu no final de 1997 -, e que passei semanas e semanas ouvindo o disco de todas as formas possíveis: na ordem original das faixas, aleatoriamente, umas ou outras no repeat, só trechos, etc. Já gostava do Racionais na época, mas os conhecia superficialmente [as básicas “Fim de semana no parque”, “Pânico na Zona Sul” e “Homem na estrada”], bem como o resto do rap brasileiro até então, quase exclusivamente paulistano. 

Quer dizer, Racionais não era novidade [musical] pra mim e eu já conhecia um pouco de São Paulo e da história do rap na cidade, mas nada disso tinha me preparado para Sobrevivendo. Claro, burrice minha, coisa de moleque achar que sabe mais do que realmente sabe.

Uma coisa era o impacto sonoro promovido por KL Jay, outra eram as vozes ásperas de Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock, mas foi o discurso desses rapazes latino-americanos apoiados por mais de 50 mil manos que me derrubou. Nunca tinha ouvido, e poucas vezes ouvi posteriormente, tanta raiva na música popular brasileira [que me desculpem os punks] e um olhar tão aguçado e complexo – mesmo que ocasionalmente moralista, sexista e autoritário – diante das raízes e problemas das periferias brasileiras, da nossa eterna casa grande & senzala, da luta diária na periferia. Por causa de tudo disso lembro muito bem da sensação de medo e euforia que tive após as primeiras audições do disco.

Medo do tipo “a casa caiu!”. Essa “mistura de ódio, frustração e dor” por séculos de opressão e violência um dia iria transbordar e chegar às ruas. Aí quero ver branquinho aplaudir. 

Euforia do tipo “que foda!”. A democracia racial e cordial brasileira é uma farsa igualmente secular e somente a raiva e o embate, coisas raras no país, podem desmascará-la. Franco atirador se for necessário.

Orgulho e humilhação, amor e morte, soco na cara. Tudo junto.

Só que raiva pela raiva pode até gerar fagulhas, mas não necessariamente uma explosão. Daí que o mais impressionante no discurso do quarteto é, na verdade, essa energia aliada a uma gigantesca quantidade de imagens criadas em suas rimas, a sofisticação na construção das cenas, as mudanças ágeis e não lineares entre passado, presente e futuro. Cada música de Sobrevivendo no Inferno podia ser um conto ou um filme. O disco todo é um épico das quebradas, um tanto de Shaft, outro tanto de Ben Hur. Mas eu ainda precisava ouvir aquilo tudo ao vivo.


ilustração de luciano salles para sobrevivendo no inferno

Isso só foi acontecer uns nove anos depois, em 6 de maio de 2007, um domingo, 4 e meia da manhã. Nesse meio tempo, o grupo lançou mais um disco, o duplo Nada Como um Dia Após o Outro Dia [2002], e o DVD Mil Tretas, Mil Trutas [2006]. E músicas do Sobrevivendo, tais como “Capítulo 4, Versículo 3” e “Diário de um detento”, já tinham se tornado hinos populares. Tudo parecia pronto para uma noite histórica na Praça da Sé como parte da programação da Virada Cultural, mas não foi bem o que aconteceu.

Era meu primeiro show do Racionais e quando cheguei na Praça da Sé não demorou muito para sentir que algo ruim aconteceria. De um lado, um bando de moleques nervosos, ansiosos e acordados à base de álcool. Do outro, a boa, velha, violenta e despreparada Polícia Militar do Estado de São Paulo. No meio, um show com uma hora e meia de atraso.

Praça enchendo, enchendo, e eu ali na esquina com a Rua Benjamin Constant, o mais perto que consegui ficar do palco. Então uns moleques sobem na banca de jornal na esquina de cima para verem melhor o show que tinha acabado de começar. Dois, três, sete, dez sobem, e mais querem subir. Alguns decidem pular para a sacada de um prédio comercial e abrem portas e se acotovelam por espaço. Nesse momento um grupo de policiais sai de uma base móvel, passam por mim e se dirigem a banca/prédio para acabar com aquela bagunça. Uns dez, talvez.

Poucos minutos depois o grupo volta carregando um deles aparentemente ferido, atingido por uma pedra ou algo semelhante. Era o sinal que o Choque esperava [queria?] para entrar em ação. Formam então uma parede de escudos e cassetetes batendo, batendo, tum, tum, tum, tum, como a base fatídica de “Tô ouvindo alguém me chamar”. Logo atrás dos escudos alguns policiais começam a atirar bombas de gás e tiros de borracha. Enquanto sobem pela rua do lado da Praça da Sé são recebidos com garrafas de vinho barato voando por todos os lados. 

Paralisei no meio do fogo cruzado e fiquei tentando entender o que acontecia enquanto, atrás de uma árvore, desviava de projéteis de ambos os lados. Lá no palco, show interrompido após 20 minutos, Mano Brown buscava acalmar os ânimos. “Todo mundo tem revolta, eu também tenho. Mas temos que pensar com inteligência”. De nada adiantou e o grupo decidiu encerrar o show de vez, o que acabou deixando o campo ainda mais aberto para confrontos, quebra quebra, carro queimado, gente presa, machucados e gás lacrimogêneo tomando tudo, chegando até as profundezas do metrô.

A profecia se fez como previsto? 

Não. Sempre achei, continuo achando, que as questões religiosas, as citações bíblicas, de Sobrevivendo no Inferno são lidas de forma muito literal. Deus não serve de conforto para quem sabe que Ele tem déficit de atenção seletivo e que a periferia não está entre suas prioridades. Não, não vai rolar Mundo Mágico de Oz e ninguém virá ajudar. 

Mas na periferia a Bíblia é um dos principais e mais acessíveis fornecedores de metáforas, lições, moralidades e imagens. E tem a palavra que, através do coração pragmático do rapper, se transforma em rima. É um jeito diferente de cantar sua própria honra e de colocar em versos que Deus pode até ser a vida, mas o resto é com a gente. Não é fácil, mas é o que é. Pro mal e pro bem.

O show de 2007 não foi o Apocalipse, mas certamente foi o auge da tensão entre, de um lado, a Polícia Militar e o Estado branco que ela defende, e do outro, o Racionais e os muito, muito, muito mais de 50 mil manos e minas. Uma luta que já estava toda dissecada em Sobrevivendo no Inferno.

Resultado prático? Todo mundo seguiu suas vidas, mas o Racionais ficou de fora da Virada Cultura por anos e o rap foi jogado para escanteio na programação.


Mano Brown, 2012

Salto no tempo para outro domingo, meu segundo show do Racionais. Em 19 de maio de 2013, precisamente às 14h40 [20 minutos antes do horário oficial], o quarteto encheu o palco da Júlio Prestes com um bando de parceiros, crianças e o diabo a quatro. Em tudo, por todos os cantos, o clima estava muito diferente daquele show de 6 anos atrás, e olha que a praça estava lotada, 100 mil pessoas, com gente subindo em postes e árvores, janelas de prédios como camarotes. É que a Polícia Militar não estava lá para estragar a festa.

Maduros e relaxados, mas sem ter perdido um miligrama de força no processo, Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay fizeram um show poderoso e conciso [40 minutos, tinha jogo do Santos às 16h, final do Paulistão]. Algumas músicas do Sobrevivendo no Inferno estavam lá com novos clássicos já consolidados no imaginário periférico [“Negro drama” e as duas partes de “Vida loka”) e a composições recentes como “Mil faces de um homem leal [Marighella]”. Tudo cantado a plenos pulmões por uma multidão de punhos cerrados e orgulhosa de se ver cantada de forma tão real. 

Sempre atento, Mano Brown arrumou um tempo para dizer o seguinte: “Todo mundo fala da polícia, do sistema, mas vi vários manos se desrespeitando, se roubando, se saqueando […] O rap precisa de gente de caráter, não de malandragem”. Respeito é pra quem tem, como diria o saudoso Sabotage, e é a palavra, a palavra certa, direta e reta que diferencia os homens dos meninos. 


ao longe, Racionais na Virada de 2013

A fúria negra de Sobrevivendo no Inferno continua tão intensa e necessária quanto antes, e parte dela ainda não se resolveu. Mas esse show da Júlio Prestes foi um sinal cristalino de que aquela raiva de tempos atrás não sumiu e nem pode sumir – afinal, tem muita desigualdade por aí e muita gente que lucra com essa desigualdade –, mas que agora ela convive com a leveza da sabedoria. 

É que a criação desse quarteto paulistano se entranhou profundamente no imaginário/vocabulário de grande parte dos brasileiros, e hoje em dia é tão domínio popular quanto Adoniran Barbosa, Roberto Carlos, Dorival Caymmi e assim por diante. Por outro lado, a violenta grandeza da dobradinha Sobrevivendo no Inferno e Nada Como um Dia Após o Outro Dia na virada do século fez uma sombra muito grande sobre muita gente. Foi preciso tempo e novos MCs e DJs, manos e minas, e de todos os lugares do país, para dissipar tamanha angústia da influência.

Nos últimos anos, por causa desse desprendimento estético e do crescimento econômico, o rap ganhou por aqui mais qualidade, quantidade e variedade [de temas, batidas, tudo]. Ganhou também mais mercado e é, hoje em dia, o gênero musical que dialoga com ferocidade e balanço com o maior número de pessoas dos mais diferentes estratos sócio-econômicos. 

Nesse novo cenário, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay são os pioneiros, os irmãos mais velhos, os caras mais fodas da música popular brasileira [negra, branca, índia, etc.]. São fundadores, porta vozes, inventores e estão absolutamente tranquilos quanto ao próprio legado e a força que ainda possuem. E mesmo que saibam que o rap brasileiro está amadurecendo em ótimas mãos, eles tem uma missão. Não vão parar. 

Já eu... bem, não faço ideia do tanto que já ouvi Sobrevivendo no Inferno e também perdi a conta de quantas novas audições acompanharam este texto. Mas em todas aprendi mais sobre São Paulo e o Brasil do que jamais pude imaginar. E toda vez que Mano Brown se despede...

“Aí ladrão, tô saindo fora. Paz.”

... eu respondo: “‘té a próxima!”



EPÍLOGO FICCIONAL 

Entre 2003 e 2005 tive uma coluna no Gafieiras chamada “Disco do mês de sempre”, no qual escrevi ficções inspiradas em alguns dos meus discos preferidos; Sobrevivendo no Inferno foi o décimo de um total de quinze e foi publicado originalmente em algum lugar de 2004.

O carro vai rápido pela Marginal e não pára de balançar. Nunca vi um asfalto tão ruim, tanto remendos. Mas agora é noite e o carro voa, o som no talo. Passo por uma ponte. Tem alguém lá em cima segurando uma lança e acho que está de armadura. Brilha de tão prateada. Quase fico cego. Foi rápido, passei, mas ele estava olhando para mim, certeza, de roupas e armas. Queria me acertar, o Jorge... nada vai me fazer parar, nem ele, ninguém. 

Passa outra ponte, ali a última saída, e lá no alto um avião fazendo barulho. Tá descendo. Retorno proibido. Tudo em obras. Perto daqui tinham uns prédios cinzas, janelas pequenas, e muitos homens dentro. Mataram 111. Explodiram os prédios. O rio não quer nem saber, tá morto também, esticado. De vez em quando incha e transborda, mas não é vida, é espasmo.

Aumento o som, queria fugir, só que o piano entra cortando, muito sangue. Uma faca. Queria esquecer. Peguei a Marginal pra isso. Eu sou bem pior do que você tá lendo... todo mundo pro chão, pro chão, tira a mão daí, vai filha da puta, pega o malote, filha da puta, solta, o seguro vai cobrir, solta... se eu sair daqui eu vou mudar. Tô ouvindo alguém me chamar. Era outro carro? Uma moto? Só ouvi o meu nome. Corro demais.

Chega desse rio parado, essa piscina de sangue. Quero a estrada, uma voz de mulher, eu quero mudar, vento na cara, então piso fundo e deixo a última ponte para trás. Mas não resisto e olho pelo retrovisor. Ah, tá lá de novo, o cara da armadura. Seguro a cruz em meu peito e começo a gritar... foda-se seu filha da puta, vem com a lança, vem, eu tenho coração, isso é meu, ninguém tira... ele fica lá, paradão como o rio, e cada vez menor. Estou vivo.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

lançamento de livro

é com muito orgulho que faço aqui o convite de lançamento do livro narrativas musicais: performance e experiência na música popular instrumental brasileira (editora anna blume). é de autoria do antropólogo e guitarrista giovanni cirino, um dos primeiros amigos que fiz em são paulo, 15 anos atrás, e eventual participante das entrevistas do gafieiras (lembro que ele esteve no lindomar castilho, luis vagner, hamilton de holanda e na inédita do sérgio ricardo). ainda não consegui ler o livro, mas giovanni conversou com um monte de gente para identificar "elementos que constituem as experiências que surgem no fazer musical e investiga como as questões relativas à construção da identidade nacional se articulam na música popular instrumental. apresenta seu trabalho em duas partes: a primeira contendo os dados da pesquisa de campo; e a segunda, com as discussões sobre a etnografia do fazer musical, a experiência musical e seus significados no mundo contemporâneo." sacou? tem que ter, mano!

o lançamento é amanhã, dia 5 de maio, das 18h30 às 21h30, na livraria da vila, em são paulo (mais informações no 11 3814.5811). no cardápio, além dos autógrafos memoráveis de giovanni e de seu misterioso sorriso do gato de alice, uma apresentação musical surpresa e uma bebidinha (essa eu chutei, não sei se terá, hehehe).

p.s.: pena que ainda não tinha blog quando outros amigos lançaram seus livros (maurício fiore e davi tangerino, entre eles).
não há de ser nada, farei o convite dos próximos.