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quarta-feira, 1 de abril de 2015

todos os clipes de stromae [e mais um show]

conheci a música do belga stromae em 2010 num coffeshop em amsterdã [história aqui] e adorei de cara seu rap-pop-eurodance-electro-etc. cinco anos e dois discos depois a admiração e o interesse por seu trabalho só aumentaram. ele, que já é artista grande na europa continental, agora está começando uma invasão aos estados unidos e foram shows recentes lá [south by southwest] e aqui [back 2 black] que reativaram minha memória afetiva. ah, teve também o lançamento de um novo clipe, o sensacionalíssimo "carmen", e por isso que resolvi fazer um apanhado de todos os seus clipes alto nível. saca só...

do primeiro disco [cheese, 2010] nasceram "alors on danse", "te quiero", "je cours" e "peace or violence".









do segundo disco [racine carrée, 2013] vieram "papaoutai", "formidable", "tout les mêmes", "ta fête" [que foi hino da seleção belga na copa de 2014], "ave cesaria" e "carmen" [que é uma animação de sylvain chomet, de as bicicletas de belleville]. 













atualização em 14.09.15 - saiu o sétimo clipe do segundo disco de stromae. agora é a vez da balada dramática "quando c'est" que ganhou um clipe tão bonito quanto sombrio.



atualização em 14.12.15 - stromae disponibilizou, na íntegra e em alta definição, um show que fez em montreal da sua turnê mais recente [no repertório, os dois discos]. é o mesmo show que saiu em dvd e blu-ray. que puta espetáculo foda, uma luz absurda de bonita e ágil, e um grande roteiro. sem falar que o sujeito é incansável e altamente cênico. dica: coloque em tela cheia e preste atenção do início ao fim [quase duras horas], pois vale muito a pena. 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

arte é uma piada

há pouco tempo postei aqui os gifs heréticos-renascentistas do canadense james kerr. daí que vi lá no trabalho sujo essas animações sensacionais que a produtora australiana jungleboys fez para o canal de tv abc1. são vinhetas da série cômica the elegant gentleman’s guide to knife fighting. não é só no brasil que a zuera não tem limites.

terça-feira, 28 de maio de 2013

"black is not a color; it's an attitude"

blank on blank é uma série de documentários curtos, quase todos em animação, a partir de entrevistas perdidas. simplesmente uma puta ideia genial que conheci através do tumblr da npr music. o video mais recente é uma conversa com james brown, em 1984, na qual "o poderoso chefão do soul" fala de raça, de como o pai pagou para ser ignorante, de estilo e religião, e ainda elogia ronald reagan. saca só.



e a série, que tem cerca de um ano de vida, trouxe ainda muhammad ali, beastie boys, dave brubeck, david foster wallace, jim morrison, bono, kelly slater, larry king e wilt chamberlain.

domingo, 31 de março de 2013

tudo que avoa

um mês atrás o estúdio carioca 18bis subiu em seu canal no vimeo o curta "the me bird", uma animação livremente inspirada no poema "el pássaro yo", de pablo neruda (que, com mil demônios caro google, não consegui saber de que ano é ou de qual livro). o título em inglês foi tática pra chamar atenção de clientes gringos e deu certo porque o vídeo ganhou um selo de qualidade do vimeo ("staff pick") e foi visto por uma cacetada de pessoas. trabalho bonito, muito bem feito, mas realmente "livremente inspirado" no poema do chileno. saca só.

The Me Bird from 18bis on Vimeo

e agora o poema. confesso que peguei uma tradução anônima da internet e dei uns tapinhas (tem original aqui, achei que ficou honesta). também não consegui saber em qual livro saiu aqui, o tradutor, etc.


o pássaro eu

chamo-me pássaro pablo,
ave de uma pena só,
voador na escuridão clara
e claridade confusa,
minhas asas não são vistas,
os ouvidos me retumbam
quando passo entre as árvores
ou por debaixo das tumbas
qual funesto guarda-chuva
ou como espada desnuda,
estirado como um arco
ou redondo como uma uva,
voo e voo sem saber,
ferido na noite escura,
aqueles que vão me esperar,
os que não querem meu canto,
os que me querem ver morto,
os que não sabem que chego
e não virão para vencer-me,
a sangrar-me, a retorcer-me
ou beijar minha roupa rota
pelo sibilante vento.
por isso volto e me vou,
voo mas não voo, mas canto:
sou o pássaro furioso
da tempestade tranquila. 

então é isso, "the me bird" é mesmo livremente inspirado em "o pássaro eu"/"el pássaro yo", o que não tira a beleza do trabalho (making of). mas o original de neruda tem uma força, uma segurança, um orgulho, que fiquei procurando um jeito de colocá-lo aqui na língua que foi criada, de preferência em áudio. mas achei esse vídeo delicioso de um garoto igualmente chileno declamando (e interpretando) o poema do grande neruda em um evento na escola.



p.s.: depois achei um áudio do próprio neruda declamando "el pássaro yo", mas não consegui incorporar aqui, nem baixar, então o menino contreras ficou com as honras. e fez bonito.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

e o nanquim semeou a terra

conheci cuttlas nas páginas da revista animal, nos anos 1980, e nunca mais tinha ouvido falar desse caubói malandro criado com poucos traços pelo espanhol calpurnio até que, no final do ano passado, foi lançado aqui no brasil o livro-compilação o bom e velho cuttlas (zarabatana books, 2012). bom humor, crítica, ótimos personagens, deboche, metalinguagen, enfim, leitura das mais divertidas. foi aí que descobri que calpurnio continuava produzindo novo material para cuttlas - desde 2004 está na versão impressa e digital do diário 20 minutos - e que o personagem completa 30 anos de vida nesse 2013. descobri ainda que entre 1992 e 1994 foi produzida uma série animada (cuttlas microfilms) em 13 episódios com o personagem e achei um deles no youtube. 





p.s.: poucos dias antes de adquirir esse livro do cuttlas comprei uma camiseta na el cabritón, aqui em são paulo, onde se lê "caffeine & cigarette. what else?". qual não foi meu espanto quando vi, tanto no livro quanto neste video acima, que uma das falas famosas de cuttlas é algo como "tenho café e cigarros. o que mais necessita um homem?". pois então, caro pistoleiro...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

brincadeira de criança

taí uma dessas belezas que só poderia acontecer por causa da internet, do digital e do amor (não necessariamente nessa ordem). refilmaram todo toy story (1995) em live-action, stop-motion, enfim, do jeito que deu. pra ir vendo aos pouquinhos, curtindo cada segundo dessa louca homenagem ao cinema e a infância.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

dança soldado cabeça de papel

não tem nem muito o que falar sobre esse vídeo. o negócio é deixar rolar. já volto.

Choreography for Plastic Army Men from David Fain on Vimeo

foda. sensacional. a coreografia, a iluminação/direção de arte, o timing, a animação, todas as escolhas. cortesia stop-motion de david fain, profissional experiente que já trabalhou em séries animadas como bob esponja e the ricky gervais show. segundo sua página no vimeo, o curta choreography for plastic army men foi lançado quase um ano atrás.

e tem essa música ótima, tão familiar que me pareceu cover de alguma mistura latina de duke ellington e herbie hancock, mas é do pink martini. o nome também me soou familiar, mas certamente passei batido por eles. é um grupo de portland, oregon, liderado pelo pianista thomas lauderdale desde sua criação em meados dos anos 1990. essa música se chama “ohayoo ohio”, é do guitarrista dan faehnle, e saiu no quarto disco do pink martini, splendor in the grass (heinz records, 2009). curioso que o grupo organizou no início de 2010 um concurso de clipes para as músicas do disco e uma versão de “ohayoo ohio” pegou o quarto lugar. não chega nem próximo dos pés ágeis desses soldadinhos. e por último, vi esse video no fuck yeah dementia que pegou do tumblr anima movies.

terça-feira, 20 de março de 2012

o gato, o rato e a ultraviolência

e não é que algum maluco abençoado com disposição e tempo livre compilou todas as aparições da dupla comichão & coçadinha n'os simpsons desde o final da década de 1980?! deu pouco mais de 48 minutos, mas é recomendável ser consumido em doses homeopáticas, afinal ultraviolência, mesmo animada, tem limite.





rever essa selvageria toda me fez lembrar do italiano massimo mattioli e seu squeak the mouse, uma mistura da boa e velha história de gato e rato com pitadas de humor nonsense, sexo explícito e violência à la sexta-feira 13. foi mais um daqueles achados da revista animal (foi capa da número 6).


o curioso é que numa busca por coisas relacionadas a squeak the mouse achei uma animação feita aqui no brasil, como trabalho de fim de curso. não é boa, mas é interessante (e tem uma citações bacanas a marcatti e mzk lá pelo final do curta).



SQUEAK THE MOUSE from MAZZA on Vimeo


pois é, assim caminha a humanidade desde os tempos de tom & jerry. ah, vi no trabalho sujo que viu no roteador.

domingo, 4 de março de 2012

buster e os livros

não vi os outros concorrentes de melhor curta de animação na última edição do oscar, mas o vencedor, the fantastic flying books of mr. morris lessmore, já me ganhou quando colocou buster keaton como referência do personagem principal. de resto, o curta é muito delicado, mesmo quando ocasionalmente sentimental demais. saca só.



morris lessmore também virou um aplicativo para iPad. não tenho essas coisas, mas pelo trailer pareceu bem interessante, colaborativo e coisa e tal. ah, a direção do curta é de william joyce em parceria com brandon oldenburg. experiente ilustrador e autor de livros infantis, joyce foi também co-produtor e designer de produção de robôs (2005), co-produtor e autor do livro que se baseou a animação a família do futuro (2007) e roteirista, co-produtor e autor do livro rise of the guardians (2012), que estreará no final do ano com vozes de hugh jackman, alec baldwin e jude law. 

pra quem não sabe ou não lembra, a cena inicial do curta - a do furacão, que é o katrina, afinal o filme é nativo do estado de louisiana - é homenagem direta à sequência clássica de buster contra um furacão e uma cidade se desfazendo em steamboat bill jr. (1928). e claro que tem também o mágico de oz (1939) nesse início de história.

p.s.: curioso que vi o curta poucos dias depois de voltar a ser buster keaton na foto do meu perfil no facebook. um salve então para buster e as coincidências.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

vida é luta

e também é correria como nessa animação curta la dama y la muerte (2009), do espanhol javier recio gracia.





antonio banderas é um dos produtores.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

macro stop-motion

em setembro do ano passado, no post "micro stop-motion", coloquei uma ótima e curta animação produzida pela aardman e que se autointitulava "a menor animação stop-motion do mundo" (e que, ainda por cima, foi feita com um celular nokia). meses depois a produtora inglesa e a empresa finlandesa de celulares voltam com "gulp", "a maior animação stop-motion do mundo", feita em uma praia nos arredores de bristol. saca só a animação...



e aqui o making of.


terça-feira, 24 de maio de 2011

naif é o caralho!

temos os mestres laerte, pai e mãe de tudo e todas, e angeli. temos também o jovem trio andré dahmer, rafael sica e arnaldo branco, bacharéis no quesito tiras e humor ácido (e claro que tem mais gente do que os citados). agora é a vez de um novo desenhista entrar nesse seleto time de quadrinistas afiados: bruno maron e seu dinâmica de bruto (com raphael gancz colaborando nos textos). não trabalhamos com delicadezas, por favor. ah, clique na imagem para ampliar.

ah, e olha aqui uma animação assinada por bruno . praxedes, um espermatozóide foi seu trabalho de fim de curso na puc-rio em 2006/07 e acabou ganhando alguns prêmios em festivais.

conheci o trabalho de @brunomaron via trabalho sujo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

uma breve história do cordel

ano passado, o pessoal da voetrip me pediu um texto sobre a história da literatura de cordel, mas acabou não sendo publicada (ainda, acho, me perdi dessa história) porque tiveram problemas para ilustrar a matéria. não acharam imagens legais o bastante ou coisa assim. paciência. na internet esse problema é facilmente contornável.

UMA PELEJA SEM FIM

A história da literatura de cordel é antiga, longa e cheia de personagens. Também é repleta de reviravoltas, duelos e lacunas. Sabe-se que o hábito de registrar histórias orais em folhetos, expostos em varais nas feiras populares, veio junto com os colonizadores portugueses por volta do século 17. Foi só chegar ao porto de Salvador para essa arte se espalhar rapidamente pelo Nordeste brasileiro, terreno fértil para contações de histórias. No entanto, por causa da falta de documentação e de reconhecimento dos eruditos de nossa língua, existe um vazio muito grande sobre essa alvorada da literatura de cordel no país, mas é certo que os primeiros nomes a ficarem conhecidos surgiram somente na segunda metade do século 19.

A razão está na chegada de máquinas de tipografia/impressão mais acessíveis, o que, consequentemente, fez com que os folhetos se espalhassem em maior quantidade e velocidade (bom lembrar que o Brasil foi o último país das Américas a ter uma imprensa própria). Como se vê, a democratização da tecnologia foi tão favorável ao surgimento da literatura de cordel como a conhecemos quanto ao seu renascimento no início do século 21 através da internet. Entre uma ponta e outra dessa saga, muitas brigas de faca, deboches, trava-línguas, mensagens educativas, Deus e o Diabo nas terras do Sol.
De Recife para o mundo

Justiça seja feita. Se, no final do século 19 e início do século 20, Recife foi a cidade responsável por milhares de folhetos soltos pelos ventos e veredas do semi-árido nordestino, foram dois paraibanos os responsáveis por sua produção. Primeiro, Leandro Gomes de Barros (1865-1918), que não só escreveu muitos cordéis como editou outros tantos e criou uma importante rede de agentes distribuidores de sua sofisticada poesia popular. Depois veio João Martins de Athayde (1880-1959) que comprou o projeto editorial de Leandro, à deriva após sua morte precoce, e o ampliou ainda mais, só que privilegiando folhetos de humor e pelejas. A partir do sucesso dessas duas empreitadas em Recife, outras pólos surgiram, tais como Juazeiro do Norte (CE), João Pessoa (PB), Caruaru (PE) e Belém (PA).

Foi nesse período que se consolidou a forma literária mais conhecida do cordel, a sextilha, modalidade com o segundo, o quarto e o sexto versos rimando entre si, deixando o primeiro, terceiro e quinto sem rimas. Um exemplo clássico da sextilha pode ser lido nessa estrofe: “Meu avô tinha um ditado / meu pai dizia também: / não tenho medo do homem / nem do ronco que ele tem / um besouro também ronca / vou olhar não é ninguém”. Um mundo novo se abre quando o cordelista descobre que a sextilha pode ser escrita de cinco modos diferentes, isso sem falar em variações na métrica e em outros estilos de cordel com cinco, sete ou dez versos por estrofe. Prova irrefutável de que é preciso saber muito, principalmente em termos de repertório e vocabulário, para entrar na brincadeira.

Falando em brincadeira, as xilogravuras só passaram a ilustrar as capas dos cordéis a partir da década de 1950 como uma alternativa ao poeta mais pobre, que não podia pagar um desenhista, para ilustrar seu folheto. Com desenhos rudimentares e sintéticos talhados em matrizes de madeira, as xilogravuras logo se tornaram item obrigatório e essa combinação caiu ainda mais no gosto popular. Já o termo “literatura de cordel”, fruto do reconhecimento dos folhetos pela academia, só veio surgir na década de 1960.

Nesse período, anos 1950 e 60, o cordel atingiu seu ápice de reconhecimento se espalhando para além no Nordeste de acordo com as ondas migratórias. Escritores chegavam a vender 10 mil exemplares de uma edição em um único ano, sendo que J. Borges chegou a surpreendentes 100 mil exemplares com seu “A chegada da prostituta no céu”. Durante toda essa longa e altamente produtiva primeira fase do cordel vieram ao mundo clássicos como “A chegada de Lampião no Inferno” (José Pacheco), “Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum” (Firmino Teixeira do Amaral), “O homem da vaca e o poder da fortuna” (Francisco Sales Arêda), “Proezas de João Grilo” (João Ferreira de Lima), “Romance do Pavão Mysteriozo” (João Melchíades Ferreira) e “A greve dos bichos” (Zé Vicente). A boa onda acabou por arrebentar a partir da década de 1970 até virar uma marola preocupantemente inofensiva nos anos 90. Alguns mais afoitos chegaram a pedir pela extrema-unção do cordel, mas o futuro digital tinha uma ou duas surpresas guardadas na manga.


A chegada da prostituta no céu from Marcos Tenorio on Vimeo
Computadores fazem arte

“O cordel continua sobrevivendo. O auge foi no século passado, mas depois foi morrendo e na década de 1990 chegou à beira da cova. Agora começou a voltar. Hoje tá muito animado”, explicou o septuagenário J. Borges, um dos mais ativos cordelistas e xilogravuristas da atualidade, em entrevista a este repórter em 2006. A razão dessa volta animada ao cordel se deve, segundo ele, “ao movimento estudantil. Recebo muita visita de colégio e faculdade. As professoras compram também, além de turistas, pesquisadores e colecionadores. Hoje se vende no Brasil todo e antes era só no Nordeste.” Associações culturais, como a Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), também foram abertas nos mais variados estados, desde o fundamental Pernambuco até os centrais São Paulo e Rio de Janeiro, passando por Piauí, Rio Grande do Norte e Ceará.

Essa nova geração, utilizando as ferramentas da rede mundial de computadores, passou a criar pelejas virtuais que tanto são deixadas disponíveis para os internautas, com direito a todo seu processo de criação em aberto, quanto ganham versão impressa. O projeto Corda Virtual, idealizado pelo site Interpoética, é um ótimo exemplo de como acontecem e se desenvolvem estas pelejas virtuais. Para jovens cordelistas com os cearenses Klévisson Viana e Moreira de Acopiara, o uso do computador não diminui em nada a qualidade da arte. É só mais um recurso. “O que descaracteriza o cordel é escrever errado e não obedecer às regras da métrica, rima e oração”, explicou Viana em entrevista ao site A Nova Democracia. Para provar que a literatura de cordel segue como uma eficaz e bem humorada crônica da atualidade esta nova geração cria, no calor da hora, folhetos como “A famigerada ‘dança’ do Créu” (Waldeck de Garanhuns) e “A chegada de Michael Jackson no Portão Celestial” (João Gomes de Sá e Klévisson Viana).

Para encerrar o assunto, pelo menos por hora, J. Borges fala desse ofício da seguinte forma: “Pra fazer um cordel bom é preciso ter um conhecimento da situação da área onde o cordelista vive. Tem que saber assuntos de amor, de religião, de política e de gracejo. Nas palestras que faço gosto de falar que sou o único que vive de mentira. Sou o maior mentiroso. Porque se falar a verdade morro de fome, e a mentira o povo compra a vida toda. Mas tem que ser uma mentira que se pode acreditar, não pode exagerar muito. Enfim, é um mistério.” E mistérios assim duram para a vida toda.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

sem tempo para sonhar? jura?

fazia tempo que não rolava um triplo x, mas uma sequência de clipes obrigou um post novinho em folha. e a sequência começa com o soulzaço lamentoso e funkeado de charles bradley, que acabou de estrear, mesmo não sendo um novato, no excelente disco no time for dreaming (daptone records, 2011). a música é "the world (is going up in flames)" e tem participação luxuosa da menahan street band.



do soul ao rap com o clipe-animação de "breakin' dawn", do brother ali, mas de uma música que é de seu disco de 2009 (o ótimo us).



e pra finalizar, o rock cheio de camadas do arcade fire e o clipe da faixa que dá nome ao disco mais recente dos canadenses, the suburbs (merge/mercury, 2010), um dos mais recorrentes nas listas de melhores do ano passado. a direção é de spike jonze.


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

um pássaro azul dentro de mim

bela animação baseada em poema de charles bukowski e feita por monika umba em 2009. via @HominisCanidaee.



aqui o poema.

"the bluebird"
(do livro the last night of the earth poems, 1996)

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but i’m too tough for him,
i say, stay in there, i’m not going
to let anybody see
you.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but i pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but i’m too tough for him,
i say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but i’m too clever, i only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
i say, i know that you’re there,
so don’t be sad.

then i put him back,
but he’s still singing a little
in there, i haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but i don’t
weep, do
you?

e abaixo, o próprio bukowski recita "bluebird".

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

das profundezas...

... mais uma animação genial e recente do pessoal do PES.



e para quem ainda não teve o prazer de conhecê-los segue abaixo dois clássicos do portfolio desses americanos. tem muito mais no canal dos caras no youtube.





e um feliz 2011 pra tutto il mondo.

sábado, 11 de dezembro de 2010

quino, um pai como outro qualquer

e segue aqui o perfil que fiz do quino, também conhecido como pai da mafalda, para a revista voetrip de novembro. foi uma delícia pesquisar sobre o argentino, reler alguns de seus trabalhos (principalmente a mafalda, sempre tão atual) e acabei achando muita coisa pela internet, inclusive as tais animações feitas em cuba e que coloquei no post "o mundo segundo quino".

O PAI DA MATÉRIA

Um rio grande nos separa. A língua também, um pouco. E, claro, o futebol. Visto assim pode não parecer muito, mas durante boa parte do século 20 estes foram motivos suficientes para estabelecer um abismo cultural entre Brasil e Argentina. Por sorte, ou pelo bom e velho “espírito do tempo”, uma menininha furou esse cerco com seu gênio contestador e algumas tiradas de deixar adultos sem ter para onde fugir. Mas Mafalda nunca existiu de verdade, pelo menos não em carne e osso, e o responsável por sua verve é agora um senhor de 78 anos: Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido pelo apelido de Quino, provavelmente o maior e mais conhecido desenhista argentino (ou humorista gráfico, como prefere) de todos os tempos.

Filho de imigrantes espanhóis da Andaluzia radicados em Mendoza, Joaquín é chamado de Quino pela família desde os três anos de idade como uma forma de se diferenciar de um tio de mesmo nome e, não coincidentemente, ilustrador e pintor relativamente famoso na época. Foi esse parente (Joaquín Tejón) que o fez tomar gosto pelo desenho até o ponto de adquirir coragem para ingressar na Escola de Belas Artes de sua cidade. Frustrado com o academicismo das disciplinas, que o obrigavam a reproduzir modelos, estátuas, jarros e animais dissecados, Quino abandonou a escola após dois anos. Queria mesmo era publicar suas historietas (quadrinhos), mostrar seu traço, em revistas e jornais da capital. Algo precisava ser feito e tudo apontava para uma mudança de mala e cuia para Buenos Aires, o que acabou acontecendo em 1954.

Não demorou muito para Quino, em seu novo endereço, conseguir os primeiros trabalhos em jornais, revistas e até em publicidade. O mercado editorial argentino sempre foi muito efervescente desde seu início no final do século 19, tanto em termos de produção quanto de público, e as artes gráficas (tirinhas, ilustrações, cartuns e histórias em quadrinhos) umas das principais demandas. Para coroar uma década de privações, descobertas, reconhecimento e algum sucesso, Quino se casou, em 1960, com Alicia Colombo, com quem vive até hoje. A lua de mel foi no Rio de Janeiro e marcou a primeira viagem internacional do casal, bem como o primeiro contato de Quino com editores e colegas de profissão estrangeiros (entre eles, um jovem Ziraldo).

Os anos 1960 foram um período de grandes transformações para Quino. O trabalho incessante em jornais e revistas ganhou companheiros à altura, tais como exposições e os primeiros livros. Com todo esse material disponível foi possível notar com clareza o tamanho do talento e da modernidade de Quino, seu sofisticado traço simples, o rebuscamento gráfico, uma aguçada observação do cotidiano e o humanismo de suas caracterizações. Foi também nessa década, precisamente em 1963, que o artista moldou a criatura que lhe deu fama mundial. E a luz se fez sobre Mafalda, que nasceu como uma encomenda para divulgar o lançamento de uma linha de produtos eletrodomésticos (Mansfield). A campanha acabou não acontecendo, mas um ano depois, Mafalda e seus pais, além de outros personagens como Felipe, Manolito e Susanita, ganharam tirinhas regulares. O sucesso foi imediato. Aquela coisinha de cabelos negros falava o que todos queriam falar sobre esse mundo difícil e divertido.
A fama da menina de língua afiada que odeia sopa, ama os Beatles e quer ser tradutora da ONU, espalhou-se por livros de coletâneas com suas tirinhas até chegar a Itália em 1968, que valeu a Quino sua primeira viagem a Europa. Na apresentação, o renomado escritor Umberto Eco classificou a menina de 8 anos como “uma heroína zangada que recusa o mundo tal como ele é”. E lá se foi Mafalda ganhando o mundo, falando em espanhol, português, francês, alemão e o que mais aparecesse.

Mas em 1973, e para surpresa mundial, a produção de tirinhas é interrompida (foram, ao total, 1928). Numa entrevista em 1996 para o jornalista Ariel Palácios, correspondente do Estado de S. Paulo na Argentina, Quino se justificou pela enésima vez: “Comecei Mafalda em 1963 e terminei em 1973. Estava muito cansado. Achei mais honesto parar. Não repetir-me era um esforço tão grande que não valia a pena. Para mim era uma historinha que entregava e publicavam. Nunca achei que 23 anos depois viraria o que virou, com sucessivas reedições”. A menina chegou ao Brasil pela primeira vez em 1973 através da revista Patota, mas os primeiros livros só foram lançados na década seguinte e atualmente estão no catálogo da Editora Martins Fontes, como é caso do recente
10 Anos com Mafalda.

Mesmo com o espírito mais leve para poder se dedicar a outros projetos, Quino sentiu que o clima na Argentina estava pesando. Mudou-se para Milão em 1976, mesmo ano do golpe militar que jogou os argentinos em um das mais violentas ditaduras da América Latina e que durou até 1983. Em mais de uma vez Quino declarou que se Mafalda fosse real certamente seria uma das “desaparecidas do regime”, o que de fato aconteceu com as quatro filhas do amigo e célebre escritor de quadrinhos Héctor Gérman Oesterheld, igualmente “desaparecido”.

Discreto, Quino se dividiu entre Europa e Argentina, ganhando prêmios e honrarias, sempre trabalhando e sendo muito reeditado e traduzido. Surgiram livros como
Quanta Bondade, Quinoterapia, Humanos Nascemos e Potentes, Prepotentes e Impotentes. Seus desenhos também ganharam movimentos numa série de curtas feitos em Cuba em 1984, mas isso é assunto meio espinhoso, pois não é chegado em adaptações de uma mídia para outra. Enquanto isso, Mafalda foi se tornando um ícone pop em seu país natal, com direito a praça e estátua no bairro portenho de San Telmo. A menina ainda reapareceu aqui e ali, sempre em campanhas institucionais como na Declaração dos Direitos da Criança, encomendada pela UNICEF em 1977.

No entanto, o artista que desenhou e falou com tanto humor sobre temas como desigualdade social, morte, repressão, burocracia, tabus sexuais, tantas facetas da contradição humana, também deu sua contribuição para essa complexidade. Quando lhe perguntam se Mafalda, sua filha de papel, serviu como substituta de filhos reais, Quino apenas responde, sem cerimônia alguma: “Não, Mafalda é um desenho como outro qualquer”.

atualização em 5 de novembro de 2011: apareceu a íntegra do longa de animação mafalda, o filme (1979), de carlos d. marquez. também dá pra baixar no blog filmes políticos. fiquei sabendo via trabalho sujo.


Mafalda - 1979 from Faces da Liberdade on Vimeo

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

perdidos em um cosmos sem sentido

muito cansado da discussão política ter virado um bate-boca vazio sobre aborto e bolinhas de papel? tá acabando e o brasil vai seguir mudando, podiscrê. por enquanto, pensemos nos mistérios do cosmos a partir do video de "bombay", música nova do el guincho, projeto do espanhol pablo díaz-reixa, e que está no ótimo pop negro (young turks, 2010). dá para ouvir o disco todo no soundcloud do selo.



podemos também pensar na relação homem X máquina e em eventuais descontroles de comando e gestão da porra toda. está tudo aí... nessa animação perturbadora que é o clipe de "kill your co-workers", música que está no ep pattern + grid world (warp records, 2010) do produtor americano steven ellison, mais conhecido como flying lotus. tão interessante quanto o clipe é o fato de que seu diretor, mike winkelmann (ou beeple), oferece em seu site o download gratuito dos personagens, cenários e tudo mais do clipe.



ou ainda é tempo de se perder? como em umbra, nova animação do canadense malcolm sutherland, que já esteve aqui no começo do ano.